terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Abert: legislação já regulamenta mídia

• PT cria "falsa impressão" de que não há regulação, diz dirigente da entidade

- O Globo

BRASÍLIA - O presidente da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e TV (Abert), Daniel Slaviero, reagiu à campanha feita pelo PT nas redes sociais no final de semana, quando o partido defendeu a regulação na mídia. Slaviero explicou que o setor obedece a uma ampla legislação, como o Código Brasileiro de Telecomunicações. Também há um capítulo específico na Constituição. Ele citou ainda a lei de rádios comunitárias, pequenas FMs sem fins lucrativos para pequenas comunidades, e a legislação específica de TV paga, de setembro de 2011.

- A Abert vê com preocupação a iniciativa do PT em criar uma falsa impressão de que não existe regulação no setor. Dizer que o setor não é regulado é uma inverdade - afirmou o presidente da Abert.

Slaviero frisou que, desde a década de 1960, existe no país limite de propriedade para as empresas de radiodifusão - no caso de TVs, uma mesma pessoa ou grupo não pode ter mais de dez emissoras, sendo uma por localidade. E em relação as rádios FM, são no máximo seis.

- A regulação econômica da mídia pode, sim, interferir na liberdade de expressão, ao enfraquecer economicamente os veículos de comunicação - disse o presidente da Abert.

A TV paga conta com uma legislação específica. Uma das exigências é que as empresas transmitam produções nacionais e independentes em sua programação por pelo menos três horas e meia durante a semana, em horário nobre.

O Marco Civil da Internet, aprovado pelo Congresso no ano passado, também criou regras específicas para regular essas mídias, mas ainda depende de regulamentação.

A página da presidente Dilma Rousseff no Facebook, administrada pelo PT, defendeu no último sábado a regulação da mídia. Foi apresentado um vídeo com gráficos sobre o tema, com depoimentos da presidente e também do ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini. O Palácio do Planalto disse que a página é de responsabilidade do PT.

Peemedebista acusa governo de interferir em eleição na Câmara

• Eduardo Cunha diz ouvir relatos diários de que ministros prometem cargos em troca do apoio a Chinaglia, do PT

• Representantes de partidos nanicos confirmam que Pepe Vargas, articulador político, fez ofertas

Andréia Sadi, Ranier Bragon – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A duas semanas da eleição para a presidência da Câmara, parlamentares relataram à Folha que o governo federal tem oferecido cargos em troca do apoio a Arlindo Chinaglia (PT-SP) na disputa.

O principal adversário do petista é Eduardo Cunha (PMDB-RJ), desafeto do Planalto. ""Todos os dias recebo relato de deputados abordados por ministros do Palácio tentando fazê-los mudarem para a candidatura do Chinaglia. Abordados com todo tipo de proposta e de cobranças, incluindo ofertas de cargos, segundo me relatam"", afirmou o peemedebista.

Representantes de um recém-formado bloco de oito partidos pequenos, que somam 40 deputados, se reuniram na semana passada com o ministro Pepe Vargas (Relações Institucionais).

Deputados da coordenação desse bloco relataram à Folha, em entrevistas gravadas, pedido de apoio a Chinaglia e oferta de cargos no governo e em administrações estaduais e municipais ligadas ao PT.

A assessoria de Pepe Vargas negou negociação de cargos em troca de apoio a Chinaglia. A Folha não conseguiu falar com o candidato do PT nesta segunda-feira (19).

A presidente do PTN de São Paulo, a deputada federal eleita Renata Abreu, disse que estava em viagem, mas foi informada pelos colegas do teor do encontro. Ela confirmou que houve oferta de participação nos governos.

Abreu disse que sua percepção é de que Cunha vencerá, mas que o governo virá "com tudo". Questionada sobre estar havendo promessas para cargos, disse: "Está". Segundo ela, na próxima reunião a meta é tratar dos "espaços que o governo federal pode abrir para os partidos para que eles projetem seus mandatos".

Deputado eleito, Hildo Rocha (PMDB-MA) diz ter recebido relatos da reunião, de cinco colegas, de que o governo estaria oferecendo cargos federais nas administrações locais. E que setores do Planalto teriam dito que o Ministério do Esporte, dado ao PRB, é mais importante para o partido que a eleição de Cunha.

No bloco, o PRB é a sigla com maior peso --tem 21 dos 40 deputados eleitos-- e por enquanto está fechado com Cunha. Os votos do grupo podem ser decisivos: em 2007, por exemplo, Chinaglia foi eleito presidente da Casa por uma diferença de 18 votos.

O deputado eleito Luis Tibé (PT do B-MG), que foi à reunião com Vargas, também confirmou que o governo demonstrou interesse na participação dos partidos na administração federal. Mas afirmou que a oferta de cargos não foi vinculada ao apoio ao petista.

Cunha prevê ""esfacelamento"" da base devido à interferência. ""Se o governo escolher um lado depois não poderá cobrar do outro o alinhamento que eles precisarão para aprovar o que necessitam.""

Susto
Também candidato à presidência da Casa, Júlio Delgado (PSB-MG) passou por um susto nesta segunda.

O avião em que ele estava tentou pousar no aeroporto de Porto Alegre três vezes, mas só conseguiu descer na Base Aérea de Canoas, a 18 km dali. Houve problemas no reverso --equipamento que ajuda a aeronave a frear.

Colaborou Vera Magalhães, editora do Painel

Roberto Freire e as ‘maldades’ de Dilma

- Folha de S. Paulo / Painel

Tiroteio

"É um escárnio, vindo de quem se diz defensor dos pobres. Em um país sério, estaríamos mobilizados para impedir esse estelionato."

Do deputado Roberto Freire (PPS-SP), presidente da sigla, sobre o pacote anunciado ontem por Joaquim Levy, ministro da Fazenda de Dilma Rousseff.

Merval Pereira - Tempestade perfeita

- O Globo

Do ponto de vista meramente eleitoreiro e pessoal, o PSDB pode dizer que ter sido derrotado foi uma sorte, pois estaria sendo acusado pelo PT na oposição de tomar medidas impopulares que não seriam necessárias.

Era isso o que a candidata vitoriosa, Dilma Rousseff, dizia na campanha, e certamente essa postura otimista teve muito a ver com sua vitória apertada, além, é claro, de todas as demais atitudes antiéticas que sua campanha adotou no ataque direto aos adversários mais fortes, tanto o do PSDB quanto Marina no 1º turno.

Do ponto de vista do país, o que estamos vendo é um governo tendo que tomar medidas dramáticas para tentar consertar os erros que cometeu no 1º mandato, e perdido entre as disputas políticas internas. A "herança maldita", que o PT tanto apontou contra o governo de Fernando Henrique Cardoso que o antecedeu, nem de longe se compara à herança que Dilma deixou para ela mesma, levando o país a uma quadra de economia débil que ameaça se repetir neste 2º mandato.

A tempestade perfeita que os "pessimistas" previam está acontecendo nos primeiros 20 dias do 2º mandato, o que significa que o país que ela governou por 4 anos está em estado de calamidade. Desde o fechamento das urnas, o cidadão já recebeu aumentos de impostos, taxas, juros e tarifas que ela negava que fossem necessários, além do desemprego que já é uma ameaça real.

E, mais espantoso, parte do PT já se coloca contra as medidas que vêm sendo adotadas pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy, usando o economista Luiz Gonzaga Belluzzo como porta-voz da contestação ao "neoliberalismo" que teria tomado conta do governo Dilma, que teria abdicado de seu poder sem necessidade.

O apagão que atingiu ontem 9 estados e o Distrito Federal, nessa visão, seria apenas um acidente sem prenunciar maiores problemas, muito menos um racionamento de energia. Usam o mesmo artifício banal que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que finge negar que em seu estado há racionamento, falando da mesma "restrição hídrica" culpada pelo governo do apagão. O novo ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, que vive com um sorriso nervoso nos lábios, foi capaz de duas frases memoráveis sobre o mesmo assunto nos dias que antecederam o grande apagão.

"Temos energia, ela apenas está mais cara", garantiu. E depois prometeu que o aumento para o consumidor "não chegará a 40%", como se isso fosse boa notícia. A Caixa Econômica subiu os juros do financiamento imobiliário, e foi apanhada pelo Tribunal de Contas da União usando o mesmo artifício que a Petrobras utilizou para não fazer licitações: usava empresas de papel para simular negócios.

O Banco Central não parece disposto a parar de subir os juros, o que começou a fazer na 1ª semana após o 2º turno, apesar da economia estagnada, provavelmente com crescimento negativo já este ano. Depois de restringir o seguro-desemprego, pensões e abono salarial, Levy anunciou ontem novas medidas fiscais, criando um problema para a Petrobras com o aumento da Cide, que recai sobre o preço da gasolina.

Para que a alta não chegue às bombas, a estatal terá que deixar de aumentar o preço, ficando mais uma vez sem recuperar o prejuízo por questões políticas. Todos os aumentos de impostos anunciados darão ao governo um gás no faturamento, mas implicarão o aumento da inflação.

