terça-feira, 29 de maio de 2012

Interferência é 'ilegítima', diz decano do Supremo

Celso de Mello afirma que pressão ao STF seria motivo de impeachment

Para ministro, ação de Lula, se confirmada, demonstra grave desconhecimento das instituições

BRASÍLIA - O ministro Celso de Mello, o magistrado mais antigo do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou ontem à Folha que a conduta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, caso seja confirmada, revelaria um "comportamento eticamente censurável, politicamente atrevido e juridicamente ilegítimo".

Segundo o ministro Gilmar Mendes, colega de Celso de Mello no STF, Lula teria sugerido a ele o adiamento do julgamento do mensalão no STF em troca de uma blindagem a Mendes na CPI que investiga atividades do empresário Carlinhos Cachoeira.

Celso de Mello disse ainda que uma iniciativa desse tipo por parte de Lula significaria "lamentável expressão de grave desconhecimento das instituições republicanas e de seu regular funcionamento no âmbito do Estado democrático de direito."

A conversa de Lula com Gilmar Mendes ocorreu em abril, em Brasília, na casa de Nelson Jobim, ex-ministro do governo Lula e do STF. Lula e Jobim, no entanto, negam o teor descrito por Mendes.

"Não houve essa conversa. Foi uma visita de cordialidade", disse Jobim, que garantiu ter ficado ao lado dos dois durante todo o período em que estiveram juntos.

Celso de Mello sempre foi conhecido como um dos mais discretos do Supremo. No domingo, porém, em entrevista ao site da revista "Consultor Jurídico", especializada em assuntos do judiciário, ele já havia manifestado sua contrariedade com o assunto.

"Se (Lula) ainda fosse presidente da República, esse comportamento seria passível de impeachment por configurar infração político-administrativa, em que um chefe de poder tenta interferir em outro", afirmou.

Em outro trecho da entrevista ao site da revista, Mello disse que "tentar interferir dessa maneira em um julgamento do STF é inaceitável e indecoroso. Rompe todos os limites da ética. Seria assim para qualquer cidadão, mas mais grave quando se trata da figura de um presidente da República".

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Ayres Britto garante julgar mensalão

Agência O Globo

BRASÍLIA – No Supremo Tribunal Federal (STF), os ministros estão céticos em relação à suposta pressão feita pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Gilmar Mendes para adiar o julgamento do mensalão. Entre os integrantes da Corte, paira a dúvida de que o diálogo, narrado por Gilmar à última edição da revista Veja, tenha mesmo existido. A interrogação ficou ainda maior quando o ex-ministro do STF, Nelson Jobim, desmentiu o ministro em entrevista à imprensa. Para o ministro Marco Aurélio Mello, o episódio, verdadeiro ou não, “mancha a reputação do tribunal”: “Isso deixa a instituição numa posição ruim. O leigo acha que estamos sujeitos a pressões e sugestões, e não estamos”.

Mas o ministro ainda não tem certeza se a conversa ocorreu ou não: “Ficou no ar um descompasso, porque o ministro Nelson Jobim negou peremptoriamente o teor do encontro. Com quem está a razão? Quem sou eu para dizer com quem está a verdade? Outra coisa que não fechou foi por que só agora veio à tona (o encontro)”, disse, referindo-se à data do encontro, em 26 de abril.

Outros ministros manifestaram reservadamente desconfiança em relação à narrativa de Gilmar. O presidente do tribunal, Carlos Ayres Britto, deu pouca importância para as dúvidas levantadas pelos colegas. Para ele, pouco importa saber se o episódio é verdadeiro ou não. Ele confirmou que, na semana passada, Gilmar contou-lhe a mesma história publicada na revista.

“Nós ministros do STF somos maiores, vacinados e experimentados no enfrentamento de todo tipo de questão. Por isso, não perderemos o foco, o eixo da nossa obrigação de decidir com objetividade, imparcialidade, independência e tecnicalidade. Esse episódio não interfere no nosso dever de julgar a questão como determina a lei: com foco na prova dos autos”, disse o presidente ao Globo

O ministro Carlos Ayres Britto, está aguardando apenas o voto do ministro revisor, Ricardo Lewandowski, para incluir o processo do mensalão na pauta de julgamentos. A expectativa é de que o voto fique pronto em meados de junho e o processo seja julgado em agosto, devido ao recesso da Corte em julho. “Na minha opinião, o que a sociedade quer, é compreensível: o julgamento do processo, sem predisposição seja para condenar seja para absolver. O processo tá maduro para ser julgado”, afirmou no evento.

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

CPI decidirá hoje sobre governadores

A CPI do Cachoeira deverá votar se convoca os governadores Marconi Perillo (PSDB-GO), Agnelo Queiroz (PT-DF) e Sérgio Cabral (PMDB-RJ). A tendência é que Perillo tenha de explicar a venda de uma casa, e Cabral, liberado de falar sobre a amizade com Fernando Cavendish, da Delta. Será votada a quebra de sigilo da empreiteira. O senador Demóstenes Torres falará no Conselho de Ética.

CPI deve decidir hoje sobre governadores

Presidente da comissão quer pôr em análise convocação de Perillo, Agnello e Cabral, além de quebra de sigilo da Delta

Chico de Gois

BRASÍLIA. O presidente da CPMI do Cachoeira, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), disse que na sessão administrativa de hoje pretende colocar em votação mais de cem requerimentos, incluindo os que convocam governadores a prestar depoimento, além daquele que quebra o sigilo bancário da construtora Delta em nível nacional. De acordo com o presidente da CPI, as convocações dos governadores Marconi Perillo (PSDB-GO), Agnelo Queiroz (PT-DF) e Sérgio Cabral (PMDB-RJ) devem ser votadas separadamente. Se essa estratégia se concretizar, a tendência é que Cabral não seja chamado a dar explicações sobre sua amizade com o ex-dono da Delta Fernando Cavendish.

- Temos dez requerimentos de precedência, apreciados obrigatoriamente antes dos demais. Pode ser que haja acordo entre os partidos para definir quais as prioridades - disse Vital do Rêgo. - Gostaria de votar todos os requerimentos amanhã (hoje). Depende do colegiado.

A convocação dos governadores é um tema que divide a CPMI. Ontem, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) declarou que, para ele, a comissão deveria chamar Perillo e Agnelo. Sampaio disse que não há, até o momento, nenhuma ligação de Cabral com Cachoeira.

- Não tem sentido votar o requerimento para chamar um só. Até agora, não vi referência de Cabral com o esquema de Cachoeira. Apesar da amizade com o dono da Delta, não dá para inseri-lo no contexto do grupo criminoso. Já em relação a Agnelo e Perillo, os dois foram citados nas gravações. Precisamos dar a eles o direito de resposta - afirmou.

O líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR), defendeu que a convocação dos governadores seja votada em bloco. E dá como certa a aprovação do requerimento sobre Perillo.

O presidente da CPI declarou que vai votar hoje a escolha de um vice-presidente. E não adianou quem pretende indicar. Vital não se envolveu na polêmica reunião entre o ex-presidente Lula e o ministro do STF Gilmar Mendes. Mas, pela declaração, mostrou estar ao lado de Lula - um cartaz em seu gabinete, dos tempos de campanha, deixa isso claro. Diz a propaganda eleitoral: "Vital, o senador de Lula".
- Em uma conversa de três em que dois negam, não posso me manifestar - disse ele, referindo-se ao ex-ministro Nelson Jobim, que contradisse Gilmar e negou que Lula tenha sugerido que o STF não julgasse o mensalão neste ano.

Para Vital do Rêgo, ninguém controla a CPMI.

- Ninguém controla a CPMI. Só eu. Na condição de presidente, tento ordenar os trabalhos. Todas as histórias que desviam o foco da CPMI, não nos furtamos a discuti-las. A mim me cabe colocá-la no foco - disse, rindo.

Álvaro Dias, que discursou criticando Lula, declarou o caso para a CPMI.

- Não é oportuno levar esse assunto para a CPMI porque isso desviaria o foco.

FONTE: O GLOBO

Marisa Monte e Argemiro - histórico da Portela

Fatos e versões:: Merval Pereira

Não são apenas as versões do encontro do ex-presidente Lula com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, no escritório do ex-ministro do Supremo e do governo Lula Nelson Jobim que estão desencontradas. O próprio encontro em si não poderia ter acontecido se vivêssemos em um país sério.

Se respeitassem a liturgia dos respectivos cargos, o advogado Jobim não poderia ter aceitado servir de intermediário de encontro de Lula com Gilmar Mendes; o ministro do STF deveria ter recusado o encontro em tais circunstâncias; e, sobretudo, o ex-presidente, se se desse ao respeito, não poderia nem pensar em pressionar um ministro do Supremo.

Pelos desmentidos desencontrados e por algumas coincidências do relato de Gilmar Mendes com fatos da vida real, está mais que claro que houve o encontro e que o tema central foi mesmo o julgamento do mensalão, uma atitude que poderia render a Lula um processo de impeachment se ainda fosse presidente da República, como bem lembrou outro ministro do Supremo, Celso de Mello.

Esta seria, por sinal, a segunda vez em que o mensalão levaria Lula à beira do impeachment. A primeira, pelo próprio fato em si, que o levou a pedir desculpas ao povo brasileiro e dizer-se traído, numa admissão pública da gravidade do que ocorrera. Agora, na tentativa desesperada de adiar o julgamento do Supremo.

