segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Perfil ortodoxo gera críticas no PT ao escolhido para a Fazenda

• Ex-secretário do Tesouro entrou em conflito com Mantega em 2006 por visão sobre salário mínimo

• Petistas veem contradição na escolha de Levy após campanha de Dilma afirmar que Aécio cortaria mínimo

Andréia Sadi - Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Convidado para assumir o Ministério da Fazenda, Joaquim Levy coleciona críticas de ministros atuais de Dilma Rousseff e tem sido alvo de petistas, que nos bastidores tentam reverter a indicação. Eles argumentam que Levy tem perfil liberal e é contra a política de valorização do salário mínimo.

Um dos principais adversários de Levy no governo Lula foi justamente Guido Mantega, então presidente do BNDES e hoje titular demissionário da Fazenda.

Em março de 2006, Mantega acusou Joaquim Levy, então secretário do Tesouro Nacional, de ter uma visão "conservadora, não sintonizada com a política social do governo Lula".

Os programas sociais são a principal vitrine dos 12 anos dos governos Lula e Dilma.

Na ocasião, Mantega contestou um estudo elaborado por Levy, hoje no Bradesco, que apontava o aumento do salário mínimo como o responsável por parte substancial do crescimento do gasto público em 2005. O estudo foi divulgado no site do ministério da Fazenda.

"Estão equivocados. Este governo tem por objetivo elevar o valor do salário mínimo e executar os programas sociais. Isso é o que diferencia este governo. Nenhum burocrata pode impedir que o presidente o faça. Quem for contra está em outro governo", atacou Mantega em uma entrevista para o jornal "O Estado de S. Paulo" em 2006.

Na sexta, Dilma convidou Joaquim Levy, Alexandre Tombini e Nelson Barbosa para integrarem a sua nova equipe econômica.

Proximidade com PSDB
Uma ala do PT quer reverter a escolha de Levy para a Fazenda alegando sua proximidade com a política econômica do PSDB de Aécio Neves. Eles lembram, reservadamente, que a indicação pode representar uma contradição em relação às críticas feitas por Dilma durante a campanha eleitoral.

Dilma criticou a escolha de Aécio por Armínio Fraga, presidente do BC no governo FHC, que ficaria à frente da Fazenda. A presidente chegou a dizer que Fraga "não gosta do salário mínimo".

"Ele acha que, no Brasil, para resolver os problemas, eles têm de reduzir o salário mínimo porque está excessivo. Isso é um escândalo", afirmou a presidente.

Na TV, Dilma explorou uma frase de Aécio, segundo a qual, se eleito, tomaria medidas "impopulares". A peça dizia que poderia isso significaria "eventuais cortes na educação, saúde e em programas sociais".

A indicação de Levy, revelada pela Folha na sexta (21), foi bem recebida pelo mercado. A Bolsa subiu 5% e dólar caiu 2,08% para R$ 2,519.

Isto é Joaquim Levy
"Qual é, afinal, o objetivo fiscal do governo? É diminuir a dívida? Ou é imprimir uma trajetória para o gasto corrente? Algo que dê uma visibilidade de três, quatro, cinco anos. Acho que isso é o mais importante"
Em entrevista ao "Valor Econômico", em novembro de 2013

"Quanto mais sólido o desempenho fiscal, menor vai ser a carga em cima dos juros e eventualmente melhor para as ações"
Em entrevista à "Isto É Dinheiro", em janeiro de 2014

"Ao mudar a base da folha de pagamento para o faturamento, você precisa ficar ajustando a alíquota para cada setor, e pode até errar e acabar aumentando o custo de alguns. Em tributação, você não pode improvisar"
Em entrevista à Folha em agosto de 2013

Mercado financeiro projeta PIB menor e inflação maior em 2014

• Analistas consultados pelo Relatório Focus calculam que a economia irá crescer 0,20% neste ano e a inflação fechará em 6,43%

Célia Froufe - O Estado de S. Paulo

Depois do suspiro da semana passada, as estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2014 passaram de 0,21% para 0,20% no Relatório de Mercado Focus. O documento, divulgado pelo Banco Central, revela que há um mês a expectativa mediana para o crescimento do País estava em 0,27%. A perspectiva dos analistas de que haverá retomada da atividade no ano que vem foi mantida em 0,80%, como na semana anterior. Quatro semanas antes, porém, a projeção para 2015 estava em 1,00%.

A produção industrial segue como o principal setor responsável pelas previsões para o PIB deste e do ano que vem. No boletim Focus, a mediana das estimativas do mercado para o setor manufatureiro revela uma expectativa de queda de 2,30% este ano - a mesma da semana passada. Há quatro semanas, estava em -2,24%. Para 2015, o crescimento desse segmento deve ser de 1,30% ante 1,31% do levantamento anterior e de 1,42% de um mês atrás.

Os economistas também ajustaram suas estimativas para o indicador que mede a relação entre a dívida líquida do setor bruto e o PIB. Para 2014, a mediana passou de 35,80% da semana passada para 35,85% agora - estava em 35,25% um mês atrás. Já para 2015, a mediana das previsões permaneceu em 36,00%. Quatro semanas antes estava em 35,75%.

Inflação. As projeções para a inflação deste ano cada vez mais se consolidam perto do teto da meta de 6,50%, ultrapassando-o em alguns casos. De acordo com o Focus, a mediana das estimativas para o IPCA de 2014 passou de 6,40% para 6,43%. Há um mês, a taxa estava em 6,45%. Para 2015, a mediana das previsões foi alterada de 6,40% para 6,45% ante 6,30% de quatro semanas atrás.

Para o curto prazo, mesmo com a boa nova do IPCA-15 deste mês, que veio abaixo das previsões feitas pelos analistas do mercado financeiro, a taxa para novembro se manteve em 0,60%. Já a de dezembro foi alterada de 0,69% para 0,73%.

Juro. Uma semana antes da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, o mercado manteve a estimativa de que a Selic subirá mais 0,25 ponto porcentual em dezembro. A mediana das previsões para a taxa básica de juros ao final do ano continuou em 11,50% ao ano. A estabilidade das projeções ocorreu mesmo depois da sinalização do diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton, de que poderá aumentar o passo do aperto monetário. Com isso, a Selic média deste ano também segue em 11,00% ao ano.

Dólar. A escalada do dólar nas mesas de operações foi transferida para o Focus. A mediana das estimativas para o fim de dezembro de 2014 passou de R$ 2,53 para R$ 2,55 - há um mês, estava em R$ 2,40. Já para 2015, a cotação subiu de R$ 2,61 para R$ 2,65 de uma semana para outra - um mês antes estava em R$ 2,50.

Levy deve restaurar credibilidade da gestão

• No Tesouro, desavenças com Dilma

Angela Bittencourt e Vanessa Adachi – Valor Econômico

SÃO PAULO - A escolha de Joaquim Levy para comandar a pasta da Fazenda certamente não foi trivial para a presidente Dilma Rousseff. O secretário do Tesouro do governo Lula controlava o cofre do governo com mão de ferro e precisou ser sacado de seu posto por aqueles que pretendiam desengavetar projetos, ampliar investimentos e programas sociais, grupo encabeçado por Dilma, então ministra da Casa Civil. Levy agora é resgatado do setor privado para repetir a receita do início do governo Lula: controlar gastos, colocar a casa em ordem e, com isso, restaurar a credibilidade do governo.

Em sua primeira passagem pelo governo, Levy foi consagrado pelo extraordinário trabalho de reestruturação do perfil da dívida pública, alongando o prazo de vencimento de títulos federais que passaram a ser alvo de atenção de investidores estrangeiros, hoje responsáveis pelo financiamento de quase 20% da trilionária dívida mobiliária brasileira.

A saída do então secretário do Tesouro, em 2006, está intimamente ligada à ampliação da zona de influência de Dilma no segundo mandato do governo Lula. Levy e Dilma encontravam-se em lados opostos da disputa que se instaurou entre monetaristas e desenvolvimentistas no interior do governo. Disputa essa que, como se sabe, foi vencida pelo segundo grupo e traduziu-se na substituição de Antonio Palocci por Guido Mantega na Fazenda.

O estranhamento entre Levy e Dilma não ficou circunscrito a aspectos de política fiscal. Começou ainda quando a presidente era Ministra das Minas e Energia. Mesmo no Tesouro, Levy não se furtou de externar que tinha uma visão muito diferente daquela da ministra para o modelo energético do país.

Antigos colegas de governo e setor privado descrevem Levy como um homem muito correto, de opiniões fortes, duro, obcecado por suas metas e que não se conforma quando as coisas não saem do seu jeito.

O temperamento difícil e o comportamento tido como arrogante por alguns - traços pessoais que afugentam até alguns amigos - são apontados por ex-colegas de governo e de mercado como "vantagens competitivas" neste momento em que o ex-secretário do Tesouro, título que consolidou seu nome no sistema financeiro, ascende ao comando da Fazenda - cargo de maior prestígio no governo, após a Presidência da República.

Levy é tido como um formulador de políticas que, mesmo na iniciativa privada, mantinha o cacoete de sempre avaliar o impacto das decisões de negócios sobre a economia do país.

Segundo ex-colegas, é grande conhecedor dos setores de infraestrutura e transporte e um defensor de que os investimentos nessas áreas sejam financiados via mercado de capitais. A expectativa é de que ele persiga uma forte desalavancagem dos bancos públicos.