E o ministro da Fazenda, que está indo para o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, tentar convencer os investidores de que está colocando o país nos trilhos, é o grande alvo não só do PT como da oposição, que não está disposta a lhe dar crédito, mesmo sabendo que está no caminho certo, dentro das circunstâncias.

O PT acha que o caminho está errado, e o PSDB acha que faria melhor e com mais efeito, pois os investidores não precisariam ser convencidos já que as medidas fariam parte de um programa mais amplo e coerente.

E a presidente Dilma continua fazendo política barata, trocando a terceira posse de Evo Morales pelos investidores de Davos, e tentando criar um fato político com a condenação de um traficante brasileiro na Indonésia.

Mais obstáculos
O julgamento do petrolão terá mais obstáculos do que se pode supor no momento. Além dos dois novos ministros que devem compor a Segunda Turma que vai julgá-lo, e a discussão sobre os embargos infringentes, haverá mais uma questão burocrática com implicações políticas: dentro de dois anos, a ministra Cármen Lúcia presidirá o Supremo, deixando a turma em meio ao julgamento. E quem assumirá sua vaga? O ministro Ricardo Lewandowski.

Dora Kramer - Tempo de estio

- O Estado de S. Paulo

No dia 1.º de janeiro, em seu discurso de posse, a presidente Dilma Rousseff anunciou um Brasil próspero, uma pátria educadora e um País imune à corrupção. De lá para cá, dela não se ouviu mais palavra.

Há no mundo político aqui e ali registro de estranheza com tal recolhimento. Diante de tantos acontecimentos e anúncios importantes, a presidente da República tem se limitado a se manifestar por intermédio da assessoria de comunicação ou de notas oficiais.

Comportamento oposto - natural que assim seja - ao da candidata sempre disponível aos microfones. Mas, diferente também da presidente reeleita; primeiro, conciliatória, oferecendo-se ao diálogo e depois, na ofensiva, exortando a oposição a descer do palanque eleitoral sem, no entanto, dar o primeiro passo na direção sugerida.

Depois da posse, Dilma calou-se. A despeito da estranheza acima referida, se examinadas as razões sob a ótica da conveniência dela é possível concluir que nada de estranho ocorre. Afinal de contas, tudo o que aconteceu nesse breve período justifica - repetindo, do ponto de vista da presidente - o recolhimento.

As medidas anunciadas contrariam tudo o que disse a candidata na campanha e o cenário que se desenha é o oposto ao apresentado no discurso de posse.

Há aumento de tarifas, taxa de juros, perspectiva de elevação de impostos, restrição de investimentos, alteração em regras que mexem nos direitos trabalhistas e corte pesado no orçamento do Ministério da Educação, justamente a pasta a que ela se referiu como destinatária de "cada vez mais recursos" ao anunciar o lema "Brasil, pátria educadora".

Quanto ao tema da corrupção que a presidente abordou com tanta ênfase avocando para si não apenas a defesa da Petrobrás como a descoberta e punição de todos os ilícitos ocorridos na estatal, os fatos seguintes não corroboraram suas afirmações. Os procuradores responsáveis pelo caso recentemente declararam que "o esquema" não foi estancado.

Diante de tantas contradições, vamos e venhamos, à presidente só restava se recolher. Caso optasse por falar, correria o risco de não parar de se desmentir.

Último tango. A comoção que tomou conta da Argentina e a repercussão no continente e no mundo da morte do promotor Alberto Nisman, antes mesmo de esclarecidas as circunstâncias, já aponta para um condenado político: o governo de Cristina Kirchner.

Era o alvo das acusações que o promotor apresentaria em detalhes nesta segunda-feira ao Congresso argentino. A hipótese de suicídio voluntário não se encaixa na jornada em que Nisman estava empenhado.

Foi encontrado morto com um tiro horas antes do momento em que mostraria as provas que recolheu durante anos para demonstrar sua tese de que as autoridades argentinas obstruem as investigações do atentado a entidade da comunidade israelita há 20 anos em Buenos Aires, em troca de acordos comerciais com o governo iraniano suspeito de planejar o crime.

Trazendo para nossa realidade e guardando as proporções, é como se um procurador-geral da República aparecesse morto na véspera de apresentar uma denúncia ao Supremo Tribunal Federal ou se o mesmo acontecesse a uma testemunha que fosse apresentar provas contra governantes numa CPI. De acordo com a imprensa argentina, não há uma terceira hipótese: ou foi suicídio induzido ou assassinato.

Ainda que a Casa Rosada esteja diretamente isenta de responsabilidade, o custo político para a presidente da Argentina será pesado. Voltemos à história do Brasil para lembrar que Getúlio Vargas pagou pelo gesto de Gregório Fortunato na tentativa de assassinato de Carlos Lacerda que acabou na morte no major Rubens Vaz, no atentado da Rua Tonelero.

Raymundo Costa - PT quer pauta para enfrentar a Lava-Jato

• Quem tem cinco interlocutores pode não ter nenhum

- Valor Econômico

A menos de 15 dias da retomada das atividades parlamentares, a bancada do PT no Senado reclama a designação de um interlocutor do governo para discutir as prioridades do Palácio do Planalto no Congresso Nacional. O senador Walter Pinheiro (PT-BA), presume que sejam os cinco pontos que a presidente Dilma Rousseff defendeu na campanha eleitoral. Mas à medida que se aproxima a reabertura do Legislativo, mais ele teme que reste aos deputados e senadores petistas a tarefa de correr atrás de colegas para evitar autógrafos ou retirar assinaturas para uma nova CPI da Petrobras.

Pinheiro faz parte de um grupo de senadores que considera urgente a definição desse interlocutor. "Quem do governo vai abrir essa conversa agora? Deixar para depois do dia 3 de fevereiro é só enxugar gelo, é ficar sendo movido da pela pauta da conjuntura da pressão de dentro da Câmara e do Senado", diz o senador, que também é vice-líder do governo no Senado. "Tudo bem que o governo se preocupe em não deixar instalar a CPI", diz. "Agora a única forma de enfrentar a pauta negativa é ter uma pauta enxuta, consistente que coincida com os problemas da sociedade e mobilize Câmara e Senado".

A inquietação dos senadores petistas surge num momento de definição dos novos líderes do governo no Senado, Câmara e no Congresso. Pinheiro faz questão de avisar que não é candidato a nenhum desses postos. "Não quero", diz. O que importa para o senador é que "no dia 3 de fevereiro, às 16h, o presidente eleito do Senado, ou reeleito, terá que abrir a pauta do dia. E qual será a agenda? Não vai haver CPI ou será de novo uma enxurrada de medidas provisórias roubando a cena e ganhando toda a primazia do debate do Congresso"? Para o petista, a pauta do governo deve ser aquela que Dilma defendeu na campanha eleitoral.

É uma pauta de cinco pontos. O primeiro é a economia. "Não é um negócio abstrato, a economia dialoga com o pacto federativo, com incentivo para a indústria e com posições muito claras em relação a cortes, custeio e com investimento". O que exatamente quer a presidente em relação à Saúde? É o Mais Médicos, a falta de recursos? E na educação, que Dilma definiu como prioridade das prioridades. "Como traduzir a 'Pátria Educadora' em ações dentro do Congresso"? E a segurança pública, tema de ordem estadual que a presidente chamou para o governo federal? "Vai chamar para si o quê? O diálogo com os Estados, a questão das drogas, patrocinar uma emenda constitucional para gravar a participação da União"?

O quinto ponto é a indefectível reforma política. Qual é a proposta do governo? Dificultar a criação de novos partidos, acabar com a reeleição ou tentar moralizar o financiamento das campanhas? Pinheiro destaca que o governo é montado de acordo com a representação partidária no Congresso. Atualmente, são 28 partidos políticos. Só a bancada de 54 deputados de Minas Gerais tem representantes de 21 desses partidos. Dos oito deputados que integram a bancada do Rio Grande do Norte cada um foi eleito por um partido diferente. "Nessa crise da Lava-Jato, a maior parte é atribuída a dinheiro para campanhas. Então é preciso botar o dedo na ferida do financiamento. Acabar de uma vez por todas com essa história de partido que não tem voto vender seu tempo de TV no período da campanha".

Acertada a agenda, Pinheiro defende que "o governo precisa rapidamente definir quais são os seus interlocutores paras fazer isso". O senador acha que a incursão feita por Pepe Vargas (Secretaria das Relações Institucionais) no Senado teve o mérito de reabrir o diálogo com a bancada e os aliados. "Pepe está fazendo a parte inicial, que é dialogar com as forças para ver se encontra ali o funcionamento harmonioso da base, ainda que Arlindo (Chinaglia, candidato do PT a presidente da Câmara) esteja saindo no tapa com Eduardo Cunha (candidato do PMDB ao mesmo cargo), mas nós precisamos definir. No dia 1º, às 17, já tem presidente da Câmara, já tem presidente do Senado, e tem um detalhe, a presidente Dilma e os partidos já definiram quem são seus líderes. E agora? Qual será o jogo a ser jogado"?

