terça-feira, 27 de outubro de 2015

Líder do PPS promete aumentar pressão para ouvir Lula na Câmara

• Deputado Rubens Bueno (PR) quer que ex-presidente e seu filho expliquem as denúncias de que teria havido pagamento de R$ 36 milhões na Medida Provisória 471, de 2009

Daiene Cardoso - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O líder do PPS na Câmara dos Deputados, Rubens Bueno (PR), promete aumentar a pressão na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Casa para promover a oitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de seu filho Luis Cláudio Lula da Silva e o ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho.

O deputado quer que eles expliquem as denúncias de que teria havido pagamento de R$ 36 milhões na Medida Provisória 471, de 2009, que resultou na prorrogação de 2011 a 2015 da política de descontos no IPI de carros produzidos nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Bueno quer ouvir também lobistas e representantes das montadoras Caoa e Mitsubishi.

Nesta segunda a Polícia Federal, a Receita Federal e o Ministério Público Federal deram início à terceira fase da Operação Zelotes, que investiga um esquema de compra de medidas provisórias para favorecer montadoras de veículos. Os policiais cumpriram mandado de busca e apreensão no escritório de Luis Cláudio.

O pedido do PPS para ouvir o grupo foi apresentado no dia 1º de outubro e ainda espera votação. Bueno também enviou requerimento à Casa Civil da Presidência da República cobrando esclarecimentos sobre o caso. "É impressionante o número de pessoas ligadas ao ex-presidente Lula que são alvo de operações da Polícia Federal. Parece um saco de caranguejo. Puxa um e vem outro grudado. É o Lulinha (Fábio Luiz da Silva) e a nora na Lava Jato. É empresário e amigão José Carlos Bumlai envolvido em lobby e repasses de dinheiro para o PT e à família de Lula. Agora é o Luís Cláudio na compra de uma MP. O Congresso tem a missão de apurar isso e queremos ouvir os envolvidos nesse caso da compra de MP o mais rápido possível", disse Bueno por meio de nota.

Bumlai. A oposição também está de olho na convocação do pecuarista José Carlos Bumlai na Câmara. Na CPI dos Fundos de Pensão, o tucano Marcus Pestana (MG), sub-relator da comissão, apresentou requerimentos para convocação do amigo do ex-presidente Lula e do lobista Fernando Falcão Soares, conhecido como Fernando Baiano, um dos delatores da Operação Lava Jato. Já o deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA) pediu a convocação do empresário na CPI do BNDES.

Em entrevista ao Estadão, Bumlai disse que Baiano pediu a ele que levasse o empresário João Carlos Ferraz, no primeiro semestre de 2011, a uma audiência com Lula, de quem o pecuarista é amigo de longa data. Naquela ocasião, Ferraz era presidente da Sete Brasil, empresa que negociava contratos bilionários com a Petrobras para compra de navios-sonda. Ele negou ter utilizado o nome do ex-presidente durante as negociações.

Fernando Baiano revelou, em depoimento de delação premiada, que o ex-presidente Lula se reuniu "pelo menos duas vezes" com o pecuarista e com João Carlos Ferraz, para tratar de negócios intermediados por ele, em nome do grupo OSX. Os governistas avaliam que a entrevista de Bumlai desfez a argumentação de Baiano quando ele dispôs a fazer uma acareação com o delator. "Ele no mínimo deixou muita dúvida", avaliou o vice-presidente do PT e líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (CE).

Ibope mostra que rejeição a políticos é alta

• Pesquisa indica que nomes citados para Presidência sofreram desgaste

Renan Rodrigues - O Globo

A elevada taxa de rejeição aos nomes lembrados para a próxima corrida presidencial, divulgada ontem pelo Ibope, representa um descontentamento geral com a classe política, na opinião de cientistas políticos ouvidos pelo GLOBO. A pesquisa, com margem de erro de 2 pontos para mais ou menos, mostra que o ex-presidente Lula tem rejeição de 55%. Em seguida, aparecem o senador José Serra (PSDB-SP), com 54%; o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, 52%; o exministro Ciro Gomes (PDT), 52%; a ex-ministra Marina Silva (Rede), 50%; e o senador Aécio Neves (PSDB-MG), 47%. Foram ouvidas 2.002 pessoas em 140 municípios de 17 a 21 de outubro. Esses percentuais se referem aos que concordaram com a afirmação: “Não votaria de jeito nenhum para presidente da República”.

Para o cientista político Benedito Tadeu César, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o resultado revela a insatisfação com a forma como “se faz política no país”:

— A crise política é a expressão da ausência de grandes lideranças. Isso é preocupante. Se, por um lado, obriga a uma reformulação da classe política, por outro preocupa porque, quando isso ocorre, abre um vácuo que pode ser ocupado por qualquer um. A negação da política leva a um quadro perigoso.

Já Ricardo Ismael, professor da PUC-Rio, diz que a pesquisa não é conclusiva e deve ser vista com ressalva, por exemplo, ao indicar empate técnico nas intenções de voto (soma de quem “votaria com certeza” e quem afirma que “poderia votar”) entre Aécio (42%), Lula (41%) e Marina (39%):

— A pesquisa de intenção de voto, estimulada ou espontânea, provavelmente daria Aécio liderando. Lula está sofrendo nos últimos dias com notícias negativas associadas a ele, mas ainda conta com um percentual de votos que deve ser maior que o de Dilma. O governo dela afundou, mas acho que o Lula consegue descolar um pouco — diz Ismael.

Apontada como terceira via em 2014, após a morte de Eduardo Campos (PSB-PE), o índice de rejeição de Marina não surpreende Cláudio Couto, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo:

— A rejeição dela começou na campanha do ano passado. Em certo momento, ela ameaçou as outras campanhas e desabou, porque aumentou a rejeição sobre ela. Não chega a ser surpresa. Ela já tinha rejeição, então é uma continuidade.

As investigações da Operação Lava-Jato e os indicadores da economia formam, para Tadeu César, um cenário de difícil previsão para a próxima eleição presidencial.

— Como não há processo de renovação em curso, o quadro de rejeição pode se manter, mas as coisas mudam muito. Passamos por um processo de deterioração da classe política. Nunca houve tanta investigação. Ao mesmo tempo, há uma amplificação da divulgação dessas investigações.

Crise faz aumentar rejeição a políticos

• Pesquisa divulgada nesta segunda-feira, 27, pelo Ibope mostra desgaste de aspirantes do Planalto

Pedro Venceslau - O Estado de S. Paulo

Um ano após o segundo turno da eleição presidencial mais disputada desde a redemocratização, uma pesquisa Ibope divulgada ontem revela que a crise política e econômica derrubou a popularidade dos nomes mais cotados, na situação e na oposição, para disputar o Palácio do Planalto em 2018.

Os números, que foram antecipados no blog do jornalista José Roberto de Toledo,
do Estado, mostram que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem o maior índice de rejeição, mas nenhum de seus adversários conseguiu capitalizar o sentimento antipetista: 55% dos entrevistados afirmam que não votariam nele "de jeito nenhum".
Logo em seguida, e em situação de empate de técnico neste quesito, estão o senador José Serra (PSDB), 54%, o governador Geraldo Alckmin (PSDB), 52%, e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), também com 52%.

A ex-ministra Marina Silva (Rede), que chegou a liderar a disputa de 2014 no primeiro turno, aparece com 50%.

Não votariam no senador Aécio Neves (PSDB-MG) em nenhuma hipótese 47% dos entrevistados.
Se comparados com levantamentos anteriores do Ibope, Lula, Serra, Marina e Aécio perderam popularidade. Os que dizem que não votariam no ex-presidente Lula, que já teve seu nome lançado pelo presidente do PT, Rui Falcão, para disputar as eleições de 2018, saltaram de 33% em maio de 2014 para 55%.

Marina, que conseguiu fundar seu próprio partido, mas submergiu no debate nacional, foi de 31% para 50% de rejeição em um ano, Aécio de 42% para 47% e Serra de 53% para 54%. Não há comparativo para Alckmin e Ciro.

Voto certo. Apesar de rejeição de Lula ser a maior entre os virtuais presidenciáveis, o porcentual de eleitores que votariam com certeza nele é maior do que o de todos os seus potenciais adversários: 23% (10% a menos do que em maio de 2014). Em segundo lugar aparece Aécio ( 15%), seguido por Marina( 11%), Serra (8%), Alckmin ( 7%) e Ciro (4%).

O ex-presidente Lula conseguiu preservar sua força em redutos que historicamente votaram no PT. Ele tem seu melhor desempenho no Nordeste, onde o partido venceu todas as eleições presidenciais desde 2002.

Na região, que concentra o maior número de beneficiados de programas sociais como o Bolsa Família, 38% dos entrevistados dizem que votariam nele "com certeza".

O petista também lidera entre os que ganham até um salário mínimo, com 36% das intenções de voto "certo".

A maior de rejeição a Lula está no Sul, onde 68% não votariam nele de "jeito nenhum".
Entre os mais ricos, que ganham acima de 5 salários mínimos, 66% não voto no ex-presidente em hipótese alguma.

Aécio Neves, por sua vez, vai bem no Norte e no Centro Oeste, onde o PSDB comanda três Estados - Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás.

O tucano conta com 18% dos entrevistados somados das duas regiões. Sua maior rejeição, porém, é no Nordeste, onde 51% dos entrevistados não votariam nele.