Carlos Kawall, economista-chefe do Banco J. Safra, que substituiu Levy no Tesouro Nacional em 2006, contou que o ex-secretário tem "um perfil de executivo duro, correto e determinado". Levy era conhecido por ser "workaholic" e muito dedicado. "Ele chegou a deixar um sofá na sala do Tesouro onde costumava descansar quando ia até tarde no trabalho", relata Kawall.

Formado em Engenharia Naval e doutor em Economia pela Universidade de Chicago, com rica experiência de trabalho no Fundo Monetário Internacional (FMI), praticamente por toda a década de 1990, nos Departamentos do Hemisfério Ocidental, Europeu e de Pesquisa especializada em Mercado de Capitais e União Europeia, Levy assumiu o Tesouro em 2003 - início do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e foi um dos homens fortes do presidente até março de 2006, quando deixou o Tesouro e assumiu a vice-presidência de Finanças e Administração do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). No ano seguinte, deixou este cargo para assumir a Secretaria da Fazenda do Estado do Rio no governo de Sérgio Cabral (PMDB).

Quatro anos mais tarde, em 2010, já estava cotado para nova posição no BID, em Washington, quando foi convidado para compor a equipe da Bradesco Asset Management (Bram). Reza a lenda que Levy foi surpreendido por um interlocutor com uma mensagem de Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, em meio a um embarque com destino à capital americana, onde ainda residia a sua família.

A contratação do ex-secretário do Tesouro pelo Bradesco, embora para a equipe da gestora de ativos, agitou o mercado financeiro. Em comunicado dirigido ao mercado, o presidente do Bradesco informou a contratação do ex-secretário, que representava "importante contribuição para a consolidação do projeto de internacionalização da Bram".

Mas Joaquim Levy sempre foi apontado como um brilhante formulador de políticas públicas, algo distante da gestão de carteiras de investidores. Ainda mais em uma instituição privada que é de onde ele partirá para retornar ao setor público, para o qual tem genuína vocação. (Colaboraram Talita Moreira e Silvia Rosa)

Ele é o próximo

• O tesoureiro do PT, João Vaccari está na mira da Operação Lava Jato. Seu envolvimento no petrolão assusta o PT e o governo

Alberto Bombig e Pedro Marcondes de Moura - Época

Desde 2005, quando eclodiu o escândalo do mensalão, uma palavra é capaz de tirar o sono de militantes do PT: tesoureiro. Foi a ligação entre o responsável pelas finanças do partido, Delúbio Soares, e o empresário Marcos Valério que levou à ruína de líderes históricos do PT, como José Genoino. "Presidente , o Delúbio vai botar uma dinamite na sua cadeira", afirmou o ex-deputado Roberto Jefferson, em junho de 2005, ao relatar uma conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva meses antes. O desfecho do mensalão é conhecido. Dirceu, Genoino, João Paulo Cunha e o próprio Delúbio acabaram condenados e presos. Lula enfrentou sua maior crise política, e sei mandato ficou sob risco. Transcorridos nove anos, o rastilho de pólvora do petrolão, o escândalo de corrupção na Petrobras, ameaça chegar até o Palácio do Planalto. A dinamite agora atende pelo nome de João Vaccari Neto, sucessor de Delúbio na Tesouraria do PT.
Nos últimos dias, o nome de Vaccari ressurgiu com força nas investigações sobre o petrolão. Mesmo diante da cautela com que o juiz Sergio Moro vem conduzindo as apurações da Operação Lava Jato, a quantidade de citações a Vaccari e as evidências que o ligam ao esquema sugerem que ele, mesmo sem ter sido indiciado pela Polícia Federal, será um dos próximos alvos da operação.

Sem compromisso com a cautela que rege o bom processo judicial, a CPI mista da Petrobras, no Congresso Nacional, quebrou os sigilos bancário, fiscal e telefônico de Vaccari, numa vitória da oposição. "Como o tempo da Justiça é outro, a CPI tem a função de investigá-lo, porque Vaccari é o elo direto do esquema com o PT", afirma o senador José Agripino (DEM-RN), um dos líderes da oposição no Congresso. Assim como Delúbio cuidou das contas da campanha de Lula em 2002, Vaccari atuou nas finanças das campanhas de Dilma, em 2010 e neste ano. A quebra de seu sigilo preocupou o Palácio do Planalto.

Um advogado que atua na defesa dos presos na Lava Jato e é ligado ao PT disse a ÉPOCA que o futuro de Vaccari está atrelado aos depoimentos de Renato Duque, o ex-diretor de Engenharia e Serviços da Petrobras, cuja prisão preventiva foi decretada na semana passada pelo juiz Sergio Moro. Em seu despacho, Moro disse que ele tem uma "fortuna" em contas secretas no exterior. Com base na delação premiada do executivo Julio Camargo, da empresa Toyo Setal, os investigadores identificaram uma empresa offshore, a Drenos, controlada por Duque e com contas na Suíça. Camargo afirmou ter pagado propina a Duque. Em seu depoimento, Duque negou."Se Duque contar tudo o que sabe, não há como Vaccari resistir", diz o advogado.

O próprio Vaccari avisou a familiares e integrantes da cúpula do PT sobre a possibilidade de ser preso a qualquer momento pela PF. O partido e o governo estão de sobreaviso. No último dia 15, um dia depois da fase atual da Lava Jato, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, se encontrou com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, enquanto Lula fazia um check-up médico. Lula e Cardozo conversaram sobre a necessidade de o governo federal agir para tentar criar um ambiente positivo, que tire Dilma e o PT das cordas. Para complicar, a morte do ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, aos 79 anos, na semana passada, também se transformou em outro motivo de preocupação para o PT (leia mais na seção Em Memória, na página 39). Sem o cérebro das estratégias de defesa do PT, os petistas terão mais dificuldades para explicar os negócios de Vaccari e do partido com os implicados na Lava Jato.

O primeiro a ligar Vaccari às fraudes foi o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa. Ao detalhar, em cifras e valores, como os postos-chave da maior empresa do país foram repartidos entre PT, PMDB e PP para montar um esquema de corrupção, Paulo Roberto disse que Vaccari era um dos responsáveis por levar os recursos desviados aos cofres petistas. O doleiro Alberto Youssef foi além. Afirmou que se reuniu mais de uma vez com Vaccari para discutir negociatas. Num depoimento na terça-feira, dia 18, Pedro Barusco, braço direito de Duque na Petrobras e ex-gerente de Serviços da estatal, alçado ao posto pelo PT, também envolveu Vaccari no esquema. Barusco se comprometeu a devolver à Justiça cerca de R$ 250 milhões em propinas, em troca da atenuação de sua pena. Suas revelações foram enviadas ao Supremo Tribunal Federal (STF), procedimento adotado quando há citação a autoridades com direito a foro privilegiado. Preso na carceragem da Polícia Federal de Curitiba desde a sexta-feira, dia 14, Duque ainda relutava, na semana passada, a admitir transações ilícitas em sua relação com o tesoureiro do PT. Afilhado de José Dirceu, a quem deve a indicação para a diretoria da Petrobras, Duque admitiu proximidade com Vaccari. Mas atribuiu-a a "empatia" e "amizade", a ele "ser pessoa agradável para o convívio, principalmente em jantares em São Paulo e Rio de Janeiro", segundo seu depoimento aos investigadores da Lava Jato. Se depender do juiz Moro, Duque não deverá ganhar a liberdade tão cedo. Depois de ter transformado a prisão de Duque de temporária em preventiva, Moro deverá transferi-lo para o presídio estadual de Piraquara, na região metropolitana de Curitiba. O local é conhecido por abrigar presos de facções criminosas.

Apesar de Duque tê-lo descrito como "pessoa agradável de convívio", Vaccari não goza dessa reputação, mesmo no PT. É conhecido como um homem duro, "um trator". Delúbio apreciava charutos cubanos, fazia questão de mostrar proximidade com o poder e chegou a dar entrevista no saguão do Palácio do Planalto. Vaccari é discreto e avesso à ostentação, qualidade que agrada à presidente Dilma. Pouco afeito a discursos, ele controla minuciosamente os cofres do partido. A gestão dele na Secretaria de Finanças foi responsável pela recuperação das contas do PT, combalidas após o mensalão. Uma das poucas semelhanças entre Vaccari e Delúbio é a origem no sindicalismo e a proximidade com Lula. Tal relação confere a Vaccari um status no PT parecido ao do atual presidente, Rui Falcão.

Quando Delúbio caiu em desgraça, Vaccari foi apresentado aos operadores do petrolão. Era chamado para reuniões que ocorriam em São Paulo, num hotel da rede Meliá, onde se hospedava o deputado José Janene (PP-PR). Janene, morto em 2010, foi uma espécie de padrinho de Paulo Roberto e o mentor do petrolão. Lá, ele recebia líderes petistas para conversas. A convite de Janene, o doleiro Youssef também participava das reuniões.

A entrada de Vaccari na vida sindical e política se deu praticamente no momento em que ingressou como escriturário numa agência do Banco do Estado de São Paulo (Banespa), na Praça do Patriarca, centro da capital paulista, em maio de 1978. Era, segundo quem trabalhou com ele, um rígido seguidor da jornada de trabalho de seis horas por dia. Não fazia nem um minuto de hora extra, mesmo em eventualidades. Lá, passou a conviver com militantes de grupos de esquerda que, mais tarde, participaram, como ele, da fundação da Central Única dos Trabalhadores e do PT. Entre eles, Luiz Gushiken - seu colega de Banespa e ministro da Secretaria de Comunicação do governo Lula, morto em 2013 - e Ricardo Berzoini, atual ministro de Relações Institucionais. Em 1979, Vaccari ajudou o grupo de oposição a tomar o poder no Sindicato dos Bancários de São Paulo, numa eleição realizada na Casa de Portugal (espaço de eventos paulistano famoso por celebrar reuniões do PT antes da chegada do partido ao Planalto).

