terça-feira, 15 de julho de 2014

Arnaldo Jabor: A volta do complexo de vira-latas

- O Globo

Amigos, vocês passaram o tempo todo da Copa falando de mim: Nelson Rodrigues pra cá, pra lá...
Antes eu era o pornográfico, o reacionário, agora virei técnico de futebol. E me citavam. Todos diziam que tinha acabado o nosso "complexo de vira-latas". Mas esse complexo que eu descobri pode existir também ao avesso (Freud nem me olha aqui no céu, com uma inveja danada). Mas ele não é apenas o pavor diante dos estrangeiros, a cabeça baixa, o "sim senhor", a alma de contínuo. Não. Este complexo aparece na submissão à FIFA, lambendo-lhe os pés como cachorrinhos gratos, nas arenas grã-finas. O vira-latas estava ali. Podemos botar uma fitinha cor de rosa no vira-latas que ele continua sendo um legitimo vira-latas, cheirando postes e abanando o rabo.

Para nossos jogadores ricos e famosos, o Brasil é a vaga lembrança da infância pobre, humilhada. O País virou um passado para os plásticos negões falando alemão, todos de brinco e com louras vertiginosas. Não são maus meninos, ingratos, não; mas neles está ausente a fome nacional "por um prato de comida", a ânsia dos vira-latas.

Já disse e repito que, antes, nas copas do mundo, éramos a pátria de chuteiras. Hoje somos chuteiras sem pátria. Fomos infeccionados pelo futebol europeu, mas pela metade; ficamos na dúvida se somos Pelé ou Dunga.

Nesta Copa, só o povo estava de chuteiras, para esquecer os escândalos que lhe mergulharam em cava depressão.

Foi diferente de 1950. Lá, sonhávamos com um futuro para o País. Agora, tentamos limpar nosso presente. Somos uma nação de humilhados e ofendidos, pois o país é dominado por ladrões de galinha e batedores de carteira. E a população queria que o escrete fizesse tudo que o governo não fez. Mas, era peso demais. O brasileiro não estava preparado para ser o "maior do mundo" em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo, mesmo em cuspe à distância, implica numa grave e sufocante responsabilidade. Além disso, era um time de várzea.

Isso era o óbvio, mas foi ignorado. E quando o obvio é desprezado, ficamos expostos ao mistério do destino. E um dos fatos óbvios foi o endeusamento do técnico. Felipão era mais importante que o time. E ninguém é mais obstinado do que o sujeito que é portador de um erro colossal. O ser humano acredita mais em seus equívocos do que em suas verdades. O técnico é sempre contra a opinião geral.

Em vez de orientar as vocações dos rapazes, Felipão achou que todos tinham de caber em sua estratégia. O técnico devia ser um reles treinador, quase um roupeiro, humilde diante dos craques. Mas o Felipão os tratava como garotinhos inseguros ou então parecia um "Mussolini" de capacete e penacho. A própria figura do Felipão era deplorável - nervoso e mal vestido, quase de pijama, era o retrato físico de nosso despreparo. O único jogador do "passado glorioso" foi o Neymar - Didi, Zizinho, Ademir guiavam seus dribles.

Quando o alemão fez o primeiro gol, sentimo-nos diante da verdade de que os próprios jogadores suspeitavam: éramos 11 solitários, nosso time era uma ilusão que parecia realidade por causa do Neymar. Nossa meta não era o gol; era o Neymar. Esse jovem gênio nos cegou e, com ele, acreditávamos que o Brasil voltaria a seus melhores dias. Mas, o Brasil nunca está em seus melhores dias. Não esperávamos uma vitória, mas uma salvação. Só a taça aplacaria nossa impotência diante da zona brasileira - era a nossa única chance de felicidade.

E aí começaram as interpretações dos idiotas da objetividade: por que perdemos? Tentam explicar a derrota como uma bula de remédio. Como se a derrota tivesse explicação; toda derrota é anterior a si mesma, ela começa 40 anos antes do Nada e vem desabrochar em nossos dias. Mas só podemos entender o que "não" houve. Atrás da derrota, estavam todos nossos vícios seculares: salvacionismo, milagres brasileiros, fé no improviso, vitórias abstratas e derrotas políticas.

Além disso, há entre nós e a loucura um limite que é quase nada. Enlouquecemos diante da Alemanha.

Nessa hora do jogo a loucura explodiu feito uma libertação. Isso. Nossa loucura não foi de Napoleões ou Neros, nossa loucura apareceu como um fundo desejo de parar, de ter sossego. Nos jogadores surgiu a ânsia do fracasso, como uma exaustão diante de tanta incapacidade.

Ao contrario do que disse o Parreira em 2006, de que "não estávamos preparados para perder", dessa vez estávamos todos preparados para a calamidade e secretamente sabíamos disso. Depois daqueles seis minutos em que houve quatro gols, o absurdo adquiriu uma doce, persuasiva, admirável naturalidade. Depois de 5 a 0, queríamos perder mais, queríamos nos espojar na derrota absoluta, sentíamos a doce nostalgia do aniquilamento. E aí, quem surgiu no estádio? O imponderável Sobrenatural de Almeida passou a dirigir o time como um técnico espectral, um fantasma trapaceiro. Dava até para ver que os alemães tiveram pena de nós, os anfitriões desmoralizados.

Até o Felipão fez autocrítica. Mas a autocrítica tem a imodéstia de um necrológio redigido pelo próprio defunto.

É isso. Sempre que vai estourar uma catástrofe, o ser humano cai num otimismo obtuso, pétreo, córneo. E perde.

Agora estamos com uma angústia épica, como uma víbora crispada dentro de nós.

E depois de perdermos para a Holanda por 3 a 0, vimos que não houve derrota - como haver derrota se não tínhamos time? O povo viu no fracasso a confirmação de sua sina de vira-latas e desceu as rampas arrastando os chinelos, como em 1950.

Agora, eis o nosso dilema: ou o Brasil ou o caos. O diabo é que temos a vocação do caos. O Brasil precisa ser feito e nós não o fazemos. O mal da cultura brasileira é que nenhum intelectual sabe bater um escanteio.

Mas ninguém cresce sem sentir o gosto amargo da vergonha. Sempre fomos condenados à esperança, ansiando por uma redenção pelo futebol; mas pode ser que agora a gente vá assumir a própria miséria, a própria lepra, e isso será nossa salvação.

É isso aí, amigos, e só.

Brasília-DF - Denise Rothenburg

- Correio Braziliense

O pós-Copa na tevê
Certos de que a presidente Dilma Rousseff levará o lado bom da Copa para a campanha eleitoral na tevê, a oposição prepara a zaga. Primeiro dirá que o sucesso se deveu à iniciativa privada e à alegria do povo brasileiro. O que dependeu do governo, dizem os oposicionistas, ficou pela metade.
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Nesse quesito, a ordem é mostrar que as obras prometidas pela presidente em 2010 terminaram abandonadas ou incompletas, leia-se a transposição do São Francisco, o trem-bala. Imagens da presidente dizendo que o trem-bala e outros projetos estariam prontos antes do Mundial vêm sendo arquivadas como uma jogada tática a ser usada se necessário.

Última chance
O foco do ministro Ricardo Berzoini (Relações Institucionais) essa semana será a aprovação dos novos diretores da Aneel. A agência vai parar se os indicados não forem nomeados até o fim de julho. Ou seja, está do jeito que a turma do toma lá, da cá adora.

Ah, se fosse Lula...
A ala do "Volta, Lula" não se conforma com o semblante da presidente-candidata Dilma Rousseff na hora da entrega da taça ao capitão da seleção alemã, Philipp Lahm. Essa turma acha que ela perdeu uma bela imagem para exibir na campanha, de forma a separar o sucesso da Copa do desempenho da Seleção Brasileira. É nesse clima dividido que o partido de Dilma entra na campanha.

... Ainda bem que não é
Os oposicionistas, entretanto, gostaram. Acham que agora têm mais um motivo para dizer que o funcionou na Copa foi a alegria do torcedor, da qual a presidente não participou.

