O Estado de S. Paulo
A direita tradicional pensou que trataria o bolsonarismo como o MDB fazia com as siglas da esquerda
Ao fazer o retrato inicial de Lucien Chardon,
o jovem de origem modesta que aspirava à aristocracia adotando o nome da mãe –
Rubempré –, Balzac escreveu que suas “belas ilusões da juventude” ainda não
“haviam sido afetadas pelos desejos e pelas dificuldades da vida”. Lucien
reencontrava suas recordações, suas ilusões e seus vinte anos ao voltar à sua
terra. Esse parece o caso, em cada eleição, das principais forças políticas do
País.
Seria preciso um Balzac para demonstrar como a terceira via se iludiu durante quatro anos ao se juntar aos Bolsonaros em cada manifestação da Avenida Paulista em vez de lhes disputar a hegemonia na oposição? Quem passou a vida vendo a banda passar sai da urna da mesma forma que entrou. Ou pior: desempregado. Esperidião Amin que o diga. A direita tradicional pensou que trataria o bolsonarismo como o velho MDB tratava as siglas de esquerda que abrigava nos anos 1980: uma turma do barulho, mas que lhe trazia votos.
O bolsonarismo se estabiliza no centro do
poder como, nos anos 2000, nem o petismo conseguiu. E surge nova ilusão na 3.ª
via: achar outra vez que esse movimento pode ser normalizado ou controlado em
suas pulsões. Liberais cometeram esse erro na Europa em relação à ultradireita.
Lei e ordem não eram limites para Viktor Orbán. Em vez de se preparar como
alternativa aos Bolsonaros, há quem deixe a prudência e o cálculo de lado.
Caiado, Kassab, Eduardo Leite e outros têm
pouco a ver com as práticas do bolsonarismo. Pode-se perguntar: quem acredita
que o entorno carioca de Flávio não estará presente em um futuro governo?
Kassab é um dos que não creem, assim como Leite. Nenhum deles parece assinar um
cheque em branco a quem, no passado, demonstrou o mesmo populismo fiscal que
todos apontam no oponente.
Enfim, pode-se dizer que, do outro lado, está
Lula e tudo o que ele representa. Todos nesta eleição sabem o que os dois
candidatos no 2.º turno são. Ninguém pode alegar desconhecimento de seus
passados, de seus entornos, de suas políticas e das consequências de suas
escolhas ideológicas. Quais valores éticos e morais cada um representa. Para o
bem e para o mal. É difícil crer que exista alguém iludido. E nenhum colunista,
por mais vaidoso, pode ter a pretensão de que seu texto tenha o mesmo efeito
que os nomes para a antiga aristocracia.
Ainda assim, Pedro Parente e Moreira Salles
estão debatendo. Nenhum deles é como o jovem Lucien. Todos já perderam suas
ilusões, fizeram escolhas. Ninguém deseja o destino do personagem de Balzac. O
eleitor pode entregar o País a quem lhe aprouver, mas ainda é preciso lembrar
que há diferença entre democracia e republicanismo.

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