terça-feira, 12 de março de 2019

Míriam Leitão: Ataque à imprensa e o autoritarismo

- O Globo

Há diversas formas de ameaçar a liberdade de imprensa. O governo Bolsonaro está estimulando ataques a jornalistas

Há várias formas de ameaçar a liberdade de imprensa. O governo Bolsonaro tenta um novo tipo, que é expor na rede os jornalistas como forma de tolher, ameaçar, intimidar pessoas que estão no exercício da profissão. Já fez isso várias vezes usando a rede de sites, perfis e bots que controla desde a campanha. Neste caso que atingiu uma repórter do “Estadão”, ele usou o cargo de presidente para divulgar uma mentira, e isso é um crime duplo porque a Presidência tem poderes que não podem ser usados com essa leviandade.

O presidente Jair Bolsonaro não gosta dos jornais e jornalistas que não lhe seguem cegamente e de forma acrítica. Acha que pode, através das redes sociais, substituir entrevistas por lives do Facebook, trocar os anúncios oficiais da Presidência por disparos no Twitter, e que ele e seus filhos podem promover falsos jornalistas e perseguir os profissionais dos quais eles não gostam. Não dará certo, como outras investidas autoritárias também fracassaram.

Eu escrevi em 2004 várias colunas criticando duramente as investidas contra a imprensa pelo governo Lula, em seu início. Elas estão publicadas no meu primeiro livro, “Convém Sonhar”. O então ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu propôs a criação de duas agências para controlar os jornalistas. Na exposição de motivos para o Congresso, argumentou que sua iniciativa se devia ao fato de não haver uma instituição capaz de “fiscalizar e punir as condutas inadequadas dos jornalistas”.

Merval Pereira: Julgamento decisivo

- O Globo

STJ vinha entendendo que, com conexão entre o crime federal e o eleitoral, processos seriam separados

O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) decide amanhã uma discórdia fundamental para o combate à corrupção no Brasil. Trata-se de decidir, num inquérito sobre o deputado federal Pedro Paulo, do MDB do Rio, se as suspeitas de caixa 2, corrupção e evasão de divisas em 2012, na campanha que elegeu Eduardo Paes prefeito do Rio de Janeiro, devem ser julgadas pela Justiça Eleitoral.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) vinha entendendo há tempos que, havendo conexão entre crime federal e crime eleitoral, os processos deveriam ser separados, ficando com a Justiça Eleitoral apenas o crime eleitoral. O crime de corrupção, por exemplo, continuaria com a Justiça Federal.

A Segunda Turma do STF, formada pelos ministros Ricardo Lewandowski, Celso de Mello, Gilmar Mendes, Cármen Lúcia e Edson Fachin, passou a decidir que tudo fica com a Justiça Eleitoral, o que, no entender dos procuradores de Curitiba e do próprio ministro Sergio Moro, prejudica o combate à corrupção, pois a Justiça Eleitoral não teria estrutura para julgar crimes complexos como, por exemplo, os descobertos na Lava-Jato.

Alegam que a Justiça Eleitoral não tem especialização nesse tipo de investigação; tem juízes e promotores que rodam a cada dois anos, mal daria para conhecer os processos complexos da Lava-Jato, fora a insegurança jurídica da mudança de juiz ou promotor; tem juízes que são advogados, não revestidos das mesmas garantias; tem de dar prioridade para feitos eleitorais por força de lei, especialmente em ano de eleições, o que poderia deixar casos de corrupção de lado.

Bernardo Mello Franco: O governo é refém de um lunático

- O Globo

O autodeclarado filósofo Olavo de Carvalho indicou dois ministros e promoveu uma cruzada contra o vice-presidente. Agora quer liderar um expurgo nos quadros do governo

Antes que os bolsonaristas mais aguerridos peguem em armas, um esclarecimento. O lunático do título não é quem vocês estão pensando. Refiro-me a Olavo de Carvalho, o guru que faz a cabeça do presidente.

O autoproclamado filósofo emplacou dois pupilos como ministros: o das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e o da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez. As presepadas dos discípulos não saciaram o mestre. De seu escritório em Richmond, ele se dedica a semear intrigas e provocar novas crises em Brasília.

No fim de janeiro, Olavo se lançou numa cruzada contra o vice-presidente Hamilton Mourão. Chamou o general de “maluco”, “covarde”, “psicopata”, “charlatão desprezível” e “vergonha para as Forças Armadas”.

Como o vice não pode ser demitido, o ideólogo escolheu outros alvos. Na semana passada, o embaixador Paulo Roberto de Almeida o culpou por sua exoneração do Ipri, o instituto de pesquisas do Itamaraty. O diplomata havia chamado Olavo de “sofista” e “debiloide”.

Na sexta-feira, o guru da ultradireita surpreendeu ao pedir que seus alunos no governo, “umas poucas dezenas”, entregassem os cargos imediatamente. “O presente governo está repleto de inimigos do presidente e inimigos do povo, e andar em companhia desses pústulas só é bom para quem seja como eles”, dramatizou.

Ricardo Noblat: O capitão mente

- Blog do Noblat / Veja

Primeiro para se eleger. Agora para governar

Que Jair Messias Bolsonaro sempre foi irresponsável já se sabia. Basta ter acompanhado seus 33 anos como deputado federal – ou seu comportamento no ano passado como candidato a presidente.

Uma vez eleito, o que agora se sabe é que ele passou à condição de leviano. Quando nada porque comanda diretamente ou por meio dos filhos uma rede de sites de aluguel destinada a disseminar mentiras.

A última delas (a última, não, a mais recente) foi o ataque à honra da repórter Constança Rezende, do jornal O Estado de São Paulo. E, por tabela, à imagem do centenário jornal.

A fraude avalizada por Bolsonaro ruiu por completo com o reconhecimento do site francês Mediapart de que eram falsas as informações postadas por um leitor em um dos seus blogs.

O blog é aberto aos leitores do site que podem escrever o que quiser sem que o Mediapart se responsabilize pelo conteúdo. Ali, um tal de Jawad Rhalib escreveu o que Bolsonaro passou adiante.

Rhalib escreveu que Constança teria declarado em conversa gravada por um estudante que sua intenção era a de arruinar a vida do senador eleito Flávio Bolsonaro e provocar o impeachment do pai dele.

O texto de Rhalib, que se apresentou como “documentarista”, foi reproduzido pelo jornal sensacionalista de direita americano Washington Times, famoso por seu viés racista.

E finalmente aqui saiu em um blog de apoiadores de Bolsonaro que mais de uma vez já foi recomendado por ele e seus filhos. Foi o que bastou para que Bolsonaro o endossasse.

O texto no blog Terça Livre foi assinado pela jornalista Fernanda Salles Andrade. Que vem a ser… O quê mesmo? Assessora do deputado estadual mineiro Bruno Engler, do PSL de Bolsonaro.

Pego mentindo, Bolsonaro não passou recebido. Preferiu escrever no Twitter que o “ambiente acadêmico vem sendo massacrado pela ideologia de esquerda que divide para conquistar”.

E advertiu a quem interessar possa, e com a maior cara de pau: “Neste contexto a formação dos cidadãos é esquecida e prioriza-se a conquista dos militantes políticos”.

A formação “dos cidadãos” é posta em grave risco quando um candidato a presidente da República se vale de notícias falsas para se eleger – e uma vez eleito, para governar.

Lula está preso, seus babacas!

