Nunes Marques insiste em censura pró-Flávio
Por Folha de S. Paulo
Após vetar divulgação de pesquisa, agora
presidente do TSE resolve derrubar canal de WhatsApp
Trata-se de extrapolação do poder de uma
Justiça Eleitoral já paternalista, o que só faz aumentar a percepção de
parcialidade das instituições
O ministro Kassio Nunes
Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, investe
novamente em censura, prejudicando ainda mais a credibilidade do Judiciário.
No domingo (11), ele determinou a suspensão do canal de WhatsApp "Exército de Lula", administrado pelo deputado André Janones (Rede-MG); em junho, acatara pedido do PL para vetar a divulgação de pesquisa que apontava queda nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro (PL).
A ação recente nem mesmo exibia os indícios
materiais de ilícitos no canal, que tem mais de 3 milhões de
seguidores e foi criado para promover a candidatura de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT).
Segundo a ação apresentada pela campanha de
Flávio, o canal divulgava conteúdos que já haviam sido julgados desinformativos
em decisões de ministros do TSE, como fake
news sobre Nossa Senhora Aparecida e sobre ligação de Flávio com milícias.
Mas não foram anexados os documentos
pertinentes, tanto que, no sábado (10), o relator do caso, corregedor-geral
eleitoral Ricardo Cueva, pediu a apresentação de material que mostrasse a
circulação das alegadas fake news.
Cerca de uma hora depois, a campanha
bolsonarista acionou Nunes Marques por meio de uma petição com documentos
relativos a conteúdo postado na conta do Instagram de Janones, mas nenhum ao
canal do WhatsApp.
No dia seguinte, Nunes Marques —indicado ao
Supremo Tribunal Federal por Jair
Bolsonaro (PL)— determinou a derrubada do canal e que a Assessoria
de Enfrentamento à Desinformação do TSE investigasse suas postagens. Em
seguida, Cueva reverteu a derrubada até que o plenário do TSE analise o
assunto.
Nesta segunda (12), a área técnica mobilizada
por Nunes Marques relatou que
não foram encontradas "reproduções das afirmações examinadas
nos autos", com a ressalva de que o conteúdo pode ter sido apagado.
O imbróglio se dá em contexto eleitoral
inflamado e judicializado, inclusive no STF, com
campanhas escolhendo juízes por meio de recursos a ações antigas —em boa hora,
o presidente do Supremo, Edson Fachin,
instituiu regra para conter tais manobras.
A medida censória de Nunes Marques não é
novidade, como evidenciam as decisões da ministra do TSE Estela Aranha, que
proibiu a exibição do púlpito vazio de Lula no debate da rede Globo, e do
ministro do STF André
Mendonça, que efetuou bloqueio generalizado de postagens sobre Nossa
Senhora Aparecida.
Trata-se da extrapolação do poder de uma Justiça
Eleitoral que atua com paternalismo excessivo e que, desde a última
eleição presidencial, comete
abusos contra a liberdade de expressão.
Eleições
livres exigem parcimônia do Poder Judiciário, cuja interferência na disputa
deveria se limitar a um mínimo essencial. A pretensão de decidir no detalhe que
informações devem ou não circular só faz aumentar percepções de parcialidade.
Juros mudam de patamar no mundo e no Brasil
Por Folha de S. Paulo
Inflação é pressionada por alta do petróleo,
tarifas, investimentos em IA e expansão de gastos dos governos
Taxas insustentáveis exigem ajuste
orçamentário célere aqui; o mundo de juros baixos acabou e precisamos nos
preparar para novo padrão global
O custo do dinheiro mudou de patamar,
definitivamente. Na semana passada, o título de dez anos do Tesouro americano chegou a
5,3% anuais, o maior nível desde 2002, e o de 30 anos superou 5,7%.
Como esses papéis são a referência do mercado global, o movimento encarece a
dívida de governos e empresas no mundo todo.
Na ata de setembro, o Federal Reserve, banco
central dos Estados
Unidos, registrou apoio unânime à primeira alta de seus juros
desde 2023, e a maioria dos dirigentes vê novo aumento até dezembro. O mercado
já projeta uma sequência mais duradoura.