O motivo é dinheiro
Os congressistas não estão com a menor vontade de votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias. Sem campanha na tevê e sem dinheiro para colocar uma grande estrutura eleitoral nas ruas desde já, a maioria prefere ter a desculpa de que os afazeres do Congresso lhe impedem de estar no corpo a corpo com o eleitor. Além disso, a campanha, ops, o pronunciamento na TV Senado faz parte do mandato.

E vem mais CPI
Parte dos oposicionistas, entretanto, aproveitará esse período para ver se consegue algum avanço na CPI da Petrobras. Mas o que promete ganhar fôlego no embalo da Copa é a CPI da CBF. "O governo não quer modificar o futebol? Então aí está a oportunidade", diz Randolfe Rodrigues (PSol-AP).

Sem sossego/ O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, só saiu do centro de controle de segurança da Copa, no Rio, no fim da noite de domingo. Agora, está às voltas com nova perspectiva de manifestações de rua. Desta vez em Fortaleza, sede da cúpula dos Brics.

Vai mudar/ A flexibilização provisória do horário de A Voz do Brasil que funcionou no período da Copa entra em pauta no Senado amanhã e o relator do projeto, senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), sugere que essa possibilidade de veiculação em horário alternativo seja permanente. Assim, todas as rádios do país, exceto as educativas, poderão escolher o horário de exibição entre as 19h e as 22h.

Raça nova/ Nas escolas, todos aprendem que existem três raças: branca, negra e amarela. Mas, as excelências declararam mais uma à Justiça Eleitoral: "Parda". Estão nessa Gilvan Borges (PMDB-AP), Jayme Campos (DEM-MT) e outros.

Menino prodígio?/ Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador do Rio Sérgio Cabral, não tem muito o que reclamar da vida. Aos 23 anos, o jovem candidato a deputado federal declarou à Justiça Eleitoral que sua ocupação principal é "estudante, bolsista, estagiário e assemelhados". Em seus bens constam quase R$ 200 mil em depósitos bancários. Eita estágio bom!!!!

Painel - Bernardo Mello Franco (interino)

- Folha de S. Paulo

Vai ou racha
Aliados de Eduardo Campos (PSB) tratam os próximos 30 dias como um período decisivo para suas pretensões presidenciais. A avaliação é que o pernambucano, hoje com 9% das intenções de voto, precisa suar a camisa e chegar ao patamar dos 15% até o início do horário eleitoral. Se continuar abaixo disso, dificilmente será visto como alternativa viável à polarização PT x PSDB. O discurso oficial da campanha é que não há pressa para crescer até a estreia na TV, em 19 de agosto.

Bacanal Recém-convertido ao socialismo, Paulo Bornhausen (PSB-SC) diz, em vídeo divulgado na rede, que o lançamento de sua campanha ao Senado será "abrilhantado" pelo tucano Aécio Neves, rival de Campos.

É crédito? O comitê de Campos e Marina Silva estuda levar tablets para os jantares de arrecadação. A ideia é que, além de pagar pelo convite, os convidados possam fazer doações eletrônicas à mesa.

Monólogo Em seu primeiro dia no Twitter, Aécio reeditou o mote "vamos conversar", mas não respondeu a perguntas nem passou a seguir outros internautas.

Chapa branca Em campanha à reeleição, o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) tem ido a atos oficiais com a equipe de TV de seu futuro programa eleitoral.

De novo? A ministra Marta Suplicy (Cultura) não acompanhará Alexandre Padilha (PT) na caminhada de largada de sua campanha, na sexta-feira. Aliados dizem que ela tinha viagem marcada.

Quem bate cartão Após almoçar com Lula na sexta-feira, Padilha sinalizou novo tom contra Paulo Skaf (PMDB). Sem citá-lo nominalmente, disse que "trabalhador não vota em patrão".

Besouro Tiririca (PR-SP) declarou ser dono de um Fusca 1972. O deputado é palhaço, mas não é bobo: também pilota um Land Rover 2013.

Cartola FC A presidente Dilma Rousseff aceitou sugestão do ministro Aldo Rebelo (Esporte) e deve receber na semana que vem, em Brasília, cerca de dez presidentes de clubes de futebol.

Braçadeira No balanço governista da Copa, Aloizio Mercadante (Casa Civil) se comportou como capitão do time, dando ordens aos demais ministros: "Quando vocês forem falar, não precisam cumprimentar todo mundo".

Drible da vaca Pressionado a falar da atuação da CBF, o petista mudou de tom e tentou passar a bola adiante. "Essa é pro Aldo. Cadê o Aldo?", perguntou a assessores. O ministro havia saído.

Sobrou bandeira O governo contabilizou 236 manifestações no país durante a Copa, com 51 mil participantes e 335 presos. Setores de inteligência haviam detectado convocações para 608 protestos --mais que o dobro.

Meia-volta... A Polícia Federal impediu que 371 estrangeiros entrassem no país durante o Mundial. Entre eles, 87 eram argentinos --a maioria identificada como torcedores violentos.

... volver Também foram barrados 47 nigerianos e 67 americanos, a maior parte por irregularidades na obtenção do visto brasileiro.

Sombra Os ex-agentes da ditadura militar que serão convocados pela Comissão Nacional da Verdade nesta semana terão a opção de depor em caráter reservado, caso não queiram aparecer.

Visita à Folha Antônio C. Quintella, presidente da Peninsula Investimentos, e Heitor Sant'anna Martins, sócio-diretor da McKinsey & Company, visitaram ontem a Folha.

Tiroteio
"O medo da vaia transformou a entrega da taça numa prova de revezamento: Dilma passou o bastão em tempo recorde."
DO DEPUTADO ANTONIO IMBASSAHY (PSDB-BA), líder da sigla na Câmara, sobre a entrega da Copa por Dilma Rousseff ao capitão alemão, Philipp Lahm.

Contraponto
O poeta do Planalto

Em sua batalha frustrada para alterar o slogan da campanha de Dilma Rousseff, o ex-ministro Franklin Martins tentou até o fim convencê-la de que "Muda Mais'' era melhor que "Mais Mudanças, Mais Futuro''. Presente à reunião, João Santana explicou o motivo da escolha do mote com uma "aula'' de semiótica, defendendo que a palavra "mais" tinha de ser colocada à frente. Dilma ficou surpresa com a sofisticação da explanação e brincou:

--João, você é mesmo um poeta!

O slogan escolhido foi "Mais Mudanças, Mais Futuro", como queria o marqueteiro.

Diário do Poder – Cláudio Humberto

- Jornal do Commercio (PE)

• Lentíssima, CPMI da Petrobras é só embromação
A CPI Mista da Petrobras nem se dá ao trabalho de fingir que funciona. Acumula 395 requerimentos sem votar porque os parlamentares não comparecem e, controlada pelo governo, a CPMI nem sequer quebrou sigilos de um dos principais acusados no esquema de corrupção: Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, preso pela Polícia Federal na Operação Lava Jato. Tem outra sessão marcada para esta quarta (16).

• Quadrilha impune
A CPMI foi instalada para investigar o que a Polícia Federal chamou de “quadrilha instalada na Petrobras” para a prática da corrupção.

• Superfaturamento
Além do superfaturamento na refinaria de Pasadena (EUA), a CPMI deveria investigar corrupção na obra da refinaria de Abreu e Lima (PE).

• Cordeiros
O Planalto controla a CPMI por meio do senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), o presidente, e do deputado Marco Maia (PT-RS), o relator.

• Inservíveis
Instalada em 28 de maio, a CPMI só ouviu os depoimentos inócuos de Sergio Gabrielli e Graça Foster, ex e atual presidente da Petrobras.

• Deputados continuam sob ‘folga remunerada’
Após a vagabundagem das semanas anteriores, a pretexto da Copa do Mundo, quando as sessões deliberativas chegaram a ser formalmente canceladas, a Câmara dos Deputados seguiu a folga remunerada ontem, quando apenas 21 dos 513 deputados deram as caras no trabalho. E olhe que havia convocação do presidente da Casa, Henrique Alves, para votar projeto de resolução destinado a derrubar o decreto presidencial que criou os chamados “conselhos populares”.

• Ressaca?
Registrou-se ontem a presença de menos de 10% do mínimo de 257 deputados federais necessários para se abrir uma sessão deliberativa.

• MP pendurada
Os deputados federais também estão devendo a votação da medida provisória 641, que altera regras de comercialização de energia.