Como agem o capitão e seus devotos nas redes sociais
Tão logo o jornal Folha de S. Paulo, ontem à tarde, publicou em seu site que o coronel Dadio Pereira Campos havia sido nomeado para cuidar das redes sociais do governo, o presidente Bolsonaro correu a escrever no Twitter: “É fake!”.

Então o jornal informou que nomeação assinada pelo próprio Bolsonaro saíra em uma edição extra do Diário Oficial da União. O que fez o capitão outra vez flagrado mentindo? Socorreu-se do Twitter para decretar: “É fake do fake”.

Eliane Cantanhêde: O inimigo mora ao lado

- O Estado de S.Paulo

Se até o vice é ‘vermelho’, a intenção é criar inimigos para viver guerreando nas redes

A melhor frase de todos os dias carnavalescos e de todas essas inacreditáveis confusões que o governo cria contra ele mesmo partiu do cada vez mais bem-humorado vice Hamilton Mourão: “O Olavo de Carvalho agora acha que sou comunista. Paciência...”.

O poder dos “olavetes” vem exatamente daí, da criação de inimigos imaginários: comunistas, esquerdopatas, vermelhos, petistas e lulistas. Quanto mais inimigos, mais eles justificam sua influência no governo de Jair Bolsonaro e mais atiçam suas tropas nas redes sociais.

Assim, somos todos vermelhos, o vice-presidente, os oito ministros militares, as TVs, os rádios, os jornais, as revistas e os jornalistas. Não conseguimos sequer entender o governo cutucando a China para agradar a Donald Trump e o chanceler Ernesto Araújo voltando no tempo para atacar a “China Maoista” que ameaça o Ocidente.

O mais incrível, porém, é como essa besteirada consome a energia e o tempo do presidente da República, tendo de arbitrar ora em favor de Olavo de Carvalho e seus seguidores, que vivem criando tumultos desnecessários e falsas crises, ora em favor de Mourão e os ministros militares, que não criam confusão e ainda têm de consertar o tempo todo as confusões geradas pelos “olavetes” e pelo próprio Bolsonaro.

Luiz Carlos Azedo: Para ir se acostumando

- Correio Braziliense

“O governo precisa desmobilizar suas tropas de assalto e tratar com mais competência da ocupação do poder”

Na boa teoria política, a democracia como “autogoverno do povo” não passa de um mito, mesmo nas revoluções clássicas (Revolução Inglesa, Revolução Francesa, Independência dos Estados Unidos e Revolução Russa). O protagonismo popular somente é absoluto no momento do voto, embora nunca antes a participação da sociedade no processo político tenha sido tão ampliada como agora, por causa das redes sociais. Ocorre que a internet também é um instrumento de manipulação da opinião pública e um terreno de disputa no mundo da comunicação, no qual a verdade muitas vezes é a primeira vítima, como no caso da tuitada de Bolsonaro contra a repórter Constança Rezende, do Estadão. Não vamos nem falar de robôs e fake news.

Quem governa — no sentido de tomar as decisões que se impõem a todos — é sempre uma minoria ou alguns grupos minoritários em concorrência entre si. As minorias organizadas e resolutas acabam controlando o poder e suas decisões. É por isso que o jurista italiano Norberto Bobbio recomendava o estudo de como essas “minorias emergem, governam e caem”. Segundo ele, as classes políticas se dividem entre as que “se impõem” e as que “se propõem”. O poder conferido a uma minoria dirigente nas eleições não é irrevogável, mas concedido sempre a título provisório. O perigo de deixar o poder subir à cabeça é perder essa perspectiva de transitoriedade, até porque mandatos são o recurso mais escasso de um governo, um tesouro cuja medida é o tempo, ou seja, que se esvai a cada dia.

Andrea Jubé: O paraquedista

- Valor Econômico

Reforma exige a visão estratégica do paraquedista

O esforço de compreensão dos gestos e ações do presidente Jair Bolsonaro, e do que se espera dele nos próximos meses de governo - a aprovação da reforma da Previdência, principalmente - nos remete ao seu passado militar: à imagem dos intrépidos soldados com os velames abertos, portando as cobiçadas botinas marrons, lançados de aviões a 1,2 mil pés de altura, a velocidades de 200 km/h, com mochilas de 50 quilos, repletas de mantimentos, remédios e fuzis ParaFAL.

"Tem uma mística muito grande porque é uma atividade de risco, nem todos completam o curso, o brevê é conquistado com sangue, suor e sofrimento", diz o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno. Paraquedista como Bolsonaro, Heleno tem 44 saltos no currículo: o último deles foi aos 60 anos. O episódio se deu em 2008, num encontro de saltadores na base militar americana de Fort Benning.

Bolsonaro tem apreço por essa formação. Mencionou-a no encontro com o presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, em Foz do Iguaçu: "Falamos da nossa formação de paraquedistas, fizemos a saudação". A saudação da brigada paraquedista do Exército, desde os anos 70, é "Brasil acima de tudo!" - o bordão de sua campanha eleitoral.

O general Heleno, conselheiro mais próximo do presidente, afirma que a vivência como paraquedista rendeu atributos políticos a Bolsonaro, como liderança, gestão de situações de risco, aptidão para tomar decisões rápidas. O presidente já deu declarações neste sentido. Em 2017, a um ano do pleito, foi questionado se trocaria o PSC pelo Patriotas. "Sei que ele [o partido] tem problemas. Se não solucionar, como sou paraquedista, já tenho outro em vista", afirmou após evento com empresários em Uberlândia (MG). Depois do Patriotas, quase veio o PRB. Mas ele acabou no PSL.

Luiz Gonzaga Belluzzo*: O Demônio Monetário

- Valor Econômico

O dinheiro é a forma mais autêntica e desesperada de preservação da propriedade

Homenagem crítica a André Lara Rezende.Da infância smithiana à maturidade caquética das expectativas racionais, os conflitos de concepção e de método assolam a trajetória intelectual da Economia Política. As querelas terminam, quase sempre, na reafirmação do quarteto naturalismo, individualismo, racionalismo e equilíbrio.

Na aurora da Idade Moderna, a expansão do comércio nos poros da ordem feudal, a ciência experimental de Bacon, o "cogito" de Descartes estimularam o projeto do controle da natureza e do destino humano pela razão. Desde então, disse Hegel, "o pensamento deve partir do pensamento mesmo".

Na ousada peregrinação pelos ásperos caminhos da libertação dos indivíduos do jugo da Ordem Revelada, vou saltar o incômodo Thomas Hobbes e me valer de John Locke.

Locke desafiou a visão da sociedade medieval hierárquica, orgânica e aristocrática amparada no direito divino. Os homens são iguais: as relações entre eles e as coisas são relações de apropriação justificadas pelo trabalho, a ação racional do homem na transformação da natureza. O trabalho justifica o direito de apropriação dos bens e das fontes de riqueza. A propriedade é o fundamento da liberdade.

Na Teoria dos Sentimentos Morais, Adam Smith dispõe-se a "provar que,... é através da razão que descobrimos as regras gerais de justiça que regulam nossas ações". Na Riquezas das Nações, esse caráter natural e "espontâneo" do indivíduo é transportado para o intercâmbio de mercadorias regulado pelo valor-trabalho.

Nesse mundo habitado por indivíduos racionais, proprietários de mercadorias e dos fatores de produção, a moeda só é necessária formalmente como moeda de conta. A moeda é "neutra" e determina o nível geral de preços sem qualquer efeito de longo prazo sobre a economia.

