terça-feira, 10 de junho de 2014

Painel - Bernardo Mello Franco (interino)

- Folha de S. Paulo

Luiz Inácio falou
Três dias depois de reclamar da política econômica do governo, Lula elevou ontem o tom das críticas, em reunião com as cúpulas do PT e da campanha de Dilma Rousseff. A portas fechadas, deixou claro que está irritado com a desaceleração da economia e preocupado com seus efeitos na eleição. O ex-presidente cobra medidas de impacto para recuperar a confiança dos investidores. Além disso, culpa o "ambiente político" e os candidatos de oposição pelo mau humor do mercado.

Quem manda Lula convocou para o encontro o presidente do BNDES, Luciano Coutinho. Ele deu palestra aos petistas durante o horário de expediente do banco.

Onde manda A sede do BNDES fica no Rio. A reunião foi realizada à tarde no hotel da zona sul de São Paulo onde Lula costuma promover eventos de seu instituto.

Mãos atadas Coutinho disse aos petistas que o cenário internacional continua instável, com queda da liquidez e possível aumento dos juros nos EUA. Diante disso, o Brasil não teria margem para "grandes iniciativas".

Copo meio cheio Depois de analisar a conjuntura, o economista afirmou que o país pode crescer menos este ano, mas vai crescer.

Quem dança No governo, as bordoadas de Lula em Arno Augustin, secretário do Tesouro, foram interpretadas como um recado ao mercado: se Dilma se reeleger, a equipe econômica vai mudar.

Bem me quer O vice Michel Temer vê três cenários para a votação que deve confirmar o apoio do PMDB a Dilma. No otimista, com 80% de votos a favor, ele ganharia força na campanha e na formação de um novo governo.

Mal me quer No cenário mais realista, a aliança terá dois terços dos votos e tudo ficará como está. No pessimista, de vitória apertada do "sim", o partido perderia peso nas negociações com o PT.

Acredita em mim Apesar da adesão de aliados a Aécio Neves (PSDB), o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), jura fidelidade a Dilma. No entanto, reclama da oposição do PT local. "A cada dia em que eles batem na gente, o clima fica pior."

Eu voltei Animado com o Datafolha que apontou sua liderança na corrida ao Senado em São Paulo, José Serra reapareceu ontem em evento no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual.

Resta um Se embarcar na disputa com Eduardo Suplicy (PT), o tucano dará trabalho a articuladores de Geraldo Alckmin, que já se esforçam para acomodar PSB e PSD na chapa do governador.

Levanta daí Ministro e vice-governador, Guilherme Afif (PSD) tomou a cadeira de Alckmin na solenidade. De pé, o tucano sorriu amarelo atrás do desafeto.

Sonho meu Alertado, Afif trocou de lugar. "O pior é que a legislação impede que eu seja governador e ministro ao mesmo tempo", brincou.

Aquele abraço Gilberto Gil gravou vídeo em apoio à criação do programa Cultura Viva, da deputada Jandira Feghali (PC do B-RJ). A fala será transmitida hoje no Senado.

Ilha de Caras O convite a Gil foi ideia de Renan Calheiros, que se animou com a visita da apresentadora Xuxa Meneghel na semana passada.

Visita à Folha Maurício de Sousa, presidente da Maurício de Sousa Produções, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Mônica S. e Sousa, diretora-executiva, Larissa Purvinni, gerente de estratégia digital, e Maristela Mafei, diretora-geral da Máquina Public Relations.

Tiroteio
"Negociar pressupõe manter a palavra para ter credibilidade. O governo paulista quebrou o básico, e não me parece que agiu de boa fé."
DE LUIZ ANTONIO MEDEIROS, superintendente do Ministério do Trabalho, que disse ter recebido promessa de readmissão dos metroviários grevistas.

Contraponto
Uma vez Flamengo...
No último ato de prestação de contas dos deputados do PSOL, promovido todas as sextas no centro do Rio, Chico Alencar citou a presença de uma filha.

--Está aqui um dos meus quatro melhores projetos, feitos em parceria, claro. Minha caçula, Nina!

Um motorista de ônibus, que ouvia o discurso diante do sinal vermelho, abriu a porta do coletivo e brincou:

--Quero me eleger seu genro, deputado.

Torcedor do Flamengo, Alencar avistou uma bandeira do Vasco no vidro atrás da poltrona do condutor:

--Acho que você não vai ter legenda, parceiro!

Diário do Poder – Cláudio Humberto

- Jornal do Commercio (PE)

• Projetos de cotas no Congresso ignoram votação
Três projetos criando novas cotas raciais causa polêmica no Congresso porque ignoram o desempenho eleitoral dos candidatos. Uma proposta de emenda constitucional (PEC 116) reserva 50% das cadeiras de deputado federal para quem se declare “negro”, e até já está pronta para ser votada no plenário. Outra proposta, a PEC 320/13, cria quatro vagas para deputados “eleitos por comunidades indígenas”.

• Apartheid legislativo
A separação entre parlamentares negros e “não negros” duraria por 20 anos, com a possibilidade de ser prorrogada por mais 20 anos.

• Verticalidade
A reserva de 50% de vagas para cotistas valeria para Câmara Federal, Assembleias Legislativas estaduais e a Câmara Legislativa no DF.

• Mim deputado
As quatro vagas destinadas aos indígenas seriam adicionadas às 513 atuais e os deputados viriam de eleições específicas nas reservas.

• Meio a meio
Além de indígenas e negros, há também o projeto de Lei 4497/2012, que obriga partidos a apresentar 50% de candidaturas de mulheres.

• Com PF na cola, Ministério agora prega ‘decência’
A propaganda do Ministério do Trabalho na TV virou motivo de chacota até nos corredores do Planalto. O tema dos comerciais é “decência”, algo raro de ser ver nas gestões do PDT no ministério, que foi alvo de ao menos duas operações da Policia Federal, por corrupção, e de denúncias de pagamento de propina a servidores ligados a Carlos Lupi, presidente do PDT, e seu braço direito Manoel Dias, atual ministro.

• A fama na cama
Torcedores ingleses, assim como os americanos, foram aconselhados pelos governos locais a trazer camisinhas, “em caso de necessidade”.

• Calote federal
Embrapa e Cindacta 2 (controle aéreo) não pagam fornecedores há quase dois meses. A grita dos microempesários é geral.

• Cheguei!
A CIA, serviço secreto dos EUA, agora está no twitter, e de bom humor. Já a nossa Abin não passa recibo nem dos cartões corporativos.

• Os donos da bola
Parou na Comissão de Constituição e Justiça do Senado há mais de 1 mês o projeto do senador Armando Monteiro (PTB-PE) que compara vandalismo a homicídio qualificado, com previsão de cadeia de 30 anos.

• Cenário sombrio
Na palestra com financistas em Londres, o herdeiro do Itaú Unibanco, Ricardo Marino, após preconizar a derrota de Dilma, falou de economia traçando cenário de um Brasil sem reformas, a economia crescendo muito pouco, juros elevados, câmbio depreciado e inflação de 6%.

• Deixa como está
Já se passou mais de um mês que o enrolado André Vargas (PR) pediu desfiliação do PT, e até agora Justiça eleitoral e PT não comunicaram à Câmara sua saída. Ele ainda consta como membro da bancada petista.

• Vereda tropical
Estrangeiros que chegam para a Copa topam com autêntica jabuticaba brasileira: as singulares tomadas de três pinos, que impedem o carregamento de celulares e laptops. E saem à caça de adaptadores.

• Vai encarar?
A PM de Minas Gerais está pronta para encarar vândalos mascarados, muitos deles com ligações ao crime organizado. O lema da PM virou grito de guerra: “Se prepara, black bloc, sua hora vai chegar!”.

• Posse histórica
Está confirmada para o dia 16 a posse de Maria Elizabeth Guimarães Teixeira Rocha, primeira mulher a assumir a presidência do Superior Tribunal Militar. O vice será o general Olympio Pereira da Silva Junior.

• Seis por meia dúzia
Após a desistência de Liliane Roriz, que não se sentia à vontade como vice de José Roberto Arruda, antigo inimigo da família, a irmã Jaqueline – também filmada recebendo dinheiro sujo – pode substituí-la.

• Juntos na causa
O ex-ministro Gilberto Gil gravou depoimento pedindo aprovação na Câmara da Lei Cultura Viva, proposta por Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que visa transformar em lei o programa de incentivo à cultura.

• Autoajuda
Lição de otimismo pré-Copa no Twitter: “Veja pelo lado bom. Com a greve, turistas estrangeiros ficaram sabendo que o Brasil tem metrô.”

Panorama político – Ilimar Franco

- O Globo

Fair play
O governo aposta que as paralisações e os protestos pelo país ocorrerão até quinta-feira pela manhã e que, quando a bola rolar, prevalecerá um sentimento cívico e de amor pelo futebol. Na avaliação da cúpula palaciana, os manifestantes sabem que se radicalizarem durante os jogos poderão sofrer um revés, virando alvo dos torcedores a caminho dos estádios e fan fests.

