terça-feira, 22 de julho de 2008

DEU EM O GLOBO


IDÉIAS CEPALINAS
Míriam Leitão


A Cepal continua ainda, em vários aspectos, cepalina: defendendo a presença do Estado na economia e aceitando o controle de preços. Mas com algumas mudanças, como a inclusão da variável ambiental nas suas preocupações. Isso foi o que contou a nova secretária-executiva da Cepal, Alicia Bárcena, em entrevista exclusiva à coluna. Ela lembra que este será o quinto ano de crescimento do PIB per capita acima dos 3% na região e diz que, não fossem os baixos crescimentos de Brasil e México, o número seria bem melhor.


Alicia Bárcena é a primeira mulher a assumir o cargo; um avanço para uma região tão machista. Antes de ocupar o posto, ela foi diretora da Divisão de Meio Ambiente; outra notícia interessante. Este ano, a Cepal completou 60 anos, e seguindo a ONU, sua holding, agora começa a concentrar esforços na questão ambiental. Nas várias respostas que nos deu, Alicia fez questão de frisar essa nova variável.


Apesar de os tempos serem outros, a Cepal mantém a visão de que o Estado é peça importante no bom caminhar da economia, mas com a participação do setor privado.


- Sem Estado, não existe desenvolvimento eqüitativo nem sustentável; sem setor privado, não existe investimento. Mas o Estado não pode dirigir sozinho uma economia. Ele tem um papel imprescindível na provisão de bens públicos e para assegurar um desenvolvimento ambientalmente sustentável - afirma Alicia.


Ela reconhece que há ainda muitos problemas na região quando se trata de políticas de combate à mudança climática. Segundo Alicia, é preciso desenvolver ações mais coordenadas entre os países:


- A América Latina é a região do mundo que mais contribui para as emissões de gases de efeito estufa por causa do desmatamento; em maior parte, na Amazônia. E a redução de emissões custa muito menos que outras alternativas de mitigação.


Alícia elogia o sistema de monitoramento brasileiro da Floresta Amazônica, mas diz que é preciso ter noção clara de que "existem forças que operam no sentido contrário, como a alta dos preços mundial dos produtos agrícolas".


Perguntamos a ela sobre um outro tema crucial para a região: a energia. Como em todas as respostas, a nova secretária-executiva da Cepal começou elogiando os avanços para, logo em seguida, dizer sin embargo, e aí aparecerem todos os problemas de que temos conhecimento.


Assim sendo, fez elogios aos avanços, como os gasodutos, no entanto afirmou que "ainda falta muito para se alcançar um mercado comum de energia". E complementou que, ainda que tenham ocorrido importantes avanços nos países andinos, que eles foram muito menores nos países do Mercosul.


Muitos anos se passaram, porém, em diversos aspectos, a Cepal continua intervencionista como em outros tempos. Indagada sobre as opções de alguns países - leiam-se Argentina, Venezuela e mesmo México - pelo controle de preços, Alicia Bárcena afirmou que a Comissão não é contra o controle de preços ou do câmbio per se, mas que, neste momento, com uma inflação que considera de origem totalmente importada, essas políticas teriam efeito escasso ou nulo.


"Principalmente em países onde a demanda de alimentos depende principalmente das importações." Ela não citou, mas esse é o caso da Venezuela.


- Tais políticas poderiam fazer parte de um programa antiinflacionário, mas, para que tenham viabilidade, devem ser aplicadas dentro de uma disciplina que permita manter os equilíbrios macroeconômicos. Um controle de preços, por exemplo, num contexto de desequilíbrio das contas públicas, ainda que tenha sucesso para conter o impulso inflacionário, pode dar lugar a um problema de abastecimento.


No atual cenário, acredita ela, seria melhor agir através de subsídios ao campo, para expandir a produção. Contudo, nem todos os países têm recursos fiscais para esse tipo de política. (E, de nossa parte, é bom lembrar que políticas assim tendem sempre a beneficiar setores que são historicamente os grande beneficiados.)


Alicia discorda da idéia de que existem dois modelos econômicos diferentes na América do Sul, que separariam Brasil, Peru e Colômbia de Argentina, Venezuela e Equador. Ela afirma, de forma veemente, que o mercado funciona em todos eles, com responsabilidade fiscal e equilíbrio macroeconômico. Difícil concordar. A secretária-executiva diz que a região já aprendeu que não é razoável opor os investimentos nacionais aos estrangeiros. "Com nossos níveis de poupança, precisamos do aporte do investimento estrangeiro." Seu raciocínio é de que é preciso tirar melhor proveito desses investimentos - através, por exemplo, da absorção e troca de tecnologia.
À pergunta que não quer calar, por que a região cresce menos que o resto do mundo, Alicia trouxe um ponto interessante. Nos últimos anos, enquanto os gigantes asiáticos puxaram o crescimento da Ásia, os dois gigantes daqui - Brasil e México - fizeram o oposto. Dessa forma, se ambos fossem excluídos da conta, nos anos recentes, pelo menos, a região teria índice semelhante ao das demais do planeta. Culpa nossa.


Mas, claro, o principal da explicação para termos perdido o passo está nos fatores estruturais: baixo investimento em educação, inovação, ciência e tecnologia, ainda mais quando comparado com a Ásia. A conseqüência: baixa produtividade.


- Os futuros trabalhadores da Argentina e do Brasil precisam, ao menos, do ensino médio completo para ter boas opções de acesso a empregos qualificados, com um salário que lhes permita estar fora da pobreza. O ensino médio completo é o mínimo - conclui Alicia.

Veja o livro: O PODER E A CULTURA DE VIOLENCIA EM ALAGOAS,

Autor: RUTH VASCONCELOS

Editora: EDUFAL


Assista a entrevista, da Professora Ruth Vasconcelos no programa "Alagoas Arte e Cultura" exibido na TV Assembléia, Alagoas. É só acessar neste link



DEU NO JORNAL DO BRASIL

O PRIMEIRO MUNDO FECHA A PORTA
Marcelo Medeiros



Os imigrantes representam uma das principais preocupações dos europeus e dos americanos.

Todos os dias, centenas deles deixam seus países, com a esperança de fugirem da miséria ou dos conflitos armados, para aventurarem uma vida ilegal, mas promissora, em algum país desenvolvido.

O bloco dos 27 países da União Européia, em contrapartida, aumenta o controle de suas fronteiras e procura manter os estrangeiros cada vez mais afastados. Nos Estados Unidos, cujo maior problema são os imigrantes mexicanos, está sendo construído um muro na fronteira com o México.

A realidade que os imigrantes vêm encontrando tem sido cada vez mais penosa. Medidas coercitivas estão sendo adotadas: maior controle sobre a entrada de estrangeiros; punições mais severas para empresários que empregam imigrantes em situação irregular; programas de retorno voluntário aos seus países de origem ou simplesmente a expulsão.

A União Européia aprovou, no mês passado, uma lei que permite que os imigrantes fiquem detidos por até 18 meses sem qualquer acusação legal. Em outro artigo proíbe os estrangeiros expulsos de retornarem por cinco anos.

Esta política contrapõe-se às previsões das Nações Unidas, que calculou num estudo, feito em 2000, que o continente europeu deveria acolher 150 milhões de imigrantes até 2025 para compensar a queda da natalidade e manter sua atividade econômica.

Segundo o mesmo relatório, na última década, os estrangeiros foram responsáveis por 89% do crescimento demográfico na Europa. Sem eles, a população do continente teria sido reduzida em 4,4 milhões de indivíduos.

Na Espanha, a crise econômica, com alta taxa de desemprego (9,6%), levou o primeiro-ministro Zapatero a adotar medidas mais rígidas e criar um ministério da Imigração. Neste ano, até agora, 69 imigrantes morreram no mar ao tentarem atingir a costa mediterrânea da Espanha.

O chefe do governo espanhol cobrou dos países ricos, o cumprimento da promessa de destinarem 0,7% do PIB para o combate à pobreza. "Estamos em uma situação alarmante; ou ajudamos a África a lutar contra a pobreza extrema, ou o nosso Estado social estará em perigo".

O presidente francês que assumiu, neste mês, a presidência da União Européia (UE), quer fazer da imigração a sua grande bandeira. "A França ou a Europa não vão aceitar toda a miséria do mundo", afirmou Sarkozy. Ele propõe um "pacto europeu sobre imigração e asilo", que consiste, objetivamente, em fechar as portas do continente.

Na França, atualmente vivem 5 milhões de imigrantes (8% da população). Estimam-se os imigrantes ilegais entre 300 e 400 mil.

Nos cinco primeiros meses deste ano, aumentou em 80% o percentual de imigrantes ilegais expulsos do território francês.

Na Inglaterra, uma recente pesquisa de opinião revelou que seis entre 10 ingleses, defendem mais rigor no controle da imigração.

A população imigrante regular em Portugal se aproxima de meio milhão de pessoas. O que corresponde a 5% da população do país. A comunidade brasileira é a maior.

Quando os países do primeiro mundo têm desenvolvimento acelerado e querem mão-de-obra barata, aceitam imigrantes. Em épocas de crise econômica, desemprego e pré-estagnação, como a que estão vivendo os europeus e americanos, a tendência é a de não receberem imigrantes.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO


TANTO ESFORÇO PARA ISSO?
Eliane Cantanhêde


BRASÍLIA - Você já ouviu falar em Jô Moraes? Nem eu. Mas ela é deputada federal e está em primeiro lugar nas pesquisas para a Prefeitura de Belo Horizonte, contra tudo, contra todos e muito particularmente contra o governador Aécio Neves, do PSDB, e o prefeito da capital, Fernando Pimentel, do PT.

Jô Moraes parece ter tudo contra. Mulher e paraibana num Estado machista e bairrista, é filiada ao PC do B, partido pequeno e um tanto extemporâneo, e enfrenta dois Golias. Mesmo que acabe perdendo a eleição-o que parece muito mais natural até onde a vista alcança-, ela já fez uma proeza.

E uma proeza sobretudo por chacoalhar a espetacular aliança tucano-petista, construída à revelia da cúpula nacional do PT e dos ministros Patrus Ananias (Desenvolvimento Social) e Luiz Dulci (Secretaria Geral da Presidência). Ilustres desconhecidos no cenário nacional, os dois são bastante influentes em Minas, onde tentam ocupar o vácuo de liderança, essa, sim, efetiva e forte, do ex-prefeito Célio de Castro, afastado da política por um derrame em 2001 e morto no domingo.

