Correio Braziliense
Flávio Bolsonaro seria o principal nome da
política brasileira com chances de rivalizar com o presidente da República.
Poderia exercer a função de líder de uma oposição numerosa e eficaz. Jogou tudo
fora
Tarcísio Gomes de Freitas é um homem de sorte. Aos 51 anos, depois de passar pela Academia Militar das Agulhas Negras, pelo Instituto Militar de Engenharia, pela Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados e pelo Ministério da Infraestrutura, ele, apesar de carioca, foi eleito governador de São Paulo. Sorte é outro nome de competência. O político, que iniciou sua vida pública como burocrata bem preparado, preferiu não ficar sob o controle de Jair Bolsonaro e se desviou do possível confronto eleitoral com o presidente Lula. Foi reconduzido ao Palácio Bandeirantes com folga, eleito no primeiro turno. Além disso, de repente, as portas da política brasileira se abriram à sua frente.
A incrível falta de visão, e de percepção
política, de Flávio Bolsonaro jogou no colo do carioca/paulista a
responsabilidade de conduzir os 60 milhões de brasileiros que votaram no filho
do Jair. Flávio, conduzido por desinteligência abissal, não entendeu que ele,
depois de perder a eleição, havia se transformado no principal líder da
oposição no Brasil. Seu partido elegeu 29 senadores, 121 deputados federais e
seis governadores estaduais, além de contar com o apoio de milhões de eleitores
que ficaram órfãos na política brasileira. Ele seria o principal nome da
política brasileira com chances de rivalizar com o presidente da República.
Poderia exercer a função de líder de uma oposição numerosa e eficaz. Jogou tudo
fora. Preferiu ir para Disneylândia e se alinhar sob o guarda-chuva de Donald
Trump.
Suas cartas, desesperadas, publicadas a
partir de Miami, demonstram o personagem à procura de um enredo. Ele tenta
vender a imagem de exilado político, perseguido pela suposta ditadura existente
no Brasil. É uma história que dificilmente irá convencer alguém. Ele concorreu
numa eleição livre, falou o que quis, defendeu seus pontos de vista, apareceu
na televisão para milhões de brasileiros quando argumentou em favor de seus
pontos de vista. E não há ordem de prisão contra ele no Brasil. Flávio não é
fugitivo. Além disso, na mesma eleição um irmão foi eleito senador, outro
deputado. E a madrasta foi eleita senadora em Brasília. Todos de oposição. E o
presidente do seu partido, Valdemar Costa Neto, reconheceu a derrota de acordo
com o figurino eleitoral. Nenhuma surpresa.
A reação esquizofrênica de Flávio Bolsonaro
vai entrar para a história política brasileira como acidente de percurso da
fantástica política do continente. Uma espécie de Jânio Quadros redivivo, com a
diferença que o ex-presidente era um homem culto. Jânio renunciou à Presidência
da República após oito meses de governo na expectativa de que o povo o chamasse
de volta. O povo não apareceu, e ele foi obrigado a embarcar para o exílio no
navio cargueiro que o levou para a Inglaterra. Flávio viajou em um jato privado
exclusivo, cujo custo alcança milhares de dólares por hora.
O suposto apoio de Javier Milei, presidente
da Argentina, e de Daniel Noboa, do Equador, coloca a política latino-americana
no nível do deboche. Donald Trump faz curtos comentários sobre a eleição no
Brasil, porque está ameaçado de perder a eleição nos Estados Unidos na próxima
semana. A guerra do Irã e a eleição em Israel são assuntos mais importantes do
que os pequenos problemas no continente. A tentativa de armar um eixo de
direita no continente só será realidade se os extremistas norte-americanos
conseguirem se manter no poder.
A política brasileira tem seus mistérios. Há
fios desencapados, neste momento, que pedem solução. A crise do Supremo
Tribunal Federal é séria e profunda. Governo ou oposição terão que tratar do
assunto. Flávio Bolsonaro, que mantém o cargo de senador até o final de janeiro
de 2027, poderia iniciar as tratativas. Legou aos senadores Rogério Marinho e
Teresa Cristina a responsabilidade de conduzir esse enfrentamento. Eles vão
comandar a oposição no Congresso. A decisão do ministro Alexandre de Moraes de
retirar o passaporte de Flávio Bolsonaro colocou a crise política brasileira na
ordem do dia. Aconteceu antes da posse dos novos parlamentares. Tudo foi
antecipado.
O presidente Lula, reeleito aos 81 anos, vai
governar com outro time. Ele terá que montar um governo mais ao centro, com
objetivos definidos, realizações nítidas e obras importantes. É difícil
insistir na política de aumentar impostos para compensar gastos extraordinários.
O bolsonarismo vai enfrentar o declínio. O PDT, de Brizola, não ultrapassou a
cláusula de barreira. O petismo vai sofrer modificações. Os partidos que vivem
ao redor de um líder tendem a se extinguir quando ele sai de cena. Outro
cenário vai surgir. E, finalmente, o Brasil desfrutará da chance de entrar no
século 21.

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