sexta-feira, 18 de abril de 2014

Aécio defende fim de divisão ‘nós’ e ‘eles’ na política em campanha exibida nesta quinta

Presidenciável comenta crise na Petrobras e passa 3 dos dez minutos do programa falando de seu avó Tancredo Neves

Flávia Pierry, Júnia Gama – O Globo

BRASÍLIA – No programa do PSDB que vai ao ar nesta quinta-feira em rede nacional de rádio e TV, o senador Aécio Neves (MG), pré-candidato à Presidência da República pelo partido, menciona a Petrobras e a Eletrobras e diz que é preciso acabar com a divisão entre “nós” e “eles” que está sendo vista no país quando o assunto é a política e economia. O formato escolhido é o de entrevista, mais sóbrio e sem imagens de apelo ou jingles. O senador se expressa livremente, sem texto pré-definido, e investe mais nas críticas ao governo atual do que na apresentação de seu programa de governo.

O presidenciável cita no programa os problemas com a Petrobras, a Eletrobras, a transposição do São Francisco, a Transnordestina, a inflação, a falta de diálogo e as manifestações que começaram em junho de 2013.

— Vamos virar essa página, dessa tentativa de fazer sempre uma divisão entre nós e eles. Aqueles que criticam o governo, aqueles que se indignam, como eu estou indignado e acho que tantos brasileiros, com o que está acontecendo com a Petrobras, com o que está acontecendo com a Eletrobras, o que está acontecendo com o Estado brasileiro, são os pessimistas, são os que não gostam do Brasil. E os que bajulam o governo são os patriotas. Nada disso — diz Aécio, em trecho da propaganda que vai ao ar amanhã.

O tucano, apresentado em legenda como "O novo presidente do PSDB", passa quase 3 dos seus 10 minutos disponíveis falando de seu avô Tancredo Neves. Somente depois dessa apresentação Aécio começa a falar de sua carreira política, passando pela presidência da Câmara e pelos dois mandatos como governador de Minas Gerais. Diz que trabalhou pela redução da máquina pública, pela responsabilidade fiscal e ataca o governo Dima:

—O problema não é o Brasil, é o governo que está aí (…) Andei muito pelo Brasil e continuo andando, querendo conversar, querendo ouvir. Não há nada mais perigoso que um governo que não ouve as pessoas (...) Pude perceber de forma muito clara até onde vai a ineficiência do governo.

O responsável pela campanha do PSDB, o marqueteiro Paulo Vasconcelos, afirmou que o formato escolhido para o programa, que terá dez minutos, foi o de uma entrevista. Sem cortes na fala do senador, o depoimento de Aécio é somente intermeado por explicações que aprofundam os assuntos tratados e formulam as perguntas.

— Minha preocupação foi deixar o senador o mais livre possível para se manifestar. Escolhemos o formato de entrevista, nossa preocupação foi evitar cortes e deixar que o pensamento dele fosse livre. É uma peça simples, sem trucagem publicitária. Isso deu a ele uma liberdade maior. Não tem teleprompter, nem direção de texto — disse Vasconcelos. — Os dez minutos correm de uma só vez, e para facilitar a compreensão do cidadão, colocamos algumas perguntas, deixas para o assunto que vem em seguida – explicou.

O vídeo foi gravado há cerca de uma semana, quando já estava deflagrada a crise na Petrobras, com tentativas já em curso de abertura de CPIs sobre a compra da refinaria em Pasadena, nos Estados Unidos, e a prisão de um ex-diretor da estatal. Porém, a peça foi gravada antes dos depoimentos da presidente Graça Foster e do ex-diretor da área Internacional da empresa, Nestor Ceveró, a parlamentares.

Outros assuntos econômicos são citados pelo senador no filme, como os debates sobre a redução de energia e a ajuda do governo federal dada às distribuidoras, entre elas a Eletrobras. O responsável pela campanha destaca que o tema Petrobras foi aprofundado por Aécio no filme, mas que Eletrobras e o setor elétrico não foram explicados com mais profundidade.

— Apostamos no carisma do senador, na capacidade dele de se colocar junto ao cidadão. Alguns temas ele aprofunda, como Petrobras, mas Eletrobras não — disse.

A opção pela sobriedade no vídeo – sem jingles ou ilustrações e em formato de entrevista – se assemelha ao que foi escolhido pela campanha do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e sua vice, Marina Silva, em filme exibido na semana retrasada. Todo em preto e branco, o vídeo do PSB e da Rede não contava com músicas ou imagens de apelo emocional. Porém, o coordenador da campanha tucana evita comparações.

— O estilo não é parecido, há uma diferença grande — afirma Vasconcelos.
Aécio vem se manifestando sobre a crise na Petrobras. Anteontem, após audiência de Graça Foster, no Senado, Aécio disse que a governança da estatal está em xeque. Para o tucano, Graça Foster tem idoneidade, mas deu autonomia excessiva aos diretores, que cometeram erros.

— A governança da Petrobras está em xeque, assim como os fatos pontuais. Ela deixou claro que foi um mau negócio (a compra da refinaria em Pasadena). Acho que ela estimula (a instalação de uma CPI). Ninguém questiona a Graça Foster na sua competência, na sua idoneidade. Mas, na governança, é falha, com diretores que tomam decisões com autonomia — disse Aécio.

Avaliação positiva do governo Dilma é de 34%, mostra pesquisa Ibope

Em 4 meses, aprovação ao governo caiu nove pontos, de 43% para 34%.

Desaprovação à maneira de Dilma governar subiu de 43% para 48%.

Do G1

BRASÍLIA - O total de eleitores que consideram o governo da presidente Dilma Rousseff "bom" ou "ótimo" é de 34%, segundo pesquisa Ibope divulgada nesta quinta-feira (17). Na pesquisa anterior, divulgada no mês passado, a avaliação positiva era de 36% - a variação ocorreu dentro da margem de erro.

Em quatro meses, a aprovação ao governo Dilma caiu nove pontos. Em dezembro do ano passado, os que consideravam o governo "bom" ou "ótimo" somavam 43% contra os atuais 34%.

O levantamento foi realizado entre os dias 10 e 14 de abril em 140 municípios com 2.002 pessoas maiores de 16 anos. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos e o nível de confiança é de 95%.

A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob o número BR-00078-2014 (em ano eleitoral, todas as pesquisas, mesmo que não sejam de intenção de voto, devem ser registradas).

Os dados mostram que o percentual de quem acha o governo Dilma "ótimo" foi de 6%, e de quem o julga "bom" foi de 28% - a avaliação positiva soma os dados de "ótimo" e "bom". Os que consideram o governo "regular" somaram 34%. Já o total de quem o avalia "ruim" foi de 14%, enquanto 16% analisaram como "péssimo" - a avaliação negativa soma o "ruim" e o "péssimo". Dos entrevistados, 2% não souberam ou não quiseram responder.

Popularidade
A pesquisa mostra ainda que a desaprovação à maneira de Dilma governar subiu de 43% para 48%. Passou de 51% para 47% os que aprovam a maneira de governar - variação dentro da margem de erro. Com o resultado, o percentual de quem desaprova o governo passou a ser maior do que o de quem aprova.

A pesquisa mostra ainda que, dos entrevistados que desejam mudanças no governo, 64% esperam que elas sejam implementadas por outro presidente e não por Dilma Rousseff. Para 25%, as mudanças poderiam ser realizadas pela própria Dilma.

Dos ouvidos, 24% avaliam que Dilma tem mais condições de implementar as mudanças que o Brasil precisa. Outros 19% acham que o candidato mais preparado é Aécio Neves (PSDB). Para 15%, o nome ideal é Marina Silva e 7% acham que é Eduardo Campos.

Campos e Marina estarão juntos na chapa presidencial do PSB - o pré-candidato à Presidência é Eduardo Campos com Marina Silva como vice. A Justiça eleitoral, no entanto, permite mudança na composição até 20 dias antes da eleição.

Intenção de voto em Dilma cai de 40% para 37%, aponta Ibope

Presidente ainda venceria eleição em primeiro turno nos dois cenários, tendo como oponente Eduardo Campos ou Marina além de Aécio


O Globo

BRASÍLIA - Pesquisa Ibope/Globo divulgada nesta quinta-feira aponta que as intenções de voto na presidente Dilma Rousseff (PT) variaram de 40% em março para 37% neste mês, conforme informa o site “G1”. Apesar da queda, a presidente seria eleita no primeiro turno nos dois cenários da pesquisa: tendo como adversários Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) ou Aécio Neves e Marina Silva (PSB).

No primeiro cenário, Aécio aparece com 14% e Eduardo Campos com 6%. Em seguida vêm Pastor Everaldo (PSC), com 2%; Denise Abreu (PEN), 1%; e Randolfe Rodrigues (PSOL), 1%. Eymael (PSDC), Levy Fidélix (PRTB), Mauro Iasi (PCB) e Eduardo Jorge (PV) não alcançaram 1%. Os que disseram que votarão em branco ou nulo somaram 24% e os quem afirmaram que não sabem em quem votar ou não responderam, 13%.

No segundo cenário, Aécio está em segundo lugar com 14% e Marina Silva em terceiro, com 10%. Os demais são Pastor Everaldo (2%); Denise Abreu, Randolfe Rodrigues e Eduardo Jorge (1% cada); e Eymael, Levy Fidélix e Mauro Iasi (0%). Brancos e nulos são 23% e não sabem/não responderam, 12%. Na segunda-feira, Eduardo Campos e Marina Silva anunciaram a chapa que vão compor para as eleições, tendo Mariana como vice, o que inviabiliza esse cenário. Porém, até 20 dias do primeiro turno da eleição, marcada para 5 de outubro, os partidos podem trocar de candidato.