A chapa das interrogações
Voltou ao horizonte eleitoral, em São Paulo, a candidatura do vereador Ricardo Young (PPS) ao Senado, depois da decisão do PSB em indicar o vice-governador na chapa do tucano Geraldo Alckmin. A eventual indicação de Young deixa em uma sinuca de bico a ex-ministra Marina Silva, para quem a aliança no estado é um equívoco. O problema é que ela apoia Young e chegou a defender seu nome para disputador o governo paulista. Outra questão a ser resolvida é quem, afinal, será o vice: Márcio França (PSB) ou Gilberto Kassab (PSD). Ambos os partidos garantem que fecharam a indicação com o PSDB.

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“A selva tributária brasileira é formada, deformada melhor dizendo, por nada menos que 90 tributos, alguns dos quais ainda se ramificam em cipoal”
Fábio Trad
Deputado (PMDB-MS)
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Imagina na Copa
Prevendo que o movimento não deve ser grande durante a Copa, as comissões de Assuntos Econômicos e a de Constituição e Justiça do Senado cancelaram suas sessões, hoje, para evitar preventivamente falta de quórum.

Os rebeldes
A cúpula do PMDB mapeou os dissidentes que farão barulho na convenção, hoje, do partido, que deve oficializar apoio à reeleição da presidente Dilma. Trabalham contra a reedição da chapa o presidente do PMDB do Rio, Jorge Picciani; e os deputados Danilo Forte (CE), Leonardo Quintão (MG), e Raul Henry (PE).

Amordaçados
O Movimento Povo do Santo Ocupa Brasília fará protesto hoje no Ministério das Comunicações, único órgão que não respondeu aos pedidos de audiência. Todos os manifestantes, com mordaças, irão ocupar o saguão do prédio.

Dilma lidera entre os cearenses
Pesquisa Ibope no Ceará mostra a presidente Dilma em ampla vantagem. Ela tem 55% das intenções de voto, enquanto Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) aparecem com 8% e 6%, respectivamente. A vantagem é maior quando considerados eleitores com escolaridade até o ensino fundamental. Dilma chega a 66%.

Amor I Love You
Os cariocas lideram o ranking dos que preferem fazer turismo acompanhados: 95,9% dos entrevistados afirmaram que viajarão em casal até o fim do ano. É o maior índice entre as sete capitais monitoradas pelo Ministério do Turismo.

Quanto vale?
O deputado Marcus Pestana (PSDB) foi ao STF contra Antônio Andrade (PMDB) por quebra de decoro. A ação será analisada pelo ministro Gilmar Mendes. Andrade disse que Pestana teria tentado comprar o apoio do PMDB por R$ 20 mi.
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Nada contra o ovo, mas com tantos problemas para o poder público tratar, deputados fazem audiência hoje na Câmara para discutir sua importância.

Morre aos 88 anos o ex-governador do Rio Marcello Alencar

• Causa da morte do político tucano não foi informada

Juliana Castro – O Globo

RIO - Morreu na madrugada desta terça-feira o ex-governador Marcello Alencar (PSDB). Antes das 7h, o presidente do PSDB no Estado do Rio, deputado estadual Luiz Paulo, e o presidente do partido na capital, deputado federal Otávio Leite, já haviam postado mensagens nas redes sociais sobre o falecimento do companheiro de partido.

Marcello Alencar tinha 88 anos. A causa da morte não foi informada pelos dois tucanos, que postaram fotos ao lado do ex-governador.

"É com pesar que informo a morte do ex-prefeito do Rio e ex-governador Marcello Alencar, aos 88 anos, na madrugada desta terça-feira. Tinha Marcello Alencar como um honrado e respeitado homem público, além de grande líder. Meus pêsames à família e aos muitos amigos que deixa", postou Luiz Paulo no facebook.

"O dia amanheceu triste. Faleceu está madrugada Marcello Alencar. Meu amigo, professor, e minha referência política. Sua história será digna de importantes registros. Saudades", escreveu Otávio Leite na rede social.

Alencar morreu às 4h15m, em casa, no bairro de São Conrado, na Zona Sul do Rio.

- Ele já tinha tido dois AVCs (acidente vascular cerebral). Ia fazer 89 anos em agosto. Foi senador, advogado de presos políticos, prefeito do Rio duas vezes e governador. Estivemos juntos esse tempo todo. Ele tem um histórico imenso. Era presidente de honra do PSDB do Rio. Perdemos a nossa referência aqui no Rio - afirmou Luiz Paulo ao GLOBO.

Advogado, Marcello Nunes de Alencar foi senador pelo antigo estado da Guanabara. Marcello Alencar foi um dos oito senadores cassados pelo regime militar. Ele perdeu o mandato em 1969, após o Ato Institucional nº5, o AI-5. Com a Lei de Anistia, ingressou no projeto político do líder de oposição Leonel Brizola (1922-2004) e filiou-se ao recém-criado PDT.

No primeiro governo de Brizola no estado do Rio (1983-1986), Alencar presidiu o Banerj e foi nomeado prefeito da capital, cargo que ocupou até 1986. Em 1989, após o governo de Roberto Saturnino Braga, ele voltou à prefeitura, dessa vez eleito pelo voto popular. Rompeu com o governador Brizola e, em 1993, filiou-se ao PSDB, apoiando no ano seguinte a candidatura de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República e elegendo-se governador do Rio.

Marcello Alencar: a experiência do trabalhismo social-democrata

• Ex-governador fluminense tentou unir dois modelos da política brasileira

- O Globo

RIO - O trabalhismo e a social-democracia são modelos que marcaram a política brasileira nas últimas décadas. Em várias situações ao longo da História, seus interesses entraram em conflito. Ao assumir o governo fluminense, em 1994, Marcello Alencar tentou juntar as duas vertentes. Experimentou conciliar o choque de gestão pregado pelos tucanos com o forte apelo popular do trabalhismo. Criou um trabalhismo social-democrata.

- Ele construiu um PSDB adaptado à realidade fluminense. Queria dar carne ao esqueleto do partido. Foi bem-sucedido nisso, mas fracassou pela impossibilidade do convívio entre os dois modelos. São correntes de difícil convivência - explica Marly Silva da Motta, do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas.

O advogado Marcello Nunes Alencar, que faria 89 anos em 23 de agosto, trabalhou na Subchefia da Casa Civil do presidente Getúlio Vargas, nos anos 50, e foi procurador-geral do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários (IAPC) no início da década de 60. O cargo o aproximou do então presidente João Goulart, que tinha contato estreito com o meio sindical.

Mais tarde, em 1966, obteve seu primeiro cargo eletivo como suplente do senador Mário Martins, no antigo Estado da Guanabara. Atuou como intermediário entre os estudantes e o governo durante as manifestações de protesto em 1967 e 1968, o que lhe valeu a cassação dos direitos políticos em 7 de fevereiro de 1969, com base no Ato Institucional número 5 (AI-5). Foi preso duas vezes, ficando no total 180 dias detido.

Depois de uma temporada nos Estados Unidos, onde atuou como jornalista nas Nações Unidas, Marcello voltou ao país na primeira metade dos anos 70. Com a anistia, em 1979, e a volta de Leonel Brizola do exílio, foi um dos primeiros a trabalhar pela recriação do PTB, sigla perdida para a deputada Ivete Vargas, o que levou Brizola a criar o PDT.

Brizola deu a ele a Prefeitura em 1983
Em março de 83, aceitou o convite de Brizola, eleito governador um ano antes, para a presidência do Banerj. Em novembro, foi nomeado para substituir Jamil Haddad na prefeitura do Rio — curiosamente, fora reserva do antecessor no time de basquete do Flamengo campeão carioca de 1948. O prefeito era então indicado pelo governador (a eleição direta foi estabelecida em 85). Em 1 de janeiro de 1986, passou o cargo ao prefeito escolhido nas urnas, Saturnino Braga (PDT).

Voltou à prefeitura em 88, desta vez eleito. Sua divergências com Brizola começaram quando o governador, de volta ao cargo em 1991, lançou a radialista e deputada Cidinha Campos como candidata do PDT à prefeitura, contra a vontade de Marcello, que preferia seu secretário de Obras, Luiz Paulo Corrêa da Rocha. As divergências culminaram com a entrada, em 93, de Marcello e de seu grupo no PSDB, então sem expressão no estado. Sua filiação foi prestigiada por líderes nacionais do partido, como Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Ciro Gomes e Tasso Jereissati.

Em 94, ganhou a eleição para o governo derrotando no segundo turno Anthony Garotinho, do PDT. Foi favorecido pelo Plano Real e pela eleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, que levou o PSDB a conquistar o “triângulo das Bermudas” (Rio, São Paulo, com Mário Covas, Minas, com Eduardo Azeredo).

