sábado, 30 de maio de 2009

Em tom de comício, Lula entrega obras do PAC em favelas do Rio

Alexandre Rodrigues e Felipe Werneck, Rio
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ao lembrar que passará o cargo em 2010 ?para outra pessoa?, ele motivou plateia a clamar por Dilma, a seu lado

Numa retomada da ofensiva para popularizar a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, como pré-candidata a sua sucessão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu tom eleitoral ontem à inauguração das primeiras obras de urbanização do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em duas favelas da zona norte do Rio. Em Manguinhos, ao lembrar que passará o cargo em 2010 "para outra pessoa", Lula motivou a plateia a clamar por Dilma, a seu lado, como a substituta. No entanto, algumas pessoas também gritaram o nome do presidente e o apelo "fica, fica".

"Quero pedir o seguinte... Depois vão dizer aqui que o Lula não falou em campanha política. Vocês é que se meteram a cantar, a gritar o nome aí", reagiu Lula ao coro, que aclamava Dilma, apesar das restrições legais ao uso eleitoral de inaugurações. "Espero que a profecia que diz que a voz do povo é a voz de Deus esteja correta", disse o presidente, encerrando o discurso. Ao ouvir seu nome cantado pelas cerca de 300 pessoas, Dilma apenas sorriu.

Em fevereiro, o DEM e o PSDB acusaram Lula e Dilma de fazer propaganda eleitoral antecipada em inaugurações e recorreram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra suposto uso político da reunião de prefeitos realizada naquele mês em Brasília. O TSE, contudo, concluiu que faltaram evidências para caracterizá-la.

Em discurso no Complexo do Alemão, Lula repetiu que não podia falar de sucessão, mas não deixou de se manifestar. "Todo mundo sabe que vamos ganhar as eleições de 2010", afirmou. Em seguida, entregou uma flor, retirada de um vaso no palco, para Dilma. "Quando chegar a hora certa vamos para a disputa", declarou. " Vocês vão ver aquele (candidato) que promete o céu e aquele que está junto de vocês." Em Manguinhos, ele também conclamou a população a qualificar seu voto e disse que, para transformar o País, é preciso evitar a eleição de "vigaristas".

"O que a gente está mostrando é que este país pode ser diferente se a gente aprender a não eleger mais vigaristas, se a gente aprender a eleger pessoas que tenham compromisso com o povo, que não tenham medo de pegar na mão de um doente, abraçar um pobre, abraçar um negro", afirmou.

Lula se referiu à própria sucessão ao dizer, em tom de brincadeira, que pretende se esconder do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), até 2010, pois ele sempre pede mais verbas federais para obras no Estado. Só no PAC de favelas, que atinge cinco comunidades do Rio, o governo federal entra com mais de 70% dos recursos de quase R$ 1 bilhão. Como o Estado mostrou ontem, o governo de Cabral, candidato à reeleição e cabo eleitoral de Dilma, acelerou as obras este ano nas principais comunidades do projeto (Manguinhos, Complexo do Alemão e Rocinha) para inaugurar todas até setembro de 2010, um mês antes da eleição.

Em sua terceira visita a favelas em dois anos, Lula desafiou a população a apontar outros presidentes que "tiveram coragem" desse gesto. O presidente pegou criança no colo, acompanhou uma demonstração de natação e jogou futebol com Cabral na inauguração de instalações esportivas. Em Manguinhos, também abriu um centro profissionalizante e uma unidade de saúde. No Alemão, entregou 56 apartamentos.

Minc critica ‘casa da mãe joana’ no governo Lula

Leonencio Nossa, Brasília
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) disse que o presidente Lula lhe deu “toda a razão” ao reclamar que outros ministros estão fazendo lobby no Congresso para modificar acordos relativos a sua pasta. “Alguém do governo solapar a própria posição do governo é a casa da mãe Joana”, afirmou Minc em entrevista ao Estado.

Crise entre Minc e ministros preocupa Planalto

Temor é de que o mal-estar contamine o anúncio de balanço das obras do PAC na quarta-feira

O mal-estar dentro do governo provocado pelos ataques do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, a colegas de Esplanada e ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) passou a preocupar o Planalto, que teme que a crise contamine o anúncio, pela ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), do 7º balanço parcial das obras, previsto para a próxima quarta-feira.

Anteontem, Minc disse que estava impedido "eticamente" e "moralmente" de conceder licença ambiental para a pavimentação da BR-319 e a construção de hidrelétricas no Rio Araguaia, ações prioritárias do programa de infraestrutura.

Assessores do governo avaliam que o tom das críticas de Minc reacendeu o interesse pela solenidade ao pôr em xeque até mesmo os "bem elaborados" selos de classificação do andamento das obras do Programa de Aceleração do Crescimento.

No último levantamento do PAC, em fevereiro, as obras da BR-319 ganharam selo verde, por estarem em situação adequada, na avaliação dos técnicos. Mesmo que a decisão de Minc em negar a licença ainda não tenha reflexo no cronograma das obras, o selo verde no balanço da semana que vem perde importância diante das dúvidas e temores de investidores, segundo assessores presidenciais.

Minc ainda afirmou que não pretende dar licença ambiental para a construção da Hidrelétrica de Santa Isabel, no Rio Araguaia, entre o sul do Pará e o norte do Tocantins. A obra está prevista no PAC, mas não foi citada no caderno do balanço de dois anos do programa, divulgado em fevereiro.

As declarações do ministro contra essa a obra, que já foi licitada, esquentaram uma antiga luta de entidades ambientalistas a favor da preservação do rio que corta os Estados de Goiás e do Tocantins até desaguar no Pará. A polêmica levantada pelo ministro do Meio Ambiente também colocou em xeque a real situação das obras da Hidrelétrica de Jirau, avaliada com selos verdes nas últimas duas edições do balanço do PAC.

Na quinta-feira, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva reclamou, numa audiência concedida a Minc, que a licença não tinha saído, como estava previsto. O ministro jogou a culpa no governador de Rondônia, Ivo Cassol (sem partido). Minc, avaliam assessores do Planalto, vai tirar até o brilho da oposição, que nos últimos balanços propagou que o governo só consegue repassar 11% dos recursos previstos em investimentos.

Além de Dilma, participam do anúncio do balanço do PAC os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Planejamento, Paulo Bernardo. A previsão é de que neste fim de semana o levantamento da situação das obras seja encerrado, com a elaboração de um caderno com informações atualizadas de uma série de ações do governo nas áreas de energia, transportes e infraestrutura social e urbana.

Metas para 2020

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

A crise entre o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, os produtores rurais, a quem chamou de “vigaristas”, e os ministros “desenvolvimentistas” chega em um momento delicado, em que o Brasil é chamado a ter um papel relevante na política internacional de preservação do meio ambiente. O governo do presidente Lula parece preso a um paradoxo: gosta da parte ambiental que favorece o Brasil, como os combustíveis alternativos. Mas não se conforma com as normas ambientais que atrasam as obras do PAC.

O filósofo e historiador americano Jim Garrison, presidente do State of the World, uma ONG criada por Mikhail Gorbachev dedicada à preservação do meio ambiente, está no Brasil desde o início do ano tentando obter o apoio do governo brasileiro para um plano ambicioso de antecipar de 2050 para 2020 as metas de redução de emissão de gases de efeito estufa que devem ser definidas em uma reunião da ONU em Copenhagen no final do ano, em substituição ao Protocolo de Kyoto.

A ideia de Garrison é fazer uma conferência em uma cidade diferente nos próximos dez anos, “para chamar a atenção para esse enorme desafio”, e o Brasil seria a sede de 2010.

Para ele, o Brasil deve ser um dos líderes desse movimento, levando em conta justamente a política de combustíveis alternativos como o biodiesel e as condições climáticas favoráveis também à energia solar e de ventos.

Jim Garrison acha que o Brasil, por ser um dos maiores países do mundo, ter recursos naturais, viver em paz com os vizinhos e ser grande produtor de energia de fonte limpa (hidrelétricas), pode assumir a liderança desse movimento.

Garrison cita como bom exemplo a Cemig, companhia de energia de Minas, que tem 82% de sua geração de fonte limpa. Segundo ele, a Cemig, cujas ações são cotadas em Nova York, é considerada pela Dow Jones um destaque entre empresas do mundo que atuam na economia sustentável.

Diz Garrison que, segundo estudo do MIT (Massachusetts Institute of Tecnology), mesmo que fosse alcançada uma redução de 80% nas emissões até 2050, a temperatura subiria 4 graus. Por isso a necessidade de antecipar a meta para 2020.

Outra consequência preocupante do aquecimento global seria a subida do nível dos oceanos. Com o derretimento do Ártico e Groenlândia, o nível dos oceanos subirá, no mínimo, 25 metros, adverte Garrison, o que atingiria todos os países que têm grandes costas marítimas, como o Brasil.

A elevação do nível dos oceanos forçará a migração das populações litorâneas para o interior, em meio à falta de alimentos.

O derretimento de geleiras afetará cerca de 2,5 bilhões de pessoas, especialmente na China e na Índia.

A ocorrência de secas também na América Central levará a que haja migrações para os Estados Unidos, e destes para o Canadá.

Será um “cataclismo”, segundo Garrison, que não acredita que os Estados Unidos possam liderar uma mudança nos hábitos da humanidade por estarem envolvidos com uma crise econômica de graves proporções, embora acredite que o governo de Barack Obama estará comprometido, na reunião do fim do ano, com um programa de redução do efeito estufa.

Garrison levará o resultado das discussões no Brasil para uma reunião em Washington, em novembro, quando será debatido o que levar para Copenhagen onde, defende, deve-se lutar para fixar para 2020 a meta de corte de 80% das emissões.

Jim Garrison volta a alertar: “Se as emissões parassem amanhã, seriam necessários milhares de anos para o ambiente se recuperar”.

Segundo ele, “o momentum (das emissões) é tão forte que já não se pode mais evitar que a temperatura suba de 4 a 5 graus até 2050”.

Garrison alerta sobre as emissões naturais do metano para a atmosfera, causadas pelo degelo, segundo ele, em quantidade seis vezes maior que tudo que a Humanidade produziu desse gás até hoje.

Ele conta que um comandante russo de navio, ao navegar pelo Ártico, testemunhou que a água borbulhava. Era o escapamento de metano. Sobre o que fazer, ele afirma que não podemos mais evitar o aquecimento, mas podemos evitar “o pior”.

“Se temos dez anos para nos preparar, temos que fazêlo decididamente”.

