quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Mentalidade de exceção


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Antes de qualquer coisa, um pressuposto básico: abuso é abuso em qualquer circunstância, esteja ele a serviço do “mal” ou sirva de instrumento às forças do “bem”.

A premissa, não obstante óbvia, está em vias de sofrer pesada contestação. A depender do rumo do debate sobre o freio de arrumação nos métodos de investigação policial pleiteado pelos tribunais superiores, poderá ser substituída pela tese segundo a qual em alguma dose o arbítrio é aceitável - e até indispensável - quando o objetivo vale a pena e a causa não é pequena, como o combate à corrupção.

O cerne desse raciocínio já aparece aqui e ali desde que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, denunciou a existência e alertou para a conformação de um ambiente de “anarquia” na estrutura investigativa do Estado - incluindo não apenas a polícia, mas juízes, procuradores e agentes de espionagem.

São ponderações preocupadas com o exagero do lado contrário: que o preciosismo jurídico acabe punindo a polícia e protegendo o possível bandido.

Tal pensamento ganhou força nesta semana, depois que o Conselho Nacional de Justiça resolveu controlar a concessão de autorizações judiciais para escutas policiais e o Superior Tribunal de Justiça anulou dois anos de investigações da Polícia Federal, feitas com base em grampos cujas licenças foram renovadas várias vezes sem fundamento legal suficiente, no entender do STJ.

Daí a se concluir que esteja em marcha uma ofensiva do Judiciário para cercear o trabalho da PF e impedi-la de prosseguir em sua cruzada contra os barões do colarinho-branco seria um pulo não estivesse essa interpretação já em vigor.

Ainda apresentada na forma de reflexão originalíssima, produto de “insight” socialmente até bem intencionado, mas institucionalmente equivocado.

É claro que a polícia vai protestar, como já protestou quando da decisão sobre exorbitâncias na aplicação de algemas e como vem reclamando da concessão de habeas corpus a presos temporários, desde a revogação do “cumpra-se” reverencial no tocante a decisões da Justiça, particularmente do Supremo.

A qualquer grupo ou corporação interessa a maior liberdade possível de atuação. Mas, como a lei restringe as prerrogativas de alguns exatamente para assegurar o direito de todos, no Estado de Direito não se pode fazer tudo a qualquer preço.

E isso não é uma questão de ponto de vista. É um princípio geral válido para todos os cidadãos e aplicado a quaisquer situações.

O ideal seria que a Polícia Federal “republicana” (haveria alguma outra forma de instituição da República se conduzir?) estivesse suficientemente imbuída desse espírito para aceitar com naturalidade os obstáculos impostos pelos limites da lei e continuasse seu belo trabalho sem a ajuda das facilidades do abuso.

Mas compreende-se sua resistência em deixar o papel de protagonista na cena política para o qual foi escalada há pouco menos de seis anos.

Inaceitável e perigoso, porém, é que cabeças bem pensantes do País incutam no senso comum a deformada idéia de que autoridades públicas, ou gente alvo de suspeita, possam ser vigiadas à vontade ao arrepio da legalidade porque assim a sociedade estaria garantida em seu direito à transparência total.

Aí já não estaríamos mais tratando da existência ou não de um Estado policial, mas da disseminação de uma mentalidade policialesca em toda a sociedade. Em tempos de degradação ética, a tese soa como um alento e ganha adeptos com facilidade.

Parece bom abrir um espaço na lei para combater os fora-da-lei. Inclusive porque, argumenta-se, é tudo feito em nome da democracia, na vigência dos preceitos democráticos, cenário incomparável ao do regime autoritário.

Perfeito. Não fora o fato de que ao se abrir uma exceção hoje aqui, amanhã não haverá como impedir a abertura de mais alguma ali e ainda outra acolá para fazer frente a questões urgentes, saneadoras e moralizadoras.

O resto da história dispensa relato. Está tudo registrado na História. Da Humanidade e na do Brasil recente, onde a ditadura instalou-se sob a justificativa inicial de fazer deste um País livre de corruptos e bem mais decente.

Erro de origem

Bem intencionados de todos os matizes se empenham em resolver o problema das escutas com novas leis, aumento de punições e agora surgiu até a proposta de chamar o caminhão de mudanças para remover o sofá da sala, extinguindo a Agência Brasileira de Inteligência.

Já o interminável charivari entre autoridades da área de informações não parece impressionar, mesmo sendo o descontrole verbal a manifestação pública do principal defeito.

Com vergonha do SNI do passado, a democracia não se preparou para o futuro e ficou sem um serviço de inteligência de boa qualidade, bem organizado, com hierarquia estruturada, numa concepção estrita de defesa do Estado.

Contentamento e barbárie


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - O bom resultado do PIB no segundo semestre fará chover, de novo, festejos que desmentem o sedutor estribilho da campanha Marta Suplicy, segundo o qual paulistano "não se contenta com pouco". Errado. Não só o paulistano mas o brasileiro contenta-se, sim, com pouco.

O governo Lula, então, faz até propaganda do pouco. Ou do nada, no caso da lenda da queda da desigualdade, que não existe. Caiu apenas a desigualdade entre assalariados, mas não entre quem vive de salário e quem tem renda do capital.

A propósito, no mais recente boletim do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, Marcio Pochmann, presidente do Ipea, volta ao tema ao escrever que desde a década de 1950 cai a participação do salário na renda.

"Atualmente [governo Lula, portanto], menos de 40% da renda nacional são apropriados pelos trabalhadores; no final da década de 1950, aproximava-se de 60%. Em contrapartida, os detentores de patrimônio assistem à expansão contínua de seus rendimentos".

Na mesma toada, três agências da ONU acabam de divulgar estudo apontando falta de "trabalho decente" no Brasil. Significa, entre outras coisas, "ausência do trabalho infantil ou forçado; nível adequado de remuneração, formalidade e acesso à proteção social; oportunidades iguais de acesso ao emprego e às ocupações de mais qualidade e mais bem remuneradas".

Menos mal que quem deixa o governo Lula passa a enxergar as coisas como são, caso de André Singer, ex-porta-voz do presidente, que escreveu ontem que o filme "Linha de Passe" "contribui para repor a questão central do período, a de saber se ainda temos chance de produzir uma "virada" civilizatória ou se seremos obrigados a nos conformar com a barbárie transformada em sistema".

Pois é, seis anos de Lula, muita festa e nenhuma "virada".

As instituições e as brigas de botequim


Maria Inês Nassif
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Reza a Constituição que ninguém pode ser considerado culpado "até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória". A boa prática democrática diz também que ninguém pode ser acusado sem provas. E que essas máximas devem ser obedecidas pelos cidadãos ricos e pobres, poderosos ou não. É simples: se você qualifica alguém de "bandido" publicamente, precisa provar que ele é realmente um bandido. As liberalidades ficam por conta de bate-bocas da vida cotidiana, que acontecem em espaços geográficos mais restritos e cujas ofensas podem ser atribuídas ao calor de uma discussão ou ao grau de uma animosidade que, todavia, não transcende a vida privada.

Quando isso é levado para o espaço público, no entanto, é preciso um cuidado maior do que nas brigas de botequim.

A Operação Satiagraha da Polícia Federal colocou em conflito o Supremo Tribunal Federal (STF) e a Polícia Federal (PF); o STF e os juízes de outras instâncias; o STF e as varas especializadas no julgamento de crimes financeiros; o STF e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin); o STF e o ministro da Justiça, Tarso Genro; o STF e o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza; o STF e os procuradores do Ministério Público Federal. "O STF", desde então, é a figura do ministro Gilmar Mendes, que assumiu em 23 de abril deste ano a presidência do tribunal e no dia 26 de março a presidência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o órgão de controle da magistratura.

No início de julho, a PF prendeu o empresário Daniel Dantas e um tanto de outras pessoas, para cumprir mandato expedido pelo juiz Fausto Martin De Sanctis. "De novo, é um quadro de espetacularização das prisões. Isso é evidente e dificilmente compatível com o estado de direito. Teve uso de algema abusivo. Tudo isto terá que ser discutido", disse o ministro, que nos dias subseqüentes concedeu dois habeas corpus à maioria dos presos, com exceção dos envolvidos diretamente numa tentativa de suborno de um policial. "Antigamente, você tinha certeza que quem batia na sua porta era o leiteiro. Hoje está meio confuso", declarou, na frente do ministro Tarso Genro, batendo em sua polícia. Todo o trabalho da PF na operação acabou sendo resumido ao uso de algemas nos presos - e em seguida o plenário do STF acabou aprovando normas tão restritivas às algemas que, por certo, aboliu o seu uso nos casos de prisões que podem ter algum apelo midiático. O STF colocou a PF no banco dos réus.

Mendes mandou todos para o banco dos réus

De Sanctis sofreu investidas de Mendes já no julgamento dos dois habeas corpus, que libertaram Dantas. Além de considerar o fato de De Sanctis ter considerado a prisão com base no risco de que o investigado pudesse alterar provas contra si um "rematado absurdo" - sabe-se lá por que é tão absurdo isso -, Mendes mandou o segundo pedido de prisão para o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e para a Corregedoria da Justiça Federal - e só não fez uma representação formal contra o juiz porque houve uma revolta dos magistrados. Mas, de qualquer forma, na mídia, De Sanctis foi para o banco dos réus.

Na sexta-feira passada, em conversas com integrantes da CPI dos Grampos, Mendes apontou o dedo acusador para todas as varas de Justiça especializadas em crimes financeiros. As varas foram criadas em 2003 a partir da constatação de que os juízes das varas comuns não tinham conhecimento especializado para investigar esses crimes. Disse Mendes aos parlamentares que os juízes que atuam nessas varas especializadas, junto com delegados e o Ministério Público também especializados, formam uma espécie de "consórcio" que pode agir como "milícia". As varas de Justiça, os policiais e os promotores especializados foram, todos, de uma bandejada, para a cadeira de réus.

Uma denúncia de que, após o segundo habeas corpus, o ministro teria sido grampeado, fez com que posicionasse suas baterias contra a Abin - suposta autora do grampo de uma conversa telefônica entre Mendes e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), em parceria com a PF. A última semana foi perdida numa discussão interminável sobre se os equipamentos da Abin são apropriados para fazer grampos ou apenas fazem varreduras de escutas. Na dúvida, e antes da comprovação da denúncia, a Abin foi para o banco dos réus. A agência havia aparecidos na história Dantas, quando o delegado afastado do caso, Protógenes Queiroz, confessou ter contado com uma "ajuda informal" de seus agentes.