David Hume assumiu a completa naturalidade do sistema monetário apoiado na base metálica. Essa base natural garantia as regras de ajustamento automático entre a moeda, as flutuações de preços internacionais que determinavam a entrada e saída de ouro do país, o Price-Specie-Flow Mechanism. Adam Smith investigou as relações entre o ouro, base natural e internacional da circulação monetária, e a emissão de papel-moeda "nacional" pelos bancos. Cauteloso, Smith recomendava restrições à liberdade para a operação dos bancos, "que podem colocar em perigo a segurança de toda a sociedade e, por isso, devem ser disciplinados pelas leis dos governos, desde os mais livres aos mais despóticos".

John Stuart Mill condenou a expansão da moeda bancária como "uma forma de roubo", se desrespeitadas as regras da conversibilidade. Esse "roubo" é o poder de emitir moeda para se apropriar de recursos reais.

Morto em 1823, David Ricardo inspirou o Banking Act de 1844 que criou os dois departamentos no Banco da Inglaterra: o departamento de emissão e o departamento de desconto de títulos e valores, ou seja, de crédito. O ato impôs regras de conversibilidade para a emissão de moeda bancária.

Na crise de 1857, devido a uma má colheita, a Inglaterra foi constrangida a recorrer à importação de alimentos e perdeu uma fração importante de suas reservas-ouro. No fragor da recessão, regra da conversibilidade impediu uma resposta à demanda crescente de meios de pagamento. A taxa de desconto foi elevada para conter a saída de reservas-ouro. Isso agravou a crise. A falência devastou os negócios de comerciantes e industriais. O Banco da Inglaterra decretou a inconversibilidade. Traquinagens do Demônio Monetário.

As decisões de produção envolvem inexoravelmente a antecipação de dinheiro agora para receber mais depois. A mobilização de recursos reais, bens de capital, terra e trabalhadores depende de adiantamento de liquidez e assunção de dívidas.

Pablo Ortellado*: Miragem conservadora produz 'gramscismo de direita'

- Folha de S. Paulo

Fantasma do 'marxismo cultural' autoriza aparelhamento, perseguições e doutrinação de direita

Bolsonaro resolveu retomar o papel de agitador das mídias sociais. Nos últimos dias criticou excessos no Carnaval, atacou jornalistas e acusou a universidade de fazer proselitismo político. A agitação faz parte de uma estratégia de mobilização permanente, que não deixa seus apoiadores pararem para refletir, submetendo-os a um fluxo constante de propaganda.

O que há de comum na estratégia contra a comunidade LGBT no Carnaval, os jornalistas que apuram corrupção no seu governo e os acadêmicos que lecionam na universidade é que, para o bolsonarismo, todos são extremistas em relação aos quais seu conservadorismo seria um centro sensato e equilibrado.

Há uma estratégia dupla de exorbitar e sobrerrepresentar o viés de adversário, enquanto minimiza ou simplesmente faz desaparecer o próprio viés.

O que para a liderança é estratégia má intencionada para gerar alvoroço e confusão, para a base se torna uma espécie de psicose coletiva na qual o consumo excessivo de propaganda faz com que as representações se descolem do real.

Luiz Weber: As bitcoins de Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Presidente parece investir seu capital político em seu público mais radical

Bolsonaro continua com o quepe de capitão. Fala para sua pequena tropa. No Exército, os capitães comandam companhias —entre 60 e 250 militares subalternos. Se progridem na carreira, passam a liderar mais gente. Dia desses, o presidente comemorou com um sinal de OK no Twitter a chegada a 3,4 milhões de seguidores.

No universo das celebridades digitais, esse estoque pode render almoço grátis em churrascaria ou ingresso para show sertanejo. Na política, no mundo real, os efeitos dessa popularidade são duvidosos. Dilma tem 6,1 milhões de seguidores e, fora uma ou outra curtida, vive no ostracismo.

Bolsonaro teve quase 58 milhões de votos, pessoas de carne e osso que enxergaram nele uma alternativa ao status quo anterior, mas ainda se comporta como líder de uma pequena companhia de quartel. Quando usa sua rede social, fala para um grupo muito restrito. Às vezes, pior: faz eco à desordem e ao sectarismo.

Nesta segunda-feira (11), Olavo de Carvalho, o ideólogo do clã Bolsonaro, a quem se atribuem várias nomeações para o governo, escreveu em sua conta pessoal no Twitter (seguida pelo presidente) linhas que são um clássico latino-americano: "Se o povo não sair às ruas para defender o seu voto, o resultado das eleições será facilmente invertido pela elite". Chamar o povo diante do primeiro revés político é coisa que está na página 1 do livro dos autocratas.

Hélio Schwartsman: Anistia esvaziada

- Folha de S. Paulo

É importante que tiranos que torturam e assassinam respondam por seus crimes

Não há futuro para o regime bolivariano na Venezuela. Mesmo que Nicolás Maduro consiga a façanha de agarrar-se ao poder, as condições econômicas do país vão continuar a deteriorar-se, como se vê pelos apagões e pela falta de gasolina. Mais cedo ou mais tarde, virá a derrocada final do chavismo. Os militares venezuelanos sabem disso. Por que, então, ainda não desertaram para a banda do líder oposicionista Juan Guaidó?

Cynthia Arnson, diretora do programa de América Latina do Wilson Center, ouvida numa reportagem de Sylvia Colombo, levantou uma hipótese interessante. Além de a cúpula militar faturar bastante apoiando Maduro, tanto em negócios lícitos como ilícitos, a anistia oferecida pela oposição não é das mais críveis.

Já se foram os tempos em que tiranos depostos e seus principais colaboradores podiam gozar de aposentadorias tranquilas, como foi o caso do paraguaio Alfredo Stroessner e do haitiano Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc.

Joel Pinheiro da Fonseca*: A Terra não é plana, mas...

- Folha de S. Paulo

A energia dos terraplanistas não está no debate científico, mas na política

O documentário "A Terra é Plana" ("Behind the Curve", Daniel J. Clark, 2018), disponível no Netflix, não apenas sacia nossa curiosidade mórbida por um movimento de crenças bizarras (no caso, de que nosso planeta não é uma esfera e sim um disco). Ele nos mostra a dimensão política da crença humana e o quão pouco somos guiados pela razão.

No Brasil, ainda podemos considerar a esfericidade da Terra como uma verdade óbvia. Podemos buscar entender os terraplanistas, portanto, sem levar a sério o mérito de suas teses. Se eles crescem e se organizam, não é pela racionalidade dos argumentos. A explicação tem que estar em algum outro mecanismo psicológico, que guardará lições sobre muitos outros movimentos.

Primeiro ponto notável: as redes sociais foram condição necessáriapara o terraplanismo florescer. Nelas, pessoas comuns podem gerar seu conteúdo e chegar a milhões de outras sem passar por nenhum crivo da ciência institucional. Comunidades se formam e se retroalimentam, fortalecendo o sentido de uma causa comum e convertendo pessoas que, não fosse pelas redes, jamais questionariam o formato da Terra.

Segundo ponto: os terraplanistas falam a língua do homem comum, enquanto a linguagem dos cientistas lhe é inacessível. "Science just throws math at us", diz um dos expoentes do movimento, contando vantagem. E ele está certo. Alguns dos cientistas ouvidos pelo documentário, por sua vez, lutam para não transparecer o óbvio desprezo que sentem pelo terraplanismo; o que só fortalece nos membros o sentimento de que o sistema os persegue.