• Lá vem o recesso
Após enforcar o mês da Copa, o Congresso entra em recesso na sexta (18), a menos que não votem a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).

• FPM maior
O presidente da Câmara, Henrique Alves, quer colocar votação nesta quarta (16) o aumento em 2% do repasse do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Cortesia com chapéu alheio em ano eleitoral.

• Coisa de amigos
Prefeitos andam irritados com Dilma, que renovou a isenção do IPI para carros, em mais uma ajuda o setor que financia campanhas do PT. O IPI alimenta boa parte do Fundo de Participação dos Municípios.

• Silêncio conivente
Paulo André, ex-Corinthians, que ainda joga porque se mudou para a China, voltou a atacar a CBF, federações e clubes de futebol. Mas faz conveniente silêncio sobre a decisão do governo de retirar a prática esportiva do currículo das escolas, sufocando sonhos e vocações.

• Traqueotomia na pista
Lula convocou os prefeitos do PT paulista para acompanhá-lo em caminhada, nesta sexta (18), para tentar reanimar a nocauteada candidatura de Alexandre Padilha (PT) ao governo de São Paulo.

• Adicional
O Senado promete votar quarta (16) a proposta que prevê adicional de tempo de serviço para magistrados e integrantes do Ministério Público, elevando-lhes os salário em até 35%. Chegariam a R$ 40 mil.

• Besteirol
Dentre as alegações mais preconceituosas, sobre os estádios da Copa no Brasil, é a de que em cinco estados não há jogos da Série A do Campeonato Brasileiro. O Santa Cruz, do Recife, bateu recorde de público quando disputava a Série D, e o Fortaleza na Série C, em 2013.

• Acordo
O senador Eunício Oliveira (PMDB) se convenceu de que a presidenta Dilma e o antecessor Lula não vão pôr os pés nas eleições no Ceará, onde o peemedebista enfrentará Camilo Santana (PT) ao governo.

• Outros tempos
O presidente do PPS, Roberto Freire (SP), garante que não “há essa relação umbilical” entre o tucano José Serra e Gilberto Kassab (PSD): “Houve um afastamento depois que o Kassab se juntou a Dilma”.

• Governo camarada
Isentada de IPI, a indústria automobilística continua dispensada de melhorar suas carroças e reduzir preços para aumentar as vendas.

Panorama político – Ilimar Franco

- O Globo

Crise no financiamento
Os candidatos para o parlamento estão em pânico. São escassos os recursos para dar a largada nas campanhas. A maioria das empresas está segurando as doações. Elas temem que o STF torne ilegal contribuições de pessoas jurídicas. O julgamento está 6 x 1 pela proibição. Faltam quatro ministros votar. A medida só não foi adotada ainda porque o ministro Gilmar Mendes segurou o processo.

O STF ocupa o lugar do Congresso
A reforma política é uma necessidade e todos os partidos defendem realizá-la. Desde a eleição de Fernando Collor, em 1989, o governo depende de alianças para ter maioria. O mesmo ocorre com a reforma. Nada anda porque nenhuma proposta tem maioria para ser aprovada na Câmara. Nesse vácuo, os ministros do STF, que não são eleitos pelo voto, adotaram o atalho de reinterpretar a lei e a Constituição. Aprovada a proibição pelo Supremo, não restará aos partidos outra proposta que não seja o financiamento público, proposta que é defendida pelo partido do governo, o PT. Em 2010, 71,7% das doações foram feitas por empresas. No caso do PT, 83%; e, do PSDB, 68%.

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“A campanha é irracional. Em 80 dias, vou visitar 120 municípios. Temos que adotar o voto distrital ou a lista fechada. O pior dos mundos é o modelo atual”
Marcus Pestana, deputado federal e presidente do PSDB de Minas
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Ocupando espaço
Os tucanos criticam a tentativa do governo Dilma de se apropriar eleitoralmente da Copa. Na Esplanada, o que incomoda é a atuação do ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil) para assumir o protagonismo da ação do Executivo.

O que fazer?
Irritação grande no PT do Rio e do candidato ao governo Linbergh Farias. Surpresa com as desconcertantes declarações do candidato ao Senado da chapa, Romário. O aliado defende que o PT tem que deixar o poder. O mal-estar tomou conta do partido. Os dirigentes regionais do PT aguardam o presidente Rui Falcão para reagir.

Meia-sola
Os petistas se deram mal no Espírito Santo. Eles desistiram do governador Renato Casagrande (PSB) e foram abandonados por Paulo Hartung (PMDB). O ponto de apoio da presidente Dilma será o candidato ao Senado João Coser (PT).

Nos bastidores
Sobre eventuais divergências entre João Santana e Franklin Martins, um ministro comentou: “Eles têm gênios fortes e, às vezes, veem as coisas de forma diferente. Mas é a presidente quem decide”. Depois, ele ironiza dizendo que, se eles pensassem igual, não seria preciso contratar os dois. Seria mais barato ficar apenas com um deles.

Improviso
O senador Vital de Rêgo (PMDB), candidato a governador (PB), está no escuro. Todas as pesquisas para enfrentar o governador Ricardo Coutinho (PSB) foram feitas com seu irmão, Veneziano. Vital virou candidato na reta final.

Tocando flauta
O ministro Guido Mantega (Fazenda) assistiu ao jogo do Brasil, no último sábado, no camarote da Fifa. Sua expressão foi de perplexidade com a derrota. Por isso, um holandês, que também estava lá, aproximou-se e pediu desculpas.

ESVAZIADO. O Congresso não deve votar hoje. A presidente Dilma convidou alguns líderes para almoçar hoje, com os Brics, em Fortaleza (CE).

Maria Rita - A Festa

Pablo Neruda: O Pai

Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.

Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.

Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.

Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.

Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.

Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...

E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.

Pablo Neruda, in "Crepusculário"
Tradução de Rui Lage


segunda-feira, 14 de julho de 2014

Opinião do dia: José Álvaro Moisés

“Essa Copa está politizada desde o início. Quando o ex-presidente Lula propôs a candidatura do Brasil, atrelou-a ao desempenho do governo.

As pessoas estão mais críticas, mas também não é uma coisa direta. Não é porque a seleção fracassou que a Dilma vai perder a eleição. Mas elas entendem que, a despeito do clima favorável durante a Copa, o país tem muitos problemas que precisam ser encarados de frente.”

José Álvaro Moisés, cientista político e professor da USP. O Globo, 14 de julho de 2014.

Copa sai do campo e segue nas eleições

• Planalto e Fifa alteram protocolos para evitar vaias, mas Dilma Rousseff é hostilizada no Maracanã. Com o fim dos jogos, debate sobre o torneio deve se concentrar na reforma do esporte e no saldo das obras para o Mundial

Denise Rothenburg – Correio Braziliense

A Copa da Fifa deixa os gramados para entrar na eleição. A ordem entre os oposicionistas agora, passado o Mundial, é lembrar que os problemas brasileiros ficaram amortecidos, daí, as vaias à presidente Dilma Rousseff ontem no Maracanã. Da parte do governo, entretanto, a estratégia é ressaltar o sucesso da "Copa das Copas", que conquistou os estrangeiros e deixou ao país não só uma boa imagem perante o mundo, como também uma série de obras, tentando assim minimizar as hostilidades à presidente na abertura e no encerramento do evento.

Ontem, Dilma e seus principais assessores, com a colaboração da Fifa, fizeram tudo o que estava ao alcance para evitar desgastes. A presidente, por sua vez, chegou em cima da hora do jogo, perdendo todo o início da festa de encerramento. A justificativa oficial foi a de que ela saiu tarde do Palácio Guanabara, mas o atraso evitou uma exposição presidencial antes do jogo, como ocorreu no Itaquerão durante a abertura.

Da parte da Fifa, o empurrãozinho para evitar o desgaste presidencial se deu em dois momentos. O primeiro foi fechar a cerimônia de passagem da bola ao comandante do próximo país anfitrião do Mundial, Vladimir Putin, da Rússia. Ali, todos puderam discursar longe dos olhos dos torcedores. Ao desejar sorte para os russos, Dilma tratou mais uma vez de separar a sucesso do Brasil nos gramados da organização da Copa: "Nós, brasileiros, guardaremos a emoção e satisfação de ter realizado um evento muito bem-sucedido, uma Copa que só não foi perfeita porque o hexa-campeonato não veio", disse.