Passados dois meses da prisão de Dantas, todas as instituições que trabalharam no seu inquérito foram julgadas por Mendes - e os juízos de valor feitos pelo presidente do STF de cada uma delas, generosamente estampados pelos jornais. Não fossem as eleições, o presidente do Supremo teria sido o pautador hegemônico da mídia nesse período, sem que fossem necessárias informações mais consistentes do que acusações entre aspas do presidente da mais alta Corte para condenar instituições que exercem o seu papel na democracia brasileira, tal qual o STF.

No Brasil, parte da polícia mantém velhos hábitos de submeter presos, torturá-los, humilhá-los; a morosidade judicial resulta em um número enorme de presos que ou estouraram os prazos máximos de prisão temporária ou preventiva e não foram libertados, ou já cumpriram penas e continuam detidos; existem casos de uso privado de escuta ilegal; há um exagero de pedidos de escuta telefônica. O sistema judicial tem problemas estruturais que devem ser debatidos seriamente. É impossível, todavia, que todo o sistema seja ineficiente ou corrompido. Os casos de desvios criminosos devem ser investigados pela polícia e julgados pela Justiça. É impossível também que, em toda a cadeia que forma o sistema policial e judicial, apenas Mendes e Dantas sejam inocentes. O discurso politicamente correto de zelar para que o país não se torne um Estado policial é um instrumento para mobilizar todo o sistema pelo conflito e, por meio dele, obter hegemonia incondicional.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras

Muito longe da lógica democrática


Maria Rita Loureiro
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Eleições livres, justas e idôneas são condição fundamental da democracia. No Brasil de hoje, a Justiça Eleitoral e as urnas eletrônicas têm permitido avanços consideráveis nesses requisitos. Todavia a forma como se organizam as campanhas eleitorais não tem caminhado na mesma direção: elas não estão contribuindo para o desenvolvimento de nossa democracia, por duas razões principais, interligadas.

Primeiro, porque as campanhas se baseiam na lógica da publicidade comercial, o que as torna muito caras. Os horários “gratuitos” (aliás, bem pagos às redes de TV e rádio, por meio de isenções fiscais) são utilizados para apresentar o nome, a imagem (às vezes grotesca) de candidatos ao Legislativo e alguns chavões veiculados rápida e superficialmente no prazo exíguo atribuído a cada um. A parte principal é destinada à divulgação de propaganda de candidatos a cargos majoritários. Esta se baseia em filmagens de obras e realizações (se for candidato à reeleição) ou de situações graves nos serviços públicos existentes (se de oposição). Utiliza também entrevistas com populares que elogiam uns candidatos, criticam outros, sem falar nos demais expedientes publicitários de divulgação: banners, distribuição “santinhos”, etc. A contratação de profissionais especializados em marketing, os equipamentos e o material de apoio para produzir tudo isso custam muito dinheiro aos partidos e aos candidatos.

Mesmo não havendo dados sobre quanto se gasta em publicidade (o TSE apresenta números relativos a receitas e despesas de partidos e candidatos em vários pleitos eleitorais, mas pouquíssima discriminação deles), as informações de responsáveis por gastos dentro dos partidos estimam algo em torno de 70% a 80% do total. Aliás, a necessidade de gerar caixa para financiar campanhas caras é o que parece estar por trás das denúncias de irregularidades envolvendo partidos, candidatos e grupos econômicos no País. Os recursos dos financiamentos públicos e de pessoas, doados oficialmente, não têm sido suficientes para sustentar tais despesas.

Em segundo lugar, além de muito caros (podendo gerar, por isso mesmo, o apelo a práticas de corrupção), os programas eleitorais têm conteúdo de baixa qualidade democrática. Orientadas pela lógica da publicidade comercial, as campanhas eleitorais se tornam campanhas de venda de um “produto” (candidato/programa) ao cliente/eleitor. Canalizam suas energias para convencer o eleitor/cliente da superioridade e maior credibilidade de um “produto” (candidato) ante o concorrente. Do mesmo modo que no mundo do comércio a “propaganda é a alma do negócio”, no processo eleitoral ganha quem tiver mais recursos para contratar melhores profissionais e melhores pacotes publicitários.

Ora, nestes termos, estamos muito distantes da lógica democrática. A igualdade política entre eleitores, candidatos e partidos é deformada pelo peso do poder econômico e pela habilidade de profissionais mais qualificados (e mais bem pagos) de persuadir. Ademais, a função primordial de uma campanha eleitoral fica completamente esvaziada, pois joga fora o momento privilegiado da democracia em que o debate público organizado pelos partidos pode ser ativado e no qual os cidadãos podem formar juízos a respeito de seus problemas coletivos e dos diferentes projetos para sua superação.

Infelizmente, os debates entre os candidatos majoritários tampouco contemplam os requisitos para o aperfeiçoamento da qualidade da democracia. Na forma como são organizados, submetidos às restrições rigorosas de tempo estabelecidas pelos donos das empresas de comunicação (“três minutos para a resposta, um minuto para a réplica, meio minuto para a tréplica”, além das inúmeras interrupções para “os nossos comerciais”), eles não oferecem condições mínimas para o debate mais aprofundado entre partidos, candidatos e cidadãos e, por isso, não contribuem para a formação de juízos políticos. Acabam-se transformando em mera maratona na qual vencem não as propostas mais consistentes e representativas, mas os mais hábeis atores midiáticos.

A redução das campanhas a atos orientados pela lógica mercantil tem que ver ainda com a identificação da imagem dos concorrentes com a de administradores competentes que entregam (deliver) o que foi comprado pelo eleitor/cliente. Não é ingênua a apresentação dos candidatos a prefeito, governador e até presidente em cenas nas quais aparecem fiscalizando obras, sempre com capacete. Ora, se o Estado deve ser servidor e mesmo provedor de bens públicos demandados pela população, os governantes precisam ser mais do que isso. Para se qualificar como representantes eles precisam ser líderes capazes de formular, articular e pôr em prática, por intermédio de seus partidos, projetos mais amplos para a sociedade. Infelizmente, nossos programas eleitorais estão longe de tal caminho.

Diante deste quadro, é crucial que a próxima reforma política e novas regras eleitorais contemplem a necessidade de recuperar o teor democrático das campanhas, destituindo-as de seu caráter meramente publicitário e afirmando-as essencialmente como fórum de debate público. Isso implica gerar tempo maior nos meios de comunicação (afinal, todos são concessões públicas) para programas de debates (e não de propaganda) entre cidadãos, partidos e candidatos, inclusive para o Legislativo (locus do poder soberano, é bom relembrar). Certamente essas mudanças terão impactos não só no barateamento dos custos das campanhas, na redução dos recursos necessários para seu financiamento (e, claro, na redução dos incentivos à corrupção), mas igualmente na qualidade da vida democrática do País.

Maria Rita Loureiro, socióloga, é professora-titular da FGV-SP e da FEA-USP

Aliados lançam manifesto de apoio a Soninha

Roberto Almeida
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Candidata do PPS afirmou, durante sabatina no Grupo Estado, que há corrupção na Câmara Municipal de SP

O bate-boca de anteontem entre a candidata à Prefeitura de São Paulo Soninha Francine (PPS) e a vereadora Claudete Alves (PT), na porta do banheiro feminino da Câmara Municipal, e o cerceamento da filmagem da discussão pelos vereadores Milton Leite (DEM) e Antonio Carlos Rodrigues (PR) levaram simpatizantes do PPS e políticos de outros Estados a produzirem um manifesto de apoio à candidata e suas denúncias.

“Estamos todos solidários à candidata Soninha neste momento, pela coragem de jogar luz sobre a obscuridade da Câmara Municipal de São Paulo”, diz o texto. Ele será assinado por Fernando Gabeira, candidato do PV à Prefeitura do Rio, Manuela D’Ávila, candidata em Porto Alegre pelo PC do B, e pelo presidente nacional do PPS, Roberto Freire, entre outros.

Soninha afirmou, em sabatina do Grupo Estado, na semana passada, que há corrupção na Casa. “No mundo real, parlamentares, na Câmara Municipal de São Paulo, na Assembléia Legislativa, no Congresso votam a favor de um projeto em função do que ficar combinado que eles receberão em troca. Na pior das hipóteses, recebe-se dinheiro para votar a favor ou contra determinado projeto”, declarou a candidata.

A coordenação de campanha de Soninha, em texto veiculado no blog da candidata, compara o comportamento dos vereadores a um “código de honra da máfia, que manda exterminar quem se opõe às regras do crime organizado”. “Alguns vereadores pedem a cabeça de quem ousa questionar o modus operandi das negociatas realizadas na Câmara Municipal”, diz o texto.

A campanha do PPS já definiu um alvo: o chamado “centrão”, grupo de parlamentares do PR, PTB, PMDB, PP, PV e PSB. Diz o texto do blog: “Os próprios parlamentares não escondem que trocam o voto em determinado projeto de interesse do governo por cargos na prefeitura, por exemplo. Isso é dito abertamente. Essa é a própria essência do ‘centrão’.”

REPRESENTAÇÃO

O corregedor da Câmara Municipal, Wadih Mutran (PP), recebeu ontem a representação do vereador Carlos Apolinário (DEM) para que as declarações de Soninha sejam apuradas pela Casa. Reportagens do Estado com as acusações da candidata foram anexadas ao documento.

De acordo com Apolinário, a vereadora pode ser enquadrada por quebra de decoro parlamentar, caso não indique nomes. “Se ela tiver provas, vamos abrir uma CPI para punir os culpados. Se não, é injúria, calúnia e difamação”, adiantou.

Ontem a comissão da corregedoria não teve quórum para propor um relator.

No Rio, Cabral cresce com “virada” de Paes

Jarbas de Holanda

Ao lado do sucesso de Aécio Neves na rápida afirmação de seu candidato a prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, e da contenda que se torna acirrada em São Paulo para a definição do adversário – Geraldo Alckmin ou Gilberto Kassab – da petista Marta Suplicy, no segundo turno, cujo resultado terá implicação relevante para o projeto presidencial de José Serra, a disputa na outra grande capital do Sudeste, o Rio, que começou desqualificada por enorme fragmentação partidária, ganhou nova dimensão de duas semanas para cá com a forte decolagem do candidato do governador Sérgio Cabral, o neopeemedebista Eduardo Paes (que na última pesquisa do Datafolha já assumiu a liderança da corrida, ultrapassando Marcelo Crivella, do PRB, por 25% a 21% reduzindo a 12% o índice de Jandira Feghali, do PCdoB, e despontando como favorito no segundo turno). Num contexto em que a divisão dos partidos de esquerda e da base governista federal deixa o presidente Lula à margem do processo e favorece ampla capitalização por Cabral.