Em 1983, após uma greve, o sindicato sofreu uma intervenção decretada pelo regime militar. Foi então que Vaccari obteve as chaves do cofre de um grupo político pela primeira vez. Tornou-se o tesoureiro do movimento alijado do sindicato. O grupo voltou ao poder, para não mais sair, em 1985, depois do fim da intervenção. Pelos serviços prestados, foi empossado como tesoureiro do sindicato e estreitou sua relação com Berzoini. Nessa ocasião, ganhou a fama de "homem do cheque". Vaccari operava, com eficiência, nos bastidores, as eleições sindicais que garantiram a permanência do grupo no comando do sindicato. Em 1998, depois que Berzoini foi eleito deputado federal, coube a Vaccari substituí-lo na presidência do sindicato.

A destreza com que ele operava a máquina sindical o levou a duas missões que serviram para ampliar a base do PT entre os bancários. Depois de participar da fundação da CUT, Vaccari percorreu o país aglutinando sindicatos dos bancários, no fim da década de 1980. No mesmo período, também foi indicado para a presidência do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). A gestão de Vaccari à frente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, entre 1998 e 2004, acumulou polêmicas. No período, a Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop), uma empreitada imobiliária liderada pelo sindicato, atingiu seu auge.

Segundo um relatório do Ministério Público de São Paulo de 2013, cerca de 3 mil famílias que investiram na casa própria foram vítimas de fraude em 14 empreendimentos inacabados da Bancoop. Diretores das associações de vítimas dizem que a gestão de Vaccari foi desastrosa, criou cobranças irregulares para os compradores que não receberam seus apartamentos e também para aqueles que já tinham escritura. Investidores ligados a Vaccari tiveram sorte diferente. Marice Correa de Lima, cunhada dele, relacionada ao mensalão e detida na Operação Lava Jato, por ter recebido dinheiro da OAS, é dona de uma unidade da Bancoop. A CUT é proprietária de outros dois apartamentos entregues pela Bancoop no bairro paulistano do Tatuapé.

Os desvios nos caixas da Bancoop, cujo diretor financeiro era Vaccari, foram investigados por uma CPI na Assembleia Legislativa de São Paulo e são alvo de uma ação na Justiça. Entre os documentos anexados aos autos, há cheques assinados por Vaccari sacados na boca do caixa e pagamentos a construtoras de outros diretores da cooperativa. Isso gerou acusações de desvios de recursos para campanhas do PT, ampliadas por causa dos investimentos dos fundos de pensão na Bancoop. A Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ) aportou cerca de R$ 5 milhões na empreitada da Bancoop. Também colocaram dinheiro a Petros, dos funcionários da Petrobras, e o Funcef, da Caixa Econômica Federal. Nos governos do PT, o relacionamento de Vaccari com os fundos de pensão estatais gerou, mais de uma vez, denúncias. O doleiro Lúcio Funaro, operador do mensalão, em depoimentos às CPIs dos Correios e das ONGs no Congresso, afirmou que Vaccari fazia tráfico de influência nos fundos de pensão para facilitar investimentos em projetos.

Vaccari assumiu o cargo de tesoureiro do PT no início de 2010, quando terminou a gestão de Berzoini no comando nacional do partido. Uma das exigências de Berzoini para apoiar José Eduardo Dutra, o preferido de Dilma para a presidência do PT, era que Vaccari Ficasse responsável pelo caixa do partido. Consultado, o ex-ministro Dirceu deu aval, e Vaccari foi confirmado no cargo. Naquele mesmo ano,Vaccari passou a arrecadar para a campanha eleitoral que levou Dilma ao Planalto, em parceria com o ex-prefeito de Diadema José de Filippi Júnior. Impulsionado pelo bom momento da economia no final da gestão Lula e pela força da candidatura Dilma, Vaccari pôde demonstrar sua habilidade como arrecadador. A campanha de Dilma amealhou R$ 135 milhões, quase R$ 30 milhões a mais que o tucano José Serra.

No ano seguinte, o desempenho de Vaccari também foi notável. Mesmo que 2011 não fosse um ano eleitoral, o PT arrecadou R$ 50,7 milhões de empresas, 20 vezes o que PMDB e PSDB conseguiram. Metade das doações foi feita por construtoras e empreiteiras com contratos com o poder público. O resultado permitiu ao PT saldar dívidas da campanha de Dilma e equilibrar as contas do partido. Em entrevista ao jornal O Globo, Vaccari explicou seu método de trabalho: "Procuro a empresa e peço o dinheiro para o partido. Mantenho relacionamento com empresas de todos os setores da economia. Apenas eu estou autorizado a fazer isso dentro do PT", disse.

Nas eleições deste ano, Vaccari teve uma vida mais difícil. O deputado estadual Edinho Silva (PT-SP) foi escalado para arrecadar recursos para a campanha de Dilma, enquanto Vaccari ficou encarregado de buscar dinheiro para o PT. Era inevitável que os dois disputassem recursos nas mesmas fontes. A primeira arrecadação parcial, em agosto, mostrou que a campanha de Dilma obtivera R$ 10,1 milhões, contra RS 11 milhões do tucano Aécio Neves.
Vaccari tentou atribuir o desempenho ruim a Edinho. Depois que depoimentos da Lava Jato sobre suas relações com Youssef se tornaram públicos, empresários que costumavam doar ao PT pararam de atender aos telefonemas de Vaccari, até mesmo para evitar ser associados ao petrolão. Passaram a procurar preferencialmente Edinho. Dilma tinha a preocupação de afastar do Planalto a arrecadação comandada por Vaccari, que sempre teve como motor a relação das empreiteiras com o governo e a Petrobras. Como se vê, ela tinha razões para agir dessa maneira.

Marina Silva critica primeiras medidas econômicas de Dilma

• Ex-senadora acusou a presidente de tomar rumo conservador na economia; ela evitou tecer comentários sobre os nomes cogitados

Eduardo Rodrigues - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - A ex-ministra Marina Silva criticou duramente as primeiras medidas tomadas pela presidente Dilma Rousseff na economia após o segundo turno das eleições. Marina, que disputou a sucessão presidencial pelo PSB, não quis fazer comentários sobre os nomes cogitados para os ministérios do novo governo,mas acusou a presidente de tomar o rumo conservador, que na campanha tanto criticou.

A Executiva da Rede Sustentabilidade, partido que Marina não conseguiu ainda legalizar, realizou dois dias de reunião, em Brasília. A ex-ministra informou que os integrantes da agremiação, que se filiaram ao PSB para a disputa eleitoral deste ano, continuarão até que se consiga as cerca de 32 mil assinaturas, que ainda faltam para viabilizar o partido.

Marina acusou de “marketing selvagem” o que o PT teria feito durante a campanha e que agora se mostraria incoerente. “Uma coisa foi o marketing selvagem para se ganhar a eleição e outra coisa agora é a realidade. A nossa atitude de oposição independente é coerente com aquilo que falamos durante a campanha. Seremos contrários ao que julgarmos que seja ruim e favoráveis ao que for bom”, disse a ex-candidata.

Entre os pontos criticados por Marina está o aumento da taxa de juros e o anúncio da redução do superávit primário em 2014 logo após o fim das eleições. O Banco Central elevou a Selic de 11% para 11,25% ao ano em outubro, surpreendendo o mercado financeiro. “Uma outra coisa que antes era tratada como um tabu durante a campanha eram os preços administrados. E já vimos ações tomadas logo após a eleição. Esta é a diferença entre a realidade e o mundo colorido do marketing selvagem do PT”, completou.

Perguntada os nomes cogitados para o Ministério da Fazenda - primeiro Luiz Carlos Trabuco e, depois, Joaquim Levy, ambos do Bradesco - logo após o PT ter cunhado a expressão “candidata dos banqueiros” para classificar Marina durante a campanha, a ex-ministra afirmou preferir não comentar nomes antes de um anúncio oficial do governo.

Ainda assim, Marina lembrou que Levy foi braço direito do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci e classificou o economista como “competente”. Ela lembrou que Palocci foi o responsável pelo superávit fiscal que superou a meta de 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2005 e chegou a 4,84%. “E a presidente Dilma criticou muito isso (a elevação do superávit) durante a campanha.”

Marina também não quis comentar a hipótese de a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) vir a assumir o Ministério da Agricultura. “Vivemos um momento delicado, de uma visão desenvolvimentista, que não respeita o meio ambiente. O código ambiental representou um retrocesso no Congresso e o desmatamento volta a crescer”, avaliou.

Já o porta-voz da Rede Sustentabilidade, Walter Feldman, complementou dizendo que as medidas de ajustes ficais que já vêm sendo tomadas pela presidente Dilma mostram que a economia, de fato, está em uma situação mais dramática do que a que era mostrada na campanha do PT. “Aquela história de pobres contra ricos, trabalhadores contra banqueiros, não se mostrou uma verdade como era dita na campanha da Dilma.”