Aécio e Pimentel enfrentaram todas as resistências, mantiveram a união e lançaram o nome de Márcio Lacerda, do PSB, para ser "imbatível". Mas ele está em... terceiro lugar! Em resumo, fizeram das tripas coração para chegar a uma vitória acachapante e cheia de significado sobre a conturbada relação atual e as possibilidade futuras entre PSDB e PT, mas não contavam com isso: a força deletéria da divisão petista sobre o ânimo do eleitorado e a emergência de Jô Moraes.

E o vice José Alencar? Dizem que também está com ela. Minas, portanto, continua produzindo os melhores momentos desta eleição. A espetacular costura PT-PSDB, o ciúme dos ministros mineiros, a surpresa da líder das pesquisas. É difícil Aécio e Pimentel perderem essa. Mas, se perderem, vai ser um vexame histórico.

DEU NO VALOR ECONÔMICO


GOVERNO MANTÉM APOSTA NA SUPERTELE
Raymundo Costa


No cálculo do governo, a menos que apareça uma irregularidade concreta capaz de desmanchar a operação, a criação da supertele de capital nacional, resultado do acordo da Oi com a BrT, está assegurada. Basta a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) concluir a consulta pública que convocou para discutir a revisão do Plano Geral de Outorgas (PGO), enviar suas sugestões ao Ministério das Comunicações e o presidente da República baixar o decreto com alterações nas regras estabelecidas à época da privatização do sistema Telebras, no ano da graça de 1998.

Pode ser, mas o inquérito aberto pela Polícia Federal contra o banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity, elevou muito a desconfiança sobre o sucesso da empreitada, que tem a chancela e a torcida entusiasmada do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Entre os que auxiliaram Daniel Dantas a se desfazer de sua posição acionária na BrT - minoritária, mas um entrave sem tamanho para a realização do negócio - nem sequer há duvida: a prisão do banqueiro e a divulgação de grampos telefônicos envolvendo personagens palacianos foram uma espécie de última tentativa de melar esse acordo.

Dantas e seu grupo detectaram a investigação da PF bem antes da publicação da reportagem da jornalista Andrea Michael na "Folha de S. Paulo", em fins de abril. À época, já com o acordo para que Dantas se desfizesse de suas ações em fase bastante adiantada, alguns do grupo concluíram que estava em curso uma operação para invalidar o negócio.

O grupo bem que tentou, mas não conseguiu confirmar nem a existência da investigação nem saber quem estava no encalço do banqueiro. Fechado o acordo e com a Anatel a caminho de lançar as âncoras legais para o negócio, a Operação Satiagraha jogou incertezas sobre o final da operação. Resta saber quais seriam os interessados em melar um acordo cujo interesse o governo não escondeu antes, durante e nem agora, depois que ele foi fechado e a Operação Satiagraha pode ameaçar sua conclusão.

Num PT dividido e em vácuo de poder, os suspeitos são muitos. Mas por enquanto não passam disso mesmo, suspeitos de especulações políticas que vão do razoável à paranóia. Há até quem ache que o delegado Protógenes Queiroz, numa caçada fundamentalista a Dantas atirou no que viu e acertou no que não viu. Difícil é provar. No crivo do Palácio do Planalto, até agora, não se viu nada até agora que possa levar ao cancelamento do acordo.

Operação da PF é ameaça ao projeto BrT-Oi

A convicção do governo na formalização da supertele é que nenhum ilícito foi detectado na ação de agentes públicos. O que há no Palácio do Planalto é o que auxiliares do presidente chamam de "desconforto" com as "ações de boa vontade" ou de " lobby" terem exposto pessoas como o chefe de gabinete do presidente, Gilberto Carvalho, flagrado numa conversa telefônica com Luiz Eduardo Greenhalgh, ex-deputado e advogado de Dantas na disputa societária.

Quem sabe das coisas no Planalto não desconhecia quem era o cliente de Greenhalgh. O advogado convenceu o Planalto que Dantas queria sair das teles; o Planalto entendeu que, sem Dantas, poderia levar adiante a supertele de capital nacional, projeto que considera estratégico na medida dos serviços de telecomunicações que podem ser agregados à telefonia fixa.

Elo entre Dantas e o Planalto, Greenhalgh está abatido. "Trabalhei um ano, seis meses dos quais levantando processos, convencendo o cara que o melhor era vender as ações, fazer o acordo", tem se queixado o ex-deputado em conversas privadas. "Terminou o acordo eu saí dessa história. Não tenho mais nada a ver com isso".

"Trabalhei um ano nesse assunto, e acho que fiz um bem para o país: ajudei a resolver o maior conflito societário do capitalismo moderno no Brasil", diz. Segundo acredita o advogado, "não havia a menor chance de ter uma supertele no Brasil com Daniel Dantas participando.

Agora Greenhalgh acha que está sendo crucificado por tudo o que Daniel Dantas faz ou fez "como se eu tivesse com ele nos últimos 40 anos". Teme estar entrando na mesma linha que julga trilhar José Dirceu. "O cara que é responsável por tudo, vai apanhar por tudo e vai pagar por tudo".


Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

DEU NO VALOR ECONÔMICO


DECLARAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS, 60 ANOS DEPOIS
Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo


"Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum. Considerando essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo Estado de Direito, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra tirania e a opressão."

Declaração Universal dos Direitos Humanos, 17 de dezembro de 1948.


A Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 60 anos. As décadas de 20 e 30 do século passado, os mais velhos sabem, testemunharam o massacre humano generalizado e a tragédia do Holocausto. A experiência do inumano não deixou outro caminho aos sobreviventes senão o da reafirmação e atualização da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão promulgada em 1789. Descontadas as manobras humanitárias da IV Frota, hoje, os princípios exarados nas declarações estão em franco declínio, a despeito da retórica democrática, como bem observou Luciano Cânfora.

Selecionei para uma exposição livre os artigos XI, XII, XIX, XXV, XXVI da Declaração de 1948. Lá vai. Toda a pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público, no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa. Ninguém poderá ser inculpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituam delito perante o direito nacional ou internacional. Tampouco será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.

É considerada intolerável a interferência na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, (e atenção!) e o desrespeito à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques. O cidadão (note o leitor, o cidadão) tem direito à liberdade de opinião e de expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações por quaisquer meios e independente de fronteiras.

Na impossibilidade de encontrar meios adequados para conter a violência e a onda criminosa, a sociedade civil apela para medidas extremas

Todos têm direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistências especiais. Todas as crianças nascidas dentro ou fora do matrimônio gozarão da mesma proteção social. A instrução é um direito de todos e ela será gratuita pelo menos nos graus elementares e fundamentais. Termino com o artigo XVII, especialmente dedicado a Bush filho: "Toda pessoa terá direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados".

Tenho a impressão que, transcorridos 60 anos da promulgação desse cardápio de boas intenções, a opinião da maioria continua desconfiada do respeito às formalidades da lei. Exige uma solução mais rápida e drástica para a realização da justiça, ainda que à custa de tropelias ilegais. (Quanto aos direitos sociais e econômicos, sofrem o ataque sistemático da aliança plutocrático-midiática)

Vou me valer de um texto de Paul Veyne sobre Michel Foucault, um dos estudiosos das formas históricas assumidas pelas instituições encarregadas de vigiar e punir.

As metamorfoses do direito penal ao longo da história, diz Foucault, revelam que não é suficiente dizer que sob o Antigo Regime as punições atrozes refletiam a "rudeza dos costumes". Nos suplícios terríveis dessa época, a soberania real se abatia com toda a sua força sobre indivíduo rebelde. As cerimônias cruéis tinham o propósito de mostrar a todos a desproporção de forças entre o rebelde e o rei.

Desde a Idade das Luzes, a punição, inflingida por um aparato administrativo especializado, torna-se preventiva e corretiva. A prisão é uma técnica coercitiva para reeducar o cidadão que desrespeitou a lei. Michel Focault procura mostrar, em sua investigação arqueológica, que não se trata apenas de um progresso humanitário, mas de uma mudança radical do discurso sobre os padrões de convivência entre os humanos.

O Estado, enquanto detentor do monopólio da violência, está permanentemente dilacerado entre o dever de impor tempestivamente a sanção legal aos transgressores da lei e a missão de impedir que a sociedade seja submetida à tirania do soberano absolutista e à crueldade de seu métodos punitivos. Paradoxalmente, como diz o preâmbulo da Declaração, a inobservância do princípio da legalidade processual está prestes a reinstaurar a guerra privada e o favorecer o aparecimento de alguma forma de despotismo extralegal.

Na impossibilidade de encontrar os meios adequados para conter a violência e a onda criminosa, o temor hobbessiano da destruição e da morte engendram a fuga para as campanhas de opinião que apelam para medidas extremas. São manifestações de impotência, travestidas de ações da sociedade civil, em cujos becos e desvãos escuros se acumulam os miasmas que intoxicam a vida social com os venenos da suspeita generalizada e do medo.

O problema, hoje, não está rudeza dos costumes, digna da inteligência de chimpanzés, ou coisa pior. Graves são a desagregação do aparelho de Estado, a autonomização e a falta de transparência das burocracias encarregadas de vigiar e punir, e sua aliança ameaçadora com o poder repressivo "privado" das grandes corporações da mídia. Essa mixórdia institucional reflete as angústias que transtornam a alma da sociedade.

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, e professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, escreve mensalmente às terças-feiras.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1033&portal=

DEU EM GRAMSCI E O BRASIL


O CAOS DA ESFERA PÚBLICA
Jürgen Habermas
Tradução: Peter Naumann

Quando o diretor do Instituto Karl Renner me comunicou a agradável notícia de que o júri pretendia conferir-me no corrente ano o Prêmio Bruno Kreisky [por avanços na área de direitos humanos; Kreisky (1911-90) foi ministro das Relações Exteriores da Áustria], não me senti apenas motivado a refletir sobre o aspecto estimulante da situação feliz de encontrar tanto reconhecimento imerecido, após décadas de conflitos e de uma imagem tendencialmente controvertida.

Após um estudo mais convencional de filosofia, ingressei em 1956 no meio pouco familiar do Instituto Frankfurtiano de Pesquisas Sociais, onde tive de me familiarizar durante os preparativos de uma pesquisa empírica também com a bibliografia (então ainda exclusivamente jurídica) sobre o Estado de Direito e a democracia.

