Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
terça-feira, 28 de maio de 2024
Cláudio Carraly* - O Orgulho da ignorância na sociedade contemporânea
Carlos Andreazza -Corregedor-universal do jornalismo
O Estado de S. Paulo
Nota intimidadora do ministro, que não gostou
de reportagem sobre o TSE, veio após STF declarar inconstitucional o assédio
judicial a jornalistas
Alexandre de Moraes, gestor de inquéritos onipresentes e
infinitos, também, claro, corregedor-universal do jornalismo, enviou nota ao
UOL para lhe acusar de ser falsa uma reportagem. Não indica quais seriam as
mentiras. Não precisa.
Trata-se de um de nossos salvadores. Pode
tudo – os colegas togados, formalmente, e nós mesmos, imprensa, o legitimaram.
Vige sobre este 8 de janeiro permanente. Líder do estado
de vigília contra o golpe. Donde crava: “fake news e notícias fraudulentas não
ficam restritas apenas às redes sociais”. Não está errado.
O que crava sendo o mesmo que tem cravado o
que será fake news e notícias fraudulentas.
Em defesa sempre da democracia, autorizado, pois, à aplicação de autoritarismos, escreveu: “Sob o manto do sigilo de fonte, a jornalista inventou fatos e versões”.
Hélio Schwartsman - O calor cozinha nossos miolos?
Folha de S. Paulo
Estudos mostram que aumento da temperatura
piora performance cognitiva, e isso é fonte de desigualdades
O clima tropical "amoleceu" os
brasileiros, como sugeriu Albert
Einstein em seus politicamente incorretos diários de
viagem? O pai da Teoria da
Relatividade foi aqui um gênio presciente ou apenas
preconceituoso?
A viagem de Einstein à América do Sul ocorreu em 1925. À época não havia estudos rigorosos que pudessem amparar suas observações sobre os efeitos do clima na inteligência, de modo que o físico alemão apenas ecoava o determinismo geográfico de tons racistas que era moeda corrente à época.
Dora Kramer - Faz de conta
Folha de S. Paulo
Na chamada pré-campanha, políticos e Justiça
vivem na ilegalidade consentida
Paulo
Vanzolini conta em um de seus memoráveis sambas que, na praça
Clóvis paulistana (posta abaixo nos idos dos anos 1970 para dar passagem ao
metrô), um dia a carteira dele foi batida. "Tinha 25 cruzeiros e o teu
retrato", relata. E, em mágoa de amor, conclui: "25, francamente
achei barato pra me livrar do meu atraso de vida".
É o que ocorre com os infratores da regra da chamada pré-campanha eleitoral, cuja penalidade máxima é uma multa de R$ 25 mil para quem pedir votos para si ou para apadrinhados. Sai quase de graça a infração para quem deseja se livrar do atraso de vida que a lei impõe no período antecedente ao início oficial da corrida eleitoral, neste ano marcada para 16 de agosto.
Alvaro Costa e Silva - O negócio dos clãs
Folha de S. Paulo
Ambos construíram um patrimônio financeiro
com a compra de imóveis e a ajuda de milicianos
Em seu livro "O Negócio do Jair", Juliana Dal Piva mostra como Bolsonaro usou a política —nomeação de funcionários-fantasmas, apropriação de seus salários e avanço sem freios em recursos públicos— para construir um patrimônio financeiro que lhe permitiu a compra, em dinheiro vivo, de pelo menos 151 imóveis. O esquema de corrupção, capitaneado pelo ex-presidente desde os tempos em que se elegeu vereador "contra o sistema", envolveu centenas de pessoas: os filhos, a ex-primeira-dama, ex-mulheres, parentes, amigos e os imprescindíveis milicianos. Quando Juliana publicou sua reportagem, em 2022, o escândalo das joias árabes e do esconderijo de presentes ainda não havia sido revelado.
Joel Pinheiro da Fonseca – A universidade é de esquerda?
