domingo, 22 de novembro de 2009

Livro conta a história dos 40 anos do Cebrap

DEU EM O GLOBO

SÃO PAULO. De ternos claros e casacos desabotoados, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva tomam café com açúcar em copinhos de plástico. Juntos no balcão, no Congresso. A cena, de 1987, está registrada no livro “Retrato de Grupo — 40 Anos do Cebrap”, que será lançado terça-feira, com um documentário, para marcar o 40oaniversário do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). As imagens de Lula e Fernando Henrique, que eram parlamentares, ilustram a entrevista que o tucano concedeu para o livro.

O ex-presidente foi um dos fundadores do Cebrap, ao lado do filósofo José Arthur Giannotti, do economista Paul Singer, da antropóloga Ruth Cardoso e do sociólogo Octávio Ianni. Outros nomes se juntaram ao grupo, a maioria da USP (Universidade de São Paulo), como os sociólogos Chico de Oliveira e Francisco Weffort. O objetivo, à época, era estudar e combater o autoritarismo.

A Fundação Ford, dos EUA, financiou a entidade.

“Seguramente, em algum momento, chegaram à conclusão de que era conveniente desenvolver ciências sociais como um elemento de dinamização de um pensamento não conservador, não autoritário, e depois passaram a financiar movimentos sociais, ações políticas favoráveis à igualdade de gênero etc. Muitas vezes a gente atribui muito mais capacidade estratégica a essas instituições do que elas realmente têm, pelo menos essa é a minha sensação”, conta Fernando Henrique sobre a Fundação Ford, no livro, do Cebrap com a editora Cosac Naify.

O Cebrap abrigou pensadores que colocaram em xeque a política autoritária vigente, como os formuladores das políticas dos governos do PSDB e do PT.

O tucano explica sua divergência com a criação do PT: ”Quando houve a discussão sobre a criação do PT, minha posição era a seguinte: estão propondo um partido à moda antiga, um partido da classe operária, dos trabalhadores, e deve-se fazer não um partido dos trabalhadores, mas dos assalariados, no qual o PT acabou se transformando”, diz o ex-presidente. “A fragmentação das classes é imensa, os interesses são muito diversos e não há por que imaginar que um partido posa unifica-los. A partir dessa descrença, veio a divisão entre mim e os que fundaram o PT.

'O gosto pelo debate é uma virtude da casa'

DEU EM O GLOBO

SÃO PAULO. No Cebrap há dez anos, a presidente da instituição, Paula Montero, explica como os 80 pesquisadores convivem com divergências: — Como ela é não é de departamentos, como uma universidade, pessoas de várias áreas entram em relação direta e trazem sua maneira de pensar e resolver os problemas para o debate. É uma casa bastante plural. A questão das filiações partidárias não é importante, e todo mundo aceita o debate.

A pesquisadora, que organizou o livro com Flávio Moura, conta que as sextas-feiras são dedicadas às discussões: — Discutimos temas da pesquisa de um e de outro. O gosto pelo debate, cada vez mais raro, é uma virtude da casa.

“Retrato de Grupo — 40 Anos de Cebrap” traz entrevistas também com José Arthur Giannotti, Paul Singer, Elza Berquó, Juarez Brandão Lopes, Lúcio Kowarick, Francisco de Oliveira, José Serra, Fernando Novais, Roberto Schwarz, Rodrigo Naves, todos integrantes da história do Centro.

O documentário, que tem o mesmo nome do livro, é dirigido por Henri Gervaiseau.

'Democracia é biombo para iniquidade'

DEU EM O GLOBO

O sociólogo integrou o Cebrap por 25 anos. Para ele, o Centro deve se preocupar em entender a democracia contemporânea, e o predomínio da economia sobre a política.

O GLOBO: O que é mais importante no Cebrap?

CHICO DE OLIVEIRA: O Centro dedicou-se a pesquisas sociológicas e demográficas que desafiavam a América Latina, como a questão das cidades, a urbanização, a industrialização sem empregos. Deu boa contribuição. Hoje é renomado, vai continuar existindo, só não tem a centralidade que teve nos anos 70, porque outros cresceram muito.

Como se convivia com a divergência?

CHICO: Não havia divergência, não. A divergência é posterior, dos anos 90. Estávamos mais ou menos interessados nas mesmas questões, cada um com sua abordagem. A convivência foi boa e frutífera.

Qual a preocupação de hoje?

CHICO: A democracia, que serve de biombo para iniquidades, uma iniquidade social quase obscena. É entender a democracia brasileira e a democracia contemporânea, onde o predomínio da economia quase inutiliza a política.

'Macunaímas têm tomado o poder no país'

DEU EM O GLOBO

Para filósofo fundador do Cebrap, políticos de hoje são malandros e heróis sem nenhum caráter, e país precisa se pensar

ENTREVISTA José Arthur Giannotti

Para o filósofo José Arthur Giannotti, um dos fundadores do Cebrap, o poder no país está tomado por Macunaímas, os heróis sem caráter da ficção de Mário de Andrade; e o Brasil precisa pensar mais sobre si. Ele lembra que, 40 anos atrás, ele, Fernando Henrique Cardoso, o cientista político Francisco de Oliveira e outros pensadores discordavam politicamente, mas isso não aparecia porque o inimigo comum, o autoritarismo, era maior que as divergências

Hoje há mais espaço para se pensar o Brasil?

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI: A pergunta é ambígua. No momento em que não tínhamos espaço, o esforço era para compreendermos o Brasil e essa falta de espaço. Hoje, há muito espaço, mas as pessoas se dispersam. Tanto assim que nós não temos até agora uma boa interpretação tanto do governo Fernando Henrique Cardoso como do governo Lula.

O que falta para sermos um país mais reflexivo?

GIANNOTTI: Precisamos de um ensino melhor. O ensino fundamental é um escândalo.
Boa parte dos professores não sabe dividir ou multiplicar, muito menos domina a língua portuguesa. Tudo no Brasil virou um samba do crioulo doido.
A legalidade é uma legalidade que vale numa esquina e não vale na outra. Estamos em situação de desenvolvimento econômico, de progresso, e ao mesmo tempo uma bagunça generalizada.

Qual a grande questão sobre a política brasileira?

GIANNOTTI: Há, cada vez mais, um enervamento das instituições.
Tudo é possível aos donos do poder. Isso cria, justamente, uma situação em que os políticos e os líderes da sociedade não se apresentam mais como exemplo. Aparecem como exemplos da malandragem. Macunaímas têm tomado o poder.

Nós somos um país de Macunaímas, ou os Macunaímas estão só no poder?
GIANNOTTI: Quando tem Macunaíma no poder, já começam a germinar algumas pessoas que querem sair disso. Vamos ver como vai se encaminhar todo esse processo sucessório, se as informações começam a fluir melhor e se os governos de todos os lados aprendem a dar melhor as satisfações à população.
E que a população aprenda a demandar informações.

‘Precisamos ter templos para pensar o Brasil’

Que importância o senhor atribui ao Cebrap nesses últimos 40 anos?

GIANNOTTI: Nos anos 50, o Cebrap foi um foco de resistência intelectual à ditadura.
Começou a pensar o que eram os sistemas militares na América Latina. E teve um enorme empenho na formação de quadros. As pessoas que passaram pelo Cebrap hoje estão nas universidades, no setor privado, no terceiro setor, na diplomacia.
Foi uma escola, uma escola de quadros.

Hoje não há mais essa formação de quadros.

GIANNOTTI: Hoje menos , porque o próprio Cebrap está mais disperso. A ideia de comemorar os 40 anos é dizer que há um legado, e que este legado tem de ser apropriado.

É um pedido de socorro de recursos?
GIANNOTTI: É também um pedido de socorro de recursos, mas é um alerta: nós precisamos ter templos reflexivos e de ponta, para que possamos pensar o Brasil.

A preocupação quando o Cebrap começou era com o autoritarismo. Ainda temos de nos preocupar com isso?

GIANNOTTI: O problema do Brasil hoje é o contrário. É a falta de autoridade impessoal e o aumento das autoridades personalistas.

Nossa democracia é estável?

GIANNOTTI: Do ponto de vista eleitoral, temos uma estabilidade.
Mas, quando a democracia não reflete mais o jogo das vontades, eu pergunto se essa estabilidade não é um ocultamento. A política hoje é, sobretudo, um esconder dos desafios reais com os quais nós temos de nos debater.

Entre os que fizeram a história do Cebrap, há muitas pessoas com ideias e histórias divergentes, como o senhor, o professor Chico de Oliveira e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Os senhores sempre pensaram diferente, ou as divergências apareceram depois?

GIANNOTTI: As ideias sempre foram muito divergentes.
Cada um tentou fazer o seu caminho. Mas, como tínhamos um inimigo comum, que era o regime autoritário, essas diferenças não apareciam.
Agora que não temos um inimigo comum, essas divergências não só aparecem, como aumentam.

“Viemos do mesmo contexto”, diz FHC sobre Lula

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

Declaração do ex-presidente integra o livro Retrato de grupo, parte da comemoração dos 40 anos do Cebrap

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso define-se como um homem de esquerda. Também se compara ao atual ocupante do Palácio do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva. Garante que a trajetória dos dois teve saltos políticos. “No fundo, se você olhar bem, eu e o Lula viemos do mesmo contexto. Acho que nós dois somos fruto daquele momento de renovação da vida política brasileira e, em comparação com o estilo de carreira política anterior, nós, bem ou mal, representamos algo diferente em termos de ligação com a sociedade”, afirma, completando: “quando vejo Delfim como consultor de Lula, penso que eu tinha razão”. Essas declarações fazem parte do livro Retrato de grupo, que será lançado na terça-feira e reúne lembranças, reflexões e análises de intelectuais brasileiros que fundaram o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

A publicação faz parte da comemoração dos 40 anos do centro, que desenvolve pesquisas na área de ciências humanas. Nas entrevistas inéditas, além do ex-presidente, personagens como o sociólogo e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) Chico de Oliveira, o crítico literário e professor Roberto Scharwz, a demógrafa Elsa Berquó, o sociólogo Lúcio Kowarick e o filósofo José Arthur Giannotti. As memórias também foram registradas em vídeo. Um documentário, dirigido por Henri Gervaiseau, traz trechos das entrevistas combinadas com imagens de arquivo do período. A obra também contém textos em homenagem a Ruth Cardoso e ao sociólogo Vilmar Faria, amigo e assessor especial do ex-presidente para a área social.