Ciro Gomes é o menos conhecido entre os postulantes ao Palácio do Planalto: 24% dos eleitores não conhecem o seu nome. Alckmin também tem taxa alta de desconhecimento: 19%. Aécio (9%), Marina (10%) e Serra (11%) se equivalem. Só 2% não conhecem Lula. Na pesquisa, um mesmo entrevistado pode escolher mais de um candidato ou dizer que não votaria em nenhum deles.

FH rebateu a declaração feita pela presidente Dilma Rousseff à CNN

• Em programa de TV, ex-presidente sugeriu que Dilma Rousseff renuncie ‘com grandeza’

Por Silvia Amorim – O Globo

SÃO PAULO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse não duvidar da “honradez” da presidente Dilma Rousseff , mas que quanto ao também ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva “tem que esperar para ver”. Fernando Henrique participou do programa “Roda Viva”, da TV Cultura, na noite desta segunda-feira, e também sugeriu que a presidente Dilma Rousseff renuncie ao cargo "com grandeza".

O ex-presidente falou sobre Lula ao ser perguntado sobre a situação do ex-presidente, que é alvo de investigação sobre tráfico de influência e cujos filhos também estão sob suspeição, e disse que o petista "permitiu que a situação chegasse a esse desvario". O ex-presidente afirmou não duvidar da "honradez" de Dilma, mas quanto a Lula:

— Tem muita coisa a ser passado a limpo. Tem que esperar para ver — disse.

Fernando Henrique também rebateu a declaração feita pela presidente Dilma Rousseff à CNN de que a democracia brasileira é "adolescente" e isso torna um impeachment algo perigoso. Para o tucano, o que é ameaçador é um país "sem rumo".

— Não dá para chegar nos Estados Unidos e dizer, como ela disse, que Brasil vai bem e (tudo que está acontecendo) é porque nossa democracia é jovem. Não é isso não. Vai mal porque está sem rumo — afirmou FH, em entrevista ao programa "Roda Viva”.

- Tinha que ter uma renúncia com grandeza. A presidente Dilma não pode desconhecer o que nós conhecemos, que a economia está em uma situação desesperadora, que há uma crise política. Ela tinha que dizer: 'eu saio, eu renuncio, mas eu quero que o Congresso aprove isso, isso e isso - sugeriu FH.

A CNN transmitiu no domingo passado uma entrevista gravada com Dilma em setembro, quando a presidente esteve nos Estados Unidos para a Assembleia Geral da ONU.

— O grande problema com aqueles que querem o meu impeachment é a falta de motivação — disse Dilma, respondendo a uma pergunta sobre o risco de perder o mandato por causa dos problemas de corrupção na Petrobras. — Nós temos que ter muito cuidado sobre isso pelo seguinte motivo: a nossa democracia ainda está na adolescência — completou a presidente.

No "Roda Viva", FH também criticou Dilma pela decisão de tentar um acordo com alguns setores do Congresso para conseguir aprovar o ajuste fiscal.

— A presidente Dilma tinha a faca e o queijo na mão. Acabou de fazer uma coisa inacreditável. Parece que seguindo o conselho do presidente Lula, ela foi fazer acordo com o baixo clero. Tem que fazer um acordo com o país. Tem que dizer ao país em que situação nós estamos, que é péssima. A taxa de juros está 14,5% e isso vai dar mais ou menos R$ 400 bilhões de juros. E vai fazer um acordo fiscal para economizar R$ 50 bilhões e nem consegue isso.

Para o tucano, Lula é o único nome que o PT tem para disputar a Presidência em 2018.

— Se o Lula não for candidato, quem (será) do PT? Não vejo ninguém por mais que me esforce. O PT não tem quadro de sucessão.

Presidente do PT admite que eleição será difícil

• Falcão cita ‘campanha de ódio’ contra partido e dificuldades econômicas do país

Fernanda Krakovics - O Globo

-BRASÍLIA- Em texto dirigido à militância petista, o presidente do PT, Rui Falcão, previu ontem que as eleições municipais do ano que vem serão uma disputa “difícil”, porque a crise econômica tende a repercutir negativamente na campanha. Ele aproveitou para defender, mais uma vez, mudanças na política econômica.

“É fato, porém, que vamos enfrentar uma disputa difícil. Não só pela campanha de intolerância e ódio contra o partido, mas também porque as dificuldades econômicas (que esperamos superar com o fim do ajuste e mudanças na atual política) tendem a repercutir negativamente nas eleições”, diz trecho do texto.

Com o partido desgastado pelo escândalo de corrupção na Petrobras e com o governo enfrentando uma crise de popularidade, Falcão afirmou que a campanha de 2016 terá que ser pautada, “obrigatoriamente”, pela defesa do PT e dos governos Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva.

O presidente do PT aproveitou para tentar injetar ânimo na militância. “Desde já, é preciso que a militância afaste o clima de pessimismo que muita gente procura incutir em nossas cabeças. Não é verdade que o PT vai ser varrido do mapa, ou que vamos sofrer uma derrota avassaladora. Só quem perde antecipadamente é quem se recusa a lutar — e esta não é a tradição petista”.

A estratégia para as eleições municipais do ano que vem deve ser discutida na reunião do Diretório Nacional do PT, na próxima quinta-feira, com a presença de Lula. Em resolução a ser divulgada após o encontro, o partido deve cobrar mudanças na política econômica, defendendo principalmente que o ajuste fiscal seja direcionado para as camadas mais ricas da população, com medidas como a taxação de grandes fortunas. A cúpula petista deve evitar, porém, ataques diretos ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Dinheiro do BNDES paga 'pedaladas'

Por Leandra Peres - Valor Econômico

BRASÍLIA - O governo vai usar recursos que seriam destinados ao orçamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para pagar "pedaladas fiscais". Na semana passada, anunciou que cortará R$ 30,5 bilhões da dotação orçamentária do banco, que serão utilizados para pagar subsídios em atraso do Programa de Sustentação do Investimento (PSI). A medida representa um acerto de contas entre Tesouro e BNDES. Os recursos terão ainda duas finalidades: quitar dívidas do subsídio à safra agrícola e ressarcir a Caixa Econômica Federal por gastos com programas sociais.

Governo usa corte do PSI para pagar 'pedalada'
O governo vai usar recursos que eram do orçamento do BNDES para pagar as "pedaladas fiscais". O Valor apurou que a redução de R$ 30,5 bilhões no orçamento do banco, anunciada pelo governo na sexta feira, será usada para pagar os subsídios em atraso do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) - em um acerto de contas entre o Tesouro e o BNDES - e também para quitar as dívidas do subsídio à safra agrícola e à Caixa Econômica Federal pelos repasses aos programas sociais.

O valor da redução no orçamento do banco poderá até aumentar para permitir a quitação de toda a dívida das manobras fiscais.

A operação que está sendo montada pelo governo prevê que o banco repasse R$ 30,5 bilhões em dinheiro ao Tesouro. No mesmo dia, o Tesouro faz o pagamento das "pedaladas" devidas ao BNDES -R$ 24,5 bilhões, segundo cálculo do Tribunal de Contas da União (TCU). O saldo de R$ 6 bilhões ficará no caixa do Tesouro que, com esses recursos, pagará R$ 2,2 bilhões da Caixa e parte da dívida com atrasos de subsídios agrícolas. "O governo está descapitalizando o BNDES para fazer caixa e evitar uma emissão de dívida neste momento", explica uma autoridade.

Com esta operação, o governo terá caixa para quitar a maior parte das manobras fiscais, mas ainda haverá saldo de R$ 9,7 bilhões. De acordo com as contas feitas pelo TCU, o total devido pelo governo chega a R$ 40,2 bilhões. A forma de pagamento desse saldo ainda está sendo definida pela equipe econômica. Há quem defenda que o valor total dos pagamentos do BNDES ao Tesouro seja definido posteriormente e supere os R$ 30,5 bilhões já cancelados, mas, de acordo com uma autoridade, "deve ser difícil" elevar este limite.

O pagamento terá impacto sobre as estatísticas fiscais. O déficit primário aumentará, mas o efeito sobre a dívida bruta será neutro. Ou seja, o governo conseguirá quitar as "pedaladas" sem piorar o principal indicador do endividamento público do país. A dívida aumentará quando o governo reconhecer e pagar o que deve ao BNDES, mas cairá em valor equivalente quando receber o dinheiro do banco. O mesmo acontecerá com o saldo das demais manobras que forem pagas com o saldo do repasse do BNDES.

O caminho mais provável para que o banco possa fazer um repasse em dinheiro ao Tesouro é um empréstimo de um dia que tem como garantia títulos públicos, a chamada operação compromissada. O BNDES tem linhas especiais de descontos com pelo menos nove diferentes instituições financeiras, com saldo suficiente para garantir os R$ 30,5 bilhões. Como o dinheiro vai para o Tesouro, e a maior parte volta no mesmo dia, o BNDES terá recursos de volta ao caixa antes do vencimento do empréstimo diário.

Para cobrir a diferença de R$ 6 bilhões que não voltará para o BNDES e, ainda assim, evitar que o banco fique com o caixa reduzido, o Tesouro pode estruturar a operação para um momento em que tenha que fazer pagamentos ao banco por títulos da carteira que estão vencendo. Dessa forma, o dinheiro que o Tesouro usar para honrar papéis que estão chegando na data de vencimento pode ser devolvido ao caixa da União pelo BNDES.