- Ficou evidente a dificuldade de um trabalhista executar um programa social-democrata que significava privatizar, reduzir máquina pública. Havia um certo embaraço — diz Marly.

Marcello não conseguiu eleger seu candidato à prefeitura do Rio em 96, o então deputado Sérgio Cabral Filho, que mais tarde se filiaria ao PMDB, tornando-se desafeto político de Marcello. A eleição daquele ano foi vencida por Luiz Paulo Conde, impulsionado pelo prestígio do ex-prefeito Cesar Maia — como Alencar, um ex-pedetista, que se filiara ao PFL.

Defendeu a emenda da reeleição, que permitiu a Fernando Henrique disputar o segundo mandato em 1998. Mas desistiu de tentar o mesmo, segundo se comentou na época, desestimulado pela impopularidade e por problemas de saúde. Indicou pelo PSDB Luiz Paulo Corrêa da Rocha, que nem chegou ao segundo turno, quando Anthony Garotinho derrotou Cesar Maia.

Em 2000, no segundo turno da eleição municipal, como presidente de honra do PSDB fluminense, esqueceu antigas divergências e reuniu-se com Cesar, que acabou derrotando seu antigo aliado Conde. O PSDB acabou liberando o voto de seus filiados, mas Marcello deixou clara sua preferência ao dizer que Garotinho, que apoiou Conde, era um perigo para o Brasil.

Uma isquemia cerebral em maio de 2002, que deixou sequelas na fala e na locomoção, antecipou o fim da carreira eleitoral do ex-governador Marcello Alencar. Aos 76 anos, quatro depois de deixar o Palácio Guanabara, ele se preparava para se candidatar ao Senado e articulava o lançamento do então prefeito de Duque de Caxias, José Camilo Zito, para o governo do estado.

O ex-governador, embora não tenha disputado mais eleições, vinha mantendo o controle sobre o PSDB no estado na última década. Depois de provocar a saída de Denise Frossard em 2004, quando resolveu apoiar a reeleição de Cesar Maia, ele irritou o ex-senador Artur da Távola ao lançar Eduardo Paes à sucessão de Rosinha Garotinho. A decisão impediu uma nova aliança com o PFL de Cesar, que se juntou à chapa da juíza.

- Como Brizola, Marcello não gostava de sombra. O PSDB fluminense foi criado a semelhança de Marcello, muito centrado em seu líder. Isso reproduz um pouco da matiz trabalhista, totalmente diferente da social democracia paulista — comentou a professora Marly Motta.

O ex-governador Marcello Alencar morreu nesta madrugada. O ex-governador era carioca de Botafogo. Deixa viúva a segunda mulher.

Paulo Vanzolini - Samba erudito

João Cabral de Melo Neto: Os Três Mal-Amados


Joaquim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Opinião do dia: Geraldo Alckmin

"Fiquei muito feliz com a decisão do PSB de compor a nossa aliança aqui em São Paulo. É uma estima desde a época do ex-governador Mário Covas, da ex-prefeita Luiza Erundina. Ao Eduardo Campos, que foi meu colega quando foi governador... tenho grande apreço por todos"

Geraldo Alckmin, governador de S. Paulo. Alckmin elogia Campos após anúncio de apoio. O Estado de S. Paulo, 9 de junho de 2014

Financial Times avalia peso eleitoral da Copa no Brasil

Fernando Nakagawa - Agência Estado

Editorial do jornal britânico Financial Times (FT) defende que o triunfo da seleção brasileira na Copa do Mundo poderá colocar "controvérsias para descansar" no Brasil. Se a equipe perder, ao contrário, o drama poderá ir para fora dos campos e chegar até as eleições presidenciais. Em tom menos crítico que o visto em editoriais recentes, o jornal reconhece que os 12 estádios "provavelmente" estarão prontos "ainda que no último minuto" e reconhece que "seja quais forem as deficiências" do País, a democracia do Brasil é algo a ser comemorado.

"Embora não exista uma correlação entre o desempenho do Brasil em Copas e os últimos resultados das eleições subsequentes, desta vez pode ser diferente", diz o principal editorial do FT desta segunda-feira. Após citar problemas na organização do torneio e acusações contra a direção da Fifa, o jornal econômico diz que o "maior drama fora do campo será do próprio Brasil, especialmente tendo em conta as eleições presidenciais em outubro".

"No ano passado, mais de um milhão de pessoas foram às ruas em protestos contra os serviços públicos de má qualidade. A economia está desacelerando. O índice de aprovação de Dilma Rousseff, embora ainda bem à frente dos adversários, está cedendo. O Brasil pode se sentir atolado em mal-estar", diz o editorial.

Já se o Brasil for hexacampeão mundial, o FT diz que o torneio poderia "levantar o sentimento nacional - porém momentaneamente". "Um derrota poderia cristalizar e aprofundar a desconfiança popular", completa o texto. "Por muitas razões, o País, portanto, precisa emergir de um torneio considerado um sucesso ou, pelo menos, bom o suficiente, especialmente porque quase metade do planeta vai acompanhar os jogos. Dada a hospitalidade e o otimismo naturais dos brasileiros, o mais provável é que sim", aposta o editorial.

Em meio aos protestos populares e críticas à organização, o FT reconhece que os estádios "provavelmente estarão prontos a tempo, ainda que no último minuto". Ao comentar atrasos nas obras, o editorial lembrou da frase de Dilma Rousseff em recente conversa com jornalistas estrangeiros.

"Como a presidente comentou, os atrasos, que não são como na China, são parte do custo de o Brasil ser uma democracia, com uma imprensa livre e o direito de dissidência. Sejam quais forem as deficiências do Brasil, essas qualidades são dignas de comemoração em um torneio que acontecerá uma semana depois do 25º aniversário da repressão contra os protestos na Praça da Paz Celestial". "Que deixem a disputa começar."

PMDB deve ratificar apoio ao PT, apesar de dissidência

Gabriela Guerreiro – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O PMDB deverá confirmar nesta terça (10) sua aliança com o PT na disputa à Presidência, mas ao menos 20% dos peemedebistas com direito a voto na convenção nacional prometem se rebelar contra o apoio a Dilma Rousseff.

Segundo a cúpula do partido, a aliança com Dilma deve vencer com mais de 500 dos 738 votos da convenção.

A presidente confirmou presença no final do evento, em que será aclamada pelos integrantes da sigla apenas após ter garantido o apoio.

Para derrubar a aliança, a ala dissidente teria que mobilizar metade do total de votos -número descartado pelo comando peemedebista.

Ao todo, 510 membros têm direito a voto, mas vários sufragam duas ou três vezes por acumularem funções, como lideranças no Congresso e presidências regionais.

As dissidências só não serão maiores porque o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o vice-presidente Michel Temer, que também é presidente de honra do PMDB, entraram em campo para controlar a rebelião.

Há duas semanas, os dois dedicam grande parte de suas agendas para atender insatisfeitos e prometer mudanças no comportamento do governo em caso de reeleição.

Lula comprometeu-se a subir em palanques de peemedebistas em Estados nos quais Dilma não poderá apoiar oficialmente o aliado.

Temer, por sua vez, conta com apoio de praticamente todas as alas do partido e é considerado figura-chave em um eventual segundo mandato para atuar como principal interlocutor da sigla junto ao Palácio do Planalto.

Mesmo com a repetição da aliança, caciques do PMDB admitem que Dilma não terá facilidade em negociações caso seja reeleita. A principal irritação é a prioridade concedida pela presidente a candidaturas do PT nos Estados.

Os aliados também reclamam da pouca disposição em recebê-los, assim como do estilo da petista, que não flexibiliza apoios nem sinaliza compensações ao PMDB.

PSDB acusa Dilma de 'tentar fazer mineiros de bobos'

Beatriz Bulla - Agência Estado

Algumas horas após Dilma Rousseff deixar Belo Horizonte, onde esteve na manhã de hoje (8), o diretório mineiro do PSDB divulgou nota oficial em que acusa a presidente de anunciar ou inaugurar obras que não contam com recursos federais. "Hoje, domingo, ela esteve em Belo Horizonte para, mais uma vez, tentar fazer os mineiros de bobos", diz a nota do PSDB-MG.

Por volta das 12h deste domingo (8), a presidente visitou os corredores do BRT (Bus Rapid Transit, na sigla em inglês) da cidade e participou da inauguração do Centro de Controle Operacional de Tráfego. Ao discursar no evento, Dilma criticou a ausência de investimentos em mobilidade urbana pelo governo federal em épocas passadas. "O governo federal tomou a decisão, e considero uma decisão histórica, de passar a investir em parceria com as prefeituras, que são responsáveis pelo transporte de massas", disse a presidente, afirmando que as obras "constituem algo que faltava no Brasil, que era a presença do governo federal".