O jogo da política

“Sempre achei que não se pode olhar a política aristotelicamente, contando os bons e os maus. A política é um jogo em que você deseja e às vezes pode transformar em bom o que é mau, fica com não me toques, mãos limpas, você se isola e não muda as pessoas”, disse na entrevista, quando questionado sobre o autoritarismo.

FHC liderou a criação do Cebrap em 1969. Também trabalhou no Centro de Estudos Latino-Americanos da Smithsonian Institution. Durante o exílio, após o golpe de 1964, foi para o Chile, onde viveu até 1967. De lá, seguiu para a França. Voltou ao Brasil em 1968 para disputar a cátedra de ciência política na Universidade de São Paulo (USP).

Em um dos trechos da entrevista, ele comenta a aproximação com centros de pesquisa “É importante lembrar que formávamos uma rede com vários centros de pesquisa de países latino-americanos, sobretudo da Argentina e do Chile, e o Cebrap foi modelo para alguns desses centros – um modelo de resistência intelectual aos regimes autoritários”, afirma, ressaltando que, em 1974, Ulysses Guimarães pediu que a entidade escrevesse os programas de campanha do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Para o ex-presidente, a maior contribuição do centro foi “eliminar a compartimentalização das ciências sociais e juntar demografia, filosofia, economia, às diversas áreas do pensamento e da análise social”.

Antonio Lavareda:: 'Obama não teria vez'

Deu na Veja

"O lulismo tem semelhanças com o varguismo, o peronismo e o chavismo"

A legislação brasileira permite que os governantes façam campanha no rádio e na TV desde sua posse. Já a oposição só dispõe do mês e meio que precede a eleição. Se as mesmas regras estivessem em vigor nos Estados Unidos, um senador desconhecido e em primeiro mandato como Barack Obama jamais chegaria à Presidência, como ocorreu no ano passado.

A conclusão é do sociólogo Antonio Lavareda, de 58 anos. Com uma bagagem de 76 campanhas políticas acumuladas desde 1985, ele já analisou 5 000 pesquisas de intenção de voto e é considerado um dos maiores estrategistas do país. Nesta semana, lança Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais (Editora Objetiva), no qual disseca as eleições ocorridas nos últimos vinte anos. Recém-filiado ao PSDB, para tentar se candidatar ao Parlamento do Mercosul, Lavareda falou ao editor Felipe Patury e à repórter Sandra Brasil sobre o livro e as perspectivas políticas para 2010.

O NOVO ELEITOR

O brasileiro está mais educado. Desde a redemocratização, o analfabetismo caiu pela metade e o número de pessoas com mais de oito anos de estudo duplicou. O eleitor também está mais experimentado. Uma pessoa de 42 anos pode já ter votado sessenta vezes. Portanto, é mais exigente. Em 1989, um dos fatores apontados nas pesquisas para a escolha de Fernando Collor era o fato de ele ser novo na política. Isso não ocorre mais, porque o eleitor passou a exigir experiência e biografia.

DESVIOS DA LEGISLAÇÃO ELEITORAL

As leis eleitorais estão repletas de absurdos. Um exemplo: uma mesma coligação dará ao seu candidato a prefeito um tempo de TV cinco vezes maior do que ao que postula a Presidência. Isso acontece porque quem disputa o Planalto divide o tempo de TV com quem concorre a governador, senador e deputado. Os candidatos a prefeito não o dividem com ninguém. Outro: cantores não podem mais aparecer nas campanhas. Se essa regra valesse em 1989, perderíamos uma das peças mais bonitas do nosso marketing político: o coral do Lula lá. O pior é a restrição do período de campanha eleitoral, que prejudica as oposições. Os governantes fazem propaganda desde que tomam posse. Já a oposição só tem um mês e meio para se apresentar. Se fosse assim nos Estados Unidos, Barack Obama não seria presidente. Senador de primeiro mandato, ele simplesmente não conseguiria se tornar conhecido. O ideal seria acabar com o programa eleitoral gratuito e distribuir seu tempo em comerciais que seriam veiculados por um prazo mais estendido.

POLARIZAÇÃO

Depois da Constituição de 1988, esperava-se que houvesse um grande número de candidatos no primeiro turno das eleições e que as alianças ficassem para o segundo turno. O efeito foi o contrário. As pesquisas introduziram uma lógica de viabilidade eleitoral no início do processo. Já no primeiro turno, o brasileiro leva em conta não só sua preferência como a rejeição que sente em relação a outros candidatos. Isso contribuiu para diminuir o número de candidaturas. Na eleição de 1989, havia 21 nomes no primeiro turno. Em 2006, foram oito, dos quais só o presidente Lula e o tucano Geraldo Alckmin eram competitivos.

LULISMO

Dos partidos brasileiros, o PT é o que tem a maior taxa de preferência: entre 25% e 30% do eleitorado. O lulismo é ainda maior. Não chega aos 82% de aprovação de Lula, mas alcança 55% da população. Faço essa estimativa com base nos votos que ele teve no primeiro turno de 2006. O lulismo é fruto da fragilidade partidária. Nesse contexto, os líderes carismáticos assumem um papel que é dos partidos: traduzir a política. O lulismo tem semelhanças com o varguismo, o janismo e o malufismo. Também se parece com o peronismo argentino e o chavismo venezuelano.

CLASSE C

A classe média emergente encorpou na gestão Lula. Ninguém sabe ainda qual será seu comportamento político. A tendência é que assuma os valores da classe B. Mas, em 2010, pode ser que ainda aja como as classes D e E. Mesmo que isso ocorra, não é seguro que ela modifique a eleição presidencial. Todas as classes sociais votaram de forma semelhante em 1994, 1998 e 2002. Nessas ocasiões, os vitoriosos ganharam em todos os segmentos de renda e escolaridade. Só houve alteração em 1989 e 2006. Em 1989, Collor perdeu na faixa superior a cinco salários mínimos e entre os que tinham chegado ao ensino médio. Em 2006, Lula perdeu entre os que ganhavam mais de dez mínimos e chegaram à universidade.

OS TEMAS DE 2010

O tema da campanha de Dilma Rousseff, do PT, está claro: a continuidade. Ciro Gomes (PSB) seguirá nessa linha. O tema de Marina Silva (PV) será o desenvolvimento sustentável. O que está em aberto é qual será o norte do PSDB, que só poderá ser definido quando o partido resolver se seu candidato será o governador paulista José Serra ou o mineiro Aécio Neves. O candidato tucano será o anti-Lula ou o pós-Lula? O interessante é que o PSDB nem sempre disputa com seu nome mais forte. Em 2002, Serra era fraco, porque era identificado com Fernando Henrique Cardoso, que tinha muita rejeição. Era preferível que apoiasse alguém de um partido aliado. Em 2006, Serra era o mais forte, mas o candidato foi Alckmin. O PSDB perdeu de novo.

Coluna do Milton Coelho da Graça

NEM TUDO É APENAS MAROLINHA
PARA MILHOES DE ENDIVIDADOS


A Federação do Comércio de São Paulo faz a melhor pesquisa do país sobre endividamento familiar e revela, em novembro, um súbito aumento do número de famílias endividadas – um “pulo” de 41% para 46%, significando que quase 200 mil famílias se “enrolaram” com algum tipo de prestação nos últimos trinta dias.

O número não é assustador, porque ainda é bem menor do que no auge da crise em 2008 – em outubro esse número chegou a 1,897 milhão, bem mais do que o deste mês – 1,656 milhão..

O problema é que ou ocorreu uma falha na pesquisa ou houve uma perigosa reversão na tendência de queda desde abril deste ano. Em outubro ocorrera uma redução de 150 mil famílias endividadas, provavelmente já por conta do 13º mês.

A pesquisa mostra claramente o alívio dado pelo 13º, mas, ao mesmo tempo, que esse alívio durará pouco. Os endividados em atraso até 30 dias aumentaram para 25,5%, em outubro eram 20,6%. Entre 30 e 60 dias, a percentagem praticamente estagnou – 19,4% em novembro, 19,9% em outubro. Mas os atrasados entre 60 e 90 dias “pularam” de 6,3% para 14,8%! E os que já estão em falta há mais de 90 dias são agora 48%, eram 44%.

Não ficaram só nisso os números que considero “perigosos”. Mais da metade dizem estar “encalacrados” com dívidas pelos próximos seis meses. E a quarta parte afirma que esse horizonte sombrio se estica por mais de um ano.

Outro dado pequeno, mas complicador: os tipos de dívida mais usados em novembro foram exatamente aqueles que exigem taxas de juros mais altas – o cartão de crédito e o cheque especial.

No Brasil, além de nosso governo considerar que tivemos apenas uma marolinha, a recuperação é anunciada com euforia, embora ainda estejamos lutando para apresentar um pequenino resultado positivo do PIB ainda este ano.

Além disso, existe a possibilidade de uma recaída, conforme economistas de várias tendências e o próprio presidente Obama afirmam recear. Muitas causas foram apontadas para a crise, mas o endividamento das famílias americanas e o nível de inadimplência nas hipotecas imobiliárias foram, sem dúvida, os grandes catalisadores. Grandes bancos, empresas e os cidadãos mais ricos certamente recordam que a crise explodiu quando o mundo parecia mais maravilhoso do que nunca. Só o malandro Madoff os esfolou em mais de 50 bilhões de dólares.

A concentração financeira e industrial está cada vez mais intensa – aqui e no mundo inteiro. O emprego ainda não voltou aos níveis de 2007 – aqui e no mundo inteiro. Desequilíbrios fiscais e comerciais estão em ascensão – aqui e no mundo inteiro.

O futuro talvez não ofereça apenas sorrisos, como nosso ministro da Fazenda romete.

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“Acredita-se que Cícero foi o primeiro homem a ver além da superfície da política pública de César. E a temê-la, como qualquer pessoa deve temer a sorridente superfície do mar.”

Plutarco (aprox. 46 DC - aprox. 120 DC), filósofo e biógrafo grego, em Vidas Paralelas – Júlio César.