A missão do ‘Estado’: Editorial / O Estado de S. Paulo

Os jornalistas do Estado se pautam pelo compromisso inarredável com os valores democráticos e com o regime da lei, que estão na essência da identidade do jornal desde sua fundação, em 1875. A defesa da liberdade contra todo tipo de tirania, a começar por aquelas que se creem chanceladas pelas urnas, marca a atuação desta publicação e de seus profissionais ao longo de 144 anos de história.

Esse compromisso se encontra mais vivo do que nunca, em especial diante de ameaças que partem do próprio presidente da República, o sr. Jair Bolsonaro. Esses arreganhos só fazem confirmar a relevância do exercício do jornalismo livre, que tem no Estado um centenário patrono.

Este jornal se comprometeu, desde seu primeiro número, a ser totalmente apartidário e independente, infenso às injunções do poder. A imparcialidade necessária para o exercício dessa liberdade não significa, contudo, que o jornal silencie ou deixe de defender o que acredita ser o certo diante do malfeito e do arbítrio. É papel desta publicação funcionar como a consciência crítica de seu tempo.

Foi com esse espírito que o Estado defendeu o fim da escravidão e o advento da República, que consagra a liberdade - e a responsabilidade - do indivíduo. Essa é a razão pela qual este jornal se tornou atuante tribuna dos defensores da democracia, quando esta palavra expressava apenas um desejo da sociedade. É assim há tanto tempo que tal característica se tornou a própria natureza do Estado perante seus leitores e a sociedade.

Avanço do investimento e da poupança está longe do ideal: Editorial / Valor Econômico

Os dados das contas nacionais de 2018 trouxeram algumas melhoras. Depois de quatro anos em queda, a taxa de investimentos subiu, sustentada por um aumento da poupança. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) cresceu 4,1%, passando de 15% para 15,8% do Produto Interno Bruto (PIB) entre 2017 e 2018, e a poupança passou de 14,3% para 14,5% do PIB no mesmo espaço de tempo. Mas, esses números embutem artificialidades contábeis e estão longe do desejável para assegurar um crescimento sustentável da economia.

Foi o segundo ano consecutivo de expansão da poupança depois de ter despencado para 13,4% do PIB em 2016, o menor nível da série iniciada em 2000. Apesar do aumento, a taxa está distante dos 19,3% do PIB de 2007. Em comparação com outros países do grupo dos Brics, o Brasil está mal colocado. A poupança atingiu 45% do PIB na China, 28,5% na Índia e 27% na Rússia. Até nossos vizinhos exibem taxas superiores, com 20,5% no Chile, 19% na Colômbia e 21% no México.

A redução dos gastos das empresas e do setor público com os juros sustentou o ligeiro aumento da poupança, avaliou o coordenador de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, Armando Castelar (Valor 6/3). O déficit nominal, que inclui os gastos com juros, diminuiu 0,7% do PIB no ano passado, passando de 7,8% para 7,1% do PIB. As empresas se beneficiaram pelo mesmo motivo. Já as famílias tiveram ganhos menores em suas aplicações, além de terem consumido mais, e pouco pouparam. O consumo das famílias cresceu 1,9% em 2018, depois do aumento de 1,4% em 2017.

Guedes se corrige e dá verdadeiro peso ao ‘Plano B’: Editorial / O Globo

Proposta de desindexação e desvinculação é parte do ajuste, ao lado da reforma da Previdência

O ministro da Economia, Paulo Guedes, ao tomar posse no cargo, anunciou um “Plano B” para caso de o “A”, a reforma da Previdência, não ser aprovado com um mínimo de consistência necessária para reverter o percurso do Estado brasileiro rumo à insolvência.

O tal plano alternativo tem lógica, mas o tom do ministro, de ameaça ao Congresso, governadores e prefeitos, foi inadequado, um erro. Guedes adotara o mesmo estilo à beira da arrogância quando, pouco antes da posse, defendeu uma “prensa” no Legislativo, para ele carimbar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) das mudanças previdenciárias. Não é assim que as coisas funcionam, e o ministro parece ter entendido depois.

O “Plano B”, na verdade, é parte intrínseca do ajuste fiscal de que o país precisa, e isso afinal ficou claro na entrevista concedida por Paulo Guedes ao jornal “O Estado de S.Paulo”, publicada domingo. O ministro afastou da proposta qualquer sentido de chantagem como Congresso e a classe política em geral, chamando o projeto de “PEC do pacto federativo”.

A intenção é desindexar e desvincular o Orçamento, extensivos a estados e municípios, cuja crise fiscal, por peculiaridades —só a União pode emitir títulos de dívida, por exemplo —, se agrava numa velocidade superior à do governo federal.

Marcha a ré: Editorial / Folha de S. Paulo

Ao criar incentivos para a indústria automobilística, Doria repete receita custosa e pouco eficaz

Vai em má direção o governador João Doria (PSDB) ao lançar um bilionário pacote de incentivos para a indústria automobilística em São Paulo, o IncentivAuto.

O programa prevê descontos de até 25% no ICMS para empresas que investirem no mínimo R$ 1 bilhão, em fábricas novas ou existentes e no desenvolvimento de produtos, e gerarem pelo menos 400 empregos em São Paulo. A redução máxima do imposto valerá para aportes de R$ 10 bilhões ou mais.

Também está prevista a concessão de financiamento por meio de um fundo estadual, inclusive com a possibilidade de generosos descontos de até 25% no pagamento do saldo devedor, sob alguns critérios.

Numa curiosa transmutação doutrinária, o ex-ministro e hoje secretário da Fazenda paulista, Henrique Meirelles, argumentou que mais produção gerará mais arrecadação, o que permitirá o desconto de 25%. Ora, se tal façanha está ao alcance de um governo, por que não generalizar a prática?

Roberto Freire considera grave ataque de Bolsonaro contra a imprensa na rede social

- Portal do PPS

O presidente do PPS, Roberto Freire (SP), criticou, nesta segunda-feira (11), os ataques feitos pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, e aliados por meio de redes sociais contra o jornal “O Estado de S. Paulo” e outros veículos de comunicação. Para o dirigente, os órgãos de representação da imprensa deveriam tomar uma posição repudiando a postura do chefe do Executivo brasileiro.

“O presidente Bolsonaro tenta imitar [Donald] Trump usando o twitter como uma comunicação paraoficial e, nesse último episódio, querer agredir a imprensa. Agredir, inclusive, com ações que estão sendo contestadas como se fosse uma grande armação. Acho que os órgãos de representação dos jornalistas e da imprensa como um todo deveriam tomar uma posição”, cobrou.

Liberdade de imprensa
Freire destacou que o PPS sempre se posicionará pela liberdade de imprensa por ser fundamental a qualquer democracia. Ele lembrou que o partido foi contrário(veja aqui) a tentativa do governo Lula de expulsar o jornalista Larry Rohter , do “New York Times”, por publicar matéria critica ao lulopetismo.

“Essa nossa posição não é porque é o Bolsonaro. É na defesa da liberdade de imprensa, fundamental numa democracia. Da mesma forma que fizemos, com nota oficial, contra o absurdo que era a tentativa de Lula em expulsar alguém por não ter gostado de uma matéria critica”, lembrou.

“Mimetismo”
Roberto Freire afirmou que o País precisa estar atento aos seus interesses e criticou o “mimetismo” que Bolsonaro tem em relação ao presidente dos EUA, Donald Trump.