Na opinião de Pinheiro, definida uma pauta para os governistas não terem de ficar correndo atrás da CPI do Petrolão, é necessário nomear o interlocutor. "Quem é do governo que conversa com a gente? É a presidente, é o Aloizio Mercadante (Casa Civil), é Pepe Vargas (SRI), é o Miguel Rossetto (Secretaria Geral das Presidência), é Jaques Wagner (Defesa), é Ricardo Berzoini (Comunicações)"? Pinheiro é uma interrogação só: "O governo vai conversar com a gente para definir essa pauta ou quem vai conversar com a gente só vai se apresentar no dia em que aparecerem as assinaturas da CPI para botar os líderes para correr atrás a fim de não deixar assinar ou para retirar assinaturas"?

Na prática, Pinheiro resume uma queixa que não é apenas dos atuais congressistas da base de apoio, é um problema que vem de longe: qual o rumo e o interlocutor autorizado a falar em nome do governo. Já era difícil quando apenas a Casa Civil e a SRI eram nominados na coordenação política do governo. Agora são cinco ministros e nem todos falam a mesma linguagem. E quem tem cinco pode não ter nenhum. Não é à toa que Pinheiro pergunta sobre o papel de Wagner, Rossetto e Vargas, além de Berzoini, que está fora do Palácio do Planalto, mas integra o chamado núcleo duro do novo mandato da presidente Dilma.

O PMDB fez beiço, bateu o pé e choramingou, mas já descobriu o caminho das pedras para superar a indigência de recursos de seus ministérios: o senador Romero Jucá (RR), relator do projeto de lei do Orçamento Geral da União (OGU) de 2015. A dotação orçamentária do Ministério da Pesca, por exemplo, que é de cerca de R$ 250 milhões, deve ficar em torno dos R$ 400 milhões. A ministra da Agricultura, Kátia Abreu, embora cristã nova no PMDB, também deve ter uma recepção de primeira linha em sua nova legenda.

Vinicius Torres Freire - Retrato do Brasil apagadinho

• A tarde de ontem ilustrou quatro anos de inépcias no setor de energia elétrica e nas contas do governo

- Folha de S. Paulo

A gente mal se entendia sobre as causas e a extensão do apaguinho gigante de ontem quando o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, aparecia na TV a fim de anunciar um pacotinho de aumento de impostos. Foram quatro anos em uma tarde, pelo menos como metáfora: a escassez de energia e de dinheiro no caixa do governo devido às negligências e erros primitivos cometidos no governo Dilma Rousseff 1.

Haverá longas e baixas discussões de política politiqueira a respeito do apaguinho gigante, "apaguinho", como era diminuído ontem por gente do governo, e gigante por atingir dez Estados. Seriam os primeiros sinais de racionamento? Já é um racionamento? Foi o calor, a seca, o mau planejamento do governo?

Racionamento, foi. Pontual, mas foi. Não havia energia elétrica suficiente, por problemas de transmissão ou produção, ainda estava difícil de saber no início da noite de ontem, quando esta coluna era escrita. Mas o motivo básico do apaguinho gigante foi o fato de não ser possível ofertar eletricidade bastante onde a energia era requerida, ponto.

Governos costumam mentir sobre o assunto. No governo FHC, os "apaguinhos" começaram um ano antes da decretação do racionamento, que viria em 2001. Em maio de 2000, o governo tucano dizia que não havia racionamento, mas "gerenciamento da demanda de energia" (indústrias eram "convencidas" a reduzir o consumo em horários de pico). Afora isso, o governo FHC não tomou medida sistemática alguma para evitar o pior. Como agora, como o fazem o governo Dilma ou o de Geraldo Alckmin (PSDB) com a água. Sobreveio o pior.

O sistema de produção de energia está no limite, batendo pino, operando com usinas que deveriam ter uso limitado; há calor excessivo e seca. O sistema opera no limite, de resto, devido a atrasos grotescos de produção de energia, tanto devidos a incompetências do governo como de empresas privadas. Opera ainda mais no limite porque o governo, com seu desconhecimento de economia elementar, estimulou a demanda em tempos de escassez, subsidiando o consumo de energia. Subsidiou o consumo de energia tanto para disfarçar a inflação como para salvar a face de um programa fracassado de redução de custos, de 2012.

Como se não bastasse, esse programa, mantido em 2014 de resto por motivos eleitoreiros, contribuiu para esvaziar os cofres do governo, motivo pelos quais o governo anunciou ontem o primeiro dos pacotinhos de aumentos de impostos do ano. Segundo o Ministério da Fazenda, os quatro aumentos de ontem devem render uns R$ 20 bilhões.

Talvez seja mais. Apenas com a volta do "imposto da gasolina", a Cide, parece possível arrecadar uns R$ 17 bilhões, embora seja hora difícil calcular a contenção do consumo de gasolina e diesel tanto devido à recessão quanto ao próprio aumento de preços. O preço médio nas bombas deve subir uns 11%.

Não há como evitar aumentos de impostos, dada a pindaíba do governo, que poderia terminar em descrédito e crise financeira, se nada fosse feito. Se nada for feito a respeito de eletricidade ou sobre a Petrobras, outras crises poderão vir. Nada disso, porém, exime o governo da culpa de ter criado esse ambiente de crise.

Celso Ming - Anticíclica. Como assim?

- O Estado de S. Paulo

Ao longo do primeiro governo Dilma a política econômica tinha orientação anticíclica, garantiram as autoridades da área. Mas nem a presidente Dilma nem a nova equipe econômica repetem esse discurso. A palavra de ordem é “ajuste”, que foi reforçada nesta segunda-feira, 19, pelo anúncio do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, de medidas que devem aumentar a arrecadação deste ano em cerca de R$ 20 bilhões.

O ministro da Fazenda anterior, Guido Mantega, despediu-se do governo louvando sua política, a que chamou de Nova Matriz Macroeconômica. Mas os resultados, bem mais próximos do desastre do que das soluções, deixaram Mantega falando sozinho.

Mas por quê? As políticas anticíclicas são clássicas. Por que deram errado por aqui?

Elas pressupõem a utilização de mecanismos que tentam reverter o jogo predominante na economia.

O primeiro grande economista a recomendá-las foi o inglês John Maynard Keynes. Contra as propostas liberais, partia do princípio de que as condições da economia são sempre instáveis e que cabe ao Estado intervir para garantir o funcionamento equilibrado das forças de mercado. É a política da formiga: economizar nos tempos de fartura para garantir o sustento na escassez. O principal erro tupiniquim é entender que a política anticíclica tem uma só mão de direção: gastar mais nos tempos de escassez, sem nunca poupar na fartura.

De 2009 para cá, o ministro Mantega entendeu que o governo precisava deixar a austeridade de lado e abrir generosamente os cofres para criar demanda e expandir o emprego. E foi o que tentou colocar em prática.

As despesas públicas cresceram substancialmente mais do que as receitas, o BNDES obteve repasses de R$ 400 bilhões para azeitar os investimentos, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil foram empurrados ao crédito e, de agosto de 2011 a outubro de 2012, os juros foram derrubados a 4% em termos reais (descontada a inflação).

As coisas deram errado porque partiram do entendimento tosco das recomendações keynesianas.

Sem competitividade, a indústria não conseguiu responder com mais produção, mesmo com desonerações que devem ter ultrapassado os R$ 100 bilhões em 2014. A política anticíclica acabou por produzir mercado para a indústria do exterior, porque as importações saltaram.

O que era para ser um avanço do PIB de pelo menos 3% ao ano foi um fiasco. Em 2013, a economia cresceu 2,5%; em 2014, ficará no zero a zero; em 2015, não será superior a 0,38%, como apontam as últimas projeções do mercado aferidas pela Pesquisa Focus, do Banco Central.

Mas não houve desemprego – argumentou Mantega, na tentativa de justificar suas escolhas. Verdade, há 17 meses, a economia vive o pleno-emprego, o que não deixa de ser uma anomalia diante da sucessão de PIBs tão fracos. Ao contrário, a situação de pleno-emprego é um dos fatores responsáveis pela inflação, como tem apontado o Banco Central, e séria restrição a um crescimento mais alto. Se o nível de ocupação é o que se sabe numa situação de avanço do PIB próximo de zero, imagine o que seria se o avanço fosse de 3,0% ou 3,5% ao ano.

E essa não foi a única distorção produzida no mercado de trabalho. O IBGE tem apontado para notável crescimento do segmento dos nem-nem, os que nem trabalham nem estudam – e não estão nem aí. Os especialistas em Economia do Trabalho ainda se dedicam a entender esse fenômeno, mas há indicações de que ele foi fortalecido a partir das transferências de renda (especialmente do Programa Bolsa Família e do seguro-desemprego). Se a mãezona governo garante o principal no mole, pra que trabalhar?

A outra deformação foi a disparada da inflação. Em 2014, fechou perto do teto da meta, nos 6,41%, e, ainda assim, à custa do represamento dos preços administrados (combustíveis, energia elétrica e transportes urbanos) e da contenção artificial da cotação do dólar. O realinhamento dos preços puxará a inflação de 2015 também para níveis parecidos.