Por um lado, os debates entre os grandes representantes da teoria do direito do Estado da República de Weimar me pareceram estimulantes, mas não consegui estabelecer uma relação mais apropriada entre os conceitos normativos da ciência jurídica e a teoria da sociedade — sob cujo influxo tentava compreender a realidade política da atualidade de então.

Estado de Direito

Foi a leitura de um livro que me abriu os olhos para o nexo entre economia política e direito. Publicado em 1929 sob o título áspero Os institutos jurídicos do direito privado e a sua função social, remontava a estudos realizados pelo jovem Karl Renner na virada do século, quando seu autor trabalhava como bibliotecário do Parlamento austríaco de então.

Foi assim que entrei em contato com os escritos dos marxistas austríacos, nos quais encontrei três idéias de cuja ausência me ressentia enquanto assistente de Theodor W. Adorno [1903-69] em Frankfurt: em primeiro lugar, a vinculação natural entre teoria e práxis política.

Em segundo lugar, a abertura nada tímida da teoria social marxista diante das descobertas da ciência acadêmica (uma atitude da qual Horkheimer e Adorno se tinham distanciado novamente desde a Dialética do esclarecimento).

E, em terceiro lugar — e sobretudo —, a identificação sem reservas com as conquistas do Estado democrático de Direito sem o abandono de objetivos radicalmente reformistas, voltados para horizontes muito além do status quo.

No meu caminho do marxismo de matriz hegeliana na direção de um pragmatismo kantiano, o livro de um outro austromarxista me deu um estímulo similarmente rico em conseqüências no final dos anos 60. Refiro-me à obra tardia de Max Adler [1873-1937], publicada em 1936 sob o título O enigma da sociedade.

Ao introduzir um “a priori social”, Adler não evoca apenas a constituição social da nossa consciência do ego e do nosso conhecimento do mundo; inversamente, a construção dos nexos da vida social também deve se assentar em atos do conhecimento.

A própria sociedade se baseia, então, na facticidade de pretensões de validade, que reivindicamos nas nossas exteriorizações comunicativas. Assim, Adler fundamenta, muito similarmente ao Husserl [1859-1938] tardio, uma referência à verdade de enunciados e correção de normas, imanente à sociedade.

Apesar de toda a sua insistência na cientificidade, Otto Bauer [1882-1938] e Rudolf Hilferding [1877-1941], Karl Renner e Max Adler se consideravam intelectuais de partido, que se submetiam à coação disciplinadora da tática e da organização, quando o momento assim o exigia. Mas, como democratas, faziam uma idéia inteiramente distinta do papel do partido do que o Lukács leninista em História e consciência de classe.

Seja como for, a figura do intelectual de partido pertence ao meio hoje já histórico dos partidos que perfilhavam uma visão de mundo esquerdista. Após 1945, esse tipo não pôde mais subsistir no Ocidente.

Os sem-partido

Diante desse fundo, o tipo do intelectual contemporâneo, sobre o qual pretendo falar, adquire contornos muito nítidos: os intelectuais que entraram em cena depois de 1945 — tais como Sartre, Adorno e Marcuse, Max Frisch e Heinrich Böll — tendem a se assemelhar aos modelos mais antigos dos escritores e professores universitários que tomam partido, mas não estão vinculados a nenhum partido.

Sem serem perguntados, isto é, sem mandato nem votação, eles se deixam provocar pela ocasião a fazer um uso público do seu saber profissional além dos limites da sua profissão. Sem a pretensão a um estatuto elitista, não podem invocar outra legitimação senão o papel do cidadão democrata.

Na Alemanha, as raízes dessa autocompreensão igualitária remontam à primeira geração depois de Goethe [1749-1832] e Hegel [1770-1831].

Os irrequietos literatos e livres-docentes do círculo da “Jovem Alemanha” e dos hegelianos de esquerda definiram o perfil do intelectual pairando livremente acima da sociedade — na qual intervinha espontaneamente, muitas vezes choroso, polemicamente excitado e imprevisível — assim como definiram os preconceitos arraigados contra ele.

Não por acaso, a geração de Ludwig Feuerbach, Heinrich Heine e Ludwig Boerne, Bruno Bauer, Max Stirner e Julius Froebel, Marx, Engels e Kierkegaard entrou em cena antes de 1848, quando o parlamentarismo e a imprensa de massa se formavam sob as asas protetoras do liberalismo incipiente.

Peixes fora d'água

É já nesse período de incubação, quando o vírus da Revolução Francesa se alastrou por toda a Europa, que se manifesta a constelação na qual o tipo do intelectual moderno encontrará o seu lugar. Ao influírem com argumentos retoricamente afiados na formação da opinião, os intelectuais dependem de uma esfera pública capaz de lhes servir de caixa de ressonância, alerta e informada.

Necessitam de um público de orientação mais ou menos liberal e precisam confiar num Estado de Direito minimamente encaminhado pelo simples fato de apelarem a valores universalistas em meio ao litígio sobre verdades sufocadas ou direitos negados.

Pertencem a um mundo no qual a política não se dissolve na atividade do Estado; seu mundo é uma cultura política da contradição, na qual as liberdades comunicativas dos cidadãos podem ser desencadeadas e mobilizadas.

É simples projetar o tipo ideal de intelectual que rastreia temas importantes, levanta teses fecundas e amplia o espectro dos argumentos pertinentes para melhorar o nível deplorável dos debates públicos.

Por outro lado, eu não deveria sonegar aqui a ocupação mais querida dos intelectuais: eles adoram sintonizar-se com as queixas rituais sobre o declínio “do” intelectual. Confesso não estar inteiramente livre dessa tendência.

Será que não sentimos falta das grandes entradas em cena e manifestos do Grupo 47, das intervenções de Alexander Mitscherlich ou Helmuth Gollwitzer, dos posicionamentos políticos de Michel Foucault, Jacques Derrida e Pierre Bourdieu, os textos de intervenção de Erich Fried ou Günter Grass? Será que a culpa realmente cabe a Grass, se as suas vozes hoje praticamente só encontram ouvidos moucos? Ou será que na nossa sociedade midiática não ocorre uma nova mudança estrutural da esfera pública, que faz mal à figura clássica do intelectual?

Por um lado, a reorientação da comunicação, da imprensa e do jornalismo escrito para a televisão e a internet conduziu a uma ampliação insuspeitada da esfera pública midiática e a uma condensação ímpar das redes de comunicação.

A esfera pública, na qual os intelectuais se moviam como os peixes na água, tornou-se mais includente, o intercâmbio é mais intenso do que em qualquer época anterior.

Maldição

Por outro lado, os intelectuais parecem morrer sufocados diante do transbordamento desse elemento vivificador, como se ele lhes fosse administrado em overdose. A bênção parece transformar-se em maldição. As razões para isso me parecem ser uma informalização da esfera pública e uma indiferenciação dos correspondentes papéis.

A utilização da internet simultaneamente ampliou e fragmentou os nexos de comunicação. Por isso a internet produz por um lado um efeito subversivo em regimes que dispensam um tratamento autoritário à esfera pública. Por outro lado, a interligação em redes horizontais e informalizadas de comunicação enfraquece ao mesmo tempo as conquistas das esferas públicas tradicionais, pois estas enfeixam no âmbito de comunidades políticas a atenção de um público anônimo e disperso para informações selecionadas, de modo que os cidadãos podem ao mesmo tempo se ocupar dos mesmos temas e contributos criticamente filtrados.

O preço do aumento positivo do igualitarismo, com o qual a internet nos brinda, é a descentralização dos acessos a contribuições não-redigidas. Nesse meio, as contribuições de intelectuais perdem a força necessária para formar um foco.

Não obstante, seria apressado afirmar que a revolução eletrônica destrói o palco para as aparições elitistas de intelectuais vaidosos, pois a televisão, essencialmente atuante no âmbito das esferas públicas estabelecidas nos Estados nacionais, apenas fez aumentar o espaço do palco da imprensa, das revistas e da literatura.

Ao mesmo tempo a televisão transformou o palco. Deve mostrar em imagens o que quer dizer, e acelerou o iconic turn, a virada da palavra para a imagem. Essa desvalorização relativa desloca também os pesos entre duas funções distintas da esfera pública.

Como a televisão é um meio que torna algo visível, confere celebridade no sentido de notoriedade aos que aparecem em público. Os atores sempre representam a si mesmos diante da câmera, independentemente da sua contribuição ao conteúdo do programa. Por isso o espectador se lembra em encontros fortuitos de ter visto o rosto do outro em algum momento passado.

Mesmo se o conteúdo remete a um evento discursivo, a televisão convida os participantes à representação de si mesmos, como podemos observar em muitos talk shows. O momento da auto-representação dos atores transforma inevitavelmente o público judicante — que, diante da tela, participa do debate sobre temas de interesse geral — também em um público assistente.

Celebridade e reputação

Não se diga que esse traço não cai como uma luva na vaidade patológica dos intelectuais; alguns se deixaram corromper pelo convite do meio à auto-representação, prejudicando assim a sua fama, pois o bom nome de um intelectual, se é que ele existe, não se baseia em primeiro lugar na celebridade ou notoriedade, mas em uma reputação, que o intelectual deve ter adquirido entre seus pares de profissão, seja como escritor ou como físico (de qualquer modo, em alguma especialidade), antes de poder fazer um uso público desse saber ou dessa reputação.

Ao intervir num debate com argumentos, ele precisa se dirigir a um público não de assistentes ou espectadores, mas de oradores e destinatários potenciais, capazes de discutir uns com os outros. Para expressar isso à maneira de um “idealtipo” — segundo o sentido de Max Weber —, importa aqui a troca de razões, e não o enfeixamento encenado de olhares.

Talvez isso explique porque as rodas de políticos, especialistas e jornalistas, que se formam em torno dessas moderadoras feéricas, não deixam nenhuma lacuna que deveria ser preenchida por um intelectual.

Não sentimos sua falta, pois todos os outros já há muito tempo cumprem melhor o seu papel. A mistura de discurso e auto-representação conduz à indiferenciação e assimilação de papéis, que o intelectual, hoje démodé, outrora se via obrigado a manter separados.