“O mimetismo que o presidente Bolsonaro tem em relação a Trump o leva, até mesmo por sua capacitação pessoal, a comentar vários despautérios. Os EUA é uma potência mundial e Trump pode enfrentar o que bem entender em termos de política externa. Até de forma descabida e absurda com intervenções militares. Mas o Brasil não. O Brasil tem que estar muito atento àquilo que é de seu interesse. Não pode imaginar que tem papel internacional no mesmo quilate dos EUA e demais potencias. Tem que entender o interesse nacional nesse mundo que aí está. Infelizmente isso não está existindo devido esse mimetismo”, afirmou.

Reação
O presidente do PPS disse que o País precisa reagir as situações causadas por Bolsonaro em comentários feitos em redes sociais e criticou novamente o confronto do presidente contra a imprensa brasileira.

“O País tem que reagir. Não pode aceitar isso. Tem um general da guarda pretoriana do presidente que diz que não pode deixar o Bolsonaro sozinho com seu twitter, porque a qualquer momento é surpreendido com coisas desse tipo. Mal saiu do epicentro de uma grande polêmica por conta do vídeo obsceno e pornográfico (veja aqui), que foi uma insensatez e um despautério completo, e já entra em outra com maior gravidade. Até porque é uma briga deliberada contra a imprensa. Uma busca deliberada de querer desmoralizar e confrontar a imprensa”, disse.

Nova polêmica
A nova polêmica surgiu após Jair Bolsonaro atacar, por meio do Twitter, o jornal “O Estado de S. Paulo” (veja aqui) e demais veículos de imprensa devido a uma notícia publicada por site conservador que teria acusado uma jornalista do periódico de ter a intenção de arruinar Flávio Bolsonaro e o governo. Segundo o jornal, a suposta declaração foi publicada fora do contexto e surgiu de uma entrevista da profissional para um estudante estrangeiro.

Ferreira Gullar: Arte poética

Não quero morrer não quero
apodrecer no poema
que o cadáver de minhas tardes
não venha feder em tua manhã feliz
e o lume
que tua boca acenda acaso das palavras
- ainda que nascido da morte -
some-se aos outros fogos do dia
aos barulhos da casa e da avenida
no presente veloz
Nada que se pareça
a pássaro empalhado, múmia
de flor
dentro do livro
e o que da noite volte
volte em chamas
ou em chaga
vertiginosamente como o jasmim
que num lampejo só
ilumina a cidade inteira

Casuarina - Rosa Morena

segunda-feira, 11 de março de 2019

Ricardo Noblat: Cargos em troca de votos

- Blog do Noblat / Veja

É dando que se recebe

Líderes de partidos começaram a ser avisados desde ontem que o presidente Jair Bolsonaro finalmente caiu na real e se dispõe a ceder cargos no segundo e demais escalões do governo para quem o apoiar dentro do Congresso.

Tudo pela aprovação da reforma da Previdência, e de outras coisitas mais. Haverá também generosa liberação de verbas previstas nas emendas dos parlamentares ao Orçamento da União. Foi para o brejo a história de um banco de talentos com nomes indicados por políticos.

Um governo carente de votos e de articulação política não poderá dar-se ao luxo de pedir apoio em troca de nada. É sua sobrevivência que está em jogo.

Bolsonaro, um presidente fake
Jair Messias Bolsonaro, como assina, está descobrindo que Bolsonaro, presidente do Brasil há menos de 100 dias, é apenas uma caricatura de si mesmo.

Durante 33 anos, ele fez a vida na política criticando adversários porque, dizia, mentiam, distorciam, manipulavam e falsificavam histórias sobre situações, lugares e pessoas, especialmente quando se tratava das que fizeram parte ou estiveram aliadas ao regime militar – o mesmo que o processou e mandou para reserva por indisciplina.

Jair Messias Bolsonaro já coleciona material suficiente, que ele mesmo tem publicado nas redes sociais, demonstrando que o presidente Bolsonaro, em menos de 100 dias no poder, se tornou a imagem e semelhança dos adversários políticos que tanto abominava.

Na caricatura poderia identificar o perfil comum aos políticos habituados a usar cargos, subvenções e instrumentos financiados pelo povo para mentir, distorcer, manipular e criar histórias, com o único objetivo de assassinar reputações de seus críticos.

Se olhar no espelho com olhos de ver, talvez perceba que o presidente Bolsonaro se tornou a uma velocidade relâmpago uma representação malfeita de tudo aquilo que Jair Messias Bolsonaro sempre disse deplorar.

Fareed Zakaria: Diversidade pode salvar a democracia

- The Washington Post, O Estado de S.Paulo

A Índia é um exemplo de como a diversidade impediu que algum partido se tornasse excessivamente grande

O relatório do promotor especial Robert Mueller, que deve ser publicado em breve pelo secretário de Justiça, será um grande teste da democracia americana. Como os americanos vão lidar com ele? De maneira partidária ou de modo a fortalecer o sistema constitucional?

Tem sido muito observado que estamos numa era de democracia iliberal. Governos e líderes popularmente eleitos – em países distintos como Venezuela, Polônia e Filipinas – vêm corroendo as instituições independentes, violando normas e acumulando poder excessivo. Em muitas dessas nações o equilíbrio de poderes perdeu força à medida que a proteção dos direitos enfraqueceu, os partidos se acovardaram, os tribunais se tornaram complacentes e a imprensa foi subjugada.

Nos EUA a história é ambivalente. O sistema político tem funcionado mediocremente, controlando os excessos do presidente Trump só de acordo com as visões partidárias. Isto se deve em grande parte ao fato de os republicanos terem se rendido a Trump, mesmo quando líderes do partido achavam que ele tem arruinado a democracia.

Senadores que passaram a vida atacando as tentativas de usurpação do poder pelo Executivo endossaram submissamente a falsa emergência nacional decidida pelo presidente. E silenciosamente deixaram que o poder central do Congresso, em termos de gastos financeiros, fosse subvertido à vontade pela Casa Branca.

Por outro lado, algumas instituições americanas reagiram contra isso. O Judiciário manteve sua independência. As várias esferas do poder investigativo demonstraram que servem ao país e à Constituição acima do atual ocupante da Casa Branca. A imprensa tem conseguido resistir à extraordinária pressão de um presidente que ataca e ameaça sua liberdade e sua independência.

Cida Damasco: Jair e Bolsonaro

- O Estado de S.Paulo

Presidente é chamado a entrar no jogo da reforma. Mas “qual” presidente?

O enredo parece inspirado em “blockbusters” que de vez em quando ganham as telas de todo o mundo: enquanto a população se distraía com as festas de fim de ano e as férias de verão, sorrateiramente dois governos se instalavam no Planalto. Mas, ao contrário do que costuma acontecer nesses filmes, não havia nenhum impostor sentado na cadeira presidencial.

É como se Jair estivesse no comando de um dos governos e Bolsonaro, de outro. Sim, apenas uma fantasia, mas uma fantasia mais real do que a realidade insólita exibida nos dois meses e meio de mandato do capitão – e, mais grave, até pouco tempo atrás “comprada” com naturalidade por determinadas parcelas da sociedade, especialmente pelos mercados e por setores produtivos da economia.

Enquanto Jair e a ala arquiconservadora do ministério atendiam a uma parte do eleitorado, com declarações e atitudes controvertidas, principalmente na chamada pauta social e de costumes, Bolsonaro e a equipe econômica atendiam à outra parte, com o discurso insistente de prioridade absoluta à reforma da Previdência e outros projetos dentro do campo do liberalismo, como as mudanças na legislação sindical e trabalhista.