Assim, e depois de cancelar o apoio dado ao petista Alessandro Molon (sob pressão do Palácio do Planalto articulada pelo ministro Tarso Genro), assumindo o risco do lançamento de um candidato próprio do PMDB, Sérgio Cabral reforça sua influência no partido, contra o que resta da do antecessor Anthony Garotinho, e reordena a cena política carioca. Por meio da alternativa centrista representada por Eduardo Paes, que o distingue da esquerda, que acentua o desgaste da centro-direita do prefeito César Maia e que propicia o bloqueio – agora bastante provável – à emergência do populismo evangélico de Crivella.

O primeiro dividendo político-econômico significativo do governador do Rio com a “virada” de seu candidato nessa disputa eleitoral foi ter conseguido, enfim, que o presidente Lula atendesse a seu pleito de privatização do aeroporto Tom Jobim, ou do Galeão, que era barrado, de um lado, pela Infraero e, de outro, por resistências estatizantes da Casa Civil do Planalto. A insistente cobrança de moderna e eficiente gestão privada do Galeão, reforçada como parte da preparação do Rio para a Copa do Mundo de 2014, insere-se nos dois traços inovadores mais expressivos do governo de Cabral – a política de segurança, de forte enfrentamento da criminalidade, e a combinação de política econômica e fiscal séria (executada pelo secretário da Fazenda Joaquim Levy) com ações decididas e consistentes para a atração de investimentos privados, internos e externos. Por outro lado, a decisão sobre o Galeão, beneficiou também São Paulo, ao ser de pronto estendida ao aeroporto de Viracopos e por ter desatado o anúncio pelo ministro da Defesa Nelson Jobim do início de estudo para a construção e operação pela iniciativa privada do quarto terminal aeroportuário paulista.

Cenários do Rio e de BH aumentam para Lula peso da disputa em São Paulo

O cenário do Rio e o da capital mineira – onde as contestações da direção nacional do PT e dos ministros Luís Dulci e Patrus Ananias à aliança do governador Aécio Neves com o prefeito Fernando Pimentel em torno de Márcio Lacerda deixam Lula sem papel na campanha eleitoral – tornam a disputa paulistana ainda importante para ele. Por causa da necessidade de vitória do lulismo numa das três capitais do Sudeste e porque esta é a que lhe propicia um confronto direto com o pólo central dos tucanos e com a candidatura presidencial de ostensivo caráter oposicionista, a de José Serra. Necessidade acentuada pela provável derrota do PT e aliados nas três capitais do Sul (em contraposição ao que deverá ocorrer em boa maioria das do Nordeste, do Norte e até do Centro-Oeste, e apesar do forte crescimento da popularidade do chefe do governo em todo o país).

Daí, a antecipação já feita, e a ser ampliada, do esforço do Palácio do Planalto e do próprio Lula em favor de candidatura de Marta Suplicy, que inclui a tentativa de eleição dela em primeiro turno, a qual segue sendo improvável, e o preparo de uma ofensiva em grande escala para o turno final. Daí também, em face das implicações ainda mais decisivas que tal disputa tem para o governador Serra, a prioridade que ele passa a atribuir, na administração da complicada contenda entre Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab, à seleção daquele com melhores condições de enfrentar Marta no segundo turno, mesmo que não seja o candidato de sua preferência pessoal.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1083&portal=

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Mundo novo


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. O oposto dos subúrbios dos subúrbios (exurbs) ou dos subúrbios emergentes (exurbia), de que falei aqui recentemente, que reúnem cerca de 15% da população dos Estados Unidos em espaços pouco povoados nas franjas das grandes cidades, são as megalópoles, que concentram os avanços tecnológicos e o desenvolvimento cultural do mundo moderno. Ao contrário dos suburbanos, que procuram amplos espaços para morar mesmo sem serviços de lazer e cultura, os moradores das grandes megalópoles mundiais querem estar próximos de pessoas com os mesmos interesses e necessidades, e tanto pessoas quanto empresas ganham em produtividade com essa troca de informações e o acesso à tecnologia do conhecimento que só as grandes conurbações oferecem.

O professor canadense Richard Florida, autor da tese de que a escolha da cidade onde uma pessoa vai viver é uma das mais importantes da vida moderna e define o tipo de pessoa que você é, destaca entre as 40 mais importantes megalópoles do mundo a conurbação entre Rio de Janeiro e São Paulo, a Riopaulo.

Por sua vez, o economista brasileiro André Urani também está convencido de que não há sentido em pensar o futuro da região metropolitana do Rio de Janeiro separado do de São Paulo (e vice-versa). No livro "Trilhas para o Rio - Do reconhecimento da queda à reinvenção do futuro", pela editora Campus-Elsevier, recentemente lançado, ele analisa as razões da decadência do Rio e projeta as soluções para o futuro, na certeza de que o território entre as duas maiores cidades do país está sendo conurbado naturalmente. Recentemente, pela primeira vez foi fotografada a conurbação entre São Paulo e Campinas.

A conurbação imaginada por André Urani abrange cidades dos três estados mais importantes do país, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, em direção a Campos, no Rio de Janeiro, a Campinas, em São Paulo, e a Juiz de Fora, em Minas Gerais. A "Megalópole Brasileira", ou M"bras, é formada por 232 municípios interligados por diferentes aspectos, e equivale a apenas 0,97% do território brasileiro.

No entanto, tem 41,7 milhões de pessoas, quase 23% da população brasileira, 96% residentes em áreas urbanas, contra uma taxa brasileira de 81%. E é responsável por 35% do Produto Interno Bruto brasileiro, com renda domiciliar per capita cerca de 55% maior do que a média brasileira. Mas também, por representar um país ainda fortemente desigual, concentra boa parte dos pobres e indigentes do país.

No prefácio que escrevi para o livro, onde estão registrados esses números, digo que a megalópole brasileira de Urani já chega preparada para o futuro, com uma taxa de analfabetismo que é cerca da metade da do país e, quando se fala de novas gerações, a diferença é ainda mais marcante: entre as crianças de 10 a 14 anos, a praga do analfabetismo está praticamente erradicada. Tem 18,6% do total de estabelecimentos de ensino superior do país e reúne 24% de seus universitários.

No eixo Rio-São Paulo estão localizadas as principais instituições e organizações ligadas à pesquisa, tais como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Instituto de Pesquisa Energéticas e Nucleares (Ipen), o Laboratório Nacional de Computação Científica, a Fundação Getulio Vargas.

Para Urani, o que está em jogo é, simultaneamente, o revocacionamento de nossas duas principais metrópoles para o século XXI e o próprio papel do Brasil no mundo. Ele lembra que São Paulo e Rio de Janeiro perderam, nas duas últimas décadas do século XX, as vocações que fizeram delas grandes metrópoles em meados do século passado. "De 1920 a 1980, o crescimento demográfico foi de 4,5% ao ano na RMSP e de 3,3% na RMRJ (a partir de 1954, SP supera o Rio em número de habitantes). Num contexto em que a economia da RMSP crescia espantosos 10% ao ano e a da RMRJ "apenas" 7%".

De 1980 em diante, até 2005, as coisas mudaram drasticamente. Por um lado, o crescimento demográfico arrefeceu: caiu para pouco mais de 2% na RMSP e para 1,1% na RMRJ. Mas o mais espantoso, diz Urani, foi a freada econômica, muito mais brusca ainda: o crescimento anual médio do PIB caiu para 1,5% na RMSP e para 0,6% na RMRJ. Ou seja: nossas principais metrópoles se tornaram flácidas; passaram uma geração inteira encolhendo em termos de PIB per capita, ressalta.

A Megalópole Brasileira seria, portanto, uma tentativa de encontrar um nicho de inserção de nossas principais metrópoles neste mundo globalizado do século XXI. "Alqueres (José Luiz Alqueres, presidente da Light, um dos idealizadores do projeto) e eu a chamamos de M"bras (e não, por exemplo, de Riopaulo - como o Florida) porque não queremos passar a impressão de que ela possa ser algo que se dê contra o resto do Brasil. Pelo contrário: será um esforço de recuperar um espaço para a vanguarda brasileira, um portal para a exportação dos conceitos e serviços brasileiros para o mundo".

Um nicho a ser explorado, que vem sendo discutido no âmbito do programa "Rio além do petróleo", projeto do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), com o apoio do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP) e da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do governo do Rio: a de sermos a "capital mundial da energia e da sustentabilidade", um centro de produção e disseminação de conhecimento e de realização de negócios nestas áreas.

Para André Urani, "ninguém mais no mundo reúne as condições que a M"bras reúne para ocupar esse lugar, com suas reservas de petróleo, sobretudo agora, com as descobertas do pré-sal, seus biocombustíveis, suas usinas nucleares, suas empresas de energia elétrica (Eletrobrás, Furnas, Light, Ampla, Eletropaulo, CPFL), seus centros de pesquisa, seus 50 parques naturais, sendo cinco dos quais nacionais.

Um corisco solto no mundo


Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


A administração Bush promoveu a desigualdade e o militarismo. Fracassou por isso. O declínio norte-americano significaria uma ruptura na ordem mundial?

Políticos e economistas de esquerda se apressaram a decretar a morte do neoliberalismo por causa da crise norte-americana. A pá de cal foi a blindagem das gigantes do mercado imobiliário Fannie Mae e Freddie Mac pelo Tesouro dos Estados Unidos. A operação estatizante seria um renascimento do velho keynesianismo. Afinal, o governo Bush injetou US$ 200 bilhões nas duas megaempresas, o que foi apresentado como solução para a crise do mercado financeiro daquele país. Será o último capítulo da crise imobiliária? Não, o nervosismo de ontem das bolsas de valores no mundo inteiro parece apontar na direção contrária.

Metamorfose

Alguém já disse que o capitalismo é uma eterna metamorfose dos meios de produção e relações sociais, dos credos, costumes e idéias modernas. Por isso mesmo, a antiga União Soviética e o “socialismo real” do Leste Europeu sucumbiram à terceira revolução industrial. A China é a nova potência porque aderiu à economia de mercado e se conectou à economia norte-americana. Os dois países são sócios do mesmo modelo energético e parceiros do mercado financeiro internacional. Um é o símbolo do neoliberalismo; o outro, da intervenção estatal.