O intelectual não deveria usar a influência ganha com palavras como meio de conquista de poder. Não deveria, portanto, confundir “influência” com “poder”. Mas ainda hoje, nos talk shows, o que poderia distingui-lo dos políticos, que há muito tempo se servem do palco da televisão para uma concorrência intelectual em busca da ocupação de temas e conceitos influentes?

Faro vanguardista

O intelectual também não é requisitado como especialista.

Sem perder a consciência da sua falibilidade, ele deveria ter a coragem para posicionamentos normativos bem como a fantasia necessária para a formulação de perspectivas imaginativas. Mas o que poderia distingui-lo hoje ainda de especialistas, que há muito tempo aprenderam na discussão com especialistas de opinião contrária o que devem fazer para oferecer uma interpretação de seus dados que defina eficazmente a opinião dos ouvintes?

Por fim, o intelectual deveria se distinguir do jornalista inteligente menos pela forma da apresentação e mais pelo privilégio de ter de se ocupar apenas paraprofissionalmente dos assuntos da coletividade.

Ele só deveria intervir, mas intervir em tempo hábil — à semelhança de um sistema de alarme antecipado —, quando a vida cotidiana sai dos trilhos.

Com isso mencionamos a única capacidade que deveria distinguir o intelectual também no presente, a saber, o faro vanguardista para relevâncias. Ele deve poder interessar-se por desenvolvimentos críticos num momento no qual os outros ainda se detêm no business as usual.

Isso exige algumas virtudes inteiramente não-heróicas: uma sensibilidade desconfiada diante de lesões da infra-estrutura normativa da sociedade; a antecipação cautelosa de perigos que ameaçam a dotação mental da forma da vida política comum; o senso do que falta e “poderia ser diferente”; um pouco de imaginação para a projeção de alternativas; e um pouco de coragem para a polarização, a manifestação inconveniente, o panfleto.

Dizer isso é uma coisa, fazê-lo outra, e isso sempre foi assim. O intelectual deve poder se inquietar e deveria possuir a faculdade de juízo necessária para não reagir extremadamente.

Seus críticos — de Max Weber e Joseph Schumpeter a Arnold Gehlen e Helmut Schelsky — sempre lhe lançaram a acusação da “excitação estéril” e do “alarmismo”. Ele não deve se deixar intimidar por essa acusação. Mais influente como intelectual, Sartre errou nos seus juízos políticos com maior freqüência do que Raymond Aron.

Por outro lado, o faro para relevâncias também pode descarrilar terrivelmente.

O que mais me estimula hoje — o futuro da Europa — é visto por outros como uma questão abstrata e entediante. Por que deveríamos nos interessar por um tema tão pálido?

A minha resposta é simples: se não conseguirmos fazer da pergunta polarizadora pela finalidade, pelo “para quê” da unificação européia — o tema de um referendo em todos os Estados-membros da União Européia até as próximas eleições européias em 2009 —, o futuro da União Européia será decidido no sentido da ortodoxia neoliberal.

Se evitarmos esse tema delicado em nome de uma paz enganosa e continuarmos com essas medidas de expedientes, tomadas no costumeiro caminho das soluções de meio-termo, daremos livre curso à dinâmica dos mercados desenfreados e assistiremos ao desmonte do próprio poder de configuração política da União Européia, em benefício de uma difusamente ampliada zona européia de livre comércio.

No processo de unificação da Europa, estamos pela primeira vez diante do perigo de uma recaída aquém do patamar atingido da integração. O que me inquieta é a rigidez da paralisia após o fracasso dos dois referendos sobre a Constituição, na França e Holanda. Nessa situação, a ausência de decisão é uma decisão de grande alcance.

O impasse europeu

Três problemas que nos afligem diretamente enovelam-se no problema único da deficiente capacidade de ação da União Européia:

1. Alteradas no curso da globalização, as condições da economia mundial proíbem hoje ao Estado nacional servir-se dos recursos oriundos da arrecadação de tributos, sem as quais ele não pode mais atender, na escala necessária, as costumeiras exigências da política social e, mais genericamente, a demanda de bens coletivos e serviços públicos.

Outros desafios, como o desenvolvimento demográfico e uma imigração maior, agravam essa situação, que só admite uma saída pela via ofensiva: a recuperação da força de configuração política no plano supranacional. Sem alíquotas convergentes de tributos, sem uma harmonização das políticas econômicas e sociais no médio prazo, deixaremos o destino do modelo social europeu nas mãos de terceiros.

2. O retorno a uma política brutalmente hegemônica de busca do poder, o choque do Ocidente com o mundo islâmico, a decomposição de estruturas estatais em outras partes do planeta, as conseqüências de longo prazo da história colonial e as conseqüências políticas diretas de uma descolonização fracassada: tudo isso sinaliza uma situação mundial extremamente perigosa.

Somente uma União Européia que se habilita à ação no plano da política externa e assume um papel relevante em termos de política mundial, ao lado dos EUA, da China, da Índia e do Japão, poderia fomentar nas instituições existentes da economia mundial uma alternativa ao predominante Consenso de Washington e fazer avançar, sobretudo no interior da ONU, as reformas há muito tempo vencidas, entrementes bloqueadas pelos EUA, mas dependentes do seu apoio.

3. As causas da cisão do Ocidente, visível desde a Guerra do Iraque, também residem em um conflito de culturas que divide a própria nação norte-americana em dois campos de dimensões praticamente iguais. Na seqüência desse deslocamento mental, os critérios de aferição normativa da política governamental, até agora vigentes, se desconcertam por igual. Isso não pode deixar indiferentes os aliados mais estreitos dos EUA.

Justamente nas situações críticas em ações conjuntas, devemos nos libertar da dependência do parceiro mais forte.

Até agora os europeus se subordinaram às instruções e regras do alto comando norte-americano nas missões da Otan [aliança militar ocidental]. Agora devemos nos capacitar para manter, mesmo em ações conjuntas, a fidelidade às nossas próprias idéias sobre o direito internacional público, a proibição da tortura e o direito penal em conflitos bélicos.

Democracia

Por isso, penso que a Europa deve se mobilizar para uma reforma que não confira à União Européia apenas procedimentos decisórios efetivos, mas a dote de um ministro de Relações Exteriores, um presidente eleito pelo voto direto e uma base financeira própria. Tais exigências poderiam ser o objeto de um referendo, que poderia ser combinado com as próximas eleições para o Parlamento Europeu.

O anteprojeto seria considerado aceito caso obtivesse a “maioria dupla” dos Estados-membros e dos votos dos cidadãos. Ao mesmo tempo, o referendo vincularia apenas os Estados-membros em que a maioria dos cidadãos teria decidido em favor da reforma.

Com isso a Europa daria adeus ao modelo do comboio de navios no qual o mais lento define a velocidade. Mesmo em uma Europa de centro e periferia, os Estados-membros que por enquanto preferem ficar à margem naturalmente continuariam com a opção de associar-se ao centro quando bem quisessem.

Os políticos com o faro orientado para o futuro podem levar os intelectuais a reboque.

DEU NO JORNAL DO BRASIL


A REPÚBLICA, DE FLORIANO A LULA :: WILSON FIGUEIREDO
Wilson Figueiredo
jornalista


Ninguém mais perde tempo em atribuir a Lula, mordendo a língua, a responsabilidade pelo que vem acontecendo ao Brasil. Nada pega de muda na sua biografia. O presidente não quer saber de observações contrárias à alta avaliação que faz a seu próprio respeito. Dá como feitas obras ainda no papel e saca pesado contra a História que lhe abriu crédito sem teto. Lula usa cartão corporativo para quitar-se, no presente e no passado, do país que não tira os olhos do futuro.

O brasileiro já parece disposto a esperar o resultado das revelações escabrosas para falar. Foi mesmo a situação geral que elegeu o presidente Lula. O Brasil atual só pode ser obra de vários governos. Falta saber quando foi que o Brasil começou a retroagir moralmente. Vai ver que desde as caravelas. Já está claro que o passado não absolve, mas esquece. O futuro, já dizia Santo Agostinho, tem o inconveniente de estar sempre atrasado e, quando se procura por ele, já vai longe. O Brasil continua esperando. Se o Brasil não deve a Lula o espetáculo de baixo nível ético, não pode desconhecer que o elegeu. É natural a má vontade. O esgotamento da social-democracia no governo anterior, além da reeleição, criou condições para Lula abrir espaço social à cidadania mínima. Elas por elas. E assim se conta como Lula deu a mão àquelas faixas sociais batizadas com letras do alfabeto mas ainda sem acesso à educação e à saúde públicas. Com o Bolsa Família e outras fontes de sobrevivência mínima, o presidente fez o seu nicho na História do Brasil. Ainda ativou a Polícia Federal e tirou o pão da boca da oposição.

Já que o show não pode parar e a ação policial muito menos, já que não foi Lula quem incrementou as roubalheiras, nada o impede de fazer o levantamento das responsabilidades alheias, mas sem a tradicional separação de bons e maus ladrões. "Ou todos comem ou haja moralidade" é a retumbante máxima republicana que continua válida, apesar da omissão do nome do seu autor, o marechal Floriano Peixoto, de quem Lula poderia aproveitar lições contundentes. Diante de um pedido de autorização para pagamento de obras públicas, o marechal estranhou o custo e exigiu explicações. Teve-as, mas não se satisfez e, como era hora de pagar, não perdeu tempo. Antes da assinatura, Floriano lavrou de próprio punho o despacho com a ressalva: "Pague-se, mas que ladrões". Lula bem poderia valer-se do precedente histórico e homenagear o consolidador da República quando aqui chegar a IV Frota americana. Diante da fermentação política que azedava os sonhos republicanos, o embaixador britânico sondou o governo sobre como seria recebido o desembarque de marinheiros ingleses para ajudar a manter a ordem pública. O presidente Floriano não se fez de rogado: "a bala".

Desde que o governo Lula ficou mais visível que previsível, não custa procurar aonde foi parar a idéia do terceiro mandato recusado com firmeza digna de desconfiança. A candidatura da ministra Dilma Rousseff é auto-insustentável. Se o presidente se render ao imprevisível, a ministra será a primeira a reconhecer que a prioridade é de quem a tem, ou seja, dele – Lula. Nada impede os fatos de tomarem outro rumo sem consultá-lo. É por aí que o terceiro mandato se esconde numa situação que comporta variantes de todos os matizes.