Pensar e repensar o Brasil

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / Caderno 2 (21/11/2009)

Criado em plena ditadura, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o Cebrap, há 40 anos estuda os problemas do País. Agora tem livro e filme sobre sua história.

Antonio Gonçalves Filho

Aos 40 anos, uma instituição pode ser considerada velha ou apenas uma senhora que passou por experiências incomuns e começa a dar sinais de cansaço? Qualquer que seja a resposta, ela é madura o suficiente para virar outra página nessa história que começou na ditadura e foi escrita por ex-presidentes da República, governadores, filósofos, cientistas sociais, demógrafos e críticos de arte. É o que pretende provar o livro Retrato de Grupo (Cosac Naify), que será lançado na terça-feira, às 19h, no Sesc Vila Mariana, com a exibição do documentário homônimo dirigido por Henri Gervaiseau. Tanto o livro como o DVD trazem entrevistas inéditas com os intelectuais que fundaram o Cebrap - Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, criado em 3 de maio de 1969 num antigo sobrado da Rua Bahia, em Higienópolis.

Endereço frequentado pelas melhores cabeças que circulam ou circularam pelo País, o Cebrap foi criado por exilados que retornavam ao País como resposta ao Ato Institucional 5, o AI-5, de 1968, que deu ao presidente Costa e Silva o poder de decretar a intervenção federal nos Estados e municípios, cassar mandatos, suspender direitos políticos e, escândalo, fechar o Congresso Nacional. Entre esses exilados, o mais famoso foi certamente o fundador do Cebrap, o sociólogo e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, primeiro dos entrevistados de Retrato de Grupo, convidados pelos organizadores do volume, Paula Montero, presidente do Cebrap, e Flávio Moura, editor da revista Novos Estudos Cebrap, a fazer um balanço dos 40 anos de história da instituição.

Como, inevitável, há ausências no livro, o Estado convidou o professor do Departamento de Ciência Política da USP, José Álvaro Moisés, para registrar suas impressões na página 5, que traz um resumo das principais opiniões sobre o Cebrap, nascido como um centro de estudos sobre problemas brasileiros sem vínculo com a universidade, mas dependente da boa vontade de uma organização norte-americana. Foi justamente o dinheiro recebido da Fundação Ford a primeira causa dos muitos rachas registrados nessas suas quatro décadas de existência. Ideologicamente desalinhados, alguns de seus integrantes já começaram a brigar nesse momento germinal, por não aceitar dinheiro do "imperialismo". O que aconteceu depois Fernando Henrique Cardoso e os outros entrevistados contam nesta edição.

Um centro de ideias e polêmicas

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / Caderno 2 (21/11/2009)

Ex-integrantes do Cebrap guardam elogios e algumas críticas à instituição que abrigou FHC e Serra

Antonio Gonçalves Filho

A história poderia começar assim: um grupo de professores da USP se reúne seis anos antes de os militares tomarem o poder em Brasília para estudar regularmente O Capital e ver como as lições de Karl Marx poderiam ser aplicadas à realidade brasileira. Fazem parte desse seleto grupo um homem que viria a ser presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, sua mulher, Ruth Cardoso, o filósofo José Arthur Giannotti, o economista Paul Singer, o cientista social Octávio Ianni e o historiador Fernando Novais. Depois viriam o crítico literário Roberto Schwarz e o sociólogo Juarez Brandão Lopez, até que o golpe militar fez essas cabeças voarem para o exílio. Na volta, com o País ainda fechado e as universidades vigiadas pelo regime, FHC resolveu reunir de novos os amigos para estudar e foi assim que surgiu o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) num pequeno sobrado de Higienópolis, financiado com dinheiro americano da Fundação Ford.

Nos anos 1970, a ditadura ficou ainda mais tenebrosa com a decretação do AI-5. Começaram as perseguições, professores foram "aposentados" pelo regime e as cabeças pensantes encontraram no Cebrap um refúgio para a inteligência. Foi assim que, entre 1970 e 1971, o quadro de pesquisadores do Cebrap ganhou em sua fase embrionária a adesão de nomes como os dos sociólogos Francisco de Oliveira, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), e Bolívar Lamounier, entre outros, que passaram, em 1971, a publicar seus estudos na revista Estudos Cebrap e nos Cadernos Cebrap, três séries com 45 históricas edições (de 1971 a 1997). A resistência parecia surtir efeito até que, em 1974, alguns integrantes do Cebrap foram presos e até torturados, caso dos sociólogos Francisco de Oliveira e Vinícius Caldeira Brant. Para completar o quadro de terror, uma bomba caseira explodiu na sede do Cebrap em 1976, um ano antes de FHC filiar-se ao MDB e ser candidato ao Senado, e dois antes de José Serra voltar do exílio e tornar-se pesquisador do Cebrap.

Essa seria a história oficial se alguns dos ex-integrantes do Cebrap não tivessem a própria história para contar. Hoje distanciados por questões ideológicas, alguns contestam a versão de que teria sido o Cebrap o marco zero de partidos como o PSDB e o PT. Em sua entrevista no livro Retrato de Grupo, o recifense Francisco de Oliveira, já avisando que não é historiador soviético nem revisionista, discorda de Fernando Henrique Cardoso. Não aceita a versão de que o Cebrap tenha nascido sob o signo da Fundação Ford, embora tenha recebido dinheiro dela. Ex-presidente do Cebrap de 1993 a 1995, quando já havia se instalado a divisão partidária dentro da instituição, ele saiu rompido com alguns de seus integrantes que o consideravam anti-Cardoso. Oliveira diz que não era e não é contra FHC, mas não olha com nostalgia para o Cebrap do passado, onde passou 25 anos de sua vida. Admite que ele continua sendo um centro de pesquisas importante, mas que a universidade ocupou seu espaço, dividindo-o com outras instituições similares que cresceram nos últimos anos.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, respondendo a uma questão dos entrevistadores no livro, sobre a incorporação de pesquisadores no Cebrap não- oriundos da USP, diz que na época de sua criação, a USP "era muito fechada", "muito francesa, considerando-se superior ao resto daqui que não era francês". Destacando o papel do Cebrap como um "foco de resistência" contra a ditadura, FHC observa que nem todos os seus integrantes foram cassados ou perseguidos pelo regime, citando como exemplo o sociólogo Juarez Brandão Lopes. Sem mencionar nomes de outros ex-colegas do Cebrap, o ex-presidente conclui sua entrevista dizendo que "a maioria da esquerda brasileira está aferrada a duas ideias que envelheceram: a do velho nacionalismo e a do estatismo". Sua última frase vai para os candidatos a tomar o lugar de Lula. Eles teriam de ser como Barack Obama, capazes de funcionar como um ponto de referência para a sociedade de massas, papel que o atual presidente brasileiro desempenha bem. "O líder tem de tomar posição para pode existir", observa. E conclui: "Você vê que o Lula fala todo dia - fala sobre o que ele sabe e sobre o que ele não sabe, toma posição e até muda de posição." Vale como elogio. Mas pode servir como crítica.

Como o Cebrap virou referência não só no meio político como cultural, duas entrevistas com integrantes da área se destacam na edição de Retrato de Grupo, as do crítico literário Roberto Schwarz e a do crítico de artes visuais Rodrigo Naves. O primeiro organizou, em 1982, um dossiê sobre os pobres na literatura brasileira para a revista Novos Estudos, do Cebrap, que depois seria editada por Rodrigo Naves. O dossiê virou um livro irregular, com artigos fracos. Schwarz admite que poderia ter editado os textos ou pedido para que seus autores os reescrevessem. É possível que a prometida reedição de Os Pobres na Literatura Brasileira venha a corrigir esses equívocos.

A Novos Estudos, sob orientação de Rodrigo Naves, produziu também números especiais, como o dedicado ao filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, uma mudança na orientação na revista, até então dedicada quase que exclusivamente a debater a realidade brasileira. Naves observa que a nova linha adotada pelo Cebrap desde 1990, mais voltada para a pesquisa do que para a atuação política, pode até trazer surpresas, mas a crença inicial de seus fundadores, de que iriam mudar o capitalismo, essa já foi por terra.

José Álvaro Moisés :: Resistir e aceitar o pluralismo são os seus princípios

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / Caderno 2 (21/11/2009)

Nascida numa era sinistra, instituição legou essa lição à sociedade brasileira

Incomum na comunidade acadêmica brasileira, o hábito de celebrar os próprios feitos, a sua continuidade no tempo ou o próprio desenvolvimento de suas instituições não entusiasma muito a maioria dos cientistas sociais brasileiros (ao contrário, por exemplo, de nossos colegas norte-americanos que não perdem as oportunidades de consolidar as suas identidades institucionais e reforçar a autoestima de seus membros). Contudo, a comemoração dos 40 anos do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento oferece uma excelente oportunidade para remarmos contra essa corrente.

Fundado em 1969 por Fernando Henrique Cardoso, em resposta à decisão da ditadura militar de aposentar compulsoriamente alguns dos mais importantes cientistas sociais do país, o Cebrap já começou definindo o que seriam duas de suas principais características: por um lado, a disposição de resistir (e transgredir, se necessário), quando a violação de direitos afeta a sociedade e bloqueia o pensamento; por outro, a aceitação do pluralismo e da diversidade de opiniões como elementos centrais da reflexão e do rigor científico, neste caso, voltado a diagnosticar e a responder aos desafios da sociedade. Tendo trabalhado no Cebrap por um curto período de tempo como assistente de pesquisa do professor Francisco Weffort, no início dos anos 70, em estudos sobre as relações entre o sindicalismo e a política, fiquei para sempre marcado pela experiência dos seminários do chamado "mesão" da Rua Bahia, quando o confronto de diferentes perspectivas intelectuais sinalizava, especialmente para os que iniciavam a sua carreira acadêmica, alguns dos principais cânones da construção do conhecimento científico.

40 anos é um período curto se pensarmos nas transformações por que passam as sociedades complexas, mas na experiência das instituições acadêmicas, e em especial das instituições das ciências sociais, é um tempo razoável para se avaliar os seus rumos. Nesse sentido, tenho a impressão que os 40 anos do Cebrap podem ser divididos em dois grandes períodos de 20: o primeiro vai da sua fundação, em 1969, até 1989, quando, depois da promulgação da Constituição de 1988, o país realiza as primeiras eleições diretas para a escolha de governo em quase 30 anos - foi a fase de resistência ao autoritarismo; o segundo ocupa a década de 90 e o início deste século, quando novas iniciativas expandiram o escopo da instituição e aprofundaram algumas de suas linhas iniciais de trabalho; é a fase sob a democracia.

