sábado, 22 de janeiro de 2022

Marcus Pestana*: As relações de trabalho no século XXI

Nem sempre as cabeças acompanham a frenética velocidade das mudanças. É difícil seguir o vertiginoso processo de inovações. Inteligência artificial, robótica, engenharia genética, criptomoedas, física quântica, ciência da computação, comunicação 5G, energias limpas, internet. Ufa, há um novo mundo pela frente.

Diante de tamanho dinamismo, há várias opções: se trancar em casa dizendo “não tenho lugar neste mundo, me deixa no meu canto”; tentar acompanhar as mudanças em curso; se cercar de jovens inovadores e crescer no seu vácuo; ou, impor uma resistência conservadora (às vezes com verniz “progressista”) ao novo que se anuncia. A “vanguarda do atraso” não dá tréguas!

Esta percepção, renova a convicção de que o polo democrático não deve se alinhar à uma esquerda retrograda e anacrônica, que nada está entendendo sobre os desafios presentes e, diante de novos problemas, responde com velhas e surradas teses.

Digo isto à propósito das declarações de Lula sobre uma suposta “revogação” da reforma trabalhista. Para começo de conversa não há revogação. O que é possível é um novo governo do PT propor uma contra reforma.

O mundo do trabalho hoje exige flexibilidade, agilidade, descentralização, desburocratização, livre negociação. O marco regulatório das relações de trabalho, a CLT, datava de 1943. O mundo mudou, companheiros!

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Bolsonaro brinca com a Constituição

O Estado de S. Paulo.

Bolsonaro quer violentar a Constituição e sangrar ainda ainda mais as contas públicas para ganhar votos e constranger os governadores

A destruição dos pilares da Constituição certamente é um dos objetivos do eterno candidato à Presidência Jair Bolsonaro. Há três anos, o País espera que ele assuma as funções de quem chega ao mais alto posto da República e comece, de fato, a governar. O capitão da reserva, porém, insiste em atuar como um vereador que chegou ao cargo por acidente e quer se manter nele a qualquer custo. O preço dos combustíveis, que afeta a maioria dos eleitores, é uma de suas obsessões. Para reduzi-lo à força, a despeito do comprovado fracasso de tentativas anteriores, a ideia genial mais recente é mexer na Constituição. A apoiadores nas redes sociais, Bolsonaro anunciou que negocia com o Congresso zerar as alíquotas de PIS e Cofins sobre gasolina, diesel, etanol e energia para dar um “alívio” aos consumidores.

O custo dessa medida eleitoreira seria de ao menos R$ 57 bilhões para os cofres públicos, quase o dobro dos R$ 30,1 bilhões destinados ao Fundo Nacional da Educação Básica (Fundeb), valor que a União enviará a Estados e municípios neste ano para financiar a educação. A redução no preço dos combustíveis seria pífia, de menos de R$ 0,20 por litro. Na conta de luz, os tributos federais não chegam a 5% na fatura. Um presidente sério e comprometido com o governo jamais cogitaria abrir mão de uma arrecadação desse vulto para conceder um benefício de centavos à população. Mas esse cálculo jamais entrará na planilha de Bolsonaro, na qual a única conta que importa é a dos votos na urna.

Mudar as alíquotas de tributos federais é algo perfeitamente possível de ser feito por lei ou, em alguns casos, decreto. Mas há uma condição: é preciso elevar algum outro imposto para compensar a perda de arrecadação decorrente desse tipo de medida. Esse talvez seja o principal pilar da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), cujo descumprimento implica crime de responsabilidade e, no limite, pode resultar até em impeachment. Isso não representa um empecilho ao modus operandi bolsonarista. Basta driblar a lei inventando uma proposta de emenda à Constituição (PEC). Técnicos da área econômica seriam contrários à ideia, mas, segundo o Estadão, o claudicante ministro da Economia, Paulo Guedes, já deu sinais de que não será um obstáculo, desde que o prometido reajuste dos servidores seja cancelado e o fundo de amortização de preços dos combustíveis não seja criado. É provável que o desmoralizado Guedes perca nos três casos.

Poesia | Thiago de Mello: Faz escuro mas eu canto

Faz escuro mas eu canto,
porque a manhã vai chegar.
Vem ver comigo, companheiro,
a cor do mundo mudar.
Vale a pena não dormir para esperar
a cor do mundo mudar.
Já é madrugada,
vem o sol, quero alegria,
que é para esquecer o que eu sofria.
Quem sofre fica acordado
defendendo o coração.
Vamos juntos, multidão,
trabalhar pela alegria,
amanhã é um novo dia.

Música | Elza Soares - Comportamento Geral

 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Fernando Gabeira: Programas de governo, ter ou não ter?

O Estado de S. Paulo.

Programas são importantes porque as ideias sobrevivem como um farol a distância, no meio de uma batalha naval

Começou pela economia, ainda que de forma tímida, um debate sobre o programa de governo para o Brasil. É apenas um momento iluminado, uma vez que as campanhas tendem a adotar um idioma emocional, no qual prevalece um jogo de torcidas.

Alguns analistas acham o programa algo muito secundário, uma vez que pouquíssimas pessoas se decidem confrontando, sistematicamente, ideias dos candidatos. Outros vão mais longe: de que adiantam programas, se os vencedores os esquecem e, às vezes, nem são cobrados por eles?

No entanto, antes que os ânimos se exaltem, é importante discutir os rumos do País. Nem que seja para nos situarmos ou mesmo para deixar em banho-maria algumas saídas que podem ser úteis, em caso de crise futura.