Embora o PSB só deva anunciar sua posição em relação ao governo federal até 27 de novembro, próxima quinta-feira, a Rede Sustentabilidade já se declara “oposição” à gestão Dilma Rousseff. Antes da legalização do partido, a Rede evita fazer um balanço de parlamentares eleitos, mas, sem citar nomes de aliados, a estimativa é de que o novo partido tenha seis deputados estaduais, dois deputados federais e um senador na próxima legislatura.

Sobre as alianças estaduais, Feldman afirmou que a Rede participará dos governos apoiados pelo grupo nas eleições deste ano desde que a formação dessas gestões tenha afinidade programática com os ideais da Rede. “Vamos dar uma contribuição real a esses governos, e não apenas ocupar espaço. Indicaremos pessoas por critérios de capacidade técnica e administrativa. Queremos ter uma participação qualificada”, concluiu.

As deliberações da Executiva Nacional tomadas neste fim de semana serão levadas à reunião do diretório nacional da Rede Sustentabilidade, que ocorrerá no próximo mês. Somente em dezembro, portanto, a plataforma de oposição do grupo será concluída.

Rede será transformada em partido até março de 2015

• Com a criação oficial da legenda, Marina deixa o PSB na mesma data

Catarina Alencastro – O Globo

BRASÍLIA - A Rede Sustentabilidade, idealizada por Marina Silva, pretende transformar-se oficialmente em partido até março do ano que vem. A Comissão Executiva Nacional da futura legenda, que reuniu-se durante o fim de semana em Brasília, informou, em entrevista coletiva em Brasília, que ainda precisa coletar e validar cerca de 32 mil das 484,5 mil assinaturas de que precisa para ter seu registro oficializado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Marina deve deixar o PSB até março do ano que vem, quando a Rede estiver oficializada.

Em outubro de 2013, a Rede teve o registro de criação do partido negado pelo TSE por não ter obtido o número mínimo de assinaturas para sua constituição. Na época, eram necessárias 492 mil assinaturas para validar a legenda pela qual Marina pretendia concorrer à Presidência, o que correspondia, naquele ano, a 0,5% da soma dos votos dados aos deputados federais na última eleição, que tinha sido em 2010. A Justiça Eleitoral validou 442.534, 49.466 a menos que o necessário. Isso obrigou Marina e aliados a migrarem às pressas para outro partido a tempo de disputar as eleições deste ano, e o escolhido na época foi o PSB.

Oposição independente
Segundo integrantes da Rede, a legenda terá perfil de oposição independente, uma posição muito semelhante à que o PSB também pretende assumir. A Rede vai permanecer ligada à legenda do falecido Eduardo Campos até que consiga se viabilizar junto ao TSE.

A Comissão Executiva Nacional também decidiu que fará oposição independente ao governo Dilma Rousseff. O objetivo é criticar o que considera ruim e apoiar o que acha ser bom para o país.

- Avaliamos as questões no mérito. Por isso, seremos oposição independente para podermos assumir posições contrárias àquilo que julgamos que será ruim para o país, e posições favoráveis ao que for bom para o país - emendou Marina.

O porta-voz da Rede, Walter Feldman, disse estar preocupado com a "dramática crise econômica" e prometeu fiscalizar os desvios éticos, especialmente com relação à Petrobras.

- (Estamos) Extremamente preocupados com os caminhos que o Brasil vai tomar do ponto de vista econômico-político, e as medidas que são necessárias, que terão eficaz oposição e fiscalização em relação a fatos graves que a imprensa tem veiculado todos os dias, notadamente em relação à corrupção, aos graves desvios éticos, particularmente em relação à Petrobras - disse o ex-coordenador da campanha de Marina na coletiva.

Nas discussões internas, integrantes da Executiva da Rede fizeram um balanço sobre o capital eleitoral que obtiveram no último pleito e eventuais participações em governos estaduais. Pedro Ivo, um dos fundadores do grupo, lembrou que a Rede elegeu seis deputados estaduais, dois federais e um senador, todos filiados a partidos aliados. Ele preferiu não citar os nomes, alegando que não cobrará adesão ao novo partido, quando ele for criado.

Dilema de apoio a governos
A portas fechadas, a Executiva discutiu que só integraria governos que apoiou no primeiro turno. Entre esses, venceram as eleições Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), José Ivo Sartori (PMDB-RS) e Paulo Câmara (PSB-PE). O debate passou pelo dilema de apoiar um governo do PSDB, como o do Pará, e depois ter que explicar para os eleitores que a Rede não é um braço auxiliar dos tucanos.

Assim como fez no segundo turno, quando impôs condições programáticas para apoiar o tucano Aécio Neves contra Dilma, no plano estadual a participação em governos também terá de obedecer a tais critérios.

- Não podemos nos enfraquecer como terceira via. Mas também não podemos nos tornar um PSOL da sustentabilidade e nos isolarmos - disse um participante. ( Colaborou Simone Iglesias )

Marina acusa Dilma de 'esquecer tabus'

• Ex-senadora diz que petista fez "marketing selvagem" e agora adota posições que usou para desqualificar adversários

• As 32 mil assinaturas que faltam para formalizar a Rede devem ser colhidas até março do ano que vem

Márcio Falcão - Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Depois de se reunir com seu grupo político, a ex-senadora Marina Silva anunciou neste domingo (23) que fará uma "oposição independente" no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff e acusou a petista de esquecer tabus pregados durante a eleição para tentar retomar a credibilidade econômica.

Terceira colocada na corrida presidencial, Marina afirmou que a Rede, partido que tentará formalizar até março de 2015, quer ter autonomia para assumir posições contrárias naquilo que considerar ruim para o país, e favoráveis para o que for bom.

A ideia, segundo ela, é tentar marcar uma diferença em relação à oposição tradicional, principalmente após ter declarado apoio ao senador Aécio Neves (PSDB-MG) no segundo turno das eleições.

A ex-senadora disse que Dilma praticou "marketing selvagem" na campanha e agora tem adotado posições que usou para desqualificar adversários diante do confronto com os riscos econômicos para o Brasil.

"Temos uma série de ações que foram tomadas logo em seguida [da eleição] que era um tabu, que não podia mencionar, como, por exemplo, a questão dos preços administrados. E tudo isso foi esquecido, a diferença entre a realidade e o mundo colorido que foi apregoado pelo marketing selvagem", afirmou.

A ex-senadora foi cautelosa ao comentar os ministeriáveis que devem ser anunciados nesta semana por Dilma.

Tachada pela presidente de "candidata dos banqueiros" na campanha, Marina não quis comentar o convite feito ao diretor-presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, para assumir o Ministério da Fazenda --ele recusou.

A ex-senadora também mediu palavras sobre a aguardada confirmação de Joaquim Levy, também do alto escalão do Bradesco, no cargo.

Marina disse que só vai se manifestar depois que os nomes forem oficializados, mas fez questão de ressaltar que Levy foi "responsável pelo superávit fiscal" de 4,5% do PIB quando estava na Secretaria do Tesouro Nacional, no governo Lula, índice rechaçado por Dilma na campanha.

Rede
Ficou acertado que o grupo de Marina terá que recolher até março as 32 mil assinaturas que faltam para formalizar o pedido de criação do partido. Até lá, integrantes da Rede filiados ao PSB devem manter-se na sigla.

"Nós fomos lá abrigados e pretendemos manter essa posição", disse o porta-voz da Rede, Walter Feldman. "Pretendemos ter uma linha de proximidade com o PSB."

Para líderes, reforma política precisaria ser aprovada em 2015

• De acordo com líder do PT na câmara dos Deputados, o ano é ideal para a discussão da reforma por estar longe da disputa eleitoral

Iuri pitta, Ricardo Chapola, Valmar Hupsel Filho - O Estado de S. Paulo

Apesar das tradicionais divergências sobre qual reforma política levar adiante, líderes partidários e de bancadas da Câmara dos Deputados concordam em pelo menos dois pontos estratégicos. Para acontecer, ela deve ser debatida e votada em 2015 para não sofrer interferência do processo eleitoral de 2016. E, para ser efetivada, deve ter forte participação popular.

"Temos a disposição de discutir a reforma no ano que vem, longe da disputa eleitoral", disse o líder do PT na Casa, deputado Vicentinho (PT-SP). Segundo ele, o PT pretende insistir na realização de um plebiscito para que as questões sejam submetidas ao voto popular. A proposta da presidente Dilma Rousseff já encontrou forte resistência na Casa e corre risco de não ser aprovada.

O partido, dono da maior representação da casa, com 70 deputados, ainda não fechou posição sobre questões como o fim da reeleição. A principal bandeira será a proibição das doações de campanhas eleitorais por empresas, com a manutenção das feitas por pessoas físicas.

Para o deputado Marcos Pestana (PSDB-MG), escalado como porta-voz tucano para a reforma política, apesar da necessidade urgente de alterações substanciais no sistema político, a reforma deve ser "rasa e despretensiosa, mas com mudanças importantes" para garantir a aprovação do que é mais relevante.

O líder do PMDB na Casa, Eduardo Cunha (RJ), nome mais cotado para ser o próximo presidente da Câmara, diz que a discussão será feita ponto a ponto. Segundo ele, o levantamento do Estado, ainda que apresente um quadro preliminar, sinaliza que a maioria dos parlamentares da Casa quer mudanças a partir do ano que vem. "E eu estou entre aqueles que querem muitas mudanças", disse.