A vaia mais forte à presidente veio logo depois do fim da partida, no momento em que ela entregava a taça ao capitão da seleção da Alemanha, Phillip Lahm. Os técnicos de som chegaram a aumentar o áudio para diluir a hostilidade à presidente e à própria Fifa. Dilma rapidamente passou o troféu ao jogador e se recolheu atrás da equipe, deixando a área da frente para os alemães. Ela ficou apenas três segundos com a taça em mãos. Antes desse momento, Dilma havia sido xingada, quando sua imagem foi exibida cumprimentando o técnico da Argentina, Alejandro Sabella.

Equipe rachada
Se nem todos os dribles da Fifa e da assessoria de Dilma conseguiram evitar as vaias, o sucesso da Copa — aeroportos funcionando, segurança a contento e estádios lotados sem registro de graves incidentes — não impediu arestas na equipe de campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff. As divergências internas vieram por aquilo que alguns petistas consideraram "erro de avaliação": misturar o fraco desempenho da Seleção nos gramados às ações do governo.

Alguns integrantes da equipe de campanha afirmam nos bastidores que a "salada" de futebol com política resultou num post do site Muda Mais, capitaneado pelo ex-ministro de comunicação Franklin Martins, um dos coordenadores da campanha. O artigo traz críticas pesadas à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e seus cartolas. Dilma não gostou. A presidente tem feito todo o esforço para separar a logística da Copa do resultado no futebol. O post, na avaliação de muitos, traz para dentro do governo o desgaste da Seleção e, em sendo a CBF uma instituição privada, não seria de bom tom a campanha se envolver nesse tema.

Franklin, entretanto, não teria gostado de ataques ao artigo, e a relação entre ele e a presidente ficaram estremecidas. Terminada a Copa, a ordem será colocar a eleição em campo assim que terminar a reunião dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) ao longo desta semana. Depois, será hora de colocar os dois pés na campanha, especialmente, nas gravações dos programas de tevê, a maior aposta da equipe de Dilma para esta temporada eleitoral.

Dilma é vaiada na entrega de prêmios na final da Copa

Jamil Chade e Silvio Barsetti - Agência Estado

A presidente Dilma Rousseff foi vaiada e ofendida com intensidade quando sua imagem surgiu nos telões do Maracanã, durante a entrega das premiações aos melhores da Copa do Mundo. Durante e após a decisão da Copa do Mundo, ela foi hostilizada cinco vezes ao todo por parte do público que compareceu ao estádio.

A manifestação se repetiu quando ela apareceu cumprimentando o técnico da Argentina, Alejandro Sabella e foi mais forte no momento em que Dilma entregou o troféu de campeão para o capitão do time alemão, Philipp Lahm. Nesse instante, as vaias se transformaram num cântico ofensivo à presidente.

Ela ficou o troféu em mãos por apenas três segundos. Antes, quando os alemães recebiam apenas as medalhas pelo título, a euforia da torcida alemã abafou outras vaias à presidente. A música alta no estádio também ofuscou os apupos. Os telões evitaram mostrar a presidente sozinha em meio a outras autoridades, durante a cerimônia.

Volta rápida ao trabalho

• Deputados planejam encerrar o semestre com esforço concentrado para derrubar o decreto do Executivo que submete a conselhos populares decisões sobre políticas governamentais

Amanda Almeida – Correio Braziliense

Depois de um mês em que Copa do Mundo virou sinônimo de férias e de tempo para campanha eleitoral — sem desconto no contracheque —, os parlamentares desembarcam hoje em Brasília para uma provável única semana de trabalho, antes de uma nova debandada do Congresso Nacional. O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), e o do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), marcaram esforço concentrado para votação de propostas. Além da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), a discussão sobre o projeto que anula decreto da presidente Dilma Rousseff sobre participação popular promete dividir os parlamentares.

Com os olhos dos brasileiros voltados para a Copa, os parlamentares aproveitaram o mês de jogos para se dedicarem à corrida eleitoral, como registraram nas redes sociais ao postarem fotos de visitas às bases eleitorais. Além de cancelarem reuniões deliberativas e comissões temáticas, a apuração da CPI do Senado e da CPMI do Congresso sobre supostas irregularidades na Petrobras praticamente estagnou. Mesmo depois da pouca atividade entre a última quinzena de junho e a primeira de julho, os congressistas ainda mantêm marcadas férias nas duas últimas semanas deste mês.

Oposição e parte da base aliada na Câmara têm como uma das principais metas da semana derrubar o decreto da presidente Dilma que criou a Política Nacional de Participação Popular. O texto prevê a formação de conselhos populares com o objetivo de influenciar em decisões sobre políticas governamentais. Para parte do Congresso, o decreto invade as prerrogativas do Poder Legislativo. O presidente da Câmara, que é contra a proposta, traçou como estratégia marcar reunião extraordinária hoje para garantir mais tempo para análise do texto.

"A prioridade (da oposição) é derrubar o decreto dos conselhos. Além de inconstitucional, ele atinge a prerrogativa do Congresso, o que consequentemente afronta o regime de representação", diz o líder do PSDB na Câmara, Antonio Imbassahy (BA). Do outro lado do cabo de guerra, o PT diz que a briga é eleitoreira. "O decreto em nada fere a Constituição e o Congresso. Muito pelo contrário. Fortalece a relação da comunidade com o Poder Executivo. A oposição não tem o hábito de ver a população participando diretamente do governo, cobrando, sugerindo, acompanhando", ataca o líder do PT na Casa, Vicentinho Alves (SP). Ele admite, porém, que a base dividida facilitará o trabalho da oposição.

Reajuste de juízes
No Senado, o esforço concentrado começa amanhã. A pauta inclui a PEC dos Magistrados, que tem dividido a Casa. O texto estabelece o pagamento de adicional por tempo de serviço a juízes e integrantes do Ministério Público, na proporção de 5% do subsídio a cada cinco anos de efetivo exercício em atividade jurídica, até o máximo de 35%. Há também um projeto de modernização da Lei de Licitações. Elaborado por uma comissão especial de senadores, o texto estabelece punições para empresários envolvidos em irregularidades em licitações.

Outro desafio dos congressistas é ressuscitar a CPI do Senado e a CPMI do Congresso. Na última, há nada menos que 395 requerimentos esperando análise. "(Na volta) Haverá a mesma dificuldade porque todos sabem que não interessa ao Palácio do Planalto apurar as responsabilidades desses fatos que levaram tanto prejuízo à Petrobras", diz Imbassahy.

Para entrar em férias na sexta, os congressistas têm, segundo a Constituição, que votar a LDO, cuja análise está atrasada e não deve ser concluída esta semana. Nos últimos anos, no entanto, eles não têm conseguido cumprir o prazo, mas tiram férias mesmo assim — o chamado recesso branco, quando, embora não estejam oficialmente de recesso, não comparecem ao Congresso.

"A prioridade (da oposição) é derrubar o decreto dos conselhos. Além de inconstitucional, ele atinge a prerrogativa do Congresso, o que consequentemente afronta o regime de representação"
Antonio Imbassahy (BA), líder do PSDB na Câmara

Presidenciáveis não dizem como vão bancar propostas

• Planos de governo têm 'reciclagem' de medidas bem-sucedidas e pouca inovação

• Dilma se apoia em feitos passados; Aécio promete aperfeiçoar quatro programas dos governos petistas

Fernando Canzian - Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Com muitas generalidades e alguns pontos em comum, os programas de governo dos três principais candidatos à Presidência da República na eleição deste ano não esclarecem o principal: de onde virá o dinheiro para implementar suas agendas, sobretudo em um cenário de crescimento medíocre como o atual.

Um exame dos planos de governo de Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) registrados no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) mostra que há pouca inovação e boa dose de continuísmo nas propostas dos três candidatos mais bem colocados nas pesquisas eleitorais.

De novidade, a presidente Dilma propõe pouco. Ao contrário, apoia-se fortemente nas realizações dos dois mandatos de Lula e de um seu para pleitear mais quatro anos e evitar "retrocessos". Na média, sob Dilma o Brasil terá crescido à metade do ritmo dos dois governos de Lula.

