domingo, 1 de novembro de 2026

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Lula tem chance de fazer governo mais responsável

Por O Globo

Aceno ao centro depois da vitória foi positivo. Espera-se que, desta vez, ele honre a frente ampla que o reelegeu

Logo depois de confirmada sua vitória na eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um discurso em São Paulo. Antes de falar, fez questão de passar a palavra ao vice, Geraldo Alckmin, e de dizer que ele ocuparia espaço maior em seu próximo governo. “Estas eleições me ensinaram muitas lições”, disse. “Posso garantir a vocês que vamos mudar o jeito de governar o país.” Espera-se que, desta vez, Lula honre suas palavras.

Há dúvidas pertinentes, pois não foi o que aconteceu no mandato que se encerra. Em 2022, depois de uma eleição turbulenta, marcada por contestação aos resultados, atos antidemocráticos e até uma tentativa de golpe, Lula foi incapaz de entender que sua vitória sobre o então presidente Jair Bolsonaro (PL), pela margem estreita de 2,1 milhões de votos, só havia sido possível graças à formação de uma frente ampla reunindo setores da sociedade que não orbitavam em torno dele ou de Bolsonaro — e estavam simbolizados na escolha do próprio Alckmin (antes ferrenho adversário do PT) para a Vice-Presidência.

Alivio democrático, por Rodrigo Nunes*

Folha de S. Paulo

Um governo apenas de normalização institucional é muito pouco contra ameaças que nos assombram

Será indispensável manter mobilização social e ousadia para emparedar bolsonarismo

[RESUMO] Triunfo histórico de Lula merece ser celebrado pelos defensores da democracia, mas não podemos nos enganar sobre a gravidade da situação. O voto bolsonarista segue crescendo, consolidou domínio no Congresso e por pouco não leva a Presidência, impulsionado pela desintegração social em todo o mundo após 50 anos de neoliberalismo. Reverter esse quadro exigirá do governo federal preservar ao longo dos próximos quatro anos o senso de urgência descoberto no segundo turno, começando a se preparar para 2030 desde já.

Com uma inédita virada no segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva ganhou um inédito quarto mandato como presidente naquela que foi, sem dúvida, a eleição mais dramática da história do país.

Mais uma vez, a democracia brasileira respira aliviada após escapar por um triz do maior risco por que passou desde o fim da ditadura militar. Mas se o retorno de Lula há quatro anos pareceu ser interpretado por muitos como sinal de que a ameaça fora definitivamente derrotada, é preciso desta vez levar muito a sério o que as urnas indicam: ela não apenas não foi embora, como segue crescendo.

A última dança de Lula, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Direita decente escapou de se tornar cúmplice do que teria sido um novo governo Bolsonaro

Flávio da derrota nos mostrou o que teria sido o Flávio da vitória: golpe, Willer Tomaz e Trump

A última campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva passou pela avenida celebrando o que Silas, Décio e Manoel chamaram de brisa que a juventude afaga, chama que o ódio não apaga.

Passaram pela avenida jovens com esperança e velhos com memória; mulheres que apavoram o fascismo, Ana Elisa, Ana Júlia, Tábata, Érika, Marina, Benedita, Simone; o ex-cobrador de ônibus André Janones lutando nas redes e os velhos sindicalistas lutando nas ruas; a garotada de esquerda tentando repensar as utopias e direitistas que, quando votaram em Lula, passaram em um teste de convicção democrática em que pouca gente passaria; artistas e atletas que merecem respeito infinito por terem dado a cara a tapa na hora do vamos-ver.

Ódio excepcional, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro conta a história de como as cortes dos EUA trataram o antissemitismo

Autor propõe equilibrar melhor liberdade de expressão e proteção a minorias

Um dos grandes debates jurídicos da atualidade é sobre o alcance da liberdade de expressão num contexto de instrumentalização política dos chamados discursos de ódio amplificada pelas redes sociais. Nesse quesito, os EUA, por colocarem a defesa do "free speech" num pedestal quase inviolável, despontam como exceção entre os países democráticos.