Há dias, encerrou-se em Copenhagen um encontro empresarial internacional de preparação à reunião do fim do ano, e seis medidas foram decididas, algumas delas já para 2020.

O pressuposto de Jim Garrison de que é inevitável o aquecimento de 4 a 5 graus até 2050 não é aceito pelo fórum, que está propondo medidas para limitar esse aquecimento a 2 graus. São as seguintes as medidas: — Acordo para o estabelecimento de metas de redução do efeito estufa que sejam atingidas em 2020 e 2050, de forma a limitar a média do crescimento da temperatura a 2 graus. Medidas de curto prazo devem ser tomadas, e as de longo prazo devem focar o objetivo de fazer com que as emissões globais caiam pelo menos à metade dos níveis de 1990.

— Medição das emissões por atividade de negócios para que as metas possam ser verificadas.

— Incentivos para um aumento dramático nos financiamentos de tecnologia de baixas emissões.

— Desenvolvimento de novas tecnologias de baixas emissões.

— Fundos para tornar as comunidades mais capazes de se adaptar aos efeitos da mudança climática.

— Meios para financiamento da proteção das florestas.

A grande surpresa do encontro empresarial em Copenhagen foi a posição dos empresários chineses , comprometidos com metas de redução dos gases de efeito estufa e com energias alternativas. (Continua amanhã)

A estiva da tropa

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O líder do governo no Senado, Romero Jucá, tem um bom dilema pela frente. Cotado para assumir o posto de relator da CPI da Petrobrás, o senador se adiantou à indicação oficial e não só aceita, como assegura total imparcialidade no exercício da função.

Essa é a parte mais fácil, a da mistificação. Frente a frente com a realidade, entretanto, Jucá terá de escolher: ou cumpre a promessa de ser imparcial e deixa a liderança do governo ou continua líder e deixa a imparcialidade para outra ocasião.

As duas mercadorias não cabem no mesmo pacote.

Tivesse a neutralidade a mais pálida intenção de comparecer às sessões da CPI, a escalação do comando não seria a que se cogita. A escolha do líder do governo equivale a uma assinatura de compromisso com o resultado.

O mesmo ocorre com a ideia de a senadora Ideli Salvatti, líder do governo no Congresso, ocupar a presidência da comissão. Se confirmada, esperemos que a bem da verdade se abstenha de firmar compromisso com a isenção.

Mais não seja, para que não se extrapolem os limites do razoável no quesito embromação.

Ideli e Jucá são cogitados exatamente para prestar serviço à parcialidade. São líderes de governo, nomeados pelo Planalto, e isso define os contornos da atuação que o governo espera de sua base de apoio e o peso dado ao potencial de dano da CPI.

Sobre a relatividade da garantia proporcionada pelo controle do comando de uma CPI já se escreveu à vasta. Há disponíveis exemplos de comissões supostamente controladas que saíram do controle, mas não há registro de CPI cujo êxito possa ser atribuído ao fato de o presidente ou o relator serem de oposição.

Portanto, perfeitamente entendido que dois governistas por si sós não fazem um verão.

Ocorre que a composição da CPI da Petrobrás está obedecendo a critérios mais rígidos. E inéditos. Nunca se viu governo algum pensar em deslocar seus líderes no Senado e no Congresso para a linha de frente desse tipo de combate.

Justamente para preservar o ofício da liderança, de um lado, e, de outro, evitar a explicitação da presença do Executivo na direção da CPI. Mas aqui não há essa preocupação. Importam menos as aparências que a essência.

E de essencial o que existe é o plano de fazer a CPI fracassar. Custe o que custar, doa a quem doer.

O Planalto está suficientemente escaldado com experiências anteriores para se dar ao desfrute de fazer concessões à figuração. O senador Delcídio Amaral, do PT, e o deputado Osmar Serraglio, do PMDB, governistas, credenciaram-se no quesito impessoalidade ao comandarem a CPI dos Correios, cujo relatório final serviu de base à denúncia da Procuradoria-Geral da República contra os acusados de participar do esquema do mensalão.

Pois Delcídio foi parar numa terceira suplência da CPI da Petrobrás e, fosse a comissão mista, o deputado Serraglio estaria fora, dado ter-se transformado em persona non grata nas hostes pemedebistas.

Os quatro senadores do PMDB que assinaram o requerimento da CPI - Jarbas Vasconcelos, Mão Santa, Geraldo Mesquita e Pedro Simon - nem sequer foram cogitados, embora tenham aptidões suficientes para participar. O problema é que seus atributos não são convenientes.

A tarefa adiante é dura, pesada e requer biografias compatíveis. Daí, a escalação da tropa de estiva comandada pelo líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros, cuja influência na CPI se estende para além de seu partido.

E qual é o ofício? Simplesmente impedir que a CPI saia do lugar. Com o regimento interno na mão, uma ordem na cabeça, nenhum pudor nas faces e muita desfaçatez no espírito, a maioria tentará partir para a obstrução total: nada de requerimentos de informações (a não ser as irrelevantes), nada de depoimentos importantes, nada de quebra de sigilo. Nada de nada.

Brigas, desaforos, exacerbação artificial de ânimos, chicanas de toda sorte, isso haverá a mancheias, pois a meta é muita confusão e pouca investigação.

No Congresso, portanto, o campo está todo dominado.

Isso assegura a falência da CPI? Não necessariamente, porque a imprensa o governo não controla, embora tenha tentado exercer o domínio por meio do malfadado Conselho Federal de Jornalismo, que teria a função de fiscalizar, regulamentar e disciplinar o exercício da atividade.

Resolveria os problemas de azia que acometem o presidente Lula quando da leitura de jornais e poderia se arvorar a prerrogativa de considerar qualquer notícia mais embaraçosa sobre os meios e modos de administração da Petrobrás um ato de lesa-pátria a ser combatido a bem da soberania nacional.

Cão que ladra

A emenda que autoriza à disputa do terceiro mandato faz barulho, mas não morde. Se alguém porventura quiser que morda, precisará atuar à luz do dia porque casuísmo não sobrevive sem dono nem prospera no escuro.

A saída da proposta de Genoino

Coisas da Política :: Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Não sei como anda o prestígio do deputado José Genoino (PT-SP), que já desfrutou os seus dias de prestígio antes cometer o pecado de envolver-se nas trapalhadas do PT e aliados do mensalão para o rateio entre parlamentares ou do caixa 2 para a ajuda na campanha eleitoral. O certo é que purgou anos de ostracismo, na semiobscuridade do plenário nos seus quatro dias da semana inútil, e, afinal, está recomeçando do ponto de partida, inclusive nas cogitações petistas para a escolha do candidato a governador de São Paulo ou da mais provável candidatura a senador. Em voo mais ousado, mas com as devidas cautelas, o deputado José Genoino anuncia a apresentação, na próxima semana, de uma emenda aglutinativa de uma revisão constitucional, em 2011. O Congresso revisor se reuniria entre 15 de março e 15 de novembro, com amplos poderes para analisar e revisar a organização dos poderes e o sistema político eleitoral.

A amplitude da pauta atende à evidência de que não se convoca uma Constituinte para simples remendos de emergência. Não se discute que a crise moral e ética em que patina o pior Congresso de todos os tempos desafia a competência dos poucos em condições de propor saída e não perder a hora. É o que a emenda atende, no encaixe entre a realização das eleições de 2010 e o início da próxima sessão do Legislativo. Entre as suas virtudes, o destaque para a valorização da eleição de 5 de outubro de 2010, que elegeria o futuro Congresso Revisor que funcionaria paralelamente com a Câmara e o Senado.

A proposta do deputado José Genoino conta com apoios significativos, inclusive dos autores de propostas semelhantes, como a Proposta de Emenda Constitucional do ex-deputado Luiz Carlos Santos, na fila e pronta para ser submetida a votação no plenário. Duas outras, dos deputados Miro Teixeira (PDT-RJ) e Flávio Dino (PCdoB-MA) também aguardam o encaminhamento ao plenário.

Os novos deputados eleitos em 2010 seriam os responsáveis pela revisão constitucional, o que justificaria a esperança da correção dos erros, distorções e casuísmos que contaminam a pobre Constituição de 1988, quase irreconhecível com os remendos que a desfiguram. Para não desperdiçar o tempo encurtado pela madraçaria da semana de quatro dias úteis, às vezes apenas três, com a antecipação para as quintas-feiras da volta para as bases eleitorais, com as passagens aéreas pagas pela Viúva, além da verba indenizatória, agora pendurada no subsídio, o Congresso revisor funcionaria paralelamente com a Câmara e o Senado, seguindo o modelo das Constituintes de 1987 e 1988. As sessões seriam unicamerais, e a aprovação das emendas por maioria absoluta. No toque democrático de absoluta oportunidade, ao final da elaboração das propostas aprovadas pelo Congresso Revisor, elas passariam por referendo popular em 2012.

Certamente há um longo trajeto a percorrer, com todas as imprevisões de um período tenso. No Senado, a CPI da Petrobras é uma autêntica caixa-preta. O gigantismo da maior empresa do país, a sua importância econômica e política, a sua evidente invasão por petistas a exigir o emprego, a amplitude da sua área de atuação, o interesse guloso de prefeituras e governos estaduais justificam os receios de denúncias que projetem a CPI no noticiário de jornais, revistas, noticiário das redes de televisão.

A véspera de campanha, ao mesmo tempo que esvazia as sessões da Câmara e do Senado, é a arena de ásperos debates, da troca de desaforo das quizílias municipais e estaduais. E fumaça que oculta as tramas de bastidores deixam entrever a sombra das hesitações do PMDB e do desconforto das áreas do partido que se consideram marginalizadas dos conchavos dos donos da casa. Centrados na luta pelo voto que garanta mais quatro anos de desfrute do mandato e suas mordomias, poucos terão vagares para acompanhar a trama de bastidores em torno de uma proposta que valoriza o Legislativo e pode dar um jeito na bagunça constitucional que contamina os três poderes.

E, se o Executivo participa dos entendimentos através dos seus líderes na Câmara e no Senado, o Supremo Tribunal Federal (STF) não pode ficar ausente. Pois o mais politizado STF dos últimos dias é um parceiro compulsório num esforço de moralização do país e de melhoria do desempenho da trinca que está sendo convidada a participar do mutirão.

É a economia, estúpido?

Cesar Maia
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

A PESQUISA GPP de 16 e 17 de maio no Estado do Rio mostrou níveis de aprovação de Lula que nunca antes no Rio se havia visto.