A expectativa de inflação
para 12 meses subiu a 3,9%, a maior desde 2023. O dilema é clássico: combater o
avanço dos preços sem asfixiar a atividade.
As causas vão além do efeito da guerra sobre
o petróleo.
Energia mais cara, tarifas comerciais e a corrida de investimentos em
inteligência artificial também estão em ação. Porém, apesar da contribuição de
todos esses elementos, a raiz mais profunda é fiscal.
Governos acumularam déficits elevados por
anos e agora precisam rolar dívidas gigantescas sem perspectiva de contenção,
enquanto os gastos com defesa crescem nos EUA e na Europa.
Mais dívida exige juros mais altos para atrair compradores.
A França
é um bom exemplo do que está acontecendo. O país não equilibra o Orçamento há
décadas, enfrenta
fragmentação política e protestos e hoje paga juros de dez anos
superiores aos da Itália
e da Grécia,
protagonistas da crise da dívida europeia de 2009. Nem riqueza, nem moeda
forte, nem o Banco Central Europeu impediram o mercado de cobrar o preço da
indisciplina.
Há quem veja exagero, como o secretário do
Tesouro americano, Scott Bessent, lembrando que a inflação subjacente (sem
efeitos transitórios) se aproxima da meta. Ainda assim, mesmo um recuo parcial
não devolveria o mundo à era do dinheiro barato.
Para o Brasil, a lição é direta. Com a Selic
em 13,75% e a dívida perto de 83% do PIB, diminui o
espaço para o Banco Central
cortar juros e aumenta o custo de financiar o governo. Isso explica por que o
mercado atribui tanto valor a qualquer sinal de um ajuste capaz de sustentar as
contas.
O próximo governo assumirá em um mundo menos
complacente. Promessas sem lastro e ajustes lentos serão precificados mais
rápido, e a lua de mel com os investidores tende a ser curta.
No mundo de juros baixos, a indisciplina fiscal custava muito menos. Esse mundo acabou e precisamos nos preparar para um novo padrão global.
Segurança como política de Estado
Por O Estado de S. Paulo
A campanha responde mal ao medo nas ruas. Do presidente, dos governadores e do Congresso eleitos, este jornal espera método, inteligência e firmeza contra o crime organizado, não bravatas
O medo que o cidadão brasileiro sente nas
ruas é um sentimento legítimo de quem vive em um dos países mais violentos do
mundo e constata, dia após dia, que o Estado é incapaz de protegê-lo. Era
natural, portanto, que a segurança pública fosse um dos temas centrais da
campanha eleitoral. Lamentável, porém, é que nenhum dos candidatos à
Presidência da República tenha respondido bem a essa angústia coletiva.
Flávio Bolsonaro (PL) promete segurança à
custa da Constituição. Seu plano para a área, inspirado no regime de Nayib
Bukele em El Salvador, faz da letalidade policial, mais do que uma política
pública, uma meta. Ademais, flerta com penas cruéis e vigilância em massa dos
cidadãos. Em suma, impõe à Nação uma escolha inaceitável entre o combate ao
crime e o respeito a direitos fundamentais dos cidadãos. Luiz Inácio Lula da
Silva (PT), por sua vez, é doutor em sociologia de botequim. O petista encarna
a visão da esquerda segundo a qual o crime é um subproduto das desigualdades.
Na prática, absolve o criminoso, como quando ele disse que traficantes de
drogas “são vítimas dos usuários”. São dois populistas e ambos erram o alvo.
O grande inimigo do Brasil é o crime
organizado. Facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando
Vermelho (CV) há muito deixaram de ser quadrilhas locais para se tornarem
máfias altamente sofisticadas. Como as milícias formadas por servidores
públicos corruptos, dominam territórios, infiltram-se na economia formal e no
próprio Estado. Mas, como já dissemos, por mais poderosas que sejam, bélica e
economicamente, ainda não são mais fortes do que o Estado: só aprenderam a
explorar muito bem as suas vulnerabilidades. E uma delas, talvez a principal, é
a descontinuidade. A cada ciclo eleitoral, mudam governos, slogans e
prioridades na área de segurança pública. Só o crime organizado permanece.