O governo está se preparando para fazer o pagamento integral das pedaladas este ano, mas a decisão final dependerá do resultado do julgamento do TCU. O tribunal já condenou o governo pelas "pedaladas", mas ainda analisa recurso contra a decisão.

Governo Dilma é bom para 8,8% e ruim para 70%, mostra CNT

Por Bruno Peres – Valor Econômico

BRASÍLIA -  A avaliação positiva do governo Dilma Rousseff subiu 1,1 ponto percentual entre a pesquisa de julho e outubro, de 7,7% para 8,8%, conforme pesquisa CNT/MDA divulgada nesta terça-feira. Ao mesmo tempo, 70% dos consultados avaliaram negativamente a gestão da presidente. Esse percentual era 70,9% em julho.

A aprovação do desempenho pessoal da presidente Dilma passou de 15,3% para 15,9%, enquanto a desaprovação da dirigente subiu de 79,9% para 80,7%.

A CNT mostrou que os índices oscilaram estão dentro da margem de erro, de 2,2 pontos percentuais. Foram ouvidas 2.002 pessoas em 136 municípios de 24 unidades da Federação das cinco regiões. A pesquisa foi realizada entre os dias 20 e 24 de outubro.

Dos entrevistados, 80,6% consideraram que Dilma não está sabendo lidar com a crise econômica atual e 16,7% avaliaram o contrário. Ainda 60,9% acreditam que a crise econômica é mais grave que a crise política e 35,4% classificaram a turbulência política como a crise mais grave atualmente no Brasil. O país não está em crise para 1,1% dos entrevistados.

Para 63,6%, a crise será solucionada em três anos ou mais. Apenas 23,9% avaliam que será possível resolvê-la em menos tempo, entre um e dois anos.

Entre os consultados, 86,7% não estão dispostos a pagar mais impostos para ajudar o país sair da crise mais rapidamente, enquanto 12,1% se dizem dispostos a isto.

A recriação da CPMF é rejeitada por 70,5% dos entrevistados, enquanto 9,4% se dizem favoráveis à volta da contribuição. O assunto é desconhecido por 17,8% dos entrevistados. O universo da pesquisa contempla 63,5% de entrevistados com conta bancária e 36,5% que não possuem conta bancária.

Estelionato a prazo – Editorial / Folha de S. Paulo

O quadro de deterioração econômica era previsível. Talvez não com a intensidade que hoje se verifica, mas já se podia calcular, com base nos indicadores do segundo semestre de 2014, que 2015 não passaria sem grandes dificuldades.

Soa esfarrapada, assim, a principal desculpa que políticos de variadas tonalidades ideológicas utilizam para justificar flagrantes de contradição explícita entre o discurso da campanha eleitoral e a rotina da administração pública.

As discrepâncias, dizem, explicam-se pela necessidade de aumentar o caixa num período de forte recessão. Diante da penúria na arrecadação, continua o argumento cínico, torna-se imperativo adotar medidas que, em outro contexto, jamais seriam encampadas.

O caso mais conhecido e comentado de estelionato eleitoral, naturalmente, é o da presidente Dilma Rousseff (PT). Mas a prática não se restringe à esfera federal. Pelo menos sete governadores já descumprem as promessas que, como candidatos, faziam um ano atrás.

Tome-se Luiz Fernando Pezão (PMDB), à frente do Rio de Janeiro. Na campanha, garantiu que não promoveria aumento do IPVA (imposto sobre veículos). Neste mês, porém, sancionou a majoração tributária, que valerá a partir de 2016.

No Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB) não esperou. Anunciou cortes logo no segundo dia de mandato, afetando inclusive os prestadores de serviços terceirizados –para obter votos nesse setor, ele chegou a gravar um vídeo no qual dizia que o número desses trabalhadores não diminuiria.

Em Minas Gerais, o postulante Fernando Pimentel (PT) acenou com redução de imposto sobre energia elétrica, mas os estabelecimentos comerciais sentiram a mão do petista como governador: elevação do ICMS de 18% para 25%.

Surpresa semelhante teve a população de Goiás em maio, quando a Celg D (distribuidora de eletricidade) foi incluída no Programa Nacional de Desestatização. Em 2014, Marconi Perillo (PSDB) havia prometido que a empresa continuaria a ter participação estatal.

Encontram-se outros episódios de estelionato no Rio Grande do Norte (Robinson Faria, do PSD), no Rio Grande do Sul (José Ivo Sartori, do PMDB) e em Pernambuco (Paulo Câmara, do PSB).

Não espantará se surgirem novos exemplos; dificilmente algum candidato terá vencido disputas acirradas dizendo somente verdades. Nas eleições de 2014, no entanto, o descompasso entre a realidade e o mundo fabricado pelos publicitários atingiu níveis alarmantes.

O choque sentido pela população neste ano e a rejeição vivenciada pelos políticos talvez tenham importante efeito pedagógico –que poderá ser medido já nos pleitos municipais de 2016.

Péssimo para a democracia – Editorial / O Estado de S. Paulo

A pesquisa do Ibope que mostra o aumento da rejeição a todos os principais líderes políticos, revelada com exclusividade por José Roberto de Toledo em sua coluna de ontem no Estado, é uma notícia muito ruim para todos os nomes citados e péssima para a democracia no País. A desconfiança dos brasileiros em relação aos políticos em geral – plenamente justificada pela miséria moral que predomina nesse ambiente – pode contaminar e expor a graves riscos o sistema democrático tão duramente reconquistado há três décadas, na medida em que se aprofunda o sentimento de orfandade dos brasileiros em relação a sua representação política.

O dado individualmente mais significativo da pesquisa revela que desde maio do ano passado aumentou substancialmente, de 33% para 55%, o número de pessoas que dizem que não votariam de jeito nenhum em Lula para presidente da República. É uma progressão que traduz claramente a decepção dos brasileiros com o populismo lulopetista, a partir de dois fenômenos principais facilmente identificáveis: primeiro, a crise econômica agravada pela incompetência da gestão de Dilma Rousseff com o consequente malogro da insustentável política de amplo incentivo ao consumismo, em prejuízo dos investimentos em bens sociais. Depois, a gota d’água: as mentiras escandalosamente usadas pelo marketing eleitoral petista para garantir a reeleição da presidente no ano passado.

Lula já deve se ter dado conta de que o brasileiro não é idiota e não está mais disposto a se deixar enganar por suas promessas de promover felicidade por decreto, ilusão pela qual a própria Dilma Rousseff se deixou conduzir no embalo da incompetência de seu indisfarçável autoritarismo intervencionista. Mas a enorme queda de popularidade de Lula e de Dilma está ligada a causas que, nesses 12 anos do nefasto governo petista, acabaram contaminando todo o sistema político com a generalização e a intensificação do fisiologismo enquistado na gestão da coisa pública. A máquina do poder e seu sistema de sustentação política apodreceram moralmente por obra e graça de Lula e da voracidade de sua tigrada, provocando a desmoralização da chamada classe política, inclusive a oposição, que sempre esteve longe de se comportar com a coragem e a lucidez necessárias para representar quase a metade dos brasileiros, de acordo com o resultado das últimas eleições. O sintoma mais evidente da desmoralização dos políticos é o fato de que a insatisfação e a revolta dos brasileiros com a incompetência e os desmandos do governo passaram a ser diretamente manifestadas, nas ruas, com o apoio de organizações não partidárias espontaneamente geradas pela conjuntura adversa.

De acordo com o Ibope, cresceu menos, mas também aumentou, em alguns casos muito significativamente, o número dos brasileiros que não votariam em Aécio Neves, de 42% para 47%; em Marina Silva, de 31% para 50%; em José Serra, de 47% para 54%. Sem dado comparativo, estão também em níveis altos as rejeições a Geraldo Alckmin e Ciro Gomes, empatados em 52%. Fica claro, portanto, que as principais lideranças que se apresentaram como alternativa ao lulopetismo nos três últimos pleitos presidenciais estão longe de empolgar o eleitor, prova de que não foram capazes de demonstrar, em mais de uma década, que estão preparadas para fazer melhor ou corrigir os muitos equívocos de Lula & Cia. Não são suficientemente dignos, enfim, da confiança dos brasileiros e, na melhor das hipóteses, à falta de novas opções, só podem ser considerados menos piores do que os petistas.

Esse quadro de desesperança – causa e efeito do grave impasse político que paralisa o País – representa séria ameaça à estabilidade do sistema democrático porque oferece oportunidade – vide a eleição de Collor em 1989 – para o surgimento e a ascensão de figuras dispostas a prometer o que for necessário para chegar ao poder. Como reação à farsa comandada por Lula, já se verifica na composição do Congresso Nacional eleito um ano atrás o fortalecimento de bancadas suprapartidárias conservadoras ou corporativas dispostas a promover retrocessos em conquistas importantes da sociedade moderna. É mais um malefício a ser debitado à irresponsabilidade do lulopetismo.

Não existe o risco à democracia visto por Dilma – Editorial / O Globo

• Por tramitarem pelos canais estabelecidos em lei e seguirem os ritos institucionais, as pressões pelo afastamento da presidente não representam qualquer ameaça

Ao passar por Nova York no final de setembro, para a Assembleia Geral da ONU, a presidente Dilma, ao ser entrevistada por Fareed Zakaria, da CNN, defendeu-se, como seria de se esperar, das investidas dos que desejam aprovar seu impeachment no Congresso. Mas extrapolou quando aconselhou adversários a terem cuidado, porque “nossa democracia ainda está na adolescência". Dilma, nesse momento, se descolou da realidade.