O advogado Jobim não conseguiu sair-se bem da missão de desmentir o indesmentível. Primeiro disse pessoalmente a Jorge Bastos Moreno que a visita acontecera por coincidência, pois Lula fora visitá-lo e lá por acaso estava Gilmar Mendes, que de vez em quando aparece no escritório para tocar um trabalho jurídico com Jobim.

Como Moreno de bobo não tem nada, registrou o desmentido como sendo uma confirmação, pois não é possível que, sabendo três dias antes que Lula lá estaria, não tivesse desmarcado qualquer outra reunião em seu escritório.

E, mesmo que Gilmar Mendes aparecesse por lá sem avisar, caberia a Jobim evitar constrangimento aos dois.

A terceira versão de Jobim - antes dera outra à revista "Veja", alegando que não ouvira tudo o que foi conversado - foi, afinal, a de que realmente convidara Gilmar Mendes a se encontrar com o ex-presidente para uma conversa em seu escritório, por iniciativa de Lula, mas negando que a conversa tivesse girado sobre o mensalão, que teria entrado nela "de passagem" por seu intermédio.

O esforço de Jobim para proteger o ex-presidente Lula é tamanho que ele não se incomoda de se pôr em má situação.

Ora, se fosse mesmo verdadeira, esta versão colocaria Jobim não apenas como intermediário, mas também como participante ativo da pressão sobre um seu ex-colega de STF.

Ao levantar o assunto mensalão, Jobim estaria sendo no mínimo inconveniente, para não dizer temerário.

O próprio ex-presidente, aliás, na nota oficial do Instituto Lula em que se diz "indignado" e nega que tenha pressionado Gilmar Mendes, fala do encontro como tendo sido ocasional: "No dia 26 de abril, o ex-presidente Lula visitou o ex-ministro Nelson Jobim em seu escritório, onde também se encontrava o ministro Gilmar Mendes."

Lula, como se vê, mantém a versão do encontro ocasional quando Jobim já evoluíra para admitir que convidara Mendes para o encontro a pedido dele.

Gilmar Mendes teria de ter uma imaginação prodigiosa para inventar tantos diálogos e situações, e bastam duas ou três dessas situações relatadas por ele para confirmar que tudo se passou como diz.

O ex-presidente Lula teria dito a Gilmar Mendes que pediria ao jurista Celso Antonio Bandeira de Mello para conversar com o presidente do Supremo, Ayres Britto, de quem é uma espécie de guru, responsável por sua indicação ao STF por Lula. O presidente do STF, embora não creia na intenção maliciosa do ex-presidente da República, recordou que durante almoço no Palácio da Alvorada, a convite da presidente Dilma Rousseff, Lula perguntou-lhe sobre Bandeira de Mello, afirmando que, "qualquer dia desses", os três tomariam um vinho juntos.

Lula ainda se referiu a José Dias Toffoli, afirmando que lhe dissera que ele "tem que participar do julgamento". Ex-advogado do PT, e tendo uma namorada que atuou em defesa de mensaleiros, inclusive o ex-ministro José Dirceu, há expectativa de que Toffoli se considere impedido de participar do julgamento do mensalão.

O que Lula teria dito a ele fora antecipado pelo prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, um dos políticos mais próximos de Lula, que definiu recentemente em declaração pública sobre a possibilidade de Toffoli se sentir impedido: "Ele não tem esse direito." Recentemente, Toffoli foi criticado ao visitar Lula no Hospital Sírio e Libanês em São Paulo, com quem conversou longamente. Vê-se agora que as críticas tinham razão de ser.

Por fim, o advogado Nelson Jobim, em uma das várias entrevistas que tem concedido desde que o encontro foi revelado por "Veja", disse que se admirava muito de que só agora, passado um mês do encontro, Gilmar Mendes se revele revoltado com o teor da conversa.

Ou Jobim fez um comentário leviano, sem ter se inteirado das informações, ou está tentando apenas confundir o cenário. O fato foi revelado por Gilmar Mendes ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel; ao advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, e ao presidente do STF, Ayres Britto, antes de sair publicado na "Veja".

Portanto, o ministro Gilmar Mendes apenas confirmou o que a reportagem de "Veja" soube por outros caminhos em Brasília. Como dizia o ex-ministro Golbery do Couto e Silva, segredo só guarda quem não tem. O melhor amigo sempre tem um melhor amigo, e todas as histórias acabam circulando.

O próprio Lula relatou seu encontro a várias pessoas. Por fim, a nota oficial do Instituto Lula tem pelo menos uma inverdade, quando afirma que Lula nunca tentou interferir nas decisões dos ministros do Supremo indicados por ele.

Houve pelo menos uma ocasião em que ele procurou pessoalmente um ministro, e foi rechaçado com elegância. Essa história é conhecida por vários ministros do STF.

Só pode ter sido o fuso horário. Na coluna de domingo, escrevi que a Guerra do Ópio ocorreu "no século passado". Uma frase também ficou fora do texto, complicando mais ainda seu entendimento.

Corrigi no mesmo dia no blog. A frase correta é a seguinte: "(...) esse processo de globalização tem sido bem recebido pela população chinesa, e começou nos anos 40 do século XIX, depois da Guerra do Ópio, e se agudizou depois da guerra com o Japão, quando ocorreu um grande debate no país sobre como entrar na modernidade".

FONTE: O GLOBO

"STF não é sindicato":: Eliane Cantanhêde

Nem Lula, nem Nelson Jobim, nem Gilmar Mendes desmentem que houve um encontro entre eles, no dia citado pela "Veja" e no escritório de Jobim. Esses são os fatos, o resto são versões e especulações. A elas.

Jobim foi ministro de Lula e é (pelo menos era até sexta-feira passada) amigo pessoal de Gilmar. Logo, um mediador perfeito para uma conversa espinhosa entre os dois, dessas que jamais podem sair na imprensa, mas vivem saindo. Seria muita cara de pau dizer que o encontro foi mera coincidência.

Gilmar vive às turras com o PT de Lula, e Lula não gosta de ninguém que não o endeuse. Gilmar e Lula não marcariam de se encontrar no escritório de Jobim só para bater um papo, tomar uma cerveja e comer amendoim. Nem para falar de flores.

Já que tratamos aqui de especulações, vamos pensar: falaram, então, do clima seco de Brasília? Da Rio+20? Do Corinthians na Libertadores? Do sucesso de Dilma? Ou, ao contrário, do novo "pibinho" de menos de 3% que se anuncia para 2012?

Afora o Corinthians, não consta que Lula esteja dando muita bola para nenhuma dessas coisas. Dizem -não os adversários, mas os fiéis seguidores- que ele só age pensando naquilo: eleição de São Paulo, CPI do Cachoeira e... mensalão. Questões, aliás, bastante intrincadas entre elas.

Logo, "se non é vero, é bene trovato" que Lula ande à cata de ministros do Supremo para adiar o julgamento do mensalão em ano eleitoral e tente usar a CPI como moeda de troca. Como também soa quase natural, até pela personalidade, Gilmar botar a boca no trombone.

Tudo faz tanto sentido que os demais ministros compraram rapidamente a história e reagiram com firmeza. O decano Celso de Mello acusa ingerência entre Poderes e Marco Aurélio Mello dá um basta: "O Supremo não é sindicato!".

Pode não ser, mas há quem trate o país como um grande sindicato.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Criação coletiva:: Dora Kramer

Não, o ex-presidente Lula não perdeu o juízo como sugere em princípio o relato da pressão explícita sobre ministros do Supremo Tribunal Federal para influir no julgamento do mensalão, em particular da conversa com o ministro Gilmar Mendes eivada de impropriedades por parte de todas as partes.

Lula não está fora de si. Está, isto sim, cada vez mais senhor de si. Investido no figurino do personagem autorizado a desrespeitar tudo e todos no cumprimento de suas vontades.

E por que o faz? Porque sente que pode. E pode mesmo porque deixam que faça. A exacerbação desse rude atrevimento é fruto de criação coletiva e não surgiu da noite para o dia. A obra vem sendo construída gradativamente no terreno da permissividade geral onde se assentam fatores diversos e interesses múltiplos, cuja conjugação conferiu a Lula o diploma de inimputável no qual ele se encontra em pleno usufruto.

Nesse último e bastante assombroso caso, produto direto da condescendência institucional – para dizer de modo leve – de dois ex-presidentes da Corte guardiã da Constituição: o advogado Nelson Jobim, que convidou, e o ministro Gilmar Mendes, que aceitou ir ao encontro do ex-presidente.

Nenhum dos dois dispõe da prerrogativa da inocência. Podiam até não imaginar que Lula chegaria ao ponto da desfaçatez extrema de explicitar a intenção de influir no processo, aconselhando o tribunal a adiar o julgamento e ainda insinuar oferta de "proteção" ao ministro.
Inverossímil é que não desconfiassem da motivação do ex-presidente que anunciou disposição de se dedicar diuturnamente ao desmonte da "farsa do mensalão" e provou isso ao alimentar a criação de uma comissão parlamentar de inquérito no intuito de embaralhar as cartas e embananar o jogo.