Na primeira fase, além dos estudos inovadores sobre a demografia brasileira, coordenados por Cândido Procópio de Ferreira Camargo e Elza Berquó, as duas linhas de pesquisa que mais marcaram a instituição foram, de um lado, os esforços teóricos de Fernando Henrique Cardoso para analisar o modelo político brasileiro. Cardoso apontou então, inclusive com a sua análise dos "anéis burocráticos", rumos que seriam desenvolvidos anos depois na análise da transição dos regimes autoritários para a democracia por cientistas brasileiros e estrangeiros. O outro tema central desses anos foram os estudos coordenados por Paulo Singer e Francisco de Oliveira, embora de ângulos diferentes, em torno da articulação entre economia e Estado e, em especial, dos fundamentos do chamado "milagre econômico" dos anos 70. Essa produção, marcada por seu rigor acadêmico, ofereceu importantes contribuições para a militância política que enfrentava o regime militar, e são desse período os primeiros contatos de Cardoso com o PMDB, em especial, com Ulisses Guimarães, então preocupado em dar mais consistência à oposição ao autoritarismo.

Identifico a segundo fase no período que vai dos anos 90 até hoje. Na década de 90, como outras instituições surgidas anos antes com base em seu modelo institucional, como o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea - Cedec e o Instituto de Estudos Sociais e Políticos - Idesp, o Cebrap enfrentou grandes dificuldades financeiras porque as agencias que financiavam suas atividades, como a Fundação Ford, suspenderam o grosso das contribuições com base no argumento de que, livre do regime militar, o país devia enfrentar por conta própria os desafios de financiar a pesquisa de ponta em ciências humanas. Então, no anos 90, os esforços de José Arthur Giannotti e Ruth Cardoso se concentraram em um programa inovador de formação de pesquisadores. Em parte como resultado desses esforços, no início desta década, sob a direção de uma nova geração de cientistas sociais, a instituição voltou a marcar os estudos sobre o sistema político brasileiro, a exemplo dos esforços coordenados por Fernando Limongi para caracterizar o chamado presidencialismo de coalizão.

Ao lado de várias outras iniciativas, a criação do Centro de Estudos da Metrópole, sob a coordenação de Eduardo Marques e Vera Schattan Pereira Coelho, em 2001, retomou a tradição de estudos sobre os problemas sociais e políticos de cidades como São Paulo. Nos anos 70, como parte de sua política de apoio aos grupos da sociedade civil que resistiam à ditadura, o Cebrap havia produzido, em colaboração com D. Paulo Evaristo Arns e a arquidiocese de São Paulo, as pesquisas que deram origem ao livro São Paulo Crescimento e Pobreza, que teve enorme repercussão no país e no exterior. O Centro de Estudos da Metrópole é herdeiro deste sucesso, mas uma série de outras iniciativas de estudos sobre cultura e política ou das relações entre filosofia e direito têm atualizado a vocação do Cebrap de diagnosticar em profundidade a sociedade brasileira.

Boas celebrações não olham apenas para o passado, mas observam se o que foi feito em anos anteriores serve de exemplo crítico para o que pessoas e instituições estão fazendo no presente. Nesse sentido, não resisto a lembrar de uma coisa que talvez não tenha sido o principal objetivo do Cebrap quando ele foi fundado, mas que mostrou o quanto seus frutos foram importantes: de seus quadros saíram, não só um Presidente da República, mas vários ministros ou administradores públicos que, em diferentes governos, se apoiaram sobre o conhecimento científico que adquirido no Cebrap para ajudar o país a resolver os seus desafios. É um bom motivo para comemorar.

José Álvaro Moisés é professor do Departamento de Ciência Política e diretor científico do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas - NUPPs, da Universidade de São Paulo, autor de vários livros, e de um capítulo de São Paulo Crescimento e Pobreza

Bom dia! - Roda de Choro com os Músicos do Futuro

sábado, 21 de novembro de 2009

Reflexão do dia - Fernando Henrique Cardoso

“A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio "talvez" porque alguns estão de tal modo inebriados com "o maior espetáculo da Terra", de riqueza fácil que beneficia a poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?”


(Fernando Henrique Cardoso, no artigo, Para onde vamos? - O Globo 1/11/2009)

Merval Pereira:: Os caminhos do voto

DEU EM O GLOBO

Trabalho coordenado pelo cientista político Cesar Romero Jacob, da PUC do Rio, publicado na edição de novembro da revista Alceu, que analisa os resultados da eleição presidencial de 2006 no Brasil à luz das mudanças na geografia eleitoral dos partidos, tem conclusões que servem para uma análise prospectiva com relação à sucessão de Lula, e uma certeza: nenhum candidato ganha ou governa sem algum grau de compromisso com um Brasil que tem voto e representação política, e é composto por “estruturas de poder” definidas: as oligarquias nos grotões, os pastores pentecostais, os políticos populistas na periferia e a classe média urbana escolarizada.

O estudo mostra que o pragmatismo tomou conta da política brasileira, e que todos os políticos competitivos foram seguindo a mesma lógica, a de levar em consideração as estruturas de poder existentes no território onde se dá o embate eleitoral.

Quem ganhou as eleições dos últimos 20 anos — Collor, Fernando Henrique, e Lula — fez os mesmos acordos políticos.

O professor Cesar Romero Jacob registra que Collor entendeu isso antes de todo mundo, num movimento individual, provavelmente convencido por Marcos Coimbra, do instituto de pesquisa de opinião Vox Populi que, tendo estudado nos Estados Unidos, aprendeu a entender a importância do território.

Há 20 anos, a queda do Muro de Berlim aconteceu em 9 de novembro, o primeiro turno da primeira eleição presidencial direta depois do período militar foi a 15 de novembro e o segundo turno a 17 de dezembro.

“Exatamente no momento em que o mundo estava mudando, ele apresentava o Lula como um jurássico, defensor de um mundo que está caindo, e ele como o arauto da modernidade”.

Mas fazia acordos com as oligarquias de onde provinha.

Na eleição de 1994, o Plano Real foi um elemento fundamental, mas, ressalta Romero Jacob, quando são analisados os mapas eleitorais de Fernando Henrique, vê-se que são uma repetição dos mapas de Collor.

Quando Fernando Henrique se aliou ao PFL, recebeu muitas críticas, mas ele vai ter o apoio das oligarquias — andou de jegue no sertão, comeu buchada de bode — e ao mesmo tempo tinha um discurso sedutor para a classe média, e o Plano Real, modernizante, que era mais do que um discurso.

Ao contrário da maioria das análises, Romero Jacob acha que Fernando Henrique precisava do PFL não apenas para governar, mas sobretudo para ganhar a eleição também.

Para ele, Lula, Brizola e Covas em 1989 faziam política ao estilo pré-64, que é o de convencer o eleitor de que as suas posições são as mais corretas.

Collor introduz a pesquisa qualitativa na política eleitoral, que vai dizer aquilo que o eleitorado médio quer ouvir. “Convencer o eleitor daquilo que ele já está convencido”.

O trabalho dos pesquisadores da PUC mostra que todos os candidatos, se quiserem vencer a eleição, precisam do apoio das máquinas eleitorais no interior do país.

“Lá há outro tipo de formador de opinião. Há lugares em que Collor e Fernando Henrique tiveram 90% dos votos, não há opinião dividida”, analisa Jacob.

A partir de 2002, todos, inclusive Lula, aderem a esse modelo. O mapa eleitoral da Heloísa Helena mostra que ela não existe no interior do país, é um voto de capital, o mesmo acontecendo com o Cristovam Buarque.

A diferença do Lula de 2002 para antes é que o PT se torna pragmático, diz Romero Jacob.

Ao atingir 1/3 do eleitorado, vai para o centro.

“Quando você pega a série histórica toda, repete-se a mesma situação: cerca de 46% do eleitorado está nos municípios pobres do interior, e aí o que vale é a máquina eleitoral oligárquica, que trabalha uma população carente, com baixa escolaridade”, diz.

Na periferia metropolitana pobre, o peso maior é do político populista e do pastor pentecostal. A classe média urbana escolarizada é a minoria, onde há mais diversidade de opinião.

Lula perdia nesses dois primeiros segmentos da sociedade, e passou a ganhar em 2002. Das eleições de 1989, 1994 e 1998, fica claro que houve uma troca de eleitorado em relação a 2002.

Na análise de Cesar Romero Jacob, “a diferença entre a votação de Lula entre 2002 e 2006 mostra que as oligarquias do Nordeste foram superadas pelos programas sociais do Lula”.

Isso porque em 2002 Lula cresceu em relação às suas votações anteriores com o auxílio de oligarcas que haviam rompido com o governo tucano, como Antônio Carlos Magalhães e José Sarney. Mas em 2006, ele já assumiu o controle desse eleitorado dos grotões, com o Bolsa Família.

Não seria mais correto dizer que as oligarquias se reciclaram, e que o governo passou a fazer com o Bolsa Família o que os coronéis faziam antes? O governo não seria, como acusam alguns, um coronel eletrônico, pósmoderno? Ele acha que mudou a lógica, com o governo aportando recursos diretamente às pessoas, e não mais aos políticos.

Ele diz que essa postura vem desde o governo do Fernando Henrique, quando dona Ruth Cardoso, com o Comunidade Solidária, cria o Bolsa Escola, e havia outros programas como o vale-gás, o vale-alimentação, “o que de algum modo começava a quebrar o poder das oligarquias”.

No caso do Bolsa Família do governo Lula, essa lógica foi alterada em parte, pois o cadastramento é feito através dos prefeitos. Segundo Romero Jacob, as oligarquias locais se reciclam, e as regionais se enfraquecem.