Roberto Livianu*: Em nome do patriotismo

- O Estado de S.Paulo

É preocupante a ideologização da educação, para um viés como para outro

Quando criança, uma vez por semana eu e meus colegas de escola tínhamos de nos posicionar em fila e entoar em postura de respeito cívico o Hino Nacional brasileiro e, muitas vezes, o hino da escola. Vivíamos o tempo da ditadura militar e nenhum dos alunos ousaria questionar o porquê daquilo. Eu, particularmente, gostava de cantar os hinos.

Eis que quase 40 anos depois disto, precisamente 34 anos passados desde o processo de redemocratização, o ministro da Educação do governo eleito em outubro manda uma surpreendente carta às escolas do País determinando que todas as crianças cantem o Hino, sejam filmadas cantando, sob os auspícios de Deus acima de todos, reproduzindo-se o slogan de campanha do presidente da República a que serve.

Não é necessário ter doutorado em Direito para enxergar as derrapadas cometidas pelo nosso ministro da Educação, originário da Colômbia, nosso país-irmão no continente, que pode até ter tido boas intenções, mas elas são insuficientes para gerir essa tão complexa e importante pasta e as respectivas políticas públicas.

Não se revoluciona a educação no Brasil com a agenda de costumes. Exige-se ousadia para valorizar e capacitar os professores, além de rever métodos ultrapassados de ensino, coragem para lidar com um cenário em que estudantes abandonam a escola cedo demais (25% não terminam o ensino fundamental e 41% não concluem o ensino médio antes dos 19 anos).

No Brasil, mais de 50% não sabem ler nem escrever até os 9 anos e 7% não adquirem o conhecimento necessário em Matemática ao fim do ensino médio. Infelizmente, no ranking da qualidade da educação 2018, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, de 137 países avaliados, o Brasil ocupa a triste posição 119.

Portanto, o problema não se restringe a questões jurídicas, já que, obviamente, crianças não podem ser filmadas sem autorização dos pais, nos termos do Estatuto da Criança e do Adolescente. Não é só o desrespeito à Constituição, que desde 1891 proclama o Brasil um Estado laico, sendo inadmissível menoscabar os adeptos de quaisquer credos ou religiões, assim como os ateus ou agnósticos.

Deus acima de todos pode ser um chamariz de campanha política e uma opção religiosa individual, mas é ideia que não pode ser imposta aos ateus e agnósticos nem nortear a política pública da educação, já que aqueles que não creem têm o mesmo direito à educação que os que creem, mesmo que estes sejam maioria – numa democracia a vontade da maioria prevalece para a escolha do governante, que governa para todos.

É preocupante a ideologização da educação – tanto para um viés como para outro. Todos têm direito a ela, que transforma as pessoas, sendo inadmissível ser utilizada como instrumento para manipulação política, para formar massa de manobra eleitoral.

E neste ponto vale refletir sobre a necessidade de reinserção das disciplinas de Educação Moral e Cívica (EMC) e Organização Social e Política do Brasil (OSPB) na grade curricular escolar, que durante algum tempo cheguei a pensar ser algo razoável e positivo.

Não tenho dúvida da importância de se falar na escola sobre valores éticos, humanismo, cidadania, Estado e suas funções, direitos e deveres de cada um e cada uma. Mas tenho sérias dúvidas se a melhor forma é a reintrodução dessas matérias, porque nos tempos em que elas eram ensinadas os respectivos conteúdos eram impostos arbitrariamente pelo governo militar, que dava as cartas à época, o que nos autoriza a imaginar que poderemos correr riscos de ver conteúdos manipulados transmitidos nas aulas dessas disciplinas, distantes do verdadeiro, nobre e humanista espírito educativo apartidário.

A carta do ministro da Educação reforça e reaviva a preocupação, não obstante fazer ele parte de um governo eleito democraticamente. Também o foram Trump nos Estados Unidos, Putin na Rússia, Erdogan na Turquia, Orbán na Hungria, objeto de análise dos professores de Ciência Política de Harvard Ziblatt e Levinsky, autores da festejada obra Como as Democracias Morrem, em que mostram como instituições democráticas podem ser dinamitadas pelo mau uso das próprias regras do jogo democrático e por posturas ditatoriais. Por minha conta acrescento o caso Hugo Chávez na Venezuela.

Celso Rocha de Barros*: A centro-esquerda hoje

- Folha de S. Paulo

Há um risco real de a mesma situação vivida nos EUA acontecer no Brasil

Em artigo recente publicado na revista Época, o historiador Gabriel Trigueiro mostrou como a reação a Trump fez renascer um forte movimento socialista —no sentido europeu, social-democrata— nos Estados Unidos.

Lideranças como o senador Bernie Sanders e a deputada recém-eleita Alexandria Ocasio-Cortez já desafiam a direção do Partido Democrata, ainda formada por herdeiros da esquerda “neoliberal” dos anos Clinton.

A esquerda neoliberal é a centro-esquerda que defende a utilização dos mecanismos de mercado para atingir objetivos social-democratas, quando for possível utilizá-los. É a turma que foi hegemônica no Partido Democrata americano durante a era Clinton e no trabalhismo britânico durante a era Blair.

Pois agora um dos expoentes da esquerda clintonista parece disposto a abrir negociações e ceder espaço à nova guarda.

Em entrevista ao site americano Vox, o excelente economista Brad De Long propôs que economistas da esquerda “neoliberal” dialoguem e se deixem liderar por seus companheiros à esquerda, ao menos nesta fase atual.

Gaudêncio Torquato*: A liturgia no brejo

- Folha de S. Paulo

Um presidente deve separar o público do privado

Tem motivos o presidente da República para se indignar com uma cena escatológica, dessas que assustam o interlocutor que a ela teve acesso? Sim, a indignação é uma reação natural a quaisquer atitudes ou cenas que fogem ao senso comum e que, pelo inusitado dos fatos nelas descritos, entram no dicionário das aberrações. Tem motivos o mandatário número um do país para passar adiante a cena que tanto o indignou, massificando a imagem junto a mais de 3,4 milhões de seus seguidores em uma rede social? Não.

Jair Bolsonaro espalhou junto ao contingente que o segue em uma das redes sociais o vídeo em que um homem dança sobre um ponto de ônibus após introduzir um dedo no próprio ânus, seguido de outra cena em que um deles abre a calça e urina na cabeça do outro. Sob o argumento de “expor a verdade” à população, acentua: “É isto que tem virado muitos blocos de rua no Carnaval brasileiro”.

A atitude do capitão reformado gera inconvenientes. Permite a milhares de seguidores, entre os quais jovens, acesso a um vídeo que não teria sido visto por eles. Que impacto a imagem causaria a esse público?

Usar o Twitter como meio oficial de transmissão de informações, diretrizes e interpretação pessoal sobre o cotidiano constitui uma decisão incompatível com a posição de um dirigente de nação.

O poder, como se sabe, é exercido por um conjunto apreciável de mandatários e participantes das estruturas do Legislativo, do Executivo e do Judiciário. Todos integram a esfera governativa, mas o comandante do Poder Executivo é quem detém o cargo de maior proeminência. Guia-se por um liturgia, um exercício que o obriga a cumprir ritos, cerimônias e atos variados, não podendo a eles escapar sob pena de gerar desvios na rota que lhe é imposta.

Leandro Colon: Não há mais tempo para erros no governo Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Planalto jogou cinco semanas no lixo e precisa colocar bola no chão para reforma

Com a posse do novo Congresso, em 1º de fevereiro, criou-se a expectativa de que o jogo para o governo de Jair Bolsonaro começaria para valer depois de um janeiro bem morno, de escassas medidas.