Começar pela economia é mais do que evidente. As ruas mostram gente sofrida e faminta, dados da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que não estamos bem diante de outros países, nosso crescimento é ridículo. Retomar a economia, reduzir o desemprego, combater a fome parecem ser ideias fortes nesta eleição de 2022. Elas dependem para seu êxito de outras variáveis.

Eliane Cantanhêde: Moro e um ‘partidão’

O Estado de S. Paulo.

União Brasil busca um candidato, Moro muda alvo, linguagem e estratégia

Praticamente todos os partidos, grandes, médios e até pequenos, têm candidatos à Presidência em outubro, seja para valer, seja para esquentar a cadeira até o baile de fato começar. Já o União Brasil, fusão de DEM e PSL, não lançou nenhum nome e passa a ser um “partidão” disputado na eleição. Mas nada a ver com o velho partidão, hein!

Com 81 deputados, os 52 do PSL e os 29 do DEM, o União Brasil tem a maior bancada da Câmara e R$ 1 bilhão de fundo eleitoral e partidário. Um dote e tanto para uma noiva indecisa que, neste momento, parece mirar Sérgio Moro, do Podemos.

Em terceiro lugar nas pesquisas, mas sem atingir dois dígitos, Moro é por enquanto candidato a ser a terceira via numa eleição polarizada entre o favorito Lula, do PT, e Jair Bolsonaro, do PL, que tem a vantagem de disputar a reeleição. E Moro fez uma guinada e tanto na campanha, no discurso e no alvo.

Luiz Carlos Azedo: Quem será o adversário principal para Lula? Moro ou Bolsonaro?

Correio Braziliense

Como lidera com folga, um “já ganhou” é inevitável na campanha do petista, principalmente quando sai uma pesquisa na qual poderia levar a disputa de roldão já no primeiro turno

Numa campanha eleitoral, quem está na frente e/ou logo atrás se atacam mutuamente. Isso não define para ambos, porém, quem é realmente o inimigo principal. Na corrida pelo voto, essa equação é um jogo no qual a intuição do candidato, às vezes, vale mais do que as pesquisas eleitorais de ocasião. Por isso, é muito cedo para saber se o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva errou ao chamar de “canalha”, e para a briga, o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, responsável principal por sua condenação na Operação Lava-Jato. Terceiro colocado nas pesquisas, atrás do presidente Jair Bolsonaro, o ex-juiz não deixou por menos e partiu para cima de Lula no Twitter: “Canalha é quem roubou o povo brasileiro durante anos…”

Motivos não faltam para a atitude de Lula: (1) deixou-se levar pelo fígado, afinal passou 580 dias em preso em Curitiba depois de condenado pelo juiz; (2) resolveu confrontar Moro para testar sua reação e sondar a repercussão nas redes sociais; (3) já considera Bolsonaro uma carta fora do baralho e teme que Moro chegue ao segundo turno. Todas as alternativas podem ser verdadeiras.

Ex-assessor de imprensa de Lula, no seu Balaio, o jornalista Ricardo Kotscho tripudia dos que ficam dando palpites sobre a campanha de Lula, dentro da campanha e fora dela, inclusive na mídia: “À medida que se amplia a vantagem de Lula sobre os demais candidatos em todas as pesquisas, sinalizando para uma vitória já no primeiro turno, aumenta o número de assessores voluntários que querem dar palpites no rumo da sua campanha, apontando o que ele deve ou não fazer.”

Entram nesse balaio, segundo Kotscho: “Cientistas políticos tucanos, colunistas lavajatistas, economistas da Faria Lima, da Bolsa de Valores, da PUC, da USP e da Unicamp, dirigentes sem expressão e sem votos do PT, pregadores da Praça da Sé, motoristas de táxi, ex-BBB, comentaristas da GloboNews e até ilustres membros do Centrão e da Academia Brasileira de Letras, parece que todos, aliados e adversários, querem contribuir de alguma forma”.

Rogério Furquim Werneck: Lula, o PT e a economia

O Globo / O Estado de S. Paulo

Falta à candidatura do partido uma narrativa crível e aceitável do que se passou durante o governo Dilma Rousseff

A oito meses da disputa presidencial, pouco se sabe sobre as plataformas dos candidatos. Nas últimas semanas, a cúpula do PT tem dado sinais de inquietação com a necessidade de definir a política econômica que Lula afinal adotará, caso venha a ser eleito presidente. Mas o delineamento do programa econômico de Lula não promete ser fácil.

Para que possam articular um programa claro, crível e coerente, Lula e o PT terão de desenvolver, primeiro, uma narrativa minimamente realista sobre o que de fato ocorreu, ao longo dos mais de 13 anos em que o partido ocupou o Palácio do Planalto. As narrativas sem nenhuma aderência à realidade que têm vindo a público, tanto sobre economia como sobre corrupção, mais parecem castelos de cartas que, no calor da campanha presidencial, não resistiriam a um sopro.

Para Lula, seria bem mais confortável se, no que tange à economia, que sua campanha pudesse se basear somente nos dois mandatos em que ocupou a Presidência. E não faltou, nos últimos meses, quem tentasse insistir em narrativas fantasiosas nessa linha, cantando em prosa e verso o Brasil, de 2003 a 2010, como uma terra em que corriam rios de leite e mel.

