sábado, 24 de outubro de 2026

Abrindo o voto, por Eduardo Affonso

O Globo

Nada contra Nossa Senhora Aparecida, mas para padroeira do Brasil meu voto será em Santa Rita de Cássia, a das causas impossíveis

Sim, o voto é secreto, mas, como faz tempo que não elejo presidente (o único foi há 32 anos), raramente um governador (moro no Rio...), dificilmente um senador e só a muito custo um deputado ou prefeito, quero abrir a possibilidade de votar em outras instâncias.

Não é que eu vote mal (ninguém vota mal, segundo os próprios critérios). Mas tenho o péssimo hábito de preferir os liberais. Pior: os dedicados à educação (um povo educado fará melhores escolhas nas urnas, e aí tudo o mais vem por tabela), à cultura (o cidadão com orgulho de si mesmo não se contentará com menos do que merece), ao meio ambiente (preservar o planeta aumenta as chances de uma vida mais saudável — e de continuar havendo vida) e aos direitos dos animais (quem não gosta de bicho — exceção feita à barata, ao pernilongo e ao bicho de goiaba — bom sujeito não é). E nada disso garante lugar entre os mais votados.

Dois mil e trinta ainda está longe, e quero eleger alguém que valha a pena. Por isso preciso ver onde se tira título de eleitor para o Nobel de Literatura. Meu candidato há décadas é o Lobo Antunes — que agora terá de esperar adoção do prêmio póstumo (nada que um plebiscito não resolva). Em seguida, vou de Clarice, João Cabral, Rubem Braga, Guimarães Rosa. Para não ser acusado de bairrismo, é capaz de eu votar — mais adiante — no Cortázar.

Nada contra Nossa Senhora Aparecida, mas para padroeira do Brasil meu voto será em Santa Rita de Cássia, a das causas impossíveis. E que Ogum, seu companheiro de chapa, nos insufle coragem e nos dê força para enfrentar as demandas. Não, ser ateu não é incompatível com ter santo de devoção ou orixá de cabeça — assim como gostar de vencer não impede que eu torça pelo Botafogo.

Na Academia Brasileira de Letras, serei cabo eleitoral do Paulo César Pinheiro. É, tem a Adélia Prado, o Cristovão Tezza, o Augusto de Campos. Mas vocês já leram a letra de “Mordaça”, “Saudades da Guanabara”, “Portela na avenida”? No Jabuti e no prêmio da Biblioteca Nacional, não dá mais tempo, mas sou Cássio Zanatta e Max Fabiano, com adesivo no para-brisa, jingle e santinho.

Para cobrir todas as eleições, fazer todas as entrevistas, estar em todos os debates, voto na Renata Lo Prete. Como antídoto aos vícios de linguagem, à memória seletiva, à fala aos arrancos, à ênfase nos cabelos e não nas ideias, Renata Lo Prete. Contra a hipossuficiência de argumentos, a labirintite da ética, as irrupções da má-fé, Renata Lo Prete.

No sufrágio para a próxima vaga no STF, digito, sem pestanejar, o número da Malu Gaspar. Não, não é preciso ter registro na OAB — bastam notável saber jurídico e conduta ilibada. No primeiro quesito, ela não fica atrás de uns e outros que estão lá. No segundo, <comentário removido pelo meu superego, que tem mais juízo do que eu>.

Como suas decisões afetam o mundo inteiro, reivindico o direito de botar minha cédula no correio quando forem escolher o presidente dos Estados Unidos (Back to Barack!). E eleger autor da novela das 9 (oh, Glória!) e samba-enredo da Portela (Paulo César Pinheiro e Paulinho da Viola, um imortal e um príncipe na passarela, já pensou que paulada?). Sem nem saber que filme é, meu Oscar goes to... Ana de Armas e Ricardo Darín. Dúvida mesmo é só para o posto de presidente do alvinegro (que tal a Elena Landau?).

No mais, fica um voto de confiança a quem vai às urnas amanhã — e que os próximos quatro anos nos sejam leves.

 

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