Quando não foi apresentada uma lista de candidatos, 23% dos entrevistados disseram que votarão em Dilma; 7% em Aécio; 6% em Lula; 4% em Marina; 2% em Eduardo Campos; 1% em José Serra; e 2% em outros candidatos com menos de 1% das intenções de voto. Na pesquisa espontânea, brancos e nulos somam 19% e não sabem/não respondeu, 37%.

Para a pesquisa, foram ouvidas 2.002 pessoas, maiores de 16 anos, em 140 municípios. A coleta de dados foi feita entre quinta-feira passada e segunda desta semana. O levantamento tem nível de confiança de 95% e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o protocolo BR-00078/2014. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais ou menos.

A sondagem é a primeira após irem ao ar uma série de inserções de TV dos prováveis oponentes de Dilma, o senado Aécio Neves (PSDB) e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). O programa da campanha de Campos foi ao ar no final de março. Mas o programa de dez minutos do pré candidato tucano vai ao ar na noite desta quinta-feira.

Antes de divulgação da pesquisa, o mercado financeiro reagiu à expectativa de que o levantamento mostraria uma queda de Dilma. O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), subiu forte nesta quinta-feira, enquanto circulam nas mesas de operações que a pesquisa Ibope mostraria “queda significativa” na preferência de voto da presidente Dilma Rousseff. Na máxima, o índice chegou a subir 2,22%. No fechamento, a alta foi de 1,78%, aos 52.111 pontos. O giro financeiro foi de R$ 5,8 bilhões.

Resultado deixa auxiliares de Dilma preocupados

Débora Álvares, Eduardo Bresciani e Vera Rosa - Agência Estado

A pesquisa Ibope deixou auxiliares da presidente e a cúpula do PT preocupados. O que mais chamou a atenção dos petistas foi o fato de Dilma ter a forma de governar desaprovada pela maioria da população, que deseja mudanças. O discurso público, porém, é de que a oscilação foi normal e o destaque à manutenção da possibilidade de vitória no primeiro turno. Para a oposição, os números mostram um grande espaço de crescimento para Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB).

A preocupação do Planalto é que o desejo de mudança vem se refletindo na perda de aprovação entre jovens e mesmo entre eleitores de classes mais baixas e beneficiários de programas sociais, como o Bolsa Família e Brasil Sem Miséria. A avaliação é que além das denúncias que motivam a oposição a tentar emplacar uma CPI da Petrobras, a economia, em especial a inflação, tem afetado os índices de popularidade. Em público, porém, petistas afirmam que a queda de intenções de voto de Dilma - de 40% em março para 37% em abril - é uma "oscilação normal".

"Diante do tiroteio que o governo e a presidente tem sofrido, os resultados são extremamente satisfatórios. Não só porque ela está em patamar semelhante, mas porque os candidatos mais fortes da oposição não conseguiram se colocar como alternativa", afirmou o líder do PT no Senado, Humberto Costa. "Nosso grande desafio é mostrar que este projeto não está esgotado e pode se renovar", complementa.

O candidato do PSB, Eduardo Campos, afirma que o mais importante no momento é o crescimento do desejo de mudança. Observa ainda que o eleitor ainda não está com a cabeça na sucessão e, por isso, não definiu seus candidatos. "O importante é o desejo de mudança que está claro na sociedade brasileira e tem sido refletido nas pesquisas", afirmou. O líder do PSB, Beto Albuquerque (RS), ressalta o baixo índice de Dilma para quem está no poder. "Para quem governa, ter essa nota é muito ruim. Nenhuma criança passaria de ano na escola com 37", ironiza.

O presidente do DEM, José Agripino (RN), acredita que a economia está por trás da queda de Dilma. "É produto das evidências de perda do controle da economia, o aumento da inflação, que está entrando na casa das pessoas". Para ele, o adversário com maior potencial de ir a um possível segundo turno e vencê-la nas eleições é o que melhor explorar questões que ainda não impactaram nas pesquisas. "As denúncias de corrupção continuada ainda não fizeram efeito, bem como a gestão ineficiente, a perda de pontos nas agências de classificação de risco. Esses pontos estão por produzir efeito e é em cima deles que Aécio e Campos têm chances de crescer", afirmou.

PT tem chance real de perder, diz cientista político

Para Sergio Praça, da Universidade Federal do ABC, PT não deve estar 'nem confiante nem desesperado'

Letícia Sorg - Agência Estado

O cientista político Sérgio Praça afirmou que os números da pesquisa Ibope divulgada nesta quinta-feira não chegam a ser "catastróficos para o governo". "O PT tem uma chance real de perder a Presidência, mas, do ponto de vista dele, não estaria nem confiante nem desesperado", afirmou o professor de Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC. "Estaria torcendo para a Copa dar muito certo. Não para o Brasil ganhar, mas para o evento não ter tragédias com estrangeiros ou caos aéreo."

Segundo Praça, o fato de o Brasil expor seus problemas aos estrangeiros não é o principal, mas sim a questão de que os turistas podem enfrentar os mesmos problemas que os brasileiros já notam no dia a dia. "Não é à toa que a presidente Dilma Rousseff tem falado muito, desde o ano passado, sobre a segurança na Copa do Mundo", disse o especialista. "Isso está na cabeça do governo, porque seria uma falha muito fácil para a oposição explorar." Segundo ele, o uso eleitoral de questões envolvendo o BNDES ou a Petrobras é muito mais difícil. "Atrasos em aviões, violência contra turistas são muito mais fáceis de ser explorados pela oposição, até porque geram imagens", afirmou.

Se correr tudo bem com a Copa, a oposição, na avaliação do especialista, pode "perder tempo" tentando explorar escândalos menores na tentativa de atingir a imagem da presidente Dilma Rousseff (PT), que lidera a disputa pela reeleição com 37% das intenções de voto no cenário mais provável, que inclui pré-candidatos de partidos pequenos. "Esses escândalos não vão colar, a não ser que tenham uma ligação muito direta com Dilma ou com um ministro forte dela, como o Mantega", afirmou. "A mídia tem uma tendência de enfatizar os escândalos, o que pode levar a superestimar o impacto eleitoral dessas notícias. Precisa ver o quanto o escândalo é inteligível pelo eleitorado."

Na opinião de Praça, o peso da corrupção na escolha dos candidatos deve ser relativizado, porque poucos eleitores mantêm a ideia de que é possível haver um governo "salvador", sem corrupção, seja ele de que partido for.

Potencial de Campos
Para Praça, o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB) tem um grande potencial eleitoral que ainda não está claro nas pesquisas. O levantamento Ibope divulgado nesta quinta-feira mostra Campos com 6% das intenções de voto no cenário mais provável para outubro. "Os porcentuais de Campos e Marina agora não significam nada. Ele tem um potencial enorme", afirmou.

Como seu partido, o PSB, não tem histórico na administração nacional ou mesmo em Estados importantes da federação, a sua taxa de rejeição deve continuar baixa em relação aos demais concorrentes. Hoje, segundo a pesquisa Ibope, o porcentual de pessoas que não votariam em Eduardo Campos de jeito nenhum está em 21%, ante 33% de Dilma e 25% de Aécio Neves (PSDB). "Aécio e Dilma têm pontos fracos claros. Aécio por conta do histórico do PSDB e do governo de São Paulo, que tem uma avaliação ruim. Dilma por conta de ser governo", disse.

Na avaliação de Sérgio Praça, a eleição de outubro será a primeira realmente competitiva dos últimos tempos, por ter ao menos duas forças políticas novas, Aécio e Campos, sem mencionar Marina Silva, que é relativamente nova no cenário eleitoral. "A grande notícia é o Eduardo Campos, e as pesquisas não estão refletindo ainda porque a eleição ainda não começou", afirmou.

Tanto Aécio quanto Campos estão fazendo o que podem no momento, mas ainda estão estruturando suas estratégias de campanha. Segundo o especialista, a expectativa negativa dos agentes econômicos para a situação do País em 2015 pode ter um impacto positivo no financiamento das campanhas oposicionistas. "Por causa dessas expectativas, Aécio e Campos devem ter mais dinheiro em campanha do que teriam", avaliou.

Abrucio:menor intenção de voto deve preocupar Dilma

Daniel Galvão - Agência Estado

O cientista político Fernando Abrucio, professor e pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo, afirmou nesta quinta-feira, 17, que a queda das intenções de voto, acompanhada da perda da popularidade, deve ser um fator de "preocupação" para a presidente Dilma Rousseff (PT), pré-candidata à reeleição, na campanha eleitoral. "É um processo (de queda das intenções de voto) ainda pequeno, mas matematicamente contínuo, o que acompanha, na boa medida, a relativa perda de popularidade presidencial", afirmou.

Abrucio, que é doutor em ciência política pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), lembrou que o declínio contínuo da avaliação do governo Dilma se aproxima dos dados de junho, quando ela teve queda na popularidade após as manifestações de rua. "Parece bastante preocupante para Dilma, embora não haja um crescimento dos candidatos de oposição", disse.

Pesquisa Ibope divulgada nesta quinta-feira, 17, revela que a parcela dos brasileiros que considera a gestão ótima ou boa oscilou negativamente pela terceira vez no ano, passando de 36% em março para 34% em abril. Em relação à pesquisa eleitoral, num dos cenários, que inclui pré-candidatos dos pequenos partidos, a presidente caiu de 40% em março para 37% em abril. Em outro, sem os considerados "nanicos", Dilma caiu de 43% no levantamento divulgado em março para 39%.

Segundo o cientista político, entretanto, não há nenhum fenômeno de oposição acontecendo no momento. De acordo com Abrucio, embora haja um sentimento de mudança em grande parte da população, os números da pesquisa não expressam esse desejo. Conforme o cientista, somente um tipo de discurso eleitoral pode ser mais incisivo contra Dilma: o que una três tópicos - melhoria do serviço público em geral, combate à inflação e medidas contra a corrupção.