Folha de S. Paulo
Instituições falham em se comunicar com
população e mostrar sua relevância
Um dos sintomas mais miseráveis da polarização que vivemos é a tentativa, por parte de ambos os lados dela, de empurrar quem não está 100% com eles para o lado contrário da disputa política. Este é o ponto em que a adesão política passa a funcionar como uma religião exclusivista. Não é mais uma proposta de transformação do mundo, que precisa buscar novos defensores para que seja implementada na democracia, e sim uma maneira do indivíduo se sentir moralmente superior, levando-o, portanto, a excluir de seu círculo quem não pertence ao grupo dos puros.
segunda-feira, 27 de maio de 2024
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Analfabetismo em queda abre novas perspectivas ao país
O Globo
Apesar do avanço mais lento que o desejável,
Brasil tem obtido êxito no combate à chaga secular
O analfabetismo, que há séculos envergonha o
Brasil, tem sido enfrentado com êxito, revelam dados do Censo de
2022. Em relação a
2010, a parcela de analfabetos na população com mais de 15 anos caiu 2,6 pontos
percentuais, de 9,6% para 7%. É verdade que, em números
absolutos, ainda há 11,4 milhões de brasileiros que não sabem ler nem escrever.
Mas a situação já foi bem pior — e tem melhorado.
“Em 1930, apenas 21% dos brasileiros estavam alfabetizados, enquanto na Argentina esse número já era 63%”, diz Claudia Costin, ex-diretora global de educação do Banco Mundial. Em 1940, menos da metade da população era alfabetizada. Apenas depois da redemocratização, a educação passou a ser encarada com a devida importância, e a partir daí o progresso tem sido contínuo, ainda que mais lento que o desejável. Para Costin, o Brasil ainda paga um preço alto pela demora em universalizar o acesso à educação primária.
Fernando Gabeira - La Niña, a garota que vem do mar
O Globo
Se há algo que pode nos unir para além das
divergências políticas, é a sobrevivência diante do caos climático
Preciso avisar com ligeira antecedência, mas
ela deve chegar a partir de julho. La Niña vem para derrubar momentaneamente o
domínio patriarcal de El Niño.
Ambos são filhos dos ventos alísios que
sopram com constância, mas às vezes são mais lentos ou mais rápidos. Quando são
lentos, não conseguem levar as águas quentes para o lado asiático do Oceano
Pacífico. Quando são mais rápidos, acabam esfriando a costa peruana.
Os pescadores peruanos chamam o primeiro fenômeno de El Niño porque aparece por volta do Natal. La Niña chega aqui entre julho e setembro e, às vezes, dura dois anos. Por que essa preocupação com avisar? Na verdade, é um hábito antigo.
Preto Zezé - Desradicalizar é necessário
O Globo
Precisamos encontrar um lugar na política
onde todos possam ser ouvidos, fazer um pacto com informações baseadas em
evidências e fatos
O cenário social e político brasileiro está
radicalizado, com disputas nas ruas e nas redes sociais entre narrativas que
refletem conveniências políticas e ideológicas. No meio disso, existe uma crise
social sem precedentes, herança de uma sociedade baseada em escravidão,
destruição de ecossistemas e submissão de povos originários.
A fatura chega a áreas urbanas superlotadas, onde mais de 20 milhões de brasileiros vivem em favelas, enfrentando adversidades sociais, insegurança e falta de direitos básicos. Estive no Rio Grande do Sul, observando de perto a realidade e o trabalho da sociedade civil na tragédia. Agentes públicos como policiais e bombeiros, que perderam suas casas, estão alojados em casas de parentes e trabalhando desde o primeiro dia, quando as águas invadiram o estado. A situação é preocupante.
Demétrio Magnoli -Três objetivos decorativos
O Globo
Ninguém escutou do vice uma única palavra de
contestação à flexibilização do arcabouço fiscal
Lula bateu
Bolsonaro por margem mínima. O triunfo deveu-se às alianças com o centro
democrático firmadas no início da corrida eleitoral (Geraldo Alckmin) e depois
do primeiro turno (Simone Tebet e Marina Silva).
As três lideranças ingressaram no governo carregando as expectativas do
eleitorado que decidiu a disputa. O tempo mostrou, contudo, que elas não passam
de objetos decorativos.