Mas, apenas para raciocinar, aceitemos o pressuposto da ingenuidade. Compremos a versão do encontro entre amigos e consideremos natural tanto o convite quanto a anuência. À primeira questão posta – "é inconveniente julgar esse processo agora" –, à primeira pergunta feita pelo ex-presidente – "não tem como adiar o julgamento?" –, se o ministro Gilmar Mendes tivesse agradecido ao convite e polidamente se retirado, não teria ouvido o que viria a seguir, segundo o relato que fez depois ao presidente do STF, ao procurador-geral da República e ao advogado-geral da União.

Narrativa esta que se pressupõe verdadeira. Se aceitarmos a versão do desmentido apresentada por Nelson Jobim, teremos de aceitar a existência de um caluniador com assento no Supremo Tribunal Federal e de esperar contra ele algum tipo de interpelação.


Tivesse dado por encerrado o encontro logo de início, o ministro Gilmar Mendes não teria ficado "perplexo com o comportamento e as insinuações despropositadas do presidente Lula". Não teria ouvido alusões ao seu possível envolvimento com o esquema Cachoeira – razão da oferta de proteção na CPMI –, não teria escutado o ex-presidente chamar o ministro Joaquim Barbosa de "complexado". Não teria testemunhado Lula desqualificar ao mesmo tempo o ex-ministro Sepúlveda Pertence e a ministra Cármen Lúcia ao sugerir a existência de uma cadeia de comando com a frase "vou falar para o Pertence cuidar dela".

É verdade que se tivesse ido embora o ministro Gilmar Mendes teria poupado a si um enorme constrangimento. Mas não daria ao país a oportunidade de saber que o ex-presidente tem acesso a informações de um inquérito na data da conversa (26 de abril) ainda protegido por sigilo de Justiça.

Não saberíamos que Lula diz orientar a conduta do ministro Dias Toffoli – "eu falei que ele tem que participar do julgamento"– e que afirma acompanhar de perto os passos do ministro revisor do processo do mensalão, Ricardo Lewandowski – "ele só iria apresentar o relatório no semestre que vem".

Em suma, ninguém fica bem nessa história, mas Lula fica pior ao deixar que a soberba e o ressentimento o façam porta-voz do pior combate: a desqualificação das instituições. Entre elas o papel de ex-presidente da República.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

A armadilha do mensalão:: Raymundo Costa

Lula deixou a Presidência da República bem avaliado como nenhum outro presidente antes dele, tanto que elegeu a sucessora até como certa facilidade. O sucesso eleitoral, aparentemente, teve um efeito perverso sobre o ex-presidente. Lula é popular, acertou nas medidas contra a crise de 2008 e praticamente nomeou seu sucessor no Palácio do Planalto. Mas nada disso assegura ao ex-presidente o dom da infalibilidade, como parecem acreditar parte do PT, de seus auxiliares no Instituto Lula e ele mesmo, a julgar por seus últimos atos.

Lula abusa de seu prestígio, segundo se avalia entre os amigos mais próximos, aqueles que não consideram dogma cada afirmativa do ex-presidente. Já há algum tempo Lula tem "exorbitado" e tomado decisões sem se importar com opiniões saídas do seu entorno. Pouca arbitragem, muito arbítrio. Como acertou antes e é popular, tem crédito junto à banca. Mas isso não quer dizer que esteja sempre certo, como demonstram as principais decisões tomadas por ele desde que deixou o Palácio do Planalto.

A última foi a iniciativa de conversar reservadamente com ministro Gilmar Mendes, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), no escritório do ex-ministro da Defesa Nelson Jobim. Especialmente se foi para tratar, de fato, do adiamento do julgamento processo do mensalão, previsto para começar em agosto e se estender durante parte do período eleitoral.

PT reclama que Lula "exorbitou" no caso Gilmar Mendes

Pouco importa se a iniciativa da conversa foi de Lula - como publicado - ou de Gilmar, como sugerem os petistas (a ideia de que o encontro foi casual ofende a inteligência alheia). O PT e o ministro do Supremo têm um longo contencioso que não recomendava nenhum tipo de conversa secreta neste momento, quando o picadeiro que se arma em Brasília é para abrigar o espetáculo do julgamento do mensalão - seja em casas alugadas por acusados, pelo trânsito frenético de advogados autorizados no processo ou pelas insinuações que jorram aos borbotões da CPI do Cachoeira e excitam a imaginação dos mais crédulos.

Gilmar nunca foi propriamente um entusiasta dos governos do PT, e chegou a ser acusado de pedir vistas a um processo, nas eleições de 2010, a pedido do candidato tucano José Serra. Em geral, diverge por convicção. É até difícil imaginar a razão que o teria levado a relatar a conversa com Lula ao presidente do Supremo, Ayres Brito, ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel e ao advogado-geral da União, Luiz Inácio Lucena Adams, se não fosse para se preservar.

Não há nada ilegal no fato de Lula e Mendes terem uma conversa reservada. Mesmo que nessa conversa tenha-se abordado o a conveniência de adiar o julgamento do processo do mensalão, já que é real a possibilidade de o ambiente de disputa eleitoral, no segundo semestre, de alguma maneira, contaminar a votação. O momento (da conversa) é que é inconveniente. O que de maneira nenhuma pode ser considerado admissível é tentativa de influenciar, mediante outros pretextos que não o bom argumento, a decisão de um juiz da suprema corte, como Gilmar declarou. O que falta em relação à conversa entre Lula e Mendes é clareza, transparência. Uma coisa é certa: os dois achavam que tinham algo a dizer ou ouvir do outro, ou simplesmente queriam saber o que o outro tinha a falar, tanto que resolveram se encontrar.

Na sexta-feira 25, havia uma expectativa favorável ao adiamento do julgamento, entre alguns dos 38 acusados remanescentes do mensalão (da "Quadrilha dos 40" denunciados pelo Ministério Público Federal, um morreu e outro fez acordo). Ontem, havia desolação. A revelação da conversa entre Lula e Gilmar Mendes provocou a reversão de sentimento dos mais esperançosos. Independentemente de Lula, advogados haviam registrado impressão de que havia, entre ministros do Supremo, inquietação quanto ao fato de o julgamento do processo do mensalão ocorrer às vésperas do período eleitoral. Agora, o STF parece sem outra saída a não ser julgar logo, como previsto.

Uma decisão perigosa, não só por misturar Justiça e política. José Dirceu, apontado pela Procuradoria Geral da República como sendo o "chefe da quadrilha" dos 40, tem repetido a quem quiser ouvir que não quer "um julgamento que seja político", quer "um julgamento técnico". Segundo Dirceu, um julgamento político vai "deslegitimizar" a decisão do STF. Por outro lado, é lamentável que o PT e dirigentes da CPI continuem insinuando que "surgirão fatos" na comissão de inquérito capaz de abalar o Judiciário. Ou a CPI abre o jogo, ou para de fazer sugestões sobre um inquérito cujo teor é desconhecido até dos acusados.

O envolvimento de Lula numa suposta tentativa de adiar o julgamento é mais uma das "exorbitâncias" apontadas no PT e, com mais loquacidade, entre os aliados. Outra é a forma como retirou a senadora Marta Suplicy da disputa a prefeito de São Paulo. A ex-prefeita, nome mais bem cotado no PT, segundo as pesquisas, foi avisada de que estava fora por meio de uma auxiliar do ex-presidente da República. Ela não gostou, fingiu que aceitou o "dedaço" de Lula e agora não perde oportunidade para boicotar a pré-campanha de Fernando Haddad, o nome escolhido pelo ex-presidente.

Haddad pode ganhar a eleição, o que certamente os áulicos do ex-presidente dirão que é mais uma prova de sua clarividência e genialidade político-eleitoral. O problema não é esse, para quem tem que carregar um candidato pesado e tentar jogá-lo no segundo turno. O problema é que Lula não ouviu ninguém para indicá-lo.

Lula também ajudou na criação da CPI do Cachoeira. Estimulou deputados que o procuraram, para saber o que fazer, a assinar o requerimento. A CPI então parecia conveniente ao PT, embaralhava o julgamento do mensalão, levava o senador Demóstenes Torres ao patíbulo e ainda criava dificuldades políticas para o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), desafeto do ex-presidente da República. Bom demais para ser verdade. Coisa de amador.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Movido a soberba e ira, Lula perde o faro político:: Josias de Souza

Sete anos se passaram desde que o “mensalão” foi introduzido no léxico da política nacional. E Lula ainda não conseguiu digeri-lo. Com o vocábulo atravessado na traquéia, o ex-presidente enxergou no Cachoeiragate uma oportunidade para regurgitá-lo. Idealizou uma CPI e passou a transitar entre dois dos sete vícios capitais: a soberba e a ira.

Com a alma em desalinho e o organismo sob efeitos de medicamentos, Lula perdeu momentaneamente sua principal habilidade: o faro político. Às vésperas do julgamento do escândalo, passou a atirar a esmo. No encontro com o ministro Gilmar Mendes, um de seus alvos, cometeu o erro supremo. Deu um tiro no pé.

Por formalidade regimental, o requerimento de convocação da CPI elegeu como objeto de investigação a ação da quadrilha de Carlinhos Cachoeira junto a agentes públicos e privados. Para Lula, o bicheiro é mera escada. Escalando-o, pretende chegar à jugular dos que, segundo crê, conspiraram contra sua presidência.

No papel, a CPI é do Cachoeira. Na cabeça de Lula, o nome da comissão é outro: CPI da Vingança. Numa fase em que o raciocínio brota-lhe do fígado, Lula vislumbrou na iniciativa um palco multiuso. Num mesmo patíbulo, faria sangrar o ex-algoz Demóstenes Torres, a revista Veja e o governador tucano Marconi Perillo.