"O eleitorado, sobretudo o mais pobre, em grande medida, quer mudança, mas sem alterar as transformações sociais que ocorreram nos últimos dez anos. Alguém que seja capaz de melhorar o serviço público, controlar a inflação e combater a corrupção, mas sem que isso leve à redução da qualidade de vida", disse. "Qualquer candidato de oposição tem de mostrar que quer fazer mudança nesses três pontos."

Na análise de Abrucio, estrategicamente falando, o pré-candidato a presidente Aécio Neves (PSDB) não deveria apenas se mostrar como o "candidato da mudança", mas como alguém que seja capaz, sobretudo, de mudar sem retroceder nos avanços sociais. O professor e pesquisador da FGV em São Paulo também prevê um foco maior de tensão, depois de junho, entre Aécio e o pré-candidato Eduardo Campos (PSB). "Depois de junho, é possível que o Campos esteja mais próximo do Aécio nas pesquisas e, se Campos for capaz de se construir como o candidato da mudança sem tirar o avanço social, ele pode dar um pulo."

Popularidade de Dilma segue em queda e se aproxima de seu ponto mais baixo, mostra Ibope



Fernando Gallo – O Estado de S. Paulo

A avaliação do governo Dilma Rousseff segue em tendência de piora, com índices que beiram os patamares apresentados logo após as manifestações de junho. Pesquisa Ibope divulgada nesta quinta-feira revela que a parcela dos brasileiros que considera a gestão ótima ou boa oscilou negativamente pela terceira vez no ano, passando de 36% em março para 34% em abril. Em dezembro, no pico da recuperação pós-protestos, a aprovação chegou a 43%. Em fevereiro era de 39%.

De outro lado, a avaliação negativa do governo é a segunda pior da série histórica do governo Dilma, tendo subido de 27% em março para 30% em abril. O índice só não é pior do que o apurado em julho de 2013, quando chegou a 31% e empatou com a avaliação positiva do governo, que despencara de 55% para os mesmos 31%. Aquela pesquisa foi a primeira após a massificação dos protestos de rua nas principais cidades do País.

A queda da aprovação da administração federal guarda relação com a piora do cenário econômico. O índice de confiança do consumidor – indicador com a maior correlação com a avaliação do governo -, por exemplo, registrou em fevereiro a maior queda mensal de sua história, quando baixou 4,5%, chegando ao menor nível desde julho de 2009. O patamar foi mantido em março. Por sua vez, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), índice oficial de inflação, teve alta de 0,92% em março, maior taxa mensal em 11 anos.

No período, a presidente Dilma também foi exposta a um noticiário negativo em relação à sua capacidade de gestão após a revelação de que ela deu aval à compra da refinaria de Pasadena (EUA) pela Petrobrás quando era presidente do conselho de administração da estatal.

Além de avaliar o governo como um todo, o Ibope pesquisou também a opinião dos brasileiros sobre o desempenho pessoal de Dilma na Presidência, cuja avaliação também caiu. Sua conduta é aprovada por 47% e desaprovada por 48%. Em março, a taxa de aprovação era de 51%, e a de reprovação, 43%.

Governo. Na avaliação do governo, em termos geográficos, à exceção da região Sul, houve apenas oscilações dentro da margem de erro. No Nordeste, a aprovação do governo Dilma passou de 45% para 43%, no Norte e no Centro-Oeste foi de 39% para 40% e no Sudeste subiu um ponto percentual para 30%. No Sul, onde o número de entrevistados é menor e pode haver maiores oscilações, ela caiu de 39% para 25%.

A desaprovação da administração federal entre os que moram na periferia aumentou 11 pontos percentuais, passando de 27% para 38% de pessoas que consideram o governo ruim ou péssimo. Também caiu 11 pontos a avaliação regular do governo, saindo de 42% para 31%. A avaliação positiva passou de 31% para 29%.

Nas capitais e no interior tanto a avaliação positiva quanto a negativa oscilaram dentro da margem. No primeiro caso, atualmente 32% veem o governo como ótimo ou bom. No interior, a taxa é de 37%.

O governo é mais bem avaliado nos municípios menores. A aprovação é de 45% nas cidades de até 20 mil habitantes e de 30% nas que abrigam mais de 100 mil moradores.

Na divisão do eleitorado por escolaridade, a queda na aprovação do governo se concentrou na faixa com curso superior (de 26% para 20%). No outro extremo, entre os que estudaram até a 4.ª série, a variação foi de 48% para 49%.

No quesito renda, 51% das pessoas que ganham até um salário mínimo avaliam o governo como ótimo ou bom (eram 48% na pesquisa anterior), número que cai para 38% na faixa dos que ganham entre um e dois salários mínimos (eram 40%). Entre os que recebem acima de 10 salários mínimos, o índice foi de 23% para 24%. Nessa faixa, contudo, a reprovação do governo aumentou, chegando a 43% – o índice era de 41% em março, 35% em fevereiro e 25% em dezembro.

A pesquisa revela ainda que, quanto mais jovens os eleitores, mais eles são críticos em relação ao governo. Entre aqueles com menos de 25 anos, a aprovação à gestão da presidente é de 30%, ao passo que 35% consideram o governo ruim ou péssimo. Entre os que têm 55 anos ou mais, 39% avaliam o governo como bom ou ótimo, e 28% o desaprovam.

Metodologia. O levantamento do Ibope foi feito em 140 municípios. Foram ouvidos 2002 eleitores. Como a margem de erro é de dois pontos porcentuais, a aprovação ao governo pode estar entre 32% e 36%. No levantamento anterior, de março, poderia se situar entre 34% e 38%. O nível de confiança utilizado é de 95%. A pesquisa foi registrada sob o número BR00078/2014.

Queda de Dilma não reflete na oposição, avalia especialista

Para cientista político Victor Marchetti, da Universidade Federal do ABC, há pouco espaço para uma terceira via, como pretende o pré-candidato Eduardo Campos

Letícia Sorg - Agência Estado

A oscilação negativa da intenção de voto da presidente Dilma Rousseff (PT) não se reverteu em um aumento da preferência do eleitorado para os pré-candidatos de oposição. "Dilma tem uma oscilação negativa que é significativa, porque pode indicar uma tendência de queda, mas o que a gente vê é uma estabilidade cômoda das candidaturas de oposição", afirma o cientista político Vitor Marchetti, professor da Universidade Federal do ABC, aoBroadcast Político, serviço de notícia em tempo real da Agência Estado.


Segundo o especialista, no retrato exibido nesta quinta-feira, 17, pela pesquisa Ibope, é interessante notar que, apesar de ter um desempenho melhor do que o de Eduardo Campos (PSB), a ex-senadora Marina Silva (PSB) não parece conseguir extrair votos nem de Dilma nem de Aécio Neves (PSDB). Marchetti também chama atenção para o fato de que votos brancos, nulos e indecisos somam 37%, o mesmo porcentual de intenção de votos da favorita, Dilma Rousseff.

Diante desse cenário, o cientista político acredita que há pouco espaço para uma terceira via, o objetivo de Campos. "É bem possível que ainda tenhamos uma eleição no padrão dos anos anteriores, em que o PSDB e o PT dividiram boa parte dos votos", disse Marchetti.

Ele lembra que mais da metade dos votos válidos tem se concentrado nas candidaturas dessas duas siglas desde 1994 e que, considerando as pesquisas recentes, uma alternativa a essa polarização não se consolidou. Para ele, o discurso de esgotamento da polarização está "mais no Facebook do que nas urnas".

Marchetti pondera, porém, que ainda é cedo para avaliar os potenciais de cada candidato, até porque o eleitor ainda não entrou na campanha. "As pesquisas apontam tendências, que definem a maneira como o eleitor vai entrar na campanha. E, neste momento, elas mostram que a polarização vai imperar", afirmou. "O eleitor ainda está funcionando de modo antagônico, fazendo a polarização. E Dilma ainda está numa posição confortável, mesmo com as quedas e com um cenário não tão positivo quanto antes."

Para o especialista, as pesquisas mostram o tamanho da tarefa que Campos terá pela frente até outubro. "A candidatura de Campos não é tão fraca a ponto de não levar a eleição para o segundo turno, mas vai ter muito trabalho para ir para esse segundo turno", avaliou.

Eduardo propõe 'novo desenvolvimentismo' para economia

A proposta, segundo o ex-governador de pernambuco, agregará os projetos de desenvolvimento econômico com sustentabilidade

Jornal do Commercio (PE)

O pré-candidato do PSB à Presidência da República, Eduardo Campos, pretende centrar seu programa econômico de governo no "novo desenvolvimentismo". Essa proposta, segundo Campos, agregará os projetos de desenvolvimento econômico com sustentabilidade, respeitando o tripé responsabilidade fiscal, metas de inflação que sejam de fato cumpridas e câmbio flutuante. "É imperioso recuperar a confiança dos investidores", ressaltou Campos, em entrevista exclusiva.

O ex-governador afirma que o mercado e os grupos econômicos têm grande curiosidade e expectativa sobre suas propostas para a área. "Vamos deixar muito claro que todas as regras previstas para os contratos serão cumpridas. Não haverá mudanças no meio do caminho. Quando o empresário investir no Brasil, saberá que não terá surpresas."

Os economistas Eduardo Gianetti da Fonseca e André Lara Rezende chefiarão a equipe que vai cuidar dos projetos econômicos. Os dois são ligados à ex-ministra Marina Silva, sua candidata a vice. Campos pretende começar a tornar as propostas da área conhecidas a partir do dia 30, quando o PSB fará um seminário em São Paulo, que reunirá economistas e empresários.