Diante disso, a sociedade, por meio de seus
representantes eleitos, precisa decidir se está em guerra contra esses
criminosos. Essa decisão é crucial para que a segurança pública deixe de ser
abordada por espasmos, vale dizer, ao sabor das conveniências políticas de
ocasião, e seja alçada ao patamar de política de Estado, perene, capaz de
produzir resultados sensíveis para a população. Dessa escolha dependem a
reformulação do arcabouço jurídico que rege as ações do Estado como detentor do
monopólio da violência e, não menos importante, a preparação da sociedade para
os enormes sacrifícios sociais que uma guerra desse tipo impõe.
Se, ao contrário, a sociedade concluir que o
combate ao crime organizado não é uma guerra propriamente dita, mas uma
política regular de segurança pública, o grau de exigência não deve ser menor.
Mesmo sem o recurso a meios excepcionais, o Estado segue obrigado a fazer
funcionar os meios ordinários de que já dispõe e que hoje operam de forma
isolada, quando não conflituosa. Isso requer a atuação integrada das forças de
segurança – não só em âmbito local –, das autoridades econômicas, do Ministério
Público e do Poder Judiciário.
Não há presidente da República que acabe
sozinho com facções que não conhecem fronteiras. São os governadores que
comandam as polícias. Enquanto os criminosos cooperam e se adaptam, as Polícias
Civil e Militar dentro de um mesmo Estado às vezes nem sequer compartilham
informações. Há casos em que sabotam as ações uma da outra. Em termos
operacionais, uma autoridade nacional antimáfia, nos moldes italianos, daria
centralidade e organização a um esforço que, necessariamente, tem de ser
conjunto. A PEC da Segurança Pública, à espera do plenário do Senado, daria
base constitucional à integração.
Mas, seja qual for a decisão da sociedade, é
preciso começar pelo básico: não há política de segurança pública no mundo que
dê resultado enquanto houver servidores públicos suscetíveis à cooptação por
bandidos. A sonhada integração de nada valerá se as instituições chamadas a
cooperar não depurarem seus quadros. Policiais, auditores fiscais, promotores e
juízes dispostos a vender seus serviços são os ativos mais preciosos das
organizações criminosas. Obrigar as forças da lei a agir integralmente dentro
da lei exige coragem. Sem isso, o resto é bravata.
Três anos que mudaram o Oriente Médio
Por O Estado de S. Paulo
O 7 de Outubro precipitou uma catástrofe para
os palestinos e acelerou mudanças históricas no Oriente Médio. O Irã perdeu
força, Israel ganhou aliados, mas a coexistência continua distante
Três anos após o 7 de Outubro, Israel ainda
vive sob o trauma do massacre. Gaza permanece em ruínas, seus habitantes
dependem de ajuda e a esperança de um Estado palestino está mais distante. O
Hamas, que alegava lutar pela “libertação” da Palestina, precipitou a maior
tragédia dos palestinos em décadas. Também ajudou a provocar, no Oriente Médio,
resultados contrários aos interesses dos que o patrocinavam.
O Hamas conhecia a superioridade bélica
israelense quando massacrou civis e sequestrou reféns. Após militarizar e
bestializar Gaza por duas décadas, expôs sua população à retaliação. O massacre
não absolve Israel pela escala da devastação nem pelo excesso de mortes de
civis. Mas recuperar o horizonte nacional palestino exige cobrar de seus
próprios dirigentes o preço de suas decisões. Há militantes ocidentais que
ainda chamam o massacre de “resistência” e não encontram palavras para
recriminar a tirania do Hamas sobre os palestinos. Solidariedade assim é uma
obscenidade.
Uma aposta do Hamas e seu patrono, o Irã, era
sabotar a aproximação de Israel com governos árabes. Três anos depois, os
Acordos de Abraão voltam a ganhar tração, enquanto a rede apoiada pelo Irã
sofreu golpes severos. O paradoxo só se entende à luz de uma transformação
regional bem mais antiga.
Durante décadas, as guerras árabe-israelenses
definiram grande parte da política regional. Em 1979, o Egito fez a paz com
Israel, enquanto a Revolução Islâmica instalava em Teerã, até então a maior
aliada de Israel na região, um regime que fez da aniquilação do Estado judeu
uma bandeira. O temor da expansão iraniana e os interesses econômicos acabaram
aproximando antigos adversários. Os Acordos de Abraão, de 2020, simbolizaram
essa mudança.