Do sangue dos antagonistas, Lula pretendeu extrair o sumo que engrossaria seu objetivo primordial: a desmontagem do que chama de “farsa do mensalão.” Nesse contexto, dois personagens foram à alça de mira como alvos convenientes: o procurador-geral da República Roberto Gurgel e o ministro Gilmar Mendes. Um prepara-se para exercer o papel de acusador dos mensaleiros. Outro, de julgador.

Lula encontrou-se com Gilmar em 26 de abril. Dias antes, em conversas com amigos petistas, destilava os rancores que nutre pelo personagem. Em notícia veiculada aqui, em 27 de abril, informou-se sobre os pensamentos que embalavam a mente de Lula nos dias que antecederam a conversa no escritório do ex-ministro Nelson Jobim.

Nesse período, Lula cobrava do petismo que avançasse sobre a Veja. Dizia estar convencido de que a revista associara-se ao aparato de espionagem de Carlinhos Cachoeira para produzir reportagens contra o governo dele. E recordava uma passagem protagonizada por Gilmar Mendes.

Citava o célebre grampo que captara conversa de Gilmar com o senador Demóstenes Torres. Atribuída à Abin, a escuta clandestina levara Lula a afastar da direção da agência de inteligência o delegado federal Paulo Lacerda. Ironicamente, a cabeça de Lacerda descera à bandeja após reunião intermediada por Nelson Jobim.

Então ministro da Defesa, Jobim, amigo de Gilmar desde os tempos do governo FHC, levara-o ao Planalto. Recebido no gabinete presidencial, Gilmar referira-se à bisbilhotagem de seu telefonema com Demóstenes como evidência de que o aparato de segurança do governo fugira ao controle. Caminhava-se, segundo ele, para “um Estado policial”.

Pois bem. O Lula dos dias anteriores à nova reunião intermediada por Jobim recordava: embora Demóstenes e Gilmar tivessem confirmado o conteúdo do diálogo, o áudio do grampo jamais apareceu. Algo que o levou a difundir a suspeita de que a escuta fora parte de uma trama da “turma do Cachoeira”. Inconformava-se com o fato de ter sacrificado Lacerda.

Foi contra esse pano de fundo envenenado que Lula pediu a Jobim que agendasse o encontro do mês passado. Revelado o teor da conversa, Jobim tentou vender a reunião como coisa fortuita. Nessa versão, Lula fora ao escritório para matar as saudades do seu ex-ministro e, por uma dessas coincidências da vida, Gilmar encontrava-se no recinto. Uma lorota que, por falta de nexo, Jobim absteve-se de reiterar.

Em privado, Gilmar revela que manifestou o desejo de avistar-se com Lula. Para quê? Não deixa claro. Informado, Lula achou que o encontro lhe seria útil. Como? Sabe Deus. Ou o diabo. Na noite passada, em conversa com o blog, um amigo petista do ex-soberano classificou a iniciativa como “um erro grosseiro.” Por quê?

“O Lula estava armado contra o Gilmar. A chance de uma conversa como essa acabar bem era zero. Deu no que deu: uma guerra de versões. Gilmar diz que Lula quis adiar o julgamento do mensalão oferecendo em troca proteção na CPI. Jobim desmente, mas não é categórico. O Lula também desmente, mas ninguém acredita.”

De fato, o desmentido de Lula foi recebido como algo incompatível com o tamanho da encrenca. Demorou 48 horas. Veio por meio de nota, não de viva voz. Confirmou o encontro. Chamou de “inverídica” a versão de Veja. Mas não trouxe à luz uma versão substituta capaz de traduzir o alegado “sentimento de indignação.”

Em público, Gilmar deu entrevistas reafirmando, em essência, o que dissera à revista. Longe dos refletores, adicionou detalhes que levam os interlocutores a dar-lhe crédito. Contou, por exemplo, que Lula parecia sob o efeito de remédios. Fraco, tropeçou na saída.

O ministro alega que só veiculou o que se passou entre as quatro paredes do escritório de Jobim porque chegou-lhe aos ouvidos a informação de que Lula continuou a tratá-lo como matéria prima de CPI. Quer dizer: deu de ombros para o pedaço do diálogo em que Gilmar lhe disse que suas relações com Demóstenes não ultrapassaram o rubicão da ética. Abespinhado, o ministro levou os lábios ao trombone.

Gilmar não ficou bem posto no enredo. Às portas do julgamento do mensalão, a reunião com um personagem que chama o escândalo de “farsa” pareceu, no mínimo, inadequada. No máximo, um despautério. Lula saiu do episódio em posição ainda mais constrangedora. Ficou entendido que, para embaralhar o julgamento do Supremo, está disposto até a deslustrar sua biografia.

Nesta segunda (28), o advogado de um dos réus da ação penal que Lula gostaria de postergar disse que o lero-lero radioativo produziu o oposto do pretendido. Acha que o STF ganhou razões adicionais para pisar no acelerador. Pior: a hipótese de condenação foi potencializada.

Nesta terça (29), a CPI do Cachoeira –ou comissão da Vingança— realiza mais uma de suas sessões administrativas. Vão a voto, entre outros requerimentos, os que pedem a convocação dos governadores de Goiás, Marconi Perillo (PSDB); do DF, Agnelo Queiroz (PT); e do Rio, Sérgio Cabral (PMDB).

Em reuniões que entraram pela madrugada, o PT articulava com as infantarias aliadas a aprovação do requerimento de Perillo e a rejeição dos de Agnelo e Cabral. São grandes as chances de Lula degustar o infortúnio do governador tucano. Um personagem que, em 2005, ecoou Roberto Jefferson. Numa fase em que Lula dizia ‘eu não sabia’, Perillo foi ao noticiário para informar que sabia, sim. Ele mesmo cuidara de avisar.

Ainda que PT e Cia. arrastem Perillo para o banco da CPI, como parece provável, a felicidade de Lula será fugaz. O depoimento constrangerá o governador e o PSDB, mas não terá o condão de influenciar os julgadores do STF. Ali, tende a prevalecer a verdade dos autos.

O Evangelho de São João ajuda a entender o que se passa com Lula. Diante de Jesus, Pôncio Pilatos indaga: “Tu és o reu dos judeus?” Jesus responde: “Meu reino não é desse mundo…” Pilatos insiste: “Então, tu és rei?” E Jesus: “Tu o dizes: eu sou rei. Por isso nasci e para isso vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz.” Pilatos replica: “Que é a verdade?” (João, 18, 33-38).

Movido a soberba e tratado pela maioria do PT como um cristo da política, Lula esforça-se para reescrever a história do mensalão. Trombeteia que foi obra da quadrilha de Cachoeira o vídeo que expôs o pagamento de propina a um diretor dos Correios, levando Roberto Jefferson a dar com a língua nos dentes.

Com a visão obscurecida pela ira, Lula esquece de considerar que a propina dos Correios existiu, assim como as revelações que se sucederam a ela: a parceria Delúbio Soares-Marcos Valério, as arcas “não contabilizadas” do PT, os empréstimos de fancaria, os saques na boca do caixa e um infindável etcétera.

No instante em que tiverem de responder à pergunta de Pilatos –“Que é a verdade”— os ministros do Supremo, inclusive os indicados pelo pseudomessias, olharão não para a CPI, mas para os dados recolhidos pela Polícia Federal do ex-Lula e reunidos pela Procurador-Geral Antonio Fernando de Souza, nomeado e renomeado pelo mesmo ex-presidente. Ali está a verdade redentora, não no evangelho segundo Lula.

FONTE: BLOG DO JOSIAS

A escolha de Dilma:: Arnaldo Jabor

A presidente está dividida entre Lula e Sarney

É impossível que Dilma não esteja irritada com Lula. Assim que ele melhorou do tratamento, começou a falar e a criar difíceis factoides para ela resolver. Lula talvez esteja zonzo com a doença que tem de enfrentar, traumatizado com o choque de se descobrir "mortal", frágil como todos nós, depois da glória de ter governado sob beijos do povo. Essa doença poderia ter-lhe emprestado uma sobriedade "democrática" maior, mas parece que vivencia a saída do exílio no Sírio Libanês quase como uma ressurreição, querendo se meter em tudo, como se fosse o chefe de um governo paralelo ao de sua "protegida".

Lula nasceu de uma conjunção astral raríssima no ABC e foi muito "moderno" quando surgiu, criando um sensato sindicalismo de resultados, acreditando em pressão e negociação com patrões. É natural que se tenha deslumbrado com as multidões de operários a seus pés nos comícios, mas até hoje se considera "especial", um messias metalúrgico que deve comandar um país "sem rumo". Lula acredita mesmo em seu Ibope.

Depois da fundação do PT, um enxame de "soviéticos" desempregados o transformou em um líder operário a ser "aperfeiçoado" (e controlado) teoricamente para que eles chegassem um dia ao poder, numa estratégia "gramsciana" vulgar. E chegaram em 2002, até o vexame do mensalão que quase queimou o filme de Lula.