A estatização de metade do mercado hipotecário dos Estados Unidos lançou por terra a ortodoxia liberal de que o governo nunca deve se meter no mercado para exercer um papel regulatório. Nem de longe, porém, significa o surgimento de uma nova política naquele país. O histórico de fraudes contábeis, descontrole financeiro e incompetência política do mercado financeiro norte-americano é que libertou o corisco e colocou em xeque o mercado mundial. Porém, é um exagero decretar o fim dos fundamentos do liberalismo. Eles são inerentes ao sistema financeiro globalizado. Como as duas instituições assumiram riscos da ordem de US$ 5 trilhões em contratos, o presidente Bush resolveu honrar os compromissos e evitar um colapso no mercado hipotecário. Com isso, socorreu a banca internacional e o atual sistema-mundo. De pronto recebeu o apoio dos dois candidatos que disputam a Presidência dos Estados Unidos. Os partidos de Barack Obama e John McCain foram coniventes com as causas da crise. Onde estará a mudança?

O redemoinho

Também é temerário acreditar que a desaceleração da economia dos EUA acabou. Há sete meses, outra operação salvou os investidores do banco Bear Stearns e a crise continuou. Os ativos nos Estados Unidos — imóveis, automóveis, ações e os demais títulos privados – continuam desabando. Na Europa, o mesmo fenômeno prenuncia uma longa recessão. E o impacto da crise na Ásia repercute por aqui no alvorecer do dia. A economia brasileira é robusta, porém sacoleja com tudo isso. Na periferia do redemoinho, há chance de escapar de seu centro de atração? Pergunte ao corisco.

O redemoinho ameaça deixar muitos países de pernas para o ar. O esforço do governo norte-americano para salvar seu mercado financeiro, a rigor, interessa a todo mundo. Contraditoriamente, quem mais sofre o baque, a velha Europa, não quer mudança, quer uma saída conservadora. A esquerda foi varrida do poder na maioria dos países, a começar pela Itália de Berlusconi e a França de Sarkozy. Onde está, então, a alternativa ao neoliberalismo? No capitalismo de estado da China, que ninguém sabe ainda como enfrentará a crise mundial e o problema da democracia política? Nos regimes da Rússia e da Índia, que estão longe de serem exemplos de relações entre o Estado e a sociedade? É óbvio que a saída para o Brasil não virá do Oriente.

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, candidata à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também classificou a intervenção do governo Bush no mercado financeiro como a “morte do neoliberalismo”. Bebeu nas águas de Immanuel Wallertein, o principal teórico do sistema mundial, que declarou o ano 2008 como o ano da “morte da globalização neoliberal”. A administração Bush promoveu a desigualdade e o militarismo. Fracassou por isso. O declínio norte-americano significaria uma ruptura na ordem mundial? Segundo Wallerstein, haverá um grande realinhamento da política global e das forças econômicas, com o retorno ao keynesianismo e ao capitalismo de Estado. Será essa a aposta política da candidatura de Dilma?

Em casa onde falta pão...


Lucia Hippolito
DEU NO BLOG DE LUCIA HIPPOLITO

...todos gritam e ninguém tem razão


Acusado de fazer uma campanha ruim no rádio e na TV, prejudicando as chances de Geraldo Ackmin chegar ao segundo nas eleições em São Paulo, o marqueteiro da campanha demitiu-se e saiu atirando, em entrevista concedida à repórter Renata Lo Prete e publicada hoje na Folha de S. Paulo.

Entre outras acusações, o marqueteiro afirma que os kassabistas compraram o apoio de vereadores tucanos e que o PSDB kassabista trabalhou o tempo todo contra a candidatura de Geraldo Alckmin.

É uma acusação grave, que deve ser apurada. Mas será que ela engloba todo o problema?

É evidente que o responsável não é nem a campanha no rádio e na TV e muito menos o desempenho do marqueteiro.

O fato é que, mais uma vez, os tucanos não conseguiram se entender antes da largada para as eleições. Da mesma forma como em 2006, quando atropelou José Serra, Alckmin impôs sua candidatura dentro do PSDB, com uma tenacidade que não se confirmou na campanha. (Conseguiu ter menos votos no segundo turno das eleições presidenciais do que no primeiro, feito inédito.)

Alckmin quis porque quis ser candidato. Parecia menino mimado que não quer abrir mão do trem elétrico. E entre os tucanos, mesmo os de alta plumagem, não houve quem o demovesse da teimosia.

Par délicatesse, j'ai perdu ma vie, diz um dos mais lindos poemas de Rimbaud, verdadeiro retrato da alma humana. Pois cai como uma luva entre os tucanos paulistas.

Por delicadeza, falta de empenho, desejo de frear as ambições de José Serra, ou pura preguiça mesmo, os tucanos paulistas mais uma vez se enredaram numa teia que, pelo andar da carruagem, não só vai lhes tirar das mãos a prefeitura da maior cidade do país, como pode ter conseqüências seriíssimas na campanha de 2010, tanto para o governo do estado como para a presidência da República.

Será mesmo que valeu a pena arriscar tudo isso apenas para não desagradar Geraldo Alckmin?

Sobrou para o marqueteiro. OK, só não vale acreditar nisso.

Impunidade de raiz


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A Justiça tarda e, não raro, falha; ouve-se muito por aí a propósito das razões da impunidade no Brasil. O argumento, embora real, vira pó na boca de qualquer uma das autoridades que constantemente ignoram decisões judiciais, com especial destaque para a corrente indolência em relação ao cumprimento da sentença do Supremo Tribunal Federal sobre a contratação de parentes no poder público.

Estamos prestes a entrar a terceira semana desde que o STF baixou um “cumpra-se” no princípio constitucional da impessoalidade no serviço público, em vigor há 20 anos, e até agora a regra geral é a da solene indiferença.

Descontadas ousadias explícitas - como as do prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, e do governador do Paraná, Roberto Requião, que protegeram os parentes nas lacunas da sentença -, as demissões foram exceções.

Nada fora do previsto, diga-se. Estava perfeitamente desenhado no horizonte esse cenário. O Judiciário deu-se 90 dias de prazo por intermédio do Conselho Nacional de Justiça e o Executivo de um modo geral não deu pelota.

O Legislativo, mais visado, move-se à velocidade de um paquiderme: a cada notícia na imprensa sobre o tema, um passo. Ontem mesmo, o Estado publicou reportagem mostrando o quadro da indolência em âmbito nacional e a direção do Senado tomou uma decisão: informou às excelências integrantes da Casa revisora das leis que a decisão do Supremo é para ser cumprida.

Choveu no molhado e inócua permanecerá a ordem “imediata” para que se procedam as demissões, simplesmente porque não há como obrigar os senadores a demitir os parentes. Aliás, não há outra maneira senão a iniciativa própria de fazer valer a sentença em qualquer um dos Poderes da administração pública.

Chamar a polícia, expulsar os familiares, pôr para correr mulheres, maridos, sobrinhos, tios, irmãos, primos de parlamentares, magistrados, poderosos donos de cargos de confiança para distribuir? Impossível.

Como não há punição nem disposição de nenhuma das autoridades máximas em cada nicho de poder País afora de enfrentar suas corporações e as respectivas deformações, trata-se de uma determinação destinada a cair no vazio mais cedo ou mais tarde.

Ou devidamente reformulada por alguma nova legislação, caso o assunto continue a render desconforto.

Por enquanto, busca-se ganhar tempo sob os mais variados pretextos. Assembléias legislativas alegam que estão em processo de “levantamento” de dados sobre os parentes contratados e justificam a lentidão com a ausência dos parlamentares por causa das campanhas eleitorais.

Em escalões mais elaborados, quem não fica impávido posto em silêncio apela à necessidade de maiores esclarecimentos quanto aos limites entre o proibido e o permitido ou invoca o caráter injusto e radical da decisão.

Como se a questão estivesse em aberto e não fosse suficientemente clara a recusa do poder público em cumprir uma decisão da Corte Suprema de seu país.

RetomadaA suspensão do depoimento do ministro da Defesa, Nelson Jobim, marcado para hoje na CPI dos Grampos, não é obra do imprevisto nem causa a menor estranheza.

Se o governo quer esfriar a temperatura do debate sobre as escutas clandestinas, a última coisa que poderia interessar seria a presença de Nelson Jobim na CPI.

Surpreendente e esquisito foi o ministro da Defesa ter aceitado o convite e ainda prometido exibir a prova de que a Agência Brasileira de Inteligência está ilegalmente equipada para grampear.

Gestos ainda carentes de explicação, já que o ministro da Defesa, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, deputado “de ponta” na Constituinte, organizador do texto da Carta, não seria tolo muito menos louco de fazer aquilo sem respaldo.

Perdido temporariamente o leme ante a urgência de atender à exigência do Supremo Tribunal Federal por uma atitude “efetiva”, o Planalto retoma o seu padrão de administração de crises e empurra mais essa com a barriga, deixando como está para ver como é que fica.

Quando do episódio dossiê-FHC, a ministra Dilma Rousseff só foi ao Congresso depois de dois adiamentos.

Vale-crise

Agora que o governo federal se sente mais seguro - pelo menos até segunda ordem - na direção do caso das escutas, é hora de conferir o grau de apego do Palácio do Planalto ao plano de privatização de aeroportos, começando pelo internacional Tom Jobim, no Rio.

Propenso a aceitar a idéia, mas sempre resistente a executá-la, o governo achou por bem ceder aos apelos capitaneados pelo governador Sérgio Cabral, justamente no auge da discussão sobre a compra de equipamentos de interceptação por parte da Abin.

As manchetes, ocupadas pela guerra de versões entre autoridades durante três dias, abriram-se ao projeto de privatização nos dois seguintes.

Administração de cargos e salários


Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Uma das missões da presidente Cristina Kirchner na visita de Estado que fez ao Brasil, até ontem, por ocasião da Independência, foi, segundo integrantes de sua diplomacia, pressionar o Congresso Nacional para aprovar o ingresso da Venezuela no Mercosul. A resistência dos parlamentares brasileiros, senadores e deputados, a esta concessão que o governo petista diz querer fazer ao chavismo surpreende positivamente. No Senado, onde a proposta sequer chegou, o líder contra o pleito do presidente venezuelano Hugo Chavez é simplesmente o senador José Sarney (PMDB-AP), um dos mais respeitados da Casa.

Na Câmara, onde o projeto passou, raspando, na Comissão de Relações Exteriores, os partidos governistas ficaram com Chavez, não por unanimidade, e a oposição contra. Tal foi a dificuldade desta primeira votação que os líderes da aliança do presidente Lula ainda protelam a votação em plenário, à espera de dias melhores que podem resultar desta fase de comportamento mais discreto do presidente venezuelano.

Durante os debates da proposta, na Câmara, a argumentação dos que defendiam Chavez era uma só: o Brasil tem um grande saldo comercial com a Venezuela e por isto seria bom atender ao pedido de seu presidente. Os que eram, e ainda são contra, desfiavam restrições de todo tipo, em que se destaca o descumprimento da cláusula democrática do bloco. O presidente Chavez, por ação e não só por falação, não teria arquivado os riscos a que submete tal cláusula.