No estudo do resultado de 2006, ele faz a ligação entre a vitória dos partidos de esquerda em 9 estados do Nordeste, — PT ganha 3, PSB ganha 3 e o PDT, 1 — e a decadência das oligarquias, com Antônio Carlos Magalhães, que fica contra Lula, e Sarney, que fica a favor, os dois perdendo as eleições. Hoje, seriam as oligarquias tradicionais que precisam do apoio de Lula. (Continua amanhã)

Dora Kramer :: Palavras de presidente

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

É de praxe que as partes aguardem a publicação oficial da decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a extradição de Cesare Battisti. Tanto o presidente Luiz Inácio da Silva para dar a última palavra, quanto o governo italiano para anunciar o que fará caso se considere legalmente lesado.

Não obstante as cautelas, as posições são conhecidas. Para a Itália é ponto de honra que Battisti volta ao país para cumprir pena de prisão perpétua a que foi condenado por quatro homicídios.

Já para o presidente brasileiro, a concessão do refúgio pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, é correta e seu cumprimento "uma questão de soberania nacional" à qual a Itália teria de se curvar gostando ou não.

Foi isso que ele disse no dia 16 de janeiro último e quase o mesmo escreveu em carta ao presidente Giorgio Napolitano três dias depois.

Na época, Lula defendia seu ministro da Justiça, que havia tomado uma decisão tida como "absurda" pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e contrária ao parecer do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) do Ministério da Justiça.

Mas Lula avalizou: "Nós tomamos uma decisão de entender que essa pessoa italiana (sic) não precisaria voltar à Itália e poderia ter o status de exilado. O ministro da Justiça entendeu que esse cidadão deveria ficar no Brasil e tomou a decisão que é do Estado brasileiro. Portanto, alguma autoridade italiana pode não gostar, mas tem de respeitar".

Na carta ao presidente Napolitano Lula assegurava que o ato de Tarso Genro estava amparado "na Constituição Brasileira, na Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados e na legislação infraconstitucional (Lei 9.474/97)".

Em defesa de Battisti lembrou que o Brasil é um "país generoso", contestou a validade das provas dos assassinatos - "o acusador fez um processo de delação premiada e hoje nem existe mais para provar essas acusações"- e convalidou a lisura da conduta do italiano "que trabalhou e hoje é escritor".

Na ocasião dessas declarações o presidente não teve o cuidado de fazer ressalvas a um possível entendimento diverso do Supremo Tribunal Federal. Foi peremptório ao conferir ao juízo do ministro da Justiça o grau de instância máxima.

Foi arrogante, autoritário no trato das instituições italianas e brasileiras e, sobretudo, demonstrou que não sabia da missa a metade a respeito das implicações do caso. Tocou de ouvido em assunto em que conviria conhecer a partitura.

Dia depois

Se o presidente Lula resolver manter Battisti no Brasil, já se sabe, pode levar o País a responder perante tribunal internacional por quebra do tratado de extradição com a Itália e se arriscar também a sofrer denúncia por crime de responsabilidade, já que o tratado tem força de lei.

O que ainda não se aventou é a hipótese de os advogados de Battisti pleitearem do governo brasileiro reparo por danos morais e materiais. Afinal, se Lula decidir pela anistia, o italiano terá ficado dois anos preso por nada.

Ou, como disse o ministro Cezar Peluso na sessão de quarta-feira: "Por gratuito exercício de crueldade."

Cubanos

Segundo o ministro da Justiça, Tarso Genro, não está correta a afirmação feita aqui de que a motivação humanística que o fez conceder refúgio a Cesare Battisti não alcançou os pugilistas cubanos mandados de volta a Havana, em 2008.

Por meio de sua assessoria, envia a seguinte mensagem:

"Durante o Pan, cinco atletas pediram refúgio ao Brasil. Estão vivendo aqui até hoje o ciclista Michel Garcia, o jogador de handebol Rafael Capote e o treinador de ginástica artística Lázaro Ramirez.

"Os outros dois atletas, os boxeadores Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, inicialmente quiseram ficar. Eles tinham contato com um empresário que prometera levá-los para a Alemanha. Deixaram a delegação cubana, foram para um hotel numa praia do Rio e esperaram; o empresário não apareceu.

"Pediram a um pescador que fizesse contato com a polícia, pois estavam sem dinheiro e sem saber o que fazer. Foram ouvidos pela Polícia Federal, na presença de um procurador da República e de um conselheiro da OAB-RJ. A todos declararam que queriam voltar para Cuba, e assim foi feito. Não pediram refúgio, ao contrário de seus outros três colegas.

"Em março último Lara confirmou, em entrevista à TV Globo, o desejo de voltar a Cuba. De lá foi para o México, depois para a Alemanha e atualmente vive em Miami.

"Há no Brasil 124 cubanos refugiados. O refúgio mais recente foi dado a um grupo de músicos no ano passado, que vieram para um festival de música e vivem em Recife.

"Portanto, o ministro Tarso Genro não teria motivos para negar refúgio aos dois boxeadores, visto que o concedeu a outros dois atletas e também aos músicos, mais recentemente".

O QUE PENSA A MÍDIA

EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
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Cesar Maia:: "Flash forward"

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Promessas de candidatos são rotinas das campanhas eleitorais. Há uma questão mais complexa: a projeção dos cenários nos quais o novo governo atuará.FHC afirma que a política econômica atual é igual a sua. Elimina a gestão econômica como diferenciadora. O cenário econômico futuro não afetará o eleitor. FHC afirma que os programas de inclusão social do governo Lula são continuidade dos seus e que os indicadores sociais são projeções das curvas anteriores. Portanto, o social será percebido, também, como de continuidade.

Com isso, outras questões entram na diferenciação das candidaturas. Uma delas é clássica em eleições: o novo x o velho. Não se trata apenas de fazer memória do segundo governo FHC, como tenta o governo. O ponto central é a imagem transmitida pelos candidatos e como personalizam essa disjuntiva.

A oposição pode ser afetada pelo passado. O governo reforçará a ideia de um futuro igual ao presente ou de nenhum novo futuro. O novo fica disponível.

A Federação é outro elemento presente nesses 120 anos de República. Vem desde a frustrada Assembleia Constituinte de 1823. Atravessou o Império. Traumatizou a sucessão de Rodrigues Alves em 1906. Inaugurou a política do café (SP) com leite (MG). Em 1918, Alves, outra vez eleito, morre antes de assumir. Assume seu vice, o mineiro Delfim Moreira.

A insistência de Washington Luís com Júlio Prestes, governador de São Paulo, levou à Revolução de 30.

Na reeleição de Lula, o imaginário popular o transferiu de São Paulo, onde vivia havia 50 anos, para o Nordeste, e a continuidade regional ficou com o adversário. Em 2010, Lula terá uma candidata com domicílio neutro: Brasília. Não se tem foto de fim de semana com a família em Minas ou no Rio Grande do Sul. Essa imagem de candidata sem origem e sem família, além de mãe do PAC, seria fatal nos EUA. Por aqui não se sabe ainda.

Finalmente, há que se projetar o ambiente político-social para o próximo governo. A nível político-parlamentar, não haverá novidade. A base aliada de hoje é a mesma de ontem e será a mesma de amanhã.

Mas o ambiente político-social tende à complexidade. Os sindicatos, associações e ONGs políticas vivem incrustados no Estado. Fora do poder, tenderão à radicalização.

Os "piqueteiros" de Kirchner são exemplos. A paz social "contratada" pelo governo atual poderia ser desestabilizada. A menos que a gestão política para eles demonstre que seus espaços serão mantidos, mas de outra forma. Estes três elementos no ambiente futuro -novo/velho, a Federação e a estabilidade social- devem marcar o imaginário do eleitor em 2010.

Cesar Maia escreve aos sábados nesta coluna.

O País quer saber: Entrevista com Fernando Henrique Cardoso (Parte 4)

Serra foca PMDB e procura Geddel e Requião

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Governador paulista falou com o ministro da Integração Nacional na quarta e se reuniu com seu colega do Paraná na quinta

"Se Lula conversa com Serra, por que Geddel não poderia conversar?", argumenta um aliado do ministro, que nega a reunião com o governador


Catia Seabra

Apesar de avançada a costura da aliança do PT com o PMDB, o governador de São Paulo e potencial candidato à Presidência, José Serra (PSDB), intensifica o assédio a peemedebistas.

Na quarta-feira, o tucano conversou com o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (BA), em Brasília.

Na Bahia, Geddel tem reafirmado sua disposição de disputar as eleições contra o atual governador do Estado, o petista Jacques Wagner.

Segundo aliados de Geddel -entre eles, o deputado estadual Arthur Maia (PMDB)-, a tendência é dividir com Wagner o palanque da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) no Estado. Mas não está descartada uma articulação com o PSDB.

"Se o presidente Lula conversa com Serra, por que Geddel não poderia conversar?", argumentou Arthur Maia. Geddel (que teme retaliações do governo) nega o encontro com Serra.

"No dia em que for encontrar o Serra será no restaurante mais badalado de São Paulo. Qual é?", reagiu Geddel. Ministro e governador chegaram, no entanto, a programar um almoço na quarta-feira, quando Geddel esteve em São Paulo para a abertura do Seminário Internacional de Defesa Civil.

Como não puderam almoçar, cogitaram viajar juntos, às 16h, no avião do governo de São Paulo, para Brasília. Geddel, no entanto, embarcou às 15h, após liberação de avião da FAB (Força Aérea Brasileira).

Serra e Geddel se encontraram na noite de quarta-feira, em Brasília, após jantar em comemoração ao aniversário do presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE).

Aliança com o DEM

Na conversa, Geddel teria reiterado o interesse de concorrer ao governo da Bahia, descartando a hipótese de disputar o Senado numa aliança com o democrata Paulo Souto na cabeça de chapa.

Integrantes do DEM chegaram a sugerir um acordo em favor de Geddel, hoje terceiro na pesquisa. Mas a negociação fracassou. Na oposição, a ideia é ganhar tempo até que se clareie o cenário na Bahia.

Na quinta-feira, Serra se reuniu com o governador do Paraná, Roberto Requião, um dos críticos da aliança com o PT.

Em reuniões com o PMDB de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, Requião chegou a propor o anúncio de candidatura própria para a Presidência. A expectativa é que seu nome seja lançado durante encontro programado para hoje com presidentes estaduais do PMDB.

Em Curitiba para uma palestra, Serra telefonou para Requião. Em retribuição, o governador antecipou o retorno de uma viagem ao interior do Estado para recebê-lo na capital.No Paraná, o PSDB tenta construir uma aliança com o PMDB, oferecendo a Requião uma vaga para o Senado.