Ora, inexiste qualquer ameaça à democracia na ação de políticos e grupos da sociedade contra a permanência da presidente no Planalto até dezembro de 2018, pois a questão tramita dentro dos limites estabelecidos pela Constituição. Também por isso é falso chamar de “golpista” quem deseja que o Congresso aprove o impedimento da presidente. Como também não eram “golpistas” os que pressionaram para que o mesmo acontecesse com Fernando Collor.

Se os motivos alegados contra a presidente são fundamentados ou não, essa é outra questão, a ser definida, como tem sido tudo, nas instâncias devidas, sem qualquer atropelo.

A presidente tem dois flancos vulneráveis: o da prestação de contas do mandato anterior e o do financiamento da campanha para o seu atual governo. No primeiro, o Tribunal de Contas da União (TCU) deu seu veredicto, contra Dilma, mas a palavra final é do Congresso. No segundo, cabe ainda ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deliberar sobre denúncias de que dinheiro de propinas cobradas pelo PT em contratos de empreiteiras com a Petrobras, segundo delações premiadas, foi lavado ao ser convertido em doações legais para a campanha de reeleição de Dilma.

O momento político por que o país passa é de extrema dificuldade, potencializada por grave crise econômica gerada por erros do segundo mandato de Lula e do primeiro de Dilma. A presidente, a equipe do primeiro mandato e o PT trabalharam para retardar ao máximo ajustes de tarifas públicas, entre outras manobras, a fim de ganhar a eleição de outubro. Ganharam, mas tudo explodiu, numa reedição do que o então presidente Sarney e o presidente do PMDB Ulysses Guimarães fizeram no fim do Plano Cruzado, em 1986.

Entende-se por que é tão baixa a popularidade da presidente. Paralelamente a esse quadro há a Operação Lava-Jato, em que se desvenda mastodôntico esquema de corrupção no qual está envolvida gente do PT, PMDB, PP.

Mas também nada disso abala a democracia. Ao contrário, o petrolão tem servido para reforçar instituições republicanas já revigoradas no escândalo anterior do mensalão, deflagrado a partir do mesmo esquema lulopetista que se infiltrou na Petrobras e outras empresas públicas. A maneira como transcorre a pressão política pelo impeachment da presidente, dentro da lei, apenas reafirma que o regime de democracia representativa brasileiro tem sido capaz de resistir aos choques, vacinado contra tentações autoritárias.

Eleições surpreendem e oposição avança na Argentina – Editorial / Valor Econômico

A Argentina terá um segundo turno para a escolha do presidente pela primeira vez em sua história. O candidato oficial, Daniel Scioli, começou o domingo com esperanças de liquidar a fatura no mesmo dia e terminou-o cabisbaixo, mais com semblante de derrotado do que de vencedor, após a surpreendente reviravolta do eleitorado às vésperas de irem às urnas. Daniel Scioli, da Frente para a Vitória peronista, obteve 36,86% dos votos, menos do que amealhara nas primárias alguns meses antes. Seu maior rival, Mauricio Macri, do Mudemos, de quem precisava distanciar-se 10 pontos percentuais para vencer, conseguiu reunir 34,33% dos votos, um avanço de quase cinco pontos percentuais das primárias e do que lhe atribuiam todas pesquisas. Sergio Massa, peronista dissidente e líder da União por uma Nova Argentina, ficou com 21,34% e tornou-se fiel da balança em uma disputa agora imprevisível.

O eleitorado argentino mostrou o desejo de mudanças. Boa parte dos 25,2 milhões que foram votar repudiaram as ações de Cristina Kirchner, que impôs candidatos e restrições a Scioli, a ponto de durante toda a campanha pairar sobre o candidato oficial dúvidas de se ele seria mero ventríloquo da Cristina ou se tinha independência suficiente para se livrar dessa tutela para alçar voo próprio.

Scioli, foi muito ambíguo a respeito, além de carregar o kirchnerista fiel Carlos Zannini como vice, e isso lhe custou caro. A interferência de Cristina na campanha teve peso nos resultados desfavoráveis do pleito. Aníbal Fernández, braço direito dos Kirchner, político de estilo mafioso e agressivo, foi alçado a candidato ao governo da Província de Buenos Aires - a sucessor de Scioli no posto - e conseguiu um feito - pela primeira vez em 28 anos os peronistas não chefiarão a administração de um pedaço do país que concentra 37% do eleitorado. A candidata de Macri, María Eugenia Vidal, venceu a eleição com 39,5% dos votos, ante 35,5% do rival. Na capital, Buenos Aires, avessa aos peronistas, Macri obteve 50,5% dos votos, ante 24% de Scioli.

Scioli foi ainda o candidato peronista menos votado nas eleições presidenciais, com desempenho inferior a Italo Luder (40,1%), derrotado por Raúl Alfonsín, ou Eduardo Duhalde (38,27%), que perdeu em 1999 para Fernando De La Rúa. A Frente para a Vitória perdeu a maioria na Câmara dos Deputados, com 26 cadeiras a menos. Somada a aliados, ela tem agora 117 de 257 deputados, enquanto que a coalizão de Macri tem 91 e peronistas não kirchneristas, 20. No Senado, porém, a FPV manteve confortável maioria de 42 das 72 cadeiras.

A batalha principal para o liberal Mauricio Macri será buscar trazer para seu lado os eleitores de Sergio Massa, peronistas descontentes que despejaram 5,211 milhões de votos no opositor. Em segundo plano, mas importante, será tentar obter o apoio que for possível entre os eleitores da Frente de Esquerda e da Frente Ampla Progressista, que atraíram 1,4 milhão de votos (6,7% do total).

Apesar da surpresa eleitoral, que o coloca em escala ascensional, Macri enfrentará um duro segundo turno. Ele prosseguirá o ajuste de estratégia iniciado nos últimos dias, ampliando os acenos aos peronistas e a Massa. Um governo com toques de união nacional, que contasse com peronistas, suavizaria sua imagem de liberal mais sensível aos cantos dos mercados do que às necessidades sociais, que lhe é atribuída há anos pelos peronistas. Macri já insinuou encampar temas de campanha caros a Massa, como maior rigor no combate às drogas e à criminalidade. Do lado dos governistas, aposta-se que a base de Massa é peronista e tem pouca afinidade com o liberalismo de Macri.

Daniel Scioli, por seu lado, precisa definir se projeta sua independência ou se aceita o abraço fatal de Cristina. Ele já havia dado alguns passos de discreto afastamento, ao apresentar sua eventual equipe de governo sem pessoas ligadas à entourage da presidente.

Define o segundo turno o grau de mudança que os argentinos estão dispostos a tolerar. Scioli diz que a mudança que defende será "gradual", "sem ajuste fiscal, maxidesvalorização e retração da economia" (The Economist), com proteção da indústria, dos benefícios sociais e um Estado forte. Parece mais uma troca de estilo que de substância, o que lhe tirou votos no domingo. Macri quer abrir a economia, colocar o câmbio no lugar certo e retirar o Estado de onde ele não deveria se meter. Isso será decidido em 22 de novembro.

Segundo turno ameaça o kirchnerismo – Editorial / O Globo

• Eleições argentinas indicam de forma clara o desejo de mudança de um modelo político esgotado, que, em 12 anos de poder, mergulhou o país na crise

O primeiro turno das eleições na Argentina, realizado no domingo, reforçou os sinais de mudança no cenário político do país, após 12 anos de kirchnerismo. Com 97,2% das urnas apuradas, mesmo vencendo, o peronista da Frente para a Vitória (FPV) Daniel Scioli, candidato de Cristina Kirchner, obteve uma votação bem aquém do previsto, alcançando 36,9% das cédulas. O prefeito da cidade de Buenos Aires, Maurício Macri, do Cambiemos (Mudemos), ficou com 34,2%; e o peronista dissidente da Frente UNA, Sérgio Massa, com 21,3%. Os dois primeiros agora seguem para a disputa final em novembro.

Reforçam os sinais de mudança a vitória de María Eugenia Vidal, também do Cambiemos, na disputa pelo governo da província de Buenos Aires, ocupado hoje por Scioli. Ela derrotou Anibal Fernández, aliado de Cristina K.

Os analistas políticos foram unânimes em acentuar a mensagem de mudança das urnas. Scioli foi vítima dos vínculos com o governo. Na campanha, ele bem que tentou se distanciar do kirchnerismo, mas não conseguiu evidenciar com clareza as diferenças em relação à presidente. Além disso, a conjuntura eleitoral mudou completamente. Em 2011, Cristina K. contou com a solidariedade do eleitor por sua recente viuvez; a economia dava sinais de que voltava a crescer após a recessão de 2009; e a oposição estava fragmentada.

Agora, a economia não cresce desde 2012, a presidente não cumpriu qualquer de suas promessas de campanha, ao mesmo tempo em que a oposição se reorganizou, tornando-se mais competitiva. Os argentinos convivem hoje com uma inflação em torno de 25%, as reservas internacionais estão perigosamente baixas e o peso, desvalorizado. O déficit fiscal bateu em 6% do PIB, o dobro do teto considerado seguro. A insegurança generalizada desencoraja investimentos.