A política anticíclica chega ao fim quando mais a economia necessitaria de política anticíclica. O Tesouro, que deveria agora ajudar a tirar o setor produtivo do mata-burro onde está entalado, não tem mais como ser espremido; o BNDES precisa ser desacelerado; e, para não entrar em colapso, o governo quer agora abrir o capital da Caixa Econômica, para ver se encontra interessados em ficar com ações de uma instituição financeira que até agora foi asfixiada por ativos de qualidade duvidosa, a ponto de ter de ser socorrida recorrentemente pelo Tesouro.

Míriam Leitão - Hora da verdade

- O Globo

Não foi uma pequena falha conjuntural. O Brasil teve ontem um apagão porque o Operador Nacional do Sistema Elétrico mandou racionar energia. Ele determinou corte de carga porque havia mais demanda do que a capacidade de atender. Diminuiu ontem o espaço para o governo continuar negando um problema que está cada vez mais grave. Se tivesse agido antes, o país estaria agora mais seguro.

É cristalino como água: se 70% ou mais da eletricidade consumida no Brasil são de fonte hídrica, e o país está com uma crise hídrica, o bom senso manda que se faça economia de energia. O governo rechaçou os alertas de todos os especialistas, ignorou tudo o que foi dito por associações do setor. Como já dito aqui neste mesmo espaço: a realidade é teimosa. Ela sempre supera as versões.

O governo errou e persistiu no erro. Incentivou o consumo quando não devia. Negou todas as evidências do problema, por ser ano eleitoral. Não fez campanha de economia. Se tivesse havido uma redução de 5% no ano passado, o país estaria mais seguro agora. E, mesmo depois do que aconteceu ontem, o ONS divulga uma nota para dizer que havia "folga na geração". Francamente.

O climatologista Carlos Nobre, do Inpe, se diz muito preocupado com a geração de energia e, mais ainda, com o abastecimento de água em São Paulo:

- Nos meses de outubro, novembro e dezembro choveu de 58% a 60% da média histórica, e em janeiro, até agora, apenas 25% da média histórica. E pior, a previsão é continuar seco no Sudeste, a não ser com as pancadas de fim de tarde que não elevam reservatório. Se não chover, e muito, em fevereiro e março, um dilúvio bíblico, vamos entrar na estação seca com uma situação que eu não me lembro de ter visto.

A falta de ação do governo na energia foi exatamente o mesmo erro cometido pelo governo de São Paulo no abastecimento de água. Os dois partidos estão sendo afetados pelo mesmo problema que é agravado pelas decisões que tomaram.

O setor de energia ficou assustado com o apagão que atingiu dez estados, principalmente pela tentativa do ONS de novamente querer minimizar o evidente problema que houve.

- O baixo nível dos reservatórios está dificultando a geração. Com um nível menor, cai a potência das turbinas. Mas o pior é o governo não explicar o risco. A população não está sendo avisada de que há um risco energético concreto - afirmou Roberto Pereira D"Araujo, do Instituto Ilumina.

Ele explicou também que o estoque de água começou a cair em 2012, e o governo nada fez, e lembrou que o país teve o apagão de ontem, mesmo com todas as térmicas ligadas. O presidente da Associação Nacional dos Consumidores de Energia (Anace), Carlos Faria, acha que o que está acontecendo é exatamente a dificuldade do sistema de manter a oferta no momento de pico da demanda:

- Estamos em janeiro de 2015 com uma situação pior do que em janeiro de 2014. As térmicas estão todas ligadas e há um nível menor de água. Então vamos continuar vendo apagões. O problema é que o governo errou em 2012 e, quando a situação se agravou, ele não fez racionalização de consumo porque o tema virou tabu. Estamos com chuvas abaixo da média. A única boa notícia é que tivemos uma boa conversa com o novo ministro e ele reconheceu as dificuldades e quer ouvir o setor. Vai doer corrigir todos esses anos de equívocos.

É a hora da verdade na energia, como é a hora da verdade na economia. A equipe econômica começou a tomar as medidas amargas. Ontem o ministro Joaquim Levy anunciou um pacote de aumento de impostos. O pacote tem problemas, mas ele está, desde que assumiu, cortando gastos. Agora elevou impostos para agir pelo lado da receita.

A Cide já se sabia que iria subir, e, com a queda do preço do petróleo, há uma chance de o impacto da elevação do imposto ser em parte absorvido pela Petrobras. O barril caiu muito mais do que o previsto e a margem de lucro da estatal hoje é grande. Aumentar o IOF sobre financiamento em um momento em que o Banco Central está subindo juros será pesado para o tomador de crédito. Se não for bem dosado, pode subir a inadimplência. Também é discutível elevar o nível de fechamento da economia. O grande mérito da Fazenda, no entanto, é o de encarar a hora da verdade. A mesma atitude deveria acontecer na área de energia.

Vista grossa – Editorial / O Estado de S. Paulo

Em editorial publicado há dias, sob o título Acordo para a impunidade, chamamos a atenção para a impropriedade de a Controladoria-Geral da União (CGU), com o apoio da Advocacia-Geral da União (AGU), dois órgãos subordinados diretamente à Presidência da República, estar empenhada em convencer o Ministério Público Federal (MPF) a aceitar um acordo de leniência para limitar punições às empreiteiras envolvidas no escândalo da Petrobrás. O argumento central da estranha proposta é o de que seria altamente prejudicial ao País a declaração de inidoneidade de empreiteiras responsáveis pelas obras consideradas pelo governo como essenciais ao desenvolvimento econômico e social.

A CGU não existe para se preocupar com a saúde financeira de empreiteiras, mas para controlar seu relacionamento com o poder público. Muito mais grave do que isso, porém, é o fato de que é absolutamente impensável a hipótese de que não tenha sido previamente aprovada pela Presidência da República a surpreendente proposta apresentada - e sensatamente recusada - à força-tarefa de procuradores federais da Lava Jato pelo secretário executivo da CGU, Carlos Higino. O apoio da AGU à ideia só reforça a evidência. E isso parece significar que o governo petista está disposto a fazer vista grossa diante do maior escândalo de corrupção da história republicana para preservar-se, e a seus aliados, dos inevitáveis prejuízos político-eleitorais que a apuração e o julgamento rigorosos dos fatos inevitavelmente acarretarão.

A iniciativa da CGU, não por acaso, coincide com as notícias que começam a se disseminar na mídia - e são de interesse também das empreiteiras sob investigação - sobre os grandes prejuízos para o governo provocados pela paralisação ou retardamento de grandes obras públicas, como as da Refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco. Além das notícias, igualmente alarmantes, sobre a "demissão em massa" de trabalhadores em projetos petroquímicos porque a Petrobrás não tem feito o pagamento de aditivos de contratos com as empreiteiras. Começa a se armar, assim, o ingresso nesse cenário alarmante de movimentos sindicais e sociais - o que não falta hoje no País são líderes sindicais neopelegos e organizações sociais manipuladas pelo lulopetismo - adequadamente articulados para defender a oportuna tese de que a luta contra a corrupção não pode ser levada ao custo do sacrifício dos direitos dos trabalhadores.

Tem sólidos precedentes o interesse do governo em tudo o que possa minimizar - terminar em pizza já é impossível - as consequências judiciais de escândalos como o da Petrobrás. O lulopetismo, por exemplo, jamais aceitou a decisão da Justiça a respeito do mensalão e Luiz Inácio Lula da Silva chegou a prometer, em 2009, que tão logo deixasse a Presidência da República se dedicaria a desmontar aquela "farsa". Deu no que deu e os petistas tiveram que se contentar em promover a "guerreiros do povo brasileiro" seus líderes encarcerados.

Ao contrário de Lula, Dilma Rousseff não fez a defesa aberta de companheiros envolvidos em bandalheiras, embora a teimosia com que insiste em manter intocada a diretoria da Petrobrás, e em particular sua amiga Graça Foster, não contribua para projetar a imagem indiscutível de uma primeira magistrada acima de qualquer suspeita.

Assim, no momento em que dois importantes órgãos auxiliares da Presidência da República tomam a iniciativa de levar aos procuradores da Operação Lava Jato uma proposta que beneficia com a impunidade, mesmo que parcial, empreiteiras confessadamente comprometidas com a corrupção em seus negócios com o poder público, é hora de a inquilina do Palácio da Alvorada vir a público para dizer se é isso mesmo o que deseja ou se os funcionários da CGU e da AGU foram além do que lhes permitem os cargos de confiança que exercem.

Toda a sociedade brasileira, inclusive a quase-metade que não sufragou sua reeleição, deseja acreditar nas palavras da presidente Dilma Rousseff em seu discurso de posse no segundo mandato: "Estou propondo um grande pacto nacional contra a corrupção, que envolve todas as esferas do governo e todos os núcleos do poder, tanto no ambiente público como no ambiente privado". Mas, para isso, não basta dizer. É preciso fazer.