O diretório estadual tucano em Minas, Estado do presidenciável Aécio Neves (PSDB-MG), disparou: "na verdade, essas obras estão sendo feitas com recursos próprios da prefeitura de Belo Horizonte e do governo do Estado". De acordo com os tucanos, os valores que "a presidente diz que direciona para as obras vêm da Caixa Econômica Federal, na forma de empréstimos, que deverão ser quitados pela prefeitura municipal, com juros".

Durante seu discurso, Dilma destacou a carteira de investimentos em mobilidade disponibilizada para as prefeituras e lembrou das condições de financiamento propostas nestes casos. De acordo com a presidente, as prefeituras que decidem investir em transporte de massas contam com condições especiais de financiamento: 30 anos de prazo, com cinco de carência e 5% de juros.

Além da crítica direcionada à gestão dos tucanos no governo federal, Dilma também cobrou em seu discurso resultados na esfera estadual, em Minas: "Espero que nós tenhamos, nessa parceria, uma conclusão rápida dos projetos que estão sob a responsabilidade do governo do Estado para que as obras do metrô possam ser concluídas com rapidez", disse. O governo de Minas Gerais ficou nas mãos dos tucanos de 2003 até abril deste ano, quando o governador Antonio Anastasia deixou o cargo para concorrer nas eleições de outubro.

A resposta do PSDB-MG veio nesta tarde. O diretório do partido reforçou na nota que "é completamente diferente da contribuição do governo de Minas e da prefeitura de Belo Horizonte, cujos recursos são a fundo perdido, caracterizando investimento". "Em outros Estados, Dilma destinou recursos a fundo perdido. Para Minas, apenas empréstimos", criticam os tucanos, que afirmam não existir investimento federal nas obras de mobilidade urbana em Belo Horizonte.

"A tentativa de enganar os mineiros está presente também na propaganda do governo federal", continua o PSDB. De acordo com o partido, o vídeo mostra BRTs na área central da capital mineira, por exemplo, "mesmo que não haja investimento do governo federal neles" e cita obras como a expansão do metrô e a duplicação da BR 381. "Estamos diante de uma prestação de contas do futuro, o que apenas os videntes são capazes de oferecer", ironizam. O partido acusa o vídeo do governo de fazer promessas de realização de obras, "pertinente apenas no horário eleitoral gratuito".

Alckmin comemora decisão do PSB-SP de apoiar sua reeleição

• Governador tucano elogiou o presidenciável do partido, Eduardo Campos, mas não comentou as críticas de Marina Silva

Ricardo Chapola - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Dois dias depois de o PSB anunciar apoio à sua reeleição, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), afirmou neste domingo, 8, ter "grande apreço" pelo pré-candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos. O tucano elogiou o ex-governador de Pernambuco ao comentar a decisão do diretório estadual do PSB, que na sexta-feira aprovou por unanimidade um indicativo de apoio ao seu projeto reeleitoral.

A decisão, que sofre resistência da pré-candidata a vice na chapa de Campos, Marina Silva e de seu grupo, a Rede Sustentabilidade, ainda precisa ser confirmada na convenção estadual do PSB, no dia 21 deste mês.

"Fiquei muito feliz com a decisão do PSB de compor a nossa aliança aqui em São Paulo. É uma estima desde a época do ex-governador Mário Covas, da ex-prefeita Luiza Erundina. Ao Eduardo Campos, que foi meu colega quando foi governador... tenho grande apreço por todos", disse Alckmin depois de inaugurar um trecho da marginal da pista Rodovia Ayrton Senna em Guarulhos, na região metropolitana.

Se confirmada, a aliança entre PSB e PSDB em São Paulo fará com que Campos e Aécio Neves, presidenciável do PSDB, tenham um mesmo palanque no Estado.

No sábado, por meio de nota, Marina classificou a decisão do diretório estadual como um "equívoco" e disse que se a decisão não for revertida a Rede seguirá "caminho próprio e independente no Estado". Presidente nacional do PSB, Campos, porém, tem dito que não vai intervir para impedir a aliança com o governador tucano. Neste domingo, Alckmin não comentou as declarações de Marina.

O PSB quer a vaga de vice na chapa tucana. O cargo também é cobiçado pelo PSD, do ex-prefeito Gilberto Kassab, único partido que ainda está disponível no mercado de aliados. A legenda, que até então lançaria candidatura própria ao governo paulista, abriu tratativas com Alckmin impondo como condição ficar com o cargo de vice na chapa.

Neste domingo, Alckmin desconversou sobre ter Kassab na vaga. "Ainda não há uma decisão. Claro que queremos estar juntos. Mas essa decisão só saíra no final de junho", disse o governador.

Apoio do PSB a Alckmin gera primeira crise com Marina

Daiene Cardoso - Agência Estado

A decisão do PSB paulista de aprovar um indicativo de apoio à candidatura de Geraldo Alckmin em São Paulo provocou a primeira crise na aliança entre o partido e a Rede Sustentabilidade de Marina Silva. No momento em que a candidatura de Eduardo Campos à Presidência da República cai nas pesquisas de intenção de voto, a Rede espera que a Executiva Estadual do PSB volte atrás da decisão da última sexta-feira (6), sob a ameaça de apoiar outro candidato no Estado. A cúpula do PSB acha difícil mudar sua posição.

"Passamos os últimos seis meses discutindo (o palanque estadual) e nenhuma proposta conseguiu conciliar (os interesses). Se a Rede tivesse aprovado meu nome, talvez não tivéssemos chegado a esse impasse", criticou deputado Márcio França, presidente do diretório estadual do PSB de São Paulo.
A 20 dias da convenção que vai chancelar a candidatura de Campos, o ex-governador de Pernambuco ligou para Marina para dizer que havia se esforçado para vencer a resistência do diretório paulista e emplacar uma candidatura própria (como quer a Rede). Ele lamentou não ter conseguido convencer a militância de São Paulo.

Marina não cogita a hipótese de deixar a chapa de Campos, mas deixou claro sua insatisfação ao publicar nas redes sociais uma nota chamando a aliança em São Paulo de "equívoco". O diretório paulista da Rede se reunirá na próxima quarta-feira (11) para discutir quem poderia ganhar o apoio dos "marineiros" na sucessão estadual. "Acreditamos que até a convenção (do PSB) essa posição pode ser revertida", afirmou o porta-voz nacional da Rede, o deputado Walter Feldman (SP).

Embora dirigentes da Rede sejam oficialmente filiados ao PSB, França ressalta que a Rede Sustentabilidade é um outro partido, que assumiu o compromisso de não interferir em questões internas do PSB. Uma eventual mudança de posição só seria possível na convenção estadual, marcada para o dia 20 deste mês. A convenção nacional será no dia 28 em Brasília.

Logo que Marina divulgou a nota rechaçando a aliança com os tucanos em São Paulo, França também usou as redes sociais para dizer que respeitava a ex-senadora, mas que a decisão era fruto de uma votação no diretório. Desta forma, o dirigente considera remota a possibilidade de qualquer intervenção no diretório. "Só admito veto se a pessoa for ligada à desonestidade. E o Alckmin é um símbolo de retidão", defendeu França. Na terça-feira (10), a direção do PSB também deve se reunir em São Paulo para discutir os rumos da campanha e o palanque paulista.

Os aliados de Marina pregam uma candidatura própria nos Estados, principalmente em São Paulo, como forma de desconstruir a polarização entre PSDB e PT. "Ali (em São Paulo) é uma coligação eleitoral e a nossa aliança com o Eduardo é programática. Queremos uma expressão da nova política em São Paulo e não há a possibilidade de apoio a uma chapa sob o comando do PSDB", resumiu Feldman. "Se tivesse uma solução melhor (que o apoio a Alckmin), já teríamos chegado a ele", afirmou França.

Ignorado há 4 anos, plano de governo tucano é turbinado

• Aécio quer usar documento como 'vitrine' de propostas e cogita chamar até José Serra, rival histórico no PSDB, para área da saúde

Pedro Venceslau - O Estado de S Paulo

Ignorado pelo PSDB na última eleição presidencial, o plano de governo do partido será utilizado como ferramenta de marketing pelo senador Aécio Neves (MG), pré-candidato da legenda, na campanha deste ano. A intenção é que o documento contenha inclusive propostas do ex-governador José Serra para a saúde, área da qual foi ministro no governo Fernando Henrique Cardoso.

A estratégia do tucano é transformar a equipe de coordenação do projeto em uma "vitrine programática" de seus aliados. Coordenado pelo ex-governador mineiro Antonio Anastasia e tendo como principal estrela o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, o seleto grupo é tratado pelo partido como esboço da Esplanada dos Ministérios em eventual vitória de Aécio.