Quando pesquisas nacionais apontavam níveis superiores a 70% (2008), a avaliação "ótimo-bom" de Lula na capital do Estado não chegava a 50%. Nessa última pesquisa, obteve no Estado 65% -na capital, 59%; na Baixada (popular), 74%; no interior industrial, 72%; no interior, 65%. As avaliações do governador permanecem entre 30% e 35%, apesar de feéricas campanhas publicitárias na TV, colagem em Lula e a boa vontade da imprensa local.

Lá se vão oito meses da crise econômica, com dados graves de desemprego, quebra de empresas e um futuro de incertezas. O Brasil, neste período, ficou entre os países com dados mais acentuados de queda na indústria, no PIB e no comércio exterior. Por que razão a máxima "é a economia, estúpido", de Carville (assessor de Clinton na época), que relaciona a economia à política não atingiu Lula? O indicador mais óbvio seria o desemprego, que afeta alguns diretamente e indiretamente os que temem o desemprego.

A Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE pode ajudar. Sendo pesquisa, tem alguma margem de erro. Mas a série de muitos anos sempre foi incorporada como sinal dos fatos nas principais regiões metropolitanas e em seu conjunto. Compare-se a PME de abril, de 2008 e de 2009. Pessoas em idade ativa aumentaram 496 mil, ou 1,2%. Pessoas economicamente ativas (PEA), 148 mil, ou 0,6%.

E não economicamente ativas (Pnae) 348 mil, ou 2%. Em seguida, abram-se os elementos negativos da Pnea. As pessoas que gostariam e estavam dispostas a trabalhar diminuíram de 12,2% para 12%. As marginalmente ligadas às PEA cresceram de 4,6% a 5,2%.

As desalentadas diminuíram de 0,1% a 0%. A taxa de desocupação cresceu de 8,5% para 8,9%, mas, paradoxalmente, o percentual de pessoas subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas caiu de 3,4% a 3%. Vale dizer: a taxa efetiva de desocupação, somando o desemprego aberto com o emprego precário, ficou estável em 11,9%.

Questionar os números vis a vis da crise é infantil depois de tantos anos. Os trabalhadores metropolitanos irem para o interior? A lógica é o inverso. É provável que o Bolsa Família tenha reduzido a migração, e isso ajudaria a explicar os números. Passando à lógica política, talvez os discursos de Lula o situem como um protetor.

Isso explicaria até números piores e sua avaliação. O mais provável é que os números estejam certos e que os primeiros meses de desemprego estejam protegidos pela indenização, FGTS, seguro-desemprego e a esperança. Mas não explicam a avaliação crescente de Lula no Rio.

Cesar Maia escreve aos sábados nesta coluna.

Ideias, apenas ideias

Clovis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - O cientista político espanhol Antonio Elorza resgatou ontem, em coluna para "El País", editorial de quase 50 anos atrás do jornal cubano "Prensa Libre".

Para protestar contra o fechamento, pelo recém-inaugurado regime castrista, do "Diario de la Marina", aliás adversário ideológico de "Prensa Libre", o editorial dizia: "Se se começa perseguindo um jornal por manter uma ideia, se acabará perseguindo todas as ideias". Vale, até certo ponto, para a Venezuela de Hugo Chávez, se seu socialismo do século 21 se mantiver na recaída cada vez mais intensa em uma das mais abomináveis características do socialismo do século 20, a perseguição a ideias.

O mais recente exemplo foi o constrangimento imposto ao escritor peruano Mário Vargas Llosa, instado a não emitir ideias sobre política venezuelana. Antes, Álvaro, o filho de Mário, sofrera idênticos constrangimentos. Diga-se que Álvaro Vargas Llosa é coautor do "Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano", no qual se busca desclassificar todos os que têm ideias diferentes das dos autores, chegadinhos ao mais puro e duro liberalismo.

Em vez de proibir o livro, a melhor reação seria escrever um texto tipo "O Manual do Perfeito Idiota Neoliberal" -livro, aliás, que a presente crise mais que justificaria. Louve-se, aliás, Chávez por ter seguido essa linha ao propor um debate entre intelectuais de direita e de esquerda. Ideias se combatem com ideias, não com a censura, a prisão ou o banimento de quem as difunde.

Aplicada a proposta ao Brasil, os intelectuais chapa branca repetiriam a safada teoria da conspiração que inventaram quando as notícias não eram agradáveis ao chefe? Nem ele acreditou, tanto que pediu desculpas publicamente pelos deslizes do PT. Mas foi a única ideia que essa gente produziu.

Frente externa

Panorama Econômico :: Míriam Leitão
DEU EM O GLOBO

O ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia disse que nunca viu “tamanha série de enganos e equívocos” no Itamaraty. O cientista político Amaury de Souza acha que o governo não atingiu suas metas na política externa. Uma pesquisa feita por Amaury mostra que os brasileiros querem maior presença no exterior e só 1% quer que o país “cuide apenas dos seus próprios problemas”.

Entrevistei os dois na GloboNews sobre os desafios da política externa. Ambos listam erros e fracassos da atual política do governo Lula.

— Entrei no Itamaraty em 1963. Antes disso, meu pai era diplomata, de maneira que estou no Itamaraty desde que nasci. Confesso a você que nunca vi tamanha série de enganos e equívocos, que derivam em parte de falta de profissionalismo, em parte de perspectiva equivocada, de falta de planejamento e um certo ’juvenilismo’, um entusiasmo ideológico — disse o embaixador.

Nessa lista de equívocos, Lampreia inclui a ideia de mandar um embaixador para a Coreia do Norte — que teve de ser abortada — e a decisão de apoiar a candidatura do egípcio Farouk Hosny para a direção-geral da Unesco: — Eu creio, sinceramente, que a explicação básica está no fato de que o dr.

Márcio Barbosa, um homem de extrema competência e grande posição na Unesco, padece de um vício enorme: o de ter servido ao governo Fernando Henrique Cardoso. O Itamaraty tem longa tradição de respeitar posições diferentes e não ter facciosismo.

Ele acha que os árabes merecem um gesto nosso, mas esse foi o sinal errado.

— Primeiro, há um candidato brasileiro. Segundo, o egípcio é uma pessoa inaceitável.

Uma organização que se propõe a defender a educação e a cultura não pode ter como diretor um homem que diz que vai queimar livros. É uma contradição — afirmou.

Amaury, que está lançando o livro “A Agenda Internacional do Brasil”, disse que o Itamaraty está reagindo aos insucessos dos últimos anos: — Até fizemos alguns movimentos certos. Apostamos em Doha, mas não prosperou; derrubamos a Alca, mas nada foi colocado no lugar; não conseguimos reorientar o Mercosul e inventamos ao mesmo tempo uma Unasul, que não tem futuro brilhante. Nenhuma das metas do governo Lula foi alcançada: não conseguimos assento permanente no Conselho de Segurança da ONU; a aproximação Sul-Sul ficou difícil porque a China se considera do mundo desenvolvido; a integração da América do Sul avançou apenas retoricamente.

Continuamos precisando de uma infra-estrutura que ligue as costas do Atlântico e do Pacífico, de união energética e mais comércio. O nosso comércio é feito 96% por via marítima. Ou seja, não conseguimos atravessar nossas fronteiras terrestres comuns. Essa não é uma história de sucesso — afirmou Amaury.

No caso do Paraguai, Lampreia conta que o conflito em Itaipu é a bandeira que resta ao presidente Lugo, que não consegue vencer as máquinas dos partidos tradicionais, entrincheirados no governo, e que resistem à agenda dele.

Sobre Hugo Chávez, ele diz que definitivamente não se trata de um democrata: — É uma falácia dizer que a Venezuela é uma democracia só porque faz eleições plebiscitárias. A democracia não se compõe só de eleições. É independência de poderes, liberdade de imprensa, segurança jurídica, Estado de Direito. Nenhuma delas existe na Venezuela.

O livro de Amaury traz o resultado de pesquisas feitas com líderes de várias áreas sobre a política externa brasileira.

— Entrevistamos diplomatas, congressistas, senadores e deputados na Comissão de Relações Exteriores das duas Casas, empresários, empresas que estão voltadas para o comércio internacional, jornalistas, órgãos de representação de classe, Fiesp, CUT, MST. Há uma concordância enorme em relação à importância da ação internacional do Brasil. Só 1% dos entrevistados acredita que o Brasil deveria cuidar dos seus próprios problemas e esquecer o mundo. Todos querem ser parte da cena internacional. Não há consenso no que se tornou a linha mestra do governo Lula, como a de que o Brasil deveria priorizar o eixo das nações em desenvolvimento e baixar a prioridade da relação com Estados Unidos, Japão e Europa. Isso racha essa comunidade no meio — disse Amaury.

Na visão dele, a concepção original do Mercosul acabou. Agora, há uma grande incógnita.

— Se a Venezuela passa a integrar o Mercosul, qual é o modelo de futuro? Hugo Chávez não aceita as regras básicas de conformação do bloco, quais sejam: economia de mercado, uma área comercial para negociar com o mundo e democracia — diz Amaury Sobre a Coreia do Norte, Lampreia é direto: — O governo da Coreia do Norte é louco, louco de hospício.

Mas tem mísseis e bombas atômicas, o que é altamente perigoso. A comunidade internacional pode fazer muito pouco. O Conselho de Segurança pode aprovar quantas resoluções quiser, que eles não vão dar a menor bola. A única solução real é a China deixar de proteger discreta ou abertamente a Coreia do Norte.

O Brasil terá que lidar cada vez mais com questões globais, por isso, é melhor não cometer tantos erros.

Uma CPMF global

Celso Ming
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O governo da França apresentou quinta-feira, em Paris, durante um evento realizado na sede da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a proposta de taxação das operações financeiras internacionais.

A ideia é instituir uma espécie de CPMF cuja criação foi defendida pela primeira vez em 1972 pelo economista James Tobin, Prêmio Nobel de 1982, que na ocasião se preocupava com o aumento do risco de crise internacional, uma vez que o presidente Nixon havia acabado com o padrão-ouro. Funcionaria como um pedágio que desestimularia operações especulativas.

A proposta ficou conhecida como Taxa Tobin e nunca teve boa acolhida. Em 2001, poucos meses antes de morrer, o próprio Tobin desistiu da sugestão, alegando que fora desvirtuada.

Ela havia sido incorporada pela Internacional Socialista como fonte de recursos para combater a pobreza. Mais interessados na arrecadação do que na sua função regulatória, também os movimentos antiglobalização liderados pela ONG francesa Attac se encarregaram de manter a peteca no ar.