Petrobras admite prejuízos com a corrupção – Editorial / O Globo

• É um avanço a estatal reconhecer que um ex-diretor permitiu o superfaturamento de contratos, mas também é preciso saber por que não se detectaram os desvios

Desde o estouro do escândalo do petrolão, turbinado pelas descobertas feitas pela Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, com o Ministério Público e Justiça federal do Paraná, o valor de mercado da Petrobras desabou. A estatal é avaliada hoje pela metade do que era cotada em Bolsa há pouco mais de um ano.

Justifica-se, porque o desvio de dinheiro feito pelo esquema lulopetista incrustado na estatal, por meio do superfaturamento de contratos com empreiteiras, significa, na prática, destruição de patrimônio da empresa, por roubo, em detrimento dos acionistas - o sócio controlador, a União, investidores institucionais e pessoas físicas, dentro e fora do país. Calcular este patrimônio desviado é tarefa da diretoria da estatal, para que, sem prejuízo dos desdobramentos penais, se saiba com qual tamanho a Petrobras ficou depois do assalto praticado no petrolão, com fins político-eleitorais e, como sempre, também enriquecimentos individuais.

No domingo, a "Folha de S.Paulo" informou que auditoria interna apurou em pelo menos US$ 3,2 bilhões o prejuízo causado pela construção da Refinaria Abreu e Lima, de Pernambuco, a que teve o custo inicial multiplicado por dez ao ser executado o projeto - de US$ 1,8 bilhão para quase US$ 20 bilhões. Em nota, no próprio domingo, a estatal não contestou a cifra e, pela primeira vez, admitiu a responsabilidade do ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa. Segundo a estatal, Paulo Roberto decidiu fazer a "antecipação de diversas atividades e alterações nos projetos e na estratégia de contratação, o que levou a grande número de aditamentos contratuais".

Em português claro: antecipou de forma intencional a aquisição de equipamentos e certamente serviços, para permitir aumentos de custos, portanto facilitando o superfaturamento. Foi um avanço a estatal reconhecer desvios de um ex-diretor implicado no petrolão, no momento cumprindo prisão domiciliar, conseguida no acordo de delação premiada que fez com MP e Justiça.Falta muito mais a descobrir - e a admitir. Há, ainda, zonas de sombras em torno da atuação de outros ex-diretores com participação no esquema. Nestor Cerveró, no momento detido mais uma vez, nega ter recebido propinas, mas é acusado pela presidente Dilma de tê-la induzido a erro na compra da refinaria de Pasadena. Além disso, há Renato Duque, outro ex-diretor, este indicado pelo PT, e cujo assessor, Pedro Barusco, reconhece guardar US$ 100 milhões em dinheiro sujo no exterior. A curiosidade em torno de Duque não para de crescer.

A empresa, em nota oficial, reafirma a condição de vítima no petrolão. Na verdade, vítima mesmo são os acionistas e contribuintes, os quais, por meio da União, poderão ser convocados a contribuir para tapar rombos financeiros. Quanto à diretoria e ao conselho, a questão é saber como e por que não foi detectada a tempo a sangria patrimonial da empresa.

Sinais de resistência aos cortes nos benefícios – Editorial / Valor Econômico

Não deve ser tranquila a implementação das mudanças das regras dos direitos dos trabalhadores e contribuintes da Previdência anunciadas pelo governo como uma das estratégias para atingir o superávit primário de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB), equivalente a pouco mais de R$ 66 bilhões. O governo conta com uma redução de despesas de R$ 18 bilhões com as mudanças do seguro-desemprego, do abono salarial, do seguro-pescador, da pensão por morte e do auxílio doença.

Algumas dessas medidas já haviam sido desenhadas no governo anterior, mas ficaram em banho-maria por causa das eleições. Passado o segundo turno, o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, revelou parte dos estudos e disse que somente com o seguro-desemprego e o abono salarial o governo gastaria aproximadamente R$ 45 bilhões em 2014; somando o auxílio-doença, a conta chegaria a R$ 70 bilhões. Já os gastos com pensão por morte somariam R$ 90 bilhões (Folha de S. Paulo, 7/11/2014).

A expectativa é que a maior parte da redução de gastos será obtida com a alteração das regras de concessão do seguro-desemprego. Há anos observa-se a trajetória crescente dos pedidos de seguro-desemprego, apesar de o país estar registrando um dos mais baixos índices de desocupação.

Desde o início da década o governo vem tentando frear esse número sem sucesso, mas também sem muito empenho. As novas regras ficaram bem mais restritas. Pela MP 665, ainda a ser apreciada pelo Congresso, o primeiro pedido de seguro-desemprego só será concedido se o trabalhador comprovar o recebimento de 18 salários nos 24 meses anteriores, e não mais em seis. O segundo pedido só pode ser feito com 12 salários recebidos nos 16 meses anteriores; e no terceiro foi mantida a exigência de seis salários recebidos.

O abono salarial também ficou mais limitado. A partir de 2016, só terá direito ao abono quem trabalhar seis meses ininterruptos ele será proporcional ao tempo trabalhado. O seguro-desemprego do pescador artesanal, concedido no período de defeso, passa a ser responsabilidade da Previdência e não mais do Ministério da Pesca, e não poderá ser acumulado com outros benefícios. Outro foco de fraudes e de gastos elevados, a pensão por morte teve importantes alterações em exigência de contribuição e redução do benefício. No caso do auxílio doença, o período de responsabilidade de pagamento da empresa foi ampliado de 15 para 30 dias, a partir do qual o benefício será coberto pela Previdência pela média das últimas 12 contribuições.

Há várias dúvidas se os planos do governo se concretizarão. As centrais sindicais já pediram a suspensão imediata das MPs e criticam especialmente as mudanças no seguro-desemprego, que atingiriam com mais intensidade os trabalhadores de setores onde a rotatividade é maior, a construção e a agricultura, e também os mais jovens, que tendem a mudar mais de emprego. Não se sabe também como o Congresso avaliará as MPs quando terminar o recesso.

No centro do debate está o real impacto das medidas nas despesas do governo e no bolso do trabalhador. O assunto foi tema de reunião convocada para ontem pela Secretaria-geral da Presidência da República entre os ministros do Planejamento, Previdência, Trabalho e as centrais sindicais. Os representantes dos trabalhadores ainda não digeriram o episódio em que o ministro do Planejamento falou em mudar as regras de correção do salário mínimo e foi obrigado a voltar atrás pela própria presidente Dilma Rousseff, que durante a campanha havia prometido não mexer no direito dos trabalhadores "nem que a vaca tussa".

Segundo o Ministério do Trabalho, se as novas regras do seguro-desemprego tivessem sido aplicadas no ano passado, 26,58% dos pedidos do seguro-desemprego, 2,2 milhões de um total de 8,5 milhões, teriam sido recusados. Levantamento feito pelo Valor com base nos dados de demissões do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e pelo professor da Universidade de Brasília (UnB), Carlos Alberto Ramos, indica que 63,4% dos 10,8 milhões dispensados sem justa causa de janeiro a novembro do ano passado não preencheriam as novas exigências para obter o benefício. As centrais sindicais certamente vão querer tirar isso a limpo.

Clóvis Rossi - Um cadáver no colo de Cristina

• Será quase impossível para o governo argentino provar que nada tem a ver com a morte do promotor Nisman

- Folha de S. Paulo

É sempre mais fácil provar que alguém cometeu um crime do que o acusado provar que não o cometeu.

Por isso, o governo argentino será, talvez para sempre, acusado de ter mandado matar o promotor Alberto Nisman. Ou, em outra hipótese, de tê-lo induzido ao suicídio, tese já levantada pela líder opositora Elisa Carrió.

Os antecedentes do caso tornam facílimo, quase automático, desconfiar do governo de Cristina Kirchner.

Nisman, pouco dias antes de morrer, já dissera que o chamado caso Amia (Associação Mutual Israel-Argentina) poderia "levá-lo à morte".

Previsão igualmente fácil de fazer: Nisman acusara a presidente e seu chanceler, Héctor Timerman, de encobrir a suposta culpa de funcionários iranianos pelo atentado de 1994 à sede da Amia (85 mortos, mais de 300 feridos).

A acusação dizia, ainda, que o encobrimento se deveria ao desejo do governo argentino de fazer negócios com o Irã.

É prematuro desconfiar da presidente e/ou de seu entorno? Sem dúvida, é. Afinal, prevalece sempre o critério de que todo mundo é inocente até prova em contrário.

Mas Cristina Kirchner cultivou sempre, nos 12 para 13 anos em que ela e o marido governaram o país, um ambiente de radicalização, de confronto, com os mais diferentes adversários, de resto sempre tratados como inimigos.

Paga agora essa crispação. Não há, nos setores com os quais se indispôs e que representam pouco mais ou menos a metade do país, a mais leve disposição para lhe dar ao menos o benefício da dúvida.

O governo, não necessariamente sua chefe, será tido como culpado até que consiga provar o contrário, o que é praticamente impossível.

Não há testemunhas da morte de Nisman nem há, que se saiba, uma carta anunciando o suicídio, por mais que Sergio Berni, secretário de Segurança Pública, haja dito que, nas circunstâncias, "todos os caminhos conduzem ao suicídio" (a arma sob o cadáver, a porta trancada por dentro).