Para Campos, há uma desconfiança total em relação ao comportamento das autoridades por parte de investidores e empresários porque, segundo ele, o governo adota regras contraditórias. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Eduardo vai rodar do Sul ao Norte do Brasil em 5 dias na próxima semana

Presidenciável inicia viagens pelo País na terça-feira (22), em encontros de pré-campanha. Objetivo é tornar-se conhecido

Felipe Lima – Jornal do Commercio (PE

O pré-candidato à Presidência da República Eduardo Campos (PSB) coloca ao pé na estrada a partir da próxima terça-feira (22). Vai do Sul ao Norte do País em cinco dias. A maratona para se tornar conhecido Brasil afora e disseminar sua aliança com Marina Silva (PSB), sua pré-candidata à vice, começa em Santa Catarina, em uma palestra para empresários. E termina no sábado, em Manaus, em um “encontro programático” da chapa PSB, Rede e PPS dentro da Assembleia Legislativa do Amazonas.

No meio da agenda, uma série de entrevistas coletivas, reuniões com cooperativas, sindicatos e entidades empresariais e encontros com chefes de Executivo, como no caso do governador do Pará, Simão Jatene (PSDB), na tarde da quinta-feira (24). E dos prefeitos de Cascavel (PR), Edgar Bueno (PDT), e de Foz do Iguaçu (PR), Reni Pereira (PSB). Fará ainda uma palestra para os prefeitos da região do Oeste do Paraná.

A região é estratégica para a economia daquele Estado. Foz do Iguaçu e Cascavel são considerados polos regionais. A primeira cidade tem o turismo e o comércio na fronteira com Argentina e Paraguai como carros-chefes econômicos. A segunda se destaca na produção agropecuária. Afora as duas, compõem o Oeste paranaense Medianeira, Marechal Cândido Rondon, Assis Chateaubriand e Palotina.

Em Cascavel, Eduardo recebe na Associação dos Municípios do Oeste do Paraná (Amop) documento com propostas e reinvindicações de programas e obras de infraestrutura cobrados há alguns anos pelas cidades.

A agenda mais comemorativa ocorre em Manaus. O ex-governador de Pernambuco recebe o título de cidadão da capital amazonense na sexta-feira (25). Faz visita à fábrica de motos da Honda. Visita ainda o empresário Phelippe Daou, proprietário da Rede Amazônica companhia de comunicação, afiliada da Rede Globo e dona de emissoras de TV e rádios por toda a região Norte.

Em Belém, onde desembarca um dia antes da agenda em Manaus, Eduardo almoça com os empresários da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa), da Federação da Agricultura do Pará (Faepa) e Federação do Comércio do Pará (Fecomércio-PA). À noite, no Centro de Convenções da capital paraense, liderará um grande encontro com a militância.

As cidades escolhidas nessa primeira onda da pré-campanha são capitais ou municípios considerados de médio porte, com mais de 200 mil habitantes.

Dilma atende Lula e parte para o ataque

Presidente adota tática "bateu, levou" e reage publicamente a críticas sobre governo, como antecessor havia pedido

Entre as ofensivas do Planalto está uma campanha publicitária para tentar resgatar o apoio popular à Copa

Natuza Nery – Folha de S. Paulo / EBC

BRASÍLIA - A recente intervenção implícita do ex-presidente Lula no governo já teve resultados. Nas últimas semanas, a presidente Dilma Rousseff acatou algumas recomendações do padrinho político e adotou a tática "bateu, levou".

A ordem agora é não deixar nenhuma crítica sem resposta, comparar as gestões tucanas com os mandatos do PT e melhorar a divulgação das ações vinculadas diretamente à presidente, como os programas Pronatec e Mais Médicos, por exemplo.

Nos bastidores, o ex-presidente vinha alertando que Dilma precisava fazer a "disputa política" por meio da imprensa e pelos canais oficiais de comunicação, com o uso de propaganda institucional e até mesmo lançando mão de pronunciamentos em cadeia nacional de rádio e TV.

Em uma conversa a sós com Dilma há duas semanas, Lula listou uma série de providências para reverter queda nas pesquisas. Duas delas: resolver problemas no programa Minha Casa Minha Vida e adotar uma ofensiva para resgatar o apoio da população à Copa.

Segundo interlocutores, o ex-presidente voltou a insistir na necessidade de Dilma ampliar o diálogo com o setor privado e setores da sociedade civil organizada. Ela já abriu sua agenda para empresários e banqueiros.

Em uma ação exclusiva para reverter percepções negativas sobre a Copa --uma das maiores preocupações do Planalto no período eleitoral--, a presidente decidiu receber jornalistas esportivos. A data ainda não foi marcada, mas a iniciativa parte da avaliação de que a imprensa alimenta um pessimismo em relação ao Mundial.

Sobre a Petrobras, Lula orientou a sucessora a partir para o ataque. Nesta semana, a presidente fez uso da estratégia e afirmou, em Pernambuco, reduto do adversário Eduardo Campos (PSB), que não "admitirá que nada nem ninguém" destrua a estatal.

Foi a primeira vez que Dilma falou publicamente sobre a polêmica em torno da compra de uma refinaria nos EUA, assunto vastamente explorado pela oposição.

Outros exemplos da tática "bateu, levou" são a reclamação disciplinar contra a promotora que pediu quebra de sigilo de celulares do Planalto, a elaboração de uma propaganda oficial contra alegação de que o governo federal seria responsável pelo aumento da conta de luz em Minas e uma requisição ao Facebook para que retire do ar sites ofensivos à presidente.

Sobre a Copa, uma campanha publicitária entrará em cena, possivelmente no fim deste mês, como mostrou a edição de ontem do jornal "Valor Econômico". O PT e Lula cobram um discurso que reforce o legado para o povo, não somente para turistas e frequentadores dos estádios.

Petrobras publica anúncio sobre Pasadena em jornais

Estatal apresentou novos números para respaldar a compra de metade da refinaria em 2006

Agência Estado

A Petrobras publicou nesta quinta-feira anúncio de página inteira nos principais jornais do País com esclarecimentos sobre a compra da refinaria de Pasadena. O conteúdo é o mesmo de comunicado enviado às redações na véspera, baseado no depoimento da presidente Graça Foster no Senado. A estatal apresentou novos números para respaldar a compra de metade da refinaria em 2006, repetiu o discurso da presidente Dilma Rousseff de que cláusulas importantes do acordo foram omitidas na reunião de conselho que aprovou a aquisição e classificou o negócio de “um empreendimento de baixo retorno sobre o capital investido”.

Em fevereiro passado, a estatal também publicou anúncios nos principais jornais destacando os recordes na produção do pré-sal. A publicação foi uma reação a críticas sobre declínio de produção e após reportagem do Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, mostrando que a estatal está produzindo um barril de água para cada um de petróleo na Bacia de Campos, principal do País.

A Petrobras, que não costuma divulgar seus gastos com marketing, intensificou a presença na mídia desde o ano passado. A campanha é comandada pelo gerente executivo da Comunicação Institucional da Petrobras, Wilson Santarosa, ex-sindicalista da Central Única de Trabalhadores (CUT). A entidade, maior do setor de petróleo, é tida como alinhada politicamente com o PT desde o primeiro governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Em maio do ano passado a Petrobras lançou uma megacampanha em várias mídias pela comemoração de seus 60 anos, completados em outubro passado. Em 14 de dezembro, já passado o aniversário da empresa, a campanha foi incrementada com o lançamento de um comercial destacando as realizações da estatal em 2013. A peça destaca a construção de um número recorde de plataformas no Brasil.

Com o tema “Gente. É o que inspira a gente” e “A melhor maneira de inspirar um país é construindo seu futuro”, a campanha foi lançada em TV aberta e fechada em horário nobre, com peças também em rádio, revistas, jornais, internet e tablet. O lançamento contou com um evento na sede da estatal, com a presidente Graça Foster, e jornalistas de outros Estados, que tiveram os custos de viagem bancados pela companhia.

Inflação de alimentos atormenta as famílias

Comida e bebida respondem por mais de metade da alta do custo de vida em abril. Preços aumentam 6,19% em 12 meses, distanciando-se ainda mais da meta de 4,5%

Deco Bancillon – Correio Braziliense

A inflação voltou a acelerar em abril, um sinal de que nem mesmo um ano consecutivo de elevações na taxa básica de juros (Selic) foi suficiente para derrubar a escalada dos preços. O custo de vida acumulado em 12 meses subiu de 5,90%, em março, para 6,19% em abril, distanciando-se ainda mais do centro da meta de inflação perseguida pelo Banco Central, de 4,5%. Há quatro anos consecutivos, essa taxa não é alcançada, e, a julgar pelos números recentes da economia, é pouco provável que a alta dos preços fique abaixo de 6% no ano em que a presidente Dilma Rousseff deverá tentar a reeleição.

Entre março e abril, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), considerado uma prévia da inflação oficial, avançou de 0,73% para 0,78%. A expectativa do mercado financeiro, no entanto, era de uma variação ainda maior, de 0,80%, puxada, principalmente, pelos preços ainda salgados de alimentos in natura.

De fato, o grupo alimentação e bebidas exerceu a maior pressão sobre a inflação em abril, respondendo por 57% da alta do IPCA-15. Foram os casos do leite e do tomate, que registraram altas de 5,70% e de 14,80%, respectivamente. O brasileiro que foi ao supermercado também se surpreendeu com o preço da batata, que ficou, em média, 26,96% mais cara. A escalada não assustou só o consumidor, mas também o governo.

Responsável por controlar a carestia, o Banco Central já havia alertado para os riscos de um possível choque de preços dos alimentos. Mas, em declarações recentes, o presidente da instituição, Alexandre Tombini, deu a entender que mesmo ele foi surpreendido com a elevação do custo de vida, ao mencionar que “a inflação tem se mostrado mais resistente do que se imaginava”.

Piada do tomate
A disparada dos alimentos começou no ano passado, quando problemas climáticos também pressionaram a inflação. “Tivemos um período de alta muito forte dos itens in natura, em 2013, com o tomate ganhando os holofotes e virando piada nas redes sociais”, lembrou o economista Wellington Ramos, da Austin Rating. “Era de se esperar que os preços caíssem, mas o que temos observado é que a pressão tem se sido maior do que em outros anos”, assinalou.