O raciocínio de quem está contra é que é preciso prestar atenção no significado real da presença de Chavez no Mercosul, tendo em vista as restrições que lhe fazem os países mais desenvolvidos do mundo, na América ou na Europa, onde é figura polêmica. Os deputados deixaram claro que Chavez, com sua personalidade difícil, criaria problemas de todo tipo para os demais países, em especial o Brasil, com quem disputa liderança. Mesmo apresentando a argumentação mais consistente, os que desaprovavam o atendimento ao pedido de Chaves perderam na Comissão da Câmara. E isto apesar da pressão de vários governadores, em especial os do Paraná (PMDB) e de Pernambuco (PSB), que têm negócios com a Venezuela e determinaram às suas bancadas que votassem a favor de Chavez. Devem repetir o apelo quando o assunto chegar ao Senado.

O esforço de convencer o Congresso poderia ser poupado se a presidente da Argentina desviasse o foco para o governo. Até parlamentares governistas se eximem de responsabilidade com a justificativa de que o próprio presidente Lula não se empenha nesta aprovação. Além de congestionar a pauta com Medidas Provisórias, o governo tem um interesse limitado a dois assuntos. O deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP), que participou do debate sobre a entrada de Hugo Chavez no Mercosul, fez, em levantamento recente, uma radiografia do interesse do governo Lula pelas demandas ao Congresso.

Governo só não se empenha por Chaves

"Uma das características deste governo é que ele não se empenha em matérias legislativas que não sejam aquelas ligadas aos aumentos de salário e ampliação do quadro dos funcionários públicos", registra. A análise da produção legislativa no primeiro semestre deste ano mostra que houve, segundo Madeira, muita produção e pouca relevância: 35 leis trataram de homenagens e denominações; 29, de matéria orçamentária; 17, da criação de cargos ou alterações salariais, 4 dispondo sobre algum tipo de renúncia fiscal e 2 criando empresas. Outras 41 leis trataram de assuntos tão sortidos quanto de relativa importância.

"Percebemos uma linha de conduta do governo: aumento de gastos e criação de cargos; as leis sancionadas mostram que houve autorização para elevação de despesas no valor de R$ 33,5 bilhões, por causa do excesso de arrecadação ou superavit financeiro; também foram criados 50.319 cargos efetivos e 8.898 funções comissionadas, totalizando 59.217", contabiliza. O deputado destaca, ainda, com relação à origem dos 128 projetos transformados em lei no primeiro semestre, que 5 foram originários do Judiciário, 64 do Executivo e 59 do Legislativo.

No estudo feito sobre as votações de metade do ano, Madeira diz que o primeiro semestre de 2008 não teve uma pauta legislativa adequada às expectativas da sociedade brasileira. "Diversos assuntos relevantes permanecem numa lenta tramitação, quando não estão parados: cite-se o projeto de lei que propõe regular as agências, a lei do gás, a lei do Cade; o governo foi muito claro na sua agenda de aumento de gastos e criação de novos cargos, e em ambos os casos com uma inovação incompatível com a Lei de Responsabilidade Fiscal, pois jogou parte dos gastos para 2011/2012".

Segundo o deputado, o seu partido, o principal de oposição, também não colaborou para que o desempenho do Congresso tivesse outro nível. "O PSDB não conseguiu transmitir uma mensagem clara de crítica aos atuais governantes, ou propor melhor projeto, ou chamar a atenção sobre os graves problemas que serão gerados pelas decisões de agora. Faltou o alerta contundente para a farra fiscal e a bagunça institucional".

Em movimento

As pesquisas eleitorais registram dois fatos que vale a pena acompanhar na campanha deste início de setembro. O primeiro é a disputa, voto a voto, pelo segundo lugar em Porto Alegre, entre as candidatas do PT, Maria do Rosário, e do PCdoB, Manuela D"Ávila. O segundo é o crescimento do candidato do PT em Salvador, Walter Pinheiro. Se ultrapassar o atual prefeito, candidato à reeleição que está em terceiro lugar, Pinheiro, segundo os analistas de pesquisa, terá chance de desbancar um dos dois carlistas que estão em primeiro e segundo lugares na disputa, ACM Neto, do DEM, e Antonio Imbassahy, do PSDB. A tradição na cidade é um carlista contra um não carlista, e não a disputa entre dois do mesmo grupo.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

Tucanos paulistas

Marcos Coimbra
DEU NO ESTADO DE MINAS


"Passada a metade do período de propaganda eleitoral, a eleição em São Paulo está indefinida. A certeza é de que a decisão será no segundo turno"

Terminada metade do período de propaganda eleitoral, a eleição em São Paulo se mostra indefinida em um aspecto fundamental. Ninguém tem dúvidas de que a decisão vai se dar no segundo turno e que Marta Suplicy estará nele. Ela lidera com folga as pesquisas, mas não mostra ter condições de vencer já em 5 de outubro. Ninguém aposta na possibilidade de crescimento dos candidatos que estão nos postos inferiores, de Maluf para baixo.

Mas ninguém é capaz de dizer se o adversário da ex-prefeita será Alckmin ou Kassab. O candidato do PSDB parecia favorito ao posto, mas o bom desempenho do prefeito nestas semanas deixou o quadro incerto.

A explicação dessa situação tem uma dimensão atual e outra antiga. Olhando para o que está acontecendo, é nítida a vantagem de Kassab sobre o ex-governador em dois aspectos. De um lado, tem muito mais tempo de antena que ele, na razão de quase dois para um. Enquanto um telespectador comum tem cerca de 17 chances ao dia de ver um comercial seu (supondo que seus 8min44seg diários serão usados em inserções de 30 segundos), só tem nove de ver um de Alckmin.

De outro lado, a campanha do atual prefeito se mostra mais bem focada, usando soluções adequadas de estratégia e forma. O mesmo não se pode dizer do material que é veiculado por seu oponente direto.

Mas não são apenas os fatos de agora que se devem invocar na discussão do que ocorre em São Paulo. A disputa entre dois candidatos vindos do mesmo grupo político, com apoios fundamentalmente iguais, mas que concorrem, com ânimos cada vez mais acirrados, não começou na eleição de 2008.

O primeiro ato dessa história aconteceu em 2004, quando José Serra chegou à conclusão de que deveria disputar a eleição municipal. Depois da derrota para Lula em 2002, ele assumira, com toda justiça, a presidência nacional do PSDB, cargo que o deixava no palco para voltar a ser o candidato do partido na eleição seguinte. Fazendo a avaliação que Lula deveria disputar com vantagem sua reeleição, Serra preferiu o caminho da prefeitura. Ganhou e estava conformado a lá permanecer. Até jurou que não deixaria o cargo.

Veio o mensalão e um novo ato começou. Serra achou que Lula ia perder e se entusiasmou. Só que Alckmin tinha passado à sua frente na fila dos presidenciáveis do partido. Serra bem que tentou, mas, no embate entre o trator e o picolé de chuchu, Alckmin não cedeu.

Serra teve de se contentar em disputar o governo do estado, sem grande tristeza, pois, àquela altura, Lula já voltara a ser favorito. Como mais valia um pássaro na mão que dois voando, Serra cedeu. Mas as mágoas ficaram.

O terceiro ato se passou logo em janeiro de 2007. Serra fez sua primeira reunião pública de secretariado na presença do antecessor. Quem ouviu seu discurso ficou com a impressão de que tomava posse à frente de um governo de oposição, pois pouco do que recebia como legado foi sequer reconhecido. Ao contrário, críticas voaram para todos os lados, atingindo as principais marcas da gestão do correligionário. Daí em diante, essas situações sempre se repetiram.

No início de 2008, tivemos o quarto ato desse drama. Serra montou seu jogo, no qual queria um candidato a prefeito inequivocamente identificado consigo. Mais, que fosse uma candidatura que indicasse sua estratégia para disputar a eleição presidencial de 2010: em coligação com o DEM, apoiado pelo PMDB (pelo menos parte dele). Quanto a Alckmin, que acatasse e ficasse quieto.

Quem faz da força sua marca registrada tem de aceitar reações iguais a seus atos. Quando Alckmin percebeu que não teria mais espaço no PSDB do estado que ele governara com índices altíssimos de popularidade (mais altos que os de Serra), que ia desaparecer, ele reagiu. Paradoxalmente, o picolé passou (de novo) por cima do trator: Alckmin impôs a Serra sua candidatura a prefeito.

Quem vai com Marta para o segundo turno? Tão combalidos estão os dois que a questão pode ser irrelevante. A guerra tucana pode ter abatido ambos.


A flor murcha da gratidão


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


O isolamento no fim de semana em Nova Friburgo justifica, mas não consola o atraso com que chego com a flor murcha da gratidão para a homenagem dorida da saudade ao amigo impecável, a quem devo tudo o que aprendi em técnica e esperteza em televisão: Fernando Barbosa Lima foi um exemplo de ética, criatividade e competência. Não conheço outra biografia que se compare à do criador do Jornal de Vanguarda, que revolucionou o noticiário na telinha, e de mais uma centena de programas, todos com sucesso e com a sua marca identificadora.

Não foi o único a ensinar o caminho ao iniciante na casa dos 23 anos e que tem lugar cativo na minha gratidão. Odylo Costa, filho patrocinou a minha promoção ao bloco da meia dúzia dos grandes jornais na década incomparável dos anos 60, quando o Rio se despedia do crachá de capital do Brasil com a inauguração de Brasília inacabada, um canteiro de obras no desterro do cerrado. Levou-me para o Diário de Notícia e mais tarde para o Jornal do Brasil. E para a sua curta passagem pela direção da Rádio Nacional, então a maior emissora do país.

Aqui e acolá, a troco de cachês que nem sempre eram pagos, participei de programas de debates políticos e de mesas de inflamadas discussões sobre futebol.

Mas, com o Jornal de Vanguarda foi diferente. O convite foi feito por Tarcísio Holanda, excelente repórter político, com lugar cativo no imortal Jornal de Vanguarda.

No livro Nossas câmeras são os seus olhos, lançado em 2007 pela Ediouro e em que tive o privilégio de assinar o breve e despretensioso prefácio, Fernando dá a receita do jornal revolucionário que assinala a mais profunda mudança no modelo de então da notícia lida pelos locutores.

Conta Fernando Barbosa Lima: "Com a inauguração da TV-Excelsior do Rio, em setembro de 1962, o Jornal de Vanguarda entrava no ar". E adiante: "O Jornal de Vanguarda, quando assumi a direção do jornalismo da Rede Excelsior, trouxe uma revolução na linguagem e no espírito do telejornalismo – um verdadeiro ‘Show de Notícias’ - como foi chamado em São Paulo".