Tal como apresentada agora pela França, essa taxa corresponderia a 0,005% (cinco milésimos) do valor das operações financeiras, o suficiente para proporcionar uma arrecadação anual de US$ 60 bilhões.

Em 1998, o então presidente brasileiro Fernando Henrique pediu, em carta enviada aos chefes de Estado do Grupo dos Sete (G-7), a instituição dessa taxa. Quatro anos mais tarde, o presidente Lula fez a mesma colocação no Fórum Econômico Mundial de Davos, repetida em 2005 pelo então presidente conservador da França, Jacques Chirac.

Os obstáculos políticos para a implantação da taxa são enormes. Os Estados Unidos e a Inglaterra nunca a aceitaram, um pouco por motivos ideológicos e outro pouco por razões práticas. Além disso, um imposto desse tipo exigiria cobranças e controles globais, mais a criação de uma instituição supranacional com poderes para cobrar, transferir recursos e punir sonegadores.

Os obstáculos técnicos também são relevantes. Não há, por exemplo, como distinguir rapidamente uma operação financeira de outra comercial, já que o comércio mundial (de mercadorias e serviços) é largamente financiado. Uma análise sobre a natureza de uma operação dessas levaria dias e, no entanto, as transações são feitas à velocidade da luz, 24 horas por dia.

Numa União Monetária, como a que prevalece na Europa, onde as operações de câmbio entre países foi eliminada, boa parte do fato gerador do imposto desapareceu. Além disso, uma taxa assim criaria mecanismos de compensação que evitariam transferências entre países. Se o Itaú, por exemplo, devesse US$ 1 milhão para o Deutsche Bank e este devesse US$ 1 milhão para o Bradesco, ficaria tudo resolvido se o Itaú passasse US$ 1 milhão para o Bradesco. Não existiria transferência, o imposto estaria sendo driblado e não haveria como impedir esse jogo.

O próprio Partido Socialista Francês uma vez no governo, sob o primeiro-ministro Lionel Jospin, havia desistido da proposta por considerá-la impraticável. Mas, como ocorreu com a ideia do idioma único (o esperanto), sempre aparece alguém que desenterra a Taxa Tobin e proclama que ela tem de ser adotada.

O pavor da grande inflação

Paul Krugman*, The New York Times
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


De repente, todo mundo está falando de inflação. Matérias de opinião severas advertem que a hiperinflação está virando a esquina. E alguns mercados podem estar prestando atenção nessas advertências: os juros de títulos do governo de longo prazo estão subindo, e o medo da inflação futura é a possível razão para essa subida.

Mas será que o medo da grande inflação faz sentido? Basicamente, não - com uma condição da qual tratarei mais adiante. E suspeito que o medo tem a ver, ao menos em parte, mais com política do que com economia.

O mais importante é perceber que não há indícios de pressões inflacionárias neste momento. Os preços ao consumidor estão mais baixos agora do que estavam há um ano e os aumentos salariais perderam a velocidade, em face do alto desemprego. A deflação, e não a inflação, é o perigo claro e presente.

Portanto, se os preços não estão subindo, por que a inflação preocupa? Alguns alegam que o Federal Reserve (Fed) está imprimindo muito dinheiro, o que deve ser inflacionário, enquanto outros afirmam que os déficits orçamentários acabarão obrigando o governo a diminuir seu endividamento pela via da inflação.

A primeira suposição está errada. A segunda poderia estar certa, mas não está.

Agora, é verdade que o Fed tomou ultimamente medidas sem precedentes. Mais especificamente, ele andou comprando muita dívida tanto do governo como do setor privado, e pagando por essas compras creditando reservas extras aos bancos. E, em tempos normais, isso seria altamente inflacionário: os bancos, repletos de reservas, aumentariam seus empréstimos, que impulsionariam a demanda, que empurraria os preços para cima.

Mas estes não são tempos normais. Os bancos não estão emprestando suas reservas extras. Estão simplesmente sentados nelas - aliás, estão enviando o dinheiro de volta ao Fed. Portanto, o Fed não está realmente imprimindo dinheiro, afinal.

Mesmo assim, essas ações não acabariam sendo inflacionárias mais cedo ou mais tarde? Não. O Banco do Japão, diante das dificuldades econômicas não muito diferentes das que enfrentamos hoje, comprou dívida em larga escala entre 1997 e 2003. O que aconteceu com os preços ao consumidor? Caíram.

Tudo por tudo, boa parte da discussão atual sobre inflação traz à lembrança o que aconteceu durante os primeiros anos da Grande Depressão, quando muitas pessoas influentes faziam advertências sobre a inflação mesmo enquanto os preços despencavam.

Haverá risco de inflação depois que a economia se recuperar? Essa é a suposição dos que observam projeções de que a dívida federal poderá subir a mais de 100% do PIB e dizem que a América acabará tendo de reduzir sua dívida pela via da inflação - isto é, empurrar os preços para cima para que o valor real da dívida seja reduzido.

Essas coisas aconteceram no passado. Por exemplo, a França, em último recurso, reduziu as dívidas que contraiu para travar a 1ª Guerra Mundial por meio da inflação. Mas faltam exemplos mais modernos. Nas duas últimas décadas, Bélgica, Canadá e, é claro, Japão passaram por episódios em que suas dívidas excediam 100% do PIB. E os próprios EUA saíram da 2ª Guerra com a dívida excedendo 120% do PIB. Em nenhum desses casos o governo recorreu à inflação.

Então, haverá razão para pensar que a inflação está chegando? Alguns economistas defenderam uma inflação moderada como política deliberada, como maneira de estimular o empréstimo e reduzir o ônus do endividamento privado. Sou simpático a esses argumentos e defendi uma coisa parecida para o Japão nos anos 1990. Mas a defesa da inflação não progrediu entre as autoridades econômicas japonesas de então e não há nenhum sinal de que esteja ganhando força com as autoridades americanas de hoje.

Tudo isso coloca a questão: se a inflação não é um risco real, por que todas as suposições de que ela é? Bem, como vocês podem ter notado, os economistas, às vezes, discordam. E grandes discordâncias são especialmente prováveis em tempos estranhos como os atuais, quando muitas das regras normais já não se aplicam.

Mas é difícil escapar da sensação de que o alarmismo com a inflação é, em parte, político, saindo de economistas que não tiveram nenhum problema com os déficits causados por cortes de impostos, mas, de repente, se tornaram censores fiscais quando o governo começou a gastar dinheiro para salvar a economia. E seu objetivo parece ser pressionar a administração Obama para que abandone esses esforços de salvamento.

É dispensável dizer que o presidente não se deve deixar pressionar. A economia continua em estado lastimável e precisa de ajuda contínua. Sim, temos um problema orçamentário no longo prazo, precisamos começar a assentar os alicerces para uma solução no longo prazo. Mas, no que trata da inflação, a única coisa de que devemos ter medo é do próprio medo.

*Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil

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Natureza humana e privilégios

Leandro Konder
DEU NO JORNAL DO BRASIL / Idéias & Livros

Comecemos pela natureza humana. Afinal, ela existe ou não existe? Em que medida ela pode ser modificada?

Se fosse feita uma pesquisa capaz de observar, empiricamente, milhões de pessoas, os pesquisadores achariam alguma coisa em comum, presente em todos os indivíduos, os que ainda existem e os que já existiram?

Assim como os homens têm dois olhos, dois braços, duas pernas, nem por isso podemos dizer que, se uma infeliz intervenção cirúrgica amputar uma de suas mãos, o indivíduo poderá até ter se transformado no Capitão Gancho, inimigo mortal de Peter Pan, mas não terá perdido aquilo que se convencionou chamar de "natureza humana".

Por outro lado, é evidente que, se um ser tiver somente uma perna, nem por isso terá deixado de pertencer à natureza humana.

No plano psicológico, o problema se complica ainda mais. Quando a alma interfere no corpo, esse poder de interferência é que a torna completamente real.

Ao serem descobertos pelos navegadores europeus, estes se perguntavam qual poderia ter sido a origem dos povos nativos; e acreditavam que eles vinham da Índia (por isso eram chamados índios). Os europeus sabiam que deviam dispor de uma escala de valores para se orientar. Mas o impacto da conquista causou estragos consideráveis tanto no espírito dos índios como no espírito dos colonizadores.

Os valores não são, em geral, criados pelos indivíduos: são inventados pela comunidade. Mas a conquista e a colonização foram feitas por gente que destruía as comunidades indígenas. Ao longo de várias gerações, os espanhóis e os portugueses exploraram e oprimiram os índios e os negros. Assumiam, com desenvoltura, o racismo que lhes convinha.

Pouco a pouco, foram se sofisticando, fizeram um aprendizado de hipocrisia. Aprenderam com seus correligionários ingleses e franceses a fazer concessões à retórica liberal. Condenaram (da boca para fora) procedimentos sórdidos, aos quais recorriam na prática.

Nossos antepassados insistiram há mais de um século na afirmação de que a sociedade brasileira não precisava fazer mudanças, porque já as havia feito. Não carecia de reformas, porque já era uma república, que estava sendo reformada pelo progresso.

República, como o nome indica, era a res publica, a coisa pública. Nossos teóricos inventaram coisa melhor: quando a "coisa pública" dava lucros imponentes, era tratada como "coisa privada" e seus proventos eram desviados para o bolso dos muito ricos, sob a alegação de que, já tendo roubado muito, eles roubariam menos do que os outros.

O maior orgulho dos donos do país é a sinceridade com que eles argumentam: "Somos muito francos. Sabemos que o mito de um regime democrático-igualitário tem feito muito mal à humanidade". E acrescentam: "Os homens são por natureza desiguais. Então a distribuição da riqueza só pode, sensatamente, respeitar e consagrar a desigualdade".

O filósofo Antonio Gramsci, italiano, dizia que, para entender o pensamento político de uma criatura, o que se pode fazer de mais razoável é perguntar a ela se acredita que em algum tempo, no futuro, vamos edificar uma sociedade na qual não existirão nem mandantes, nem mandados. Se, porém, a criatura for pessimista e declarar que "vai ser sempre assim", e insistir em aceitar resignadamente o privilégio dos que exercem o poder, então ela estará contribuindo para que o privilégio se perpetue.