O escritor Jorge Asís, antigo peronista, funcionário do governo de Carlos Menem, rebate: "Aqui é de um assassinato que temos de falar".

Mas Asís estende a lista de suspeitos para "alguma corrente interna do governo ou para uma operação de inteligência clara contra o governo".

Hipótese reforçada pelo fato de que Nisman havia acusado, além de Cristina e seu chanceler, também o líder "piquetero" Luís D"Elía e o líder do grupo Quebracho, de ultraesquerda, Fernando Esteche, ambos adeptos de métodos violentos.

É sempre bom lembrar que o peronismo tem uma longa história de movimentos violentos internos, de extrema direita ou de extrema esquerda.

Nos anos 70, por exemplo, a Aliança Anticomunista Argentina (a tristemente célebre "Triple A") e os Montoneros travaram uma guerra que acabou desaguando no golpe de 1976 e no genocídio que se seguiu a ele.

É o que dá semear ventos. Colhem-se tempestades ou, neste caso, um cadáver que o governo terá imensas dificuldades para tirar do colo.

José Casado - Um tiro no governo

• A morte do procurador que a denunciou fomenta dúvidas sobre a capacidade de Cristina Kirchner se manter em frágil equilíbrio de poder até o fim do mandato

- O Globo

Oficialmente, faltam 45 semanas para Cristina Kirchner entregar a Presidência da Argentina a um sucessor eleito. Mas ontem, no Palácio do Planalto, no Itamaraty e na Embaixada dos Estados Unidos, em Brasília, floresciam dúvidas sobre sua capacidade de sustentação em frágil equilíbrio de poder até o fim do mandato.

A bala que matou o procurador Alberto Nisman, no domingo, deixou Cristina na escuridão política, em um país sob progressiva corrosão institucional e econômica.

Nisman morreu aos 51 anos, horas antes de audiência no Congresso onde apresentaria evidências que, supostamente, justificaram a denúncia judicial contra a presidente e o chanceler Héctor Timerman. Acusou-os de realizar uma “diplomacia paralela", que possibilitou ao governo levar adiante “um plano criminoso, por ordens expressas da Sra. Presidente".

O objetivo governamental, ele escreveu na denúncia com mais de 200 páginas, era obter compensações econômicas de Teerã em troca da “impunidade e encobrimento dos fugitivos iranianos" indiciados pelo atentado contra a Associação Mutual Israelita da Argentina (Amia). Entre eles, destacam-se o aiatolá Ali Rafsanjani, atual presidente da Assembleia de Teólogos, órgão responsável pela escolha do líder supremo iraniano, e alguns de seus auxiliares (Mohsen Rezai, ex-comandante da Guarda Revolucionária; Ali Akbar Velayati, ex-chanceler; Ahmad Vahidi, ex-chefe da tropa de elite; Ali Falhijan, ex-ministro de Segurança.)

Foi o maior ataque terrorista realizado na América do Sul: na manhã de segunda-feira 18 de julho de 1994 uma carga de explosivos demoliu a sede da entidade judaica e prédios vizinhos, no Centro de Buenos Aires, deixando 85 mortos e mais de três centenas de feridos. Vinte e oito meses antes, uma ofensiva contra a Embaixada de Israel deixara 29 vítimas.

Passaram-se duas décadas e os atentados continuam impunes. Consequência da perversa combinação de leniência institucional com a obstinada relutância de governos da América do Sul — a começar pelo Brasil — em admitir qualquer possibilidade de conexão regional com o terrorismo em escala global, apesar das ocorrências desde os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, em Buenos Aires, nos anos 90, em Nova York, em 2001, e em Paris duas semanas atrás.

A impunidade na Argentina remete ao vácuo no Brasil. Desde os anos 90, Brasília se mantém indecisa sobre a harmonia da legislação nacional com os códigos antiterrorismo.

Nisman trabalhou em cooperação com os serviços secretos dos Estados Unidos e de Israel, e em parceria com Antonio Horacio Stiuso, o influente “Jaime”, recém-aposentado no comando da espionagem argentina. Se estava lúcido ou desesperado em uma investigação, marcada pela negligência e hostilidade interna, é questão que tende à poeira da História — provavelmente sem resposta.

É certo, porém, que a confusão política argentina ganhou outra dimensão, com um aditivo: a volatilidade anímica de Cristina, em luto desde a morte em 2010 do caudilho Néstor, com quem esteve casada por mais da metade da vida. Ela oscila entre a euforia e a melancolia, evocando-o em solenidades diárias — quase tanto quanto reverencia Deus, como é hábito entre antigas alunas da congregação Filhas de Nossa Senhora da Misericórdia, de La Plata. Seu governo está à deriva.

Marisa Monte - Dizem (Quem me dera)

Joaquim Cardozo - Poesia em homenagem a Isidore Ducasse

Eu vi Maldoror passar com os seus anjos malignos,
Eu vi Maldoror passar montado no seu cavalo, seguido do seu buldogue,
Eu vi Maldoror passar nas ruas de Paris.
A lâmpada de bico de prata, parada, ficou brilhando,
Por baixo da Ponte Maria.

Depois de um inverno rude de remorsos,
Eu enfim recebi um beijo de primavera,
Vindo na placidez dos rios tranqüilos
Através desta terra idílica e francesa.

Que faz Maldoror terrível nesta cidade de Santa Genoveva
Agora que estão vibrando os sinos de São Germano?
Agora que os sinos estão saudando o dia da Assunção?

Maldoror, Maldoror, vai para o mar.

Passei ao longo dos rios bons, estive entre as árvores eternas
Deste bosque dourado onde o hermafrodita está dormindo
Rodeado de flores!
Ouvi palavras amargas nas vozes do dia,
Caminhei longamente nos tempos futuros,
Vi rostos felizes, sorrindo, debruçados
Nas margens da rua,
Por onde levava a minha alma repleta
De votos de esperança, de atos de poesia.

Maldoror, Maldoror, vai para o mar.


Paris, 1938

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Opinião do dia Jürgen Harbermas

“Os desafios do século XXI exigirão, dependendo do seu tipo e de sua dimensão, respostas por parte das sociedades ocidentais que dificilmente poderão ser encontradas e implementadas sem a formação de vontade e opinião radicalmente democráticas, generalizadora de interesses. É nessa arena que a esquerda socialista encontra o seu lugar e o seu papel político. Ela é capaz de formar o fermento para as comunicações políticas, que protegem o quadro institucional do Estado de direito democrático, evitando o seu ressecamento."
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Cf. A revolução e a necessidade de revisão na esquerda' - o que significa socialismo hoje? (1989) in Robin Blackburn. org.). Depois da queda - o fracasso do comunismo e o futuro do socialismo. Rio de Janeiro Paz e Terra, 1992.

TCU impede Caixa de usar empresa paralela

Um drible na licitação

• Caixa cria empresa paralela e a contrata por r$ 1,2 bi; TCU vê irregularidade e suspende negócio

Vinicius Sassine – O Globo

Escândalos em série

BRASÍLIA - A estruturação de sociedades de propósito específico (SPEs) com contratos bilionários e suspeitas de irregularidades não é uma exclusividade da Petrobras. A Caixa Econômica Federal constituiu uma SPE, virou sócia da empresa criada e contratou sem licitação o empreendimento criado para a prestação de serviços de tecnologia da informação da ordem de R$ 1,2 bilhão, conforme um processo sigiloso em tramitação no Tribunal de Contas da União (TCU). O contrato está suspenso há dois anos em razão de uma medida cautelar no âmbito do processo, que enxergou irregularidades no negócio.

Na prática, a Caixa estruturou um empreendimento privado que tem como sócia majoritária a IBM Brasil, detentora da tecnologia de processamento de crédito imobiliário, e depois contratou a empresa criada. Pareceres técnicos do TCU apontaram "obscuridade" dos critérios que levaram à escolha da IBM como "real e final prestadora dos serviços que a Caixa pretende contratar, em aparente ofensa ao princípio da impessoalidade". A SPE montada não é uma controlada ou subsidiária do banco e não deveria ter sido contratada sem licitação, conforme as conclusões técnicas vigentes até agora no processo.

Ministros do tribunal vão usar esse contrato da Caixa e a construção da rede de gasodutos Gasene, por meio de uma empresa paralela da Petrobras, para colocar em votação a inconstitucionalidade do modelo de SPEs. O argumento central é de que as SPEs permitem dispensas ilegais de licitação, que não condizem com as regras estabelecidas para estatais e empresas públicas. Votos com essa proposição devem ser apresentados nas próximas sessões do TCU.

O GLOBO revelou que o Gasene foi construído por uma "empresa de papel", presidida por um laranja. As obras foram superfaturadas em mais de 1.800% em determinados trechos. O real controle do negócio coube à Petrobras, que hoje paga os financiamentos contratados junto ao BNDES. Para sair do papel, foram necessários repasses de R$ 4,5 bilhões.