Segundo um membro do núcleo duro da pré-campanha, Serra - um rival histórico do senador dentro do PSDB - foi recentemente sondado para integrar o grupo em um almoço em São Paulo com Anastasia. Questionado sobre a resposta de Serra ao convite, Anastasia despista e diz que os dois conversaram apenas sobre "o quadro político nacional".

Na campanha presidencial de 2010, Serra foi criticado por seus adversários por ter registrado um documento de 13 páginas com a íntegra de discursos feitos por ele como se fosse o programa de governo. A lei exige que o projeto seja apresentado no ato da inscrição das candidaturas. O time dos escolhidos por Aécio ainda não se reuniu, mas todos foram orientados a enviar para Anastasia as linhas gerais até a primeira semana depois da convenção, marcada para sábado, em São Paulo.

Caberá a Anastasia a tarefa de sistematizar o material e apresentá-lo em formas de tópicos na inscrição das chapas, no fim de junho. Depois disso, Anastasia sairá de cena e a economista Carla Grasso assumirá o execução do programa final, que ficará pronto em setembro. "A elaboração do documento final será fruto de um processo dialético", disse Anastasia ao Estado.

O ex-governador se refere à diferença de perfis dos integrantes do grupo de programa de governo.

Além de Armínio Fraga, que comanda as propostas da área econômica e defende medidas ortodoxas na economia, fazem parte do time o sindicalista João Batista Inocentini, indicado pela Força Sindical; o ambientalista Fábio Feldmann, que esteve na linha de frente da campanha de Marina Silva em 2010; Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington no governo FHC; e Maria Helena Guimarães de Castro, ex-secretária de Educação de São Paulo na gestão Serra.

Pronatec. O programa mais avançado até agora é o da educação, que será um dos carros-chefe da propaganda de Aécio na TV. Ele prevê a "expansão" e o "aprimoramento" de programas implementados pelo PT, como o Pronatec, criado no governo Dilma em 2011, e o ProUni, no governo Lula em 2004. 

"Ninguém tem o monopólio dos programas", diz Anastasia. "Vamos tornar o Pronatec mais aberto, para pessoas de idades mais avançadas e sem ensino e médio", conclui.

"Vamos usar o plano de governo com força na campanha", completa Paulo Vasconcellos, marqueteiro de Aécio.

Um terço do eleitorado não quer PT nem PSDB, diz cientista político

• Eduardo Campos, do PSB, não conseguiu se colocar como terceira via, o que explica taxa recorde de eleitores sem candidato a quatro meses da eleição, diz cientista político


Ricardo Mendonça – Folha de S. Paulo


SÃO PAULO - Para o cientista político Fernando Abrucio, o recorde de eleitores sem candidato a essa altura da disputa –30% que declaram branco, nulo ou indecisão, segundo o Datafolha– é sinal de um problema da campanha de Eduardo Campos, o pré-candidato à Presidência do PSB.
Abrucio entende que esse eleitorado está sedento por um nome que não seja nem do PT nem do PSDB. Mas Campos, segundo sua visão, está sendo incapaz de se colocar como essa terceira via.

Folha - Quase um terço do eleitorado não tem candidato, um recorde. Tem alguma hipótese para explicar isso?
Abrucio - Há um conjunto grande de eleitores que não quer nem PT nem PSDB. As manifestações de junho de 2013 mostraram algo que algumas pesquisas qualitativas já vinham mostrando. Isso voltou. Explica esses 30% de indecisos, brancos e nulos.

Ficam assim até a eleição?
Difícil dizer. A dúvida é saber se Eduardo Campos vai conseguir pegar esse eleitor, que eu acho que é próximo de um terço do eleitorado. Teria que aparecer uma candidatura capaz de liderar esses, digamos, eleitores de terceira via. Mas por enquanto o Eduardo não conseguiu. E não está construindo um caminho para conseguir. O candidato do PSOL (Ranfolfe Rodrigues) também não. Não é um nome muito carismático.

Em eleições passadas havia candidato de terceira via, mas não tinha eleitor. Agora tem eleitor de terceira via, mas não tem candidato. É isso?
Houve mesmo várias tentativas. Cristovam Buarque, Heloísa Helena, Ciro Gomes. Há um bipartidarismo presidencial desde 1994. Algo próximo de 60% do eleitorado acompanha esse bipartidarismo. PT e PSDB, portanto, ainda têm uma legitimidade que não é pequena. Mas o que vem crescendo são os que não querem nem PT nem PSDB.

Quais são os desafios para se tornar o nome de terceira via?
Primeiro, discurso. Eduardo e Marina não conseguiram achar. Segundo, vitrines regionais. Há um grande conflito no PSB entre formar bancada no Congresso ou marcar posição na eleição presidencial mesmo perdendo cadeiras no Congresso. Não tem jeito. Se o PSB não lançar candidatos no Rio, em São Paulo e em Minas –nomes que representem algo diferente de PT e PSDB, mesmo se for para perder–, Eduardo não terá como fazer discurso de terceira via. Não adianta ir com Geraldo Alckmin [PSDB, em SP], Pimenta da Veiga [PSDB, MG] e Lindbergh Farias [PT, RJ]. O eleitor não vai reconhecer a terceira via.

O que mais dá para dizer do eleitorado sem candidato?
É um eleitor esperando candidato. Os 30% podem ser altos, mas a gente não sabe bem quão alto é. No fim, se não tiver esse nome de terceira via, podem anular, votar em branco ou nem comparecer. Mas, no limite, uma parte vai para Aécio e Dilma. Hoje, do jeito que a campanha do Eduardo está, fica difícil votar nele. Se não tem discurso diferente e anda com os mesmos, por que votar nele?

PT e o PSB estão mantendo fora da eleição seus nomes mais competitivos, Lula e Marina. Isso também explica?
Com Marina e Lula, claro que teria menos brancos e nulos. Acho mais difícil para o Lula substituir a Dilma do que para a Marina substituir o Eduardo. Porque a Dilma é a incumbente, é sua reeleição. Mas não dá para descartar. Se cair abaixo dos 30% ou se resolver desistir, Lula volta. E ganha, com todo o recall. Já Marina estaria colada em Aécio na pesquisa. Aí a vida do Aécio estaria bem mais difícil, com campanha mais agressiva. Ele tem tomado decisões tranquilas nas últimas semanas por causa disso. Eduardo tem sido o candidato que o Aécio sonhou.

O Datafolha mostrou que Dilma, Aécio e Campos variaram para baixo. Como avaliar?
Foram duas notícias boas para a oposição e duas ruins. As boas são que a Dilma já caiu faz tempo daquele piso que ela imaginava ter. O temor agora é que caia para 30%. A segunda é que embora os eleitores que saem da Dilma não optem imediatamente pela a oposição, isso pode ocorrer com a propaganda política na TV. Tem um espaço que pode ser aberto.

E as más para a oposição?
A primeira é que o Lula ainda é um grande eleitor. Os que declaram votar "com certeza" em alguém apoiado por ele (36%) e os que "talvez" votariam (24%) são muitos. Então pode recuperar um pouco a Dilma. A segunda, na verdade é pior para o Eduardo do que para o Aécio, é essa enorme dificuldade para pegar o eleitor de terceira via.

Por que pior para o Campos?
No plano regional, os três estão fazendo a mesma política: buscando TV e palanques. Isso é razoável para Dilma e Aécio, eles são os nomes do sistema. Já quem quer sair como candidato de fora do bipartidarismo não pode fazer o mesmo jogo. É facilitar a via para uma bipolarização.

Qual deveria ser a estratégia de Campos?
A chance dele é chegar próximo do Aécio no fim do primeiro turno e então pegar um voto útil. Já vi pesquisas que, de fato, mostram isso. E a oposição comemora. Mas só tem um detalhe: ele precisa chegar próximo do Aécio. Se não chegar, não tem voto útil. A Marina pode parecer sonhática, distante da "realpolitik", mas nisso ela fez um diagnóstico correto. Diz que no Rio, em São Paulo e em Minas é preciso ter candidatos que demarquem diferença com PT e PSDB.

E as dificuldades do Aécio?
Seus problemas têm a ver com o PSDB. Nordeste é uma situação desgraçada, um eleitorado muito grande, mas em alguns lugares eles não têm nada. Nem como ir. Tem também uma novidade, o pastor do PSC (Everaldo Pereira), que vai pegar um voto mais de direita que poderia ir para o PSDB. Antes, esse eleitor não tinha candidato e ia de PSDB. Agora pode ir para o pastor e ele ser um fenômeno como o Enéas em 1994 [que acabou em terceiro lugar].

A vida do próximo presidente será mais difícil?
Assumirá com boa parte da população descontente com o sistema político. Isso não aconteceu com FHC, Lula e Dilma. O próximo presidente, para construir legitimidade, vai ter de trabalhar mais que os anteriores. Num contexto em que precisará fazer um ajuste nas contas do Estado.