No seu tempo, Machado virou do avesso aquele ditado popular que reconforta os pobres com a ressalva e a rima de que é a ocasião que faz o ladrão. Sempre atento à natureza humana, ele considerava que o ladrão nasce feito. O dote vem do berço e a ocasião é fortuita, seja pobre, rico ou remediado o ladrão. Por ser mais antiga do que a teoria, a desigualdade social na questão do roubo nem foi abordada por Rousseau. Aliás, ladrão paira acima da ocasião, que não apenas propicia o roubo como beneficia o ladrão, e ainda sobra para os advogados.

A rigor, nem a ocasião garante o ladrão, depois que a quebra da trinca dos sigilos mais produtivos – telefônico, fiscal e bancário – passou a dar testemunho.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

ILUSÕES PERDIDAS
Fernando de Barros e Silva

SÃO PAULO - Num país tão brutalmente desigual, soa até ofensivo perguntar se a Justiça é elitista. Como? Claro que sim, como a saúde e a educação, direitos universais no papel. Os que não podem pagar (professor, médico ou advogado) se viram na moenda social brasileira.

Essa é também uma sociedade autoritária. Escravocratas durante séculos, seguimos patrimonialistas. E saímos de uma ditadura de duas décadas há pouco mais de 20 anos. Essas marcas estão inscritas na maneira de pensar, no país que conseguimos ser: ainda desiguais demais, ainda democratas de menos.

O "affaire Dantas", além do potencial explosivo, é rico porque traz à tona esse núcleo de problemas: privilégio e impunidade de um lado, demanda por justiça social e por lei para todos, de outro.

A simpatia popular pende para o elo mais fraco -neste caso, o delegado da PF, o que por si só é uma boa ironia. Não se deve caluniar a polícia abstratamente, disse o filósofo Adorno ao amigo Marcuse, pouco antes de morrer em 1969.

Mas não se deve também relevar o viés autoritário ou os abusos heterodoxos do inquérito (como se fossem "só" males menores) em nome do desejo por justiça.

Não é preciso querer livrar a cara dos vilões para notar que ninguém nessa história faz boa figura. Este parece ser o xis da questão. A polícia atropela a lei para combater privilégios; advogados invocam a lei para preservar os mesmos privilégios. Quantos interesses inconfessáveis escondem cada intenção geral?

Talvez este episódio nos coloque diante do que o crítico Roberto Schwarz chamou de "desigualdade social degradada", a saber: esgotada a perspectiva histórica de uma vida nacional e coletiva decente, a sociedade se reproduz mais e mais e de cima abaixo sob o signo da delinqüência. Daniel Dantas seria, tanto quanto Fernandinho Beira-Mar, um tipo capaz de iluminar a trama contemporânea do país.

Ficamos ainda sem saber se é um prenúncio de boas novas ou um sintoma dos limites do Brasil.

DEU NO VALOR ECONÔMICO


OPERAÇÃO SATIAGRAHA
Fábio Wanderley Reis


A confusão criada em torno da operação Satiagraha da Polícia Federal leva talvez sobretudo a uma indagação: temos "patrimonialismo", com o Estado exposto à sanha de interesses privados poderosos, ou temos antes "abuso de autoridade" por parte do Estado? Ou será que as duas coisas se ligam, sendo uma a contraface da outra?

Apontei aqui, há algum tempo, a ambiguidade envolvida no que caberia desejar quanto à autonomia do Estado. Por um lado, se pensamos na "soberania popular" e na imagem de um "povo" homogêneo que ela evoca, parece claro que o Estado não pode ser autônomo; por outro, se o Estado se relaciona com uma sociedade desigual, sua sujeição ao povo supostamente soberano pode redundar em que ele se transforme, no limite, no "comitê executivo" de interesses privados poderosos. Que dizer de uma situação, como a nossa, em que o tamanho da desigualdade permite à linguagem corrente contrapor com clareza um "povão" - numeroso, pobre e ignorante - a uma parcela comparativamente reduzida da população que se poderia pretender aproximar, por alguns traços, do "povo" idealizado e soberano?

Estado subjugado ou abuso estatal?

Menos mal que o "povão", sendo numeroso, ganha eleições, o que, se a democracia e o sufrágio se garantem, não pode senão ter, no longo prazo, efeitos democratizantes sobre o Estado e a sociedade. Mas as vicissitudes do processo acumulam feições contraditórias em que a ambiguidade fundamental ganha dramaticidade e que o noticiário recente sobre as atividades do braço policial ou armado do Estado deixa ver: de um lado, ações desastradas ou diretamente criminosas de forças policiais ou militares que comprometem - em geral para o "povão" - o próprio direito à vida; de outro, uma PF aparentemente imbuída do espírito de luta contra o que ela mesma vê como o "mal" e que se traduz direta e explicitamente em termos de indevida apropriação privada do Estado.

O diabo é que, se nos voltamos para o plano econômico-financeiro, não há como carimbar negativamente, de maneira taxativa, sequer a aproximação, afim à idéia de patrimonialismo, entre o Estado e interesses privados.


Que dizer, por exemplo, de uma entidade como o BNDES?


Os juros módicos de seus empréstimos à iniciativa empresarial são sem dúvida defensáveis em nome do interesse público, destinando-se a permitir investimentos e crescimento que supostamente beneficiam a todos (a assimilação, em algum grau, entre interesse empresarial e interesse público constitui, em muitas análises, importante fator a viabilizar a própria democracia).


Mas eles não só resultam, ocasionalmente, em autênticas doações de recursos volumosos a ricos empresários (como nos tempos de juros reais negativos diante da inflação); eles permitem também, como Raquel Balarin destacava em sua coluna de 16 de julho neste jornal, a especulação financeira por parte dos bancos, a jogar, de modo perfeitamente legal, com o diferencial entre a taxa de 6,25% ao ano cobrada pelo BNDES e os 12,25% da taxa Selic. Se isso é possível, se lobbies ou grupos de pressão constituem também uma atividade em princípio aceitável, torna-se, naturalmente, problemático (ainda que seja fácil ver corrupção no extremo do suborno de delegados) situar o ponto em que começa o condenável "tráfico de influência" de um Daniel Dantas - cujo alcance notável acaba por incomodar de imediato ao governo, calar a boca da oposição, mobilizar a ira de Gilmar Mendes e levar os deputados em geral ao gracejo algo assustado de transformar Satiagraha em "essa me agarra"...

Mas, na dinâmica de nossa sociedade desigual, a própria Justiça surge dividida nos eventos que se desenrolam. Por certo, o Judiciário tem papel crucial a cumprir para a "boa" autonomia do Estado, encarregado de zelar imparcialmente pelo império de leis neutras diante dos interesses diversos. Mas não é de surpreender, numa sociedade de larga experiência escravista e aristocrática, que a Justiça em geral manifeste ainda um viés elitista em sua atuação, e que também aos seus olhos alguns acabem sendo mais cidadãos do que outros. Certamente há matizes, que respondem em parte pela divisão observada. Sem falar da Justiça do Trabalho, em que o viés em favor de empregados ou trabalhadores é notório há tempos, o antigo conservadorismo dos profissionais ligados à área do Direito tem sido substituído, como mostram pesquisas recentes, pelo apego majoritário dos juízes à idéia de justiça social como referência e orientação, em vez da letra da lei. Aí se desdobra de modo importante a idéia de um Estado (e um Judiciário como seu instrumento) autônomo e capaz de neutralidade: seria preciso alcançar uma neutralidade de "segundo grau", em que o fundamento por excelência do acesso de todos à Justiça e da adequada e igualitária garantia dos direitos civis (e políticos) esteja no avanço social geral e na eventual condição igualitária da sociedade como tal.

É possível destacar o aspecto pelo qual a referência à justiça social, em vez do apego à letra da lei, converge com o ativismo legislativo que a cúpula do Judiciário tem defendido com respeito à sua própria ação. Seja como for, é com certeza relevante o fato de que, quanto a essa cúpula, a veemência indignada e a singular rapidez na denúncia dos abusos de autoridade e nas decisões correspondentes ocorram quando tudo mostra a vítima dos presumíveis abusos como o mentor de avanços singularmente ousados de interesses privados sobre o Estado.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

DEU EM ZERO HORA


É MELHOR CUMPRIR A LEI
Paulo Brossard


Fatos dos últimos dias estão a revelar falta de unidade do governo, que é comum quando muitos mandam e ninguém obedece. O presidente da República, ao retornar do giro diplomático empreendido, acostumado como está a opinar e doutrinar a respeito de tudo, chegou a ordenar o retorno de um delegado de polícia ao posto de que se afastara ou fora afastado, e o delegado que fora ou não afastado diz que vai, mas não vai, porque não fará nenhuma investigação, não presidirá nenhum inquérito. E agora? Mas o presidente também disse que não gostou do espetáculo publicitário que tem marcado atos policiais que nada recomendam à necessária discrição inerente ao governo e à administração. No meio desse alarido oficial, aqui e ali, alguma coisa parece estar mudando.

Misturando elementos vários, como justiça e corrupção, governo e permissividade, não será difícil separar coisas tão diferentes. De uma parte, impressionados com as dimensões da corrupção, muitos entendiam, ou pelo menos deixavam entrever, que para combatê-la tudo era permitido, fosse ou não autorizado por lei, enquanto outros pensavam que o ferro em brasa, apto a escoimar a pústula, não excluía ter presente os ditames da lei, de modo a não claudicar no alvo e no modo de enfrentá-lo. Em outras palavras, o combate rijo à corrupção para uns não se sujeitaria aos limites legais, para outros a firmeza na luta contra o câncer social inegável, mais acertado seria se atentasse aos preceitos existentes, talvez menos rápidos, mas mais seguros. As divergências, em verdade, refletiam o perfil mental das pessoas, sua formação e as respectivas experiências de vida.

Enfim, uns queriam extirpar o mal de um golpe enérgico, que interrompesse de pronto a propagação do flagelo e outros entendiam que a degenerescência enraizada dificilmente seria erradicada de uma vez. As leis encerram experiências antigas confirmadas pelo tempo. Elas não são boas por serem antigas, mas são antigas por se terem revelado boas porque adequadas. O respeito à defesa, aos prazos marcados e aos recursos que permitem repensar os juízos deve ser observado somente em tempos normais? Por que não deve sê-lo sempre, particularmente em momentos convulsionados capazes de excitar os sentimentos coletivos? Se a justiça tarda, é a negação de justiça, como diz a sabedoria popular, uma justiça a meia rédea também será uma fraude à justiça. De resto, não se deve esquecer a advertência de Rui Barbosa: "Quando a lei deixa de proteger os nossos adversários, virtualmente deixa de nos proteger"; ou há quem duvide dessa verdade?

