O Globo
Nada contra Nossa Senhora Aparecida, mas para
padroeira do Brasil meu voto será em Santa Rita de Cássia, a das causas
impossíveis
Sim, o voto é secreto, mas, como faz tempo
que não elejo presidente (o único foi há 32 anos), raramente um governador
(moro no Rio...), dificilmente um senador e só a muito custo um deputado ou
prefeito, quero abrir a possibilidade de votar em outras instâncias.
Não é que eu vote mal (ninguém vota mal, segundo os próprios critérios). Mas tenho o péssimo hábito de preferir os liberais. Pior: os dedicados à educação (um povo educado fará melhores escolhas nas urnas, e aí tudo o mais vem por tabela), à cultura (o cidadão com orgulho de si mesmo não se contentará com menos do que merece), ao meio ambiente (preservar o planeta aumenta as chances de uma vida mais saudável — e de continuar havendo vida) e aos direitos dos animais (quem não gosta de bicho — exceção feita à barata, ao pernilongo e ao bicho de goiaba — bom sujeito não é). E nada disso garante lugar entre os mais votados.
Dois mil e trinta ainda está longe, e quero
eleger alguém que valha a pena. Por isso preciso ver onde se tira título de
eleitor para o Nobel de Literatura. Meu candidato há décadas é o Lobo Antunes —
que agora terá de esperar adoção do prêmio póstumo (nada que um plebiscito não
resolva). Em seguida, vou de Clarice, João Cabral, Rubem Braga, Guimarães Rosa.
Para não ser acusado de bairrismo, é capaz de eu votar — mais adiante — no
Cortázar.
Nada contra Nossa Senhora Aparecida, mas para
padroeira do Brasil meu voto será em Santa Rita de Cássia, a das causas
impossíveis. E que Ogum, seu companheiro de chapa, nos insufle coragem e nos dê
força para enfrentar as demandas. Não, ser ateu não é incompatível com ter
santo de devoção ou orixá de cabeça — assim como gostar de vencer não impede
que eu torça pelo Botafogo.
Na Academia Brasileira de Letras, serei cabo
eleitoral do Paulo César Pinheiro. É, tem a Adélia Prado, o Cristovão Tezza, o
Augusto de Campos. Mas vocês já leram a letra de “Mordaça”, “Saudades da Guanabara”,
“Portela na avenida”? No Jabuti e no prêmio da Biblioteca Nacional, não dá mais
tempo, mas sou Cássio Zanatta e Max Fabiano, com adesivo no para-brisa, jingle
e santinho.
Para cobrir todas as eleições, fazer todas as
entrevistas, estar em todos os debates, voto na Renata Lo Prete. Como antídoto
aos vícios de linguagem, à memória seletiva, à fala aos arrancos, à ênfase nos
cabelos e não nas ideias, Renata Lo Prete. Contra a hipossuficiência de
argumentos, a labirintite da ética, as irrupções da má-fé, Renata Lo Prete.
No sufrágio para a próxima vaga no STF,
digito, sem pestanejar, o número da Malu Gaspar. Não, não é preciso ter
registro na OAB — bastam notável saber jurídico e conduta ilibada. No primeiro
quesito, ela não fica atrás de uns e outros que estão lá. No segundo,
<comentário removido pelo meu superego, que tem mais juízo do que eu>.
Como suas decisões afetam o mundo inteiro,
reivindico o direito de botar minha cédula no correio quando forem escolher o
presidente dos Estados Unidos (Back to Barack!). E eleger autor da novela das 9
(oh, Glória!) e samba-enredo da Portela (Paulo César Pinheiro e Paulinho da
Viola, um imortal e um príncipe na passarela, já pensou que paulada?). Sem nem
saber que filme é, meu Oscar goes to... Ana de Armas e Ricardo Darín. Dúvida
mesmo é só para o posto de presidente do alvinegro (que tal a Elena Landau?).
No mais, fica um voto de confiança a quem vai
às urnas amanhã — e que os próximos quatro anos nos sejam leves.

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