E, no entanto, ele devia agradecer ao Roberto Jefferson por tê-lo livrado dos comunas tutelares, pois aí ele pôde encetar sua jornada para as estrelas, sua viagem em direção ao show midiático que encenou nos quatro anos seguintes, pensando apenas em sua imagem, enquanto Dilma trabalhava como uma "boia-fria", varrendo o Planalto e apagando a luz ao fim do expediente. Lula nos deixou de herança a maldição de um PAC eleitoreiro que só realizou 17% das metas, criando a ideologia do "tudo pode desde que seja bom para eu governar", abrindo a porta para as alianças sujas que criaram a cachoeira de corrupção que jorra sobre nós. Os comentaristas ficam desorientados diante do nada que os petistas criaram com o apoio do povo analfabeto. Os conceitos críticos como "razão, democracia, respeito à lei, ética" ficaram ridículos, insuficientes raciocínios diante do cinismo impune e da paralisia política.

Agora, Lula só faz jogar batatas quentes no colo de Dilma, que tem de se virar ("Afinal, ela não é uma "bichinha" tinhosa?", como ele disse na campanha?). Assim, ele deu força à CPI oportunista para se vingar do PSDB, dos jornais e revistas, do Procurador Gurgel, para melar o julgamento do mensalão, arrasar o Serra em São Paulo, com o Haddad do Enem.

"Dane-se..." - ele deve ter pensado - "se for um tiro no pé, será no pé da Dilma! Azar dela; importante é eu recuperar meu poder, deixar a barba crescer e voltar em 2014..."

Dilma deve estar fula com o dilema que Lula lhe deixou - governar o país entre o PT e o Sarney. E isso justamente agora, quando o perigo econômico se agrava, com a produção industrial caindo a níveis de 20 anos atrás e o país dependente da exportação de matéria-prima, à beira de uma explosão da "bolha", como alertam economistas daqui e de fora em publicações como o "Foreign Affairs" e a revista "The Economist".

Lula nos legou uma presidente dividida entre o liberalismo e o Estado-pai, tendo de dar uma no cravo outra na ferradura. E, além disso, ficou irritado, porque sua afilhada tem vida própria, muito mais coragem que ele e reconhece a importância de fatos como o Plano Real que ele surripiou para si; ela sabe da infernal "faxina" que tem de fazer, para limpar os detritos que ele deixou.

Dilma tenta resolver esse impasse entre a modernização e o atraso, como foi no veto que fez ao Código Florestal, mesmo desagradando a aliados ruralistas. Dilma é obrigada a governar nas brechas do possível, como foi no caso dos juros dos bancos, pois não consegue fazer reformas mais abrangentes e isso faz aparecer seu lado autoritário, impaciente, impondo obrigações, aos capitalistas "canalhas". Mas ela sabe também que capitalismo é um modo de produção e não regime político das "elite"; ela sabe que, no caso brasileiro, é a única coisa que pode arrebentar o "bunker" patrimonialista secular. Assim dividido, o governo atual se contenta com o autoengano, com a ilusão de que o Brasil está pronto para "resistir" a uma crise mundial. Mantega diz que somos fortes, e Dilma nos garante que estamos preparados em cem ou 200%. Mas, só resistir? E os planos de reformas que não conseguem passar na estreita porta entre o PT e o PMDB?

Agora, Lula acaba de criar uma nova crise para Dilma. Vendo que o plano da CPI não rolou como ele queria e que até pode aporrinhar o Governo Central com respingos da Delta, Lula tentou mudar a opinião dos ministros do Supremo Tribunal Federal, como noticiou a última revista "Veja", em uma entrevista com o ministro Gilmar Mendes, que afirma que Lula cobrou dele e de outros ministros o adiamento do início do julgamento do mensalão, o que significaria a prescrição de muitos dos crimes. É um fato gravíssimo que vai dar pano para mangas. Será que, inconscientemente, ("não, não é possível!" - penso eu) Lula não é levado a prejudicar o governo de sua afilhada, que hesita, dividida entre fazer o que acha e desagradar o criador?

Dilma me parece ter uma escolha partida: de um lado ainda aflora uma desconfiança com a sociedade e um desejo de impor obrigações do "alto" e, de outro, tem consciência de que não é "reacionário" privatizar estradas podres e antros de corrupção em estatais inúteis. Mas, em seu palácio paralelo, no Planalto alternativo em que se encastela, Lula trabalha contra tudo que possa ser uma modernidade ágil, impessoal, mais anglo-saxônica, digamos. Isso é insuportável para populistas como ele, que só conseguem operar no velho sistema de um velho Brasil.

É por isso que o país está em suspense, sem nitidez ideológica ou programática, confiando na grana futura do pré-sal ou da vinda de capitais para engordar nossa "bolha". Falo isso, mas acho que a presidente tem um claro desejo de melhorar seu país, pelo qual ela lutou até na guerrilha e tortura.

FONTE: O GLOBO

História e verdade :: Sérgio C. Buarque

Em 2010, publiquei um artigo na editoria de Opinião do Jornal do Commercio (intitulado A Verdade) refletindo criticamente sobre a proposta de formação de uma Comissão da Verdade. Dois anos depois, a Comissão da Verdade foi constituída agora com sete respeitáveis e maduras personalidades brasileiras e numa cerimônia marcada pelo caráter republicano e pela serenidade da presidente da República.

A composição da comissão e, principalmente as características do evento de lançamento, com o discurso equilibrado e sereno da presidente Dilma Rousseff, me obrigam a retificar parte do meu artigo na qual temia que a comissão ganhasse um corte ideológico e fosse contaminada pela intolerância e arrogância que caracteriza o PT na relação com seus críticos e no julgamento dos fatos históricos. Em tais circunstâncias, dizia, a formação da comissão não ajudaria na busca de verdade mas apenas tentaria dar legitimidade ao enunciado "da verdade" do partido no poder.

Felizmente aquelas suspeitas foram totalmente refutadas pela postura da presidente Dilma que se posicionou por cima do seu partido e como uma chefe de Estado: na escolha dos nomes, no simbolismo do cerimonial (com a presença de todos os presidentes vivos do período democrático), e na maturidade política do seu pronunciamento.

Por outro lado, contudo, quero reafirmar agora a tese formulada no citado artigo anterior de que não existe nem é desejável a declaração de uma "verdade oficial". A presidente disse que o "Brasil merece a verdade. As novas gerações merecem a verdade". Isto significa que a comissão, em nome do Estado, vai definir uma verdade oficial? Uma verdade que acaba com toda a controvérsia na sociedade e que torna inócuo o trabalho do historiador na temática oficializada pelo Estado?

A comissão pode dar uma grande contribuição à Nação e à democracia com a investigação e o esclarecimento dos fatos ainda obscuros, ampliando o conhecimento sobre os acontecimentos que envolveram a ditadura e a repressão política da época. Mas estará longe de formular "a verdade", se os próprios fatos, à luz do presente e com a visão dos seus protagonistas (neste caso a maioria deles ainda vivos e politicamente ativos), permitem diferentes olhares e percepções, a interpretação e a análise dos eventos do passado contemplam múltiplas e distintas abordagens e conclusões de parte dos historiadores.

Não existe uma verdade oficial e o Estado não pode dizer qual verdade – fatos conectados e sua interpretação – deve ser assumida pela sociedade. A verdade é uma busca permanente e, muitas vezes, descontínua de observação e análise de informações sobre o passado para ampliação do conhecimento sobre a complexidade dos fatos e a dinâmica da história.

O relatório da Comissão da Verdade, mesmo com a legitimidade ganha com sua composição e com o reconhecimento da sociedade, não encerrará a busca da verdade como uma construção e reconstrução permanente do passado. Mas, a organização de dados e informações e a divulgação de documentos dispersos e escondidos podem abrir novos horizontes para aprofundamento da história e ampliar o debate público de ideias e analises sobre o passado recente do Brasil.

Sérgio C. Buarque é economista e consultor

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

O risco da dívida:: Míriam Leitão

As famílias brasileiras já estão endividadas demais ou não? Dependendo do indicador, a situação parece tranquila, e, mais do que isso, com grande espaço para crescer. Mesmo assim, é preciso lembrar o que já foi dito neste espaço: o comprometimento da renda das famílias já está alto, no Brasil o dinheiro é muito caro, e o ritmo de crescimento da inadimplência está acelerado.

O volume de créditos em atraso na economia brasileira - como um todo, somando-se o crédito de pessoa física e o das empresas - cresceu 35,5% nos últimos 12 meses até abril. Saiu de R$ 58 bilhões para R$ 79 bilhões, de acordo com dados divulgados pelo Banco Central na sexta-feira.

Esse volume mostra o total de empréstimo sem pagamento há mais de 90 dias. De janeiro a abril, a alta é de 8,8% em relação ao mesmo período de 2011. O problema é principalmente o ritmo do crescimento do atraso. O crédito cresce a 18% ao ano, mas os atrasos cresceram a 35%.

A provisão que os bancos têm que fazer para o chamado crédito podre, que tem inadimplência acima de 180 dias, subiu 24% nos 12 meses até abril e atingiu R$ 67 bilhões. De janeiro a abril, a alta é de 4%.

Há muita confusão sobre os números de endividamento, em parte porque no Brasil até recentemente o crédito era tão baixo que nem era rotina acompanhar a evolução dos indicadores. Há vários ângulos pelos quais se pode avaliar o endividamento, pegando-se, por exemplo, só a dívida das famílias. Se for como percentual do PIB, no Brasil é 23%, nos EUA, 90%. Deve ter sido a esse indicador que o ministro Guido Mantega se referiu quando disse à "Folha de S.Paulo" que não se deveria preocupar com isso.