Aos poucos, contudo, a cúpula do partido parece ter percebido que não havia como encerrar a narrativa sobre os governos petistas em 2010, deixando de fora o desastroso mandato e meio de Dilma Rousseff. É mais do que sabido que a ideia de alçar Dilma à Presidência foi um projeto exclusivo e pessoal de Lula que, face à tenaz oposição do PT, teve de ser enfiado pela goela abaixo do partido.

Thiago Bronzatto: O Centrão e a alma do negócio

O Globo

Em dezembro passado, dois caciques do Centrão tomavam um café na sede do PL, em Brasília. O assunto principal era o cenário eleitoral em 2022. Papo vai, papo vem, Valdemar Costa Neto, mandachuva da legenda, fez uma sugestão ao deputado Ricardo Barros, líder do governo na Câmara: tentar convencer Jair Bolsonaro a tomar a vacina. O parlamentar do PP, ex-ministro da Saúde, concordou e ainda disse que o presidente deveria moderar o discurso contra as medidas de isolamento social adotadas por governadores e prefeitos na pandemia.

Um mês depois, o ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, fez a mesma constatação. O presidente licenciado do PP disse a um confidente que a resistência de Bolsonaro à vacina contra a Covid-19 tem influenciado sua rejeição nas pesquisas eleitorais, a maior entre os presidenciáveis. Hoje, quase 70% dos brasileiros estão imunizados. Segundo o Datafolha, a maioria da população acha que Bolsonaro atrapalha a vacinação infantil. No início do ano, em mais um de seus desatinos, o presidente disse desconhecer mortes de crianças por coronavírus. A realidade mostra que, a cada dois dias, a Covid-19 ceifou a vida de um brasileiro de 5 a 11 anos.

Bernardo Mello Franco: Lula e os rebeldes

O Globo

No início do primeiro mandato, Lula repreendeu os petistas que criticavam sua reforma da Previdência. “Reconheço o direito dos companheiros a falar as bobagens que quiserem. Mas, quando a decisão é tomada pela maioria, todos têm que cumprir”, avisou.

O embate terminou com a expulsão de quatro parlamentares que votaram contra a orientação partidária. Dezenove anos depois, o ex-presidente volta a enquadrar os rebeldes do PT. Desta vez, o motivo é a resistência à aliança com Geraldo Alckmin.

Um manifesto da esquerda petista critica a negociação de Lula com “forças reacionárias”. O texto chama o ex-tucano de “neoliberal” e “golpista”, lembrando seu apoio ao impeachment de Dilma Rousseff. “Alckmin tem uma longa trajetória de combate às posições nacionais, democráticas, populares e desenvolvimentistas”, diz o documento. Entre os signatários, há dois ex-presidentes do PT: José Genoino e Rui Falcão.

Os rebeldes têm seus motivos. Antes de Lula chegar ao Planalto, eles já se esgoelavam contra os governos de Alckmin em São Paulo. Opunham-se à truculência policial, ao fechamento de escolas, ao arrocho no funcionalismo.

Os petistas ainda são assombrados por um trauma recente. Dilma se elegeu com um vice conservador. Quando sua popularidade despencou, ele passou a conspirar para derrubá-la. A militância quer garantias de que Alckmin não será outro Michel Temer. Mas não há seguro-fidelidade na política: resta acreditar ou não no ex-rival.

Cristian Klein: PT, PSB e a árvore que cresce de cima a baixo

Valor Econômico

Reunião entre siglas tirou o bode na sala colocado por Lula

Para além da sinalização ao eleitorado e a setores conservadores, como o mercado, na disputa ao Planalto, a atração do ex-governador Geraldo Alckmin (sem partido) para ser vice na chapa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já teve o primeiro resultado. A aproximação com o ex-tucano, que vinha liderando as pesquisas para voltar ao Palácio dos Bandeirantes, aplaina o terreno para o segundo maior objetivo do PT nas eleições deste ano: ganhar pela primeira vez o governo de São Paulo.

A candidatura do ex-prefeito Fernando Haddad, como deixou claro Lula, novamente, em entrevista na quarta-feira, é uma prioridade. Com Haddad liderando, sem Alckmin na jogada, mais um motivo para o partido redobrar a aposta na queda de braço da negociação com o PSB: remover o segundo obstáculo, a pré-candidatura do ex-governador Márcio França.

A reunião de ontem entre as cúpulas petista e pessebista foi menos tensa que a de um mês atrás. Em 20 de dezembro, Lula pôs o bode na sala ao lembrar que o PT tinha acabado de lançar o senador Humberto Costa como pré-candidato a governador em Pernambuco. Trata-se do Estado que é o coração do PSB, desde os tempos de Miguel Arraes e de seu herdeiro, Eduardo Campos, morto em acidente aéreo durante a campanha à Presidência de 2014.

José de Souza Martins*: A reforma trabalhista e as eleições

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Lula não se propõe a revogar a reforma, como se depreende de tudo que tem sido publicado a respeito. Ele se propõe a revê-la, o que é muito diferente

Em artigo publicado na “Folha de S. Paulo”, o ex-presidente Michel Temer questiona a inclusão do tema de sua reforma trabalhista, de 2017, na pauta da campanha eleitoral de 2022. Inútil, porque esse será um tema obrigatório das oposições, o que forçará a direita a se explicar e a defender o talvez indefensável. O endereço da crítica é Lula e os partidos sociais.

Lula é um reconhecido especialista no tema da negociação nas relações de trabalho. Ele nasceu como nova liderança dos trabalhadores dos setores mais modernos de nossa indústria, críticos do peleguismo herdado do Estado Novo, desafiados pela visão do problema que tinha o capitalismo multinacionalizado dos anos 1970.