Hoje, o privilégio não só perdura como pisa com firmeza sobre um terreno sólido e amplo, que nós, democratas, socialistas, infelizmente conhecemos mal. Lembro que Marx, no século 19, escreveu: "Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo; trata-se, porém, de transformá-lo". Nas atuais condições, podemos – provocadoramente – dizer que os revolucionários não conseguiram, em geral, revolucionar a sociedade, como pretendiam.

Trata-se de conhecê-la, de interpretá-la de maneira mais efetiva, para transformá-la.

Ofensiva digital

Prosa & Verso
DEU EM O GLOBO

Na capa deste sábado do Prosa & Verso, matéria de Rachel Bertol mostra como as editoras estão investindo em novos tipos de marketing para o livro, com sites, TVs na web e ações em redes sociais. Nos próximos dias, o grupo Ediouro começa a testar na internet a primeira TV digital feita por uma editora no Brasil, cujos programas serão voltados para o conteúdo produzido pelo grupo - além de literatura, a empresa tem muitas revistas, a maioria na área de conhecimento, como ciência e história. De Nova York, a correspondente Marília Martins conta como editoras como Simon Schuster e HarperCollins estão vendo no marketing pela internet uma maneira de "caçar os leitores em casa" em períodos de crise. Da Alemanha, a correspondente Graça Magalhães-Rueter mostra os movimentos feitos por autores europeus contra a digitalização dos livros realizada pelo Google. Miguel Conde faz matéria sobre como o sistema de impressão digital cria novo modelo de relação entre escritores e editores.

Em sua coluna, José Castello escreve sobre "O livro de travesseiro" (Editora Escritos), de Sei Shônagon. Elias Fajardo faz resenha de "Pequenas biografias não autorizadas" (7Letras), de Leonardo Marona. E Marcelo Jacques, professor de literatura francesa da Faculdade de Letras da UFRJ, escreve a respeito de "Zazie no metrô" (Cosac), de Raymond Queneau, um clássico da literatura francesa no Brasil que ganha nova tradução, assinada por Paulo Werneck. Queneau, como diz Marcelo Jacques, foi "um típico intelectual francês do século XX, curioso, inquieto e intensamente envolvido com as grandes questões de seu tempo". O romance foi publicado em 1960 e, um ano depois, Queneau fundou, junto com o matemático François Le Lionnais, o OuLiPo, o Ateliê de Literatura Potencial, seu projeto mais conhecido.

Na edição, ainda, Télio Navega, titular do blog Gibizada, do Globo Online, faz matéria sobre os primeiros títulos da coleção da Companhia das Letras dedicada às histórias em quadrinhos. Entre outros, Navega entrevista Craig Thompson, autor de "Retalhos", premiadíssima HQ.

Boas leituras

Uma celebração recatada ao prazer e à dor de existir

Francisco Quinteiro Pires
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / Caderno 2

Ana Maria Machado estreia nos versos com Sinais do Mar, obra inspirada na observação dos movimentos marítimos

Ana Maria Machado está celebrando seu amor à vida, no que ela tem de prazer e dor, com um gesto inédito. Pela primeira vez, a consagrada autora de obras infanto-juvenis publica uma antologia de poemas - Sinais do Mar (Cosac Naify, 56 págs., R$ 32), que chega às livrarias neste fim de semana. "A poesia permite que eu faça essa celebração de modo recatado, escondido", confessa. A sua poética de temática única e ritmos diversos não é para crianças somente. É para aqueles que veem o mar como o maior dos mestres dedicados a ensinar lições sobre a condução da existência. "O mar nos ensina a noção do tempo cíclico - é só lembrar que a onda vai e vem, a maré enche e vaza", diz. "Essa é uma lição que nós, os ocidentais, não temos arraigada."

A situação piorou, segundo Ana Maria, com a urbanização, que trouxe a luz elétrica, alterando a noção de tempo dada pela natureza. Mesmo modificada pelo avanço tecnológico, essa percepção está intacta nos 19 poemas de Sinais do Mar. A explicação talvez esteja na história familiar da autora, cujos genes podem ser classificados de marítimos: a sua bisavó portuguesa era conhecida na aldeia como Rosa, a Marinheira, e os seus avós capixabas tinham o oceano na soleira do quintal. As caminhadas diárias à beira-mar apenas reforçaram essa tendência natural a relacionar-se com as águas salgadas.

Interessa à escritora carioca, de 67 anos, lembrar que, desde pequena, quando ia à praia acompanhada pelos pais, as ondas como a vida exigiam coragem e respeito. "Se você tenta fugir da onda, ela é mais rápida que você", diz. "A única coisa a fazer é enfrentá-la, mergulhando por baixo, e se deixar sacudir." E uma nunca vem sozinha. É bom pegar ar e mergulhar de novo, ela explica. "Quis mostrar isso num poema, mas tive de jogá-lo fora por não ter ficado satisfeita com a sua forma."

Ela compara o ato de escrever ao movimento das ondas. "Primeiro você rema até o fundo, passando a arrebentação, onde tudo está acumulado, fervendo", diz. "Daí você fica à espera da onda certa para aproveitar a forte energia que vem da profundeza." Depois, vem o processo racional da escrita, quando há a consciência de que não é possível conter o impulso arrebatador da inspiração. "A poesia é uma força da natureza que não domamos, mas com a qual podemos navegar."

A navegação literária de Ana Maria Machado durou mais de 20 anos, tempo em que trabalhou nos poemas. "E era capaz de ficar mais 50 anos a reescrevê-los, porque jamais me dou por satisfeita." Para se explicar, a escritora recorre ao norte-americano Henry James que dizia - "Quem não escreve acha que o maior problema de um autor é por onde começar, mas o problema é saber onde colocar o ponto final." É muito difícil lidar com a criação, esse universo em dilatação que tem de ser enquadrado em letras. "Meus escritos originais vão, aos poucos, se contraindo para ver se seguro essa expansão", diz. "Quando escrevo poesia, sou mais da família do Graciliano Ramos do que do Guimarães Rosa, porque estou preocupada com a economia de meios."

Ana Maria Machado percebe três vertentes em Sinais do Mar, classificadas de "concretas, narrativas e sensoriais". A primeira se refere aos poemas que citam animais como a gaivota (Revoada), o siri (Siri), o caramujo (Bernardo Eremita), a arraia (Arraia) e a água-viva (Dúvida). A segunda se estrutura na evocação sensorial de sons, visões e cheiros ligados ao mar: é o caso de Aquarela, Terral, Salsugem, Maresia, Gala Solar, Facho, Maré Baixa e Farol. A terceira é composta de poemas narrativos, Naus e Nós e Primeiro Mar, os dois trabalhos mais longos, que finalizam a antologia.

Inspirado na figura do marroned, homem castigado com o abandono numa ilha deserta, Naus e Nós é um poema sobre o homem abandonado à própria sorte. Primeiro Mar é uma homenagem à literatura, à imaginação que o domínio das palavras proporciona. "O que se leu mostrava o infinito/ Só não se imaginava tão bonito/ Tão pleno de surpresas e imprevistos." O ritmo é variado. "Alguns poemas são francamente musicais, com exploração de aliterações, outros são mais focados no jogo com as palavras e na disposição delas na página." A forma varia da métrica tradicional à estrutura do cancioneiro popular.

Pintora, Ana Maria Machado pensou em fazer as ilustrações da sua obra. Mas desistiu. A editora apresentou um livro gráfico, inspirado em poemas e canções de Fernando Pessoa (Ode Marítima), Martin Codax (Ondas do Mar de Vigo) e Dorival Caymmi (O Mar). As letras mimetizam movimentos marítimos; o papel evoca a textura da areia. Em Sinais do Mar, a imaginação navega livremente. Ela reafirma a validade de uma crença de Ana Maria Machado - apesar das instituições que estabelecem limites, "todos os artistas continuam imaginando". E provocando o desejo de liberdade em todo indivíduo.

"RUBEM BRAGA É MESTRE ABSOLUTO", DIZ AUTORA

BELEZA LETRADA: "No Brasil temos dois mestres absolutos. Machado de Assis e Rubem Braga", diz Ana Maria Machado, ganhadora do Hans Christian Andersen (2000), o mais relevante prêmio de literatura infantil, e membro da Academia Brasileira de Letras. "Você até pode dizer que o Guimarães Rosa era um escritor maior, mas não dá para aprender a escrever com ele", diz. Aos 14 anos, ela conheceu o velho Braga. "Quando tive vontade de escrever igual a alguém, foi com o Rubem, queria participar da beleza que ele criava com as palavras." E falou de cor parágrafos inteiros das crônicas de Braga. "Era um fascínio total pela maneira de escrever de um homem que mal sabia falar e que expressava coisas profundas com simplicidade." Quando conversa sobre Sinais do Mar, Ana Maria se lembra de Mar, publicado em 200 Crônicas Escolhidas (Record). Rubem Braga relata a primeira vez em que vê o mar. E ele conclui: "Este homem esqueceu muita coisa mas há muita coisa que ele aprendeu contigo e que não esqueceu, que ficou, obscura e forte, dentro dele, no seu peito.

"Naus e Nós

Naus

saem de Sagres
e deixam infantes,
partem de portos
e deixam mortos,
sangram amores
e rumam ao longe.

Singram
águas salgadas
algas sargaças
a pouco nós.Lonas e telas
pranchas e cascos
cordas e cabos
rangem e puxam,
fazem e desfazem

nós.

Velas sem vento
almas sem calma
encalham em sargaços
nas águas salgadas.

Algumas naufragam
soçobram em escolhos
só sobram
sem escolha,
sem escolta,
poucas naus
- e nós.

O desejo do contemporâneo

Antonio Cícero
DEU NA FOLHA DE S. PAULO / Ilustrada

As pessoas que só desejam estar "up to date" acabam por jamais ler os clássicos

O FILÓSOFO Gilles Deleuze diz que "uma boa maneira de ler, hoje em dia, seria tratar um livro assim como se escuta um disco, assim como se vê um filme ou um programa de televisão, assim como se acolhe uma canção: qualquer tratamento do livro que exija para ele um respeito, uma atenção especial, corresponde a outra época e condena definitivamente o livro".

Por mim, cada qual que leia o que quiser da maneira que lhe aprouver. Contudo, quando leio, por exemplo, as bobagens ou trivialidades que são cotidianamente escritas sobre Nietzsche por alguns dos seus fãs, tenho a impressão de que hoje praticamente todo o mundo já adotou a maneira de ler recomendada pelo autor de "Diferença e Repetição". E então tendo a achar que Heidegger é que estava certo, quando recomendava aos seus alunos que adiassem a leitura de Nietzsche para depois que estudassem Aristóteles durante uns dez ou 15 anos.