Levantamento mostra reforma política possível

• Enquete revela itens que têm apoio da maioria dos deputados eleitos, como o fim da reeleição e das coligações proporcionais

Iuri Pitta, Ricardo Chapola, Valmar Hupsel Filho - O Estado de S. Paulo


SÃO PAULO - Levantamento realizado pelo Estado com os deputados federais eleitos aponta para itens de uma possível reforma política que contariam com o apoio da maioria do Congresso. São eles o fim da reeleição, a unificação do calendário eleitoral, a proibição das coligações partidárias para o Legislativo e a adoção de cláusula de desempenho para as legendas. Em contrapartida, o financiamento público das campanhas aparece como a medida que mais encontra resistência.

A partir das sete perguntas elaboradas para a enquete, a proposta de maior aceitação entre os 341 deputados que responderam ao questionário - de um total de 513 parlamentares - foi o fim da reeleição para cargos executivos. A medida foi defendida por dois dos três principais candidatos à Presidência - Aécio Neves, do PSDB, e Marina Silva, do PSB.

Hoje, 278 parlamentares reeleitos ou novatos se dizem favoráveis a essa mudança. Outros 63 afirmaram ser contra à proposta, que não foi defendida abertamente pela candidata vencedora ao Planalto, Dilma Rousseff. A petista, porém, se disse disposta, durante a campanha, a discutir o assunto. A reeleição foi instituída por emenda do Congresso em 1997, no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso.

Esse volume de votos ainda é inferior aos 308 exigidos para mudar novamente a Constituição - o número corresponde a 60% do total de deputados da Câmara. Os 278 votos representam, porém, 81% de todos os parlamentares entrevistados. Essa tendência foi constante ao longo da enquete. O tema também foi o único no qual nenhum entrevistado se absteve.

Outras duas propostas obtiveram adesão semelhante. A adoção da cláusula de desempenho foi apoiada por 274 entrevistados. A medida restringiria o acesso ao Fundo Partidário a siglas que não obtivessem um mínimo de votos. Ela chegou a ser aprovada pelo Congresso em 1995, mas foi julgada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Juristas consideram que a medida depende de emenda constitucional para que entre em vigor.

Outra medida bastante apoiada, com 273 votos, é a unificação das eleições municipais, estaduais e presidencial num mesmo ano - hoje, os eleitores vão às urnas a cada biênio e as eleições para prefeito e vereador são realizadas separadas das demais. O tema também foi defendido por Aécio e Marina, mas rejeitado por Dilma e por 64 deputados eleitos.

Coligações. O fim das coligações proporcionais obteve adesão de 270 deputados, ou 79% dos entrevistados que responderam a essa questão. Outros 64 foram contra e 7 não souberam opinar. A medida é vista como fundamental para evitar distorções na representação parlamentar: pelo atual sistema, os partidos podem se unir na disputa por vagas do Legislativo e, depois, atuarem de forma independente. Assim, o eleitor dá o voto para uma legenda, mas ajuda a eleger o candidato de outra sigla.

Na atual proposta de reforma política em discussão no Congresso, os parlamentares discutem a criação da federação partidária, como contrapartida à defesa da cláusula de desempenho. Partidos menores poderiam se unir na disputa eleitoral, mas seriam obrigados a atuar de forma conjunta pelos próximos três anos - caso contrário, seriam barrados pela cláusula de desempenho.

Com menor adesão, mas próxima da maioria dos 513 deputados, o fim do chamado foro privilegiado para autoridades tem apoio de 257 parlamentares. Isso permitiria abertura de processo contra políticos sem depender de autorização do STF. Os defensores do foro privilegiado - 76 votos - alegam que, na primeira instância, haveria maior risco de perseguição política.

O ponto que mais divide os deputados ouvidos é o financiamento de campanha. Na enquete, 182 se disseram favoráveis ao uso exclusivo de verba pública e 151, contra esse modelo. O STF julga a ação movida pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que tenta barrar a doação de empresas aos candidatos e aos partidos, por considerá-la inconstitucional. A análise permanece suspensa por um pedido de vistas.

A única questão feita com múltipla escolha é a relacionada ao sistema de votação. A exemplo da cláusula de desempenho, foi a que mais houve abstenção: 13 entrevistados. Entre os cinco modelos que poderiam ser votados, o de maior adesão (30%) é o distrital misto, pelo qual metade da Câmara é eleita em lista definida pelos partidos, de forma proporcional, e metade em distritos eleitorais, nos quais o mais votado ganha a vaga. Esse modelo é o preferido da maioria dos tucanos. Em seguida vem a proposta de "distritão" defendida pelo vice-presidente da República e presidente do PMDB, Michel Temer.

O modelo majoritário, na qual os mais votados são eleitos, obteve 27% de apoio. A proposta de maior aceitação entre petistas - proporcional com lista fechada - foi apoiada por 12% dos entrevistados, mesmo porcentual dos que preferem o sistema distrital puro. O atual modelo - proporcional com lista aberta - ficou com 14% da preferência.

Como foi feita a enquete
A enquete foi realizada eletronicamente e por telefone. Por e-mail, a reportagem enviou o link para um formulário criado no Google Forms, que poderia ser respondido pelo deputado ou por um assessor.

Dos 513 parlamentares que tomam posse em fevereiro, 341 responderam às perguntas - seis com opções Sim ou Não e uma de múltipla escolha - e 72 informaram não querer opinar. Outros 84 eleitos foram contatados por e-mail ou por telefone, mas suas respostas não chegaram ao Estado até sexta-feira, e 16 não foram localizados.

Ajudaram a realizar a enquete alunos do Curso Estado de Jornalismo: Ana Cristina Mazeo, Ana Paula Mansur, Diego Moura, Luiz Felipe Barbiéri, Luana Assis, Maria Eduarda Chagas, Maria Tereza Matos, Mariana Goulart Hueb, Mariana Naviskas, Marília Marasciulo, Mateus Luiz de Souza, Natália Cacioli, Raquel Brandão, Raul Galhardi, Stéfano Mariotto de Moura, Thiago Sawada e Tulio Kruse.

José Antonio Segatto - Reforma política

- O Estado de S. Paulo

A declaração de intenção da presidente, recém-eleita, de fazer uma reforma política via plebiscito causou estranheza em alguns e perplexidade em outros. Isso, provavelmente, porque a presidente em 2013 já havia feito tal proposta - rejeitada pelo Congresso e vista como imprudente por muitos setores da opinião pública -, sobressaltada que ficou quando jovens manifestantes, durante as "jornadas de junho", se aproximaram do palácio e chegaram às portas e ao teto do prédio do Congresso. Cessados os ímpetos contestatórios, o projeto governamental foi engavetado temporariamente.

Essas proposições da presidente não são novidade. Em quase todos os governos, no início de mandato ou em momentos de crise (impeachment de Collor em 1992, escândalo do mensalão em 2005, etc.), a reforma política é posta e reposta. Considerada por muitos como "a mãe de todas as reformas", calcula-se que haja no Congresso cerca de três centenas de projetos tramitando, que vão desde iniciativas pontuais até propostas abrangentes.

Não obstante as controvérsias e vicissitudes, é fato que desde os anos 1990 a reforma política vem sendo realizada de maneira gradativa, com alterações tópicas nas normas político-eleitorais.

Por exemplo: a opção pela República e pelo presidencialismo em detrimento da monarquia e do parlamentarismo no plebiscito realizado em 1993; a redução do mandato presidencial de cinco para quatro anos; o estabelecimento da reeleição para os cargos executivos; a exclusão dos votos em branco do cálculo do quociente eleitoral; a determinação da verticalização obrigatória para as coligações partidárias (depois considerada inconstitucional pelo STF); a fixação da cláusula de barreira de 5% dos votos para deputado federal para que o partido tenha direito ao funcionamento legislativo, acesso ao fundo partidário e ao horário eleitoral gratuito (também julgada inconstitucional pelo STF); a regulação do financiamento de campanhas; a aprovação da Lei da Ficha Limpa; a abolição de candidaturas natas; a introdução da urna eletrônica, etc.

Sem dúvida alguma, essas mudanças todas nas regras político-partidárias e eleitorais contribuíram, sobremaneira, para o aprimoramento da soberania popular e da representação política e, consequentemente, das instituições democráticas.

Obviamente, em que pesem essas melhorias, há ainda muitos problemas a serem resolvidos, como o da correção da desproporção de representação entre os Estados na Câmara dos Deputados; o das coligações partidárias, particularmente nas eleições proporcionais; o da suplência de senador; o do cálculo da distribuição de cadeiras (quociente eleitoral e sobras); o do financiamento das campanhas por empresas e a limitação do poder econômico; o da distribuição e da duração do tempo de propaganda gratuita no rádio e na televisão; o da sobreposição do Poder Executivo ao Legislativo; o das siglas de aluguel; o do voto em listas abertas ou fechadas, ou ainda flexíveis.

O enfrentamento e a resolução desses problemas envolvem a elaboração de consensos mínimos, que, por sua vez, requerem laboriosos convencimentos, permanentes negociações e alta dose de transigência. Isso porque as divergências e os interesses representados são muitos e vastos. Portanto, o debate e a deliberação sobre a reforma política - qualquer que seja sua dimensão, extensa ou restrita - não podem ser encaminhados de maneira açodada e muito menos facciosa e ardilosa.