Uma SPE é uma empresa privada criada a partir de uma estruturação financeira que objetiva a captação de recursos no mercado. A Caixa negou ao GLOBO que a empresa constituída - cujo contrato bilionário é questionado pelo TCU - seja uma SPE. "A empresa não foi constituída como SPE, mas como uma sociedade anônima. A Caixa não possui SPEs", cita a resposta enviada ao jornal. Não é o que detalham os pareceres das áreas técnicas do TCU sobre o negócio bilionário.

A Caixa Participações (CaixaPar), a Fundação dos Economiários Federais (Funcef) - por meio de um fundo de investimento - e a IBM Brasil Indústria Máquinas e Serviços se uniram para a constituir a MGHSPE Empreendimentos e Participações S.A., hoje denominada Branes. "Foi estabelecida com capital social inicial de R$ 500, na forma jurídica de uma sociedade de propósito específico (SPE)", cita o relatório técnico que embasou a medida cautelar da suspensão do contrato em dezembro de 2012.

"A Caixa terceirizará parte do processo de concessão de crédito imobiliário, mercado o qual a instituição tem ampla vantagem em relação a seus concorrentes, com mais de 80% de "market share", em um negócio de cerca de R$ 1,2 bilhão ao longo de cinco anos", complementa o relatório. Um parecer técnico finalizado no ano seguinte aponta para o risco de "descontrole de contratações diretas" de SPEs, por dispensa ou inexigibilidade de licitação. Isso poderia ocorrer em áreas complementares às do setor financeiro, como transporte de valores e automação bancária.

O acordo de acionistas da empresa constituída, assinado em junho de 2012, mostra que a Caixapar tem 2% do capital, o fundo de investimento - administrado pela Caixa - tem outros 47% e a IBM Brasil detém 51% das ações. Ainda segundo o acordo, a CaixaPar se comprometeu a investir R$ 1,8 milhão; o fundo de investimento, R$ 42,3 milhões; e a IBM, R$ 45,9 milhões. Tanto a Caixa quanto a IBM controlam a SPE criada.

A MGHSPE foi contratada diretamente pela Caixa, sem licitação. Ela prestaria serviços específicos para o banco, "auxiliando na otimização do processamento de aplicações de créditos imobiliários", conforme os pareceres técnicos do TCU. A SPE deveria assumir parte das atividades de concessão de crédito já desempenhadas internamente, a um custo inicial de R$ 267 por transação feita. Além da IBM, outras duas empresas chegaram a enviar propostas à Caixa.

Caixa defende legalidade do contrato
A medida cautelar que suspendeu o contrato foi expedida pelo ministro Valmir Campelo, que era relator do processo e que já deixou o TCU. Os autos foram remetidos ao ministro Bruno Dantas, recém-chegado ao tribunal. A decisão da suspensão continua válida. Num dos últimos relatórios técnicos sobre o contrato, de abril de 2013, a Secretaria de Controle Externo de Aquisições Logísticas (Selog) do tribunal recomendou a anulação do contrato.

A Caixa defende "absolutamente" a legalidade da contratação. "O TCU não considerou ilegal o contrato. Apensas suspendeu a execução até decidir o assunto. A Caixa desconhece qualquer apontamento de irregularidade a respeito de contratos firmados com a empresa mencionada", afirmou a assessoria de imprensa da instituição. O entendimento da legalidade da contratação tem respaldo de "vários juristas de renome", conforme a Caixa, como os ex-ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Sepúlveda Pertence e Carlos Ayres Britto, citados na resposta do banco à reportagem.

Petrobrás admite que plano de Costa elevou custo de refinaria

• Ex-diretor foi preso na Operação Lava Jato, em março do ano passado, e delatou um esquema de desvios de recursos da estatal

Antonio Pita - O Estado de S. Paulo

RIO - A Petrobrás responsabilizou pela primeira vez o ex-diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, por alterações de "estratégias de contratação" que geraram "grande número de aditamentos contratuais" na Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco. O ex-diretor foi preso na Operação Lava Jato, em março do último ano, e delatou um esquema de desvios de recursos da companhia. Em comunicado, a estatal informou que Costa propôs um plano de antecipação de compras de equipamentos e outras mudanças no projeto, que acarretaria a escalada do orçamento da refinaria de US$ 2,4 bilhões, em 2005, para os atuais US$ 18,8 bilhões.

Neste domingo, reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo indicou que os relatórios finais da auditoria interna da Petrobrás, concluída em novembro, identificaram que em 2012, a diretoria e o conselho de administração da estatal já estimavam prejuízos de US$ 3,2 bilhões com a implantação da Rnest. De acordo com a publicação, os conselheiros sugeriram à diretoria a comunicação de uma baixa contábil por causa da projeção, o que foi descartado pela área financeira.

No comunicado, a Petrobrás não negou o valor do prejuízo estimado à época ou que ele fosse de conhecimento dos seus executivos. Segundo a Petrobrás, o orçamento inicial de US$ 2,4 bilhões se referia a "uma estimativa de custo preliminar" da etapa de "avaliação de oportunidade" realizada em 2005. Dois anos depois, a companhia aprovou o Plano de Antecipação da Refinaria (PAR), proposto por Costa, para acelerar contratações e aquisições de "equipamentos críticos" considerando "os longos prazos de fornecimento".

"A Diretoria Executiva aprovou o Plano de Antecipação da Refinaria (PAR) proposto pelo então diretor de Abastecimento, Sr. Paulo Roberto Costa. Com o PAR houve a antecipação de diversas atividades e alterações nos projetos e na estratégia de contratação, o que levou a grande número de aditamentos contratuais", informa o comunicado.

Ainda assim, segundo a estatal, em 2009, a execução do projeto da refinaria foi aprovada com base em "relatório de viabilidade técnico-econômica". De acordo com o comunicado, o relatório "considerou análises complementares relacionadas à vida econômica, desoneração tributária e perda de mercado evitada, as quais apontaram um VPL (valor presente líquido) positivo".

Baixas contábeis. A companhia também informou que a auditoria interna não tinha o objetivo de analisar "questões associadas à atratividade econômica do projeto". O comunicado reforçou que os testes de avaliação do valor dos ativos, conhecido como impairment - realizados até o exercício de 2013 - não indicaram "a necessidade de reconhecimento de perdas de investimentos".
O balanço contábil da estatal está suspenso desde novembro, à espera da conclusão das investigações da Operação Lava Jato. Com a confirmação de desvios e superfaturamentos nos projetos da estatal, há expectativa de que sejam feitas baixas financeiras bilionárias referente ao valor dos ativos da estatal afetados pelo esquema de corrupção. A divulgação do balanço está prevista para o próximo dia 27.

No comunicado divulgado neste domingo, a Petrobrás informa ter realizado testes anuais de "impairment" até 2013 "seguindo as normas contábeis nacionais e internacionais". Entretanto, a metodologia utilizada para os testes considera todos os ativos em operação integrada. Ou seja, não há análise exclusiva da Rnest, apenas sua avaliação associada a outras refinarias operacionais, terminais e oleodutos que integram a área de "Abastecimento".

"O teste da Área de Abastecimento avalia as operações do conjunto de refinarias, oleodutos e terminais da Petrobrás, que operam de forma integrada, incluindo investimentos em curso, como a Rnest. Esse conjunto é chamado de Unidade Geradora de Caixa (UGC). Nas demonstrações contábeis, até o exercício de 2013, os resultados desses testes não indicaram a necessidade de reconhecimento de perdas de investimentos realizados na Rnest", informa o comunicado.

A Petrobrás também esclareceu que, não cabe ao Conselho de Administração analisar e aprovar projetos específicos, apenas uma "carteira plurianual de investimentos do Plano de Negócios e Gestão (PNG) e sua financiabilidade". Essa avaliação não considera "individualmente os projetos". Ainda assim, segundo a estatal, os conselheiros recebem desde 2012 um acompanhamento mensal da curva de avanço físico e financeiro dos projetos como a Rnest.

"O Projeto Rnest aprovado pelo Conselho de Administração em 13 de junho de 2012 foi precedido de uma série de importantes medidas, tais como: ampla reavaliação da carteira de projetos da Companhia, incorporação de ajustes nas projeções físicas e financeiras, e aprimoramento do acompanhamento e controle da execução dos projetos", informou o comunicado. "No caso da Rnest, foram realizados estudos e análises com apoio de empresa especializada, que definiram a data de partida para nov/2014, o que foi cumprido", completa a nota.

Lava Jato fecha as portas para ‘acordão’ com empreiteiras

• Procuradores da força-tarefa admitem apenas acordos individuais, ainda assim desde que construtoras confessem responsabilidade nos crimes, indenizem o Estado e apontem outros envolvidos

Fausto Macedo e Ricardo Brandt – O Estado de S. Paulo

A força-tarefa da Operação Lava Jato, que desmantelou esquema de corrupção e propina na Petrobrás, fechou as portas para o acordão coletivo pretendido pelas empreiteiras sob suspeita de terem formado um cartel para assumir o controle de contratos bilionários na estatal petrolífera.