Outro indicador também de estoque da dívida mostra o Brasil numa situação muito favorável. Se for comparado o total dos débitos bancários das famílias com o que elas têm de renda em um ano dá 42,9% no Brasil e 117,5% nos Estados Unidos. Isso engana, porque evidentemente ninguém vai pagar a dívida inteira, financiada em vários anos, com a renda integral de um ano.

O mais relevante é o fluxo: qual é o comprometimento médio da renda mensal das famílias com o pagamento de juros ou amortização do principal? Isso é o que bate no bolso diretamente, emagrecendo a renda disponível para todos os outros gastos como alimento, habitação, transporte, saúde e educação. No Brasil é 22%, nos Estados Unidos é 10,88%.

Ou seja, os norte-americanos são mais endividados, em geral pelos financiamentos imobiliários que são altos e de longo prazo. A cada mês, no entanto, as prestações são baixas, porque os juros são praticamente negativos.

A inadimplência da pessoa física voltou a subir em abril e atingiu 7,6% das operações. No financiamento de veículos, a taxa de inadimplência disparou nos últimos 15 meses. Saiu de 2,5%, em dezembro de 2010, para 5,9%, em abril deste ano, com alta em todos os meses.

Os grandes números de provisão, ou de crédito em atrasos, assustam, mas eles incluem famílias e empresas. E como percentual do total emprestado a taxa de inadimplência é baixa, está em 3,8%. Não há ainda sinal vermelho no crédito, e o Brasil não está às vésperas dos problemas enfrentados por outros países com o estouro de bolhas.

O problema preocupa por todos esses motivos acima: as famílias estão com parte importante da renda comprometida com o serviço da dívida, e isso é alto até para padrões internacionais. Segundo, os juros no Brasil são altos demais, o que torna mais arriscado uma dívida virar uma bola de neve. Terceiro, o mercado de trabalho está aquecido, por enquanto, e isso ajuda as pessoas físicas a pagarem seus débitos, mas se houver qualquer reviravolta a situação pode se complicar.

Se houver qualquer vento contra, no entanto, com os juros caros no Brasil, as famílias podem ter dificuldade de pagar. É por isso que não é uma atitude muito ajuizada o Ministério da Fazenda incentivar o endividamento só porque o ministro quer ser o "levantador" do PIB.

A queda dos juros e os incentivos à renegociação que estão em curso ajudam a desfazer o caroço. Mas incentivar o endividamento de famílias já endividadas só porque o governo quer um número maior do PIB é um perigo. Crédito é bom quando quem o tomou pode pagar. Quando não pode pagar, vira um problema para as famílias, os bancos, os governos.

FONTE: O GLOBO

Crise trimestral, crise secular:: Vinicius Torres Freire

Gritos de apocalipse ou de boas-novas escondem a natureza desta crise, que é uma transição dolorida

Pelo menos desde 2007, antes mesmo da explosão financeira de 2008, a biruta dos ânimos, de economistas, governos e "mercados" vira a cada três meses. Um trimestre separa cada temporada de alardes de apocalipse ou de renascimento.

Daqui a pouco, a mania muda. O medo das consequências do pandemônio grego baixa na medida em que os partidos gregos pró-euro sobem nas pesquisas sobre o voto de junho.

Ignora-se que a banca da Espanha esteja indo à breca. Para que não vá, o governo espanhol terá de estatizar parte dela. Ficará assim mais quebrado, pronto para estrelar a "crise" do próximo trimestre. Ou não, caso o BC Europeu doe mais dinheiro aos bancos, como o faz desde o final de 2011, evitando estatizações e empurrando a crise com a barriga por mais três meses.

Cinco anos de ciclos maníaco-depressivos talvez bastem para sugerir a pessoas sensatas que essa história é mais complexa do que contos de fada do ciclo econômico. Nessa fantasia, após peripécias angustiantes, a bruxa ou a madrasta da recessão enfim é punida (basta o príncipe fazer a coisa certa) e a economia volta a crescer como antes.

Não se trata de dizer que a crise não tem fim. Mas de perceber que a crise é outra, como os pensadores mais profundos dessa história já explicaram, alguns em livros escritos mesmo antes do tumulto.

Americanos e europeus viveram de excesso de crédito, em parte financiado por um excesso de dinheiro de fantasia criado pela oligarquia financeira mundial, história que começou lá nos 1990. No fundo, suas economias não eram capazes de crescer o bastante para pagar essa conta, a europeia em particular.

Por que não conseguiam crescer muito? Porque seus custos ficaram altos (benefícios sociais, salários), porque envelhecem, porque a distribuição de renda piorou (em especial nos EUA e no Reino Unido), porque, enfim, são economias maduras e civilizadas. O crescimento foi para China e cia.

O trabalho asiático abundante e barato foi um golpe em economias já algo esclerosadas. Além disso, a inclusão dos deserdados da Ásia na economia mundial vai tornar a transição euroamericana ainda mais difícil.

Americanos e em particular europeus terão não apenas de reduzir o bolo, mas reparti-lo de modo mais equânime em tempo de escassez maior. No fundo, trata-se de discutir quem vai pagar a conta do excesso de endividamento e de repensar o pacto social-democrático.

É disso que tratou a eleição grega. A francesa. Etc.

Isso leva tempo, talvez cause tumulto político. Cinco, seis anos (momento em que a China vai parar, segundo Kenneth Rogoff estimou em entrevista no domingo à Folha)? Até lá, a China será 20% maior que Alemanha, Reino Unido e França juntos (hoje é 20% menor). Disputará mais mercados sofisticados. Mas seus vizinhos ora pobres (Indonésia, Bangladesh, Vietnã etc.) podem ocupar o lugar chinês na manufatura mais primitiva.

O mundo euroamericano terá de pagar dívidas enormes, reformar suas economias e refazer o pacto social (como nós também!) em meio a essa transição brutal, a da inclusão asiática. Isso lembra não histórias de fadas, mas as que Marx contava.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Mercado interno para quem? :: Luiz Carlos Bresser-Pereira e Nelson Marconi

O mercado interno é o maior ativo que a economia de um país pode possuir; sua magnitude é definida por seu Produto Interno Bruto (PIB), pela soma dos salários, dos lucros e das rendas do capital. Foi buscando aproveitar esse mercado que os desenvolvimentistas brasileiros defenderam nos anos 1950 o modelo de industrialização por substituição de importações. Foi procurando ampliar esse mercado interno que, a partir do fim dos anos 1960, esses mesmos economistas, vendo que o processo de substituição de importações se esgotara, apoiaram o exitoso processo de ampliação das exportações de manufaturados que, concomitantemente, aumentou o mercado interno. Hoje, depois de muitos anos de baixas taxas de crescimento e de queda da participação dos manufaturados nas exportações totais, coloca-se novamente o problema do aproveitamento e da ampliação do mercado interno.

No mundo atual, as economias são muito mais abertas que no passado; competir em pé de igualdade pelos mercados de manufaturados (leia-se bens com maior valor adicionado e que incorporam e disseminam maior progresso técnico para o restante da economia) é necessário para o aumento da produtividade e o alcançamento de taxas mais elevadas de desenvolvimento econômico. Dado que não faz sentido voltar a reduzir o coeficiente de importações, o desenvolvimento econômico brasileiro será limitado pela taxa de crescimento das exportações.

Entretanto, uma parcela dos economistas brasileiros defende uma estratégia de crescimento wage-led, baseada no aumento dos salários. Preferem conviver com a sobreapreciação cambial existente, porque o custo de se colocar a taxa de câmbio no nível de equilíbrio (a do equilíbrio industrial, que torna competitivas as empresas industriais eficientes) implicará alguma redução dos salários reais e em aumento da inflação (ambos temporários). No fundo, querem voltar ao modelo de substituição de importações, mas não propõem as altas taxas aduaneiras que seriam necessárias para voltar a uma estratégia desse tipo, incompatível com o estágio de desenvolvimento do Brasil.

34% do incremento da demanda agregada no Brasil foi atendido por importações nos anos de 2010 e 2011

A estratégia de desenvolvimento não deve ser export-led ou wage-led, mas growth-led; deve propiciar oportunidades de investimento lucrativas para os empresários que garantam uma taxa de crescimento satisfatório. Se o patamar de crescimento é insatisfatória, como acontece agora, este fato é causado principalmente por uma taxa de câmbio apreciada e uma taxa de juros alta em termos reais, que resultam em baixas oportunidades de investimento lucrativos para as empresas industriais - justamente aquelas que proporcionam maior valor adicionado per capita.

Como, a partir de 2004, a economia brasileira pareceu haver retomado o crescimento baseado em uma estratégia do tipo wage-led - baseada no aumento real do salário mínimo, na Bolsa Família e no crédito consignado, enquanto a taxa de câmbio se apreciava fortemente - surgiu a tese de que seria possível para a economia brasileira crescer a partir da expansão do consumo no mercado interno, não havendo necessidade de se depreciar a taxa de câmbio.

Aquele crescimento, porém, só foi possível porque uma economia mundial aquecida antes da crise elevou os preços de nossos produtos exportados, principalmente das commodities (160% entre 2002 e 2008, enquanto os preços das exportações de manufaturados cresceram 53% no mesmo período), fato que possibilitou à economia brasileira financiar o aumento das importações decorrente desta estratégia sem gerar um desequilíbrio significativo no saldo em transações correntes.