Marina figura como outdoor da vertente ambiental da política externa lulista. Seu ministério só consegue realizar um programa mínimo, expresso na redução do desflorestamento na Amazônia. Adaptação às mudanças climáticas? Transição energética? No primeiro item, a ministra oferece apenas diagnósticos acadêmicos. No segundo, um equívoco conceitual paralisante.
Rachel Maia - O que move os seguidores nas redes sociais?
O Globo
Gerar engajamento promovendo informações
relevantes é um caminho potente para criarmos uma rede rumo à transformação
necessária
As redes sociais, nós sabemos, representam um meio de comunicação importantíssimo hoje. Com elas, podemos nos relacionar com familiares, amigos, colegas de trabalho e até com quem não conhecemos pessoalmente, mas que, de alguma forma, admiramos ou nos admira. O poder dessas redes é inquestionável, servindo tanto para promover ações positivas quanto para disseminar, por exemplo, notícias falsas (fake news).
Marcus André Melo - Corrupção honesta
Folha de S. Paulo
Tammany Hall é o Brasil: foi derrotado nos
EUA, mas aqui estamos perdendo a luta
Tammany Hall é o símbolo de máquina política corrupta,
tendo inspirado filmes e livros. Tratava-se de uma organização que dominou
o Partido
Democrata em Nova York por 40 anos. Um dos seus líderes, George
Plunkitt, fez uma distinção que ilumina a análise da corrupção entre nós.
Contra aqueles que denunciavam seu enriquecimento ilícito, afirmava que não viam a "diferença entre corrupção honesta (honest graft) e corrupção desonesta e, consequentemente, confundem tudo. Existe uma grande diferença entre saqueadores políticos e políticos que fazem fortuna com a política mantendo os olhos bem abertos. O saqueador entra sozinho, sem considerar sua organização ou sua cidade. O político zela pelos seus próprios interesses, pelos interesses do partido e pelos interesses da cidade, tudo ao mesmo tempo".
Ruy Castro - Prefeito perfeito
Folha de S. Paulo
Todos admiramos Graciliano Ramos como
escritor. Mas é que ainda não o conhecíamos como prefeito
Em 1931, os relatórios de um ex-prefeito de
Palmeira dos Índios, em Alagoas, circularam sabe-se lá como pelo Rio.
Prestações de contas, mesmo de um prefeito corajoso, honesto e trabalhador, não
são literatura.
São prestações de contas. Mas, ao caírem aos olhos do poeta e editor Augusto Frederico Schmidt, este pensou: "Quem escreve desse jeito deve ter
um romance na gaveta". Mandou carta ao ex-prefeito e este confirmou: sim,
tinha um romance, vou lhe enviar o manuscrito.
Semanas depois, chovendo no Rio, Schmidt foi pegá-lo no correio. Enfiou-o no bolso da capa, voltou para a editora, pendurou a capa no armário e foi fazer qualquer coisa. Como não chovesse pelos meses seguintes, não voltou a usar a capa e se esqueceu onde guardara o pacote, achou que o perdera. Em 1932, foi ao armário e lá estava. Leu, maravilhou-se e escreveu ao autor propondo publicação. E assim, por intermédio de "Caetés", título do romance, em 1933 o Brasil conheceu Graciliano Ramos.
Camila Rocha - Tarcísio e Nunes querem educação para ditadura
Folha de S. Paulo
Em vez de ordem e progresso, futuro com
escolas militarizadas promete retrocesso
Imagine que a escola de seu filho mudou. Agora, ele precisa manter os cabelos raspados para ir à aula. Conflitos rotineiros são resolvidos por policiais que usam spray de pimenta, ameaçam bater nos alunos e levam jovens à delegacia para serem fichados. Colegas com deficiência ou dificuldade de aprendizado se sentem pressionados a abandonar a escola. Atividades como colocar fantasias para um festival de inglês, ou falar sobre racismo e violência policial, passam a ser vistas com desconfiança ou são censuradas. O medo e a insegurança crescem na comunidade escolar. Você tenta mudar seu filho de escola, mas é inútil, pois agora todas as escolas da sua região são "cívico-militares": educam crianças e jovens para viver em uma ditadura.