Fevereiro deveria ter sido o mês para o Planalto estabilizar uma base parlamentar aliada decente, ajustar os pontos frágeis de sua articulação política, após a entrega da reforma da Previdência, e entrar em março tinindo para o que der e vier.

Não foi o que vimos. O governo meteu os pés pelas mãos e jogou cinco semanas no lixo. Encalacrou-se na crise dos laranjas do PSL, que levou à queda de Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral da Presidência e transformou o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, em um morto-vivo na Esplanada, apenas à espera de uma demissão inevitável.

No Congresso, sobraram críticas à capenga articulação política governista, visivelmente confusa e sem uma estratégia desenhada para garantir um apoio mínimo para o pontapé da reforma previdenciária.

Bolsonaro botou gasolina no fogaréu das redes sociais ao compartilhar em sua conta pessoal um vídeo obsceno no último dia de carnaval.

Vinicius Mota: Governo Bolsonaro está fadado à metamorfose

- Folha de S. Paulo

Redução do núcleo ideológico é apenas uma de várias fases pelas quais vai passar a gestão, recheada de instabilidade


É cedo e arriscado dizer que o presidente da República absorveu lições da série de atritos iniciais da gestão. Observam-se sinais nesse sentido.

Após Jair Bolsonaro ter atuado como líder da oposição à reforma da Previdência, ter enfiado o pé na jaca nos tuítes carnavalescos e ter cometido ato falho sobre o papel dos militares na democracia, nota-se um esforço de correção de rota.

Nunca foram tão frequentes suas manifestações pessoais pela mudança previdenciária. Ter aparecido sob escolta de dois generais na sessão ao vivo da quinta (7) pareceu uma cautela contra a tendência à autoimolação da retórica presidencial.

Na Educação, ensaia-se um expurgo dos meninos que queriam brincar de talibãs com os estudantes brasileiros. Algo parecido ocorrera nas relações exteriores. As que envolvem custos e riscos palpáveis foram logo subtraídas do chanceler viajandão.

Nestes 70 dias, a primeira escolha de Bolsonaro diante de uma crise tem sido a caserna. Se há problema, busca nos militares a solução. Foi reduzida, embora esteja longe de ter sido anulada, a influência da banda lunática, que esperneia.

Marcus André Melo*: Os barões da federação e as reformas

- Folha de S. Paulo

Presidente e governadores se enfraqueceram gerando déficit de coordenação

Para muitos analistas os governadores jogarão papel fundamental na reforma da Previdência: muitos estados estão quebrados e eles/elas ganharão e muito com as reformas. Para além da questão fiscal, podem beneficiar-se da transferência dos custos reputacionais de reformas impopulares para o governo federal (processo conhecido na ciência política como “blame shifting”).

Por outro lado, a vulnerabilidade de muitos executivos estaduais torna-os potencialmente presa fácil na troca de ajuda federal por apoio político às reformas. Mas as expectativas de protagonismo dos governadores estão ancoradas em uma percepção equivocada sobre seu papel nas relações executivo-legislativo. Os governadores podem ter interesse nas reformas, mas isso não implica que tenham a capacidade de influenciar de forma decisiva o processo legislativo através de bancadas estaduais.

A percepção equivocada deve-se à resiliência da imagem dos governadores como barões da federação que refletia o status quo dos anos 80 e 90, mas que mudou radicalmente nas duas últimas décadas.

Com a volta das eleições diretas para governadores em 1982, os executivos estaduais adquiriram inédita legitimidade porque eram os únicos atores diretamente escolhidos pela população. Detinham também autonomia fiscal e financeira e converteram-se em protagonistas da barganha política da transição (vide Covas, Tancredo, Arraes ou Pedro Simon).

Bruno Carazza*: O triste cenário das mulheres na política

- Valor Econômico

Antes de discutir cotas, precisamos nivelar o jogo a todos

Nas eleições de 2018, o Partido Progressista (PP) baixou uma resolução disciplinando a distribuição do dinheiro recebido do Fundo de Campanha. Entre as diversas regras - algumas bem interessantes, como a que concedia um bônus para premiar a fidelidade partidária -, uma aberração: candidatos homens deveriam fornecer nome e dados bancários de mulheres para a sigla conseguir cumprir a cota feminina de 30% determinada pelo TSE.

A prevalência de uma lógica estritamente masculina na política, explícita nessa regra interna do PP, parece ser dominante entre os partidos brasileiros, como atesta o escândalo do laranjal do PSL. Não é à toa que o Brasil seja um dos países com maior desigualdade de gênero na política.

De acordo com a Inter Parliamentary Union, nós ocupamos a 133ª posição no ranking mundial de participação feminina no Parlamento. É verdade que estamos melhorando: o percentual de mulheres na Câmara dos Deputados subiu de 10,1% para 15% de mulheres. Na comparação internacional, porém, temos o pior indicador das Américas.

Nas Assembleias Legislativas a situação não é diferente: apenas 15,5% das vagas foram ocupadas por mulheres. O Amapá, com 33,3% de deputadas estaduais, é o único Estado brasileiro que supera o patamar de 30%, considerado o mínimo razoável pelos especialistas em igualdade de gêneros na política.

Cacá Diegues: Confetes tardios

- O Globo

Até semana passada, brincávamos nas ruas o carnaval. Mesmo que fossem apenas reações de mentes protegidas pela data, contra aquilo que vivemos todos os dias. Não se tratava de esquecer o mundo como ele é; mas de lembrar como ele podia ser. A vida se tornou, por pouco tempo, uma sólida memória de nós mesmos.

Tínhamos só que pensar no quefazer coma lembrança dos afogados nas barragens rompidas, dos meninos queimados no contêiner tornado alojamento, do helicóptero em cham as como jornalista exemplar, dos que rolaram morro abaixo com suas casas na lama da chuva, dos tuítes intempestivos do presidente, de tanta coisa.

Se você faz circular uma cena como a dos homens pornográficos no carnaval de São Paulo, queira ou não está sendo conivente com ela. Tanto que a dupla aproveitou a divulgação e sua repercussão, fazendo passar um cínico manifesto em defesa do que fizeram, como se aquilo fosse uma “mensagem de artistas”.

Agora vamos supor. Suponha, por exemplo, que o ato sobre palco improvisado acima de todas as cabeças, sem nada a ver com o bloco que desfilava, tenha sido mesmo encenado por artistas pornô, como se declaram no tal manifesto. Suponha que tenham sido contratados por um terceiro que registrou a cena, mas não aparece no vídeo. E que esse personagem estava no lugar da selfie que os protagonistas deveriam fazer, se fosse projeto deles divulgar seu horror particular. Por que então não divulgaram, eles mesmos, nas redes sociais, o que o presidente acabou fazendo?

E mais uma coisa que não me ficou clara, porque não foi dita por ninguém: onde o presidente encontrou o vídeo? Viajando pela internet? Ou foi enviado diretamente a ele? Suponha que sim: então por quê?

Cuide de nós todos, presidente, os que votaram e os que não votaram no senhor, é disso de que precisamos. Vamos nos empenhar na solução para a Previdência e em mais coisas importantes para nossas vidas. Deixe o exibicionismo dos atores pornô pra lá, já sabíamos que isso não presta. Concordando ou não com o dito nos blocos e nas escolas, o carnaval deste ano foi um dos mais politizados dos últimos tempos, e temos que comemorá-lo. Pois é uma prova de que o povo está pensando no Brasil, além da diversão. Isso não é bom pra todo mundo?

