Valor Econômico
Deve-se esperar um intenso trabalho nos bastidores dos chineses junto às autoridades brasileiras, em meio à guerra tarifária iniciada pelos EUA
Entre aliados do senador Flávio Bolsonaro, há uma avaliação de que muitos dos 56,1 milhões de eleitores que votaram no candidato do PL à Presidência da República no domingo (4) o fizeram mais para se posicionar “contra” a atual situação do país do que por estarem necessariamente a favor do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Contra os excessos da Justiça, contra a falta de segurança nas ruas, contra o endividamento, contra a carestia.” Contra algo e alguém, neste caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu governo.
Flávio é político desde jovem. Ao longo dos
anos, teve que responder a diversas denúncias e muitos duvidaram que
conseguiria apresentar-se ao eleitor com a bandeira antissistema. Mas desde o
primeiro semestre os estrategistas de sua campanha apostam na alta rejeição ao
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ainda que a dele também seja
elevada.
Segundo a pesquisa Quaest divulgada no dia 28
de setembro, a menos de uma semana do primeiro turno, 56% dos entrevistados
afirmaram que não votariam no parlamentar do PL de jeito nenhum, índice estável
em relação à sondagem anterior. Já a rejeição a Lula oscilou de 55% para 54%.
Para aliados de Flávio, no entanto, o senador carrega a rejeição a seu pai, um
fator que pode ser atenuado por uma boa estratégia de comunicação, enquanto a
rejeição a Lula pode inclusive ser potencializada por fatores externos à
administração petista - como ocorreu após a crise no Supremo Tribunal Federal
(STF).
A tese ainda está para ser definitivamente
testada neste segundo turno, até porque existe a tendência de a campanha do PT
apostar numa tentativa de desconstrução da imagem de Flávio, com o objetivo de
refrescar a memória do eleitor em relação ao passado do adversário, sua atuação
parlamentar e ligação com o caso Master.
Mas isso não explica o tsunami provocado pelo
PL no Congresso e nos Estados no domingo (4).
Fundado em 1985 pelo deputado Alvaro Valle
após uma dissidência do PFL, o PL estreou nas urnas no ano seguinte e, durante
a Constituinte, integrou o chamado Centrão. Em sua história, foi alvo de
denúncias e também serviu de porta de entrada para os evangélicos ampliarem sua
influência no Congresso.
Em 2002, o PL participou da coalizão que
levou o presidente Lula ao Palácio do Planalto pela primeira vez, indicando o
empresário José Alencar para a vaga de vice. Após o escândalo do mensalão, a
legenda mudou o nome para Partido da República. Mas o “rebranding” não durou
muito. A sigla voltou a se chamar Partido Liberal em 2019, e, dois anos depois,
o então presidente Jair Bolsonaro filiou-se ao partido.
A migração impulsionou o partido, que passou
a ter as cotas mais polpudas dos fundos partidário e eleitoral, em um movimento
que os adversários de Bolsonaro consideram ser o responsável pelo crescimento
da extrema-direita no país. Para a cúpula do PL, contudo, a tacada foi uma
forma de consolidar o partido como o único de direita. Ou seja, tirar de PP e
União Brasil, por exemplo, o rótulo de “direita”, e jogá-los para o centro
junto com PSD e MDB.
De qualquer maneira, não se pode dizer que
houve um crescimento do PL do dia para a noite. Antes de ser anunciado coordenador
da campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência, o senador Rogério Marinho (RN)
foi eleito secretário-geral do partido e há meses vinha trabalhando na criação
de uma identidade ideológica e programática. Um trabalho realizado após um
crescimento da sigla nas últimas eleições e seu fortalecimento nos Estados, e
também diante da conclusão de que no Brasil apenas o PT com o seu centralismo
democrático poderia ser considerado um partido estruturado e, ao mesmo tempo,
com posicionamento claro.
Em 2022, apesar da derrota de Bolsonaro para
Lula e sua frente ampla, o PL elegeu a maior bancada na Câmara dos Deputados. E
os números de 2024 também apontavam para um caminho potencialmente promissor no
pleito de 2026.
Nas últimas eleições municipais, o PL não foi
o partido que conquistou o maior número de prefeituras, mas foi a sigla mais
votada. Passou de 3 milhões de votos para 16 milhões, na comparação com 2020.
No mesmo período, deu um salto no número de votos de legenda e elegeu o maior
número de vereadores nas capitais. Além disso, ampliou o número de prefeitos e
vice-prefeitos nos maiores colégios eleitorais do país, os municípios com mais
de 200 mil habitantes.
De lá para cá, o PL estruturou diretórios
estaduais. Visando à eleição presidencial deste ano, contratou uma consultoria
para fazer um conjunto de propostas que seriam aproveitadas em um eventual
plano de governo. E Marinho concentrou-se na missão de assegurar que o PL tenha
uma atuação legislativa coesa. Um deputado que batalhava para assegurar o tabelamento
dos fretes para agradar aos caminhoneiros foi enquadrado pela direção do
partido, por exemplo. A postura foi considerada divergente em relação ao
programa liberal em implementação.
Assim chegará o PL à próxima legislatura,
catapultado também por candidaturas de influencers na direita em vários
Estados, com a maior bancada da Câmara e do Senado. Isso sem contar o grande
número de governadores. Dirigentes de outros partidos podem ter menosprezado
esses preparativos nos últimos anos. Dentro do PL, a constatação é que os
parlamentares ligados a Bolsonaro, que antes eram vistos como visitantes, agora
são maioria na casa.

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