Tornou-se expressão do novo sindicalismo, liberto da tutela do Ministério do Trabalho. Lula conseguiu desenvolver uma estratégia de reivindicações laborais junto às empresas, que o preferiam à interferência do governo na definição de salários porque ele sabia o que era o trabalho e o valorizava. Sua estratégia foi também agregadora dos trabalhadores dos setores residuais da produção, com menos força negocial. Se alguém atuou para a modernização política das relações de trabalho no Brasil, foi Lula.

Naercio Menezes Filho*: Auxílio Brasil, pobreza e eleições

Valor Econômico

Auxílio de R$ 400 deverá diminuir a indigência com relação ao período antes da pandemia, mas não a pobreza, que deverá ser um pouco maior

O Auxílio Brasil foi aprovado pelo Congresso no final do ano passado. No início deste ano foi aprovada também a medida provisória fixando o valor mínimo da transferência em R$ 400 até o final de 2022.

Quais serão os efeitos do auxílio de R$ 400 sobre a indigência e a pobreza? Qual deveria ser o valor das transferências e a linha de pobreza para que um programa social tivesse o maior retorno possível para a sociedade? Será que o valor de R$ 400 aumentará as chances de reeleição de Bolsonaro?

A tabela abaixo apresenta algumas simulações sobre o que pode ocorrer com a pobreza e a indigência com o novo Auxílio Brasil, usando os dados da Pnad-Covid de novembro de 2020, a última com dados oficiais sobre a renda familiar dos brasileiros. Também comparamos a situação dos brasileiros com o novo auxílio com a que de fato ocorreu antes e durante a pandemia

Antes de apresentarmos os resultados, é importante distinguir entre a indigência (também chamada de pobreza extrema) e a pobreza. Indigência significa que a família não tem recursos nem mesmo para consumir as calorias necessárias para sua sobrevivência com saúde, ao passo que pobreza significa que ela não tem recursos para comprar as roupas, remédios, transporte e moradia necessários para uma vida minimamente decente.

Vinicius Torres Freire: Bolsonaro quer tumultuar combustíveis

Folha de S. Paulo

Ideia de zerar imposto é demagogia descarada ou tentativa de se fazer de vítima

Vamos supor que o Congresso aprove o mais recente capricho demagógico de Jair Bolsonaro e acabe com os impostos federais sobre a venda de combustíveis. Na melhor das hipóteses e "tudo mais constante", o preço da gasolina poderia cair uns 40 centavos. Dificilmente "tudo mais" vai ficar constante.

O preço pode ficar até mais salgado. Pode ser até que Bolsonaro ganhe uns pontinhos políticos sendo derrotado. Para alguns, talvez ficasse a imagem da vítima do sistema: "Não deixam o homem trabalhar".

Se o preço do barril do petróleo chegar à casa dos US$ 100 (está a US$ 88), os combustíveis ficarão ainda mais caros do que agora, mesmo sem imposto federal.

Não se sabe para o onde vai o dólar, que também define o preço de gasolina, diesel etc. Não se sabe quanto da redução de tributos vai desaparecer porque pode ser apropriada por empresas, sendo absorvida pelas margens das firmas envolvidas na cadeia de combustíveis.

Reinaldo Azevedo: Esquerda do PT fortalece Lula moderado

Folha de S. Paulo

Reaças não sabem nada sobre mal menor, mas têm tradição firmada no mal maior

Correntes do PT avessas a uma chapa Lula-Alckmin e potenciais aliados à esquerda cumprem o seu papel: criticam a eventual aliança, apontam as contradições tidas por inelutáveis, ressuscitam momentos em que os dois políticos estiveram em trincheiras opostas —inclusive na eleição de 2006— e pintam a composição com as tintas de uma conciliação inaceitável. A coisa chega a ter um lado pitoresco.

Ao longo da história, os setores mais à esquerda do partido sempre prestaram um serviço ao líder: cobraram dele a radicalização, de modo a lhe dar a oportunidade de fazer a escolha pela moderação. Não chega a ser um jogo combinado. Trata-se de acordos —ou desacordos— tácitos. Assim, a resistência ao ex-tucano não é um problema, mas um dado do jogo.

Alckmin será o vice de Lula? Não sei. Mas ou haverá esse sinal de que o ex-presidente pretende, se vitorioso, um governo além das fronteiras da esquerda, ou outro se fará necessário. O compromisso —que, parece-me, é público— já está anunciado. E, é evidente, pensando o que penso, avalio que um governo o mais amplo possível é uma solução, não um problema.

Bruno Boghossian: Briga pelo poder no bolsonaristão

Folha de S. Paulo

Não há espaço nas urnas em outubro para tantas facções de aliados do presidente

Abraham Weintraub, Ernesto Araújo e Ricardo Salles só ganharam cargos no governo porque eram peças políticas úteis para Jair Bolsonaro. O trio exerceu, com insensatez singular, o coronelato da guerra cultural lançada pelo presidente para sufocar adversários e ampliar seu poder.

Os três foram derrubados porque se tornaram ameaças a esse mesmo poder. A demissão de Weintraub foi uma oferta para acalmar o STF em investigações contra o grupo de Bolsonaro. Ernesto teve que ser removido para conter a antidiplomacia que causava prejuízos ao país, e Salles foi eliminado para abafar suspeitas de corrupção que cercavam o governo.