Fernando Gabeira: O fim da picada

- O Globo

O Brasil é surpreendente, mas jamais pensei numa situação dessas: um presidente postar um vídeo pornográfico

Passei o carnaval entre Juazeiro, na Bahia, e Juazeiro do Norte, no Ceará. De Juazeiro a Juazeiro. Uma bela viagem, sugestão do fotógrafo Orlando Brito.

Apesar da intensidade do trabalho, tentei acompanhar o carnaval brasileiro. Confesso que, nessa época, pouco tenho a ler nos jornais. Não me levem a mal, mas falam de pessoas que não conheço, fazendo confissões que não me interessam. Sou um pouco fora do ar em certos temas do show business.

Sinto-me como se estivesse nos versos de Manuel Bandeira: “Lá a existência é uma aventura/ De tal modo inconsequente/ Que Joana a Louca de Espanha/ Rainha e falsa demente/ Vem a ser contraparente/ Da nora que nunca tive.”

Nas noites do sertão, foi possível ler a análise que Milan Kundera faz do romance “A montanha mágica”, de Thomas Mann.

Tem tudo a ver com uma certa decadência no ar; baixarias, memes sobre dependência química, falta de compaixão com avô que perde o neto.

O livro de Thomas Mann é sobre o confronto de ideias. Brilhantes intelectuais terminam querendo se matar. Os outros personagens também mergulham num clima de irritação e agressividade.

O que o autor parece revelar é que o confronto de ideias é apenas uma máscara que esconde as emoções irracionais e violentas.

Kundera afirma sobre “A montanha mágica”: “É um grande romance de ideias mas ao mesmo tempo uma terrível dúvida sobre as ideias, um grande adeus à época que acreditou nas ideias e na sua faculdade de dirigirem o mundo.”

O romance se passa nas vésperas da Primeira Guerra. Depois disso, vieram o fascismo, o nazismo e o comunismo, que, no fundo, afirmam a mensagem da “Montanha mágica”, que se desenrola em Davos, na Suíça.

Envolto nesse clima de desalento com o poder das forças obscuras e irracionais, chego ao Rio para seguir as notícias sobre o aumento da violência, um tema importante para nós e sempre muito destacado na imprensa internacional. Só aí soube do vídeo lançado na rede por Bolsonaro.

Demétrio Magnoli: O Itamaraty, segundo Ernesto

- O Globo

Durante quase 14 anos, nos governos lulopetistas, o diplomata Paulo Roberto de Almeida experimentou o que chama de “exílio involuntário”. Excluído pela chefia de qualquer atividade, instalou seu “escritório de trabalho” numa mesa da biblioteca do Itamaraty. O intervalo entre um “exílio” e outro durou menos de dois anos. Exonerado da direção do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri), ele se prepara para seguir rumo à Sibéria: “Vou ter de voltar à biblioteca para poder trabalhar”. O bolsonarista Ernesto Araújo imita Celso Amorim, chanceler lulista, rebaixando o Itamaraty ao estatuto de ferramenta de uma facção.

“Personalidades autoritárias não apreciam espíritos libertários como o meu”. O diagnóstico aplica-se tanto a Araújo como a Amorim. Nos tempos do segundo, ondas de expurgos afastaram dezenas de diplomatas experientes que não aceitavam a condição de sabujos do ministro de turno. Hoje, a pretexto de promover jovens diplomatas, o primeiro cerca-se de bajuladores dispostos a aplaudir com igual fervor suas asneiras retóricas e suas insanas iniciativas de política externa. A corrupção moral não figura no Código Penal, mas suas consequências são tão danosas quanto a corrupção política.

Na democracia, uma fronteira nítida separa a conquista do governo da colonização partidária do Estado. O bolsonarismo aprendeu com o lulopetismo a ultrapassar a linha divisória, excluindo os “espíritos libertários” para não ouvir vozes dissonantes. Daí, nasce o governo de facção, isolado numa concha de certezas ideológicas, protegido da crítica por espessos cordões de puxa-sacos. A demissão de Almeida é mais um sintoma de que a eleição presidencial produziu um giro de 360 graus, colocandonos de volta no ponto de partida.

Crise renitente: Editorial / Folha de S. Paulo

A despeito da reforma da CLT e do fim da recessão, informalidade cresce no mercado de trabalho do país

Mesmo finda a recessão e apesar da muito discreta melhoria no mercado de trabalho, o número de trabalhadores do setor privado sem registro formal ainda mostrou crescimento neste início de ano.

Trata-se aqui não apenas dos empregados sem carteira assinada, mas também de empregadores e trabalhadores por conta própria sem inscrição no CNPJ. Esse é um dos aspectos do que se chama informalização, que também pode ser abordada pela proporção dos trabalhadores que contribuem para a Previdência Social.

Seja qual for o enfoque, o quadro geral é de precarização, de manifestos sintomas de fraqueza econômica e preocupantes efeitos sobre a capacidade e a intenção de consumir. Obviamente, tal situação degradada tem também impacto sobre a receita tributária, a previdenciária em particular.

Desde o início de 2016, das profundezas da recessão, o número de pessoas ocupadas cresceu apenas 1%. No setor privado, o resultado se mantém negativo em 1,9%. Entre os celetistas, a baixa chega a 7%, segundo dados do IBGE.

A quase estagnação econômica, a capacidade ociosa, os custos de contratação e a incerteza decerto têm grande peso na explicação dos péssimos indicadores.

Mas é possível também que, considerados perdas e ganhos, parte dos trabalhadores simplesmente opte pelo regime autônomo e, muitas vezes, totalmente informal.

A redução do número de pessoas empregadas e a degradação da qualidade dos postos de trabalho abatem de modo considerável a receita previdenciária.

‘Compliance’ dos partidos: Editorial / O Estado de S. Paulo

Cabe aos partidos uma parte bastante significativa da responsabilidade pela crise moral que o País atravessa. E tanto as legendas ditas tradicionais como os políticos de carreira sentiram nas urnas, na forma de derrotas acachapantes para novatos em geral, todo o peso do profundo desapreço dos eleitores pelas práticas deletérias que conspurcaram a atividade política nos últimos anos. Por essa razão, essas agremiações e seus caciques deveriam ser os mais interessados em mudar sua imagem perante os cidadãos. No entanto, reportagem recente do Estado constatou que nenhum dos partidos que têm políticos investigados, denunciados ou condenados pelos mais diversos crimes puniu qualquer desses parlamentares.

Os casos não chegam nem mesmo a mobilizar o chamado “conselho de ética” dessas legendas. Considerando que 160 deputados e 38 senadores estão com alguma pendência judicial – as acusações incluem corrupção, lavagem de dinheiro, assédio sexual, estelionato, improbidade administrativa com dano ao erário e enriquecimento ilícito –, é possível dimensionar a leniência dos partidos com correligionários problemáticos.

O único episódio em que o “conselho de ética” de um partido foi acionado foi o do senador Acir Gurgacz, do PDT de Roraima. Condenado a quatro anos e seis meses de prisão em regime semiaberto por crime contra o sistema financeiro, o senador foi considerado inocente por seus pares no “conselho de ética” do PDT. Ou seja, para o PDT, um correligionário condenado pela Justiça, malgrado ter tido todas as garantias de ampla defesa, não merece qualquer punição por parte do partido. A explicação, dada pelo presidente do PDT, Carlos Lupi, é singela: “Mergulhei no caso do senador Acir, que foi o único condenado por um empréstimo feito pela empresa da família dele. Não houve corrupção nem dolo. Por unanimidade, entendemos que ele é inocente e que o julgamento foi equivocado”.