Sergio Lamucci - O peso das vinculações de despesas no problema fiscal do país
Valor Econômico
O grande desequilíbrio das contas públicas está no lado do gasto, mas enfrentar o problema com determinação não está na agenda do governo
Com menos de um ano de vigência, o novo arcabouço fiscal já tem a credibilidade arranhada. O governo afrouxou em abril a meta de resultado primário (exclui gastos com juros) de 2025 e dos anos seguintes, e o ajuste das contas públicas depende muito de um aumento forte e incerto de receitas, visto com ceticismo por muitos analistas. O grande desequilíbrio fiscal do país está no lado do gasto, mas enfrentar o problema com determinação não está na agenda do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ainda que a ministra do Planejamento, Simone Tebet, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tenham falado nas últimas semanas sobre a necessidade de se discutir a vinculação de despesas.
Bruno Carazza - Cadê o Cade que estava aqui?
Valor Econômico
Instrumentalização política e fragilidade institucional colocam órgão de defesa da concorrência à deriva
Nos meus tempos de criança no interior de
Minas, creme dental era chamado de dentifrício - e isso rendeu muita gozação de
meus amigos quando me mudei para Belo Horizonte para fazer faculdade. (Décadas
depois, num supermercado na região do Douro, em Portugal, vi numa gôndola que
lá eles também usam a palavra dentifrício; estranha conexão linguística entre
povos da montanha dos dois lados do Atlântico.)
Na mesma época em que riam do meu modo de falar, nos anos 1990 muita gente se referia a creme dental simplesmente como Kolynos - exemplo clássico de metonímia, em que a liderança da marca é tão forte que o consumidor se refere a ela como sinônimo para o próprio produto. Mas em 1995 a Colgate, a segunda colocada do mercado, comprou a Kolynos, gerando uma concentração de 78% no mercado de cremes dentais.
Maria Cristina Fernandes - Câmeras policiais antecipam embate de 2026
Valor Econômico
Depois do edital paulista, governo federal
lança diretrizes para câmeras corporais
O edital para a compra de novas câmeras para os uniformes da Polícia Militar de São Paulo reúne dois temas do embate antecipado da corrida sucessória de 2026, a segurança pública e a eficiência administrativa. Depois de polemizar em torno do programa durante a campanha eleitoral e ao longo do primeiro ano de sua gestão, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, espera convencer que as novas câmeras, além de estarem em linha com o enxugamento de gastos pretendido, são também mais eficientes. O edital enfrenta forte resistência de entidades civis que apontam enfraquecimento do controle da atividade policial.
Carlos Pereira – A antessala do populismo
O Estado de S. Paulo
Decisões monocráticas, como as de Toffoli,
geram desencantamento político e desconfiança nas instituições
O mal-estar social e a desconfiança gerados pela atuação individual de ministros podem pavimentar o terreno para emergência de novas saídas populistas de perfil extremista
O Ministro do STF, Dias Toffoli, decidiu, de forma
monocrática, pela “nulidade absoluta” de todos os atos
processuais praticados contra Marcelo Odebrecht no âmbito da
Operação Lava Jato.
Se baseou em gravações hackeadas de conversas do então juiz Sérgio Moro com os procuradores da Lava Jato que, segundo Toffoli, atuaram em conluio ignorando o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa do acusado, ao misturar a função de acusação com a de julgar.
domingo, 26 de maio de 2024
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
IDH indica ineficiência do Estado brasileiro
Folha de S. Paulo
Com carga tributária elevada e iníqua, além
de gasto mal direcionado, país não alcança nível elevado de desenvolvimento
Entre os 30 países com maior carga de
impostos, o Brasil é o
que apresenta o pior índice de desenvolvimento humano (IDH). O dado,
apurado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação, evidencia de
modo eloquente distorções do Estado brasileiro.
Em 2022, ano que serviu de base para o
levantamento, a arrecadação tributária brasileira, nos três níveis de governo,
correspondeu a 32,4% do Produto Interno Bruto —a 24ª posição da lista,
encabeçada pela Noruega (44,3%) e quase toda composta por economias ricas.
Já nosso IDH, de 0,76 numa escala de 0 a 1, é
o único na relação abaixo do patamar classificado como alto desenvolvimento
(0,80).