Deleuze jamais concordaria com isso, pois considerava repressiva a história da filosofia. Segundo ele, as pessoas não se sentem no direito de pensar antes de terem lido Platão, Descartes, Kant e Heidegger. Talvez. Mas eu diria antes que quem não quer pensar sempre acha uma desculpa para tal. Se, na França, é a história da filosofia, no Brasil é a filosofia contemporânea que tem esse papel.

Tradicionalmente o brasileiro, tendendo a considerar-se atrasado em relação ao que se discute no Primeiro Mundo, não se dá o direito a pensar antes de estar a par do "dernier cri" europeu ou norte-americano. Ora, mal se conhece o "dernier cri" e ele já deixou de o ser, de modo que, correndo-se atrás do próximo, deixa-se para pensar por conta própria mais tarde.

Além disso, quem só deseja estar "up to date" acaba por jamais ler os clássicos. A leitura dos contemporâneos toma-lhe todo o tempo.

Quem idolatra o contemporâneo faz pouco caso do passado. Tal pessoa espera que os autores da moda lhe indiquem quais dos autores do passado ainda devem ser respeitados (por exemplo, Spinoza e Nietzsche) e quais devem ser desprezados (por exemplo, Descartes e Hegel).

E, no mais das vezes, como aquilo que os contemporâneos escrevem sobre os autores que recomendam é considerado justamente o supra-sumo destes, torna-se supérflua a leitura dos originais.

Pensemos no significado desse desejo de ser contemporâneo. "Contemporâneo" quer dizer "do mesmo tempo" ou "do mesmo tempo que". Quando dizemos, por exemplo, "Mário e Oswald foram contemporâneos", queremos dizer: "Mário e Oswald foram do mesmo tempo"; e quando dizemos "Leonardo foi contemporâneo de Michelangelo", queremos dizer: "Leonardo foi do mesmo tempo que Michelangelo".

Quando, por outro lado, digo que uma coisa ou pessoa é contemporânea, sem explicitar de quê ou de quem, fica sempre implícito que essa coisa ou pessoa é contemporânea de mim, que estou a dizê-lo. Se digo, por exemplo, "Giorgio Agamben é um filósofo contemporâneo", quero dizer que ele é meu contemporâneo: o que poderia ser dito pelas palavras "Giorgio Agamben é um filósofo do mesmo tempo que eu". Ou seja, o que quer que seja contemporâneo, sem mais, é contemporâneo de mim (seja quem eu for). É claro que, como a contemporaneidade consiste em uma relação comutativa, não posso deixar de, reflexivamente, me reconhecer contemporâneo das coisas ou pessoas que me são contemporâneas.

Isso significa que não tem sentido que eu -seja quem eu for- me diga contemporâneo, sem mais. "Eu sou contemporâneo" significa apenas: "Eu sou do mesmo tempo que eu". Assim também, não tem sentido desejar ser contemporâneo, sem mais, pois "desejo ser contemporâneo" significa apenas:

"Desejo ser do mesmo tempo que eu". Finalmente, não tem sentido desejar ser contemporâneo de alguma coisa ou pessoa contemporânea, uma vez que as coisas ou pessoas só são contemporâneas, sem mais, exatamente na medida em que são contemporâneas de mim e, nessa mesma medida, eu já sou contemporâneo delas.

Assim, o desejo do contemporâneo não passa de sintoma de um agudo provincianismo temporal. Quando se manifesta no campo da filosofia, talvez o melhor antídoto para ele seja exatamente a leitura cuidadosa dos clássicos.

E, de volta a Deleuze, devo dizer que, no lugar de tratar um livro como normalmente se escuta uma canção, acho mais proveitoso, de vez em quando, escutar algumas canções com o respeito e a atenção especial que o bom leitor jamais deixará de dedicar aos bons livros.

Guerreira

Clara Nunes
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sexta-feira, 29 de maio de 2009

O PENSAMENTO DO DIA – Hegemonia - (Gramsci)

“O homem ativo de massa atua praticamente, mas não tem uma clara consciência teórica desta sua ação, a qual, não obstante, é um conhecimento do mundo na medida em que o transforma. Pode ocorrer, aliás, que sua consciência teórica esteja historicamente em contradição com o seu agir. È quase possível dizer que ele tem duas consciências teóricas (ou uma consciência contraditória): uma, implícita na sua ação, e que realmente o une a todos os seus colaboradores na transformação prática da realidade; e outra, superficialmente explícita ou verbal, que ele herdou do passado e acolheu sem crítica. Todavia, essa concepção verbal, não é inconseqüente: ela liga a um grupo social determinado, influi sobre a conduta moral, sobre a direção da vontade , de uma maneira mais ou menos intensa, que pode até mesmo atingir um ponto no qual a contraditoriedade da consciência não permita nenhuma ação, nenhuma escolha e produza um estado de passividade moral e política. A compreensão crítica de si mesmo é obtida, portanto, através de uma luta de “hegemonia” políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política, , atingindo, finalmente, uma elaboração superior da própria concepção real.”


(Antonio Gramsci – Cadernos do Cárcere, volume 1, pág. 103 – Civilização Brasileira, 2006.)

Brics abrem o jogo

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

Do desarmamento nuclear à substituição do dólar como moeda de reserva internacional; da reorganização dos organismos internacionais ao papel do G-20, todos esses assuntos estarão na mesa de negociação em junho, quando haverá um encontro de chefes de Estado dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) em Yekaterinburgo, na Rússia. Para prepará-la, começa hoje em Moscou uma reunião com os responsáveis pelos assuntos estratégicos dos quatro países.

Já há reuniões de chanceleres e dos ministros da Fazenda, mas esta é a primeira vez em que se reúnem os estrategistas daqueles quatro países apontados como os líderes futuros do mundo para tratar de uma agenda geopolítica muito ampla, inovadora e de longo alcance.

A Rússia será representada pelo general Nikolai Patrushev, secretário do Conselho de Segurança da Federação Russa; a Índia, por M.K. Narayanan, conselheiro de Segurança Nacional; a China, por Dao Bingguo, um dos cinco conselheiros de Estado da China e o responsável por supervisionar as relações da China com o mundo. Mangabeira Unger, ministro de Assuntos Estratégicos, representará o Brasil.

Cinco temas básicos estarão em discussão:

O que fazer com o G-20 e o G-8 + 5. Antes de qualquer coisa, segundo Mangabeira Unger, é importante decidir a forma de regulamentar estruturalmente tais uniões como o G-20, que é um fórum muito amplo, ou G-8, se reunindo com os líderes de China, Índia, México, Brasil e África do Sul. E qual deve ser a relação desses novos organismos com a ONU.

Como podemos evitar que as regras e as organizações existentes tendam a impor, em nome da abertura econômica e da estabilidade política, uma determinada fórmula institucional.

Para Unger, o regime mundial do comércio tem evoluído para um maximalismo institucional, que tende a impor aos países comerciantes, em nome do livre comércio, não só o compromisso com a economia de mercado, mas com uma determinada variante da economia de mercado.

"Tende a proibir, sob o rótulo de subsídios, todas as formas de coordenação estratégica entre governos e empresas que os países hoje ricos usaram para enriquecer", resume Mangabeira Unger.

Essa fórmula, segundo ele, provoca resistências entre os Brics, que querem cada vez menos se sujeitar a ela.

Os estrategistas dos Brics discutirão também o papel do dólar como moeda de reserva internacional. A discussão surge com a China, que tem enormes reservas de dólar e teme que seu tesouro se desvalorize, e já propôs trocar o dólar pelo Direito de Saque Especial, do FMI.

Mas o tema é mais amplo, adverte Mangabeira Unger. Ele diz que, embora seja muito comum se comparar o dólar com o padrão ouro, há uma grande diferença: o ouro não estava sob o comando de um Estado.

Ele lembra que nas transações comerciais já há uma evolução empírica e bilateral: Brasil e China organizam um sistema administrado pelos dois bancos centrais para toda noite fazer um balanço em yuan e em reais, sem passar pelo dólar. O desejo de começar a encontrar uma alternativa ao dólar deve evitar, no entanto, que se caia em uma burocracia pesada, como a do Banco Central Europeu.

Segundo Mangabeira, ninguém nos Brics quer uma nova autoridade monetária internacional: "Não queremos substituir a ditadura do dólar pela ditadura de uma burocracia internacional".

As opções mais aceitas seriam ou uma cesta de moedas, de maneira que a dependência de qualquer uma delas fosse atenuada, ou uma "quase-moeda", organizando um sistema o mais simples e mecânico possível, de maneira a reduzir os poderes discricionários das autoridades que o manejassem.

O tema mais delicado para Mangabeira Unger é como fortalecer o único sistema oficial de segurança que existe, o do Conselho de Segurança da ONU.

"Um sistema frágil e falho, um sistema defeituoso", na definição de Unger, mas que é a "única alternativa à anarquia internacional".

Quando os Estados Unidos e seus aliados se julgam ameaçados no seu interesse vital, e julgam não receber da ONU o apoio necessário, eles simplesmente saem do sistema, fazendo com que "o único sistema de segurança que temos seja como um balão, que às vezes é cheio de gás, outras vezes é esvaziado".

Segundo Mangabeira Unger, há uma convicção crescente de que são necessárias duas séries de iniciativas convergentes: reforçar o sistema oficial de segurança para que seja mais eficaz, e aumentar o preço político que uma potência teria que pagar se decidisse atuar por fora dele.

Por fim, o desarmamento nuclear, "que é do interesse especial do Brasil". O Brasil é, sob muitos aspectos, o menos poderoso dos Brics, ou pelo menos assim é percebido, embora o nosso PIB e a nossa população sejam maiores do que o da Rússia. Isso ocorre, na visão de Unger, por havermos solitariamente renunciado aos armamentos nucleares. "O Brasil renunciou duas vezes, por adesão a tratados e por mandamento constitucional. Ao reafirmar essa posição no recente tratado estratégico nacional, o país expressa sua decisão de estar na vanguarda da ciência e da tecnologia nucleares, por conta do amplo espectro do uso pacífico da energia nuclear, mas também porque queremos que a nossa renúncia seja sempre a expressão da nossa vontade política, e não a conseqüência de uma incapacidade científica ou tecnológica".

A premissa maior do tratado de não proliferação nuclear é o desarmamento progressivo, e até agora essa premissa não foi honrada, o que cria uma situação crescentemente perigosa, avalia Unger.