Na minha apreciação será sempre preferível o meio em que as garantias legais sejam preservadas, ainda que, o termo de procedimento tarde algumas horas. Será tempo ganho. Tudo deve ser bem feito, especialmente os pertinentes aos princípios fundamentais de liberdade e de ordem.

***
Antes de terminar, devo registrar a notável exposição acerca da "Epidemia do Crack", de Itamar Melo e Patrícia Rocha, desdobrada em capítulos estampados neste jornal. Trabalho sério e doloroso, sem dúvida, e que merece por isso mesmo ser recolhido das páginas efêmeras do jornal para outras mais duradouras, como as do livro. É pungente mas é real e dramaticamente vivo, embora conduza à decadência e à morte.

*Jurista, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal

domingo, 20 de julho de 2008

O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1032&portal=

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

PODER EM DESCRÉDITO
EDITORIAL (FOLHA DE S. PAULO
)

Falta de decoro, abuso de autoridade e lobismo bilionário evidenciam-se com rara intensidade no caso Daniel Dantas

AO CONTRÁRIO da antiga anedota, seria o caso de dizer que, entre mortos e feridos, ninguém se salvou dos acontecimentos políticos da última semana. A falta de decoro, cuja existência se costumava atribuir primordialmente ao mundo parlamentar, revelou-se presente nos mais diversos níveis institucionais com os desdobramentos da Operação Satiagraha.

Do Palácio do Planalto veio, sem dúvida, o exemplo mais tosco e aberrante desse processo generalizado de desgaste. Com participação direta do presidente Lula, optou-se por divulgar um trecho brevíssimo, escolhido a dedo, das gravações de uma reunião de quase três horas, na qual se decidiu o afastamento do delegado Protógenes Queiroz do comando da investigação.

Numa espécie de vazamento "chapa-branca", tentou-se dar comprovação factual -para quem quiser acreditar- ao jogo de cena improvisado na véspera, no qual Lula repreendia o delegado por sua suposta e implausível iniciativa de abandonar o caso. Difícil dizer o que há de mais condenável na pantomima.

Dispor-se a um bate-boca com o delegado, como fez o presidente, já seria por si só ato incompatível com a dignidade do cargo. Bate-bocas não faltaram, contudo, desde que vieram a público as primeiras notícias da operação.

É como se todo o protocolo oficial tivesse entrado em colapso com o episódio. O presidente do STF esbraveja contra a polícia e um juiz de instância inferior. O ministro da Justiça atrapalha-se em bravatas e se estatela em recuos de última hora. Senadores da oposição se vêem enredados na mesma teia de denúncias que constrange seus adversários.

Ainda que tenham sido vários os erros cometidos durante a Operação Satiagraha, nada se compara ao verdadeiro abuso de autoridade cometido pelo Executivo: joga-se contra uma única pessoa, o delegado Queiroz, o peso esmagador da própria Presidência, que consente com um método de manipulação das gravações oficiais que não há exagero em qualificar de stalinista.

De todo esse espetáculo de primarismo, arrogância e descontrole autoritário, nenhuma instituição política brasileira parece ter saído incólume. Há, entretanto, instituições que continuam funcionando como se nada acontecesse; funcionam bem demais, até. É o caso do Banco do Brasil, que acaba de autorizar um empréstimo recorde de R$ 4,3 bilhões para possibilitar a compra da Brasil Telecom pela Oi, numa operação em aberto conflito com as normas em vigor -conflito que o Executivo se esforça para resolver, contra o interesse do consumidor.

Enquanto o governo Lula tenta transmitir a idéia de que persistirá nas investigações contra Daniel Dantas, o mercado de especulações coloca em R$ 1 bilhão o que o mesmo Dantas deverá embolsar com o negócio. Seu banco, o Opportunity, está vendendo a participação na Brasil Telecom.

Sócios, dentro e fora do governo, não faltam nesse escândalo, que põe em questão, como poucos antes dele, a credibilidade nas instituições públicas do país.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO / ILUSTRADA


DE VIVOS E DE MORTOS
Ferreira Gullar

A Argentina é um país com caráter original, o que a faz inconfundível e até contraditória


EM MEIO à crise que a Argentina atravessa, alguém teria ouvido a presidente Cristina Kirchner gritar para o marido Néstor: "Aquí, quién es la presidenta soy yo, carajo!".

A Argentina é um país com características muito próprias, que a tornam inconfundível na comunidade sul-americana. Inconfundível e, sob certos aspectos, contraditória. Por exemplo, se o nível cultural de seu povo é bem mais alto que o de seus vizinhos, por outro lado, no plano político, paga o preço de um atraso -o populismo peronista- que já dura mais de meio século. Nós e os demais países latino-americanos (para ficarmos em família) temos também nossos atrasos mas, talvez, menos arraigados e mais disseminados. Na Argentina, por certo devido a seu caráter marcadamente original, que não se limita à tradição peronista, há coisas que só acontecem lá, como é o caso do casal Kirchner, uma espécie de reedição da dupla Perón e Evita, ainda que em versão moderna. Mas que Néstor e Cristina formam um casal inusitado, não há dúvida. Se cabe, com referência a eles, a tese de que a história, quando se repete, é em tom de farsa, não sei, mas não me arriscaria a eliminar de todo essa hipótese. É impossível, quando penso neles mas, sobretudo, quando os vejo juntos, não lembrar de Perón e Evita, não como uma repetição da história argentina e, sim, como uma imitação suspeita, em que não confio inteiramente.

Veja bem, não é que Perón e Evita tenham sido exemplos louváveis de líderes políticos. Muito pelo contrário, eles foram a expressão de um populismo sindicalista que pretendia eternizar-se no poder. A morte precoce de Evita -que se havia tornado a mãe dos descamisados- retirou do general-presidente seu principal instrumento de mistificação do poder. De pouco lhe valeu embalsamar o corpo dela e deixá-lo exposto à visitação pública na sede da CGT. Talvez até tenha sido esse um dos motivos do golpe que o derrubou. Mas isso não foi suficiente, pois o cadáver continuava ali, como uma ameaça, uma espécie de réplica do de Lenine, também líder dos trabalhadores (é que certos líderes não devem morrer e, quando morrem, não podendo ressuscitar como os santos, são embalsamados). Temerosos, os militares argentinos roubaram o cadáver de Evita e o sepultaram num distante cemitério de Milão, na Itália, dando início a uma espécie de vaudeville macabro.

Não se tem notícia de nada parecido na história política nem se imagina que Néstor e Cristina venham a passar por lances semelhantes. No entanto, foi Perón mesmo que tentou copiar sua própria história, casando-se, após ter sido deposto, com Isabelita, dançarina, mulher da noite como Evita, que era cantora. E, assim que pôde, eleito de novo presidente da Argentina, trouxe a tiracolo, como vice, a nova esposa.

Mas, bem antes disso, exilado em Madri, recebeu de volta o cadáver de Evita, que havia sido exumado do túmulo em Milão. Pateticamente, manteve-o em sua casa, sob os cuidados de Isabelita, que, regularmente, a penteava e maquiava, com espantosa dedicação.

Eu estava em Buenos Aires, a caminho de Santiago do Chile, em 1973, quando Perón disputava a presidência. Ouvi um de seus discursos no rádio do hotel. Um ano depois, morto Allende, ao descer no aeroporto de Ezeiza, o carregador de bagagem, comovido, me comunicou:

-Estamos de luto, morreu Perón.

Se o velório de Evita durara 15 dias, o de Perón durou quatro, e Isabelita assumiu o governo para ser deposta, dois anos depois, pelos milicos de sempre. A iminência parda de seu governo chamava-se Lopez Rega e tinha fama de bruxo.

Um de seus primeiros atos foi trazer de volta o corpo de Eva Perón para a exibição pública em Buenos Aires, certamente visando manter vivo o culto à mãe dos pobres. Os milicos rosnaram e ela mandou finalmente sepultá-la ao lado do marido (das duas). Uma história que seria inconcebível no Brasil, em que pese a nossa fama de país surrealista, talvez porque sejamos mais chegados a um samba que a um tango.

E tanto assim é que, ao ler aquela frase de Cristina Kirchner, o que me veio à mente nada tinha de macabro: lembrei-me de um fato, que embora ocorrido na época de Perón e Evita, me fez rir de novo. O embaixador brasileiro, em Buenos Aires, foi visitar o ministro argentino das Relações Exteriores, acompanhado de sua esposa, quando a senhora do ministro, para mostrar-se familiarizada com o Brasil, falou:

-Son muy semejantes nuestros idiomas, verdad? Nosotros decimos carajo y ustedes dicen "caralho", no?

Sim, digo eu agora, mas não na presença de senhoras.

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

GRANDES TRAPALHADAS
Alberto Dines


O sânscrito entrou em nossas vidas pelas mãos de um delegado da Polícia Federal. Inspirado na bandeira da não-violência do Mahatma Gandhi (o líder indiano que levou o seu país à independência em 1947), Protógenes Queiroz batizou a operação para desbaratar uma poderosa rede de corrupção e crimes financeiros, com o exótico nome de Satia+graha (vontade+firmeza=integridade, rigor moral e espiritual). Sem dúvida: melhoramos de paradigma.

Desastroso está sendo o resultado. É bem verdade que o banqueiro Daniel Dantas agora é réu. Com provas irrefutáveis e inquestionáveis. Não estava nos planos da PF enquadrá-lo como corruptor ativo, mas o mago das finanças, ao perceber o cerco, desta vez desesperou-se: tentou corromper os delegados que estavam no seu encalço oferecendo-lhes o equivalente a um milhão de dólares. Ferrou-se.

O resto da operação sob o ponto de vista jurídico é discutível. Não fosse o aspecto simbólico e espetacular da prisão de Daniel Dantas e alguns de seus cúmplices, entre os quais o megatrambiqueiro Naji Nahas e o pobre do Celso Pitta interessado apenas em garantir sua mesada, a acusação foi considerada precária por juristas que chegam a qualificá-la como inepta.