Há pelo menos três grandes vertentes com concepções e propostas diferentes. Uma que não deseja mudança alguma; diante do imponderável, prefere manter tudo como está. Considera o atual sistema político-partidário e eleitoral eficiente, funcional e conveniente. Outra que julga necessária uma reforma substancial, capaz de eliminar os elementos perturbadores que causam instabilidade e paralisia decisória, para garantir a governabilidade. E a terceira, que concebe o sistema em vigor como sendo, embora não ideal, bastante razoável. Ele necessitaria, sim, de aperfeiçoamentos específicos que eliminem determinadas distorções.
Pelo exposto, é possível aquilatar que a questão da reforma política não é tão patente ou indiscutível como muitos apregoam, muito menos uma panaceia para todos os males da política brasileira.

Se a proposição da presidente em 2013 teve evidente intento diversionista, a proposta reatualizada, em novembro de 2014, soou como um blefe. Como advertência ao PMDB e aos demais partidos da "base aliada" - cujos presidentes estavam todos à volta dela no palanque no momento do discurso da vitória - o recado foi claro: ou apoiam os projetos do governo ou serão ultrapassados, ou mesmo subjugados, por ele.

Mas é possível, também, interpretá-lo por outro viés, segundo o qual o governo, diante das resistências do Congresso para realizar a reforma política (entre outras) por ele desejada, entende que caberia ao Executivo a iniciativa de promovê-la, convocando um plebiscito - a vitória eleitoral ter-lhe-ia dado o aval necessário para tal.

Se essa compreensão é factível, estamos presenciando uma tentativa de revivificar a história pregressa. Nos idos de 1964, seu ascendente político (Leonel Brizola) propugnava, ante os impasses e dificuldades para se aprovarem as reformas no Congresso, por sua realização à revelia do Legislativo e por plebiscito. Meio século depois, as mesmas concepções parecem ser reencarnadas ou exumadas por uma herdeira daquela linhagem política. E nisso não há paradoxo algum - tanto a geração morta quanto os novos donos do poder sempre desconfiaram deles e nunca tiveram muito apreço, em sua cultura e práxis política, pelos procedimentos e valores democráticos.

Isso nos faz evocar Marx, que certa vez lembrou que Hegel observara que "os fatos e personagens na história ocorrem duas vezes, mas esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa".

*José Antonio Segatto é professor titular de Sociologia da Unesp

Ricardo Noblat - E a grana da Petrobras? As formigas comeram!

- O Globo

"É doloroso ver que a luta contra a fome é prejudicada pelo primado do lucro" - Papa Francisco

Há muitas perguntas sobre o escândalo da Petrobras que suplicam por respostas. A mais óbvia: é possível que Dilma ignorasse o mar de lama capaz de afogar a empresa que ela sempre controlou desde o primeiro governo do presidente Lula? Pois antes de suceder a José Dirceu na chefia da Casa Civil, Dilma foi ministra das Minas e Energia. Presidiu o Conselho de Administração da Petrobras de 2003 a 2010.

AO DEIXAR O CONSELHO para concorrer à Presidência da República, Dilma comentou que se sentia feliz pelo que fizera. "É um orgulho passar pelo Conselho de Administração da Petrobras, e, maior ainda, presidi-lo", disse. "Você tem uma nova visão do Brasil. Vê a riqueza do Brasil". De fato, ela viu. O que não viu, como diria mais tarde, foi por culpa dos outros.

NÃO VIU COM antecedência um dos piores negócios feitos pela Petrobras — a compra da Refinaria Pasadena, nos Estados Unidos. Ela pertencia à empresa belga Astra Oil, que a comprara em 2005 por US$ 42,5 milhões. Um ano depois, a Petrobras pagou US$ 360 milhões. E só por 50% da refinaria. Três anos depois, pagou mais US$ 639 milhões pelos outros 50%.

DILMA ALEGOU NO ano passado que se baseara em "informações incompletas" e em um parecer técnico "falho" para aprovar a compra da primeira metade da refinaria. E nós com isso? O procurador-geral da República aceitou a alegação e culpou a diretoria da Petrobras pelo mau negócio. O Tribunal de Contas da União (TCU), também.

NO DIA 29 DE SETEMBRO de 2009, segundo a edição mais recente de "Veja", Paulo Roberto Costa, então diretor de Abastecimento da Petrobras, informou a Dilma por e-mail que o TCU havia recomendado ao Congresso a paralisação das obras das refinarias Abreu e Lima, em Pernambuco, e Getúlio Vargas, no Paraná, e de um terminal petrolífero no Espírito Santo.

ESQUISITO COMPORTAMENTO, o de Paulo Roberto. Por que se dirigiu a Dilma, se era subordinado a José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras? No dia seguinte, Dilma reclamou da determinação do TCU de paralisar obras públicas do governo federal: "É impossível a paralisação. Os custos são grandes". Lula deu-lhe razão.

QUASE QUATRO MESES depois, Lula vetou uma decisão do Congresso que suspendia a execução de quatro obras da Petrobras salpicadas de fortes indícios de corrupção apontados pelo TCU. Em momento algum, Lula falou em corrupção. Ao justificar seu veto, preferiu se referir vagamente a "pendências", informa o jornal "O Estado de S. Paulo". O veto acabou mantido pelo Congresso de maioria governista.

GRAÇAS À DECISÃO de Lula, a Petrobras injetou mais de R$ 13 bilhões nas refinarias Abreu e Lima e Getúlio Vargas, e em complexos petroquímicos do Rio de Janeiro e de Barra do Riacho, no Espírito Santo. As quatro obras foram superfaturadas. Nos governos de Lula e Dilma, a Petrobras virou o maior cliente das empreiteiras cujos donos e principais executivos acabaram presos há dez dias. Por sinal, Lula viaja pelo mundo à custa deles.

O TCU CALCULA QUE a Petrobras, nos últimos quatro anos, fechou negócios no valor de R$ 70 bilhões. Desse total, cerca de 60% não dependeram de licitação. Um negócio no Espírito Santo, por exemplo, rendeu à empreiteira Mendes Júnior o adicional de R$ 65 milhões pagos pela Petrobras por causa da saúva-preta, uma espécie de formiga em extinção cuja descoberta teria atrasado a obra em 15 dias.

Valdo Cruz - Dilma, a juíza

- Folha de S. Paulo

O PT não gostou nem um pouco, mas a equipe de Dilma Rousseff já ensaia o discurso em defesa da escolha de Joaquim Levy para substituir Guido Mantega no comando do Ministério da Fazenda.

Tudo bem que ele é um economista adepto da ortodoxia, algo considerado uma doença para petistas. Mas hoje, dizem dilmistas, o futuro ministro, tudo indica, está bem mais maduro e mais consistente.

Fazem questão de lembrar que Levy fez críticas aos juros altos quando era secretário do Tesouro do governo Lula. Reclamava que cumpria sua parte no controle de gastos e o Banco Central exagerava um pouco no aperto da política monetária.

Além disso, o Palácio do Planalto aposta numa equipe econômica mais equilibrada neste segundo mandato, criando um ambiente para um "debate saudável" sobre os rumos da economia brasileira a partir de 2015.

De um lado, Levy e sua ortodoxia. De outro, Nelson Barbosa com sua visão mais desenvolvimentista no Ministério do Planejamento. E, no BC, Alexandre Tombini mirando a inflação no centro da meta.

No primeiro mandato, só deu a linha desenvolvimentista. Se gerou desemprego baixo e renda do trabalho em alta, deixou inflação elevada, juros salgados, rombo nas contas externas e crescimento medíocre. Mistura explosiva e pronta para destruir as conquistas sociais.

Não por outro motivo Dilma Rousseff fez o que fez. Para surpresa de amigos, depois de bater na Neca do Itaú na campanha, convidou o Trabuco do Bradesco e escolheu Joaquim Levy para Fazenda, também do Bradesco e adepto da mesma cartilha econômica de Armínio Fraga.

Total incoerência com o discurso eleitoral, daí a tristeza no mundo petista. Pior, porém, seria insistir nos erros que estavam levando o país a um quadro de estagflação.

Agora, depois dos bons sinais na escolha da nova equipe, é preciso saber como Dilma Rousseff exercerá seu papel de árbitra da economia.

Renato Janine Ribeiro - A corrupção assassina

• O corrupto não é ladrão: ele mata e mutila vidas

- Valor Econômico

Já escrevi aqui sobre a corrupção, porém não gosto de me repetir, nem de me limitar à indignação. Mas vale a pena, no curso das operações Lava-Jato e Juízo Final, firmar alguns pontos fundamentais.

Primeiro: "república" é coisa pública, bem comum. A conduta mais antirrepublicana que há é vulnerar, atacar, destruir o bem comum. Ou seja, nada é mais inimigo da república do que a corrupção, que privatiza ilegalmente o que pertence a todos. É um erro, que devemos à escola, pensar que o contrário da república é a monarquia. Distinguir repúblicas e monarquias é coisa do século XIX, quando estas últimas eram o que hoje chamamos de ditaduras.

Desde a vitória dos Aliados na II Guerra Mundial, quase todas as monarquias são constitucionais. As monarquias escandinavas visam mais o bem comum do que muitas "repúblicas" do resto do mundo. Devolvamos à República seu sentido forte: há república quando se visa o bem comum. Ser contra a república não é questão de opinião, de achar bonito um rei. É crime, é praticar atos desviando de sua finalidade o viver em comum.