Lista alguns dos principais apresentadores, "cerca de oito ou nove pessoas dentro do estúdio". Em vez de buscar pessoas de rádio, sua base era formada por jornalistas que vinham da imprensa escrita. Um marco, como se vê. A lista é incompleta: desenhistas como Borjalo, Appe e Millôr Fernandes, humoristas como Sergio Porto (Stanislaw Ponte Preta), comentaristas políticos como Tarcísio Hollanda e o comentarista internacional Newton Carlos, Gilda Muller fazia a parte feminina, e havia cronistas como Ricardo Amaral, Maneco Muller, Ibrahim Sued, José Lewgoy e Reinaldo Jardim, além da equipe de grandes locutores, como Cid Moreira, Luiz Jatobá, Célio Moreira, Fernando Garcia, Jorge Sampaio e Moacir Lopes.

Mas, é impossível ressuscitar no texto batucado na cadência da saudade, o impacto da novidade que quebrava todos os padrões na explosão da ousadia. No palco, com fundo neutro para não desviar a atenção, meia dúzia de banquinhos de três ou quatro pés: truque para obrigar a postura correta, de busto empinado, sem o derreado relaxamento das poltronas.

O rodízio disparava, com os dois, três minutos de cada um. E a câmera acompanhava a velocidade alucinante da passagem dos comentaristas anunciados pelos locutores.

Não podia durar muito. O Jornal de Vanguarda foi assassinado pelo Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968, no governo do general-presidente Arthur da Costa e Silva, que oficializou a ditadura e instituiu a censura à imprensa.

Fernando Barbosa Lima resume o fim: "Toda a equipe se reuniu convicta de que um programa como o Jornal de Vanguarda não poderia ser submetido à censura total imposta pelo AI-5. Decidimos então tirar o jornal do ar – a última frase da última edição foi: um cavalo de raça mata-se com um tiro na cabeça".

É golpe


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - O que está em andamento na Bolívia é uma tentativa de golpe contra o presidente Evo Morales. Segue uma linha ideológica e táticas parecidas às que levaram ao golpe no Chile, em 1973, contra o governo de Salvador Allende, tão constitucional e legítimo quanto o de Evo Morales.

Os bloqueios agora adotados nos Departamentos são a cópia de locautes de caminhoneiros que ajudaram a sitiar o governo Allende.

Outra semelhança: Allende elegeu-se presidente, em 1970, com pouco mais de um terço dos votos (36%). Mas, três anos depois, sua Unidade Popular saltou para 44%, em pleito legislativo, o que destruiu qualquer expectativa da direita de vencê-lo política ou eleitoralmente.Foi na marra mesmo, o que deu origem a um dos mais brutais regimes políticos de uma América Latina habituada à brutalidade.

Evo Morales também se elegeu com menos votos do que obteve agora no chamado referendo revogatório, o que demonstra um grau de aprovação popular até surpreendente para as dificuldades que o governo enfrentou desde o primeiro dia, em parte por seus erros e em parte pelo cerco dos adversários.

A luta dos Departamentos pela autonomia, eixo da crise, é também legítima e precede Evo Morales.

Mas passou a ser apenas um biombo para encobrir as verdadeiras intenções, cristalinamente reveladas a Flávia Marreiro, desta Folha, por Jorge Chávez, líder "cívico" de Tarija, um dos Departamentos rebelados contra o governo central: "Se precisar, vai ter sangue. É preciso conter o comunismo e derrubar o governo deste índio infeliz".

Cena mais explícita de hidrofobia e racismo, impossível. Nem o governo nem a oposição no Brasil têm direito ao silêncio, escondendo-se um na não-ingerência em assuntos internos e outra em preconceitos similares.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1082&portal=

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Além dos números


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Um trabalho da equipe do cientista político da PUC do Rio de Janeiro Cesar Romero Jacob, que reúne pesquisadores brasileiros e franceses, publicado na edição de setembro da revista Alceu, dá boas indicações para se entender o que está acontecendo com os votos nas duas principais capitais do país, Rio e São Paulo, e que conseqüências podem ter as eleições municipais para a eleição presidencial de 2010. O artigo, com 50 mapas por zonas eleitorais do TRE, e por Áreas de Ponderação da Amostra, do IBGE, para os dados socioeconômicos, mostra a correlação entre a votação das eleições municipais de 2002 e a eleição presidencial de 2006, assim como já haviam feito com as eleições municipais de 1996 e 2000 e as presidenciais de 1998 e 2002.

Um primeiro ponto a destacar: diferentemente de eleições anteriores - quando se verificou um descompasso entre as votações dos candidatos a presidente pelo PSDB, Fernando Henrique Cardoso, em 1998, e José Serra, em 2002, e o desempenho dos candidatos desse partido a prefeito, José Serra, em 1996, e Geraldo Alckmin, em 2000, com os candidatos do PSDB a presidente tendo ótimas votações na capital paulista e os seus postulantes a prefeito não tendo desempenho semelhante - houve uma convergência dos resultados obtidos por Serra, para prefeito em 2004, e por Alckmin, para presidente em 2006, "o que se constitui num fato novo na política paulistana".

Esta mudança, segundo o estudo, deve-se ao enfraquecimento do malufismo, atingido por uma sucessão de denúncias de corrupção envolvendo os ex-prefeitos Paulo Maluf e Celso Pitta.

Já no Rio, o descompasso entre as votações dos candidatos do PT, nesses dois níveis de eleição, se acentua. É grande a discrepância entre o bom desempenho de Lula, em 2006, e a reduzida votação de Jorge Bittar, em 2004, o que se deve, em parte, segundo o estudo da PUC do Rio, à divisão das forças de esquerda no pleito municipal.

Além disso, com o enfraquecimento do brizolismo, acentuado com a morte de Leonel Brizola, em 2004, e com a perda de expressão eleitoral do grupo de Anthony Garotinho, um "vácuo político" propiciou o bom desempenho de um candidato fora dos quadros partidários tradicionais, como o bispo licenciado Marcelo Crivella.

Na verdade, ressalta o estudo coordenado pelo cientista político Cesar Romero Jacob, este fato se constitui num elemento novo na política carioca, tradicionalmente dividida entre os diversos grupos da família brizolista: o próprio Brizola (PDT), Cesar Maia (PFL), Marcello Alencar (PSDB) e Garotinho (PMDB).

Com a vitória em 2004, Cesar Maia se afirmou como o principal herdeiro da família brizolista na cidade, ao vencer a quarta eleição consecutiva, como candidato (em 1992, 2000 e 2004) ou elegendo o seu sucessor (Luiz Paulo Conde, em 1996).

A candidatura de Crivella acabou provocando uma divisão de caráter religioso na cidade: os católicos fazendo voto útil em Cesar Maia e os evangélicos votando no irmão Marcelo Crivella.

Desse modo, "enquanto no Rio observou-se uma cidade dividida pela religião, em São Paulo verificou-se uma cidade polarizada pela política, numa acirrada disputa entre os dois maiores partidos brasileiros do momento, o PT e o PSDB", destaca o estudo.

O trabalho dos pesquisadores da PUC do Rio de Janeiro não vai além dos dados das últimas eleições, mas com base neles é possível fazer-se algumas ilações. A forte votação de Marta Suplicy confirma uma situação recorrente, com os candidatos do PT a prefeito e a presidente tendo seus maiores percentuais de votos nos bairros populares. Vencendo, Marta Suplicy torna-se uma forte candidata à Presidência pelo PT, com uma base de votos importante na capital paulista.

Se confirmada a "cristianização" do candidato tucano Geraldo Alckmin em benefício da reeleição do prefeito Gilberto Kassab, com apoio de Serra, é possível prever-se uma boa votação do candidato tucano à Presidência da República em 2010, principalmente se ele for Serra. Indo Alckmin para o segundo turno, mesmo que derrote Marta, o PSDB estará irremediavelmente dividido. Terá sido uma vitória pessoal dele, e não do partido.

No Rio, dos 7 pleitos realizados desde 1982 para o governo estadual, 5 foram ganhos por políticos pedetistas ou que atuaram, em algum momento de sua vida política, nesse partido: Brizola (1982 e 1990), Marcello Alencar (1994), Garotinho (1998) e Rosinha Garotinho (2002).

Portanto, com exceção de Moreira Franco (1986) e Sérgio Cabral (2006), ambos do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), os demais poderiam ser considerados integrantes da "família brizolista".

O crescimento da candidatura de Eduardo Paes, apoiado pelo PMDB do governador Sérgio Cabral, pode significar que uma nova era na política do Rio está se abrindo, com a máquina peemedebista sendo ajudada pelo fato de Paes ser oriundo da máquina da prefeitura, onde ele iniciou sua vida política com o prefeito Cesar Maia.

Assim como em 2004 o voto útil foi para Cesar Maia contra Crivella ainda no primeiro turno, agora estaria indo para Eduardo Paes, mesmo que seja previsível um segundo turno.

Os estudos da equipe da PUC do Rio revelam a existência em São Paulo de territórios eleitorais fiéis ao PT e ao PSDB, "num confronto político do tipo direita-esquerda mais clássico". São Paulo continua sendo uma cidade polarizada pela política e não pela religião, como aconteceu na última eleição municipal do Rio de Janeiro, e continua acontecendo hoje.

Segundo o estudo, "a boa implantação dos dois maiores partidos brasileiros na capital paulista tem impedido que, pelo menos nas eleições para prefeito, questões de natureza religiosa se sobreponham a escolhas político-partidárias". No Rio, ao contrário, PT e PSDB são fracos politicamente.

Em qual Lula acreditar?


Ricardo Noblat
DEU NO BLOG DE NOBLAT

Qual Lula você prefere?

O que disse ontem no Rio de Janeiro, durante a solenidade de abertura da Semana da Academia Internacional de Televisão:

- Os leitores, a audiência são plenamente capazes de separar o joio do trigo, a informação da desinformação, a notícia da campanha, a verdade da eventual manipulação. Os telespectadores ou leitores são críticos implacáveis e juizes muito severos.


- Quem não os trata com respeito e não demonstra consideração por sua inteligência, termina por perder credibilidade. Por isso estou entre os que acham que não há nada melhor contra eventuais excessos cometidos por qualquer órgão de imprensa do que mais liberdade de imprensa.

Ou o Lula que aconselhou o ministro Gilmer Mendes, segundo notícia do jornal O Estado de S. Paulo, a censurar as transmissões ao vivo das sessões do Supremo Tribunal Federal? Esse Lula acha que as sessões devem ser gravadas, editadas e só depois transmitidas.