O índice leva em conta renda per capita, educação e longevidade. No primeiro critério, corrige-se o poder de compra em cada país, de modo a se obter uma régua comum, dado que regiões com renda superior têm nível de preços mais alto.
Luiz Sérgio Henriques - Esquerda, democracia e despolarização
O Estado de S. Paulo
Se não é novidade, a polarização atual
vale-se da velocidade das redes e da quase ilimitada possibilidade de
manipulação de consciências
Parece algo distante no tempo, mas pouco mais
de 30 anos se passaram desde que pareceram se desfazer no ar as razões da
esquerda, identificadas sumariamente com o comunismo histórico e o tipo de
sociedade que criou na União Soviética e em seus satélites. O mundo se mostrava
plano, os enigmas estavam decifrados. Um certo tédio, aliás, se anunciava: uma
democracia formal, de baixa intensidade, poderia apoiar-se indefinidamente em
mercados globais e numa cultura de consumo capaz de avassaladora
universalização.
Relativamente pouca gente se manifestou contra esse bizarro panorama de terra plana. Na época, num pequeno livro, o italiano Norberto Bobbio teve a coragem de divergir. Sem arroubos retóricos, como de hábito, defendeu a pertinência da oposição entre direita e esquerda no novo contexto global. A velha distinção, nascida casualmente com a distribuição de cadeiras na convenção francesa de 1793, ainda seguiria sendo uma boa chave interpretativa. A igualdade, segundo Bobbio, haveria de se enriquecer com conteúdos novos. Além das diferenças de classe, mal teriam começado a ser arranhadas as de gênero e raça. E o caminho da esquerda, em sentido lato, longe de haver terminado, estava rigorosamente no início.
Manuel Castells* - Nosso mundo, nossas vidas
Míriam Leitão - O que Porto Alegre ensina para Belém
O Globo
Cientista José Marengo, do Cemaden, diz que Rio Grande do Sul pode sair de um período de enchente para o oposto, a estiagem
O cientista José Marengo do Cemaden, Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, usa uma expressão forte para explicar o que está acontecendo agora no clima, após o aquecimento simultâneo do Pacífico e do Atlântico. “A América Latina está como num sanduíche entre dois oceanos quentes”. É o retrato do tempo atual que tem provocado a inundação tão prolongada do Rio Grande do Sul. Marengo acha que a situação no território gaúcho deve durar um mês ainda para se normalizar e, depois, o clima pode ir para o extremo oposto. “Da enchente para a seca”.
Cacá Diegues - Moramos no mesmo espaço
O Globo
Percebi como o Brasil é igual em todas as
suas paragens
Nesses últimos dez dias, acompanhei a
tragédia sem trégua que acontece no Rio Grande do Sul, na Praia de Ipioca, ao
norte de Maceió. Percebi como o Brasil é igual em todas as suas paragens. Na
época do CPC (Centro Popular de Cultura da UNE), defendíamos com entusiasmo a
tese de que a Cultura Popular tinha em uma de suas ondas principais a de que
era formada inicialmente pelas questões sociais de cada região do país. Hoje
sabemos que não é bem assim.
Por mais atrasado que seja o país, alguma coisa claramente o une em uma dimensão cultural inesperada. No caso do Brasil, por exemplo, existem os valores que herdamos de uma cultura sofisticada que não nos foi possível exercer ou o que fomos obrigados a inventar outra coisa para resistirmos a essa obrigatoriedade de uma cultura especificamente nossa. Isso pode gerar, como é o caso brasileiro, análises equivocadas sobre o que finalmente somos.
Dorrit Harazim - Choque
O Globo
Assim como Netanyahu, também o Hamas é contra
criar uma Palestina convivendo com Israel
A fotógrafa americana Dorothea Lange, que
documentou de forma indelével a essência da desolação humana na Grande
Depressão do século passado, considerava o rosto humano uma língua universal.
— Suas expressões podem ser lidas e
compreendidas em qualquer lugar do planeta — ensinava.