Mas a continuidade desse modelo é inviável, primeiro, porque o cenário externo não permite continuar a contar com o aumento do preço das commodities, e, segundo, porque o câmbio sobreapreciado faz com que o mercado interno seja suprido por importações: com uma pequena defasagem esse mercado interno foi entregue de graça aos exportadores de outros países, principalmente aos chineses, e a indústria brasileira entrou em crise. As exportações de manufaturados, calculadas em quantum, estão em declínio desde 2007, sendo que em 2011 foram 15% inferiores às daquele ano, enquanto o quantum das importações de manufaturados aumentou 59% no mesmo período.

Os dados das Contas Trimestrais a preços constantes mostram que, em média, 34% do incremento da demanda agregada no país foi atendido por importações nos anos de 2010 e 2011, enquanto esse percentual foi de cerca 10% entre 2000 e 2005. Não é a magnitude deste percentual que impressiona, mas a velocidade da elevação das importações nos últimos anos. Enquanto a produção industrial encontra-se praticamente no mesmo patamar que vigorava antes dos reflexos mais significativos da crise no Brasil (a média de 2011 foi 2,7% superior à média de 2008), o volume de vendas do comércio varejista foi 25,3% superior na mesma base de comparação. Graças ao último aumento do salário mínimo, o mercado interno brasileiro continua grande, mas não está dando emprego para brasileiros, e sim aos exportadores de manufaturados para o Brasil.

Não se trata, portanto, de adotar uma estratégia "export-led" ao invés de "wage-led". Trata-se de defender uma estratégia "growth-led", uma estratégia que garanta o crescimento do mercado interno e dos salários de 5% a 6% ao ano ao invés de a 3% como voltou a acontecer depois do boom das commodities. O limite desse crescimento é o do crescimento das exportações. Alcançar esse crescimento graças aos preços das commodities não é mais realista; tentar transformar o Brasil em uma grande fazenda é uma loucura. Felizmente, a presidente Dilma Rousseff parece ter entendido isto e está gradualmente tirando a economia brasileira da armadilha dos juros altos e do câmbio sobreapreciado.

Luiz Carlos Bresser-Pereira é professor emérito da Fundação Getúlio Vargas. Autor de "Globalização e Competição". Nelson Marconi é professor de Economia da EESP-FGV e bolsista do Ipea.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Estoque cresce pelo 3º mês consecutivo

O número de setores com excesso de estoque na indústria cresceu pelo terceiro mês seguido e chegou a 6 de 14 pesquisados, entre abril e maio, mostra pesquisa da Fundação Getúlio Vargas. Entre janeiro e fevereiro, eram três. Ontem, pela primeira vez, o mercado admitiu crescimento abaixo de 3% para 2012, segundo pesquisa Focus, do BC

Estoque da indústria cresce e mercado já prevê crescimento do PIB abaixo de 3%

Márcia De Chiara

Cresceu o número de setores superestocados na indústria de abril para maio, o que dificulta a retomada da produção industrial neste trimestre, revela a Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação da Fundação Getúlio Vargas (FGV). E, ontem, pela primeira vez, o mercado financeiro admitiu crescimento abaixo de 3% para economia brasileira neste ano, aponta pesquisa Focus do Banco Central. De 14 segmentos, 6 estão neste mês superestocados: material de transporte, mobiliário, mecânica, têxtil, vestuário e calçados e minerais não metálicos, aponta a sondagem. Em março e abril, 4 acumulavam produtos. "Após um período de ajuste em janeiro e fevereiro, quando havia só três setores superestocados, o quadro piorou em março e abril. Em maio, a situação de acúmulo de produtos se espalhou para outros segmentos", afirmou o superintendente adjunto de Ciclos Econômicos da FGV, Aloisio Campelo. A pesquisa considera setores superestocados aqueles em que o saldo entre o número de empresas com estoques excessivos e insuficientes é igual ou maior do que 10%. O economista ponderou que a situação de acúmulo de produtos hoje não é tão grave quanto na crise de 2008. Em novembro daquele ano, 11 setores tinham encalhe. No entanto, como naquela época, a indústria de material de transporte lidera hoje o ranking dos segmentos com maior número de empresas com produtos além da conta.

Tanto é que, na semana passada, o governo retomou a fórmula usada em 2008 de cortar o imposto sobre os carros para impulsionar as vendas. Campelo ressaltou que a pesquisa acabou três dias após o anúncio do pacote de estímulo ao crédito. Ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pediu "paciência" para que as medidas já adotadas possam surtir efeito, segundo afirmou à Reuters. Além da indústria de material de transporte, os segmentos têxtil, de vestuário e calçados e mecânica estão com a produção prevista para três meses abaixo da média histórica, o que sinaliza uma retomada lenta da produção no curto prazo. Apesar de superestocados, o quadro é mais favorável para indústria de móveis e de minerais não metálicos, que inclui os itens usados pela construção civil. É que nesses dois segmentos o indicador de produção prevista para três meses supera a média histórica. Isso sinaliza que o ajuste está em curso e a produção deve ser retomada. O grande volume de estoques é o quesito que mais pesa no desempenho da indústria em geral. Neste mês, 8,8% das 1.259 empresas consultadas informaram ter produtos excessivos, índice que é superior ao de abril (5,2%) e quase o dobro do de maio de 2011 (4,7%). Com base nos resultados, Campelo disse que, no horizonte de três meses, de maio a julho, início do segundo semestre, não há indicações de um "arranque" da indústria. Já para seis meses, há mais otimismo.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Indústria cresceu só 2,6% em três anos

No mesmo período, de 2008 a 2011. a economia brasileira registrou crescimento de 10,1%, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas

Daniela Amorim

RIO - A produção da indústria cresceu apenas 2,6% entre 2008 e 2011, uma taxa de 0,85% ao ano, segundo levantamento feito pela Fundação Getúlio Vargas com exclusividade para a "Agência Estado". O desempenho fraco fica ainda mais evidente quando se considera que, entre 2008 e 2011, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro avançou 10,1%, num ritmo de 3,25% ao ano, apontaram os pesquisadores Silvio Salles e Aloisio Campelo, economistas do Instituto Brasileiro de Economia, da FGV.

Os resultados comprovam a perda de espaço da fabricação de produtos manufaturados pela concorrência com importados, enquanto atividades extrativas e relacionadas a commodities ganharam peso, apontando para uma tendência de "primarização" na indústria brasileira.

No mesmo período, de 2008 a 2011, o consumo das famílias cresceu 16,2% (5,1% ao ano); os investimentos, 18,5% (5,8% ao ano); o comércio, 13,5% (4,2% ao ano); as importações, 37,7% (11,2% ao ano); e as exportações, 5,9% (1,9% ao ano).

"Mas, mesmo dentro da indústria, o crescimento foi muito desigual", notou Silvio Sales.

Entre os 27 ramos pesquisados, cinco setores tiveram taxas bem acima da expansão do PIB, e quatro apresentaram taxas próximas, entre 7% e 10%. Mas o avanço na produção não foi suficiente para compensar as perdas verificadas em sete segmentos, na maioria em indústrias que sofreram os efeitos da concorrência com produtos importados.

Queda. Os setores com queda na produção foram os de material eletrônico e equipamentos de comunicações (-21,6%); têxtil (-16,7%); máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-16,1%); calçados (-12,7%); e vestuário (-5,6%). No caso dos perdedores, o fator determinante foi a redução na competitividade, disse Aloisio Campelo. "O câmbio valorizado prejudicou ainda mais e houve aumento de penetração de importações."

"Houve queda mesmo em eletroeletrônicos, porque, a despeito do aumento no consumo, a produção interna passa a ser cada vez mais uma montadora de componentes importados", completou Sales.

Segundo os cálculos dos economistas, os setores com bom desempenho foram os de bebidas (18,8%); equipamentos médico-hospitalares e ópticos (17,8%); farmacêutica (11,8%); veículos automotores e outros equipamentos de transporte (10,4%). As principais razões para a expansão foram a ampliação do mercado interno, o aumento da massa salarial, o avanço da demanda e incentivos como a oferta de crédito.

Mas os pesquisadores notaram que quatro segmentos importantes ficaram praticamente estagnados entre 2008 e 2011, sendo os principais os setores de refino de petróleo, com avanço de apenas 0,5% na produção, e máquinas e equipamentos, com aumento de 1,6%, após uma redução nas exportações e aumento nas importações.

Máquinas e petróleo. "No primeiro segmento (de refino), ao que parece, há uma "troca" de produção interna pela importação de derivados de petróleo. No segundo (máquinas e equipamentos), a importação de máquinas e equipamentos parece ser o principal fator", analisaram os economistas.

Para o economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rogério César de Souza, o problema não é a indústria primária, baseada na extração e na produção de commodities, estar se expandindo, porque o movimento não necessariamente acontece em detrimento do avanço do setor manufatureiro.

"Os EUA, por exemplo, são bons em tudo, até na atividade agropecuária. A indústria extrativa brasileira é bastante competitiva, e isso é positivo. É preciso descobrir o que está acontecendo com a indústria de transformação, que não avança no mesmo compasso", diz Souza.