Há Lulas para todos os gostos e ocasiões - disso sabemos há longos cinco anos e pouco. O próprio admitiu que não passa de uma metamorfose ambulante.

Política só se faz com alta dose de realismo.

É compreensível que uma vez eleito, o sujeito assuma o cargo e conclua que determinadas idéias que defendeu não se sustentam quando confrontadas com mais informações de que passou a dispor. Ou que não podem se materializar porque carecem de apoio para isso no Congresso.

Coisa bem diferente é o político que alcança o poder e renuncia a valores e princípios que parecia sustentar até então. O respeito aos direitos humanos é um valor, por exemplo. O respeito à liberdade de imprensa, outro. Justiça social é mais um - e por aí vai.

Quando se trata de valores e princípios universalmente aceitos em sociedades que se pretentem democráticas, não se pode tolerar a existência de dois Lulas - um para consumo público e outro para manobras sujas de bastidores.

Nunca antes neste país


Lucia Hippolito
DEU NO BLOG DE LUCIA HIPPOLITO

Em entrevista ao jornal Clarín, ontem de manhã, o presidente Lula declarou que vai fazer seu sucessor – e que, provavelmente, será “sua sucessora” (uma mulher, disse ele).

A esse respeito, cabem duas observações, registro de duas curiosidades históricas.

1ª curiosidade. Desde Artur Bernardes (1922-26), um presidente da República eleito diretamente pelo povo não faz o sucessor.

Bernardes fez Washington Luís, respeitando o rodízio do “café-com-leite”. Mas Washington Luís desrespeitou o acordo da República Velha e decidiu impor o nome de Júlio Prestes. Resultado? Revolução de 30... E 15 anos de Getúlio Vargas.

Getúlio foi deposto em 1945 e não fez o sucessor – apoiou Dutra (1946-51) a contragosto.

Dutra, por sua vez, não apoiou Getúlio, o vitorioso em 1950. Getúlio queria Juscelino como sucessor, mas suicidou-se em 1954 e não presidiu a eleição presidencial de 1955.

Juscelino (1956-61) não faz o sucessor. Jânio Quadros era oposição a JK.
Jânio renuncia, e o Brasil mergulha em longa crise, que desembocou na ditadura (1964-85).

Os generais-presidentes não foram eleitos pelo povo, mas tampouco controlaram a própria sucessão.

Castelo Branco (1965-67) teve que engolir Costa e Silva (1967-69). Este teve um derrame e nem viu a própria sucessão.

Médici, o sucessor (1969-73), não queria Ernesto Geisel, mas teve que aceitar.

De todos os generais-presidentes da ditadura, Geisel foi o único que fez o sucessor. Escolheu o general Figueiredo quando este ainda não tinha a quarta estrela de general (pré-requisito para ser presidente, naquela época) e tutelou todo o processo sucessório.

Figueiredo (1979-85) saiu do palácio e da história pela porta dos fundos.
Sarney, como sabemos, não foi eleito pelo povo. Aliás, era apenas vice-presidente e recebeu no colo a presidência da República, depois da morte do dr. Tancredo.

Sarney não fez o sucessor. Fernando Collor passou a campanha inteira falando horrores de toda a família Sarney.

Collor foi afastado depois do impeachment, e Itamar Franco, seu vice-presidente, que não tinha recebido o voto direto dos eleitores brasileiros (apenas compunha a chapa), este sim, conseguiu fazer seu sucessor.

Fernando Henrique (1995-2002) recebeu todo o apoio de Itamar, mas não conseguiu fazer seu sucessor. Lula era candidato da oposição.

Assim, se conseguir fazer seu sucessor (ou sua sucessora), o presidente Lula conseguirá um feito histórico: desde Artur Bernardes um presidente eleito pelo voto direto não faz o sucessor.

2ª curiosidade. Também desde Artur Bernardes (1922-26), um presidente eleito diretamente pelo povo não recebe a faixa presidencial de um presidente igualmente eleito pelo povo e passa a faixa para outro, também eleito pelo povo.

Vamos lá. Bernardes recebeu a faixa de Epitácio Pessoa (1919-22), eleito diretamente, e a passou para Washington Luís, também eleito diretamente, mas que foi deposto pela Revolução de 30.

Getúlio Vargas, que chefiou a revolução, foi eleito presidente da República pelo Congresso em 1934, e em 1937 deu o golpe do Estado Novo. Getúlio foi deposto em 1945.

Com a redemocratização, Eurico Dutra recebeu a faixa do presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares. Dutra (1956-51), eleito diretamente, passa a faixa para Getúlio, também eleito diretamente. Mas o suicídio de Vargas interrompe a “corrente”.

Juscelino Kubitschek (1956-61) foi eleito diretamente, mas recebeu a faixa de Nereu Ramos, presidente do Senado Federal. JK passa a faixa a Jânio Quadros, igualmente eleito pelo povo, mas Jânio renuncia sete meses depois da posse, interrompendo a “corrente” novamente.

Na ditadura, como sabemos, os generais-presidentes dispensaram a eleição pelo povo.

Com a redemocratização, Sarney (1985-90) ganhou a presidência de presente, mas não por eleições diretas. Passou a faixa a Fernando Collor, eleito diretamente. Mas o impeachment e o subseqüente afastamento de Collor interrompem mais uma vez a normalidade institucional.

Fernando Henrique (1995-2002) foi eleito pelo povo, mas recebeu a faixa de Itamar Franco, o vice. FH passou a faixa a Lula (2003-2010), também eleito pelo povo.

Portanto, o presidente Lula é, desde Artur Bernardes, o primeiro presidente da República que, tendo recebido a faixa de um presidente eleito pelo povo, foi eleito pelo povo e vai passar a faixa para outro(a) presidente igualmente eleito(a) pelo povo.

Trata-se de um feito extraordinário na História brasileira, prova incontestável de consolidação institucional da democracia no Brasil.

(Aposto que os marqueteiros do Planalto não sabiam disso!)

A maleta e a viagem


Janio de Freitas
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O ministro Jobim age com impropriedade ao se valer de uma viagem com Lula para desviar-se de depor na CPI


CRIADOR DA confusão que desviou para uma tal maleta da Abin as atenções suscitadas pelo problema das escutas, o ministro Nelson Jobim age com a mesma impropriedade ao se valer, agora, de uma viagem de Lula para desviar-se do seu depoimento, quarta-feira, como convocado da CPI das Escutas Telefônicas.

Ganhar uma semana, com a inquirição na quarta 17, talvez lhe ofereça um cenário mais abrandado na CPI, consideradas as explicações que deve. Mas seu compromisso, em todos os sentidos funcionais e pessoais, é com a convocação que vale como palavra do Congresso, para esclarecimentos relevantes no inquérito. E não com um passeio à Amazônia onde nada de importante tem a fazer. Tanto mais que o arranjo da escapada fica à mostra com o "convite" presidencial tão posterior à convocação da CPI.

A confusão começa ao ser dito a Lula (e outros), por Jobim, que a maleta seria destinada a gravações ambientais. Ocorre que o ministro Gilmar Mendes e o senador Demóstenes Torres falam ambos ao telefone quando são gravados, logo, um deles não poderia ser captado por um gravador ambiental. A própria gravação sugere, como primeiro indício, a velha escuta por linha telefônica, no entanto relegada pela "denúncia" de Jobim. Com as responsabilidades de ministro da Defesa, Nelson Jobim deve ter explicação interessante a dar à CPI, sobre os fundamentos de sua colaboração.

Em depoimento à CPI, o ministro da Segurança Institucional, general Jorge Felix, afirmou que pedira ao Exército o exame de especialistas em todo o equipamento da Abin, para verificação das respectivas finalidades. Não lhe constava haver maleta com gravador, mas tão só para varreduras. Nelson Jobim contestou-o com a informação de que a maleta foi comprada para a Abin pelo Exército, por intermédio de sua comissão de compras nos EUA. Arrasador.

Por alguns dias, sim. O Exército informou que a maleta não era de gravação. Arrasador. Um desmentido frontal do Exército ao ministro da Defesa? Veio então o habilidoso laudo do exame a que o general Felix se referira: o dispositivo da maleta é próprio para varreduras, não para gravação, sendo necessário submetê-lo a adaptações para que possa servir como gravador em determinadas circunstâncias.

Adaptação para quê, se qualquer gravador se prestaria ao serviço sem o trabalho de adaptá-lo, cabendo ao interessado apenas a conveniência de escolhê-lo segundo a duração das gravações? Jobim, no final da semana, preferiu dizer aos repórteres que "a divergência com o general Felix está encerrada".

Na CPI não está. Há informações inverídicas lançadas por um dos lados divergentes, delas advieram desdobramentos, a alguém ou a alguma corrente serviram para fins ainda obscuros, ou duvidosos.

Há, portanto, mais do que escutas a serem desvendadas. Ainda que o "mais" não tenha relação direta com a escuta em questão, seja parte de uma armação política por métodos pesados.

A cidade eleitoralmente dividida

Plínio Fraga
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

RIO DE JANEIRO - A mais recente pesquisa Datafolha mostra que os cariocas mais escolarizados e mais ricos levariam para o segundo turno da disputa pela prefeitura da cidade Eduardo Paes (PMDB) e Fernando Gabeira (PV). Já os mais pobres e menos escolarizados colocam Marcelo Crivella (PRB) à frente de Paes e praticamente ignoram o candidato do PV.

Entre os cariocas que ganham mais de R$ 4.150, Paes atinge 30% das intenções de voto, contra 20% de Gabeira e apenas 7% de Crivella. Entre os eleitores com nível universitário, o peemedebista tem 25%, o candidato do PV, 18%, e o postulante do PRB, 7%. Em julho, a elite carioca se dividia entre Gabeira e Jandira Feghalli (PC do B).

Crivella consegue virar o jogo nas camadas mais populares, nas quais a penetração reduzida e a fragilidade de Gabeira levam a candidatura do PV a minguar. Entre os que ganham até R$ 830, o senador do PRB consegue 28% das intenções de voto, contra 27% do peemedebista e 5% de Gabeira. Essa performance de Crivella se repete entre os que têm até o ensino fundamental, faixa em que atinge 31%, contra 22% de Paes e 4% de Gabeira.

Paes consegue 25%, Crivella, 21% e Gabeira, 8% no resultado final do Datafolha. Jandira tem 12%, índice distribuído de maneira uniforme por vários segmentos, o que lhe dá razoável consistência.