Programas do PT adotados por Lula e Dilma também ganham destaque nos planos de Aécio Neves. O tucano cita nominalmente e ainda promete aperfeiçoar nada menos do que quatro deles: ProUni, Ciência sem Fronteiras, Mais Médicos e Minha Casa, Minha Vida.

Aécio diz que padronizará a remuneração dos médicos estrangeiros no Mais Médicos, evitando distorções geradas no governo Dilma, em que cubanos recebem menos do que os demais profissionais.

O programa do terceiro mais bem colocado, Eduardo Campos, é o mais genérico. É forte a influência da vice, Marina Silva, na carta de intenções do PSB. Mas o resultado de promessas e "eixos programáticos" com viés "verde" é que sua agenda se torna bastante inespecífica.
Praticamente inexistem nos programas de governo dos três presidenciáveis ideias de como eles irão financiar o que prometem. Fala-se muito, e quase somente, em melhora de gestão e racionalização de gastos.

Como geralmente gastos sociais e investimentos públicos são calculados como proporção do PIB, o fato de a economia estar crescendo pouco tende a inviabilizar mais recursos em áreas como saúde e educação, sobretudo em programas novos que dependam de dinheiro extra.

Economia
Um dos diagnósticos do mercado para o atual estado da economia é o de que Dilma teria sido leniente com a inflação e desorganizado setores produtivos com políticas pontuais. Sondagens especializadas mostram consumidores e empresários pessimistas em níveis históricos.

Em seu programa, Dilma promete um "novo ciclo" assentado em dois pilares: "solidez econômica e amplitude das políticas sociais". Acrescenta um terceiro, novo: "competitividade produtiva".

Ela promete investimentos em "produção e consumo de massa", mas não diz quem fará isso. E que a política do PT é baseada, entre outros pontos, na redução sustentável da taxa de juros e na inflação baixa e estável.

Dilma assumiu o Planalto, em 2011, com a taxa básica de juros em 10,75% ao ano. Hoje, ela está em 11%. Na semana passada, a inflação rompeu o teto da meta de 6,5% ao ano pela 11ª vez desde sua posse.

Nesta área, Aécio promete levar a taxa de inflação a 4,5%, que é o centro da meta do Banco Central. A partir daí, propõe reduzi-la "gradualmente". Diz que manterá a autonomia do BC e que poupará mais para reduzir a dívida pública --na contramão do que Dilma tem feito.

Eduardo Campos ignora aspectos macroeconômicos em seu programa para se concentrar em "políticas de desenvolvimento sustentável" pouco detalhadas.

Mas, em entrevistas, Campos já afirmou que manteria a meta de inflação em 4,5% ao ano em 2015 e forçaria quedas para os anos seguintes, terminando o mandato sinalizando um percentual de 3%.

Campos também promete adotar a independência formal do BC, concedendo um mandato fixo de três anos para o seu presidente.

As promessas de cada um

• O que os principais candidatos à Presidência querem fazer, se eleitos, mas não dizem como

Dilma Rousseff (PT)

Área Social
Usa os dois governos Lula para dizer que o país continuará progredindo. Promete expandir o Mais Médicos, o Minha Casa, Minha Vida e oferecer mais 100 mil bolsas para o Ciência sem Fronteiras
Quer educação em tempo integral em 20% da rede pública até 2018

Economia
De forma vaga, promete redução dos juros, inflação na meta e rigor fiscal. Prega incentivos a investimentos na produção e no consumo de produtos de massa
Também quer reduzir a burocracia para incentivar o empreendedorismo

Aécio Neves (PSDB)

Área Social
Promete continuar e ampliar ao menos quatro programas criados pelo PT:
Mais Médicos, Ciências sem Fronteiras, ProUni e Minha Casa, Minha Vida.
Promete ampliá-los e aperfeiçoá-los
Quer universalizar o acesso à pré-escola até 2016

Economia
Compromete-se a manter a autonomia do BC e a reduzir gradualmente a meta de inflação, hoje em 4,5%, com intervalo de dois pontos, para mais ou menos
Diz que prosseguirá com a atual política de valorização do salário mínimo

Eduardo Campos (PSB)

Área Social
Na saúde, promete aumentar os gastos com ações tendo como base a receita corrente bruta da União. Na educação, quer erradicar o analfabetismo e avançar na superação do analfabetismo funcional
Outra meta é universalizar a educação a todos em idades entre 4 e 17 anos

Economia
Ignora aspectos fundamentais e destaca política industrial voltada à agregação de valor e valorização de pequenas empresas
Em entrevistas, ele diz que sinalizaria a redução da inflação para 3% até 2018 e patrocinaria a independência do BC

De olho na reeleição, Planalto agora quer virar a página da Copa

• Oposição, no entanto, compara Dilma a Felipão e já chama a atenção para o futuro dos estádios do Mundial

Maria Lima, Mariana Sanches, Ana Paula Ribeiro e Catarina Alencastro – O Globo

BRASÍLIA e SÃO PAULO - Aliados da presidente Dilma Rousseff querem sepultar o tema Copa do Mundo — e também a derrota da seleção — para evitar que o mau humor dos brasileiros contamine seu desempenho na corrida pela reeleição. A solidariedade da presidente com os jogadores encerrou-se na carta que ela enviou ou grupo ontem, e não há nenhuma intenção de recebê-lo no Palácio do Planalto. Quem acompanhou a presidente ao Maracanã ontem disse que Dilma não se deixou abalar pelas vaias que ouviu no estádio. Segundo fontes próximos a ela, a presidente deixou o local tranquila apesar de ter sido hostilizada mais uma vez, repetindo cenário visto no Itaquerão, na abertura do Mundial.

Segundo o deputado José Guimarães (CE), ex-líder do PT na Câmara, se alguém tentar culpar Dilma pelo mau resultado da seleção, dará um tiro no pé. Para ele, Dilma chamou para si a responsabilidade de organizar a melhor Copa da História e não pode ser responsabilizada pela derrota do Brasil.

— O fato de a seleção ter sido humilhada é responsabilidade unicamente dos jogadores e do Felipão. Não tivemos uma seleção à altura do que o governo realizou fora dos campos — afirmou ele. — A solidariedade que a presidente Dilma teve da população anula qualquer efeito de vaia. Apostaram no caos, e não teve isso. A Copa acaba hoje (ontem), e o assunto também. Vamos virar a página e começar a campanha imediatamente. Amanhã, mãos à obra, militância nas ruas para ganharmos a eleição.

Mau humor só no futebol
O deputado Eduardo Cunha (RJ), líder do PMDB na Câmara, aposta que as atenções vão se centrar agora na participação da presidente na reunião dos chefes de estado dos Brics (Brasil, Rússia, Índia China e África do Sul), que acontece esta semana, em Fortaleza. Para ele, a campanha virá logo depois.

— É necessário virar a página. Os registros da grande Copa que fizemos vão ficar. A frustração que ficará é para a história do nosso futebol. Em poucos dias a campanha dará o tom do debate nacional. É possível que haja mau humor em relação à desclassificação do Brasil, mas também o consciente reconhecimento de que tudo funcionou bem na Copa. Dos aeroportos à hospitalidade e alegria do povo brasileiro — ressaltou, por sua vez, o presidente da Câmara, o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN).

Se, por um lado, os governistas querem virar a página e acham que, mais uma vez, a população vai ser solidária com a presidente pelas novas vaias ouvidas ontem no Maracanã, a oposição diz que a candidata do PT gastou sua bala de prata e não terá o resultado eleitoral esperado se tentar misturar Copa do Mundo com votos.

Um dos coordenadores da campanha do tucano Aécio Neves, o ex-governador Alberto Goldman (SP) classificou ontem a presidente como a grande perdedora por ter tentado “faturar” algo que não é dela: o entusiasmo do povo brasileiro pelo futebol.

— A presidente vai amargar a frustração de todos. Mas tudo isso não define as eleições. O que define é o péssimo governo que ela realiza. Inclusive a herança que a Copa deixa, que será explícita nas próximas semanas: estádios caros e vazios e dívidas dos clubes que não serão pagas.

