Valor Econômico
Há sinais fartos de que o país não ficará a reboque de um eventual endurecimento do regime
Dê Flávio, dê Lula, as ruas deixaram de ser
território cativo do bolsonarismo. Foi o que as manifestações deste feriado
mostraram. Se serão suficientes para uma virada é difícil dizer, mas a
reocupação traz um dado que ultrapassa a conjuntura eleitoral. Se perdurarem, podem
vir a respaldar a resistência ao acachapante avanço do PL no Congresso.
A primeira impressão foi a de que a captura do Congresso, ante um Supremo nas cordas proporcionaria a um Flávio Bolsonaro eleito presidente um poder sem freio e a um Luiz Inácio Lula da Silva de mandato renovado, a condição de refém de uma maioria legislativa ainda mais à direita. A assertiva, que caiu como um facão da fatalidade sobre o destino da nação, não durou uma semana.
E não apenas pela reocupação das ruas. A
razão disso está no próprio Legislativo, Poder em que, para o bem e para o mal,
estão as âncoras de acomodação do arranjo institucional do país. Não é apenas
com branco ou preto que se costuram as maiorias legislativas. A votação do fim
da jornada 6x1 marcada para a quarta-feira no Senado é um exemplo. A votação do
Orçamento de 2027 e do arranjo fiscal que viabilizará a futura gestão do
Executivo será outro. É com as atuais Mesas diretoras que o presidente a ser
eleito terá que negociar.
Não por coincidência, a mobilização acontece
ao mesmo tempo em que todos os partidos do espectro de centro-esquerda
reduziram a idade média de suas bancadas na Câmara. Os puxadores de voto da
maioria das legendas, da esquerda à direita, são jovens. Esta já era uma
realidade nos partidos de direita, desde os primórdios das manifestações de
2013, com a chegada de um parlamentar como Kim Kataguiri (Missão-SP) em 2018 e,
quatro anos depois, com Nikolas Ferreira (PL-MG).
Ainda em 2022, chegou ao Psol, com a eleição
de Erika Hilton (SP) e Sâmia Bomfim (SP), e ao PDT, com Tabata Amaral (SP),
hoje no PSB. Agora, finalmente, a renovação chega ao PT, com a eleição de Ana
Elisa (MG) e Luna Zarattini (SP), esta também egressa de 2013. A bancada só não
será maior porque ambições desmedidas impediram que Psol e PT formassem uma
federação.
O mecanismo teria salvo o Psol da cláusula de
barreira por associar o partido à maior capilaridade do PT. Ficou a 185 votos
de atingir o quórum no nono Estado, o Espírito Santo. Com a federação, os votos
de Erika Hilton e Sâmia Bomfim não teriam sido desperdiçados, e poderiam ter
salvo da guilhotina nomes como o ex-presidente do PT Rui Falcão (SP).
Até aqui, os jovens parlamentares, ou
“caçadores de pokemon”, como são apelidados na Câmara, pouco influenciaram na
relação do Executivo com o Congresso. Enquanto se dedicam a vídeos para
viralizar nas redes, a pauta legislativa vai sendo tratorada pelo Centrão. A
primeira pauta, de fato, capitaneada pela bancada jovem com poder de balançar o
coreto é o fim da jornada 6x1, originalmente proposto pelo vereador Rick
Azevedo (Psol-RJ), que também chega à Câmara.
Se o tema foi mantido em pauta é porque o
presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), concluiu que não terá margem
para ser reconduzido num governo Flávio Bolsonaro e resolveu partir para o tudo
ou nada?
É possível. Mas não apenas. A pauta relembra
a Flávio Bolsonaro que, se eleito, terá que negociar com o Congresso que aí
está se não quiser começar seu governo apenas em abril, quando a tramitação do
Orçamento na Casa a ser empossada em fevereiro atravessa o Carnaval e a Páscoa
até que chegue ao plenário. E a negociação também passa pela composição das
Mesas.
Se, em 2022, Lula negociou a PEC da transição
rendendo-se à reeleição das Mesas, a resistência de Jair Bolsonaro em procurar
o Congresso antes de sua posse em 2019, tampouco lhe garantiu o comando das
Casas e a preservação do escopo das reformas. Quando a proposta da Previdência
do ex-ministro Paulo Guedes chegou à Câmara, seu então presidente, Rodrigo
Maia, lhe avisou que a mudança no BPC e na aposentadoria rural não passariam.
É verdade que o PL quase quintuplicou o
número de senadores e mais que dobrou os deputados em relação ao PSL de 2018,
legenda à qual Bolsonaro era filiado. É cadeira suficiente para o partido não
ficar a reboque do Centrão como o fez quando o bolsonarismo chegou ao poder,
mas não basta para dirimir as resistências de uma esquerda que retomou o poder
de mobilização nem tampouco da própria direita.
Se Flávio Bolsonaro se eleger terá mais
facilidade em fazer o presidente do Senado do que o da Câmara, Casa em que terá
que negociar com o Centrão. O Republicanos tem até um nome para manter a Casa,
o do presidente do partido, Marcos Pereira (SP). O engajamento do governador
reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (SP), neste 2º turno, não pode ser
dissociado deste movimento.
No Senado, tudo corre a favor do senador
Rogério Marinho (PL-RN), que, no quesito aparar-arestas perde para a senadora
Teresa Cristina (PP-MS). E não faltarão arestas, a começar pela senadora
eleita, Michelle Bolsonaro (PL-DF), que capitaneou a mais bem-sucedida
ampliação da bancada feminina da história e não aceitará ficar a reboque do
enteado.
O Congresso está mais para uma caixa de ressonância de muitos acordes dissonantes do que para uma relva à espera do tratoraço do bolsonarismo, se as urnas assim o decidirem no dia 25. Neste fim de semana, o eleitor resolveu dar as caras para avisar que também está nessa.

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