Hoje, dois tucanos disputam o direito de concorrer ao governo: o prefeito de Curitiba, Beto Richa, e o senador Álvaro Dias. Resistente a Osmar Dias (PDT), Requião insiste no lançamento de candidato do PMDB ao governo. A decisão do PSDB será em janeiro.

Fernando de Barros e Silva:: Espólio do PT

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - A se confirmarem as previsões, José Eduardo Dutra deve ser eleito amanhã o novo presidente do PT. Sindicalista, senador por Sergipe entre 1995 e 2002, ex-presidente da Petrobras e da BR Distribuidora, ele representa o establishment petista. É o candidato de Lula, de Dilma Rousseff, do atual presidente, Ricardo Berzoini, e do ex (quase tudo) José Dirceu. A chance de um segundo turno contra esse bloco de poder é reduzida.

Seja qual for o resultado, o roteiro do PT para 2010 está traçado. A candidata à Presidência já foi definida à revelia do partido, por quem de fato manda e apita: Lula.
Dilma é quase cristã-nova no PT -ingressou ali em 2001, vinda do PDT-, além de principiante no "grand monde" da política nacional. Até a crise do mensalão, era uma desconhecida do público.

A eleição no PT se tornou irrelevante? No mínimo, bem menos importante do que já foi, como o próprio partido, que, a despeito do seu tamanho e presença institucional, é hoje uma espécie de agregado do lulismo, disputando com os aliados migalhas e favores do grande pai.

O PT nasceu, em 1980, como catalisador de demandas sociais, enraizado no sindicalismo, nos movimentos populares, na igreja e na intelectualidade progressista. Foi instrumento e caixa de ressonância de muitos avanços democráticos.

A conquista progressiva do poder, porém, se confunde com o processo de burocratização do partido, do qual Zé Dirceu foi o artífice e condutor. O PT que patrocina a realpolitik, distante das ruas e incrustado no Estado, esgotou seu papel transformador. Com o mensalão, esgotaram-se também suas reservas éticas. A popularidade de Lula serviu de pretexto para que o partido tentasse reescrever o passado à moda stalinista: "Que mensalão?!".

Por isso tudo, o ritual de renovação da diretoria petista, além de ser pouco importante, tem um forte ingrediente farsesco. Unido, o PT afia os dentes para brigar nos pós-Lula pelo único patrimônio que lhe terá restado: o espólio do lulismo.

"Novo" PT dá sinal verde a mensaleiros

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Dutra, favorito na disputa pela presidência do partido amanhã, e seu principal adversário, Cardozo, admitem volta de envolvidos

Réus do caso do mensalão no STF, Dirceu, Genoino e João Paulo estão entre os que podem assumir cargos na nova direção da legenda

O candidato favorito a vencer o PED (Processo de Eleições Diretas) do PT, amanhã, José Eduardo Dutra, e seu principal adversário, José Eduardo Cardozo, afirmam que, se eleitos, não colocarão obstáculo à volta ao comando da sigla de petistas envolvidos no escândalo do mensalão (transferência de recursos a parlamentares em 2005), a maior crise do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O ex-ministro José Dirceu e os deputados federais José Genoino e João Paulo Cunha integram a chapa de Dutra, requisito para que eles possam ocupar cargos de direção, o que não acontece desde a primeira eleição do PT após o escândalo.

Os três são réus no processo do caso no STF (Supremo Tribunal Federal). Outros cinco petistas ligados ao escândalo estão na chapa de Dutra.

Mas até Cardozo, que chegou a pregar a "refundação" do PT, diz agora que aceita o retorno do grupo ao comando do partido. "O estatuto do PT define a composição proporcional. Não cabe a nenhum membro de uma chapa estabelecer qualquer tipo de veto a um militante que está no exercício de seus direitos", afirma o deputado.

Dutra usa o mesmo argumento para defender a volta dos mensaleiros. "Todos estão em pleno gozo de seus direitos como filiados ao partido. São companheiros importantes, de tradição e história no partido. Eu não sinto nenhum incômodo em tê-los na minha chapa."

CHARGE


Lula: fator previdenciário não acabará

DEU EM O GLOBO

O presidente Lula descartou ontem o fim do fator previdenciário, que evita aposentadorias precoces, em discussão no Congresso. O tema, disse, não pode ser alvo de “hipocrisia do ano eleitoral”.

Lula descarta o fim do fator previdenciário

"É hipocrisia", reagiu o presidente sobre a pressão da oposição por mudanças no cálculo das aposentadorias

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva descartou ontem a possibilidade de ceder à pressão da oposição pelo fim do fator previdenciário, fórmula usada desde 1999 para evitar as aposentadorias precoces.

Em entrevista a duas rádios baianas, ele disse que está disposto a negociar um acordo com as centrais sindicais, mas não admite que o assunto seja tratado com “hipocrisia” às vésperas de ano eleitoral.

— O que eu não posso, em sã consciência, é aprovar alguma coisa que seja, como diria o Magri, “incumprível”, porque todo mundo sabe que a gente só pode pagar a quantidade exata de dinheiro que você recolhe, aquilo que você tem no cofre — declarou.

Lula disse que, embora não vá prometer o que o governo não pode cumprir, se dispõe a encaminhar um projeto ao Congresso quando chegar ao consenso com as centrais: — Sou um homem de diálogo, amigo de todos eles. Não quero criar nenhum prejuízo a ninguém, mas não posso aceitar a hipocrisia do ano eleitoral. É inadmissível que as pessoas tentem tirar proveito e prometer coisas que não podem cumprir.

Isso a gente pode fazer quando não tem responsabilidade.

Quando tem responsabilidade, a gente tem que contar até dez. Eu tenho que tomar decisão antes de (contar até) dez, até porque só tenho nove dedos.

O presidente, ao comentar a campanha sucessória em 2010, disse que fez questão de convencer o PT “a parar com a brincadeira do terceiro mandato”.

— Porque se vale para mim terceiro mandato, vale para outro. Amanhã você tem o terceiro mandato; depois você gosta, você quer o quarto; depois você gosta, você quer o quinto; depois você gosta, você quer o sexto, e isso não é bom para o Brasil.

“Caetano nunca esteve do nosso lado” Lula disse que, se a oposição estivesse em seu lugar no governo, já teria levantado a tese do terceiro mandato: — Se a gente começa a colocar na cabeça “eu sou imprescindível, eu sou insubstituível”, começa a nascer um pequeno ditador.

Indagado se conseguirá, em 2010, transferir a sua popularidade para a pré-candidata do PT, a ministra Dilma Rousseff, Lula disse que é muito importante “todo mundo saber” que ele quer a ministra como sua candidata à sucessão: — De vez em quando as pessoas falam: “Ah, mas a Dilma não é muito simpática”. Bom, tem adversário dela que é muito menos simpático do que ela. Então, se for por simpatia, ela já está eleita — ironizou.

O presidente procurou minimizar a polêmica com o cantor Caetano Veloso, que o chamou de analfabeto e grosseiro: — Como cantor, ele é excepcional.

Agora, como político, o Caetano nunca esteve do nosso lado. Então, não tenho o que reclamar se ele gosta ou não gosta de mim, porque ele acha (isso) ou aquilo de mim. Eu disse, noutro dia, que me vinguei do Caetano: no dia em que ele disse isso, cheguei em casa, peguei um CD do Chico Buarque, o Chico Político (“O Político”), e ouvi duas vezes, e lavei a minha alma.

Miriam Leitão:: Ele vai, por que não?

DEU EM O GLOBO

Caetano é assim mesmo. Crítico dos críticos, opiniões ferinas, ideias densas e franqueza extrema.

Que país não precisa de alguém assim? Ele avisou a que vinha logo no começo da sua rica e produtiva vida artística: “Eu vou, por que não?” Mesmo quando discordo dele, Caetano me faz pensar. E pensar é sublime. Caetano tem um jeito.

Ele foi desta vez num nervo exposto

Ninguém pode falar que Lula estudou pouco. Só Lula pode proclamar isso o tempo todo. Ele transforma seu sucesso em vitórias de quem não estudou sobre quem estudou. Uma estranha luta de classes. De aula.

De um lado os bons, os que não estudaram. De outro os insensíveis e incompetentes, os que estudaram. É isso que está implícito nos discursos. Confira as palavras dele, ditas na sextafeira, dia 6, no dia seguinte ao da entrevista de Caetano a Sonia Racy, numa crítica ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: — Um intelectual ficar assistindo a um operário que tem o quarto ano primário ganhar tudo o que ele queria ter ganhado e não ganhou por incompetência é muito difícil mesmo.

Se tivesse sido só essa vez, era a briga política apenas.

Mas ele em vários contextos, inúmeras vezes disse algo semelhante, como: “Tem gente que pensa que inteligência está ligado à quantidade de anos de escolaridade que você tem. Nada mais burro que isso.” Em outro: “Vão morrer sem entender por que um metalúrgico que não tem diploma universitário é capaz de fazer mais do que eles.” Enfim, a lista é interminável; a mensagem, a mesma: estudar não faz diferença.

Imagina o impacto disso na cabeça de milhões de crianças e adolescentes no Brasil! Estudar para quê? Se Lula é tudo isso, respeitado aqui e lá fora, e tem apenas o quarto ano primário? Saber inglês para quê? Se Lula vive dizendo que não precisou de inglês para chegar aonde chegou? Isso é perigoso.

É mandar os jovens andarem na contramão da era do conhecimento.

A formatura como torneiro mecânico, que emocionou a dona Lindu, era uma estupenda vitória para a família, num país que sempre desprezou a educação dos pobres. Lula foi, de início, vítima dos mesmos erros educacionais do Brasil que ferem outros jovens. As estatísticas permanecem sendo vergonhosas. Entre os 20% mais pobres, a escolaridade dos homens é hoje de menos de cinco anos. Lula é filho inicialmente desse Brasil que não incluiu os pobres na escola. Depois, a militância sindical foi abrindo portas para ele. Muitos outros brasileiros, quando tiveram chance, ainda que mais tarde, voltaram a estudar.

O que o levou a fazer as opções que fez é assunto privado. O que é assunto de todos é a mensagem que passa.