Não à toa, os mercados reagiram ontem com euforia. As ações argentinas negociadas em Wall Street (ADRs) e o índice da Bolsa local, o Merval, dispararam. O dólar paralelo caiu, e até os bônus em default obtiveram ganhos.

Nas quatro semanas que faltam até o segundo turno, Macri anunciou que vai tentar acertar acordos com os candidatos derrotados, sobretudo Sérgio Massa, reforçando a ideia da necessidade de mudança. Ao comentar o resultado, o candidato do Cambienos conclamou os eleitores a se unirem a ele na construção de um novo país.

Independentemente do vencedor, as eleições argentinas indicam o desejo de mudança de um modelo que fracassou, e encontra-se hoje totalmente esgotado. Até mesmo Scioli indicou que se distanciará do kirchnerismo, se for eleito. O que se espera, portanto, é que o próximo governo, seja quem for o presidente, faça a transição necessária para a retomada da prosperidade perdida e desescalada do autoritarismo, marca do clã Kirchner.

Clóvis Rossi - Esquerda 'bolivariana' sofre sua primeira derrota

- Folha de S. Paulo

A derrota de Cristina Fernández de Kirchner nas eleições de domingo, 25, na Argentina é a primeira que sofre a esquerda sul-americana neste século, se se excluir a derrota da moderadíssima esquerda chilena em 2010.

Até então, os Kirchner, Lula/Dilma, Chávez/Maduro, Rafael Correa e Evo Morales desfilaram vitoriosamente em votações sucessivas, como se as urnas fossem seus sambódromos particulares.

É verdade que o candidato (a contragosto) de Cristina,Daniel Scioli, ainda foi o mais votado e pode perfeitamente eleger-se no segundo turno, mas não é de esquerda nem era o candidato de Cristina.

Na verdade, a presidente perdeu antes de domingo, ao não conseguir o "kirchnerismo" construir, em seus 12 anos de governo, uma candidatura própria que não levasse esse sobrenome.

Admite o fracasso um jornalista, Horacio Verbitsky ("Página 12"), que é um dos mais próximos dos Kirchner, em artigo no domingo da eleição: Scioli "chegou à sua candidatura presidencial por descarte e não por entusiasmo, o que certifica a inabilidade do kirchnerismo para construir uma sucessão confiável, que não se baseie nos vínculos familiares, talvez seu maior deficit político".

Sem candidato do peronismo esquerdista, o segundo turno produzirá, ganhe quem ganhar, "um presidente que terá um enfoque mais favorável ao mercado", já se anima a prever Daniel Kerner, do Eurasia Group, em entrevista ao Council on Foreign Relations.

Muda, portanto, o intervencionismo que foi a marca de Cristina Kirchner, mas a sua derrota não se mede apenas na ausência de uma candidatura de confiança: perdeu também a província de Buenos Aires, a maior do país, onde, aí sim, tinha um homem seu (Aníbal Fernández). Perdeu igualmente, com seus aliados, 26 cadeiras na Câmara de Deputados.

Seu grupo, a Frente para a Vitória, ainda será majoritário, mas virtualmente empatado com a soma de três forças oposicionistas (114 a 113).

A derrota de Cristina não se deve tanto a um fracasso econômico, ao contrário do que deve ocorrer na Venezuela (se houver uma eleição limpa). A Argentina não está tão mal como o Brasil, embora tenha problemas sérios com o câmbio, com a inflação e com o financiamento externo.

Mas são situações problemáticas mais para o futuro imediato do que para o presente, já que não afetaram muito nem o emprego nem a renda até aqui.

O que mais parece ter influído no ânimo do eleitor é o estilo da presidente, o do confronto permanente com inimigos reais ou inventados.

O "nós contra eles" –também adotado no Brasil pelo lulopetismo– funciona durante um tempo, mas acaba cansando. Nenhuma sociedade fica à vontade se é convidada a estar em permanente estado de alerta.

Tanto que uma recente pesquisa mostrou uma divisão mais ou menos ao meio entre os que querem uma forte mudança do modelo (47%) e os que preferem mantê-lo (49%). Mas, desses 49%, mais da metade (27%) pede uma mudança de estilo da liderança —exatamente o que prometem as características intrínsecas de Daniel Scioli, conciliador por natureza.

Míriam Leitão - Mudança argentina

- O Globo

Argentina passou por uma reviravolta política. O resultado das eleições argentinas revigora a política do país, mas ainda é cedo para tanta comemoração como a que se viu na abertura das ações de empresas argentinas em Nova York, com altas de até 20%. No fim das contas, o primeiro e o terceiro colocados são peronistas. As próximas semanas serão decisivas. Mas Cristina Kirchner amargou várias derrotas.

Depois do domínio de 12 anos da família Kirchner, e da desordem econômica nesse período, a mudança seria animadora. Contudo, o eleito em 22 de novembro terá muitas dificuldades de fazer o país sair da crise em que está porque nos últimos anos a situação se deteriorou gravemente. A inflação pode estar em 35%, mas não se sabe muito bem porque os índices são manipulados. A Argentina não cresce e está com 6% de déficit primário. Vive uma crise cambial e por isso importadores e empresas estrangeiras têm dificuldades de atuar no país. O novo governo terá que desvalorizar o peso, o que elevará mais a inflação.

Não é fácil reverter uma situação assim. O segundo turno na Argentina acendeu as esperanças de quem espera uma virada na direção da política econômica. Uma vitória de Mauricio Macri, da coalizão oposicionista, poderia significar o começo do caminho para a normalização das negociações com os credores privados e com os governamentais reunidos no Clube de Paris. O Brasil venceu o desafio de regularizar a relação com credores há mais de vinte anos. Outro item da agenda velha é a transparência dos indicadores que ocorrerá com o fim da intervenção no Indec, órgão de estatísticas, se a oposição vencer. Além disso, os investidores têm expectativas de que haja abertura para exploração das jazidas de gás de Vaca Muerta, no deserto da Patagônia.

Macri fez várias promessas de mudança da economia do país. Pode ser que nem seja eleito — e mesmo sendo eleito, pode ser que nem cumpra as promessas —, mas os analistas que eu ouvi têm esperanças de uma “guinada". Essa normalização da relação com credores é bem vista mesmo por quem não é detentor de títulos da dívida externa do país porque poderia tirar a Argentina do isolamento em que se encontra.

O candidato governista Daniel Scioli reforçou ontem o movimento de se afastar de Cristina Kirchner e disse que os eleitores terão que decidir que forma de mudança querem; dizendo com isso que ele também representa a mudança. Como a presidente Dilma aqui no Brasil, ele também usa a “mudança” na campanha, mesmo sendo acusado de ter preferido se aproximar de Cristina do que buscar os votos independentes.

A grande derrota de Cristina Kirchner foi na Província de Buenos Aires, onde o peronismo perdeu a primeira eleição em 28 anos. Na política, Buenos Aires é o pivô central e tem peso econômico e político desproporcional ao resto do país. O derrotado Aníbal Fernández é chefe do gabinete de ministros da presidente e era o favorito até nas pesquisas de boca de urna.

Diante da derrota para Maria Eugenia Vidal, ele teve uma reação emocional: saiu no domingo à noite pelos fundos do hotel das apurações, escondido no carro. Ontem deu entrevistas dizendo que sairá da política.

Cristina Kirchner disse o oposto. Garantiu que continuará na vida política e ontem comemorou a vitória de sua filha Alicia, como governadora da Província de Santa Cruz, e do filho Máximo como deputado. Mas ela não teve outros motivos de comemoração e foi considerada a grande derrotada do primeiro turno. A frente peronista também perdeu cadeiras na Câmara. Tinha 203 deputados e agora terá 177. A oposição ganhou no mínimo trinta cadeiras.

O peronismo tem seus mistérios que justificam sua longa permanência. Mas, no Partido Justicialista (PJ), quem tem mais chances são os mais distantes da presidente. A derrota de Aníbal Fernández em Buenos Aires é claramente da presidente. Já o resultado da eleição federal ainda está em suspenso. O terceiro lugar, Sérgio Massa, que recebeu mais de 20% dos votos, é também do PJ. Mas hoje é um dissidente.

A coalizão Cambiemos (Mudemos) uniu a esquerda de Elisa Carrió, com os remanescentes da União Cívica, e executivos com foco em gestão. Mesmo assim, caso ganhe, é bom lembrar que os dois presidentes não peronistas desde a redemocratização não terminaram seus mandatos: Raúl Alfonsín e Fernando De La Rúa.

Luiz Carlos Azedo - Negócios de família

• Lula tem se queixado da Lava-Jato, mas a Operação Zelotes chegou muito mais próximo do ex-presidente, porque envolveu diretamente seu filho, sua nora e o ex-ministro Gilberto Carvalho

- Correio Braziliense

A operação de busca e apreensão da Polícia Federal na LFT Marketing Esportivo e na Touchdown Promoção de Eventos Esportivos, de Luiz Cláudio Lula da Silva, e na seguradora Silva Cassaro Corretora de Seguros, empresa de Fátima Cassaro, mulher de Lulinha, tirou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva do sério. Foi a gota d’água em relação o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em quem nunca confiou, e criou novo contencioso com a presidente Dilma Rousseff, que banca a permanência do ministro.