Teerã financiou e armou grupos que podiam
atacar Israel sem expor diretamente a República Islâmica. Depois do 7 de
Outubro, Hezbollah e Hamas sofreram perdas severas, e Israel levou a guerra ao
território iraniano. O confronto deste ano entre Estados Unidos e Irã tem
causas próprias, inclusive a disputa nuclear, mas ocorre num equilíbrio
transformado. Mesmo debilitado, o regime dos aiatolás ameaça petroleiros no
Estreito de Ormuz, enquanto Washington mantém seu bloqueio.
A ameaça iraniana ajudou a aproximar Israel e
os Emirados Árabes Unidos, que cooperaram na defesa contra ataques de Teerã
mesmo durante a guerra de Gaza. Mas as novas alianças regionais estão longe de
formar um bloco coeso. A Arábia Saudita, por exemplo, firmou um pacto de defesa
com Turquia e Paquistão. As rivalidades do Oriente Médio já se entrelaçam com interesses
que vão do Mediterrâneo ao sul da Ásia e à costa africana.
Israel reduziu o poder de adversários
externos e ganhou parceiros dispostos a cooperar. Mas o Irã ainda ameaça o
comércio e a infraestrutura do Golfo. Relações entre governos não eliminam a
hostilidade popular nem asseguram a adesão saudita aos Acordos de Abraão. E
nenhuma vitória contra Teerã resolve por si o conflito palestino.
Em Gaza, um ano de cessar-fogo não desarmou o
Hamas nem instalou a administração palestina prometida. A força internacional
não foi mobilizada e a reconstrução mal começou. Uma polícia palestina efetiva
e a recuperação do comércio são condições para reerguer o território. Israel
precisa permitir que essa alternativa respire. Na Cisjordânia, a expansão dos
assentamentos e a violência de colonos estreitam as possibilidades de um Estado
palestino e favorecem a radicalização que Israel procura combater.
A transformação regional pode oferecer
proteção a Israel e recursos para a recuperação palestina. Pode igualmente
permitir que governos celebrem novos acordos enquanto Gaza continua sem governo
legítimo e a Cisjordânia perde território. O poder de fogo com que o Hamas
violenta seus próprios compatriotas precisa ser obliterado; Israel precisa
abandonar políticas que inviabilizam a autodeterminação palestina. Três anos de
guerra redesenharam a relação de forças no Oriente Médio. Mas nenhum novo mapa
de alianças fará as escolhas políticas que israelenses e palestinos ainda têm
pela frente.
Uma bem-vinda reforma do Enem
Por O Estado de S. Paulo
Ideia do Inep é incluir questões abertas,
fazendo o estudante escrever e refletir mais
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem)
deverá passar por uma reforma, ganhando, a partir de 2028, questões abertas.
Nesse modelo, os estudantes têm de escrever as respostas para as perguntas que
lhes são apresentadas, indo além da tradicional prova de múltipla escolha, em
que o candidato escolhe uma alternativa dentre cinco.
A ideia dos técnicos do Instituto Nacional de
Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao
Ministério da Educação (MEC), é incentivar a solução de problemas e a produção
de textos à mão, valorizando o raciocínio e a reflexão. Com a mudança, o número
de linhas escritas por um aluno que presta o Enem vai passar das 30 atuais
estimadas na redação para algo em torno de 50, com a inclusão de quatro
questões abertas.
Trata-se de um necessário ajuste no Enem, a
fim de atender às diretrizes do novo ensino médio, reformado no governo de
Michel Temer, em 2017, e atualizado no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, em
2025. Hoje, os estudantes escolhem um entre cinco itinerários que deverão
seguir: Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e
Formação Técnica. E as questões abertas serão sobre essas cinco grandes áreas,
refletindo, enfim, o conteúdo aprendido no seu itinerário.
Ainda em respeito a esse novo formato do
ensino médio, o tema da redação do Enem será diferente para cada itinerário.
Com isso, os mais de 5 milhões de alunos que anualmente se inscrevem no Enem
farão provas diferentes, valorizando-se, assim, a experiência prévia vivenciada
em seu percurso de aprendizagem.