O que explica esse mau humor geral? É justificado?
Acho que há uma dissonância entre a melhoria da sociedade brasileira e a melhoria do sistema político. Um paradoxo. Sem dúvida, foram PT e PSDB que melhoraram o país. Mas eles não foram capazes de melhorar o sistema político na mesma medida. Então o sucesso agora gera essa pressão. Outra coisa: Lula é uma liderança muito importante, mas o PT precisa ter outras lideranças. O PSDB também. Não pode ter só dois candidatos eternamente em todas as eleições de São Paulo. Não pode ficar sem nome no Rio. Renovar.

Outra pesquisa recente mostrou que cresce o apoio à não obrigatoriedade do voto.
Sou contra o voto facultativo. Acho que a gente ainda tem de conquistar uma série de avanços antes. Há dois exemplos muito citados na ciência política mundial. Nos EUA, quem não vota é pobre, negro e latino. E regras vão sendo criadas para que votem cada vez menos. O Brasil ainda tem uma desigualdade muito grande, e isso pode ser um perigo. O outro caso é na União Europeia, a maioria com voto facultativo. Estão produzindo excrescências políticas muito grandes. Assusta olhar o caso francês. Quero ver se na próxima eleição os franceses irão optar por passar seu dia de voto na praia, e aí a família Le Pen vai para o segundo turno.

E o princípio do facultativo?
Temos que discutir qual é a ideia de cidadania e voto. Senão pode cair num princípio completamente individualista. A defesa absoluta do voto facultativo é acreditar que o cidadão é um mero consumidor, e a política é um conjunto de prateleiras no mercado. Eu não acredito nisso.

Como tem visto a onda de protestos que vem desde 2013?
Greves dos sindicatos são naturais. Aproveitar a véspera de Copa e ganhar um dinheirinho, né? (Risos.) Deve ter mais em setembro, véspera da eleição. Novidade é o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto). Esses impressionam. Estão conseguindo rediscutir a política do Minha Casa, Minha Vida, chamando a atenção. Podem conquistar espaço real na política de habitação do PT, que atua numa área que nunca teve organização social.

E o Movimento Passe Livre?
O MPL conseguiu baixar as tarifas do transporte, grande vitória, sem dúvida. Mas é mais difuso. Em transporte não tem como controlar o grupo de beneficiários. Então para eles é bem mais difícil fazer um debate sobre transporte para além da redução da tarifa. Não têm como mobilizar. Tanto que a ideia de tarifa zero não andou. Pressionaram o sistema político, mas não vão muito mais longe. E ideologia sem partido tem validade curta. O MTST é bem mais pragmático: organiza quem não tem casa.

Marina reforça disputa do PSB em MG

Marcos de Moura e Souza – Valor Econômico

BELO HORIZONTE - A ex-senadora Marina Silva, pré-candidata a vice-presidente da República na chapa de Eduardo Campos (PSB), se reúne com aliados hoje em Belo Horizonte para apoiar uma tese que, de um jeito ou de outro, deverá ser vencedora. A de que o partido lance candidato ao governo de Minas Gerais.

Na sexta-feira, Marina foi derrotada ao defender candidatura própria ao governo de São Paulo. O diretório do PSB no Estado aprovou por unanimidade uma aliança com o governador Geraldo Alckmin (PSDB), contrariando o desejo da ex-senadora e de seus aliados.

Em Minas, o PSB chegou a anunciar apoio ao candidato tucano, Pimenta da Veiga. Mas a situação mudou. Ontem, um integrante importante do PSB disse ao Valor que se a convenção estadual votar por não ter candidato próprio, a direção nacional do partido fará uma intervenção para garantir que o PSB lance, sim, um nome para a disputa pelo governo de Minas. O favorito é o presidente do PSB mineiro, o deputado federal Júlio Delgado.

Pré-candidato do PSDB à Presidência, o senador Aécio Neves (MG) gostaria de ter o PSB na aliança de Pimenta da Veiga, o que daria mais tempo de TV ao candidato.

O quadro em Minas passou a ter influência no cenário do Espírito Santo. Lá o governador Renato Casagrande (PSB) quer o PSDB em sua coligação, o que também daria a ele mais tempo na propaganda gratuita da TV. Mas, segundo a mesma fonte do PSB - que pediu para não ser citada pelo nome -, Aécio pôs em banho maria a indicação de um tucano para ser candidato ao Senado na chapa de Casagrande para pressionar o PSB em Minas a não ter candidato.

Marina Silva, que se filiou ao PSB em 2013 depois de não conseguir registrar o Rede Sustentabilidade como partido, quer que o candidato ao governo de Minas seja Apolo Heringer, um veterano militante da esquerda que há anos se integrou a defesa do meio ambiente.

Marina se reúne hoje com aliados do Rede Sustentabilidade para reforçar a defesa de que o PSB deve ter um candidato próprio e que este deve ser Heringer. À noite, faz uma palestra na Universidade Federal de Minas Gerais.

São Paulo e Minas são os dois maiores colégios eleitorais do país. E se não tiver candidato nos dois, o PSB estará escolhendo não dar espaço e palanque que Eduardo e ela precisam para conseguir chegar ao segundo turno, dizem aliados de Marina.

Um deles, Bazileu Margarido, coordenador-executivo adjunto da campanha de Campos e Marina, diz que não ter candidato nos dois Estados "seria algo gravíssimo" e que a indicação do PSB paulista já foi "um fato muito grave". Ficar fora em São Paulo e em Minas, diz, pioraria muito a situação. "Emitiria uma sinalização muito ruim de atrelamento ao PSDB".

Em São Paulo, a decisão de sexta ainda precisa ser referendada pela convenção estadual, prevista para o dia 21, mesma data da mineira.

O mineiro Júlio Delgado, próximo a Aécio e também a Eduardo Campos, foi quem anunciou o apoio do PSB ao tucano Pimenta da Veiga ao governo de Minas. Isso dias depois de este ter sido lançado como pré-candidato pelo PSDB.

Eduardo Campos, ex-governador do Pernambuco, e Aécio Neves tinham na época, segundo aliados dos dois, uma fórmula: o PSDB de Aécio apoiaria o candidato de Campos em Pernambuco; e o PSB de Campos apoiaria o candidato de Aécio em Minas.

Essa fórmula cortês desandou nas últimas semanas com Campos e Marina dando declarações para marcar diferenças deles com Aécio Neves. O reflexo se viu em Minas.

"Estamos conversando, amadurecendo o projeto de candidatura própria", disse o pessebista Júlio Delgado. "Eu não tenho dúvida de que se a ideia da candidatura própria se consolidar, na convenção estadual o meu nome será escolhido."

O grupo mais ligado a Marina não fecha a porta a ele. Bazileu Margarido defende Apolo Heringer como quem melhor representa os valores e o programa de Eduardo Campos e Marina Silva. "Agora, há um espaço para debate".

Apolo exilou-se na Argélia durante o regime militar e lá conviveu com o Miguel Arraes, avô de Eduardo Campos. Tornaram-se amigos e amizade também envolveu mais tarde Heringer e filhos de Arraes.

"O que espero dela [Marina] hoje é um grande apoio ao meu nome e, indignada com esse negócio que aconteceu em São Paulo [em relação ao apoio ao Alckmin], acho mesmo que ela vai ser mais firme aqui", disse Heringer.

O PSB tinha um candidato que era visto como óbvio para disputar o governo de Minas: o prefeito reeleito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, que aparecia nas pesquisas com chances reais de ser eleito. Mas no início de abril Lacerda anunciou que ficaria na prefeitura. Apoiado por Aécio nas eleições de 2008 e de 2012, Lacerda está no grupo do PSB que defende apoio ao candidato do PSDB em Minas.

Ex-senadora tem prazo para sair, diz presidente do partido em SP

Cristiane Agostine - Valor Econômico

SÃO PAULO - Articulador da campanha presidencial do PSB em São Paulo, o presidente do diretório paulista do partido, deputado Márcio França, afirma que o grupo da ex-senadora Marina Silva, Rede Sustentabilidade, já tem prazo para deixar a legenda. Ao impor uma derrota aos "marineiros" com a aliança com o governador e candidato à reeleição Geraldo Alckmin (PSDB), o dirigente deixou clara a divisão da legenda e culpou o grupo da ex-senadora pela falta de acordo.

A decisão do PSB-SP colocou em xeque também o controle de Marina sobre as definições do partido. A pré-candidata a vice na chapa presidencial de Eduardo Campos (PSB) tem dito que não há como pregar a renovação no governo federal e apoiar o PSDB em São Paulo, que comanda há vinte anos o Estado. Marina, ao filiar-se ao PSB em 2013, pediu a Campos alternativa à aliança com o PSDB. Os "marineiros", contudo, foram vencidos por unanimidade na sexta-feira, em reunião do diretório estadual.