Nos últimos 12 meses até abril, o grupo alimentação e bebidas registrou variação de 7,90%. Foi a maior alta desde dezembro de 2013, quando esse item acumulava elevação anual de 8,48%. “Nós esperamos ver, em breve, alguma perda de fôlego dos alimentos”, disse Ramos. “O mesmo não se pode dizer da inflação como um todo, que ainda deve continuar bastante elevada”, refletiu.

Avaliação semelhante tem o diretor de Pesquisas Econômicas para a América Latina do banco norte-americano Goldman Sachs, Alberto Ramos. “O aumento do preço dos alimentos tem recebido muita atenção dos brasileiros e foi identificado como o principal motor das recentes pressões inflacionárias. No entanto, a inflação no Brasil está bastante generalizada e disseminada por toda a economia”, escreveu o economista, em relatório.

“Surpreendentemente”, emendou Ramos, cinco dos oito grupos não alimentares pesquisados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) tiveram inflação anual superior a 6,5%, o teto da meta perseguida pelo BC. “Na verdade”, acrescentou, “dos grupos pesquisados, educação e despesas pessoais têm registrado elevações ainda superiores à do item alimentação e bebidas.”

A consequência dessa inflação mais disseminada foi a elevação do chamado índice de difusão — que mede a proporção de produtos que ficaram mais caros no mês. Como observou o economista Elson Teles, do Itaú Unibanco, o indicador subiu para 72,9% em abril, contra 66,8% em março. O governo considera qualquer taxa acima de 60% “preocupante”, segundo uma fonte do alto escalão da equipe econômica.

Seca atrapalha
Os itens produzidos no campo estão mais caros por causa de uma estiagem não esperada para este início de ano, que tem provocado pressão também sobre a conta de luz. Em meio à escassez de chuvas, o sistema elétrico teve de ser socorrido pelas usinas térmicas, que, além de poluentes, são mais caras. O remendo custou caro. Assim como os alimentos, a conta de luz também está mais alta para os consumidores

Pasadena, a toque de caixa: O Estado de S. Paulo - Editorial

Ao reconstituir a história da compra da Refinaria de Pasadena, em depoimento na Câmara dos Deputados, quarta-feira, o ex-diretor da área internacional da Petrobrás Nestor Cerveró contou que, depois de um ano de negociações, a diretoria executiva da estatal aprovou em 5 de fevereiro de 2006 a aquisição de metade da instalação pertencente à belga Astra Oil por US$ 359,2 milhões. A decisão foi levada ao Conselho de Administração da empresa e aprovada por unanimidade - no dia seguinte!

Dificilmente se encontrará anomalia maior nos registros da transação que custaria à Petrobrás US$ 1,249 bilhão, conforme o "esclarecimento" de página inteira que ela publicou na imprensa, e deixaria um rombo de US$ 530 milhões, como admitiu a sua atual presidente, Graça Foster, ao depor no Senado na véspera da ida de Cerveró. A nota, aliás, não faz menção ao prejuízo. Limita-se a dizer que o que parecia "um bom negócio" quando foi fechado "transformou-se em um empreendimento de baixo retorno sobre o capital investido".

Da perspectiva do modo pelo qual, pelo menos nesse caso, a maior companhia brasileira toma decisões envolvendo desembolsos milionários, o desenlace do investimento em Pasadena, que de fato poderia parecer promissor dois anos antes da quebra de Wall Street, chega a ser secundário. À luz da revelação de Cerveró - que reduz o Conselho presidido pela então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e integrado por autoridades, empresários e executivos de gabarito à condição de mera repartição homologadora -, pouco importa, por exemplo, se o colegiado avaliou corretamente a estratégia que levou a Petrobrás a buscar um nicho nos Estados Unidos.

Tanto faz também se os conselheiros se fundamentaram apenas em um resumo executivo, "técnica e juridicamente falho", como Dilma admitiu, ou se a papelada completa da operação estava a seu alcance, como rebateu o então presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli. Tanto faz ainda se as cláusulas omitidas no parecer de Cerveró "não tinham importância", como avalia, ou se eram tão lesivas à estatal que "seguramente" levariam Dilma a barrar a compra, se, como afirmou, delas tivesse conhecimento.

O resumo executivo tinha uma página e meia, podendo ser absorvido em questão de minutos por um corpo consultivo composto de presumíveis conhecedores dos padrões técnicos e jurídicos usuais no mundo dos grandes negócios. Já a íntegra do contrato que Cerveró entregou à diretoria executiva tinha 450 páginas. Ainda que ela as tivesse repassado ao Conselho, em vez de encaminhar-lhe apenas o sumário, e ainda que o órgão fosse o mais sábio de todos quantos existam entre os maiores conglomerados econômicos do globo, seria humanamente impossível a seus membros formar opinião a respeito em 24 horas.

Salta à vista que a cúpula da Petrobrás não tinha o mais remoto interesse em que o Conselho debatesse com conhecimento de causa a sociedade na qual ela apostava febrilmente as suas fichas, a ponto de comprar metade da refinaria por um preço praticamente igual ao que a Astra Oil pagou por ela inteira. Ao Conselho não foi dada a oportunidade de julgar se a estatal fazia o que até hoje seus dirigentes sustentam ter sido, na origem, um bom negócio - no que Gabrielli, Graça e Cerveró concordam - ou se estava deitando dinheiro fora, quando não cometendo um ilícito.

No seu depoimento ao Senado, a presidente da Petrobrás confirmou que o resumo executivo encaminhado ao Conselho não mencionava nem a cláusula contratual Put Option, segundo a qual, em caso de desavença, um dos sócios teria de vender a sua parte ao outro, nem a Marlin, que assegurava à Astra Oil um ganho anual de 6,9% sobre as vendas do produto refinado, quaisquer que fossem as condições do mercado. Na Câmara, Cerveró, além de considerar os itens corriqueiros e desimportantes, disse que competia à diretoria executiva e não a ele definir o que o Conselho precisaria saber - daí a 24 horas.

Se a oposição conseguir furar o bloqueio do governo e instalar a CPI da Petrobrás, ela terá de averiguar por que o ente máximo da empresa, sob a condução da atual presidente da República, se prestou a esse papel humilhante.

Marina Silva: Nosso, em português

- Folha de S. Paulo / EBC

"O petróleo é nosso" foi o lema de um grande consenso que embasou o controle estatal do território e dos recursos naturais no Brasil, bem como dos instrumentos de promoção do desenvolvimento econômico nos últimos 60 anos. Para o bem ou para o mal, na ditadura militar ou na democracia, o consenso nacionalista sobrevive ancorado em coisas que nós, brasileiros, identificamos como nossas.

A crise que sacode as joias da Coroa --Petrobras e Eletrobras-- e, surpreendentemente, instala-se em núcleos de excelência como Ipea, IBGE e Embrapa, tem origem para além da política e revela o mal endêmico do patrimonialismo embutido no Estado brasileiro. As coisas nossas estão se tornando "cosa nostra".

A apropriação privada do que é de todos tem, no âmbito do Estado, uma possibilidade de solução política. Podemos investigar, responsabilizar, separar o joio do trigo, sanear as organizações. Mas, e o imenso território da nacionalidade, expropriado do povo pela ganância de poucos, como recuperá-lo?

É difícil dimensionar a tragédia. A organização britânica Global Witness divulgou nesta semana uma lista de 908 ambientalistas assassinados nos últimos dez anos em 35 países. O Brasil é o campeão, com 448 mortes, quase a metade do total. Algumas foram amplamente noticiadas, como a da irmã Dorothy Stang, assassinada em 2005; outras, tratadas com indiferença. Em apenas 1% dos casos os culpados são condenados.

Amanhã é dia de outra tragédia: no 19 de abril, dedicado ao índio --que antes também era "nosso"--, só aqueles que se apropriam de seus territórios e riquezas têm motivos para comemorar. Prossegue, no Congresso Nacional, a tentativa de dificultar as demarcações e facilitar as invasões, com projetos de mudanças nas leis para tornar privado um direito que sempre foi público. Afinal, as terras indígenas pertencem à República, a todos nós, assim como os minérios no subsolo, as águas, as florestas e a biodiversidade.

Para que alguns se tornem "donos da pátria" é necessário tornar aceitável um nacionalismo excludente, etnocêntrico e assentado num sentimento de posse que anula a noção de pertencimento de índios, negros e pobres. O que é entendido como direito natural de uns, pode ser, no máximo, uma concessão que estes fazem aos outros. Esse é o nó central da nacionalidade.

A erradicação desse pernicioso sentimento de posse exigirá tempo e capacidade de autorreconhecimento das parcelas expropriadas da população. Exigirá também um maior senso de responsabilidade com o que é nosso. Felizmente, ainda existem índios, com quem podemos reaprender a ser brasileiros.

Luiz Carlos Azedo: Fio desencapado

- Correio Braziliense

Ninguém sabe muito bem o que André Vargas pretende fazer, embora o processo de cassação já tenha sido iniciado no Conselho de Ética da Câmara

As intenções de voto na presidente Dilma Rousseff (PT) variaram de 40% em março para 37% neste mês, segundo pesquisa Ibope divulgada ontem. Ainda assim, se a eleição fosse hoje, ela venceria Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). O problema é que as eleições serão em 5 de outubro e, antes disso, Dilma precisa estancar a queda gradativa que vem sofrendo na avaliação dos eleitores. Se Dilma cair mais cinco pontos até o fim de maio, pode se tornar irrefreável o “Volta, Lula!”