A reforma era necessária. O desempenho dos
estudantes brasileiros no Pisa, a avaliação trienal aplicada pela Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), indica que as coisas não
vão nada bem para o Brasil. De 2022 para 2025, a nota dos brasileiros em
Leitura passou de 410 para 408, e em Matemática, de 379 para 377, enquanto a
média dos países ricos foi de 461 em Leitura e de 463 em Matemática. Pode ser
que a iniciativa de mudar o Enem ajude a alterar esse quadro.
No entanto, é preciso levar em conta uma
série de obstáculos que as mudanças impõem. Primeiro, há o desafio logístico de
corrigir não só as 5 milhões de provas de múltipla escolha, mas também as
quatro questões discursivas adicionais. Haverá, portanto, forte impacto
financeiro. Ademais, a correção das provas em si é um desafio à parte, e
especula-se que o Inep possa recorrer à inteligência artificial, algo que seria
problemático, considerando que talvez os algoritmos não consigam captar
sutilezas nas respostas. Por fim, mas não menos importante, é preciso que a
rede pública prepare seus alunos para competir com os estudantes da rede
privada, habituados às provas dissertativas. Do contrário, corre-se o risco de
favorecer alunos de escolas particulares no Enem.
Contudo, nada disso deve desestimular a reforma do Enem. Malgrado o grande desafio da implementação, trata-se de uma mudança muito bem-vinda, em linha com as necessidades de modernização da educação brasileira.
Atropelo do TSE é nocivo ao equilíbrio da
campanha
Por O Globo
Justiça Eleitoral não pode se tornar
instrumento de censura em favor deste ou daquele candidato
É missão da Justiça Eleitoral zelar pelo
equilíbrio na disputa entre candidatos, em especial no que diz respeito à
propaganda. É esperado, por isso, que algumas normas que disciplinam a liberdade
de expressão sejam mais rígidas durante a campanha. Decisões dos tribunais
eleitorais têm de ser céleres para evitar danos, e isso sempre significou
cuidados adicionais nos veículos de imprensa impressos ou eletrônicos. As redes
sociais aguçaram essa preocupação, pois se tornaram foco de disseminação de
desinformação.
Mas, se é verdade que o Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) e os Tribunais Regionais Eleitorais precisam ser ágeis em suas
decisões, isso não significa que devam ser açodados, muito menos que possam
atropelar os trâmites regulares, sob pena não apenas de cometer injustiças, mas
também de agravar a já nefasta partidarização da Justiça.
Ao determinar a suspensão de um canal de
WhatsApp com 3,5 milhões de integrantes criado pelo deputado André Janones
(Rede-MG) para fazer campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o
presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, passou por cima do relator,
ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, a quem cabia decidir. Em seguida, Cueva,
também corregedor do TSE, determinou a restauração do canal. Acionada por Nunes
Marques, a área técnica do tribunal não viu desinformação no canal.
O atropelo é apenas o último episódio numa
campanha que já viveu controvérsias em torno de Nossa Senhora Aparecida, do
Bolsa Família ou de inteligência artificial, com apelos até ao Supremo. O TSE
recebeu neste ano 698 processos das candidaturas de Lula e do senador Flávio
Bolsonaro (PL), quase o triplo da eleição de 2022 (263).
A judicialização crescente, a tentativa de
encaminhar decisões a ministros simpáticos e, sobretudo, o atropelo do trâmite
regular em nada contribuem para o equilíbrio da disputa. Recorrer ao Judiciário
tem sido parte da estratégia das campanhas e, embora os números deem a
impressão de que as decisões têm sido equilibradas — até o primeiro turno,
foram 33 a favor e 23 contra Flávio; 30 a favor e 13 contra Lula —, vários fatos
suscitam preocupação.
Na sexta-feira, Nunes Marques suspendeu três
julgamentos no plenário virtual quando já havia maioria favorável a Lula,
contra o voto do relator, ministro André Mendonça. O próprio Mendonça ordenou
que a campanha de Lula deixasse de impulsionar posts dizendo que Flávio é
contra o fim da escala 6x1 ou com a frase “Se Flávio Bolsonaro vencer, você
perde”, insinuando que ele cortaria programas sociais.