Na semana passada, o rosto opaco de uma gaúcha de meia-idade dizia o indizível. Estava simplesmente em choque, esvaziada da capacidade de sentir o que quer que fosse. Lembrava as imagens icônicas de soldados da Guerra da Crimeia, da Primeira e Segunda Guerras Mundiais, do Vietnã, retratados em momentos de total abstração da crueza em volta.
Luiz Carlos Azedo - Não há anjos na política, nem mesmo no STF
Correio Braziliense
A atuação da Corte é polêmica, seja por causa
do protagonismo político de alguns ministros, seja por decisões contraditórias
Quarto presidente norte-americano, James Madison teve um papel fundamental na elaboração da Constituição e da Declaração de Direitos dos Estados Unidos, com Alexandre Hamilton e John Jay, nos ensaios de “O federalista”, a publicação do fim do século 18 que se tornou um clássico da ciência política. “Se os homens fossem anjos, não seria necessário haver governos”, resumiu (“O federalista”, nº 51), ao se referir aos políticos de um modo geral. A citação é oportuna porque estamos diante de polêmicas decisões monocráticas de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que parecem mais pautadas pelo jogo político e grandes interesses econômicos do que pela legislação vigente.
Eliane Cantanhêde - Efeito dominó
O Estado de S. Paulo
Governo brasileiro vê Netanyahu cada vez mais isolado e isolando Israel no mundo
Com a adesão de Espanha, Noruega e Irlanda,
146 dos 193 países que integram a ONU apoiam o reconhecimento pleno da
Palestina como Estado e, portanto, com status para dialogar e negociar em
condições de igualdade com Israel. “Hoje, não há diálogo entre eles, o que há
um monólogo”, diz o chanceler Mauro Vieira. Pode-se ler que só Israel “fala”,
subjugando a Palestina e impondo suas regras, interesses e poderio econômico e
militar.
O movimento internacional pró estado
Palestino tende a ter “efeito dominó”, inclusive pela simbologia da Noruega,
que há 30 anos sediou o “Acordo de Oslo”,
entre Israel e Palestina, mediado pelos Estados Unidos e nunca cumprido pelos israelenses. Essa posição birrenta tornou-se irritante na era Netanyahu e inaceitável com a carnificina em Gaza e a escalada em Rafah. Agora mesmo Israel dá de ombros para uma decisão da Corte Internacional de Justiça, tribunal máximo da ONU, e mantém os ataques a Rafah.
Rolf Kuntz - Gastança versus crescimento
O Estado de S. Paulo
O presidente da República daria uma preciosa
contribuição à política monetária se assumisse, logo, um compromisso claro com
a estabilização dos preços
Mais empenhado em gastar do que em governar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve fechar este ano com um buraco fiscal de R$ 14,5 bilhões, segundo a nova projeção orçamentária. Pela estimativa anterior, haveria um déficit de R$ 9,3 bilhões. Esses números incluem apenas as contas primárias, sem os juros, portanto. Também os custos vinculados ao desastre climático do Rio Grande do Sul estão fora desses valores. Permanece a pergunta: para que serve aquela gastança? A indagação pode parecer estranha ao presidente, a alguns de seus auxiliares e a muitos petistas. Afinal, quem assume o poder público, podem argumentar, assume também o direito de usar o dinheiro público e até de endividar o Tesouro. Tudo bem, pode responder o cidadão teimoso, mas sem desistir da pergunta: gastar para quê?
Luiz Gonzaga Belluzzo - Trepidações da globalização
CartaCapital
As novas condições econômicas foram apontadas
como o rumo da eficiência, mas só incautos acreditaram
O Centre d’Études Prospectives et
d’Informations Internationales (CEPII) arriscou uma investigação cuidadosa a
respeito do avanço da China nos mercados globais. Vou reproduzir, com as
adaptações necessárias, as observações mais pertinentes do estudo da importante
instituição francesa.
Em 2019, a China detinha uma
posição dominante na economia global, definida por uma participação de mais de
50% do mercado mundial de exportação de quase 600 produtos. Essa avaliação foi
obtida a partir de uma investigação realizada em um universo de classificações
comerciais que abrangem cerca de 5 mil produtos.