Lula e a cúpula do PT nunca foram favoráveis à presença de Cardozo na pasta. Por causa da Operação Lava-Jato, avaliam que ele perdeu o controle da Polícia Federal. Na reformas ministeriais, queriam que o ministro fosse substituído pelo ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Nélson Jobim. Na última semana, intensificaram o lobby em favor de sua substituição pelo deputado Wadih Damous (PT-RJ), ex-presidente da seção fluminense da Ordem dos Advogados do Brasil.

Suplente, Damous assumiu o cargo e virou estrela da bancada petista na CPI da Petrobras graças a articulações políticas de Lula. Ele é um dos autores dos mandados de segurança que sustaram o rito de votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff, que havia sido estabelecido pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), atendendo consulta feita pela oposição. Na quinta-feira, na reunião do diretório nacional, à qual Lula estará presente, a saída de Cardozo do Ministério da Justiça voltará à ordem do dia.

O ministro já não faz questão de permanecer no cargo, cumpre a missão a pedido de Dilma. Só não é mais indesejado pela cúpula petista do que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Cardozo, porém, não tem muito o que fazer; interferir nas investigações seria prevaricar, no mínimo. A Polícia Federal tem autonomia e as operações obedeceram decisões judiciais. A violação do sigilo dessas ações é crime para autoridades e funcionários públicos. A Operação Zelotes da Polícia Federal investiga fraudes em julgamentos no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), ligado ao Ministério da Fazenda.

Segundo a PF, esta nova etapa da operação investiga um consórcio de empresas que, além de manipular julgamentos dentro do Carf, negociava incentivos fiscais a favor de empresas do setor de automóveis. A investigação apontou “íntima relação entre as três empresas”, que “representam uma unidade empresarial tanto física quanto societária nucleada em Luís Cláudio Lula da Silva”, segundo a juíza Célia Regina Orly Bernardes, da 10ª Vara Federal de Brasília, especializada em crimes financeiros e lavagem de dinheiro, que autorizou as buscas.

Luís Cláudio recebeu pagamentos do escritório Marcondes e Mautoni, que teria atuado de forma supostamente ilegal pela aprovação da MP 471, que beneficiou o setor automotivo. Nesta etapa da Zelotes, também foram presos o lobista Alexandre Paes dos Santos, em cuja casa foi encontrado um relatório da diretoria de inteligência da Polícia Federal; o ex-conselheiro do Carf José Ricardo da Silva, e o sócio dele, Eduardo Valadão; e dois sócios de escritórios suspeitos de captar clientes para o esquema, Cristina Mautoni e Mauro Marcondes, vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos (Anfavea).

Pilatos
Lula tem se queixado sistematicamente da Operação Lava-Jato, mas a Operação Zelotes chegou muito mais próximo do ex-presidente, porque envolveu diretamente seu filho, sua nora e o seu mais próximo colaborador no governo, o ex-ministro Gilberto Carvalho. Petistas defendem a tese de que Cardozo lava as mãos em relação à atuação da Polícia Federal seguindo orientação de Dilma Rousseff.

Nos bastidores do PT, exuma-se o caso da ex-chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, ex-auxiliar de Lula, que fazia lobby junto à Presidência, conforme e-mails interceptados pela operação Porto Seguro. E também a carta da presidente Dilma Rousseff se eximindo de qualquer responsabilidade em relação à compra da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA), pela Petrobras, à época em que presidia o Conselho de Administração da estatal.

À época, os dois escândalos serviram para jogar água fria na campanha do “Volta, Lula!” A mesma linha foi adotada em relação à Operação Lava-Jato, cujos fatos a atual presidente da República atribui ao governo anterior. Recentemente, Lula queixou-se da declaração de Dilma, em entrevista no exterior, de que no governo dela não havia corrupção. Ou seja, insinuou que herdou a Lava-Jato de Lula.

Raymundo Costa - O que está por trás do ataque do PT a Levy

• As duas narrativas para a saída de Joaquim Levy

- Valor Econômico

Desde junho, quando o PT realizou um congresso em Salvador, seu presidente Rui Falcão defende mudanças na política econômica. Ainda assim o governo reagiu duramente a suas mais recentes críticas ao ministro Joaquim Levy (Fazenda) e à política de ajuste fiscal. Na realidade, Falcão tem servido de anteparo a ataques muito mais fortes e à esquerda em gestação nas profundezas do PT.

Em Estocolmo, na Suécia, Dilma traçou a risca de giz: "Eu acho que o presidente do PT pode ter a opinião que quiser, mas não é a opinião do governo", disse a presidente, em resposta a uma entrevista em que Falcão defende a saída de Levy, se o ministro não aceitar mudanças na política econômica. "A gente respeita a opinião do presidente do PT, mas isso não significa que seja a opinião do governo".

Segundo Dilma, como Falcão não reflete a opinião do governo, o fato é que Levy fica no cargo. E se o ministro fica "é porque concordamos com a política econômica dele".

Falcão avalia que o PT e sua base social ficaram satisfeitos com as críticas que desferiu ao ajuste fiscal, segundo afirmou a amigos. O presidente do PT tem evitado novas entrevistas, para não agravar mais um ambiente político já tumultuado. Mas quem fala com Rui entende que ele quer fazer gestos a fim de manter próximos os movimentos sociais. O PT tem de defender o governo, certo. Mas ele, Rui, não é governo, o que lhe dá certa liberdade de ação. O argumento é simples: o governo tem vários partidos, também, então às vezes ele precisa fazer distinções, não deve concordar com tudo.

No que tange à política econômica, a lógica que demarca os movimentos do presidente do PT pode ser resumida em uma pergunta: o ajuste fiscal acaba ou vai ficar por mais dois, três anos? Esse é o problema na visão petista. Há duas narrativas que podem ser construídas para a saída do ministro Joaquim Levy do governo. A primeira é que ele saiu porque foi incapaz de fazer ajuste. Na prática, isso significa que o ministro que entrar terá de dar continuidade ao arrocho. Não sinaliza nada para o futuro e não é bom para os planos eleitorais do PT.

A segunda narrativa é Levy concluiu o ajuste fiscal e o país vai entrar em uma outra etapa, portanto precisa ter um novo ministro. Mas para ser dito que o ajuste foi concluído Levy precisa apresentar algumas realizações, não podem ser apenas os cortes. É preciso aprovar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), o projeto de Desvinculação das Receitas da União (DRU), o repatriamento de recursos e pelo menos iniciar a discussão para aprovar a CPMF no primeiro semestre. Esses seriam os tais pré-requisitos para o país ingressar em outra fase. Não é o "Fora Levy" pelo "Fora Levy". É Levy deve sair para dar para dar outra sinalização, não mais de ajuste, mas de retomada do crescimento.

Rui e a cúpula do PT se queixam de que a dinâmica interna do PT não tem sido bem compreendida. Da última vez que a Executiva Nacional do partido se reuniu, todas as suas tendências, à exceção da "Novo Rumo", "Movimento PT" e da "Construindo um Novo Brasil" (CNB), apresentaram uma proposta de resolução ultra-esquerdista contra o ajuste. Rui fez um texto de próprio punho que impôs por 11 a 4 na votação.

Quase todas essas mesmas tendências, tendo à frente a "Mensagem" e "O Trabalho" entregaram um documento agora propondo que o PT entrasse contra o deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, mesmo já tramitando uma representação no Conselho de Ética. Também neste caso foi erguida uma barreira de proteção.

O argumento é que Eduardo Cunha, depois da revelação dos documentos sobre sua conta secreta em banco suíço, está numa situação cada dia mais insustentável. O PT deve deixar para se posicionar no Conselho de Ética, portanto. A expectativa de Rui é que neste caso, a exemplo do que aconteceu em relação a Joaquim Levy, "os caras não venham mais pra cima", como diz um amigo do presidente do partido. A direção do PT faz demarcação publica, pois não pretende agravar a situação e nem fazer resoluções esquerdizantes.

Com a presença confirmada de Lula, o PT fará uma reunião ampliada do Diretório Nacional, depois de amanhã, para dar a largada na campanha eleitoral de 2016. Falcão não gostaria de contaminar o encontro com a pauta negativa do governo, mas o partido não terá como evitar o debate econômico. Qual é o principal problema do ajuste às vésperas da eleição? O risco de elevar o desemprego para a faixa de dois dígitos. O PT espera que não chegue a isso, mas espera que sejam tomadas medidas para aliviar o arrocho. Pagar os atrasos do PAC, por exemplo.

Entende-se que isso ajuda a irrigar a economia no país inteiro. Uma coisa é a transposição do Rio São Francisco, PAC pesado, mas de efeito posterior e mais propagandístico. Já o Minha Casa Minha Vida ou um terminal rodoviário parado em uma capital por falta de recursos é discurso certo da oposição contra o prefeito, o governador ou a presidente. São essas coisas que o PT pretende pedir e "cutucar" o governo a ter como prioridade. "O governo tem que olhar para isso, o Nelson e o Levy têm que cuidar dessas coisas", disse Falcão numa roda de petistas.