No encontro, França minimizou o tamanho do grupo de Marina em São Paulo: o PSB-SP tem 200 mil filiados, enquanto o Rede tem cerca de 100 pessoas, filiadas "na última hora", depois que a ex-senadora não conseguiu criar seu partido. A seguir, trechos da entrevista de França ao Valor PRO, serviço de notícia em tempo real do Valor:

Valor: A decisão do PSB-SP expôs a divisão do partido. Rede e PSB continuam como grupos distintos?
Márcio França: Quando eles [Rede] entraram no partido, fizemos todos os movimentos para fundir em uma coisa só. Eles preferiram trabalhar como se fossem um outro partido. Já que é nessa lógica, não há nada demais eles terem uma posição e a gente outra. São dois partidos.

Valor: A aliança com Alckmin reforçou a fragmentação?
França: Isso sempre houve. Eles não vão ficar com a gente para sempre. Eles têm um prazo, já deram um prazo. Assim que registrarem o partido deles, vão embora. E a gente vai continuar no PSB. A gente sofre a influência deles e é bom, mas não vamos mudar 100%. Senão, vamos nos filiar à Rede. Onde tiver intersecção, vamos juntos.

Valor: Marina pediu uma alternativa em São Paulo. A decisão indica que ela terá pouca influência?
França: Essa é uma questão semântica. Marina disse que o partido precisava de alternativa e oferecemos uma, que era meu nome. A Rede não aceitou. No Amazonas, a Rede queria uma candidatura e nós retiramos a nossa ideia lá e lançamos candidato. A Rede disse que era importante não ir com a senadora [Ana Amélia, do PP] no Rio Grande do Sul. Ficamos com o PMDB, como queriam. Em Brasília, queriam candidato e lançamos Rodrigo Rollemberg. A Rede queria candidato em Minas e fomos com eles. Cedemos em vários Estados e eles vão ceder em outros.

Valor: Qual foi a orientação de Campos nesse processo?
França: Durante muito tempo me orientou a tentar uma conciliação. Foi quando me convenci a ser candidato. Eles [marineiros] não me aceitaram e ficaram brigando comigo como se eu fosse um bicho papão. Se a Rede queria uma candidatura, poderia ter abraçado a que lançamos. Ao não abraçar, claramente deu um sinal de que era melhor procurarmos alternativa.

Valor: Como vai conciliar o palanque quando a disputa ficar mais acirrada entre Aécio e Campos?
França: Quem tem que se preocupar com isso é o Aécio. São Paulo é o principal Estado do PSDB e ele que deveria ficar preocupado com a possibilidade de Alckmin abrir palanque para os dois candidatos. Não podíamos deixar o PSDB sozinho em São Paulo, com 32 milhões de eleitores. Eles controlam 515 prefeituras das 645, entre prefeitos tucanos e aliados. Marina ajudará nas áreas densas, urbanas, mas no interior não tem chegada. Quem fará a interlocução no interior é o governador. É provável que Alckmin esteja no segundo turno, contra PT ou PMDB, que são de Dilma. Se Campos for para o segundo turno, quem faria o palanque dele no Estado sem essa aliança?

Valor: Marina diz que essa aliança é contraditória. Como explicará isso ao Rede?
França: É um equívoco. Em São Paulo, nossa relação com Alckmin se deu nos últimos três anos. Vínhamos no governo, ele nos ajudou em várias campanhas. A ingratidão é um ato forte e só teria condições de fazer um movimento contrário se tivesse grande oportunidade. Se Marina fosse candidata em São Paulo, estava resolvido. Fui prefeito de São Vicente e em 2010 declarei voto nela. Foi a cidade em que ela foi mais votada, entre as grandes, porque declarei meu voto. Tenho legitimidade para dizer que nem sempre ela está certa. Assim como digo a Eduardo que muitas vezes ele não está certo.

Equipe de Dilma é pessimista sobre chances da candidatura de Padilha

Marina Dias, Andréia Sadi – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO, BRASÍLIA - Considerado a fórmula ideal do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ganhar o governo de São Paulo, Alexandre Padilha (PT) enfrenta resistência do comando da campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff, que já faz análises pessimistas quanto ao resultado das eleições para a sucessão do Palácio dos Bandeirantes.

Segundo a Folha apurou, o Estado -considerado prioridade do PT em 2014- passou a ser um problema para a disputa nacional, e alguns interlocutores de Dilma admitem que o pré-candidato do PMDB à sucessão de Geraldo Alckmin (PSDB), Paulo Skaf, pode ser a aposta para um segundo turno.

Integrantes da cúpula da campanha presidencial avaliam que no início do ano o cenário ainda era favorável para o PT paulista.

Mas as coisas mudaram após a citação do nome de Padilha na Operação Lava Jato, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas comandado pelo doleiro Alberto Youssef, e a suspeita de envolvimento do deputado estadual Luiz Moura (PT-SP) com o PCC, episódios que ajudaram a enfraquecer a imagem do partido.

Petistas ouvidos pela Folha afirmam que os casos não atingem diretamente a figura de Padilha, mas o eleitor paulista, de perfil "moralmente conservador", faz ligações diretas entre a sigla e as denúncias de irregularidades, o que prejudica o desempenho do candidato.

Novidade política
O PT tem dificuldade para eleger um nome ao Bandeirantes, governado há quase 20 anos pelo PSDB. Para vencer a resistência no Estado, Lula escolheu Padilha baseado na mesma tese que o fez indicar Fernando Haddad para disputar a Prefeitura de São Paulo: a novidade política.

No entanto, após enfrentar desgastes, a popularidade do prefeito demora a se recuperar e, assim, é difícil contar com ele como propulsor do ex-ministro da Saúde.

Enquanto isso, o candidato do vice-presidente Michel Temer para a sucessão de Alckmin mantém há um ano o patamar de 20% das intenções de votos. Nas últimas semanas, Skaf amarrou alianças importantes, como o Pros e o PDT. Ambos os partidos estavam na conta do PT paulista para a chapa de Padilha.

Apesar de ter sido citado por Dilma Rousseff como "fórmula" da base governista para derrotar o PSDB em São Paulo, Skaf afirma que é "adversário do PT no Estado" e que não espera a presidente em seu palanque.

No início do ano, o PT chegou a estimular a candidatura de Skaf para ajudar a forçar um segundo turno contra Alckmin. Nos últimos meses, porém, a musculatura do peemedebista incomodou o PT.

O partido nutre a esperança de que Padilha deslanche em agosto, com o empenho de Lula e o começo da propaganda eleitoral no rádio e TV.

PSDB critica presidente

Ana Clara Brant – Correio Braziliense

O PSDB de Minas criticou ontem a visita da presidente Dilma Rousseff a Belo Horizonte, a oitava a Minas este ano. De acordo com o partido, as obras inauguradas ou anunciadas pela presidente na mobilidade urbana não têm investimentos do governo federal, ao contrário do que ela (Dilma) tem dado a entender em suas viagens ao estado. Segundo nota divulgada pela legenda em seu site, a governante esteve na cidade para "mais uma vez tentar fazer os mineiros de bobos, ao propagar que é a responsável pelas obras de mobilidade urbana na capital. Na verdade, essas obras estão sendo feitas com recursos próprios da Prefeitura de Belo Horizonte e do governo do estado. Os valores que a presidente diz que direciona para as obras vêm da Caixa Econômica Federal, na forma de empréstimos, que deverão ser quitados pela prefeitura municipal, com juros," afirma o PSDB.

A nota tucana assegura que as provas dessa denúncia podem ser encontradas como Aditivo à Matriz de Responsabilidade assinado entre o governo federal, o governo de Minas e a Prefeitura de Belo Horizonte. O PSDB acrescenta que esse documento desmascara de vez a tentativa do governo federal de apropriar-se de iniciativas alheias. "Ali está claro que, nas obras de mobilidade urbana, como os BRTs, trata-se apenas de dinheiro emprestado pela Caixa, que obviamente receberá de volta cada centavo investido."

O governo de Minas também teve uma reação forte ao discurso da presidente em Belo Horizonte. Em nota distribuída na noite de ontem, rechaçou com veemência o que chamou de "tentativa do governo federal de transferir para o estado a responsabilidade pela não realização de obras de exclusiva responsabilidade da União no estado, como o metrô e o anel rodoviário."

Compromisso oficial
A Matriz de Responsabilidade foi um documento assinado pelo governo federal com os estados e as cidades sedes da Copa do Mundo de 2014.

Nele, estão listadas as obras, especialmente as de mobilidade urbana, que os gestores públicos se comprometeram a fazer para garantir a realização do Mundial. A Matriz foi apresentada àFifa como uma garantia da contrapartida do poder público.