Imagens fortes de uma campanha, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Cena no Rio condensa herança escravista e hierarquia racial

Multidão em São Paulo expressa diversidade etária e alegria

É possível que, na origem latina, imagem signifique apenas a aparência de alguma coisa. Com seu domínio no mundo atual, porém, ela tanto representa algo existente como permite uma compreensão da realidade. Isso vem a propósito de duas imagens destinadas a ficar na história crítica das campanhas pela última eleição presidencial. Uma, na passeata bolsonarista na Barra da Tijuca (RJ), mostrava um negro fantasiado de diabo, em cores vermelhas, tridente na mão, acorrentado por um branco, que invectivava contra satanás e o PT. A outra, na avenida Paulista (SP), coberta de bandeiras e roupas vermelhas, exaltava Lula.

O ambiente é de reequilíbrio de forças no Congresso, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

As vitórias no primeiro turno não garantem à direita o predomínio da oposição nas atividades legislativas

O Parlamento não se conduz pela lógica da eliminação do adversário que preside as disputas eleitorais

No domingo, 18 de outubro, enquanto a direita já se organizava em torno da presumida vitória dali a uma semana, Gilberto Kassab lançava olhar de águia sobre o debate na Band que terminara no zero a zero e vaticinava: "Vai ganhar o Lula".

Segundo o presidente do PSD, era o que dizia a curva ascendente das intenções de voto nas pesquisas, diante do empate. Essa avaliação explica por que o partido não se afobou na corrida do centrão rumo a Flávio Bolsonaro (PL) e manteve a neutralidade, preferindo equilibrar-se entre as duas canoas em disputa na regata.

Nem todo conservador, mas sempre um bolsonarista, por Mariliz Pereira Jorge

Folha S. Paulo

Lei protege o cidadão na frente da urna, mas deixa qualquer pessoa desamparada diante da multidão

Quem mais exige posicionamento alheio costuma ser o primeiro a cancelar quem pensa diferente

Em 1932, o Código Eleitoral criou a cabine indevassável para encerrar o voto de cabresto. Noventa e quatro anos depois, esse espaço segue intacto —quer dizer, mais ou menos, porque já temos vigias de gestual tentando adivinhar pelo movimento do braço ou do dedo se o sujeito digitou 13 ou 22. Ainda assim, o problema maior acontece do lado de fora.

Nem todo conservador, mas sempre um bolsonarista. Basta abrir o noticiário para ver de onde parte a chantagem do desemprego. É a mesma turma que bate no peito pela liberdade de recusar vacina, guardar fuzil em casa ou negociar direto com o patrão a jornada e o salário. Porém, essa autonomia toda some quando o subordinado resolve apertar o 13 na urna. Aí a escolha pessoal vira motivo de justa causa.

Entrevista | Boulos* fala em chantagem do mercado sobre ajuste fiscal e defende corte em desoneração e supersalário

Por Arthur Guimarães de Oliveira e Juliana Arreguy\Folha de S. Paulo

Ministro diz que vitória de Lula indica apoio popular a políticas públicas e que cortes devem mirar emendas e supersalários

Mobilização nas redes e nas ruas, afirma ele, será necessária para garantir governabilidade do presidente

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), diz ver uma chantagem do mercado no debate sobre ajuste fiscal no novo governo do presidente Lula (PT) e afirma que os cortes devem mirar privilégios, não o "lombo dos mais pobres".

A receita para economizar, segundo ele, inclui discutir temas como desonerações fiscais, supersalários e emendas parlamentares impositivas.

"Você não pode contrapor uma chantagem de mercado à vontade popular. Isso é anular a democracia", diz o ministro em entrevista à Folha.

Do fim de 2022, antes do terceiro mandato de Lula, a julho de 2026, a dívida pública passou de 71,7% do PIB (Produto Interno Bruto) para 82,5%.

Sobre a sucessão de Lula, Boulos afirma que o momento não é o de discutir quem será a próxima grande liderança progressista, mas sim o de garantir um "mandato biográfico" para a quarta passagem do petista pelo Palácio do Planalto.

Poesia | Verdade, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Chico Buarque - Que tal um samba? com violão Hamilton de Holanda