Hélio Schwartsman: Consensos devem ser questionados

Folha de S. Paulo

Ideia de que negros são inferiores já fizeram parte dos consensos sociais

Um desafio para qualquer sociedade que pretenda perdurar é encontrar o balanço entre mudança e estabilidade, entre a saudável contestação e o necessário consenso. A liberdade de expressão é a chave para isso. É ela que permite que as pessoas vão experimentando com ideias, isto é, que as coloquem sob escrutínio público para ver se de seu entrechoque afloram novos pontos de equilíbrio.

Sempre preciso, o colega Sérgio Rodrigues captura bem a origem do mal-estar provocado pelo texto de Antonio Risério: "Não é de hoje que me incomoda a postura sensacionalista de fabricar polêmicas contra consensos progressistas". Se seu objetivo, leitor, é vencer uma batalha cultural e tornar a recém-conquistada posição inexpugnável, deve mesmo gritar contra Risério.

Se seu compromisso —e nisso divirjo de Rodrigues— é com a transformação social de forma mais geral, então deve desejar que consensos em torno de ideias e valores sejam questionados com frequência.

O que pensa a mídia: Editoriais /Opiniões

EDITORIAIS

Comportamento do Telegram é um deboche das leis

O Globo

O aplicativo de mensagens Telegram traz um desafio para as autoridades eleitorais no combate à desinformação. Criado por russos, gerido por uma empresa com sede em Dubai, ele não impõe limite ao envio de mensagens, não tem políticas de moderação dignas do nome, nem representação jurídica ou endereço no Brasil. Pior: não se dá ao trabalho nem de responder às tentativas de notificação feitas pela Justiça Eleitoral brasileira desde 2018. Presente em 53% dos celulares brasileiros, o Telegram se comporta como se estivesse acima das leis. É um deboche.

Está, portanto, certo o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), quando levanta a possibilidade de suspensão ou proibição do uso do aplicativo no país. Se é verdade que isso representa uma restrição à liberdade dos usuários, vários outros aplicativos podem cumprir a mesma função, sobretudo o popular WhatsApp. E qualquer outro caminho poderia se revelar irresponsável. Corresponderia a dar sinal verde para que a desinformação influencie sem limite a campanha presidencial deste ano. Seria inaceitável.

Após o desastre das eleições de 2018, quando fake news foram compartilhadas sem controle e influenciaram milhões de eleitores, o TSE passou a dar mais atenção aos aplicativos de mensagens. O WhatsApp, o mais popular, mantém contato com as autoridades eleitorais e, nem sempre de forma satisfatória, tem ao menos procurado seguir as diretrizes cujo objetivo é limitar o uso dos aplicativos para a disseminação de conteúdos em massa e a desinformação.

Poesia | Carlos Pena Filho: A solidão e o seu desgaste

Frequentador da solidão, às vezes
Jogava ao ar um desespero ou outro,
Mas guardava os menores objetos
Onde a vida morava e o amor nascia.

Era uma carga enorme e sem sentido,
Um silêncio magoado e impermeável…
A solidão povoada de instrumentos,
Roubando espaço à andeja liberdade.

Mas, hoje, é outro que nem lembra aquele
Passeia pelos campos e os despreza
E porque sabe com certeza clara,

O princípio e o fim da coisa amada,
Guarda pouco da vida e o que retém
É só pelo impossível de eximir-se.

Flávia Oliveira: No país, ninguém como Elza

O Globo

Foi Exu o encarregado de andar de aldeia em aldeia para ouvir do povo todas as vivências possíveis. Ventura e drama. Vitória e derrota. Justiça e vilania. Saúde e doença. Vida e morte. Essas histórias foram dar nos relatos primordiais que se repetem na vida humana e se revelam na leitura oracular. “Para os iorubás antigos, nada é novidade, tudo o que acontece já teria acontecido antes”, escreveu Reginaldo Prandi em “Mitologia dos orixás”. Elza Soares foi a mulher brasileira que experimentou —e cantou — dissabores e delícias, todos eles. No país, ninguém como ela. Impossível imaginá-la ausente.

Elza partiu súbita e serenamente como cabe aos merecedores. Teve existência completa. Amou e sofreu e pariu e enterrou e bateu e apanhou e brigou e aproveitou e riu e chorou e ganhou e gastou e cresceu e envelheceu. Morreu aos 91 anos, 70 de carreira, na métrica temporal que pactuamos, porque nem a vida nem a obra de Elza cabem nesses intervalos. Ela própria nunca tratou da idade, definia-se atemporal. Tinha consciência de que sempre existiu, porque tudo o que passou não dá conta de uma encarnação. Elza Soares, Exu que é, pertence ao ontem, ao hoje, ao amanhã.

Foi içada a voz do milênio, no singular, mas era plural. Será lembrada por se fazer ecoar por dois milênios. Abriu caminho no século XX; atualíssima, adentrou o XXI. Menina ainda, avisou a Ary Barroso que vinha do Planeta Fome, o mesmo de Carolina Maria de Jesus em “Quarto de despejo” (1960) e de 19 milhões de brasileiros nestes tempos de pandemia e crises. Elza Soares da Conceição saiu da Vila Vintém, foi ungida em Água Santa, conquistou o Brasil. Foi amada, renegada e, por fim, idolatrada.

Música | Elza Soares e Moacyr Luz cantando "Nação"

 

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

William Waack: Flagelo convergente

O Estado de S. Paulo.