Lula deveria usar sua liderança para dar o incentivo oposto ao que tem dado nas inúmeras ocasiões em que elogiou-se por ter estudado pouco e conseguido tanto.

Não há essa relação causal: ele conseguiu tanto porque estudou pouco. A causa do seu sucesso é outra: ele foi tão longe, apesar de ter estudado tão pouco, porque é inteligente e persistiu.

O presidente outro dia falou uma palavra mais difícil e depois brincou que Caetano não ia mais chamálo de burro. Louve-se seu bom humor, mas Caetano não disse isso. Na mesma entrevista ele disse que: “Ter tido Fernando Henrique depois Lula é um luxo.

Ambos saíram melhor do que a encomenda.” Na mesma entrevista, ele elogia as decisões de Lula na área econômica, como melhores do que as que José Serra tomaria se tivesse sido eleito em 2002.

Caetano contrapôs ao exemplo dele o da senadora Marina Silva. E de novo acertou.

Como Lula, Marina veio da extrema pobreza. Teve ainda mais obstáculos no caminho da escola. Alfabetizouse com 17 anos ao ir para Rio Branco tratar-se das enfermidades múltiplas que teve na infância. E nunca mais parou de estudar.

Numa entrevista que fiz com Marina Silva, perguntei como tinha conseguido se alfabetizar no Mobral tão tarde e, mesmo assim, ter chegado à universidade. “Quando vejo uma fresta eu passo por ela”, me respondeu. A história de Marina com a escola é inspiradora, seu exemplo é soberbo e deve ser exibido aos jovens do Brasil. E, como disse Caetano, ela tem fala elegante, bonita. “A vitória ou a derrota se mede na história”, disse ela, quando saiu do ministério. Agora, que incluiu a questão ambiental e climática no programa de todos os candidatos, e nas decisões do governo, quem discordaria que a frase, além de bonita, foi profética? O que me incomoda nas críticas veladas ou explícitas ao Caetano é, primeiro, que pouca gente se deu ao trabalho de ler toda a entrevista e entender a complexidade da mensagem que ele passou. Segundo, esse clima de endeusamento do presidente. Na carta que ele escreveu ao “Estadão”, Caetano fala desse veto a tudo que não seja “adulação a Lula”. Não existe tema tabu, e é bom ter um Caetano no país para, com sua irreverência, avisar que é proibido proibir. E o aviso dele veio em boa hora. O filme que projeta Lula como o herói sem defeitos vai para as telas exatamente quando ele precisa do mito para transferir votos para a sua candidata.

Outro dia sonhei com dona Canô. Do nada, sonhei com ela. Não a conheço, não tive esse imenso prazer, mas quem não ama dona Canô? Também amo. No sonho, conversava com ela sobre as sapatilhas de princesa que ela ganhou no aniversário de 100 anos. Em entrevista ao GLOBO, ela discordou do Caetano, mas avisou que não puxaria a orelha dele, sendo a única que teria esse direito. “É o jeito dele”, disse.

O jeito dele faz bem. Sacode, faz pensar, provoca, incomoda, fica na memória, divide opiniões. Isso é bom, esteja você de que lado estiver.

Caetano vai ser sempre assim. Por que não?

Com Alvaro Gribel

Denise sumida é o trunfo da oposição

DEU NO JORNAL DO BRASIL/Informe JB

Com potencial de votos e currículo idôneo, a juíza que tornou-se notória por encarar os bicheiros do Rio foi sumir justamente quando não se esperava, às vésperas de uma eleição majoritária, avaliam políticos. Como noticiado na coluna, os líderes do PPS visitaram Denise Frossard há alguns dias.

Saíram do encontro com um silêncio incômodo. Denise levou a disputa do governo para o segundo turno contra Sérgio Cabral (PMDB) em 2006, mas atrapalhou-se num debate da TV, o que foi crucial, segundo marqueteiros. Ela continua submersa mas, para caciques, uma súbita aparição dela ano que vem pode mexer muito com o cenário. Não se tem ideia de seu futuro político – de vereadora a presidente, qualquer notícia de uma candidatura sua é especulação.

Brasil precisa deixar posições claras em diálogo com Irã, diz analista

Para cientista político, governo deve reafirmar a Ahmadinejad sua defesa do Estado de Israel, da democracia e contra armas nucleares.


Agencia Estado

Da BBC Brasil em São Paulo - Ao receber a visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, na próxima segunda-feira, o Brasil deve deixar claras suas posições e sobre o que vai conversar com o líder iraniano, disse à BBC Brasil o cientista político Amaury de Souza.

"Se não ficar claro por que estamos recebendo Ahmadinejad, a posição do Brasil pode ser mal-interpretada", afirma o analista, que é sócio-diretor da MCM Consultores Associados e autor do livro A Agenda Internacional do Brasil: A Política Externa Brasileira de FHC a Lula. "Pode parecer que estamos apoiando o que o presidente do Irã pensa e fala." Segundo Souza, o diálogo com Ahmadinejad deve ser feito "dentro de uma estratégia clara", em que o Brasil reafirme ao presidente iraniano suas posições de defesa do Estado de Israel, da democracia e contra a proliferação nuclear.

Ahmadinejad chega ao Brasil em um momento de grande pressão da comunidade internacional para que o Irã abandone seu programa nuclear, por temor de que o país esteja tentando desenvolver armas secretamente. O governo iraniano nega essas alegações e afirma que seu programa é pacífico.

Souza diz que o Brasil, que tem em sua Constituição a proibição de armas nucleares, não pode aceitar uma situação em que outros países desenvolvam armas nucleares.

"Nossas diferenças com o Irã são diferenças de princípio", afirma.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil - A visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, tem dividido opiniões. Alguns analistas dizem que é ruim para a imagem do Brasil no Exterior. O governo afirma que isso mostra independência e que o melhor caminho é o diálogo. O que o senhor acha?

Amaury de Souza - Não há, em princípio, nenhuma objeção ao fato de o Brasil conversar com todos os países, todos os dirigentes. Mas isso tem de ser feito dentro de uma estratégia que seja clara, não apenas para o público doméstico, mas também internacionalmente. Não se aceita se não deixar claro o que está conversando. E, no caso de Ahmadinejad, não está claro.

O Brasil não tem visivelmente interesses muito vitais em relação ao Irã. Exportamos muito para o Irã, mas ainda assim o volume não se compara com o que temos com outros parceiros. Aumentou, mas ainda é pequeno. E, além disso, podemos continuar a exportar para o Irã sem receber o presidente aqui.

O grande problema é que o senhor Ahmadinejad já definiu certas ações contrárias aos interesses brasileiros. Como a repressão à oposição após as eleições (de junho, em que Ahmadinejad foi reeleito). O Brasil tem uma posição constitucional a favor da democracia. Trata-se de um comportamento ofensivo aos valores (brasileiros). Em segundo lugar, Ahmadinejad vem há tempos defendendo uma linha muito radical em relação a Israel e, particularmente, em relação aos judeus, afirmando que não houve o Holocausto. Novamente, é um comportamento ofensivo aos valores e à tradição da política brasileira. Em primeiro lugar, porque Israel é um velho e forte aliado do Brasil. A criação do Estado de Israel foi fortemente apoiada pelo Brasil.

Temos na cultura brasileira a tradição de completo respeito a qualquer etnia e a qualquer religião. Aqui dentro, nos orgulhamos do fato de que judeus e árabes, ou islâmicos e israelitas, vivem em perfeita harmonia. Disso não abrimos mão. Então, a presença do senhor Ahmadinejad, sem estar claro no que interessa aos interesses brasileiros, significa apenas importar conflitos do Oriente Médio para dentro do Brasil. Nos preocupa também a presença do Irã em outros países da América do Sul, como a Venezuela e a Bolívia.

BBC Brasil - Mas não há um certo exagero e um uso político das críticas à visita de Ahmadinejad? O próprio chanceler da Europa, Javier Solana, já disse que é bom que o Brasil abra um canal de diálogo com o Irã.

Souza - (O presidente dos Estados Unidos, Barack) Obama também disse isso. Não tenho nada contra o Brasil abrir um canal de diálogo, mas tem que ser claro. Vamos abrir um canal de diálogo para que? Se é para conseguir um voto para a entrada do Brasil como membro permanente no Conselho de Segurança (da ONU), não precisa vir o presidente aqui. Simplesmente conversando, como vamos ajudar o diálogo de paz?

BBC Brasil - Que consequências negativas a visita de Ahmadinejad pode trazer ao Brasil?

Souza - Temos uma população em que judeus e muçulmanos vivem em perfeita harmonia e vamos acabar importando para o Brasil um conflito que não é nosso. Ahmadinejad tem um discurso radical que pode ter consequências internas. Em primeiro lugar, como um insulto à comunidade judaica. Não podemos esquecer que brasileiros morreram na Itália lutando para derrotar o nazismo. Isso tem a ver com a memória brasileira, com a memória dos nossos soldados. O nazismo fez o Holocausto. O governo não pode simplesmente fazer o que passa pela cabeça.

BBC Brasil - Quais são os interesses do Irã com essa visita?

Souza - Os interesses são claros. O Irã tem um projeto próprio de poder para o Oriente Médio. Quer se lançar como a principal potência no Oriente Médio. É preciso lembrar que o Irã tem condições muito específicas para reivindicar esse papel. É de longe a cultura com maior tradição de vida política e de liderança dentro do Oriente Médio. No fundo, nada mais é do que o modelo do Império Persa, que antecedeu até mesmo o surgimento do islamismo na península árabe.

Segundo, tem uma força religiosa muito específica. São persas e são todos xiitas, em um Oriente Médio dominado por sunitas. Com o enfraquecimento do Iraque, que sempre foi outro polo de competição política com o Irã, ficou com mais espaço para o seu projeto de se tornar uma potência no Oriente Médio.

Para Ahmadinejad, é importante que possa projetar o prestígio de seu país em outros continentes. Hoje o Irã vive em um quase limbo por causa de sanções da ONU contra seu programa nuclear. Essa é a razão de Ahmadinejad vir ao Brasil, à Bolívia, à Venezuela.

BBC Brasil - Como a visita de Ahmadinejad se encaixa na estratégia do Itamaraty de inserção do Brasil no mundo?