Cientes das falhas, os responsáveis pela Satiagraha foram em frente e tomaram uma decisão tão desesperada e insensata quanto a de Daniel Dantas ao corromper um delegado: violaram o segredo de justiça e vazaram para a imprensa partes do relatório da autoridade policial certos de que pela quantidade e importância dos nomes envolvidos conseguiriam causar grande comoção na sociedade. Ferraram-se.

Complicaram-se logo no primeiro vazamento que incluía a transcrição de uma gravação telefônica entre um ex-deputado do PT, Luiz Eduardo Greenhalgh que trabalha para Daniel Dantas e o seu amigo, Gilberto de Carvalho, chefe de gabinete do presidente da República.

O governo procurou reagir e o fez da mesma forma desastrada e trapalhona. As sucessivas declarações do ministro da Justiça, Tarso Genro, enquanto o presidente Lula ainda se encontrava no exterior desvendaram o despreparo jurídico e político do governo para gerenciar situações de crise.

Tal como aconteceu em 2005 no escândalo do mensalão, no ano seguinte com os aloprados do Dossiê Vedoin e no início de 2008 com o Dossiê da Casa Civil, o comando político do governo comporta-se de forma tacanha quando flagrado em situações onde o seu celebrado senso ético fica sob suspeição.

Foi simplesmente ridícula e grotesca a solução encontrada para mostrar à sociedade que o governo não afastou o delegado Protógenes Queiroz do comando da Satiagraha. A gravação de uma reunião de três horas da cúpula da PF e posterior divulgação de um boletim de quatro minutos (além disso, editado) revelam a inexperiência e o nível de desnorteamento do comando político, incapaz de esconder sua propensão para soluções discricionárias e burlescas.

Não adianta esconder: a PF está e sempre esteve dividida quando a sua indiscutível competência esbarra na intocabilidade de certas esferas da administração. E o governo está igualmente dividido no tocante à figura de Daniel Dantas, peça-chave para a montagem da supertele que resultará da fusão da OI-BrT.

As atribulações mais sérias na vida de Daniel Dantas começaram a partir do momento em que foi envolvido no mensalão. Investigá-lo além da tentativa de corromper delegados da PF podem atribular muita gente.

O que nos leva ao real significado do conceito Satiagraha. A firmeza da vontade preconizada por Gandhi nada tem a ver com voluntarismo político ou bonapartismo psicótico. É uma disposição tranqüila e metódica de levar a busca da verdade às últimas conseqüências.

A reação atrapalhada de Daniel Dantas caiu do céu. As trapalhadas do governo ao lidar com o caso mostram que, apesar de tudo, algo acontece.

» Alberto Dines é jornalista.

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

LULA E O DELEGADO
Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do instituto vox populi

E as “férias” do diretor-geral da Polícia Federal? Em que lugar, no governo ou no setor privado, alguém tira férias em plena crise?

Os mais recentes atos da novela Daniel Dantas chegam a ser patéticos. Se alguém do Palácio do Planalto pedisse a um consultor de imagem, a um especialista em “gestão de crises”, sugestões de como proceder, a última, provavelmente, seria fazer como estão fazendo.

O afastamento “voluntário” do delegado Protógenes Queiroz, encarregado do inquérito, continua gozando de menos credibilidade que uma nota de três reais, mesmo depois da divulgação de trechos das conversas ocorridas na célebre reunião em que teria sido decidido. Faz tão pouco sentido, pelo que se conhece de seu comportamento e pelo que se pode generalizar sobre como as pessoas costumam reagir, que as suspeitas permanecem. Agora, quando ele próprio denuncia que seu trabalho foi dificultado, fica ainda mais improvável.

E a saída dos delegados auxiliares de Queiroz? Apenas ela bastava para deixar a tese insustentável, pois, sem o titular do inquérito, seria lógico que permanecessem, pelo menos por algum tempo, enquanto uma nova equipe não se familiarizasse com um trabalho de anos. É tão evidente que a notícia mais recente é que se está pedindo a ambos que reconsiderem a decisão. Por que a teriam tomado?

E as “férias” do diretor-geral da Polícia Federal? Em que lugar, no governo ou no setor privado, alguém tira férias em plena crise, vai descansar, quando a casa está pegando fogo? Na maioria das empresas, um diretor que pedisse férias em uma hora dessas poderia até recebê-las, mas seria avisado de que, ao cabo delas, não precisava voltar.

O juiz e o promotor encarregados do caso nada sabiam das intenções do delegado? No cotidiano das investigações, na intensa convivência profissional que um trabalho como esse enseja, Protógenes nunca disse a eles que iria se afastar uma semana depois da decretação da (primeira) prisão de Dantas? É crível que tenha agido assim ou são ambos hábeis atores, apenas fingindo surpresa?

As manifestações de outros delegados, de juízes federais e promotores, que apoiaram a investigação do delegado e se insurgiram contra seu afastamento, foram todas ingênuas? Quem conhece a Polícia Federal como eles, tem, certamente, motivos para não confundir um afastamento por opção com algo que justifica suas reações.

E para onde vai a imagem que parte da mídia pintou do delegado, o “perseguidor implacável” e um tanto “desvairado”? Se ele estava mesmo disposto a abandonar seu esforço de tanto tempo para cumprir as exigências burocráticas de sua carreira, pode ser tudo, menos alguém que se vê como “santo guerreiro na luta contra o dragão do mal”.

E a reunião no Planalto entre Lula, Tarso Genro e o ministro Gilmar Mendes, na qual parecia que um acordo tinha sido fechado, depois das farpas de lado a lado? Foi mera coincidência que tivesse ocorrido nas vésperas do anúncio da saída do delegado?

E todas as informações que a mídia levantou sobre o episódio, no trabalho de reportagem de diversos veículos? Tudo que colheram, todas as fontes ouvidas, tudo estava errado, confundiram uma mera banalidade com coisas mais significativas?

Mas o mais difícil de entender, a esta altura do affair, é a atitude de Lula. Depois de suas declarações no Timor, quando falou como deveria falar o presidente que a população elegeu, o que aconteceu? Lá, longe de casa, parecia o Lula de antigamente, direto, verdadeiro, até bravo. Foi só voltar, que tudo mudou.

Quem sugeriu a ele a desastrada atitude de “exigir” que o delegado permanecesse à frente do inquérito? Como fica a autoridade presidencial, quando um presidente manda recados por meio da imprensa a um funcionário público, que ninguém leva em consideração? O que fez o ministro da Justiça, o diretor (interino) da Polícia Federal, o superior hierárquico do delegado e o próprio, depois das declarações de Lula? Nada, todos as ignoraram.

O caso Dantas é tão cheio de mistérios que traz à lembrança uma frase de Jean Giono: “Quando os mistérios são cheios de maldade, eles se escondem em plena luz”.

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

ANJOS E DEMÔNIOS
Ugo Braga

A história por trás da confusão armada por Protógenes

Protógenes Queiroz é um herói desastrado. Escreve mal. Tortuosamente, na verdade — para quem duvida, recomendo uma passadinha de olho no texto completo do inquérito, já disponível nos quatro cantos da internet. O delegado é um maniqueísta. A julgar pelo que diz na peça, pode-se concluir que anda nas ruas ressabiado, envolvido num embate eterno entre o bem e o mal, como nas histórias em quadrinhos. Ouviu um galo cantar e saiu por aí dizendo ter indícios de que Naji Nahas, demônio antigo do purgatório brasileiro, detinha informação privilegiada sobre decisões da política monetária dos Estados Unidos. Delírio! Viu a jornalista Andréa Michael, anjo desse mesmo purgatório, noticiar o andamento das investigações e quis incluí-la como integrante da organização criminosa sob sua lupa. Alucinação! Permitiu a uma equipe de tevê filmar a prisão de Celso Pitta de madrugada, na porta de casa, ainda de pijamas e tridente.

Tolice!
As trapalhadas do delegado federal foram tantas e tamanhas que permitiram aos cães de guerra do PT exibir algo em que estão no estado da arte: mudar o foco, alegar ignorância e depois inocência, conjecturar, acusar e confundir.

Na história que Protógenes tenta contar de forma meio atabalhoada, porém, há uma trama coerente, com início, meio e fim. E nela, acreditem, nobres senhores e belas damas, grassa uma pugna bilionária, da qual reluz um facho vermelho e piscante, a iluminar tristemente os arredores do Palácio do Planalto. E me explico.

A privatização da telefonia brasileira, em 1998, dividiu o mercado em fazendas. Os donos de uma delas não podiam ser donos de outras e umas não podiam vender seus serviços nas áreas das outras. O Estado concedeu o direito de terceiros grupos privados competirem localmente com as ex-estatais já estabelecidas. Assim, em tese, se cristalizariam grandes grupos regionais que seriam postos para brigar entre si dali a alguns anos, quando poderiam disputar clientes em todo o território nacional.

A fazenda chamada Tele Norte Leste, depois Telemar e hoje Oi, foi arrematada por um grupo liderado pelo brasileiro La Fonte, grupo este desafeto dos tucanos, então no poder, que o chamavam de “rataiada”. A palavra é um neologismo para designar um bando de ratos. A fazenda chamada Tele Centro-Oeste, depois Brasil Telecom, foi arrematada por um grupo liderado pelo Opportunity, de Daniel Dantas, financista considerado gênio na academia, muito querido do tucanato.

Pois bem, logo nos primeiros anos, a Brasil Telecom, com o perdão do trocadilho, virou um saco de gatos. Sob influência do PT, que detinha postos estratégicos ao eleger diretores, fundos de pensão brasileiros se aliaram à Telecom Itália, integrantes do consórcio que arrematou a companhia, e passaram a tentar destituir o Opportunity da gestão da empresa. Por quê? Porque descobriram que o banco de Dantas, graças a um agressivo arranjo societário e a uma aliança sólida com o Citibank, que o bancava, entrara com quase nenhum capital no negócio, embora mandasse nele absolutamente.

A briga pelo controle da Brasil Telecom foi renhida, sangrenta e cruel. Milhões de dólares voaram de um lado a outro, entre bancas de advocacia e outras despesas menos glamourosas. Até que, em meados de 2002, Daniel Dantas dá uma cartada arriscada. Faz a direção da companhia telefônica contratar a empresa Kroll Associates, maior do mundo na área de espionagem industrial. E passa a monitorar a vida de praticamente todas as pessoas que pudessem influenciar a batalha. E-mails do então ministro Luiz Gushiken e filmagens de viagens do presidente do Banco do Brasil, Cássio Kasseb, estão no material.