Os procuradores da República que investigam o escândalo avisam que mais de uma empresa podem propor pacto com o Ministério Público Federal, mas esses acordos somente serão firmados individualmente. “Jamais na forma de um pacto geral”, alerta o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, que integra a força-tarefa da Lava Jato e fala em nome do grupo.

Ele anotou que eventuais acordos só poderão ser assinados “com aquelas empresas que atenderem condições, especialmente o de permitir a abertura de novas frentes de investigação, de novas Lava Jato”.

“Se houver acordo com uma empreiteira que confesse a sua participação nos fatos já em andamento, que permita a reparação, e, principalmente, que possamos buscar muitas outras responsabilizações criminais e cíveis de outras pessoas, naturais ou jurídicas, o próximo acordo, com outra empresa, exigirá os mesmos requisitos, acrescido de outros crimes que não os informados pela primeira empresa leniente.”

Leia entrevista com procurador da força-tarefa da Lava Jato:

Estadão - A Força-Tarefa da Lava Jato trabalha com a hipótese de um acordão coletivo com as empreiteiras?

Carlos Fernando dos Santos Lima - A Força-Tarefa Lava Jato entende que não há legalidade em qualquer acordo com empreiteiras que não obedeça à sistemática instituída pela Lei do Crime Organizado, pela Lei Anticorrupção, e pela Lei de Repressão aos Crimes contra a Ordem Econômica, entendidas conjuntamente.

Estadão - Qual o objetivo da força-tarefa então?

Carlos Fernando dos Santos Lima - Esse sistema vincula qualquer acordo com o Ministério Público Federal a um tripé de exigências inescapável: a) confessar sua responsabilidade e de seus dirigentes nos fatos; b) indenizar o Estado e a vítima na maior extensão possível; c) indicar outros responsáveis pelos fatos investigados e outras frentes investigativas.

Estadão – Em caso de um grupo de empreiteiras do cartel que agiu na Petrobrás querer um acordo conjunto com a força-tarefa, isso não será aceito ?

Carlos Fernando dos Santos Lima - As exigências não impedem que mais de uma empresa procure um acordo com o Ministério Público, mas esses acordos somente serão celebrados individualmente – jamais portanto na forma de um pacto geral. E com aquelas que atenderem essas condições, especialmente o de permitir a abertura de novas frentes de investigação, de novas ‘Lava Jato’. Assim, se houver acordo com uma empreiteira que confesse a sua participação nos fatos já em andamento, que permita a reparação de reparação, e, principalmente, permita que possamos buscar muitas outras responsabilizações criminais e cíveis de outras pessoas, naturais ou jurídicas, o próximo acordo, com outra empresa, exigirá os mesmos requisitos, acrescido de outros crimes que não os informados pela primeira empresa leniente.

Estadão – Quais as consequências dessa sistemática que deve ser seguida?

Carlos Fernando dos Santos Lima - Trata-se, dessa forma, de um efeito dominó, multiplicador, que interessa ao Estado, pois permite ampliar investigações sobre fatos semelhantes, tornando efetivos os compromissos constitucionais e internacionais de reprimir a corrupção pública, especialmente.

Estadão - Advogados das empreiteiras alegam que a Lava Jato prende para forçar delações premiadas.

Carlos Fernando dos Santos Lima - Observe-se, especialmente, que nenhuma outra exigência é feita para esses acordos, como muitos advogados, sem qualquer conhecimento da causa e dos acordos celebrados, costumam alardear. Não há vinculação entre o acordo e a prisão cautelar determinada pela Justiça. Tanto é verdade que dos 11 acordos de colaboração premiada celebrados com o Ministério Público Federal neste caso, as únicas pessoas presas continuaram presas – uma em prisão domiciliar (Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás) e outra na custódia da Polícia Federal em Curitiba (o doleiro Alberto Youssef).

Estadão - Empreiteiras alardeiam demissões em massa e perdas financeiras.

Carlos Fernando dos Santos Lima - É certo que, a par de interesses privados, defensores desse pacto conjunto, o famoso acordão, levantam interesses diversos e legítimos, como a continuidade de obras públicas, manutenção de empregos, sanidade do mercado financeiro, etc., mas a solução dessas questões não passa pela atribuição que foi dada pela Constituição Federal ao Ministério Público, devendo ser solucionada por aqueles que possuam legitimidade democrática e competência constitucional para tanto.

Estadão - Outros órgãos podem fechar acordos?

Carlos Fernando dos Santos Lima - Outros órgãos podem fazer acordos semelhantes, desde que obedecida a sua lei respectiva. Aliás, sempre que um acordo dessa espécie for celebrado pela Força-Tarefa Lava Jato, encaminharemos a empresa para os outros órgãos competentes para que também lá faça acordo quanto às punições administrativas correspondentes. Mas o acordo com o Ministério Público é o único com amplitude necessária para resguardar os interesses maiores da empresa, pois abarca desde efeitos penais para os seus executivos e empregados, até aspectos cíveis de responsabilização.

Empreiteiras doaram a partidos r$ 484,4 milhões nas eleições

• Doação diluída de grupos investigados na Lava-Jato dificulta monitoramento

Leticia Fernandes e Gabriela Allegro – O Globo

Escândalos em série

Os principais grupos empresariais do país, citados em investigações da Operação Lava-Jato, doaram, juntos, pelo menos R$ 484,4 milhões a políticos e partidos nas eleições do ano passado. Levantamento feito pelo GLOBO mostra que grupos como Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, UTC, Camargo Corrêa, Galvão, Engevix, Mendes Junior e Toyo Setal fizeram depósitos polpudos na conta de políticos e partidos por meio de suas subsidiárias, empresas cujas ações são controladas pela matriz do grupo. No caso de Odebrecht e Queiroz Galvão, o cálculo também levou em conta quantias repassadas por empresas cujos grupos têm participação de 30% a 54% nas controladas. As doações foram feitas legalmente e estão todas registradas.

Esse modelo de doação diluída entre vários braços de uma empresa - previsto em lei e detalhado na prestação de contas feita ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) - dificulta o rastreamento do total doado pelo grupo. É comum que o nome de empresas controladas não tenha relação com o da holding - caso da Braskem ou da Usina Eldorado, subsidiárias da Odebrecht; da HM Engenharia e Construções, do grupo Camargo Corrêa; ou da Cosima, que pertence à Queiroz Galvão. Ainda que os negócios das empresas de um mesmo grupo sejam distintos, os maiores grupos têm unidade gerencial.

- Há casos em que as unidades de negócio têm autonomia suficiente para decidir (a quem doar). A Maior parte das investigadas têm como característica certa unidade gerencial, então, é possível sugerir que a holding estava absolutamente ciente do que estava sendo doado por cada subsidiária. Algumas são empresas onde existe um controle familiar, isso sugere que havia algum grau de programação entre o que acontecia na holding e nas diversas subsidiárias - explica Paulo Furquim, professor de Economia e Negócios do Insper e ex-conselheiro do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

PT recebeu R$ 123,5 milhões
Para Sérgio Lazzarini, professor de Administração e Negócios do Insper, o mecanismo de doação das empresas brasileiras ajuda a desvincular dos grupos os altos valores doados. É uma forma, segundo ele, de desviar o foco das empresas:

- Doar por subsidiárias ajuda a deixar as doações menos escancaradas, sem conexão direta ao grupo. Pode ser uma forma de captar recursos internos vindos de negócios múltiplos, que podem estar interessados nos benefícios trazidos por conexões com políticos. Assim, cada negócio pode fazer doações que reforcem o grupo como um todo.

Citados em depoimentos do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, pelo menos 16 dos 28 políticos que teriam sido delatados por ele, segundo o jornal "O Estado de S.Paulo", receberam dinheiro das empreiteiras investigadas pela Lava-Jato. Quem encabeça a lista é o senador Delcídio Amaral (PT-MS), derrotado na disputa ao governo do Mato Grosso do Sul, que recebeu R$ 9,7 milhões dos grupos Engevix, OAS, UTC e Queiroz Galvão. O senador foi responsável pela indicação do ex-diretor da área Internacional da estatal, Nestor Cerveró, preso na última quarta. Henrique Eduardo Alves (PMDB-AL), presidente da Câmara, também derrotado na disputa pelo governo de Alagoas, recebeu R$ 9 milhões dos grupos Galvão, OAS, Odebrecht e Queiroz Galvão. Lindbergh Farias (PT-RJ), que acabou em terceiro no Rio, recebeu R$ 2,8 milhões de OAS, Queiroz Galvão e UTC. Outros candidatos que receberam altas quantias foram Gleisi Hoffmann (PT-PR), R$ 1,8 milhão; Benedito de Lira (PP-AL), R$ 1,7 milhão; o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB-RJ), R$ 1,4 milhão; e o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB-PE), R$ 1,1 milhão. Levando em conta as doações nas eleições do ano passado, a soma dos partidos que mais receberam dinheiro desses grupos foram PT (R$ 123,5 milhões), PSDB (R$ 63,7 milhões), PMDB (R$ 58,6 milhões), PSB (R$ 29,8 milhões) e DEM (R$ 18,2 milhões).