Os dois líderes das pesquisas não convencem em como tirar o Brasil da estagnação

Os seguidores de Lula e os de Bolsonaro detestam que seus respectivos chefes sejam comparados entre si. Sim, são gritantes as diferenças, mas ambos convergem em ponto crucial. Os líderes das pesquisas não apresentaram até aqui um conjunto de ideias coordenado de como tirar o País da estagnação.

Cada um ajudou a aprofundar aquilo que o professor e economista da FGV Fernando de Holanda Barbosa deu o título em recente publicação de “flagelo da economia de privilégios”. Os privilegiados, segundo o autor, são empresários obtendo subsídios, tratamento fiscal diferenciado, conjuntos de trabalhadores com tratamentos especiais, funcionários dos três Poderes com salários acima do setor privado, além de aposentadorias e pensões também especiais.

O “conflito social” entre enormes grupos de privilegiados e o resto produz as cíclicas crises fiscais das quais a atual está longe ainda de ter sido debelada. E ela precisa ser resolvida logo, sob o risco de tirar qualquer perspectiva de futuro para o País.

Luiz Carlos Azedo: Consolidação de Tebet pode sangrar candidatura de Doria

Correio Braziliense

A senadora do MDB desconversa quanto às articulações com os dissidentes do PSDB, mas participou de uma reunião com os senadores José Aníbal (SP) e Tasso Jereissati (CE), além de Michel Temer (MDB)

Não está fácil a vida do governador João Doria, pré-candidato do PSDB a presidente da República. Ontem, a Executiva do Cidadania, reunida com representantes de 24 diretórios regionais, por 17 a 3 decidiu ampliar os entendimentos para a formação de uma federação partidária e montou uma comissão para conversar também com o Podemos, o MDB e o PDT. Há resistências à candidatura de Doria no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, no Paraná, na Bahia, na Paraíba, no Distrito Federal, em Goiás, no Pará e no Amapá, estados que admitem até não coligar e disputar as eleições com chapa própria. Simpático à aliança com Doria, o presidente do Cidadania, Roberto Freire, líder histórico da legenda, defende a federação com os tucanos na perspectiva de um projeto futuro de fusão, que seria um reencontro social-democrata. Pré-candidato à Presidência, o senador Alessandro Vieira (SE) foi escolhido para coordenar as conversas da comissão com as demais legendas.

Enquanto a federação com o Cidadania está no telhado, Doria enfrenta uma articulação dos dissidentes do PSDB com a candidata do MDB, Simone Tebet (MS). Para o senador Tasso Jereissati (CE), a emedebista pode surpreender na campanha. Tebet também conta com o apoio do senador José Aníbal (SP), outro adversário de Doria que trabalha para que os aliados do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite — que disputou com Doria e perdeu as prévias do PSDB —, venham a se engajar na candidatura de Tebet. Embora Doria tenha 2% de intenções de votos e Simone, 1%, as pesquisas de opinião mostram uma rejeição muito mais alta ao governador de São Paulo: enquanto a senadora tem 5%, o tucano registra 23%.

Maria Hermínia Tavares*: O passado do país se foi de vez

Folha de S. Paulo

Mesmo sem Bolsonaro o extremismo antidemocrático continuará atuante

É possível derrotar Bolsonaro nas urnas e virar esta página infame da história brasileira. Mais: é provável que isso venha a acontecer em outubro que vem, embora o caminho até lá seja tudo menos tranquilo, mesmo para quem, como o desafiante Lula, desfruta de folgada dianteira nas pesquisas.

Afirmar que a derrota espreita o ex-capitão não significa ignorar que ele fará o que puder "dentro das quatro linhas constitucionais", se bastar, e além delas, se necessário, para tumultuar o processo eleitoral e desqualificar os resultados caso lhe sejam adversos a fim de continuar no Planalto a qualquer preço, tratorando as instituições democráticas.

Além disso, mesmo que o império das leis e a força dos fatos o obriguem a passar a faixa ao sucessor, continuará existindo espaço político para a extrema direita, sob sua liderança ou de outro político do gênero.

Vinicius Torres Freira: PT contra Alckmin e mudanças reais

Folha de S. Paulo

Partido tem seus motivos políticos, mas dá sinal também de que não quer mudar

Petistas eram de Marte, e tucanos eram de Vênus. Parecia distância astronômica das maiores quando se dava de barato que a democracia não iria para o vinagre.

Depois de 2013, o caldo azedou até o ponto de se descobrir que, na lonjura dos infernos de Plutão, mora a extrema direita.

Inventar coalizões que tentem preservar a democracia a partir de 2023 é o mínimo que se espera dos candidatos do universo da razão e da decência elementares.

Um caso pode ser o da aliança do PT com Geraldo Alckmin e partidos e quadros que o ex-tucano possa atrais para a órbita de Lula da Silva. Mas, como é cada vez mais gritante, Alckmin desce quadrado, se desce, para muito petista e boa parte da esquerda.

Primeiro trata-se de uma disputa de poder: o PT não quer que gente de fora vá bicar um governo que, imagina, vai receber de bandeja em outubro; não seria preciso dar lugar para a direita (fora o centrão que receberá cargos caso Lula vença). Mesmo que a maioria dos petistas vá parar de tossir e mugir quando Lula bater o martelo, a ideia é vender caro a insatisfação.

