Folha de S. Paulo
Defesa da ditadura e promessa de reabilitar o
pai suscitam dúvidas sobre seu compromisso democrático
Divergências políticas são aceitáveis; o
respeito ao Estado de Direito não é negociável
Certamente não são pessoas como eu que Flávio
Bolsonaro tenta convencer por meio de posts, discursos, sabatinas e
debates. De resto, com a minha aversão ao gregarismo ideológico e o meu natural
ceticismo, não devo mesmo ser o público-alvo de qualquer campanha.
Afinal, meu marxismo é mais o de Groucho Marx
("não entro em clubes que aceitem pessoas como eu") que o de Karl, e
minha abordagem dos candidatos sempre foi mais parecida com a de um consumidor
que com a de um militante apaixonado. E, sim, acredito em coisas que causam
repugnância em quem moraliza excessivamente a política, como votar no menos
pior disponível —sem guardar meu voto para o candidato ideal como quem se
guarda para a mulher da sua vida. Política é outro tipo de negócio.
Dito isso, Flávio Bolsonaro tem fracassado completamente em dissipar uma inquietação essencial sobre os anos da sua eventual Presidência: seu compromisso com a ordem liberal-democrática. Não se trata do vago apelo a "salvar a democracia", de que o lulismo tanto abusou, confundindo frequentemente a defesa da democracia com a defesa da sua própria agenda política, como se não pudesse haver democracia fora da esquerda.
Sei que cada um tem seus temores diante do
futuro do país com Lula
ou com os Bolsonaros —sim, no plural, porque eles costumam governar os quatro
ao mesmo tempo, como vimos da última vez. Sei também que algumas listas de
exigências são feitas sob medida para que só caiba nelas um candidato de
esquerda, quando não o próprio Lula. Não é o meu caso. Não tenho dificuldade em
aceitar que o Brasil seja governado por alguém de direita, conservador ou
adversário daquilo em que acredito. A vontade da maioria eleitoral não tem
obrigação de coincidir com a minha.
Mas, para confiar a Flávio o governo do país,
precisaria de razões para acreditar que ele e seu círculo próximo respeitarão
as regras do jogo quando elas contrariarem seus interesses. A democracia
liberal não se resume a eleições periódicas. Exige respeito à separação dos
Poderes, ao Estado de Direito, aos limites da autoridade presidencial e,
sobretudo, à possibilidade de perder eleições e deixar o poder.
Não se trata apenas de saber o que Flávio
conhecia ou desconhecia dos planos golpistas do pai. Ele mesmo passou anos
defendendo, em livro e discursos, o golpe de 1964, celebrando a ditadura
militar e exaltando alguns dos seus mais notórios agentes de repressão. Não é
um passado que o condene a pensar assim para sempre, mas, com semelhante
histórico pessoal e familiar, caberia a ele, mais do que a qualquer outro,
convencer-nos de que se converteu às convicções liberal-democráticas.
Na campanha, ele chegou a prometer que
respeitará o resultado das urnas e que não disputará a reeleição. Promessas não
são garantias, naturalmente. Ainda mais quando, ao anunciar que não pretende se
reeleger, deixa aberta a possibilidade de ser beneficiado por uma extensão do
próprio mandato. Mas o problema maior é outro: como conciliar essas declarações
com sua atitude diante da tentativa de golpe de Estado pela qual o pai foi
condenado?
Flávio não precisaria negar, contra as
evidências reconhecidas pela Justiça, o envolvimento de Jair Bolsonaro na
tentativa de impedir a alternância de poder. Bastaria convencer-me de que, sob
seu governo, não se repetiria coisa semelhante. Em vez disso, trata a
condenação do pai como uma injustiça a reparar, promete beneficiá-lo com o
perdão presidencial e quer receber dele a faixa na posse. Como símbolo
inaugural do novo governo, imagina receber a transmissão da autoridade
republicana justamente de quem foi condenado por tentar subvertê-la. Um tapa na
cara da democracia.
Não estamos falando de uma divergência sobre
decisões do STF, mas de uma tentativa de golpe de Estado que incluiu planos
para assassinar o presidente, o vice-presidente e um ministro do Supremo,
admitindo até a morte de civis como dano colateral. E de uma ação de sedição,
em 8 de janeiro de 2023, que Flávio insiste em tratar como manifestação cívica
injustamente punida. Não é uma questão de simpatia pelo Judiciário, mas de
compromisso com os limites que nenhuma disputa pelo poder pode legitimamente
ultrapassar.
Posso aceitar de um candidato quase qualquer
divergência política, por mais profunda que seja, mas não posso transigir,
sobretudo em tempos tão turbulentos, quanto ao seu compromisso com o Estado de
Direito e com os direitos e garantias fundamentais.
E Flávio Bolsonaro tem feito muito mais para
alimentar minhas suspeitas que para dissipá-las.

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