Dilma acumula 37% em dois cenários. No primeiro, Aécio aparece com 14% e Eduardo Campos com 6%. Em seguida, Pastor Everaldo (PSC), com 2%; Denise Abreu (PEN), 1%; e Randolfe Rodrigues (PSol), 1%. Eymael (PSDC), Levy Fidélix (PRTB), Mauro Iasi (PCB) e Eduardo Jorge (PV) não alcançaram 1%. Brancos ou nulos somaram 24%; os que não sabem em quem votar ou não responderam, 13%. No segundo cenário, Aécio está em segundo lugar com 14%, e Marina Silva em terceiro, com 10%. Os demais são Pastor Everaldo (2%); Denise Abreu, Randolfe Rodrigues e Eduardo Jorge (1% cada); e Eymael, Levy Fidélix e Mauro Iasi (0%). Brancos e nulos são 23% e não sabem/não responderam, 12%.

A pesquisa amplia a tensão interna no PT, que está em alta voltagem por causa da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, que flagrou um propinoduto entre o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto da Costa. Ambos estão presos. O envolvimento do ex-vice-presidente da Câmara André Vargas (PT-PR) com o doleiro deixou o PT na berlinda. O petista renunciou ao cargo, mas não ao mandato. A cúpula do PT e o governo pressionam o parlamentar para que o faça com urgência, com objetivo de evitar desgastes para o governo e o partido. Vargas resiste às pressões e pretende usar a tribuna da Câmara para se defender. A avaliação dos marqueteiros de Dilma Rousseff é de que o caso da Petrobras ainda pode causar um grande estrago. Ontem, no programa de tevê do PSDB, o senador Aécio Neves (MG), partiu pra cima do governo.

Dilma tenta preservar sua imagem ao sair em defesa da Petrobras, mas cobra a apuração dos malfeitos de seus diretores, linha reforçada pela presidente da empresa, Maria das Graças Foster, na terça-feira, ao depor na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, quando reiterou que a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, foi um mau negócio. Segundo a presidente Dilma, o conselho administrativo da empresa, que presidia à época, teria sido induzido a erro pelo ex-diretor da área internacional Nestor Cerveró. Ocorre que a maioria do PT não aceita essa interpretação, blindou o ex-presidente da Petrobras Sérgfio Gabrielli e saiu até em defesa de Cerveró, quando prestou depoimento à Comissão de Controle e Fiscalização Financeira da Câmara, na quarta-feira.

O governo ainda tenta evitar a instalação de uma CPI exclusiva, a pretexto de investigar também o cartel do Metrô de São Paulo e as obras do Porto de Suape, em Pernambuco, mas o caso será decidido mesmo é pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na próxima semana. André Vargas (PT-PR), porém, tornou-se um fio desencapado na história. Ninguém sabe muito bem o que pretende fazer, embora o processo de cassação já tenha sido iniciado no Conselho de Ética da Câmara. O fato , porém, é que Dilma Rousseff quer distância do “malfeitos” investigados pela Polícia Federal na gestão de Sérgio Cabrielli, enquanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nos bastidores, comanda a blindagem do ex-presidente da Petrobras. É mais combustível para o “Volta, Lula!”

Gabriel García Márquez
Aos 87 anos, faleceu ontem, na Cidade do México, um gigante da literatura universal: o escritor colombiano Gabriel García Márquez, que lutava contra um câncer linfático desde 1999. Gabo sofria de demência senil e perda da prodigiosa memória. Se Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, abriu a cortina que encobria a idade média, Cem anos de solidão, sua obra-prima, publicado em 1967, desnudou a América espanhola. Foi traduzida para 35 idiomas e já vendeu mais de 50 milhões de exemplares. Romance seminal do realismo fantástico — gênero latinoamericano da segunda metade do século XX —, Cem anos de solidão se passa na fictícia aldeia de Macondo e acompanha, ao longo de gerações, a saga da família Buendía.

Merval Pereira: Mudança de ventos

- O Globo

Há dois pontos novos a se destacar nesta pesquisa Ibope divulgada ontem. O mais relevante para a disputa presidencial é que pela primeira vez a soma de “nulos e brancos” com “não sabe” empata com as intenções de votos de Dilma ou fica ligeiramente abaixo, a depender do cenário. A presidente continua líder e vencendo no primeiro turno.

Outro destaque da pesquisa é que não apenas a presidente Dilma está caindo na preferência dos eleitores — de 40% para 37% —, mas também o ex-presidente Lula, quando apresentado como opção a ela, cai para 42%, quando já teve até 55% dos votos. A má notícia para Dilma é compensada por essa má notícia para Lula.

Embora se mantenha como franco favorito quando surge como candidato, Lula já está praticamente empatado tecnicamente com a presidente Dilma, o que pode indicar que o que está decaindo no gosto popular é a maneira petista de governar.

Certamente terá contribuído para o desgaste do PT o acúmulo de notícias ruins dos últimos dias, como a crise na Petrobras e o caso da ligação do deputado André Vargas com um doleiro preso. O mensalão continua sendo um processo desgastante para o partido, e as denúncias de novas corrupções só reforçam essa faceta, doze anos depois de o PT chegar ao poder.

Mas a insatisfação com a situação econômica também está refletida na pesquisa. A desaprovação ao governo já é maior que a aprovação (48% a 47%), um indicador clássico de tendência de queda de votação. A avaliação negativa subiu de 27% para 30%, aproximando-se do nível de julho de 2013, durante as manifestações populares, quando o índice foi de 31%.

Há ainda um dado preocupante a mais: já são maioria (51%) os que não confiam na presidente Dilma. As maiores quedas de Dilma ocorreram entre eleitores jovens (8 pontos entre quem tem de 25 a 34 anos), nas cidades médias (11 pontos nos municípios entre 20 mil e 100 mil habitantes), na Região Sul (6 pontos).

Não é possível tecnicamente comparar pesquisas de institutos diferentes, mas a tendência de queda da popularidade da presidente Dilma, que se reflete em perda de votação, está registrada em todas as pesquisas divulgadas recentemente.

A pesquisa Ibope foi feita entre os dias 10 e 14 de abril, e pesquisas anteriores de institutos como o Datafolha já mostravam sua queda para o mesmo patamar. A divulgação quase concomitante das pesquisas Ibope e Vox Populi dá a sensação de que refletem o mesmo momento, mas elas têm vários dias de diferença.

O Instituto Vox Populi, que faz pesquisas para o PT e para a revista “Carta Capital”, colocou Dilma na casa dos 40%, dentro da margem de erro, embora tenha divulgado seu levantamento só onze dias após sua realização.

A pesquisa do Ibope tem o mérito de dar tranquilidade aos candidatos principais, embora todos tenham com o que se preocupar. A presidente Dilma continua na frente e vencendo no primeiro turno, e o fantasma do “volta Lula” vai se extinguindo à medida que também o ex-presidente cai na preferência do eleitor. Mais do que ninguém, Lula deve estar atento a essa tendência. Mas a diferença de Dilma para os adversários está diminuindo a cada pesquisa, o que indica a possibilidade forte de haver um segundo turno.

Quando Marina Silva é colocada em lugar de Eduardo Campos na pesquisa, a alteração, embora grande — de 6% para 10% —, não chega a afetar o resultado final, não justificando, portanto, uma mudança brusca de cabeça de chapa. O candidato mais estável é o do PSDB, senador Aécio Neves, que se mantém com 14% quando a pesquisa inclui todos os nanicos, e fica com 16% quando apenas os três principais candidatos aparecem na lista. A essa altura não há ninguém dentro do partido que possa lhe fazer frente.

A tendência de queda dos candidatos do PT, e o crescimento dos que não se sentem representados pelos seus concorrentes na disputa, mostram que os adversários de Dilma terão que convencer os eleitores de que são opções válidas para esse desejo de reformulação geral que mais uma vez aparece na pesquisa. Nada menos que 62% dos eleitores querem mudanças com outro presidente no lugar de Dilma, e somente entre 24% e 29%, dependendo da lista apresentada, escolheu seu candidato entre os adversários de Dilma.

Eliane Cantanhêde: Nem explicam nem justificam

- Folha de S. Paulo / EBC

Cada um trata de salvar a própria pele na operação no mínimo desastrada, ou temerária, da compra da refinaria de Pasadena.

Tudo começa com Dilma Rousseff empurrando a culpa para a direção da Petrobras à época em que ela era chefe da Casa Civil e presidia o Conselho de Administração da empresa. Sim, assinou, mas só o fez porque recebeu informações incompletas de um parecer falho. Se soubesse da coisa toda, não teria aprovado.

O então presidente da companhia, José Sérgio Gabrielli, defendeu-se insistindo que Pasadena foi um bom negócio (mesmo com remuneração incondicional de 6,9% do sócio?), deixou de ser e agora é de novo.

Sua sucessora, Graça Foster, tentou equilibrar-se entre as versões, mas é claro que fez a opção conveniente: respaldou a versão de Dilma e entregou Gabrielli à própria sorte. Segundo Foster, Dilma não teve mesmo acesso ao estudo completo e --contrariando o que defende o antecessor-- admitiu o óbvio: o negócio, de bom, não teve nada.

Chegado o depoimento de Nestor Cerveró, responsável pelo parecer acusado pela presidente da República de falho, incompleto e indutor do erro, o que se viu?

O homem bomba virou um traque, medindo palavras para ficar bem com todo mundo, especialmente, claro, com a presidente da República. Realmente, Dilma não teve as informações completas, mas nem precisava, porque contratos internacionais são assim mesmo, cheios de cláusulas perversas, ensinou a oposicionistas frustrados e a governistas aliviados. Ah, bom.

Só falta Paulo Roberto Costa, que foi diretor da Petrobras, tem altos negócios com o doleiro Alberto Youssef e está preso. O que esses dois farão? Farão como os demais: tudo para livrar a própria cara.

Ninguém explica o que interessa: a perda de meio bilhão de dólares com Pasadena nem o buraco de perdas e dívidas em que a Petrobras se meteu. Ou melhor, foi metida.