Bruno Boghossian: A peneira eleitoral vem aí

Folha de S. Paulo

Fusões, desistências e sabotagens dos próximos meses vão determinar verdadeiros concorrentes

Nos próximos meses, a peneira eleitoral vai começar a determinar os verdadeiros candidatos da próxima corrida ao Palácio do Planalto. Pouca coisa deve mudar nesse período no cenário desenhado pelas pesquisas de intenção de voto, mas fusões, desistências e sabotagens tendem a reduzir o rol de concorrentes de 2022.

Dois times podem ficar pelo caminho. O primeiro conta com nomes que têm planos sólidos de campanha, mas se verão com poucas chances de sucesso ou serão abatidos por suas próprias legendas. A outra classe é daqueles que só entraram no jogo para ganhar projeção e acumular poder na negociação de alianças com outros candidatos.

Ruy Castro: Maracugina para Queiroga

Folha de S. Paulo

O ex-médico está irritado. Mas seu problema é com os números, que ele erra por milhares ou milhões

Marcelo Queiroga, ex-médico e atual porta-voz do presidente e ministro da Saúde Jair Bolsonaro, está muito irritadinho no cargo. A qualquer pergunta descontrola-se, faz má-criação ou abandona a entrevista. Em setembro de 2021, em Nova York, quando ajudou a carregar as malas de Bolsonaro na visita deste à ONU para um esquete humorístico, Queiroga estomagou-se com um protesto e mostrou o dedo para as câmeras. Era caso de Maracugina na veia.

Disse há tempos que espera "um bom julgamento da história". Tarde demais. Seu antecessor Eduardo Pazuello entregou-lhe o país com 11,5 milhões de casos de Covid e 280 mil mortos. Queiroga já elevou esses números para, até agora, 23 milhões de casos e 620 mil mortos. Números, aliás, são um problema para ele. Sempre que tem de citar algum, embarafusta-se com os zeros e erra por milhares ou milhões.

Roberto Macedo*: Emendas parlamentares, aqui e nos EUA

O Estado de S. Paulo.

No Brasil, o dinheiro das emendas é pulverizado em pequenos projetos nas bases eleitorais dos congressistas

Minha indisposição quanto a essas emendas é antiga. Meu primeiro artigo aqui sobre o assunto foi em 7/7/2011(!), intitulado Porcas emendas parlamentares, inspirado pela forma com que o assunto é encarado nos EUA, onde permanece como problema, ainda que não tão sério como no Brasil. Hoje vou comparar com mais detalhes as emendas nos dois países.

Lá, verbas desse tipo têm via metáfora uma conotação pejorativa, e é comum chamálas de pork barrel. Consultando dicionário de inglês, vi que se trata da “apropriação legislativa destinada a prestigiar legisladores diante de seus constituintes”. Mas pork é carne de porco, e barrel é barril, lembrando tempos antigos quando a carne cozida era guardada em barricas com banha de porco. Eram mesmo uma porcaria, com seu conteúdo gorduroso, pegajoso e sanitariamente vulnerável.

Adriana Fernandes: Bônus, ‘pra que te quero?'

O Estado de S. Paulo

Os protestos de terça-feira serviram de teste para o governo medir o poder de articulação dos servidores

Bolsonaro não desistiu de dar o reajuste para as três carreiras policiais do governo federal. Pelo contrário. Em ano de eleições, ele apenas deixa o barco correr com o discurso de que pode recuar do aumento na certeza de esfriamento do movimento das outras categorias, que buscam também o aumento nos seus salários depois do congelamento em 2020 e 2021. 

dia de mobilização de mais 40 categorias em todo o País na última terça-feira acabou servindo de teste para o governo medir a temperatura do poder de articulação dos servidores. Os serviços públicos não pararam na dimensão que alardearam, e os servidores da Receita, que tinham puxado o movimento, ficaram de fora dos atos programados em todo o País. 

Alvaro Gribel: Lula, o mercado e o teto de gastos

O Globo

Ex-presidente reafirmou que quer Alckmin como vice e disse que pretende buscar alianças até com a centro-direita. Isso era tudo que a Faria Lima queria ouvir. 

A entrevista do ex-presidente Lula a jornalistas que o apoiam foi acompanhada com atenção por investidores do mercado financeiro. Na medida em que as principais falas de Lula apareciam em destaque nas telas dos operadores da bolsa, a moeda brasileira ia ampliando os ganhos sobre o dólar. Se por um lado Lula falou mal do mercado e disse que a política fiscal no seu governo estará em segundo plano, por outro, reafirmou que quer Alckmin como vice e que pretende buscar alianças até com a centro-direita para voltar à Presidência. Isso era tudo que a Faria Lima queria ouvir.

“O candidato que saiu na frente (das pesquisas) está rumando para o centro. É isso que os investidores querem”, sintetizou o economista Roberto Motta, da Genial Investimentos, em uma live voltada para investidores pessoa física, para logo em seguida ser chamado de comunista por apoiadores de Bolsonaro. Motta explicou que não fazia juízo de valor sobre o candidato petista, apenas que, pela interpretação do mercado, Lula aproveitou que falava a jornalistas de esquerda para se afastar das alas mais radicais do partido. “Lula estava em ambiente hostil para dar declarações que surpreenderam o mercado”, completou o economista.