O deputado Beto Albuquerque (PSB-RS), um dos coordenadores da campanha do presidenciável Eduardo Campos (PSB) e candidato a governador do Rio Grande do Sul, afirmou, por sua vez, que os 80% de brasileiros que queriam mudança antes da Copa seguirão com esse propósito.

— O governo Dilma é um fracasso. Um retrocesso em relação ao de Lula. Dilma e Felipão são iguais: ultrapassados, teimosos e sem comando.

Na mesma linha, o secretário geral do PSB e coordenador da campanha de Campos, Carlos Siqueira, ressaltou que, independente do resultado da Copa, o eleitorado já deu sinais claros de que deseja mudar de governante.

— A frustração com o resultado não é determinante, e todos lamentamos. O eleitor brasileiro tem muitas razões para votar na oposição e por isso creio que a candidata chapa branca retornará a sua casa em Porto Alegre. Agora o jogo eleitoral começa para valer mesmo.

Economia e propostas definem eleição
Apesar do atrito evidente entre governistas e oposição, cientistas políticos ouvidos pelo GLOBO afirmam que ainda não é possível prever se a boa organização e a repercussão internacional positiva que o Brasil teve ao organizar a Copa pesarão a favor da presidente Dilma. Eles destacam que, por outro lado, houve o fracasso da seleção e que ele talvez possa “colar” na imagem dela. A maioria, no entanto, acredita que o assunto Copa do Mundo será logo esquecido e não deve ter impacto nenhum na campanha.

Vera Chaia, professora do Departamento de Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), acredita que o assunto será explorado pela oposição, mas diz que ainda é cedo para saber o impacto que terá.

— É possível fazer dois balanços dessa Copa. O positivo tem como ingredientes a boa organização, os estádios funcionando perfeitamente (mesmo tendo sido concluídos em cima da hora, não houve nenhum desastre) e a diminuição dos protestos. Tudo isso gerou um efeito muito positivo para os prefeitos e governadores e também influencia a imagem de Dilma — destaca ela. — O aspecto negativo foi o fracasso da seleção, que despertou uma série de críticas à CBF e à própria Fifa. Agora que o evento terminou, as manifestações de rua tendem a voltar assim como as cobranças com o dinheiro público gasto e os estádios que se transformarão em “elefantes brancos”. Por isso, ainda é cedo para saber qual dos dois aspectos pesará mais.

Especialista vê saldo positivo para Dilma
Para o cientista político Cláudio Couto, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), o saldo para o governo e para a imagem de Dilma será mais positivo do que negativo.

— Havia uma expectativa ruim sobre a realização da Copa, o que acabou não se concretizando. A reversão de expectativa é sempre mais benéfica do ponto de vista de imagem.

Couto não acredita, no entanto, que a avaliação positiva da Copa possa decidir as eleições, já que as pessoas votarão baseadas em outros critérios.

O professor de ciência política José Álvaro Moisés, da Universidade de São Paulo, vê como inevitável que a organização da Copa influencie na imagem do governo e da presidente.

— Essa Copa está politizada desde o início. Quando o ex-presidente Lula propôs a candidatura do Brasil, atrelou-a ao desempenho do governo.

Para o cientista político, desde o ano passado, com os protestos nas ruas, a população se tornou mais crítica, passando a comparar a organização da Copa com serviços considerados essenciais.

— As pessoas estão mais críticas, mas também não é uma coisa direta. Não é porque a seleção fracassou que a Dilma vai perder a eleição. Mas elas entendem que, a despeito do clima favorável durante a Copa, o país tem muitos problemas que precisam ser encarados de frente — acredita.

Já para Fernando Abrúcio, cientista político também da FGV-SP, a derrota da seleção não deverá ter impacto em Dilma ou na oposição.

— A Copa só teria efeito relevante na campanha se tivesse uma desgraça maior do ponto de vista estrutural. E a verdade é que a eleição reage a estímulos clássicos: economia, propostas e aliados. São esses fatores que definirão a eleição. Nenhum outro.

Dilma evita exposição, mas volta a ser vaiada no Maracanã

• Presidente faz passagem simbólica do Mundial em cerimônia fechada e não assiste à festa de encerramento no estádio, mas é novamente alvo de protestos; mesmo assim, Planalto vê com alívio as manifestações, consideradas mais brandas do que na abertura

Jamil Chade e Silvio Barsetti - O Estado de S. Paulo

RIO - Apesar de todo o aparato da Fifa e do Palácio do Planalto para evitar mal-estar e constrangimento na festa de entrega de medalhas e do troféu para os jogadores da Alemanha, a presidente Dilma Rousseff foi hostilizada cinco vezes durante e após a decisão da Copa do Mundo, ontem à tarde, no Maracanã. Dilma também foi alvo de protestos quando entregou a taça de campeão ao capitão da seleção alemã, Philipp Lahm.

A “blindagem” da presidente, candidata à reeleição, foi organizada após as ofensas que recebeu por parte da torcida no jogo de abertura, na Arena Corinthians, em São Paulo. Dilma desistiu de ir aos demais jogos da Copa e existia até mesmo uma dúvida se ela entregaria o troféu. Ontem, mesmo com uma boa parte das cadeiras do estádio ocupada por estrangeiros, as vaias voltaram.
A cerimônia simbólica de passagem para a Rússia do comando da realização da Copa de 2018 foi feita de forma privada entre a petista, o presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente da Fifa, Joseph Blatter. A entidade divulgou fotos e um comunicado, mas sem qualquer presença da imprensa ou do público.

Dilma não viu a cerimônia de encerramento da Copa no Maracanã, realizada antes da partida, e não fez o papel de anfitriã na tribuna de honra do estádio, onde estavam Putin e a chanceler alemã, Angela Merkel, além de outros chefes de Estado. Os dois acompanharam por 18 minutos a apresentação de dançarinos que mostravam aspectos da diversidade musical do País. Blatter ficou ao lado de Putin e Merkel, e dirigentes da entidade lamentavam discretamente a demora da presidente.
Dilma entrou na tribuna quando faltavam 10 minutos para o início da decisão, no jogo em que a Alemanha venceu a Argentina por 1 a 0, na prorrogação.

A presidente brasileira ocupou uma cadeira distante da primeira fila e ficou sentada entre Blatter e Merkel. Ao lado do cartola estava Putin. Toda a cúpula da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também foi colocada bem distante de Dilma.

Os telões do estádio, como já estava combinado, não mostraram a chegada nem nenhuma imagem da petista durante todo o jogo. Durante o segundo tempo da partida, houve as primeiras manifestações contra a presidente, que foi alvo novamente de xingamentos, a exemplo do já havia ocorrido na abertura do Mundial, no Itaquerão. Após o apito final, ela foi vaiada quando sua imagem apareceu nos telões, durante as premiações aos melhores da Copa e à seleção campeã.

Numa atitude que não passou de protocolar, Dilma ficou com o troféu em mãos por apenas três segundos e foi colocada atrás dos atletas alemães. Mas foi o bastante para a volta das ofensas.
Toda vez que Dilma era vista nos telões, uma música alta se misturava às vaias.

Durante o jogo, a presidente evitou ao máximo contato com os dirigentes da CBF José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, que também ocupavam a área reservada. Antes, durante e após a decisão, ela preferiu manter contato com os ex-jogadores Cafu, Bebeto e Dunga e a atacante da seleção feminina Marta. O assunto das conversas era um só: como reformular o futebol brasileiro a partir de agora?
Se de um lado a presidente brasileira evitava exposição, a chanceler alemã Angela Merkel passou boa parte do jogo se exibindo, dando entrevistas e acenando a todos os alemães no estádio.

Alívio. No Palácio do Planalto, porém, a manifestação da torcida ontem no Maracanã foi recebida com alívio. A avaliação é de que as hostilidades, já esperadas, em nada se assemelharam ao que aconteceu no jogo de abertura do Mundial.

Na cerimônia reservada de passagem do comando da organização da Copa para Putin, Dilma exaltou a organização do torneio. “Só não foi perfeita porque o hexacampeonato não veio”, disse a presidente, em discurso. / Colaboraram Tânia Monteiro e Lisandra Paraguassu

Copa não tem a ver com voto, diz oposição

• Aloysio Nunes, vice na chapa de Aécio, diz que eleitores não serão influenciados pelo Mundial

Lígia Formenti - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Candidato a vice na chapa do tucano Aécio Neves, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) disse ontem que o "legado da Copa" - candidata à reeleição, a presidente Dilma Rousseff tem dito que o Brasil realizou "uma das melhores Copas" - não terá influência na eleição. "Ganhar ou perder o campeonato não decide eleições e a história mostra isso", disse o senador.