Em outubro de 2004, a Polícia Federal é acionada para acabar com a bisbilhotice de Dantas. Deflagra a Operação Chacal a apreende uma série de dossiês, documentos e relatórios de todo tipo, com as informações que o Opportunity havia amealhado nos meses anteriores.

Descobre-se que Dantas reunira informes segundo os quais o megaespeculador Naji Nahas era uma ponte confiável da Telecom Itália até o Palácio do Planalto. Mais, que se articulava num bastidor muito profundo a futura fusão da Telemar, aquela da rataiada, com a Brasil Telecom.

Não por coincidência, o antigo pacto com o Citibank ruiu e o Opportunity acabou mesmo defenestrado do comando da telefônica. Dantas começa a se aproximar de Nahas para, de alguma forma, recuperar o prejuízo. É ali, quase quatro anos atrás, que começa a Operação Satiagraha, com o olho e os grampos de Protógenes sobre a dupla.

O que aconteceu desde então? A Telemar injetou milhões de reais na empresa do filho do presidente da República. Depois, recebeu outros bilhões do Banco do Brasil e do BNDES para comprar a Brasil Telecom. O negócio depende de uma mudança na lei feita por decreto presidencial, que vai sair. Uma vez feito, Daniel Dantas, já apaziguado, bota US$ 1 bilhão no bolso pela parte do capital que ainda detém. E todos vivem felizes para sempre. Apesar de Protógenes.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO


CRISE, FÉRIAS E MINHOCAS
Eliane Cantanhêde


BRASÍLIA - A mais nova crise começou com a prisão de Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta, desviou para o racha de policiais, juízes e ministros e resvalou no Palácio do Planalto.

Nahas já está escaldado desde 1989, quando detonou a implosão da Bolsa de Valores do Rio.

Celso Pitta... bem, era um nada antes de virar prefeito e continuou um nada para o resto da vida. E Dantas não abriu a boca, muito menos nos depoimentos à Polícia Federal.

Os três pivôs da crise, portanto, estão congelados. E virou um tal de tirar férias. O delegado Protógenes Queiroz vai "estudar", e o diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, o juiz Fausto De Sanctis e até o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, se mandaram. Porque, afinal, ninguém é de ferro...

Ficamos nós, com a batata quente, com quilos de interrogações e com aquela sensação de sempre de que o tudo vai dar em nada. E o dossiê anti-FHC? E a VarigLog?

Até a irritação de Lula é a mesma de quando a coisa fica feia para o PT, a família, o churrasqueiro, o compadre advogado, ministros e líderes. A diferença: antes, ele não viu nada, não sabia de nada. Agora, ora sabe, ora não sabe.

Sabia quando comemorou a operação da PF e atraiu Gilmar e Tarso Genro -portanto, o caso- para dentro do Planalto. Deixou de saber quando o faz-tudo Gilberto Carvalho caiu no grampo amigo da PF.

Subitamente, Protógenes virou esquisitão, afastou-se, ou foi afastado, e as pessoas meteram um monte de minhocas na cabeça. Em público, o presidente aplaudiu a criatura (o inquérito). Em privado, condenou o seu criador (o delegado).

Lula entrou em grande estilo e quis sair de fininho da história. Não colou e teve conseqüências. Ninguém sabe do que, exatamente, Daniel Dantas é acusado. Mas todo mundo -inclusive o advogado de Dantas- se pergunta por que Lula tinha de se meter onde não foi chamado. Olha aí a minhoca!

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O INIMIGO INTERIOR
Rubens Ricupero

CEM ANOS antes da grave crise entre Colômbia, Equador e Venezuela, o barão do Rio Branco já se preocupava com o perigo de que ações armadas de rebeldes nas fronteiras poderiam desencadear conflitos internacionais. Em 1909, o Tratado do ABC que ele propôs à Argentina e ao Chile tinha como um de seus principais objetivos o compromisso de impedir que revoltosos usassem o território de um país para tentar derrubar governos vizinhos.

Esse princípio de absoluta não-ingerência impunha-se pelo próprio bom senso como base indispensável de um amplo entendimento entre os três países em todas as questões destinadas a "assegurar a paz e a estimular o progresso da América do Sul", como dizia o artigo 1º do tratado. O projeto foi, nesse sentido, precursor de quase tudo o que se fez mais tarde em matéria de integração latino-americana, inclusive das recentes iniciativas brasileiras da União Sul-Americana e do Conselho de Defesa.

Continua hoje tão válido como na época o princípio de não-intervenção, que deveria ser a expressão ideal de algo mais profundo: a tendência à convergência de valores e aspirações. Não basta para isso que os governos concordem com fins definidos de modo genérico: desenvolvimento, justiça social, integração. Também é necessário um consenso mínimo em relação aos meios, isto é, às políticas e às ações concretas para alcançar tais metas.

Não há como negar, desse ponto de vista, que o continente se acha tão afastado como no passado de um mínimo denominador comum ao menos em três áreas essenciais. A primeira tem a ver com o modelo de integração. Alguns -Chile, Peru, Colômbia (Uruguai, se pudesse)- optaram por acordos de livre comércio com os Estados Unidos, inspirados na malograda Alca.

Outros, corretamente, a meu ver, preferem de início a integração natural com as economias semelhantes e adjacentes. A segunda deriva do estágio de "refundação" radical no qual se encontram absorvidos Venezuela, Bolívia, Equador e de suas conseqüências: a atenção prioritária aos conflitos sociais internos, a exacerbação do nacionalismo, o retorno às estatizações e às nacionalizações na economia. Nada disso favorece projetos que exigem segurança jurídica para investimentos de longo prazo, como se viu nos episódios do gás e das refinarias na Bolívia, da estatização de siderúrgica venezuelana de capital argentino, das dificuldades da Petrobras no Equador etc.

Por fim, a ambigüidade ideológica ou até a simpatia de alguns governos pela guerrilha colombiana tornaram inevitável a aliança estreita de Bogotá com Washington. Inviabilizou-se, ipso facto, qualquer esquema de defesa que, na aparência ou realidade, implicasse escolher entre os Estados Unidos e os demais, o que, suspeitariam alguns, seria a escolha irrealista entre o Brasil e os EUA.

As reticências argentinas retardaram o projeto do ABC, que só se concretizou, enfraquecido e descaracterizado, anos após a morte do idealizador. Diplomata cuidadoso, coroado de êxito em quase tudo o que empreendeu, Rio Branco admitiu que a iniciativa, um de seus raros insucessos, tinha sido prematura.

É difícil acreditar que a crescent e divergência na América do Sul reserve agora melhor chance de sucesso a propostas como as atuais, cujo nível de ambição vai muito além do alcançado em 50 anos de integração européia.

RUBENS RICUPERO, 71, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.


IBOPE INDICA CRIVELLA COM 23% E JANDIRA COM 14% NO RIO
Do G1, em São Paulo

Pesquisa tem margem de erro de três pontos percentuais. Instituto ouviu 805 eleitores no Rio entre terça e quinta.

O senador Marcelo Crivella (PRB) acumula 23% das intenções de voto para prefeito do Rio de Janeiro, segundo pesquisa do Ibope realizada entre as últimas terça (15) e quinta-feira (17). A candidata do PC do B, Jandira Feghali, tem 14%, de acordo com o instituto. A seguir, aparecem no levantamento os candidatos Eduardo Paes (PMDB) e Fernando Gabeira (PV), com 8% cada um; Solange Amaral (DEM), com 5%; Chico Alencar (PSOL), com 4%; Alessandro Molon (PT), com 3%, além de Eduardo Serra (PCB) e Paulo Ramos (PDT), ambos com 1% cada. Antônio Carlos (PCO), Filipe Pereira (PSC) e Vinicius Cordeiro (PT do B) não alcançaram 1% das intenções de voto.

MARTA SOMA 34% E ALCKMIN TEM 31% EM SP, APONTA IBOPE
Do G1, em São Paulo


Instituto ouviu 805 pessoas na capital entre terça e quinta. Margem de erro do levantamento é de três pontos percentuais.

A ex-ministra Marta Suplicy (PT) tem 34% das intenções de voto e o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) soma 31% na disputa pela Prefeitura de São Paulo, de acordo com pesquisa Ibope realizada entre as últimas terça (15) e quinta-feira (17) na capital paulista. Eles são seguidos pelo atual prefeito, Gilberto Kassab (DEM), com 10%; pelo deputado Paulo Maluf (PP), com 9%; pela vereadora Soninha (PPS), com 2%; e por Ciro Moura (PTC), com 1%.

EM BELO HORIZONTE, JÔ MORAES SOMA 17% E QUINTÃO, 14%, SEGUNDO IBOPE
Do G1, em São Paulo


30% não opinaram ou disseram não saber em quem votar. Pesquisa tem margem de erro de três pontos percentuais.

Pesquisa Ibope realizada entre os últimos dias 14 (segunda) e 16 (quarta) indica Jô Moraes (PC do B) com 17% das intenções de voto e Leonardo Quintão (PMDB) com 14% na disputa eleitoral pela Prefeitura de Belo Horizonte. Dentre os 805 entrevistados pelo Ibope, 30% preferiram não opinar ou informaram que ainda não sabem em quem votar. Candidato apoiado pelo governador Aécio Neves (PSDB) e pelo prefeito Fernando Pimentel (PT), Márcio Lacerda (PSB) tem 8% das intenções de voto, de acordo com o levantamento. Vanessa Portugal (PSTU) aparece com 4%, seguida de Sérgio Miranda (PDT), com 3%, Gustavo Valadares (DEM), com 2%, e André Antonio Alves (PT do B), com 1%. Votos brancos ou nulos somaram 19%.


NO RECIFE, MENDONÇA SOMA 30%, CADOCA, 22% E JOÃO DA COSTA, 20%, DIZ IBOPE

Do G1, em São Paulo


Instituto ouviu 805 eleitores entre segunda e quarta. Margem de erro do levantamento é de três pontos percentuais.

Pesquisa Ibope sobre a eleição para a Prefeitura do Recife indica que o ex governador Mendonça Filho (DEM) atingiu 30% das intenções de voto contra 22% do deputado federal Carlos Eduardo Cadoca (PSC) e 20% do deputado estadual João da Costa (PT). A margem de erro é de três pontos percentuais. Foram entrevistados 805 eleitores na capital pernambucana.