Tática do medo pode ajudar candidatura de Aécio, diz marqueteiro

Entrevista. Paulo Vasconcellos

• Responsável pela campanha tucana, Paulo Vasconcellos afirma que programa teve objetivo de 'segurar o eleitor petista'

Pedro Venceslau e Elizabeth Lopes - O Estado de S. Paulo

Marqueteiro do senador e pré-candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves (MG), em todas as eleições majoritárias disputadas por ele desde 2002, o publicitário mineiro Paulo Vasconcellos minimiza a desvantagem de Aécio no horário eleitoral gratuito na comparação com a presidente Dilma Rousseff - o tucano deverá ter menos da metade do tempo da petista. "Ter muito tempo também é um problema porque precisa encher uma linguiça danada."

Segundo ele, Aécio é o pré-candidato que mais está se expondo, pois precisa ser ficar conhecido. Vasconcellos admite a possibilidade de o tucano lançar uma espécie de carta ao trabalhador para evitar o carimbo de candidato que vai tirar direitos trabalhistas. Para ele, a chamada campanha do medo, inserções do PT que falavam em "fantasmas do passado", tinha por objetivo "segurar o eleitor petista" e, nesse aspecto, foi "corretíssima". Mas diz que se trata de "caminho perigoso", que pode facilitar "a candidatura que está sendo criticada."

Como planeja estruturar a construção da imagem do Aécio na TV?
O problema do Aécio não é a construção da imagem, mas o desconhecimento. Nas (pesquisas) qualitativas que fizemos em março no Nordeste ele não era reconhecido nem por foto. Uma coisa é o sujeito que sai do governo (de Minas) com 92% de aprovação, que é reeleito com 77% e depois vai para o Senado, outra é a campanha nacional. Essa eleição será menos publicitária e festiva. O tom será reflexivo. Nenhum candidato será carregado nos braços do povo como o salvador a pátria. Vai ganhar quem tiver uma história de verdade para contar.

O senador vem combatendo na Justiça o que chama de quadrilhas virtuais contra ele. É possível mensurar se isso já causa algum tipo de dano à sua imagem?
Existe uma luta contra o tempo. Quanto mais rápido o Aécio for apresentado, menos teremos que dar atenção para este assunto. Se teve alguém que apanhou nos últimos meses foi o Aécio. Ele é o pré-candidato que mais está se expondo. A Dilma não participou de nenhuma sabatina, nem participará. O Eduardo (Campos, pré-candidato do PSB) chega com uma imagem um pouco conhecida de todo mundo.

As redes sociais terão um peso muito grande na campanha? Como vê isso?
Me sinto meio caipira nesse assunto. O que sinto é que uma coisa é você ter uma presença cada vez maior de pessoas nas redes sociais, outra é achar que as pessoas estão lá para falar de política. Não consigo imaginar esse tanto de gente na internet fazendo política. É exagero dizer que a internet vai decidir a eleição.

Seria o caso de lançar uma carta ao trabalhador brasileiro para evitar que Aécio seja carimbado pelo PT como candidato que vai tirar direitos trabalhistas?
Isso pode ser necessário e tomara que seja. Acho até que em algum momento será, mas hoje ainda não é. Isso significa que você está incomodando ainda mais. Essa crítica é incipiente.

Como será a estrutura hierárquica da comunicação na campanha do Aécio?
Existem subordinações naturais de conteúdo, mas não de lideranças. A palavra final é sempre do Aécio.

Ele é centralizador?
Ele participa e isso é bom. Às vezes opina mais, às vezes menos, deixando a gente meio abandonado.

Pelo atual quadro das alianças partidárias, tudo indica que Aécio terá um tempo de TV muito menor que o da presidente Dilma. O quanto isso pode ser fatal?
Sempre perguntam qual é o tempo ideal. Eu gosto de 8 (minutos em cada bloco de 25). É o meu número da sorte. Mas perto de 5 (minutos) não será um tempo ruim. Ter muito tempo também é um problema porque precisa encher uma linguiça danada.

Por quê?
Quando o Aécio foi candidato à reeleição (ao governo de Minas) eu tinha 11min30s para trabalhar com ele, que já começou com 48%. Foi até 77%. Isso é uma delícia, né? Já a situação da Dilma e do João (Santana, marqueteiro do PT) é mais delicada. Nenhuma das críticas feita a ela neste semestre foi tratada de forma organizada. Ter muito tempo é uma vantagem, mas existem armadilhas. (Por exemplo), uma superexposição daquilo que não está dando certo pode gerar rejeição. A propaganda potencializa defeitos e virtudes. A mais recente deles, que eu achei corretíssima, teve a preocupação de segurar o eleitor petista.

Você achou "corretíssima" a propaganda do "medo"? Ela foi criticada pelo PSDB.
Achei. A preocupação ali foi segurar uma hemorragia. Em janeiro, ela tinha mais de 40% de intenção de votos. Perto do programa ela estava batendo em 35%. Ela caiu sem ter acontecido nada de relevante.

Existe antídoto para o discurso do medo?
Se você começa a construir ou empilhar medo, isso facilita a candidatura que está sendo criticada. Que me perdoe o PSDB, mas eles fizeram isso lá atrás com a Regina Duarte. Não é um caminho exitoso. Isso começou a acontecer muito cedo. Esse é um caminho perigoso, porque você polariza com um sujeito que está atrás e demonstra medo. Quando você está atrás nas pesquisas o maior sonho é a polarização. Nesse sentido, a mudança de comportamento do Eduardo (Campos) não é necessariamente um erro.

Qual será o papel da Andrea Neves na campanha?
Ela é irmã dele e jornalista, o que é uma coincidência. Essa é a grande verdade. Andrea tem um olhar muito agudo sobre as coisas. Às vezes tem um cuidado exagerado com algumas coisas, mas isso é humano. Ela não consegue ser só jornalista, também é irmã.

Por que colocar FHC na propaganda?
A decisão não foi minha, mas do Aécio. Para o eleitor tucano isso foi um gesto relevante. Hoje há sobre ele uma outra leitura daquela que foi feita no passado. É uma referência nacional do que pode dar certo. A sacada do Aécio foi bem tratada por nós. E a sacada do Fernando Henrique naquela peça de fazer um discurso de "estou indo embora" foi melhor ainda. Ele não era aquele cara que estava entrando na campanha. Ele estava saindo.

Pretende convidar o ex-governador José Serra para a campanha da TV?
Isso vai depender do andar da carruagem. Mas a saúde, por exemplo, é uma área onde ele pode ter um papel importante.

Vocês pretendem tentar atrair parte do eleitorado lulista ou essa será uma campanha 100% de oposição?
O discurso do PSDB foi "PT-dependente" muito tempo. O Aécio não faz política assim, tem uma trajetória para frente. Quando fizemos as primeiras pesquisas, mostramos uma entrevista dele nos lugares onde menos se conhecia. Passaram a sensação de que ele tinha o carisma do Lula e o jeitão do FHC de resolver problemas. Isso veio para a capa do nosso planejamento. O segredo dessa eleição é que não basta ser o novo, é preciso ter feito algo novo. Essa será um pouco a pegada.

A vitória do Brasil na Copa seria ruim para o Aécio?
Isso é uma bobagem. Ele está torcendo para o Brasil ganhar. São dois mundos diferentes.

Quais temas devem ser explorados na campanha?
Aqueles que falam diretamente às pessoas. Hoje, a inflação é um tema que está aí. Má gestão também.

Pretende explorar as manifestações de junho?
Não. Tentar politizar aquilo seria um erro estratégico.

Existe um antídoto para o caso do mensalão mineiro?
Isso nunca esteve no nosso radar. Não é uma agenda nossa.

E o mensalão federal?
O que tinha que acontecer já aconteceu. Acho mais interessante olhar para a má gestão (da Dilma).

O Nordeste é o principal foco?
O problema dele lá é o desconhecimento. Só se resolve isso com mídia de massa, mas a capilaridade das alianças do Aécio, como Flávio Dino no Maranhão e Tasso Jereissati no Ceará, ajuda muito.

Lula receberá qual tratamento?
O Aécio gosta de jogar para valer. O Lula é uma grande liderança, mas não está no radar.

O Campos se descolou do Aécio se dizendo à esquerda dele...
A situação dele é delicada. Ele perdeu o 1.º semestre. A aposta de colocar Marina (Silva) como protagonista não trouxe o resultado imaginado. O Eduardo tinha 6%, 7%, passou para 11% e agora cai. A comunicação dele não deixou nada no colo das pessoas, a não ser a oferta da Marina como vice.

Acha que o eleitor ficou confuso?
Uma das dificuldades da presidenta é a liderança. Lula teve e FHC também, mas ela não está tendo. Isso o Eduardo perdeu quando se apresentou ao País. Ele trouxe uma fórmula mágica, não a imagem de um líder.

A transferência de votos de Marina para Campos o torna mais competitivo?
Não vai acontecer. As duas coisas não se misturam. Grande parte dos votos da Marina em 2010 foi de protesto. Esse voto não necessariamente será repetido agora.