Temos agora o governo dos Estados Unidos disposto a retomar a agenda do desarmamento nuclear, e essa é uma oportunidade que o Brasil quer levar para a mesa dos Brics.

Uma política das arábias

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, discorda da avaliação de que o Brasil só tem colecionado derrotas em disputas por representações em organismos internacionais - "tivemos vitórias importantes, como a escolha do professor Cançado Trindade para a Corte Internacional de Justiça (Haia)" - e rechaça particularmente as análises que atribuem os fracassos a erros de estratégia do Itamaraty.

No último caso, o da perda da vaga na Organização Mundial do Comércio para o México, o chanceler acha que o Brasil não apostou numa causa perdida. Para ele, a candidatura da ministra Ellen Gracie, do Supremo Tribunal Federal, foi uma "opção razoável".

No próximo e mais polêmico episódio, a eleição do diretor-geral da Unesco, Celso Amorim não só confirma o apoio do Brasil ao ministro da Cultura do Egito, Farouk Hosny, como acha esta a melhor opção para o Brasil.

A justificativa é conhecida: aproximação com os árabes. "Nos últimos anos mais que triplicamos o volume de negócios comerciais com esses países. Além disso, formam o único grupo que nunca ocupou a diretoria-geral da Unesco."

E a declaração do egípcio dizendo que queimaria livros em hebraico, que provocam repúdio internacional?

"Foi uma declaração infeliz da qual já se retratou e que certamente não significa uma posição antissemita, muito menos pode ser vista como um impedimento. Até porque, se eleito, ele terá uma condução pautada pela moderação", avalia Celso Amorim.

Na opinião dele, o apoio do Brasil ao nome de Hosny não prejudica as relações com Israel. "Ao contrário, acho até que nos credencia ao diálogo".

O ministro não concorda que seja uma derrota anunciada nem que o Itamaraty tenha feito a escolha errada ao ignorar as candidaturas dos brasileiros Márcio Barbosa, atual diretor adjunto da Unesco, e do senador Cristovam Buarque. "Quem tem dois candidatos não tem nenhum."

Celso Amorim é inflexível diante do argumento de que Márcio Barbosa teria mais chance de ganhar que o egípcio: "Uma coisa é o que o candidato diz, outra é o que os países que votam dizem." Com base nessa prospecção, o ministro continua apostando na eleição de Farouk Hosny. "Fizemos uma escolha, está feita, não tem volta."

Por via das dúvidas, registra: "Se perder, não será uma derrota do Brasil."

Como também, na visão do ministro, não pode ser vista assim a recente perda na OMC, que ensejou uma série de críticas ao Itamaraty.

"Já fiz parte comitê de seleção da OMC e sei que o processo não prima pela exatidão de critérios. Há subjetividades envolvidas, que se alteram conforme o momento e o objetivo do comitê. Por isso, as variáveis todas não podem ser previstas."

O embaixador levanta a possibilidade de o Brasil ter perdido pelo destaque que vem ocupando no cenário internacional e na própria OMC, por posições e vitórias anteriores em contenciosos comerciais e admite até que a decisão tenha levado em conta o fato de um brasileiro (Luís Olavo Baptista) ter ocupado o mesmo posto por oito anos.

Não corrobora, porém, as alegações de que faltou à ministra Ellen Gracie conhecimento específico para se credenciar ao cargo. "Como disse, já fiz parte do comitê de seleção e já fui embaixador em Genebra duas vezes. Já vi serem escolhidos candidatos com perfil jurídico, como o da ministra. Ademais, as informações que me chegavam mostravam boas chances."

Finalmente, vamos ao ponto que, de fato, desconforta e move o ministro Celso Amorim a se manifestar: a interpretação de que sua conduta à frente do Itamaraty não é a de um diplomata a serviço do Estado, mas a de um servidor do governo Lula, obediente aos ditames do grupo ocupante do poder em curso.

O chanceler começa por divergir do conceito. Não vê diferença entre o governo e o Estado. "Sirvo ao Estado quando sirvo ao governo do Brasil, que tem mandato para fazer as transformações importantes que o presidente Lula tem feito em todas as áreas, inclusive na política externa."

A indicação uma integrante do Supremo Tribunal Federal para a OMC não foi feita para "agradar ao presidente". A referência é ao fato de que com isso Lula teria uma vaga aberta no tribunal para indicar o advogado-geral da União, José Toffoli.

"A sugestão não foi minha, foi do antecessor no posto."

Celso Amorim não vê termo de comparação possível entre as funções do Itamaraty e das Forças Armadas no que tange a carreiras tipicamente de Estado.

"A política externa não é uma repetição sempre igual dos mesmos princípios, independentemente de qual seja o governo. É uma política e, como tal, requer adaptação ao tempo, às circunstâncias e às necessidades dos governos."

As críticas, o ministro as vê como infundadas. Na opinião dele, a atual política externa tem rendido ganhos até inesperados. "Diziam que nossas posições prejudicariam as relações com os Estados Unidos, que nunca foram tão boas como agora."

A razão submersa do Itajaí ao Parnaíba

Maria Cristina Fernandes
DEU NO VALOR ECONÔMICO

A Frente Parlamentar de Agricultura escolheu o momento em que quase 400 mil pessoas estão desabrigadas em 12 Estados do Norte e Nordeste, para apresentar um projeto que solapa o que resta de normas ambientais no país. O solene desprezo pela concomitância sugere que as evidências gritantes entre o agravamento das enchentes e o desmatamento predatório hoje move uma resistência política prestes a ser levada à lona pela maioria governista.

O Maranhão é o Estado símbolo dos interesses oligárquicos que, travestidos de ruralistas, abrigam-se na base de apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e comprometem suas conquistas.

O PMDB de José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL), além de maior partido no Congresso, senhor da aliança mais disputada de 2010, e comandante da CPI que se propõe a investigar a maior estatal do país, é também o partido com o maior número de representantes na chamada bancada ruralista. Ao ingressar oficialmente na base governista no segundo mandato de Lula, o PMDB levou os ruralistas a vitórias mais representativas do que as obtidas no primeiro mandato.

O Estado da governadora Roseana Sarney (PMDB) foi o mais afetado pelo dilúvio do outono. Parte dos mais de 120 mil maranhenses atingidos, estão na região do chamado Baixo Parnaíba, o rio que nasce no sul do Estado, atravessa a divisa e forma seu delta no estreito litoral piauiense.

A região é uma das mais pujantes fronteiras agrícolas do Nordeste. Por lá avançam algumas das maiores produtoras de soja, eucalipto e cana-de-açúcar do país. O Fórum de Defesa do Baixo Parnaíba Maranhense, que congrega entidades ambientais e sociais da região, estima que, nos últimos cinco anos, este avanço foi responsável pelo desmatamento de cerca de 25% da mata nativa de uma área de 350 mil hectares que congrega 16 municípios.

José de Ribamar, um dos coordenadores do fórum, relata que as enchentes na região são corriqueiras nessa época do ano. Incomum foi a proporção alcançada este ano, quando aumentou em mais de 30% o número médio de desabrigados.

Conta que o desmatamento é feito com uma corrente de 50 metros de comprimento puxada por dois tratores que vão derrubando tudo o que houver pela frente. O recurso, apelidado de "correntão", liquida rapidamente a cobertura florestal das áreas a serem preparadas para a agricultura.

Um projeto de lei contra o uso do correntão foi derrotado na Assembleia Legislativa.

Conseguiram apenas 13 votos a favor, segundo Ribamar, de PT, PSB e PDT. Estima que 40% das terras da região ocupadas recentemente pelo agronegócio sejam griladas. A fiscalização da posse dessas terras que avançava, ainda que lentamente, sob o governo anterior, voltou à estaca zero na gestão Roseana.

Henrique Cortez, coordenador do Ecodebate, um dos principais portais ambientalistas do país, explica o que aconteceu com o Parnaíba: com a perda de cobertura vegetal no seu entorno, o rio recebe um grande volume de terra com as chuvas. Fica raso e transborda rapidamente quando o volume de chuva aumenta. E este é um fenômeno que só tende a se agravar com as variações climáticas em curso: o índice pluviométrico não mudará, mas as chuvas vão ficando mais concentradas.

Algo parecido aconteceu com o Itajaí, em Santa Catarina, provocando as enchentes do ano passado, com um número menor de vítimas do que as estimadas este ano no Norte e Nordeste.

Se as variações climáticas dependem de um esforço global, é ao poder público local que cabe minorar seu impacto com a recuperação das chamadas matas ciliares, para fazer com que a água da chuva se infiltre no solo, e o desassoreamento dos rios.

E é exatamente o inverso disso que está em curso com a ofensiva ruralista no Congresso. Todas as iniciativas parlamentares que avançam, do Código Florestal à regularização fundiária na Amazônia, o fazem mediante a redução das exigências ambientais para produtores rurais e o aumento da margem de manobra do agronegócio.

Num governo em rota de sucessão eleitoral, não há sinais de que esse avanço ruralista se arrefecerá. Discurso ambiental é útil para presidente recém-empossado posar de estadista, como Lula o fez no primeiro mandato com a senadora Marina Silva (PT-AC) a tiracolo no Ministério do Meio Ambiente. Para firmar as alianças que alinhavarão a campanha, o compromisso ambiental só atrapalha.

Ao salvaguardar os interesses ruralistas pela via da aliança sagrada com o PMDB, Lula corre o risco de despejar rio abaixo muitos dos avanços de seu governo. Vide o exemplo de Chapadinha, município de 67 mil habitantes no Baixo Parnaíba Maranhense, a 250 quilômetros de São Luís.

Há três anos, a Universidade Federal do Maranhão abriu um campus na cidade, dando seguimento à política federal de incrementar a ofertade vagas no ensino superior. Os concursos atraíram professores do Brasil inteiro. E hoje o campus, voltado para ciências agrárias e ambientais, conta com quase 60 professores, a maioria dos quais com doutorado. Nem um terço das 600 vagas estão preenchidas, entre outros motivos, pela dificuldade de infraestrutura na cidade para alojar estudantes.