Souza - Existe uma estratégia? Não consigo ver qual é. O Itamaraty quer negociar apoio à entrada no Conselho de Segurança? Acha que é capaz de demover o Irã da ideia do desenvolvimento de seu programa nuclear? Acha que tem um papel em mudar a posição do Irã com relação a Israel? Acha que tem poder para fazer tudo isso? Faço perguntas retóricas porque me parece que se é isso que o Itamaraty quer está um pouco longe da sua capacidade. O Brasil nunca foi um ator de qualquer relevância na política do Oriente Médio. A única vez em que desempenhamos um papel mais ou menos importante no Oriente Médio foi quando apoiamos o Iraque na guerra contra o Irã, com o fornecimento de armas.

A posição brasileira sempre foi de defesa do Estado de Israel, e essa é uma estratégia e uma tradição brasileira, tem lastro, tem princípios atrás dela. Dentro disso, lutamos pela constituição de um Estado palestino. Lutamos pela paz dentro do Oriente Médio, contra a proliferação nuclear. São valores que o Brasil vem defendendo há décadas.

Se Ahmadinejad quer se aproximar do Brasil, tem que saber que nossas posições são essas. Se não, vai parecer aos olhos do mundo que o Brasil está recebendo Ahmadinejad porque as posições que ele defende não são ofensivas para o país. E isso não é verdade. Elas são ofensivas.

BBC Brasil - Em nome do pragmatismo, e com a justificativa da não-interferência em assuntos internos e da importância na manutenção de canais de diálogo, o Brasil tomou atitudes criticadas por grupos de defesa dos direitos humanos. Recebeu políticos acusados de crimes contra os direitos humanos, votou contra sanções duras a governos acusados de crimes contra a humanidade. Não há um limite para esse realismo político?

Souza - O realismo político não pode virar sinônimo de oportunismo. O Brasil tem que ter clareza sobre seus interesses nacionais. A diplomacia só existe para defender os interesses do Brasil. Onde esses interesses estão sendo defendidos, não está claro.

BBC Brasil - Há o risco de o feitiço virar contra o feiticeiro?

Souza - O Brasil é interpretado como estando fazendo um gesto em outra direção. Isso tem consequências internas indesejáveis. O Brasil deveria chamar o Ahmadinejad e dizer: "Houve Holocausto sim". Mostrar que aqui não é a casa da sogra.

BBC Brasil - O Brasil recebeu, no período de duas semanas, as visitas do presidente de Israel, Shimon Peres, do presidente palestino, Mahmoud Abbas, e agora do presidente do Irã. Há alguma chance de o Brasil realmente se tornar um interlocutor importante nas questões do Oriente Médio?

Souza - Acho difícil. Não temos nenhuma tradição de participação em questões no Oriente Médio. E que poder temos? Que fórum podemos comandar para resolver a situação no Oriente Médio? Me parece um pouco exagerada essa pretensão.

É evidente que Israel, ao saber que o presidente do Irã vem ao Brasil, também resolve vir, para deixar claro quais são suas posições. Temos tratado de livre comércio com Israel, mas não com o Irã. Israel é um valioso parceiro para o Brasil. Tem mais que apenas o comércio. Temos um tratado, isso mudo a situação de Israel perante o Brasil.

Se não ficar claro por que estamos recebendo Ahmadinejad, a posição do Brasil pode ser mal-interpretada. Tem consequêncas externas. Pode parecer que estamos apoiando o que o presidente do Irã pensa e fala.

Estamos muito longe do Oriente Médio. É preciso ter certa sobriedade, não achar que estamos no centro do mundo. O Brasil não é um ator tão importante na política mundial. Se compararmos o Brasil não apenas com as grandes potências, mas até mesmo com seus parceiros no Bric (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China), vemos que sua importância é muito relativa. É preciso ter modéstia..

Aécio e Serra encerram semana com projetos sociais

Daniel Galvão - Agencia Estado

SÃO PAULO - Enquanto o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), apresentou um projeto para dar apoio a associações assistenciais do Estado com a diminuição de 25% nas despesas de água e eletricidade, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), assegurou a condição de quilombo a mais uma localidade paulista: o bairro do Reginaldo, em Barra do Turvo, no Vale do Ribeira. Em meio à disputa pela candidatura do PSDB à Presidência, Aécio e Serra, os dois aspirantes do partido à vaga, dedicaram o fim da curta semana do feriado do Dia da Consciência Negra a esses projetos sociais.

O programa Conta com a Gente, lançado ontem, é uma campanha do governo de Minas Gerais e do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas), de acordo com a Imprensa Oficial do Estado. Além da redução do valor das contas de água e energia elétrica, a proposta é movimentar a comunidade e o setor privado para que sejam padrinhos de entidades sociais e ajudem num abatimento ainda maior destas tarifas. Os clientes da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) poderão auxiliar com a autorização de contribuições de qualquer valor superior a R$ 5 mensais nos boletos de água e luz, fazendo a doação para a entidade escolhida.

Já o governador de São Paulo, nas celebrações do Dia da Consciência Negra, reconheceu hoje o status de remanescente de quilombo ao bairro de Barra do Turvo. Segundo o governo do Estado, com a entrega do parecer técnico-científico sobre esta comunidade, sobe para 25 o número de quilombos reconhecidos oficialmente em São Paulo - seis já conseguiram o título de propriedade das terras. O anúncio foi feito nas Feiras de Quilombos em São Paulo e dos Assentamentos Paulistas, que vão até amanhã, no Parque da Água Branca.

Serra também entregou 14 novos veículos para a Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp). "Este feriado é um agradecimento a toda uma contribuição que a comunidade negra tem em nosso desenvolvimento", afirmou. "Isso tem um caráter histórico e, ao mesmo tempo, de suporte social. Há uma boa parte da comunidade negra que reivindica se transformar em comunidade quilombola e o governo hoje reconheceu mais uma", afirmou.

Eleição para presidência do PT-RJ é marcada por conflitos

Três principais candidatos fazem parte da tendência Construindo um Novo Brasil, a antiga Articulação

Alfredo Junqueira, de O Estado de S.Paulo

RIO - Bate-bocas, troca de acusações e até confrontos físicos estão marcando a mais acirrada disputa pela presidência do PT no Rio desde que foi estabelecido o processo de eleições diretas (PED) no partido. O resultado do pleito que acontecerá amanhã é apontado como determinante para definir como a sigla participará na campanha pelo governo do Estado no ano que vem. Cerca de 30 mil militantes devem votar.

O PT está dividido entre os que querem apoiar desde o primeiro turno a campanha pela reeleição do governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) e aqueles que preferem lançar candidato próprio - no caso, o ex-líder estudantil e atual prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias. É provável que sejam necessários dois turnos para decidir quem será o novo presidente do partido no Rio.

Os três principais candidatos fazem parte da tendência Construindo um Novo Brasil (CNB), a antiga Articulação - denominação que foi abolida depois que o escândalo do mensalão abalou o partido em 2005. O deputado federal Luiz Sérgio é o único que defende abertamente a aliança com Cabral. O ex-subsecretário estadual de Direitos Humanos Lourival Casula é o nome apoiado por Lindberg.

A terceira força é o assessor especial da presidência da República Bismarck Alcântara. Na noite de quinta-feira, 19, durante o último debate entre o candidatos, o embate chegou ao ápice. Alguns militantes mais exaltados de Luiz Sérgio e de Casula tiveram que ser contidos para não se agredirem.

"Estou do lado do projeto de alianças elaborado pela direção nacional, com o apoio do presidente Lula. A prioridade é a candidatura da ministra (chefe da Casa Civil) Dilma Rousseff", afirma Luiz Sérgio, que tem o apoio da atual direção do partido no Rio e de algumas das principais lideranças do PT fluminense, como o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, a secretária estadual de Assistência Social, Benedita da Silva, da maior parte das bancadas federal e estadual e de oito dos dez prefeitos da sigla no estado.

"Creio que 80% ou mais dos militantes do partido preferem a candidatura própria", defendeu Casula, argumentando que o apoio ao governador já no primeiro turno também poderia trazer problemas para a candidatura de Dilma.

Além de Cabral e de Lindberg, a pré-candidata do PT à presidência conta com o apoio do ex-governador Anthony Garotinho (PR), que quer voltar ao Palácio Guanabara. "Se a gente não lança candidatura própria e fica desde o início com o Cabral, é capaz do Garotinho ficar irritado e abrir seu palanque para outro candidato. É bom lembrar que o PSDB ainda não tem candidato no Rio", disse Casula, que tem apoio declarado de Lindberg, do ministro da Igualdade Racial, Edson Santos, do deputado federal Carlos Santana, entre outros.

Apesar de ser apontado como terceira força, Bismarck Alcântara está otimista com a possibilidade de ir para o segundo turno. Ele discorda, no entanto, que a escolha do novo presidente seja determinante para definir como o partido disputará as eleições no Rio. "Algumas pessoas colocaram a carroça na frente do bois. O PED é uma eleição interna nossa. Vai escolher o presidente e as chapas do diretório. Depois, os delegados para o congresso é que vão debater como o partido vai participar das eleições do ano que vem", afirmou Alcântara. Ele ressaltou, no entanto, que é favorável à formação de uma frente de partidos de esquerda no Rio e que não considera boa a administração Cabral.

"Poderia ser o melhor governador do Brasil, com todos os recursos que o governo federal está repassando para o Rio. Não é o caso. Além disso, chamar trabalhador de vagabundo e colocar a polícia para bater em professor não é atitude com a qual concordamos", afirmou o assessor especial da presidência, que tem o apoio de Vladimir Palmeira, do líder do PT na Assembleia Legislativa, Rodrigo Neves, e do ex-prefeito de Niterói Godofredo Pinto.

Representante da tendência Mensagem ao Partido, liderada pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, o vereador de Niterói Waldeck Carneiro é um azarão da disputa. Ele foi o único dos candidatos a alertar que o PED não deveria se limitar a uma disputa entre aliança e candidatura própria. "Virou um par ou ímpar entre Cabral e Lindberg. Isso apequenou o debate", afirmou. Além dele, outro candidato menos cotado é o presidente da Câmara Municipal de Mesquita, na Baixada Fluminense, André Taffarel.

Bom dia! -Escola Portátil - Romanceando/Paulinho da Viola