É evidente que casos flagrantes de
desinformação devem ser punidos. Mas é fundamental que os ministros tenham o
cuidado de não recair em simples censura, cerceando o direito à propaganda dos
candidatos. Se Janones espalhou fake news em seu canal, que fossem derrubados
apenas os posts que violam a lei eleitoral, e não todo o canal. Ao mesmo tempo,
Flávio dispõe de uma onda de conteúdos discutíveis gerados pelo influenciador e
ex-candidato Pablo Marçal, que também merecem vigilância. Ontem mesmo o TSE
ordenou que Marçal apagasse um vídeo falso sugerindo consumo de drogas em ato
de apoio a Lula na Avenida Paulista. Cabe à Justiça Eleitoral zelar pela
paridade de armas na campanha e pelo cumprimento da lei eleitoral — e não se
transformar em instrumento de censura em favor de um ou de outro candidato.
Lula e Flávio precisam ser explícitos sobre seus
planos de ajuste fiscal
Por O Globo
Não haverá equilíbrio nas contas públicas sem
medidas impopulares. O eleitor tem direito a conhecê-las
Os candidatos Flávio
Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula
da Silva (PT) precisam ser mais claros sobre o que farão, em caso de vitória,
para sanear a economia. Embora um ajuste fiscal seja inexorável diante da
deterioração crescente das contas públicas, as campanhas têm evitado se
comprometer com propostas objetivas, preferindo a generalização, o anúncio de
paliativos ou medidas inexequíveis. Prevalece a incerteza, como mostrou
reportagem do GLOBO.
Entre as maiores despesas obrigatórias do
governo estão as aposentadorias e pensões pagas pelo INSS e o Benefício de
Prestação Continuada, destinado a idosos de baixa renda e cidadãos com
deficiência. Hoje esses benefícios são vinculados ao salário mínimo, que tem
sido corrigido acima da inflação. Como 70% dos beneficiários recebem o mínimo,
não é difícil vislumbrar que, a cada reajuste, as despesas cresçam, aumentando
o rombo da Previdência.
Por mais que a questão seja impopular, não haverá ajuste sem encará-la.
Até aqui, Lula não tem emitido sinais de que
mudará o rumo de suas políticas caso vença a eleição. Ao contrário. Enquanto
sua campanha espalha que o adversário acabará com benefícios sociais (Flávio
nega), seu plano defende a manutenção do arcabouço fiscal, a recomposição da
arrecadação por meio do aumento de tributos ou redução de benefícios fiscais e
o crescimento econômico para ampliar receitas. A estratégia não funcionou no
atual governo — e não há motivo para funcionar no futuro. A deterioração das
contas públicas tem se agravado com as medidas eleitoreiras recentes. Na
sexta-feira, a pouco mais de duas semanas das eleições, Lula anunciou que
zeraria impostos sobre combustíveis e ampliaria a subvenção a diesel e etanol. O
impacto é estimado em R$ 5,2 bilhões em um mês, acrescidos à longa lista de
“bondades” anunciadas antes do pleito.
Flávio tem criticado o descontrole fiscal,
mas parece não ter a menor familiaridade com a questão. Seus assessores têm
falado num ajuste da ordem de R$ 200 bilhões já no primeiro ano. Seria uma
ótima notícia, se fosse viável. Mas, além de tal patamar despertar dúvida, a
campanha de Flávio não explica como chegaria lá. Seu programa fala apenas em
medidas genéricas, como enxugamento de ministérios, cortes em cargos
comissionados, redução de despesas administrativas, combate a fraudes no INSS
ou melhoria na gestão de estatais. Ao mesmo tempo, garante que não haverá corte
em benefícios sociais ou nas aposentadorias e que “o salário mínimo será reajustado
acima da inflação”. São promessas incompatíveis. Difícil levá-las a sério.
O ajuste necessário para estabilizar a dívida pública — em torno de 2% do PIB — exige remédios amargos. Não haverá alternativa. A começar pela dissociação dos benefícios sociais do salário mínimo e pela desvinculação de gastos obrigatórios em saúde e educação da receita. Não haverá equilíbrio duradouro sem medidas impopulares. Ou o futuro governo fecha os dutos que drenam recursos públicos, ou a situação das contas só tende a piorar, ameaçando a governabilidade.

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