Folha de S. Paulo
Falha no primeiro turno não foi a falta de
debates, mas a falta da vontade de debater
O rebaixamento nas redes sociais parece
prioritário no pleito político; parlamentares da caixa de gargalhadas, com
milhões de votos, são epifenômenos dessa aberração
Na fatigante expectativa do segundo
turno, especialistas insistem em que problemas nacionais sejam postos em
debate entre os dois candidatos e não se confundam campanhas com exposições
biográficas. Todo mundo está cansado de saber que Lula,
autodeclarado mais sindicalista que de esquerda, representa estabilidade democrática,
ideias de povo próspero e soberano. Por vias populistas, sempre
"entregou" benefícios sociais.
Mas até os mal-informados também estão cansados de saber que Flávio Bolsonaro tem mais folha corrida do que biografia publicável em 23 anos de vida parlamentar. Supunha-se que um político da ultradireita em ascensão tivesse algo de pertinente a dizer sobre ajuste fiscal ou sobre um benefício qualquer a "entregar", como senha de trânsito no mercado eleitoral. O que ele diz numa hora, desdiz na outra. É um "flatus" ambulante. De concreto, o projeto de tirar o pai da cadeia. Embora possa facilmente entregar o país.
Há cansaço, sim, "fadiga de
material". Mas esse "stress corrosion" (jargão técnico de
engenheiro para queda estrutural de ponte ou viaduto) também acomete o
arcabouço das explicações de macroestrutura. Não que estejam erradas, são
apenas abstratas demais, próprias ao entendimento intelectual, porém deslocadas
em tempo e espaço para a média compreensão imediata.
E o problema imediato dos debates é que a
massa eleitoral parece não querer saber de coisa alguma. A falha no primeiro
turno não foi falta de debates, mas demonstração da falta de vontade de
debater. Agito é o que balança as redes. Não apenas os 33 milhões que deixaram
de votar, mas principalmente aqueles que, polarizados por uma
"mudança" engana-vista, aderem à lógica televisiva do Big Brother.
Por pouco caso que disso façam as explicações
por frações de classes de consumo, o reality show oferece um simulacro de parte
importante do processo eleitoral. No BBB não se trata de saber, mas de
polarizar afetivamente. É modelo de um democratismo tão radical que favorece o
homem sem qualidades. Ganha o pior, ou seja, aquele que, exatamente por falta
de méritos, catalisa por plebiscito a simpatia majoritária. Criticá-lo desperta
a emoção reversa da autopiedade: é como dizer "coitadinho de mim
mesmo", tão semelhante.
O rebaixamento nas redes sociais parece hoje
prioritário no pleito político. Parlamentares da caixa de gargalhadas, com
milhões de votos, são epifenômenos dessa aberração. Mas o pano de fundo
conceitual permanece o do reality show, regido pelo ditado latino "qui
vult decipi, decipiatur": quem quer ser enganado, seja. No espelho
eletrônico, o pobre empreendedor de si mesmo quer se ver como rico, a vítima
como carrasco vingador.
Redes, onde versões precedem fatos, são as
ruas movimentadas dessa megalópole-BB chamada internet. No
Rio, as semimortas pertencem a neopentecostais, traficantes e milicianos.
Debater o quê, com quem? Daí repercutir como contra-hegemonia nas redes o eco
das ruas ainda vivas: "fascismo não se discute, se destrói", pois
"é difícil defender, só com palavras, a vida" (João Cabral). Cabe
mesmo a cada brasileiro sentir no peito o apelo da sua dignidade.

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