André Lara Resende: Devagar e sempre

- Valor Econômico

A política econômica - e por extensão todo o governo - continua a ser avaliada pelo crescimento da economia. O crescimento pauta os jornais e domina o debate. Enquanto o "pibinho" é usado como arma retórica da oposição, o governo tenta toda sorte de estímulos e artifícios para reverter o quadro de estagnação. Em um ano de eleições, o crescimento deverá, mais uma vez, tomar lugar no centro do palco.

Em trabalho ainda a ser publicado, "Asiaphoria Meets Regression to the Mean" (2014), Larry Summers e Lant Pritchett, da Universidade de Harvard, fazem um sofisticado estudo estatístico sobre o crescimento, em toda parte do mundo, desde a metade do século XX. Summers, com longa experiência de vida pública, é tido como intelectualmente brilhante, mas seu temperamento polêmico levou-o de favorito a preterido na sucessão de Ben Bernanke como presidente do Banco Central americano. O objetivo específico do trabalho é avaliar o crescimento da China nos próximos anos, mas permite conclusões importantes sobre crescimento, muito além dos prognósticos para a economia chinesa.

Os autores reconhecem a dificuldade de fazer previsões. O equívoco mais frequente é a extrapolação do passado recente, é acreditar na continuidade do status quo e subestimar a probabilidade das descontinuidades. Tomam, então, um caminho alternativo. Em vez de tentar prever especificamente o crescimento da China, analisam todos os casos de altas taxas de crescimento ocorridos desde 1950. Uma conclusão se sobressai: o crescimento dos países em desenvolvimento não se enquadra no que estipula a teoria dos ciclos macroeconômicos. A taxa de crescimento não oscila em torno de uma média - chamada de taxa de crescimento potencial do país -, como postula a teoria. Ao contrário, o crescimento é essencialmente episódico. Há surtos de crescimento acelerado, seguidos de ainda mais destacados períodos de estagnação. Os períodos de rápido crescimento tendem a ser curtos e terminam sempre em períodos de desaceleração ou de estagnação.

Após análise extensiva dos dados, os autores concluem que a evidência mais robusta sobre as taxas de crescimento é da chamada "reversão para a média". Para os não familiarizados com o conceito, reversão para a média é a tendência, numa série estatística, a toda vez que ocorre uma observação muito distante da média haja uma alta probabilidade de que a observação seguinte esteja mais próxima da média. A história, contada por Daniel Kahneman, é ilustrativa. Diante do psicólogo que recomendava não humilhar os cadetes quando cometiam erros, mas, ao contrário, estimulá-los para reforçar a autoestima, o instrutor de voo militar protestou: "Discordo, na prática não funciona assim; toda vez que um aluno faz uma manobra malfeita, passo-lhe uma descompostura e a seguinte é melhor; já toda vez que um aluno executa uma excelente manobra e o elogio, a próxima já não é tão bem executada".

Embora se imagine que os países tenham personalidades próprias, sejam capazes de crescer a taxas muito diferentes por longos períodos, a verdade é que são muito menos individualizados - em termos de crescimento - do que se pretende. Todos têm períodos de crescimento acelerados, cada qual a seu tempo, mas são apenas surtos, que acabam quase sempre numa estagnação. Revertem então à média mundial. O fato de um país, hoje, crescer rapidamente não quer dizer muita coisa sobre o seu crescimento futuro. A melhor estimativa da taxa de crescimento a mais longo prazo, para qualquer país, a despeito do seu crescimento no atual, é sempre a do crescimento médio da economia mundial.

A boa política econômica é muito menos eficiente para acelerar a taxa de crescimento do que se imagina. Em trabalho de 2005, Hausmann, Pritchett e Rodrik concluem que, apesar dos episódios de aceleração significativa do crescimento, isto é de mais de 2,5 pontos de percentagem ao ano, serem frequentes, não há correlação entre esses surtos de crescimento e a boa política econômica. Já a má política econômica, esta sim, é muito mais eficiente para levar a períodos de estagnação.

Os trabalhos de Rodrik (2000) e de McDermott e Breuer (2013) concluem que as recessões e os períodos de estagnação estão empiricamente muito mais correlacionados com a má política econômica do que os períodos de aceleração do crescimento estão associados à boa política. Não há evidências de que a boa política econômica possa acelerar o crescimento, mas há bem mais evidência de que a má política econômica leve à desaceleração do crescimento. McDermott e Breuer (2013) argumentam que as recessões são muito mais bem explicadas pela ocorrência de erros de política econômica do que os períodos de rápido crescimento pelos acertos. Infelizmente, parece que os acertos não ajudam tanto quanto pretendemos, mas os erros atrapalham, e muito.

O discurso político trata o crescimento como se fosse uma variável sob controle completo dos governantes, capazes de garantir períodos de crescimento acelerado. Gostamos de nos atribuir mais poder do que realmente temos. A política econômica tem bem menos influência do que se pretende para acelerar o crescimento. A mais longo prazo, a taxa de crescimento de todas as economias convergem para a taxa de crescimento da economia mundial. Apesar de alguns períodos de crescimento diferenciado, a mais longo prazo, o crescimento sempre converge para a taxa média mundial. Estamos todos no mesmo barco.

Os períodos de crescimento acelerado, muito acima da média mundial, tendem a terminar em crise, com forte desaceleração, seguida de um período de estagnação. É possível crescer rapidamente, quando as circunstâncias são favoráveis, mas o crescimento acelerado cria distorções. Um dia a conta chega. É possível sim, crescer acima da média, mas só por períodos curtos, seguidos de crise e de estagnação. Há evidência de que a recessão e a estagnação estão associadas tanto ao fim de períodos de crescimento acelerado quanto aos erros de política econômica. É, portanto, possível inferir que o crescimento acelerado aumenta a probabilidade de más políticas. Na ânsia de continuar a colher os louros políticos e de prolongar o surto de crescimento, acaba-se por fazer má política econômica. O resultado é a crise, a recessão seguida da estagnação.

A história recente está repleta de milagres de crescimento acelerado. A China e a Índia, esta em menor escala, são apenas os mais recentes. Já tivemos o milagre japonês, depois o dos tigres asiáticos, todos celebrados por analistas como o novo "modelo" a ser perseguido, até que o surto de crescimento chegasse ao fim. As análises apologéticas são então arquivadas e esquecidas. Quem poderia prever, em pleno milagre japonês, que tudo terminaria na explosão de uma bolha imobiliária, seguida de mais de duas décadas de estagnação? Quem diria que o produto per capita do Japão cresceria apenas 0,6% ao ano desde 1991, que hoje seria apenas 12% superior ao de 23 anos atrás?

O Brasil não se destaca pela memória, mas não podemos nos esquecer do nosso milagre, durante o período do regime militar. De meados da década de 1960 ao início da década de 70, a economia brasileira cresceu mais de 10% ao ano. Com a crise do petróleo em 1973, a economia ameaçou desacelerar. Mário Henrique Simonsen, então ministro da Fazenda, sustentou que crescer acima de 5% ao ano criaria desequilíbrios perigosos. Foi substituído por Delfim Netto, que, para júbilo do empresariado, prometeu manter o crescimento acelerado e dobrou a aposta. Postergou o ajuste, a economia ainda cresceu mais alguns anos, mas à custa de uma dívida externa que se tornou infinanciável e da perda de controle do processo inflacionário. O resultado é conhecido: entre 1980 e 2002, às voltas com as crises da dívida externa e da inflação, o país estagnou e a renda per capita permaneceu praticamente inalterada por 22 anos.

Há exceções - a Coreia, por exemplo, onde os surtos de crescimento não foram seguidos de crise, apenas de desaceleração -, mas a regra é clara: períodos de crescimento acelerado terminam em crise e estagnação. Os motivos do fim do crescimento rápido, assim como as razões do surto, são variados e não necessariamente claros, mas a tentativa de prolongar artificialmente o crescimento sempre termina em crise, recessão e estagnação.

Mas se o crescimento acelerado está fora do controle direto da política econômica, como então escapar do subdesenvolvimento e alcançar os países do Primeiro Mundo? O exame da história do crescimento dos países desenvolvidos pode ajudar. É fato conhecido que os países mais avançados têm taxas de crescimento muito estáveis. O alto nível da renda de países desenvolvidos não é resultado de surtos de crescimento acelerado, mas sim da persistência do crescimento moderado. Não são os surtos milagrosos, mas a força da estabilidade, associada ao poder das taxas compostas, que leva à alta renda e ao desenvolvimento. Como chamam a atenção North, Weingast e Wallis (2009), a razão pela qual os países em desenvolvimento têm taxas de crescimento médias inferiores às dos desenvolvidos não está na falta de crescimento acelerado, mas sim na falta de consistência do crescimento. Os países avançados não são ricos porque cresceram rapidamente, mas porque cresceram a taxas modestas durante longos períodos. Não tiveram grandes crises nem interrupções prolongadas do crescimento.

Não é por falta de surtos de crescimento que os países em desenvolvimento não alcançam os desenvolvidos, já que quase todos têm períodos de rápido crescimento. O problema é que, apesar de crescer muito mais rapidamente, quando crescem, passam grande parte do tempo - quase um terço, em média - estagnados ou com crescimento negativo.

As estatístiticas apresentadas por Summers e Prichett confirmam as evidências das útimas décadas, analisadas a partir dos trabalhos pioneiros de Douglas North, de que o alto nível de renda e de produto per capita está associado à alta qualidade das instituições - veja-se, por exemplo, Hall e Jones (1999), Acemoglu, Jonhson e Robinson (2002) e North, Wallis e Weingast (2009). Boas instituições, legislação inteligente, facilitadora ao invés de complicadora, e o respeito às leis não garantem o crescimento acelerado, nada garante, pois ele depende de fatores circunstanciais, mas reduzem a probabilidade de crise e de estagnação prolongada. É mais importante trabalhar com persistência para solucionar nossos problemas, ter como objetivo a qualidade das instituições, um Estado a serviço da sociedade e não a sociedade a serviço do Estado, do que buscar obsessivamente o crescimento. Qualidade de vida, qualidade das instituições devem ser nossos objetivos. O crescimento acima da média é consequência, quando as circunstâncias ajudam.