Durante os anos de crise internacional, houve um acirramento da concorrência no mercado internacional, disse o economista Paulo Levy, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Mas, segundo ele, os problemas que diminuem a competitividade da indústria não se alteraram, como a alta carga tributária e a falta de investimentos em infraestrutura.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Lula continua o mesmo

Lula se manifestou ontem "indignado" com a revelação de que tentou chantagear um ministro do STF. Indignados e estarrecidos estão todos os brasileiros que tomaram conhecimento da atitude indecorosa do ex-presidente. Até o momento, estão, de um lado, a versão de Lula e de Nelson Jobim e, do outro, a condenação unânime à indecência praticada pelo petista.

Por ora, o sempre loquaz Lula só se manifestou por meio de nota, divulgada ontem à noite pelo instituto que leva seu nome. Ainda não teve coragem de vir a público contrapor, de viva voz, a versão relatada por Gilmar Mendes. Já o ministro não apenas manteve o que contou à revista Veja, como reiterou tudo ontem em entrevista concedida à imprensa em Manaus.

A tentativa de Lula de postergar o julgamento do mensalão para o ano que vem e de chantagear Mendes, oferecendo-lhe "proteção" na CPI do Cachoeira, mereceu repulsa de outros ministros do Supremo, condenação da Ordem dos Advogados do Brasil e críticas da Academia Brasileira de Direito Constitucional.

Não apenas. Também ensejou representação criminal apresentada pelos líderes de PSDB, DEM, PPS e PSOL contra o ex-presidente. A medida baseia-se no entendimento de que há indícios de que, pelo que Mendes revelou, o petista praticou pelo menos três crimes no curso do processo de julgamento do mensalão: corrupção ativa, tráfico de influência e coação.

Tráfico de influência por Lula ter tentado interferir na atuação de um magistrado - Gilmar Mendes, embora ainda tenha ameaçado coagir pelo menos outros três ministros do STF - para favorecer o PT e os réus do mensalão. Corrupção ativa por oferecer vantagem indevida - "proteção" na CPI - para que o ministro fizesse, retardasse ou omitisse um ato de ofício. E coação no curso do processo em razão da tentativa de ameaçar intervir na ação judicial.

A postura de Lula mereceu condenação generalizada. Em editorial, a Folha de S.Paulo classifica o encontro ocorrido em abril de "suspeito" e a tentativa de chantagem a Mendes, de "intolerável". Para Dora Kramer, Lula está "investido no figurino do personagem autorizado a desrespeitar tudo e todos no cumprimento de suas vontades".

Mas a mais veemente condenação à atitude de Lula veio do ministro Celso de Mello, decano do STF. Em entrevista ao site Consultor Jurídico, ele afirmou: "Se ainda fosse presidente da República, esse comportamento seria passível de impeachment por configurar infração político-administrativa, em que um chefe de poder tenta interferir em outro. (...) O episódio revela um comportamento eticamente censurável, politicamente atrevido e juridicamente ilegítimo".

Mello foi ainda mais fundo: "(Trata-se de) Um gesto de desrespeito em relação ao STF. Sem falar no caráter indecoroso, é um comportamento que jamais poderia ser adotado por quem exerceu o mais alto cargo da República. Surpreendente essa tentativa espúria de interferir em assunto que não permite essa abordagem. Não se pode contemporizar com o desconhecimento do sistema constitucional do país nem com o desconhecimento dos limites éticos e jurídicos".

Entretanto, nem as contundentes e incisivas palavras de Celso de Mello, publicadas ainda no domingo, foram capazes de dissuadir o silêncio de Lula. O ex-presidente só veio a se manifestar na noite de ontem, depois que o presidente do STF, Carlos Ayres Britto, fez uma cobrança pública para que ele falasse sobre o caso.

Fato é que, em tudo, a versão de que Lula tentou chantagear Gilmar Mendes e coagir a mais alta corte judiciária do país é verossímil. Segundo interlocutores ouvidos pelos jornais, ao ex-presidente a única coisa que interessa tratar, neste momento, é implodir a comprovação - e a consequente condenação dos réus - de que seu governo praticou o mais deslavado esquema de corrupção da história recente do país, por meio do mensalão.

Além disso, na CPI há clara orientação do PT para que seus deputados e senadores centrem fogo justamente em Gilmar Mendes, a quem, na fatídica conversa, Lula ofereceu "proteção". "O PT busca dados contra o ministro do STF Gilmar Mendes na CPI que investiga as relações do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com empresas e autoridades", informa hoje o Valor Econômico.

Nos oito anos que passou como presidente da República, Lula sempre contemporizou com malfeitores, jamais puniu acusados de corrupção em seu governo e transformou a leniência no trato com a coisa pública em norma geral. Seu comportamento indigno, intolerável, repulsivo como ex-presidente em relação às instituições é apenas mais um capítulo de uma trajetória que, infelizmente, tem se mostrado deplorável.

Fonte: Instituto Teotônio Vilela. Carta de Formulação e Mobilização PolíticaTerça-feira, 29 de maio de 2012Nº 476.

Suprema indecência – Editorial: O Estado de S. Paulo

Ainda que se compre pelo valor de face a inverossímil alegação do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Nelson Jobim, de que promoveu o encontro do ministro e ex-presidente da Corte Gilmar Mendes com o ex-presidente Lula, a pedido deste, porque "gostava muito dele e o ministro sempre o havia tratado muito bem", o acatamento da solicitação foi um grave lapso moral. O seu ex-chefe (Jobim foi ministro da Defesa entre 2007 e 2011) que encontrasse outra via para transmitir a tardia gratidão ao magistrado.

Gilmar, por sua vez, errou ao aceitar a reunião. Ministros da Suprema Corte, tendo numerosos compromissos derivados de sua condição, não raro se encontram com outras autoridades, políticos, empresários e figurões em geral. Nada haveria de repreensível se, numa dessas ocasiões, Lula o abordasse para lhe dizer o que, segundo Jobim, teria querido dizer. Mas se então ouvisse do ex-presidente as palavras que lhe foram atribuídas pela revista Veja na reunião de 26 de abril no escritório de Jobim, teria de se retirar imediatamente.

Afinal, mesmo que o seu ex-colega não lhe tivesse adiantado o assunto sobre o qual Lula queria conversar, o ministro tinha tudo para adivinhar que se trataria do julgamento do mensalão, previsto para começar em agosto. Em qualquer país, raros são os que recusam convites para um tête-à-tête com um ex-chefe de Estado. Mas, por todos os motivos concebíveis, Mendes deveria ter sido uma daquelas exceções. Depois, tendo sido como foi noticiado o diálogo entre eles, não se entende por que o ministro levou tanto tempo para fazer chegar a história à imprensa.

Se ficou perplexo "com o comportamento e as insinuações despropositadas" de Lula, como afirma, deveria dar-lhes sem demora a merecida resposta pública. Bastaria a enormidade do acontecido. Se o escândalo do mensalão não tem precedentes, tampouco se tem notícia de um ex-presidente da República procurar um membro do Supremo Tribunal para dizer-lhe que considera "inconveniente" o julgamento próximo de uma ação que o alcança politicamente. A inoportunidade - teria alegado Lula - viria da coincidência com a campanha para as eleições municipais deste ano.

Não podendo remeter às calendas o julgamento de um processo aberto há sete anos contra a cúpula do PT, além de outros companheiros e seus sócios na "organização criminosa" de que fala a denúncia do Ministério Público, Lula quer empurrar o desfecho para depois da aposentadoria de dois ministros, o atual presidente Carlos Ayres Britto e Cezar Peluso, que tenderiam a votar pela condenação dos réus mais notórios. Tivesse Lula ficado nisso, já teria superado as próprias façanhas em matéria de indecências políticas.

Mas, além disso, ele não só teria ofendido o relator Joaquim Barbosa, chamando-o de "complexado"; teria avisado que incumbiria o ex-ministro Sepúlveda Pertence de "cuidar" da ministra Carmem Lúcia para que ajude no adiamento; e contado que pediu ao ministro José Dias Toffoli que não se declarasse impedido por ter sido assessor jurídico da Casa Civil, ao tempo de José Dirceu; como praticamente chantageou o interlocutor, ao oferecer-lhe proteção na CPI do Cachoeira, que teria se gabado de controlar. Proteção, no caso, contra alguma tentativa de convocá-lo a explicar as suas relações com o senador Demóstenes Torres, parceiro do contraventor.

Quando Mendes disse que elas sempre se deram nos limites institucionais, Lula teria perguntado algo como: "E a viagem a Berlim?". Os dois, de fato estiveram na capital alemã, onde mora a filha do ministro, e a viagem teria sido paga por Cachoeira - o que Mendes negou veementemente, e batendo na perna de Lula desafiou: "Vá fundo na CPI!". A revelação do ultraje levou os ministros Marco Aurélio Mello e Celso de Mello a condenar o ex-presidente da República nos termos mais duros, compatíveis com o extremo a que levou o seu despudor - algo "inimaginável", estarreceu-se Marco Aurélio. O seu colega, decano da Corte, criticou o "grave desconhecimento (de Lula) das instituições republicanas". Se ele ainda fosse presidente, resumiu com exatidão, "esse comportamento seria passível de impeachment".

Inspiração:: Graziela Melo

O que faço
quando
a inspiração
vai embora?

Fico perdida
nesse
mundo cão!!!

É como
se minha vida
inteira
tivesse sido
em vão!!!

Esvazia-se
minha alma,
desfalece-me
o coração!!!

Contemplo
o mundo
estarrecida

e tento
lhe pedir
perdão!!!

É a culpa
pela alma
vazia,

A triste
ausência
da poesia,

do simbolismo
da emoção

Rio, 28/05/2012