"O que as pessoas querem é qualidade nos serviços, economia estável", afirmou o candidato a vice, que repetiu o discurso que tucanos vêm apresentando nas duas últimas semanas, o de que Copa não influencia eleição. "São coisas distintas." Aloysio disse não ter visto a carta da presidente endereçada à seleção brasileira, divulgada ontem, na qual ela volta a defender mudanças no esporte, "dentro e fora dos estádios", e exalta a Copa no Brasil. "(Não vi), mas, claramente, é uma jogada de marketing: ela já quis explorar a vitória, apareceu naquela foto estranha, imitando o gesto do Neymar", afirmou. Para o candidato a vice, nenhuma dessas estratégias terá resultado prático.

"Aeroportos que eram ruins melhoraram, mas ainda estão longe de ter um bom padrão. O atraso das obras foi considerável e isso não será esquecido."

Para ele, o sucesso da Copa não está relacionado à organização. "Foi o clima da qualidade dos jogos, das torcidas."

A candidata do PSOL à Presidência, Luciana Genro, avaliou que o legado da Copa é a demonstração de que foi feito um uso indevido do futebol para grandes negócios, beneficiando algumas empresas. "O PSOL foi o único partido contra a lei da Copa e isso agora se mostra correto."

'Rejeição'. Questionado sobre as hostilidades à presidente ontem, no Maracanã, Aloysio Nunes disse não ter ficado surpreso. "É um sinal claro de rejeição. Se ela é vaiada em locais onde há um controle absoluto do público, o que esperar num estádio?".

Até a conclusão desta edição, os principais adversários de Dilma na corrida presidencial, Aécio Neves e Eduardo Campos, não tinham comentado o término do evento nem as hostilidades à presidente. / Colaborou Ayr Aliski

Com reajuste de até 17% energia pesa no bolso do brasileiro

• Depois da redução de 2013, conta de luz tem reajuste de até 17% e traz riscos para a inflação

Ramona Ordoñez / Bruno Rosa – O Globo

RIO - Os consumidores brasileiros estão pagando um preço muito alto pela redução de 20% nas tarifas de energia elétrica feita pelo governo federal no ano passado. O desequilíbrio financeiro no setor provocado pelas medidas impostas para forçar a queda nas tarifas, somado à operação a plena carga das termelétricas em decorrência da forte estiagem, está batendo nas contas de luz, cujos reajustes já chegam a dois dígitos. De acordo com cálculos feitos pelas consultorias especializadas em energia Safira e Thymos, os aumentos médios nas contas de energia dos consumidores residenciais neste ano devem ficar entre 16% e 17%, o que praticamente anula a redução do ano passado. E em 2015 será pior: o reajuste ficará entre 21% e 25%.

O mapa dos aumentos no Brasil
Alguns analistas consideram que esses reajustes podem servir para pôr mais combustível na inflação e fazer com que ela feche 2014 acima do teto da meta perseguida pelo Banco Central (BC), ou seja, superior a 6,5%. Segundo a MB Associados, as contas residenciais de luz devem acumular avanço de 17,4% neste ano, o que faria o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado pelo BC, fechar 2014 com alta de 6,7%. Até junho, as contas de luz acumulam aumento de 4,98% e, nos últimos 12 meses, de 8,01%.

Até agora, 27 altas de dois dígitos
Segundo o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, a energia se tornou o grande vilão dos preços no ano. Ele também endossa a avaliação das consultorias do setor e diz esperar aumentos ainda mais significativos ao longo de 2015.

— Nós estamos com IPCA de 6,7% este ano porque os alimentos devem ajudar um pouco no segundo semestre, o que tem sido a grande sorte do governo depois do choque da seca no começo do ano. Contamos ainda com uma piora no câmbio caso a presidente Dilma Rousseff seja reeleita, o que deve pressionar no último trimestre de 2014. Para o ano que vem, mantemos nossa projeção de IPCA de 6,8% — explica Vale.

Já para o banco ABC Brasil, o IPCA deve terminar este ano em 6,4%, abaixo da meta. Porém, são esperados mais reajustes nas tarifas em 2015, o que deverá elevar o impacto da energia residencial no índice de preços. Pelos cálculos do banco, se a alta ficar em torno de 21% no ano que vem, as contas de luz devem pesar 0,6 ponto percentual no índice de preços. Este ano, a contribuição das tarifas deve ficar em 0,4 ponto.

E o consumidor já sente no bolso o custo da energia mais cara. De acordo com levantamento feito pelo GLOBO na base de dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), das 34 concessionárias que já tiveram os seus reajustes autorizados entre janeiro e 4 de julho deste ano, 31 aumentaram seus preços. 

Desse total, 27 distribuidoras tiveram altas acima de dois dígitos, com percentuais que variam de 11% a 36,54%. Isso significa que, até agora, cerca de 43,2 milhões de residências já pagam mais caro pela conta de luz. Até dezembro, ainda haverá reajuste em outras 30 distribuidoras de energia. A Light só deve divulgar seu reajuste em novembro.

Segundo a Aneel, os aumentos concedidos às distribuidoras estão atrelados aos “custos com compra de energia”. Por causa do baixo nível dos reservatórios, as usinas térmicas — que têm um megawatt/hora (MWh) mais caro em relação às hidrelétricas — vêm sendo acionadas desde o ano passado. Além disso, como algumas empresas de geração (Celesc, Cesp, Copel e Cemig) não aderiram ao processo de renovação das concessões, previsto na medida provisória 579, as distribuidoras ficaram com parte de sua energia descontratada, sendo obrigadas a recorrer ao mercado à vista, no qual os preços chegaram R$ 822 o MWh.

— A desaceleração, tanto da economia como do setor de serviços, pode minimizar esse choque tarifário que vamos ter — afirma Luis Otavio de Souza Leal, economista-chefe do ABC Brasil.

Fábio Cuberos, gerente de Regulação da Safira, destacou que, apesar dos elevados aumentos que estão sendo concedidos pela Aneel neste ano — o reajuste médio entre as 31 distribuidoras está em 15,43% até julho —, as tarifas ainda estão represadas. O executivo explicou que os custos adicionais com as usinas térmicas em 2013, que seriam repassados ao consumidor neste ano, foram diluídos em quatro anos a partir de 2015. Além disso, o impacto nas tarifas do empréstimo de R$ 11,2 bilhões, feito por meio da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), via consórcio de bancos, para as distribuidoras em abril, só será repassado às tarifas em 2015 e 2016.

— Os reajustes que vêm por aí a partir do próximo ano serão bem mais salgados, porque já vão partir de uma base muito elevada, fora o reajuste normal que seria dado — ressalta Cuberos.

O executivo da Safira considera, no entanto, que o mais preocupante é o fato de que os problemas do setor continuam. As distribuidoras ainda têm dificuldades no fluxo de caixa e já usaram todos os R$ 11,2 bilhões disponibilizados pelo consórcio de bancos. Para arcar com os contratos de maio, as empresas não tiveram recursos suficientes, o que levou o governo a postergar para o fim deste mês o pagamento de R$ 1,3 bilhão.

E já se pensa em um novo financiamento, no valor de R$ 2 bilhões. Cuberos ressalta que, apesar de as distribuidoras terem reduzido sua exposição ao mercado livre, ainda estão sendo obrigadas a comprar no mercado à vista cerca de 700 megawatts (MW) médios.

— Um dos motivos das dificuldades financeiras das distribuidoras é o fato de comprarem essa energia no mercado à vista por um preço muito elevado, por causa dos reservatórios baixos. O custo da energia tem ficado alto no mercado livre — afirma Cuberos.

Tarifa em patamar de 2014, só em 2020
Apesar de o preço no mercado livre ter caído para R$ 674 o MWh atualmente, os preços tendem a se manter em patamares elevados devido à falta de chuvas. Essa é a avaliação de Ricardo Savoia, diretor da Thymos, que lembra que haverá reajustes até 2018, já que o pagamento dos empréstimos foi escalonado para os próximos anos. Para 2015, Savoia diz que o aumento nas tarifas pode chegar a 25%.