Cristiano Romero*: Os três consensos que estabilizaram o Brasil

Valor Econômico

Dilma rompeu com dois dos três acordos que FHC e Lula seguiram

Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), os dois primeiros presidentes da era pós-estabilização da economia, governaram o país durante 16 anos, amparados por uma espécie de três consenso: social, econômica e política. Respectivamente, o primeiro consenso, consagrado na Constituição de 1988, diz respeito à necessidade de o país, depois de um longo regime de exceção, dar prioridade ao chamado resgate da dívida social; o segundo, rever o modelo econômico predominante desde meados da década de 1970; e o terceiro, dadas as desigualdades sociais, econômicas e culturais que caracterizam o país desde sempre, governar por meio de alianças que assegurem sua estabilidade política, historicamente, ameaçada por movimentos antidemocráticos.

Deu-se ainda no governo Sarney (1985-1990), após três tentativas fracassadas de estabilização econômica (os planos Cruzado, em 1986, Bresser, 1987, e Verão, em 1989), a criação do novo consenso econômico. O modelo econômico vigente no país desde a ditadura militar precisava mudar. O modelo anterior, de substituição de importações, baseava-se numa economia fechada e fortemente dependente da atuação do Estado. Este não era apenas regulador das atividades econômicas, mas também o principal empresário.

Com a crise da dívida, em 1982, o Brasil quebrou e, por isso, não foi mais possível sustentar o Estado-empresário. O que se viu nos anos seguintes foi o sucateamento contínuo das estatais e da infraestrutura. Isso ocorreu não por razões ideológicas, mas por escassez de recursos públicos para investimento. O modelo anterior faliu. Uma das razões do fracasso dos planos de estabilização era o fato de a economia ainda viver sob a égide do modelo fracassado.

Com os preços internos congelados, o forte aumento da renda real provocado pela queda súbita da inflação durante o Plano Cruzado estimulou o consumo. A oferta, por sua vez, não conseguiu atender à explosão da demanda. Como a economia era fechada, não havia produto importado para ampliar a oferta, concorrer com o nacional e segurar os preços. Além disso, as dívidas interna e externa herdadas da ditadura forjaram situação fiscal insustentável, cujo enfrentamento dependia, ironicamente, da inflação nas alturas, fenômeno que corroía o valor das despesas públicas Ainda no governo Sarney, iniciou-se movimento de saída daquele modelo. A gênese do programa de privatizações surgiu ali, bem como o desmonte do Estado-empresário.

Claudia Antunes*: Será Boric um novo Obama?


O Globo

O fascínio provocado por Gabriel Boric, o presidente eleito do Chile, evoca o impacto do frescor de Barack Obama na primeira campanha à Presidência, em 2008. Ambos passaram de movimentos sociais ao Legislativo, mas sem ter adquirido, no momento em que concorreram, ares de raposa política. Obama emergiu no pós-Guerra Fria; Boric, na democracia, questionando as certezas da velha esquerda. Sua conta no Twitter é encimada por uma citação de Albert Camus: “A dúvida deve seguir a convicção como uma sombra”.

O americano disputou as primárias democratas com uma mobilização em que recebeu milhares de pequenas doações. Boric venceu as primárias do seu campo, derrotando o pré-candidato comunista, depois do movimento maciço que pôs em xeque o modelo socioeconômico chileno. Apoiou os protestos, mas teve embates com ativistas que recusavam o diálogo com os políticos.

A despeito do slogan de campanha — “Sim, nós podemos” —, Obama pôde pouco. No discurso de posse, convocou à unidade, sem levar em conta que a oposição republicana já estava tomada por uma vertente reacionária que negava qualquer conciliação e viria a assombrar o governo do primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

Tendo assumido depois da crise financeira gerada por mercados desregulados, Obama trouxe para si os economistas que acompanhavam os democratas desde Bill Clinton. À base de estímulos, a economia cresceu, mas a desigualdade ficou intacta. Seu projeto para ampliar o acesso à saúde ficou longe de um sistema universal. Na política externa, dizia que “os Estados Unidos devem liderar pelo exemplo”, mas manteve a essência da “guerra ao terror” de George W. Bush. Para lhe fazer justiça, já no segundo mandato, quando os republicanos haviam reconquistado o controle do Congresso, bloqueando qualquer avanço interno, restabeleceu relações com Cuba e negociou o acordo nuclear com o Irã.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

É um acinte pacote de bondades de Aras a procuradores

O Globo

Num momento em que a elite do funcionalismo pressiona de modo oportunista por reajustes salariais no ano eleitoral, é um escândalo inaceitável a revelação, feita ontem pelo jornal O Estado de S.Paulo, de quanto ganharam os procuradores mais privilegiados do Brasil no final do ano passado. Em virtude de duas decisões tomadas pelo procurador-geral Augusto Aras, 720 dos 1.145 integrantes do Ministério Público Federal receberam mais de R$ 100 mil em dezembro. Dezoito deles, mais de R$ 400 mil. Um embolsou R$ 471 mil, valor superior ao bônus de diretores de grandes empresas como a Petrobras.

Que fizeram os excelentíssimos procuradores para ter direito à regalia? Nada. Apenas receberam de Aras autorização para solicitar licenças-prêmios acumuladas ao longo de anos, antecipação das férias de 2022 e outras regalias. Isso num momento de crise sem precedentes, em que todo o país precisa se esforçar para promover um ajuste fiscal que consiga trazer o Estado para um tamanho compatível com o que a sociedade pode financiar.

Poesia | Ascenso Ferreira: Sucessão de São Pedro

— Seu vigário!

     Está aqui esta galinha gorda

     que eu trouxe pro mártir São Sebastião!

     — Está falando com ele!

     — Está falando com ele!

Música | Maria Rita - Encontros e Despedidas