Segundo: na América Latina nos acostumamos ao patrimonialismo, uma das versões ibéricas do que hoje chamamos corrupção. Consiste em o governante tratar a coisa pública como se fosse seu patrimônio privado. Toda confusão do público e do privado, quando favorece o detentor do poder político, vai dar em patrimonialismo. Por exemplo, se um governante usa os carros oficiais para transportar familiares (a não ser que haja razões claras, consensuadas, de segurança para tal). Nossos governadores e presidente, que moram em palácios e não gastam nem com a comida ou a roupa, dão exemplo disso. Mas este é só um detalhe.

Porque, terceiro: não é verdade que "somos todos corruptos". Não somos, não. Estou convencido de que a grande maioria é honesta. Não vamos desresponsabilizar os corruptos por sua corrupção dizendo que ela pertence à "cultura brasileira". Nossa sociedade pode ser um tanto leniente com isso, mas mesmo isso está mudando. Já comentei aqui a modelo que contou à "revista Trip" que usava sua beleza para não levar multas dos guardas. Falou isso num tom de flerte, mas mesmo assim os leitores caíram matando. Nossa leniência diminuiu muito, e isso é ótimo. Também temos mais informações sobre desvios de dinheiro, além de menos tolerância por isso.

Quarto, talvez mais importante: não é verdade que todos os atos de corrupção se equivalem. Sim, é errado agradar o policial ou o atendente, mas montar um "clube" para furtar centenas de milhões de dólares da Petrobras é coisa muito diferente. Não é apenas uma questão de tamanho. É uma diferença de concepção. Os pequenos erros morais de cada dia não estão na mesma lógica do assalto organizado aos cofres públicos. Precisamos desenvolver este ponto. Suponho que a lógica seja a inversa: não é porque vários corrompem policiais que uns pouquíssimos atacam o erário público. Talvez seja porque esses pouquíssimos roubam tanto que aqueles outros perdem a crença na honestidade, na decência. O que inspira uma cultura ampliada de desistência do bem comum é o mau exemplo dos poucos.

Mas, mais que isso, penso que um grande desafio à ética é: em que a roubalheira dos grandes se distingue dos pecadilhos dos pequenos? Eu mesmo, por enquanto, não tenho resposta completa, e lanço este desafio aos colegas que também trabalham com a ética. Mas penso que precisamos distinguir o furto do bem privado e o desvio do bem público. A ideia de que o corrupto é "ladrão", tão pertinaz em nossa sociedade, se inspira na sua comparação com quem furta indivíduos. Mas as vítimas do corrupto não são individuais, são a sociedade inteira. Daí que, talvez, seja mais correto pensar que eles não se limitam a furtar dinheiro (no caso, público), mas - acima de tudo - impeçam o bom uso desse dinheiro, por exemplo, em saúde, educação, outros serviços essenciais. Impedem que doentes sejam salvos, em hospitais que não deixaram existir ou funcionar. Impedem que crianças e adolescentes sejam educados, em escolas que devido a eles não existem ou não funcionam. Seu crime é contra a vida, que eles abreviam ou mutilam. Abreviada, a vida dos que morrem antes da hora. Mutilada, a dos que vivem mal. Por que não considerar assassinos os corruptos? Pelo menos, no nível simbólico.

Talvez por isso, faça sentido a reforma legal que, na esteira das manifestações de 2013, tornou hediondo o crime de corrupção. Voltarei a este tema no futuro, mas observo que o hediondo, propriamente dito, é uma pessoa ver o sofrimento de outra e ser indiferente a ele, ou até sentir prazer graças a ele. Isso é desumano. Isso é desumanidade. Mas isso só acontece em alguns crimes presenciais - geralmente, crimes cometidos por pobres. Ora, a corrupção é um crime não-presencial; mais que isso: indireto, abstrato. O corrupto não vê a sua frente as crianças desnutridas, as pessoas miseráveis porque privadas de educação, os mortos de doenças curáveis que são vítimas da corrupção. Por isso, a rigor, seu crime não é hediondo.

Mas ele mata mais, muito mais, que o pé de chinelo enlouquecido pela falta de oportunidades e sobra de drogas. O corrupto provavelmente teria pena de sua vítima se a visse, até porque ele não atira nem apunhala. Ele não mata com seus atos, mas com sua omissão. É omitindo comida, remédios e educação que ele chacina. Mas não será um sinal de nosso desenvolvimento moral começarmos a chamar de hediondo também esse tipo de atitude, em que a pessoa pode até ser caridosa no micro, mas - no macro - destrói a república e mata ou mutila vidas?

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

Clóvis Rossi - O banqueiro e o estelionato eleitoral

• Ao convidar um banqueiro, Dilma só prova que sua propaganda de campanha era pura empulhação

- Folha de S. Paulo

Os pobres do Brasil devem ter soltado um profundo suspiro de alívio ao serem informados de que o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, recusara o convite para ser o ministro da Fazenda.

Afinal, como a maioria relativa do eleitorado votou pela reeleição da presidente, supõe-se que acreditou na propaganda dela.

E a propaganda dizia que um banqueiro no Banco Central, como afirmava que ocorreria se ganhasse Marina Silva ou Aécio Neves, faria com que o prato de comida sumisse da mesa dos pobres, "comido" pelos banqueiros.

Ao convidar um banqueiro, portanto, Dilma praticou um estelionato eleitoral, mesmo que o convite tenha sido recusado e ainda mais se o ministro vier a ser Joaquim Levy, também do Bradesco.

Gostaria muito de saber se os colunistas e blogueiros que endossaram a propaganda dilmista farão agora o devido registro de que era uma empulhação.

Duvido, pois deixaram passar, sem reparos, a evidência cristalina de que um partido que teve o banqueiro Henrique Meirelles como presidente do Banco Central durante oito anos não tinha autoridade moral para fazer a propaganda que fez.

Há um segundo aspecto relevante no convite a Trabuco: o banco que ele preside foi flagrado em malabarismos fiscais, via Luxemburgo, com o que poupou uma baita grana em impostos.

Ao contrário do que ocorre com a Petrobras, o Bradesco não cometeu nenhuma ilegalidade. Jogou dentro das regras.

Acontece que Dilma Rousseff assinou, com seus pares do G20, um papel em que todos se comprometem a implementar um mecanismo que impeça ou dificulte um tal de BEPS ou "Base Erosion and Profit Shifting".

Em português claro, erosão da base fiscal pelo passeio dos lucros do país onde eles se dão para onde não são taxados, tipo Luxemburgo.

Ou seja, Dilma convidou para a Fazenda um cidadão cuja empresa pratica atos que ela quer ver eliminados, mesmo porque o BEPS tira, sim, a comida da mesa dos pobres e até dos não tão pobres, porque permite a elisão fiscal, codinome elegante (e legal) para sonegação.

Se fosse minimamente coerente com a propaganda eleitoral, Dilma deveria convidar para a equipe econômica gente com a clareza de Thomas Piketty, o badalado autor de "Capital no século 21".

Para ele, um Estado de Bem-Estar Social não pode sustentar-se exclusivamente nos impostos sobre salários e renda fixa.

Como lembra em "El País" desta sexta, 21, José Ignacio Torreblanca, do Conselho Europeu de Relações Exteriores, "não pode por motivos de eficiência, já que, com esses impostos, não basta para sustentar políticas de equidade, nem por motivos de equidade, porque a riqueza patrimonial cresceu desproporcionalmente em relação aos salários".

Completa ele: "Basear todos os impostos sobre trabalho e salários é, além de injusto, ineficaz, porque as rendas salariais são fixas e as patrimoniais são móveis, líquidas ou desfrutam de regulações muito favoráveis" (vide o tal de BEPS).

Banqueiros pensariam assim?

A meia-verdade do pedágio - O Estado de S. Paulo / Editorial

No afã de defender um cliente, principalmente quando as suspeitas levantadas contra ele não parecem descartáveis, às vezes um advogado cede à tentação de diluir perante a opinião pública a presumível responsabilidade por ilícitos penais de quem o contratou com o argumento de que ele, se não fosse inocente, de forma alguma seria o único a merecer as atenções da Justiça. Em português corrente, equivale a dizer, com ar de desafio: "Sou, sim, mas quem não é?". Tome-se o caso do patrono do cidadão Fernando Soares, o lobista profissional mais conhecido como Fernando Baiano.

Ele foi apontado nas delações premiadas do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa e de seu comparsa, o doleiro Alberto Youssef, como intermediário no esquema de pagamento de propinas por empresas interessadas em negócios com a Petrobrás. Trabalharia para o PMDB, o que o partido negou enfaticamente. Um dos 24 suspeitos de participar do escândalo, cuja prisão foi decretada pelo juiz federal Sérgio Moro, estava foragido desde o dia 14. Terça-feira, entregou-se à Polícia Federal no Paraná. O criminalista que o representa, Mário de Oliveira Filho, alega ter outra avaliação do "empresário".

Os atos de seu cliente seriam os de alguém "que descobre um problema de infraestrutura e vai atrás da empresa que tem a solução, recebendo uma porcentagem absolutamente legítima disso", afirma. Mas não exclui por definição a possibilidade de Soares ter feito uma "composição ilícita" com um político "para pagar alguma coisa". E aí Oliveira Filho desandou a dissertar sobre "a cultura política do País", da qual os empreiteiros encarcerados seriam vítimas. Isso porque, se o candidato a um negócio com a área pública não pagar pedágio aos políticos que fazem a ponte com a Administração, "não tem obra".