Isso significa que a China fornece pelo menos metade das importações globais desses produtos. Este número é seis vezes maior do que o número equivalente para os Estados Unidos, Japão ou qualquer outro país. Mesmo a União Europeia, considerada como um todo, não atinge metade desse nível.
Celso Rocha de Barros - Onde fica o centro?
Folha de S. Paulo
Única área em que governo Lula de fato se
distanciou do centro de 1994-2014 foi em parte da política externa
Boa parte da discussão política nos últimos
meses tem sido sobre quem, entre os políticos de direita, é "de
centro". Em parte, trata-se de saber quem herdará o legado político
de Jair
Bolsonaro. Mas é mais do que isso: trata-se de discutir onde deve
ficar "o centro" no debate político brasileiro.
Isso é importante porque, quando marcamos o lugar do centro, fica estabelecido que há uma distância X a partir dali, nas duas direções do espectro político, a partir da qual está a falta de bom senso, o radicalismo e, conforme se ande ainda mais para longe, o extremismo.
Vinicius Torres Freire - Como arrumar a bagunça nos juros
Folha de S. Paulo
Mancadas de Lula, BC e Fazenda elevam o custo
do dinheiro, dólar e projeção de inflação
As taxas de juros estão em nível de exagero
faz pelo menos duas semanas, dizem executivos e negociantes de dinheiro de
bancos maiores. A efervescência poderia diminuir um pouco caso governo, Fazenda e Banco Central falassem
menos e dessem menos mancadas.
"Diminuir um pouco." Gente variada
do BC e até do Ministério da Fazenda diz que um sedativo duradouro vai exigir
mais do que gogó e compostura.
Vai exigir o quê?
Bruno Boghossian - Uma pizza de R$ 15 bi
Folha de S. Paulo
Lira e Alcolumbre controlam partilha de verba
que se tornou ferramenta importante de poder
Cardeais da Câmara e
do Senado assumiram
a partilha de R$ 15 bilhões em emendas reservadas
para as comissões do Congresso. O critério para dividir a verba ganhou de
parlamentares o apelido de "pizza".
A distribuição é controlada por Arthur Lira (PP), na Câmara, e por um grupo representado por Davi Alcolumbre (União Brasil), no Senado. O líder de cada partido recebe uma fatia da verba para repartir entre os integrantes da bancada. A divisão segue orientações apresentadas num gráfico em formato de pizza, com a porção que deve ser indicada para cada ministério. A palavra final é dos gabinetes de Lira e Alcolumbre.
Muniz Sodré - Guerra molecular
Folha de S. Paulo
Quem restringe guerra a conflito entre
Estados acha excessivo identificá-la à violência de milícias, terroristas e
neonazistas e não vê que hater é hoje identidade sociopolítica
No anseio necropolítico do Bozo, a ditadura militar deveria ter matado 30 mil pessoas. Não é bizarrice, nem número aleatório, é o total estimado de mortos por Pinochet. Não se conectou essa intenção dolosa ao descaso com a morte de brasileiros durante a pandemia. Mas uma linha de sentido contínua passa pelo caos golpista até o negacionismo ecocida. A explicação cândida, em look colete laranja, do governador gaúcho para a falta de prevenção da catástrofe apesar dos avisos, é uma derivada: "Tínhamos outras prioridades". Entre elas, 50 atos ofensivos ao meio ambiente.
Ruy Castro - O Leblon careta
Folha de S. Paulo
O bairro pacato e família durante o dia se
torna a zorra noturna pela qual todos o conhecem
A história das duas mulheres que passaram semanas morando no McDonald’s do Leblon,
aqui no Rio, só me chocou pela escolha do anfitrião. Eu preferiria o Degrau ou o Alvaro’s,
sexagenários altares da gastronomia e da boemia carioca, típicos do calor
humano e da suavidade do Leblon.
Calor humano e suavidade? ---perguntará você. O Leblon não é o inferno noturno, com multidões nas calçadas das boates e dos botequins? É. E é também um dos bairros mais pacatos da cidade. Refiro-me ao Leblon diurno, ideal para flanar, com seu morno silêncio, ruas vazias e tudo o que um cidadão pode querer ao alcance das pernas. Duvida?


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