O advogado Cristiano Zanin Martins, que assumiu a defesa de Luiz Claudio Lula da Silva na "Operação Zelotes", é genro do advogado Roberto Teixeira, amigo e compadre do ex-presidente Lula. Quando era sindicalista e nas suas primeiras tentativas de chegar à Presidência, o criminalista ao lado de Lula era o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, defensor de presos políticos. Greenhalgh, que depois se elegeria deputado federal pelo PT, e Lula divergiram sobre o desfecho de uma causa, no final dos anos 1990, e o advogado Márcio Thomaz Bastos, que mais tarde viria a ser ministro da Justiça no governo do PT, passou a cuidar dos interesses do ex-presidente na esfera criminal. As boas bancas de Brasília sugerem que Lula deve reforçar urgente sua defesa.

Vinicius Torres Freire- História sem fim

- Folha de S. Paulo

Está perto de mergulhar no vinagre a última grande fonte de receita extraordinária prevista pelo governo para este ano, o dinheiro do leilão de hidrelétricas, que renderia neste ano uns R$ 11 bilhões.

Trata-se de 29 hidrelétricas que voltaram para o governo, depois de esgotado seu prazo de concessão. Seriam leiloadas no início de novembro. Agora, se tudo der certo, fica para o final do mês que vem. Se o Congresso aprovar algumas normas que indiretamente influenciam o leilão; se o clima financeiro não estiver em tumulto.

Sem esse dinheiro, a conta do deficit primário de 2015, até ontem de tarde, ficaria entre 0,9% do PIB e 1% do PIB, entre R$ 50 bilhões e R$ 58 bilhões. Somado a despesa de juros, que dá o deficit nominal, o buraco deve chegar a 9,5% do PIB neste ano.

Se não é homérico, o rombo é similar àquele do início do desastre da Grécia (não, não somos a Grécia. Trata-se apenas de uma medida do tamanho do nosso triste vexame).

Os economistas do governo, porém, desse limão querem fazer uma salada em 2016. Como esse dinheiro extra não vai entrar neste ano, o plano é engordar o resultado fiscal do ano que vem. Isto é, além de cumprir a meta de superavit prevista para 2016, ora em 0,7% do PIB, o governo somaria ainda a receita extraordinária frustrada neste ano, o que daria quase 0,6% do PIB.

Nessa contra entrariam as receitas talvez postergadas do leilão de hidrelétricas, de repatriação de dinheiro malandro que foi para o exterior, de renegociação de dívidas fiscais e de concessões de estradas, que também ficaram para as calendas.

Pode ser uma boa ideia.

Pode dar tudo errado. Até agora, não há garantia alguma de que o governo vai conseguir os recursos que previu para o Orçamento de 2016, aqueles que listou no segundo pacote fiscal do governo Dilma 2. Isto é, o plano de conseguir o dinheiro da CPMF, de se apropriar de parte do dinheiro do sistema "S" (Sesc, Sesi etc.) e de confiscar quase tudo das emendas parlamentares. Sem isso, se vão uns dois terços do pacote fiscal. Sem isso, não haverá superavit (se nada mais der errado).

Enfim, mesmo o deficit primário de 2015 pode ser maior, talvez até 0,6% do PIB maior (uns R$ 40 bilhões). Tudo depende de quanto e como o governo vai pagar as despesas que pendurou no ano passado, de modo malandro, inepto ou francamente ilegal, as chamadas "pedaladas". Como se vai arranjar tal coisa ainda depende de conversas com o TCU.

Provavelmente, o governo vai mandar para o Congresso uma revisão de Orçamento sem essa decisão, não se sabe bem como, deixando um "branco a preencher", assim que se chegar a um acordo sobre as pedaladas. Se tiver de pagar todas as pedaladas, as penduras de anos anteriores, o deficit primário aumenta para uns 1,6% do PIB.

O Brasil de meados da década passada chegou a ter deficit nominal desse tamanho (quer dizer, tínhamos uma situação muitíssimo melhor). Pareceu possível chegar a um deficit nominal zero, o que seria exótico e quase revolucionário no Brasil. Foi então que Dilma Rousseff, então ministra, começou a detonar as finanças públicas, contribuindo para derrubar a projeto inédito de equilibrar as contas do governo.

Anna Ratto e Roberta Sá - Nem sequer dormi

Fernando Pessoa - Não me Importo com as Rimas

Não me importo com as rimas.Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural corno o levantar-se vento...

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Opinião do dia – Fernando Henrique Cardoso

“Se Dilma tivesse tido visão, teria juntado todo mundo e dito: "estamos mal, não importa a culpa de quem é". Ou então não anda. É preciso haver um momento, que eu não sei se vai existir, em que tem que ter liderança. Pensei várias vezes o que faria se estivesse no lugar dela. Posso imaginar as dificuldades. Eu diria: "Está bem, vocês não me querem, vou embora. Mas quero primeiro que o Congresso aprove isso, isso e isso".

(...) mas acho que é preciso algo desse tipo. A crise não é a Dilma. Ela tem responsabilidades como, por exemplo, na parte energética, onde tudo está errado. Mas a responsabilidade política é do Lula, que transformou o presidencialismo de coalizão em cooptação. Agora complicou muito porque (o governo) tem um Congresso multifacetado e não tem apoio popular nem agenda. O Congresso controla.”
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Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República, entrevista em O Globo, 24 de outubro de 2015.

Governo retira ‘pedaladas’, e rombo será de até R$ 50 bi

• Congresso Nacional receberá proposta com projeção de déficit

Equipe econômica e Comissão de Orçamento vão aguardar posicionamento do TCU para decidir como pagar dívida de manobra contábil

O governo enviará ao Congresso Nacional até amanhã a mensagem propondo mudanças na meta fiscal para 2015. O documento projeta um déficit entre R$ 45 bilhões e R$ 50 bilhões e exclui as chamadas “pedaladas fiscais”, atrasos no repasse de recursos aos bancos públicos para melhorar artificialmente o saldo das contas públicas. O governo aguardará o posicionamento oficial do Tribunal de Contas da União (TCU) para regularizar essa dívida, e se poderá ser paga à vista ou em parcelas.

Governo retira ‘pedaladas’

• Proposta com rombo de R$ 50 bi enviada ao Congresso até amanhã, sem incluir manobra fiscal

Geralda Doca - O Globo

-BRASÍLIA- O governo encaminhará ao Congresso Nacional até amanhã mensagem propondo mudança na meta fiscal para 2015, com projeção de déficit entre R$ 45 bilhões e R$ 50 bilhões. A regularização das chamadas “pedaladas fiscais” (atrasos no repasse de recursos devidos pelo Tesouro aos bancos públicos) ficará de fora do cálculo do déficit até a decisão final do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o tema, com a publicação do acórdão. O governo espera que o Tribunal indique se a dívida precisa ser paga à vista ou pode ser parcelada.

Ministros da área econômica e parlamentares da Comissão Mista de Orçamento passaram o fim de semana fazendo cálculos para fechar as contas. Segundo o deputado Hugo Leal (PROSRJ), relator da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2015, a nova meta vai considerar apenas a frustração de receitas do Orçamento. Ele informou que o objetivo é votar o relatório com as alterações na meta juntamente com o projeto da LDO, nesta quarta-feira.

— Essa é a linha que vou trabalhar. Com a frustração e a queda das receitas, o déficit ficará em torno de R$ 50 bilhões, mais para baixo do que para cima — disse o parlamentar ao GLOBO.

Segundo Leal, as conversas entre as áreas do governo (Fazenda, Planejamento e Casa Civil) e a Comissão do Orçamento caminharam para um consenso de que é melhor tratar a dívida do Tesouro com os bancos públicos separadamente. O governo avalia que o mais prudente é aguardar a decisão final do Tribunal para contabilizar e regularizar essas dívidas. Só vai ser considerada nas contas de 2015, por enquanto, a parcela das “pedaladas” que já foi paga ao longo do ano, cerca de R$ 7,5 bilhões. Segundo cálculos do TCU, o total desse passivo chega a R$ 40 bilhões.

— O mais importante é que o governo já entendeu o recado do TCU e vem pagando a dívida. Neste ano, pagou cerca de R$ 7,5 bilhões, referentes a 2010 e 2011 — disse o deputado.

Ele explicou que há ainda divergências sobre a forma de contabilizar os débitos. Segundo fontes do governo, na mensagem ao Congresso será explicada a forma que o governo pretende regularizar as pedaladas. Se esses débitos fossem contabilizados integralmente nas contas de 2015, o rombo deste ano poderia superar R$ 80 bilhões.

Na sexta-feira, o TCU divulgou nota informando que ainda não há decisão sobre as “pedaladas fiscais”. O recurso da União, que questiona parte desses débitos, ainda está em fase de análise pela secretaria responsável, e o relatório do ministro Vital do Rêgo sobre o tema terá que ser votado pelo plenário do Tribunal.

Receitas extras de R$ 11 bilhões
Segundo o deputado Hugo Leal, o governo ainda espera receber este ano receitas extraordinárias de R$ 11 bilhões, referentes à outorga nas concessões de usinas hidrelétricas, cujos contratos não foram renovados. Esta é a única receita extra que deve entrar no caixa este ano:

— O que vai acontecer em 2015 é aquilo que a gente já esperava, diante da frustração de receitas (extraordinárias) e da vertiginosa queda na arrecadação, principalmente de agosto para cá.

A proposta que o governo encaminhará ao Congresso vai alterar mais uma vez a meta fiscal de 2015. A última alteração, enviada em julho mas ainda não apreciada pelos parlamentares, previa superávit de R$ 8,7 bilhões (0,15% do PIB). Confirmado o déficit de R$ 50 bilhões nas contas, será equivalente a 0,89 % do PIB.