Caso alguém ainda não tivesse captado o espírito da coisa, aprofundou a sua teoria. "Pode pegar qualquer empreiterinha e prefeitura do interior do País", sugeriu. "Se não fizer acerto, não coloca um paralelepípedo no chão." A cobrança e o pagamento de pedágio seriam, portanto, verso e anverso da moeda única das relações entre o Estado e o setor privado. (Na mesma linha, o vice-presidente da construtora Mendes Júnior, Sérgio Mendes, disse à Polícia Federal que em 2011 teve de pagar R$ 8 milhões à dupla Costa & Youssef para conservar o contrato da obra da quinta maior refinaria brasileira, a Repar.)

Dito de outro modo, se a corrupção fosse inexorável como sustenta o advogado, associando-se a todos quantos supõem que o Brasil "não tem jeito", ou porque os brasileiros são assim mesmo ou assim é o Poder Civil, a sociedade já teria se desmanchado sob a força desagregadora da bandalheira endêmica. A corrupção, evidentemente, não é pouca nem concentrada. Mas tampouco se pode perder o senso de proporção. Leituras, ainda que infrequentes, do noticiário internacional bastariam para enxergar o Brasil em posição menos vexaminosa, por exemplo, do que a África do Sul, a China, a Índia e a Rússia - para citar, em ordem alfabética, nossos parceiros do Brics, deixando de lado os regimes cleptocráticos pelo mundo afora.

E o mais importante não é nem isso. Todos os dias úteis, dezenas de milhões de brasileiros voltam para as suas famílias depois de extenuante jornada de trabalho, sem que em algum momento durante os seus afazeres tenham se abrigado na fantasia pervertida de serem comprados para cometer um ilícito contra o patrão ou o governo. Não é por inveja que o homem da rua abomina quem corrompe e quem acede de bom grado a ser corrompido. E seria fazer pouco-caso de sua inteligência presumir que ele se deixa enrolar por alegações de grandes empresários como os alcançados pela Operação Lava Jato.

Afirmam em sua defesa, como o advogado Oliveira Filho em relação ao universo de seu cliente Fernando Soares, que são extorquidos pelos políticos e à extorsão se submetem, do contrário não sobreviveriam no mercado. É um caso antológico de meia-verdade. O pedágio de que eles não têm escapatória voltará aos seus cofres, com robustos acréscimos, mediante o superfaturamento dos contratos, em conluio com o contratante. Perdedor mesmo só há um: o contribuinte.

Petrobras em descrédito – Folha de S. Paulo / Editorial

• Escândalo na estatal acentuou o desprestígio da economia e das finanças do Brasil, mas é possível conter efeitos colaterais da crise

A pressão dos mercados financeiros elevou-se de modo considerável assim que foi desencadeada a sétima fase da Operação Lava Jato, com prisões e outras medidas coercitivas levadas a cabo pela Polícia Federal no dia 14.

De súbito, o crédito do Brasil, do governo e das empresas deteriorou-se. Subiram as taxas de juros que investidores demandam para manter ou adquirir títulos brasileiros, dívidas do governo e de empresas; o dólar desvalorizou-se, assim como o preço das ações.

A crise acentuou o desprestígio da economia e das finanças nacionais, em tendência de baixa neste ano. Mostrou, ainda que de modo exagerado, como as incertezas geradas pelo escândalo da Petrobras podem contribuir para uma piora adicional das condições do crédito e do investimento no Brasil.

No entanto, assim que se reforçavam as notícias de que a presidente Dilma Rousseff (PT) nomearia uma equipe ministerial rigorosa no trato de assuntos econômicos elementares, a fase aguda de pressão financeira foi atenuada.

Eis um sinal de que a restauração de um mínimo de racionalidade pode conter os efeitos colaterais do inquérito sobre corrupção na maior empresa do país.

Não que o aprimoramento da política econômica vá dissipar de pronto a incerteza sobre estatais, grandes empreiteiras, o futuro das obras de infraestrutura ou do mercado de capitais. Vislumbra-se, todavia, um modo de frear a crise.

A Petrobras ainda é um caso crítico. Terá de registrar perdas devido aos superfaturamentos. Viu-se obrigada pelo governo a seguir um programa de investimentos ambicioso demais enquanto sofre prejuízos por causa da política de compra de insumos nacionais e do controle de preços de combustíveis.

Assim como outras estatais, a Petrobras se tornou instrumento de uma política econômica equivocada e teve de bancar remendos desse plano de ação fracassado.

Há grande desconfiança em relação às empreiteiras, sobre sua capacidade futura de firmar contratos públicos e de se financiar no mercado. A fragilidade nas contas da Petrobras lança dúvidas sobre a continuidade dos investimentos.

A combinação dessas incertezas põe um grande ponto de interrogação sobre as obras de infraestrutura, que emperram o crescimento.

Essas manifestações de descrédito não são mera mancha na reputação do país e de seu mercado. Traduzem-se em dificuldades de financiamento, em taxas de juros maiores e propensão menor a investir no Brasil e em suas empresas.

Há como sair da crise, ressalte-se. Uma política econômica racional e a administração empresarial das estatais pode não apenas conter a marcha do descrédito mas também revertê-la ao fim de 2015.

Ministério de Dilma aponta inflexão na política econômica – Valor Econômico / Editorial

A menos de 40 dias da posse, a presidente Dilma Rousseff ainda está às voltas com a escolha da equipe de governo para os próximos quatro anos. A seu modo, um tanto imperial e atabalhoado, marcas registradas de seu primeiro mandato. Os primeiros movimentos da presidente, no entanto, indicam que Dilma falava sério quando dizia que mudou e que faria um governo de mudanças, em seu novo mandato. Se não mudou, a presidente pelo menos dá indícios de que é capaz de dar um passo atrás, se assim o exigir a realidade.

A se confirmar as escolhas de Joaquim Levy, para o Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa para o Planejamento e Alexandre Tombini no Banco Central, a presidente dará mostras de que é efetivamente capaz de abrir mão de convicções pessoais, se o remédio para o país voltar a crescer fizer parte de um receituário que não é o seu e do qual tanto relutou em lançar mão nos primeiros anos de governo.

Na realidade, a confirmação de Levy, Barbosa e Tombini deve representar uma profunda inflexão na política econômica do governo Dilma Rousseff. Na prática, deve significar o abandono da matriz exercitada nos últimos quatro anos, cujo fracasso é atestado no abandono da meta do superávit primário de 2014, ainda dependente de aprovação pelo Congresso, e sobretudo no baixo crescimento do Produto Interno Bruto.

O perfil da equipe que Dilma deve anunciar nas próximas horas é a garantia de que a presidente de fato se dispõe a experimentar a receita que deu certo desde a estabilização da economia, já se vão 30 anos. Com doutorado em economia em Chicago, o economista Joaquim Levy é a antítese do atual secretário do Tesouro, Arno Augustin, autor das práticas de "contabilidade criativa" e das "pedaladas" nas contas públicas, artifícios usados para justificar um governo que gasta mal o que arrecada.

O economista Nelson Barbosa, cotado para o Ministério do Planejamento, era secretário-executivo do Ministério da Fazenda, cargo do qual foi defenestrado devido justamente a divergências que tinha com as heterodoxias fiscais de Guido Mantega e equipe. Tombini, no Banco Central, pode enfim libertar-se das amarras que levaram o BC a tentar baixar os juros a golpes de caneta bic. Pelo menos já não está tão sozinho, isolado politicamente, no condomínio econômico, como esteve até agora.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve papel preponderante na escalação da nova equipe econômica. Lula não escondeu de ninguém que seus nomes preferidos para ocupar a Fazenda eram o do ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o do presidente do Bradesco, Luiz Trabuco. Sem dúvida, dois pratos indigestos para Dilma, que certamente seria acusada de "estelionato eleitoral" se nomeasse um dos dois. É certo que sofrerá essas acusações também com Levy, mas Lula, assim como cobrou a fatura por sua participação decisiva sobretudo no segundo turno da eleição, tem agora a obrigação de acalmar os ânimos PT, insatisfeito com a guinada ortodoxa que a presidente aponta para o início do próximo mandato.

A não ser pela falta de densidade política, não há reparo profissional aos nomes de Dilma para a condução da política econômica. Todos têm formação acadêmica sólida e experiência. São também pessoas comprometidas com o tripé no qual se assenta a estabilidade econômica. A grande questão é a presidente da República. É improvável que Dilma Rousseff tenha mudado suas convicções pessoais; mas ela sem dúvida demonstra que é capaz e disciplinada para fazer o necessário. Resta saber até quando.

Apesar de o governo acenar com um ajuste fiscal rigoroso em 2015, a presidente deixa a pista livre para ministros situados em postos-chaves da administração sinalizarem na direção contrária. Veja-se o caso do ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, chamado de "o absoluto" no Palácio do Planalto, tal é a importância que Dilma dá a seus conselhos. Em uma reunião com a bancada do PT na Câmara, Mercadante não tergiversou: "A política econômica do segundo governo não pode ser a que foi derrotada. A nossa prioridade é emprego e renda. A nossa agenda não é a do mercado".

O novo governo Dilma pode estar levando para o novo mandato uma dualidade que tem marcado governos, sejam do PT ou do PSDB, sendo desta vez as trincheiras a Fazenda, a Casa Civil e o Ministério do Planejamento. Uma coisa é certa: Dilma neste exato momento está contratando o futuro do projeto de poder do PT.

Tom Jobim+Vinicius de Moraes+Toquinho+Miúcha

Ferreira Gullar - Dois e dois são quatro

Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena
Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena

Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.

Ferreira Gullar