É de um professor do campus de Chapadinha da UFMA, o sociólogo gaúcho Jeferson Francisco Selbach, o relato: "Quando chegamos aqui, as empregadas domésticas ganhavam R$ 80 por mês. Sem contrato, acumulavam com o Bolsa Família. Começamos a vincular a remuneração ao salário mínimo, com décimo terceiro e férias. A notícia se espalhou e provocou grande reação na cidade. Um candidato a prefeito chegou a assumir, como promessa de campanha, a expulsão dos professores daqui. A cidade tem infraestrutura precaríssima. Na região como um todo, só um terço das residências tem saneamento. Nessas, o cano d"água chega à casa mas não aos cômodos. A cidade tem duas avenidas. O resto é viela. Quando vem uma chuva dessas arrebenta tudo. A colheita dos pequenos agricultores, a quem nossos alunos são formados para assistir, vai embora. A cidade fica em pedaços. Aí começa a romaria dos políticos pedindo dinheiro. Quando a liberação sai, consertam umas coisinhas aqui e ali e o dinheiro desaparece.

Até a próxima enchente".

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

Dilma recebe Collor no Palácio

Adriana Vasconcelos
DEU EM O GLOBO

Dois dias depois de o presidente Lula se reunir com o senador Renan Calheiros, a ministra Dilma Rousseff recebeu ontem, em seu gabinete, o ex-presidente Fernando Collor, indicado para a CPI da Petrobras. Renan articula a participação do PMDB na CPI. Collor representa o PTB, presidido por Roberto Jefferson, na mesma comissão.

Collor é recebido por Dilma após ser indicado para a CPI da Petrobras

Governistas tentam impedir que novas denúncias entrem na investigação

BRASÍLIA. Um dia depois de ser indicado oficialmente para integrar a CPI da Petrobras, o senador Fernando Collor (PTB-AL), um aliado do governo Lula, foi recebido ontem pela chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Nenhum dos dois falou sobre o encontro, o primeiro do senador com a ministra. Os governistas concentraram forças ontem na tentativa de impedir que novas denúncias sobre a estatal sejam incorporadas pela oposição à investigação. Ameaçavam revidar, apurando também a atuação de diretores da estatal durante o governo do tucano Fernando Henrique Cardoso.

Cotado para assumir a relatoria da CPI, o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), defendeu que a investigação se dê, inicialmente, sobre os fatos determinados que motivaram sua criação:

- Temos de começar pelos fatos determinados com calma, sem agonia e sem bater boca, exercendo quando preciso a força da maioria. Se a oposição quiser ampliar a investigação, teremos de decidir se vamos levantar os fatos só desta década ou da passada também.

Temor dos governistas é que CPI fique igual à dos Bingos

O temor dos governistas é que ocorra com a CPI da Petrobras o mesmo que aconteceu com a dos Bingos, que acabou batizada de CPI do Fim do Mundo ao incorporar no seu universo de investigação toda e qualquer denúncia contra o governo. O senador João Pedro (PT-AM), um dos nomes mais fortes para assumir a presidência da CPI, chegou a defender que a nova investigação apure os motivos do acidente com a plataforma P-36, que afundou em 2001 após três explosões, na Bacia de Campos, deixando 11 mortos.

- Essa é conversa de sem-vergonha. O governo Fernando Henrique acabou faz seis anos. Não adianta terrorismo, não vamos deixar que joguem nada para debaixo do tapete. Sempre que esse governo é acusado de alguma coisa, ele vem com essa mesma história de investigar o governo passado - reagiu o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE).

Paralelamente à tentativa do governo de montar sua estratégia de atuação, prossegue nos bastidores da base aliada uma queda de braço entre PMDB e PT pelo comando da comissão. Diante da preferência do líder petista, Aloizio Mercadante (SP), pela indicação de Jucá para a relatoria, o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), disse ontem que ainda não decidiu se reivindicaria a presidência ou a relatoria para seu partido. Se ficar com a primeira opção, tudo indica que Renan dará a vaga a Paulo Duque (PMDB-RJ), deixando ao PT o posto de relator.

No PT a disputa, a princípio, é pela presidência. João Pedro levaria ligeira vantagem sobre a líder do governo no Congresso, Ideli Salvatti (PT-SC). Seus defensores alegam que ele estaria mais disponível para se dedicar à CPI do que Ideli. Outro grupo, porém, diz que o senador não teria experiência para comandar uma sessão da CPI sob a pressão da oposição.

Após 2 anos, só 3% das obras entregues no País

Roberto Almeida
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

De um total de 10.914 empreendimentos do PAC, 74% não haviam saído do papel até dezembro de 2008

De um total de 10.914 empreendimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) distribuídos nos 26 Estados e no Distrito Federal, 3% foram concluídos e 74% não saíram do papel até dezembro de 2008. O balanço foi realizado pelo site Contas Abertas com base em relatórios divulgados pelo comitê gestor do programa.

Segundo o site, os dados são referentes a investimentos previstos pela União, empresas estatais e iniciativa privada nos períodos 2007-2010 e pós 2010. O Estado de São Paulo é o que tem maior número de projetos do PAC concluídos: 39, de um total de 1.051. Destes, 725 ainda estão no papel - entre eles o do trem de alta velocidade que ligará Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas, assim como quatro projetos para o aeroporto de Viracopos e dois para o aeroporto de Guarulhos.

Mato Grosso do Sul aparece em segundo lugar, com 25 obras finalizadas. Em Minas Gerais, estado de origem da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, o quadro é semelhante. Apenas 25 obras foram concluídas. Na Bahia, um dos Estados mais favorecidos pelo PAC, apenas 2% dos projetos foram entregues à população. De um total de 917 ações, somente 16 chegaram a ser concluídas. Do todo, 80% não passaram da fase de planejamento.

Maranhão apresenta o pior quadro, com apenas 3 projetos finalizados entre 385 prometidos. O total de empreendimentos concluídos no Estado chega a apenas 0,8%. Há ainda 56 obras em andamento.

No Piauí, a situação não é muito diferente - 87% das obras continuam no papel. E em Pernambuco, Estado natal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os números são semelhantes. De 679 obras previstas, 86% ainda não foram colocados em prática. Um total de 440 serviços já está contratado, mas apenas 83 obras estão em andamento.

A região Norte, segundo o levantamento, conta com apenas 53 obras realizadas. Nos sete Estados que a compõem - Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins - está prevista a construção de 1.309 empreendimentos.

ORÇAMENTO

Segundo dados do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), compilados pelo Contas Abertas, o orçamento da União para o PAC sofre com a demora na liberação de recursos. Estavam previstos desde 2007 R$ 56,3 bilhões, mas somente 37% do montante - R$ 21,2 bilhões - saiu efetivamente dos cofres públicos.

O levantamento destaca que a execução das obras em Rondônia é a pior entre todas as unidades da federação. Cerca de R$ 107 milhões foram gastos, de um total de mais de R$ 530 milhões - menos de 20% da previsão inicial.

PERÍODOS DIFERENTES

A assessoria de imprensa da Casa Civil informou ontem que o levantamento realizado pelo Contas Abertas passa "falsa impressão de que os números são atuais". "Mistura obras incluídas no PAC em diferentes momentos e que, por isso, não podem ser tratadas da mesma maneira", justificou.

Segundo a Casa Civil, o balanço do PAC divulgado pelo ministério não inclui habitação e saneamento, como fez o levantamento do site divulgado ontem. "A execução desses projetos começou em meados de 2008. Por isso, nos balanços do PAC, os dados sobre a execução dessas áreas são apresentados à parte".

Rio acelera PAC de olho em 2010

Alexandre Rodrigues, RIO
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Obras em favelas devem formar principal vitrine do projeto de reeleição de Cabral e podem impulsionar Dilma

Dois anos depois de lançados, os projetos de urbanização de favelas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Rio começam a ganhar velocidade. Depois de muitas cerimônias de lançamentos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB), as obras foram intensificadas. Nos últimos dias, um formigueiro de operários se desdobra para finalizar os equipamentos que Lula deve inaugurar hoje nos complexos do Alemão e de Manguinhos.

Dados obtidos pelo Estado mostram que a execução orçamentária dos projetos foi baixa em seu início. Pouco mais da metade do dinheiro previsto para as obras das duas favelas foi empregada em 2008. Até o mês passado, menos de 10% da dotação de R$ 219,5 milhões para as favelas do Alemão em 2009 havia sido liquidada. Em Manguinhos, foram empregados menos de R$ 1 milhão dos R$ 107,9 milhões reservados. Na Rocinha, onde as obras estão mais atrasadas, nenhum equipamento está pronto.

As obras em favelas deverão formar a principal vitrine do projeto de reeleição de Cabral em 2010 e podem impulsionar a eventual candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, à Presidência. Foi numa visita às três favelas em março de 2008 que Dilma ganhou de Lula o título de "mãe do PAC".

Aliado de Lula no PMDB, Cabral tenta superar a popularidade abaixo do esperado, de menos de 30% das intenções de voto. Depois de herdar do casal Garotinho um governo de pouca capacidade de investimento, o governador abraçou o PAC de Lula. Só no projeto de favelas do governo estadual, que atinge também o Complexo Cantagalo-Pavão e o Morro do Proventório, em Niterói, o governo federal entra com R$ 731 milhões do total estimado de quase R$ 1 bilhão.

DIFICULDADE

O ministro das Cidades, Márcio Fortes, e o vice-governador Luiz Fernando Pezão, que acumula a Secretaria de Obras, admitiram dificuldades com a burocracia na elaboração e aprovação dos projetos para a liberação dos recursos pela Caixa Econômica Federal. Outro problema é a difícil negociação sobre a indenização de favelados removidos. Moradores se queixam de valores baixos, inferiores a R$ 10 mil.

Segundo o ministro Fortes, os entraves com os projetos do PAC se repetem pelo País. O ministro informou que o governo já trabalha com o horizonte de fechar 2010 com 19% e 29% das obras de saneamento e habitação, respectivamente, incompletas. O secretário Pezão confirmou que as obras devem ser concluídas em 2010.

ESTAÇÕES

No canteiro das obras de elevação da linha férrea que separa comunidades de Manguinhos, o que se vê é só uma grande escavação no local que virará uma área verde de lazer e um terminal de integração ônibus-trem. No Morro do Adeus, chama a atenção a rapidez com que foram removidas dezenas de barracos para a construção da primeira estação do teleférico que ligará seis pontos do Alemão à estação de trem de Bonsucesso. Uma grande via aberta na encosta, que recebe paisagismo, é a pista para um frenético sobe e desce de caminhões e operários que trabalham na estaca matriz da estação.

A fundação de uma segunda, no Morro da Baiana, também está em curso, mas o traçado do futuro meio de transporte alternativo, com suas seis estações e 47 pontos de sustentação dos cabos, ainda está longe da paisagem da megafavela. Mesmo assim, Pezão arrisca. Ele espera pelo menos três estações funcionando em maio.