Esta será a terceira vez que o governo altera a meta fiscal de 2015. Originalmente, ela era de superávit de R$ 143,2 bilhões, ou 2,5% do PIB. Quando a equipe econômica do segundo mandato assumiu, ainda em dezembro, ela foi alterada para superávit de R$ 66,3 bilhões, ou 1,2% do PIB. Com a arrecadação em queda livre e despesas engessadas, o governo foi obrigado, em julho, a propor mais uma mudança da meta e agora é forçado a fazer isso de novo, dessa vez para déficit.

A arrecadação de tributos e contribuições federais teve em setembro o pior resultado para o mês em cinco anos, desde 2010. Segundo a Receita Federal, entraram nos cofres públicos R$ 95,239 bilhões, queda real de 4,12% em relação a 2014. No acumulado do ano até setembro, o governo arrecadou R$ 901,053 bilhões, 3,72% menos do que no mesmo período de 2014.

Colaborou Bárbara Nascimento

Proposta de ajuste fiscal avança pouco no Congresso

Lentidão da agenda fiscal no Congresso dificulta reequilíbrio de contas em 2015

• Do pacote de ajuste fiscal anunciado como prioridade, apenas a redução no número de ministérios foi efetivada, por não depender de aprovação no Legislativo

Ricardo Brito e Adriana Fernandes - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Diante de um rombo fiscal beirando os R$ 100 bilhões em 2015, o governo Dilma Rousseff só conseguiu avançar com o ajuste em medidas administrativas de contenção de gastos sem grande impacto para as finanças, como o corte de 39 para 31 ministérios. De 12 propostas fundamentais para reequilibrar as contas, só uma não depende do Congresso, paralisado pela crise política e pela situação do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), alvo da Operação Lava Jato.

As propostas – emendas à Constituição (PECs), medidas provisórias (MPs), projetos de lei ou decretos – tentam elevar as receitas, reduzir gastos e resolver pendências dos Orçamentos deste ano e do próximo. Em 2015, além do provável déficit de R$ 50 bilhões a R$ 57 bilhões, o governo precisa resolver a questão dos cerca de R$ 40 bilhões relacionados às pedaladas fiscais de 2014, reprovadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e sob análise do Congresso.

A maioria das PECs enviadas pelo governo ao Congresso tramita a passos lentos. Três têm chances remotas de aprovação em tempo hábil: a recriação da CPMF; o fim do abono a servidores que continuarem trabalhando, mesmo podendo se aposentar; e a Desvinculação das Receitas da União (DRU), regra que vence em dezembro e, embora não represente aumento de receitas ou corte de despesas, é fundamental para manejar um Orçamento bastante engessado por despesas obrigatórias.

Para acelerar a votação da agenda fiscal, o Planalto escalou emissários para estabelecer pontes mínimas com Cunha – a maioria das propostas está na Câmara. O receio é que a crise envolvendo Dilma – alvo de pedidos de impeachment que serão decididos por Cunha – e as suspeitas sobre o peemedebista paralisem o andamento da agenda no Congresso.

“Todas (as matérias) que estiverem prontas para a pauta irão à votação sem problema”, disse Cunha ao Estado. “Nenhuma matéria da área econômica deixou de ser votada este ano.”

Resistência. No caso da CPMF, a resistência é alta no Congresso. O relator-geral do Orçamento, deputado Ricardo Barros (PP-PR), já avisou ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que não contará com a receita de R$ 32 bilhões prevista para 2016 com a recriação do tributo.

No governo, já há quem reconheça a dificuldade de aprovar o retorno do tributo e as alternativas para reforçar o caixa seriam editar um decreto para elevar a alíquota da Cide, contribuição cobrada sobre combustíveis que poderia render R$ 12 bilhões em 2016. Ganha força também a ideia de liberação dos jogos, que acrescentaria R$ 10 bilhões.

Do pacote, o projeto com maior garantia de aporte de recursos para o caixa do governo, o da repatriação, foi desfigurado na semana passada em uma comissão da Câmara, a contragosto de Levy. O texto vai a plenário nesta semana e o governo tentará reverter as mudanças e garantir o aporte de R$ 25 bilhões previstos.

Há propostas do ajuste que nem sequer foram apresentadas ao Congresso, como a que prevê a redução de repasses para o Sistema S. Até o momento, o governo não indicou se vai bancá-la ainda, diante das reclamações das entidades afetadas, ou o que fará para compensar os R$ 8 bilhões a menos de economia. Da agenda, a única ação concreta foi o decreto do Executivo que reduziu a alíquota do Reintegra, que prevê economia de R$ 2 bilhões.

Orçamento. Um segundo importante eixo de medidas da economia passa pela aprovação de três propostas ligadas ao Orçamento: a mudança da meta fiscal de 2015; e as leis de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e Orçamentária Anual (LOA) de 2016. Dessas, a alteração da meta – repetindo o que ocorreu em 2014 – é a mais delicada. Sem a mudança, o governo poderá incorrer em crime de responsabilidade.

Para a presidente da Comissão Mista de Orçamento (CMO), senadora Rose de Freitas (PMDB-ES), o Congresso só deve aceitar votar essas propostas se tiver o real alcance da situação das contas públicas. Ela disse já ter dado esse recado a Levy. “Precisamos dos números verdadeiros”, disse.

A despeito das discussões sobre o buraco na economia e da pressão que sofre do PT por mudanças, Levy tenta construir com a cúpula do Congresso uma agenda para sair do discurso do ajuste. Um de seus aliados, o senador Romero Jucá (PMDB-RR), disse-lhe na semana passada que é preciso apontar ações de até quatro anos. “Passamos o ano com uma economia depressiva, tomando Lexotan”, afirmou Jucá. “Temos que fazer o possível para retomarmos o crescimento da economia”, disse o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

Pedaladas bancam grandes empresas e produtores rurais

Pedaladas do governo Dilma bancaram grandes empresas e produtores rurais

Dimmi Amora – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Cerca de 35% dos valores envolvidos nas manobras cometidas pelo governo federal que ficaram conhecidas como pedaladas fiscais estão relacionados a financiamentos subsidiados para empresas e produtores rurais de médio e grande porte.

Os dados, enviados à Folha pelo BNDES e pelo Banco do Brasil, contrariam aversão apresentada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela presidente Dilma Rousseff segundo a qual as pedaladas –aventadas comomotivo para o impeachment da petista– foram destinadas a pagar programas sociais como o Bolsa Família.

O artifício consistiu em utilizar recursos dos bancos públicos para o pagamento de despesas da alçada do Tesouro Nacional. Com isso, os balanços do governo apresentaram, durante o ano passado, resultados artificialmente melhores, driblando a necessidade de cortar gastos.

De acordo com os cálculos do TCU (Tribunal de Contas da União), quereprovou as contas federais de 2014, o expediente retirou indevidamente R$ 40 bilhões da apuração da dívida pública.

Desse total, segundo números fornecidos pelos bancos estatais, algo como R$ 14 bilhões foram referentes a empréstimos a grandes empresas e médios e grandes proprietários rurais.

Essas operações têm juros inferiores às taxas de mercado, e o governo tem de compensar os bancos pelas perdas –o que não vem ocorrendo integralmente. Por isso, o TCU considerou que os bancos financiaram o Tesouro, transação vedada por lei.

Segundo o BNDES e o Banco do Brasil, os financiamentos a grandes empresas e ruralistas de médio e grande porte correspondem a 47% e 63%, respectivamente, dos valores financiados nessas linhas de crédito.

Aplicadas essas proporções à dívida do governo estimada pelo TCU em 2014 com esses bancos –R$ 19,6 bilhões e R$ 7,9 bilhões– o volume não repassado corresponderia aos R$ 14 bilhões.

Esse valor é sujeito a variações, porque o montante da dívida muda conforme as taxas de juros das operações.

Uma parte das pedaladas esteve, de fato, ligada a programas sociais executados pela CEF (Caixa Econômica Federal). Essa fatia, no entanto, foi minoritária.

Na análise do TCU, no caso da Caixa, o rombo para pagar o Bolsa Família, seguro-desemprego e abono salarial chegou a quase R$ 6 bilhões no meio do ano passado, mas foi praticamente todo quitado em 2014.

Houve ainda o uso de recursos do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para despesas do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida. Segundo o TCU, neste mês ainda havia ao menos R$ 1,2 bilhão a ser pago ao fundo trabalhista.

O maior volume de pedaladas está com o BNDES. A dívida do Tesouro com seu banco de fomento é referente a um programa chamado PSI (Programa de Sustentação de Investimento), criado em 2009 para incentivar empresas e evitar uma recessão.

Quem tomava dinheiro por essa linha, para comprar máquinas e equipamentos, pagava juros de 2,5% ao ano, muito abaixo da inflação.

Dois estudos elaborados por funcionários do BNDES, que avaliaram resultados obtidos até 2011, defendem que o PSI teve papel relevante no incentivo ao investimento.

Outro trabalho, realizado em 2014 por três professores do Insper (Marco Bonomo, Ricardo Brito e Bruno Martins) concluiu que, depois de 2010, os financiamentos subsidiados pouco acrescentaram à economia: foram acessados por empresas "grandes, antigas e de baixo risco", que com eles puderam elevar seus lucros.