A reduzida taxa de rejeição de Paes (14%), comparada ao alto índice dos que resistem a votar em Crivella (33%), permite dizer que o candidato do PMDB tem mais campo para evoluir do que seu concorrente direto. Dos entrevistados, 67% afirmam ter visto o horário eleitoral ou as inserções dos candidatos na TV e 33% ouviram essas mensagens no rádio. Como Paes é dono do maior tempo e Crivella está entre os nanicos, o cenário para o candidato do PRB não é nada róseo.

O "pobrismo" de Geraldo Alckmin


Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Marcado para amanhã, o jantar da unidade tucana dificilmente sobreviverá à quinta-feira. A participação do governador José Serra, principal estrela da noite, é vista como "nada especial" por seus aliados, e é improvável um engajamento maior do governador na campanha de Geraldo Alckmin, o candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo.

Alckmin, aliás, recebeu um conselho do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: "Quem faz campanha é o candidato". Na realidade, Serra fez para Alckmin o que é a prática corrente nas eleições: gravar uma vez, por exemplo. A campanha do candidato é que deve multiplicar essa gravação, repetindo-a integralmente ou trechos dela.

É isso o que vem sendo feito, por exemplo, pelo candidato a prefeito do Rio, Fernando Gabeira (PV), cuja coligação é integrada também pelo PSDB.

Segundo informes que chegaram ao Palácio dos Bandeirantes, a campanha de Gabeira já transmitiu cerca de 15 vezes, em contextos diversos, uma gravação de apoio feita por José Serra. O que não mudou muito sua vida: o verde continua ocupando o quarto lugar na corrida eleitoral, com 8% das intenções de voto, de acordo com o Datafolha divulgado domingo.

Há tucano graúdo, inclusive, que avalia ser muito pequena a influência de apoios como o de Serra e o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma cidade do porte de São Paulo.

Prova disso seria que os dois gravaram para os programas de televisão de Alckmin e Marta Suplicy (PT) e nada aconteceu - uma tese discutível, vendo-se o que se passa em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Recife, apesar de todos, nesses casos, serem candidatos da máquina. Em Belo Horizonte, das duas máquinas: governo e prefeitura. Tucanos destacam algo mais: os outros candidatos são muito fracos.

Falta discurso à campanha tucana

A campanha de Alckmin só ele mesmo é capaz de resolver. Mas os tucanos culpam o "pobrismo". Coisas estranhas acontecem no comitê do candidato tucano. Por exemplo: os trecking (pesquisa diária) das campanhas do PT e do prefeito Gilberto Kassab (DEM) já há algum tempo acusam o crescimento do demista. Atualmente, a diferença entre o prefeito e o ex-governador estaria em torno dos 2%. O trecking do candidato do PSDB não acusa nada disso.

O curioso é que em 2006 a mesma coisa aconteceu na campanha presidencial de Geraldo Alckmin, com os números sempre superestimados a seu favor. Os tucanos também criticam a falta de qualidade técnica do programa de Alckmin, acham que ele jogou mal ao apostar numa produtora com pouca experiência e ainda assim em campanhas menores. Alckmin está escrevendo os próprios discursos, o que demanda um tempo precioso. Ele estava acostumado a chegar e ler, quando estava com a produtora que hoje presta serviços a Kassab.

Mas a dificuldade crítica de Alckmin é a falta de discurso. O ex-governador não tem como se posicionar como candidato de oposição. Esse posto é de Marta. Além disso, como dizem tucanos desapontados com sua candidatura, soaria "ridículo". A campanha incorreria no "pobrismo", este de outra natureza, a bem da verdade, algo comum a todas as candidaturas. É tudo o pobre. A virtude está na pobreza.

Um tucano faz um cálculo simples: em São Paulo há seis milhões de automóveis. Supondo-se dois por família, haveria então três milhões de famílias que são no mínimo classe média. Seria portanto preciso falar também para esse pessoal.

Mas os candidatos, inclusive Alckmin, preferem a elegia da pobreza. Não é que eles devam ser ignorados, mas de acordo com esse tucano há 1,2 milhão de favelados em São Paulo. Favelados que não morariam propriamente em favelas, mas em construções irregulares, algumas de dois, três andares. Favelados mesmo seriam uns 300 mil. Interessante é que a maior migração de intenções de voto de Alckmin para Kassab se deu justamente na classe média, segundo o Datafolha (6%).

Sugestões para levantar a campanha não faltam. Inclusive de José Serra, que o candidato Alckmin costuma visitar uma ou duas vezes por semana, no Palácio dos Bandeirantes. Em vez de ficar falando de creches, tucanos dizem que ele deveria falar das coisas que fez, como o bilhete único eletrônico e o metrô. E ser enfático ao afirmar que vai fazer com Serra o que está por ser feito e muito mais.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

A morte tem vida própria


Arnaldo Jabor
DEU EM O GLOBO


“Tem gente aí morrendo que nunca morreu antes” ou “para morrer basta estar vivo” ou ainda: “só morre gente boa, canalha não morre...”

Não adianta: tudo que se disser sobre a morte é lugar-comum, inclusive este. Mas a verdade é que morreu muito amigo nos últimos dias. Primeiro, o melhor roteirista do Brasil, Leopoldo Serran, com quem escrevi meu melhor filme, Tudo bem, há trinta anos, depois, o Fernando Torres, grande ator e diretor de inesquecíveis montagens (até hoje lembro do Beijo no asfalto que ele dirigiu em 62), em seguida, foi-se Fernando Barbosa Lima, um inventor poético da TV. Nunca me esqueço do Jornal de Vanguarda, da velha TV Tupi, quando o locutor declarou: “Morrem 5 crianças pobres por minuto no Brasil”. Aí, Fernando tirou o jornal do ar por 1 minuto e quando voltou, o locutor completou: “Enquanto estávamos fora do ar, morreram cinco crianças de fome”.

Só assim se pode falar da morte: pela ausência. Nós apenas saímos do ar. Ela é tão banal que inventamos solenes rituais para dar-lhe consistência. Inventamos religiões ou filosofias agnósticas para nos consolar – crenças materialistas: “O universo é a eternidade. Deus é o universo, a substância. Fazemos parte de Deus. Ele está nas galáxias e no orgasmo, nos buracos negros e no coração batendo...” “Grandes merdas” – penso hoje – pois quando ela chega acaba a literatura. A morte só tem “antes”", não tem “depois” - no Ivan Iliitch do Tolstói, quando ela chega, acaba o conto.

A morte não está nem aí para nós, ela tem “vida própria”. A gente vai para um lado, o corpo para o outro. Ela nos ignora, nossos méritos, nossas obras. Outro lugarzinho-comum: “Só nos resta viver da melhor maneira possível até o fim. Tem mais é que curtir, gente boa...” Pois é, há muitos anos, pegou fogo no edifício Joelma em São Paulo, torrando dezenas. Do prédio em frente, as teleobjetivas fotografaram todas as agonias. Até hoje, lembro-me da foto em cores de um homem de terno, pastinha James Bond, agachado numa janela do vigésimo andar, com o fogo às costas. Seu rosto mostrava duvida: “O que é melhor para mim? Morrer queimado ou me jogar?” Ele curtiu até o fim e se jogou.

A coisa que mais me irrita na morte é que o morto fica logo desatualizado. As notícias vão rolar e eu nada saberei. Haverá crises mundiais, filmes que estréiam, músicas novas, e eu ficarei lá embaixo, sem saber das novidades. Quem foi eleito o Obama ou aquele direitista escroto? Quem virá depois do Lula? Quem ganhou a Copa? É insuportável a desinformação dos falecidos.

Meu avô me disse uma vez: “Acho triste morrer, seu Arnaldinho, porque nunca mais vou ver a Avenida Rio Branco...” Isso me emocionou, pois ele ia diariamente ao centro da cidade, onde tomava um refresco de coco na Casa Simpatia, depois passava na Colombo, comprava goiabada “cascão” e queijo de Minas e voltava para casa, de terno branco e sapato bicolor.

Por isso, quando me penso morto, eu, o único que não irei ao meu enterro, de que terei saudades? Não terei saudades de grandes amores, de megashows da vida de hoje, excessiva e incessante. Não. Debaixo da terra, terei saudades de irrelevâncias essenciais, terei saudades de algumas tardes nubladas de domingo que só o carioca percebe, tudo parado, com os urubus dormindo na perna do vento, como dizia o sempre presente Tom, do radinho do porteiro ouvindo o jogo no Maracanã, terei saudades do cafezinho nas beiras dos botequins, de certos tons de roxo e rosa em Ipanema antes da noite cair, saudades do cafajestismo poético dos cariocas, saudades dos raros instantes sem medo ou culpa, de alguns momentos de felicidade profunda, sem motivo, apenas pela gratidão de respirar.

Não terei saudades dos fatos e notícias, nada do mundo febril, só a quietude, o silêncio entre amigos na paz de um bar, papos de cinéfilo, risos proletários e camaradagem de subúrbio, do samba que nos envolve nas rodas pobres com a alegre sabedoria da desesperança, da Lapa, da Avenida Paulista de noite, de Noel Rosa, pernas cruzadas de mulheres inatingíveis, terrenos baldios de minha infância, Paris (claro), Erik Satie, João Gilberto, Matisse, Rimbaud, João Cabral, o tremor de medo e desejo na hora do amor, saudades da primeira namorada no sofá-cama rasgado do apartamentinho secreto do Partidão, com o cartaz dos girassóis de Van Gogh e uns livros da Acadêmica Soviética, tenho saudades da utopia, das madrugadas políticas, da boemia da esquerda, soldados ingênuos de uma guerra invisível, tenho saudades da delicadeza, da compaixão, também da alegria selvagem da vingança nas raras vitórias contra os canalhas, saudades da literatura, da “frágil lua nova”, de Borges, do prazer da arte, Fellini, Shakespeare e Tintoretto em Veneza para sempre, de Cantando na chuva – o maior hino da alegria americana, saudades do piano-bar do Hotel Carlyle, de Thelonius Monk, saudades de Fred Astaire dançando Begin the beguine com Eleanor Powell, felizes para sempre dentro do universo estrelado.

Há várias mortes. Há brutas tragédias, fomes e bombas, horrendos desastres, mas, na morte óbvia, comum, caseira, só temos duas escolhas: súbita ou lenta. Você, frágil leitor, qual delas prefere? O rápido apagar do “abajur lilás” de um ataque cardíaco, ou o lento esvair da vida, sumindo com morfina? Se eu pudesse escolher, queria morrer como o velho Zorba, o grego, em pé, na janela, olhando a paisagem iluminada pelo sol da manhã. E, como ele, dando um berro de despedida.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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