Na última década, fomos ajudados pelo crescimento extraordinário da China. Importadora dos produtos primários que exportamos, tivemos um ganho nos termos de troca que é o equivalente a uma transferência de recursos do exterior para o país. Como tínhamos feito o dever de casa na última década do século XX, crescemos. Poderíamos ter crescido mais. Deveríamos ter consolidado as bases para um crescimento contínuo, em busca da melhora da qualidade de vida. Não o fizemos. Ao contrário, jogamos a carta do consumo material, não investimos em infraestrutura, não melhoramos a qualidade do Estado e dos serviços por ele prestados. Dada a força da regressão para a média, o crescimento acelerado da China deve acabar. Nosso período de vacas gordas chegará ao fim. Sem mudança de rumo, infelizmente, voltaremos ao triste ciclo dos surtos de crescimento seguidos de longa estagnação.

Temos, sim, que contar com a sorte para crescer acima da média mundial. A sorte - em tese - é igual para todos, um dia vem. Na clássica história judaica, diante das insistentes lamúrias do pobre homem que não teve suas preces atendidas, não foi premiado na loteria, Deus finalmente aparece e lhe diz: "Jacob, compre o bilhete!" Construir instituições de alta qualidade, não achincalhá-las em nome do crescimento a qualquer custo, é comprar o bilhete da loteria.

É preciso não ser arrogante, reconhecer quando somos ajudados pela sorte, não nos tomar por donos do crescimento acelerado e, inconformados quando os ventos mudam, destruirmos instituições, dilapidarmos empresas públicas e criarmos todo tipo de distorções, em busca de prolongar o milagre que não é nosso.

André Lara Resende é economista

O Escritor Gabriel García Márquez morre aos 87 anos

Ainda não há informações sobre a causa da morte, mas o autor de 'Cem anos de solidão' chegou a ser internado neste mês por conta de uma infecção.

O Globo

RIO - O escritor colombiano Gabriel García Márquez morreu nesta quinta-feira, aos 87 anos, na Cidade do México. Ainda não há informações sobre a causa da morte, mas o autor de "Cem anos de solidão" chegou a ser internado neste mês por conta de uma infecção pulmonar.

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, afirmou na quarta-feira que o autor não tinha câncer. A família teria lhe assegurado também que ele tinha superado a pneumonia e estava bem. Sem identificar fontes, o jornal mexicano “El Universal” havia afirmado dias antes que o escritor, depois de superar um câncer linfático 12 anos atrás, estaria novamente debilitado pela doença, com metástase no pulmão, nos gânglios e no fígado.

García Márquez deixa a mulher, Mercedes Barcha Pardo, e dois filhos.

A trajetória de um gênio latino-americano
Aos 22 anos, Gabriel García Márquez tinha acabado de abandonar a Faculdade de Direito para se dedicar à vida de boêmio literato. Instalado em Barranquilla, no litoral caribenho, flanava por aí de camisa florida e bigode frondoso, lia e escrevia sem parar, sobrevivendo com os trocados que ganhava num jornal local. Um dia veio procurá-lo, na livraria onde batia ponto, uma senhora que ele a princípio não reconheceu. Era sua mãe. Vinha pedir ajuda para vender a casa dos avós, na cidadezinha colombiana de Aracataca, onde ele havia nascido, em 1927, e vivido até 8 anos de idade. O reencontro com a terra natal abriu os olhos do aspirante a escritor para o potencial literário de memórias de família e lendas populares, que alimentariam nas décadas seguintes a obra do ganhador do Nobel de Literatura de 1982. Em sua autobiografia, “Viver para contar”, de 2002, García Márquez recordou aquela viagem como a decisão mais importante de sua vida.

Criado pelos avós, ambos exímios contadores de histórias, García Márquez teve com eles as primeiras lições de narrativa. O avô, Nicolás Ricardo Márquez Mejía, um temido coronel que o neto só chamava de “Papalelo”, descortinou para ele o mundo das relações de poder. A avó, Tranquilina Iguarán, cheia de superstições e histórias de fantasmas, apresentou ao jovem as maravilhas e terrores do folclore. Em dezenas de livros de ficção e não ficção publicados ao longo de seis décadas de carreira, muitos dos quais se tornaram clássicos do século XX, como “Cem anos de solidão”, “O outono do patriarca”, “Amor nos tempos do cólera” e “Crônica de uma morte anunciada”, García Márquez expressou uma visão de mundo que abarcava tanto os meandros da política latino-americana quanto a dimensão fantástica da existência.

A capital de um universo ficcional
Esse estilo começou a se consolidar em seu primeiro romance, “A revoada”, publicado em 1955. Foi nele a primeira aparição da cidade fictícia de Macondo, que criou ainda sob o impacto do regresso a Aracataca. Assim como sua terra natal, Macondo era um povoado colombiano empobrecido, dominado por uma companhia bananeira, mas com um rico repertório de histórias locais. A cidade surgiu em vários outros livros do escritor, como “Ninguém escreve ao coronel” (1961) e “Cem anos de solidão” (1967).

Foi este último que projetou o nome de García Márquez no cenário mundial. Aos 40 anos, ele já havia lançado outros cinco livros de ficção, mas nunca tinha ganhado um tostão com literatura. Mantinha-se como jornalista, primeiro em vários veículos colombianos, como “El Universal”, “El Heraldo” e “El Espectador”, onde aproveitava as horas vagas para escrever ficção (nessa época descobriu Kafka, que o impressionou muito, pois não imaginava que era permitido escrever sobre coisas como um homem que vira uma barata). Depois foi correspondente na Europa, nos Estados Unidos e no México, onde se instalou no início dos anos 1960 com a mulher, Mercedes Barcha, e o filho Rodrigo. Na capital mexicana, em 1964, nasceu seu segundo filho, Gonzalo.

Foi nessa época, enquanto dirigia numa estrada mexicana, que o escritor vislumbrou aquela que seria a frase de abertura de “Cem anos de solidão”: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. Gostava de dizer que, depois disso, deu um cavalo de pau, voltou para casa e se trancou pelos anos seguintes para escrever o romance que conta a história de sete gerações da família Buendía.

“Cem anos de solidão” acompanha a intrincada árvore genealógica dos Buendía, na qual o autor parece se divertir com a repetição de nomes (Aureliano, Amaranta, Remedio, José Arcadio), em uma narrativa repleta de personagens e situações fantásticas: o patriarca José Arcadio, fundador de Macondo; Úrsula Iguarán, a mulher que vive mais de 115 anos; José Arcadio Segundo, único sobrevivente do massacre dos grevistas da companha bananeira de Macondo; Maurício Babilônia, sempre envolto em uma nuvem de borboletas amarelas; ou o cigano Melquíades, cujos pergaminhos preveem glórias e tragédias da família.

Com mais de 30 milhões de exemplares vendidos em cerca de 35 idiomas, “Cem anos de solidão” se tornou não só o livro mais popular de García Márquez, mas também o emblema de uma geração da literatura latino-americana identificada com o rótulo do “realismo fantástico”. A partir de meados dos anos 1960, enquanto o continente ia sendo encoberto pela sombra de ditaduras militares, autores da região alcançaram uma projeção internacional inédita. Além do colombiano, fizeram parte do chamado “boom” da literatura latino-americana escritores como o argentino Julio Cortázar, o mexicano Carlos Fuentes, o cubano Alejo Carpentier e o peruano Mario Vargas Llosa.

Fidel: Identificação política e pessoal
A relação entre García Márquez e Vargas Llosa, também premiado com o Nobel em 2010, se tornou símbolo do “boom” e de suas contradições. A amizade inicial se desdobrou em admiração literária (o peruano publicou em 1971 o elogioso ensaio “García Márquez, história de um deicídio”), mas com o tempo os dois se afastaram, inclusive politicamente. Esquerdista na juventude, Vargas Llosa se alinhou ao neoliberalismo e chegou a concorrer à presidência do Peru, em 1990, quando foi derrotado por Alberto Fujimori. Admirador de primeira hora da Revolução Cubana, García Márquez se aproximou de Fidel Castro e defendeu o regime da ilha em várias ocasiões. Mas a divergência mais famosa entre os dois, em 1976, não teve fundo político: por ciúmes da mulher, Vargas Llosa deu um soco em García Marquez, que saiu com um olho roxo. Nunca mais se reconciliaram.

A atuação política de García Márquez rendeu-lhe admiradores e críticos. Muitos nunca o perdoaram por não denunciar os abusos do regime de Fidel, de quem se tornou amigo. Segundo o biógrafo inglês Gerald Martin, autor de “Gabriel García Márquez: uma vida", o líder cubano achava o escritor “pessimista e fantasioso”, mas gostava de suas observações políticas e sentia-se próximo dele por também ter crescido em uma região dominada pela United Fruit, multinacional americana de alimentos que inspirou a companhia bananeira de Macondo.

As Principais obras de Gabriel Garcia Marques

• 'A revoada — O enterro do diabo'
(1955)

• 'Ninguém escreve ao coronel'
(1961)

• 'Cem anos de solidão'
1967

• 'Crônica de uma morte anunciada'
1981

• 'O amor nos tempos do Cólera'
1985

• 'Notícias de um sequestro'
1996

• 'Viver para contar'
2002

• 'Memória de minhas putas tristes'
2005

João Gilberto - Preconceito (Wilson Batista e Marino Pinto)

Poesia - Murilo Mendes: O Filho do Século

Nunca mais andarei de bicicleta
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa "Danúbio Azul"
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardem-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora da fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos vôos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos,
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.