— A evolução das tarifas é crescente. Só entre 2019 e 2020 voltaremos para o patamar de preços de 2014. Nos próximos cinco anos estimamos um aumento de R$ 80 bilhões no custo de energia, com a falta de chuvas, os atrasos das obras e o processo de renovação das concessões. Mas os custos podem ser ainda mais significativos se as condições climáticas continuarem adversas, e as térmicas permanecerem operando a pleno vapor a partir de 2015 — afirma Savoia.

No ano, taxa de investimento deve cair até 5%

Vanessa Jurgenfeld e Tainara Machado – Valor Econômico

SÃO PAULO - O fraco desempenho do setor industrial e a deterioração da confiança dos empresários desde janeiro está levando economistas a revisar suas projeções para o investimento em 2014. Algumas estimativas, que no início do ano eram de uma alta de até 4% para a Formação Bruta de Capital Fixo (medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e equipamentos e na construção civil), se transformaram que prognóstico de queda significativa, próxima de 5%, e ajudam a explicar a piora do cenário para crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano.

No ano passado, a taxa de investimento do país apresentou crescimento de 5,2%, segundo dados revisados do IBGE. Confirmada a expectativa para este, será a pior retração do investimentos no Brasil desde 2009. Uma redução nos investimentos neste ano também significará que 2015 vai se iniciar em ritmo lento.

Para alguns economistas, além do aumento do pessimismo entre os empresários, o fim de incentivos para aquisição de bens de capital também contribui para piorar os prognósticos para o investimento neste ano. Apenas entre janeiro e maio, a produção de bens de capital caiu 5,8%, enquanto a atividade industrial como um todo encolheu, em média, 1,6%. As compras de bens de capital do exterior também caíram significativamente: até maio, o país reduziu esse tipo de importação em 3,32%, segundo a Funcex.

Até agora são decepcionantes Tanto o desempenho da construção civil quanto a performance do ramo de bens de capital - e as previsões para o restante do ano continuam pouco animadoras. Nas estimativas do Bradesco, o setor de construção deve mostrar queda de cerca de 3% no 2º trimestre, seguindo uma queda de 2,3% já ocorrida no 1º trimestre do ano, nos dados para elaboração do PIB.

Já o nível de produção do ramo de bens de capital se encontra próximo ao de 2012 e, em relação ao mesmo período do ano passado, a queda atinge 7,6%. Em parte, essa retração é influenciada pelo desempenho ruim de caminhões e ônibus, que mostram recuo de 27,7% em relação ao mesmo período do ano passado. Mas existem outros fatores, como o ritmo menos acelerado adotado pela Petrobras nos seus investimentos neste ano.

"No Brasil não há terceira via em eleição presidencial"

Entrevista
Cesar Romero Jacob. Cientista político da PUC-Rio

"Nas eleições presidenciais, não existe a terceira via. O que existe é o terceiro colocado", sentencia o cientista político da PUC-Rio Cesar Romero Jacob, para explicar o motivo de PT e PSDB terem protagonizado a disputa eleitoral nas últimas eleições. Um dos motivos da polarização deve-se ao fato de os dois partidos estarem fortemente enraizados em São Paulo, maior colégio eleitoral do país. "Quem não tem base eleitoral em São Paulo, tem muita dificuldade de compensar fora do Estado", argumenta Jacob, que pesquisa a geografia do voto nas últimas eleições. Apesar da força tucana, o cientista político adverte que Aécio Neves só conseguirá chegar ao segundo turno se o ex-presidente Fernando Henrique conseguir aparar as arestas entre o senador mineiro, Geraldo Alckmin e José Serra, retomando a política do café com leite. Sobre a Copa do Mundo, Jacob diz que ela não influenciará as eleições, já que não houve grandes problemas no evento. "A Copa deu certo, não houve problema em aeroportos e estádios. O desastre veio de dentro do campo", analisa.

Eduardo Miranda – Brasil Econômico

O sr. acha que pode haver uso eleitoral e algum benefício nas urnas em função dos resultados da Copa do Mundo?

Todo mundo tentou usar a Copa nos últimos meses, inclusive a oposição. Aécio Neves disse, há alguns dias, que o governo tentou usar o Mundial, mas ele também fez isso. A crítica que vimos era em relação ao gerenciamento e à administração diante das pressões da Fifa. Mas a Copa deu certo, não houve problema nos estádios nem nos aeroportos. O desastre veio de dentro do campo. Havia uma descrença em relação à seleção, mas uma derrota como a sofrida para a Alemanha não era esperada.

O atual cenário aponta, mais uma vez, para a polarização entre PT e PSDB nas eleições presidenciais. Por que isso acontece?

São Paulo tem um terço do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e um quarto do eleitorado. Quem não tem base eleitoral em São Paulo, tem muita dificuldade de se compensar fora do estado. PT e PSDB têm bases fortes ali, por isso polarizam. Numa eleição, não se pode ter votos só em São Paulo, mas não se pode ter votos apenas fora do estado. Maluf só tinha votos em São Paulo, Brizola não tinha votos em São Paulo, mas tinha fora.

São exemplos de dois casos que não foram adiante, não venceram eleições presidenciais. São fortes as chances de segundo turno?

Depende do sucesso de Fernando Henrique, padrinho político de Aécio Neves em São Paulo, em conseguir fazer com que José Serra e Geraldo Alckmin virem a página do ressentimento e entrem na campanha presidencial. Se isso acontecer, a vida da Dilma ficará muito difícil. Os tucanos mineiros estão dizendo aos paulistas que essa é a vez de Minas Gerais assumir o poder, depois de o PSDB ter perdido a eleição presidencial com candidatos paulistas nas três últimas eleições (Serra em 2002; Alckmin em 2006; e, novamente, Serra, em 2010).

Aécio já tem um candidato a vice paulista, o senador Aloysio Nunes...

Mas a história nos mostra que duas vezes o pacto das elites políticas do país, a chamada política do café com leite, entre Minas e São Paulo, foi rompido pelos paulistas. Em 1929, quando esperávamos, pela lógica da alternância no poder, que os mineiros comandassem o país, Washington Luís rompeu esse acordo e lançou o paulista Júlio Prestes. Getúlio Vargas se aproveitou dessa briga, associou-se aos mineiros e o resultado foi a Revolução de 30. Daí até 1945, o governo de Vargas foi um condomínio entre mineiros e gaúchos. Os paulistas só voltaram ao poder em 1994, com Fernando Henrique, justamente pelas mãos de Itamar Franco, um mineiro. No meio do caminho, quando Itamar esperava pela sua indicação, retomando a política do café com leite, Fernando Henrique surge com a emenda da reeleição. Depois de 1929, essa é a segunda rasteira na elite política mineira.

Diante da situação de polarização, como o PT entra nessa história?

Em 2002, Lula repete Getúlio, buscando aliança com os mineiros, tendo José Alencar, seu vice, de Minas Gerais. É o operário e o empresário, o dono da força paulista e o mineiro. Lula faz a política do café com leite. O PSDB está fazendo agora, e com atraso, o que Lula fez com Dilma, a mineira radicada no Sul e que teve um paulista como vice. Ele estava mandando um recado às elites dos respectivos estados. Aécio está fazendo o mesmo. Ele repete a estratégia do Lula de 2010.

Ter um vice paulista significa que Aécio está deixando o Nordeste para Dilma?

Para ele, o fundamental é ganhar em Minas e São Paulo. Se ele ganhar bem nesses lugares, o grau de energia necessária nas outras regiões será menor.

E como fica a situação de Eduardo Campos nesse cenário?

Costumo dizer que no Brasil não existe a terceira via, o que existe é terceiro colocado das eleições presidenciais. E não há nada em comum entre os terceiros lugares nas últimas seis eleições. Tivemos Leonel Brizola (PDT) em 1989; Enéas Carneiro (Prona) em 1994; Ciro Gomes (então no PPS) em 1998; Anthony Garotinho (então no PSB) em 2002; Heloísa Helena (PSol) em 2006; e Marina Silva (PV) em 2010. Não são iguais, não há nada em comum entre eles — nem partidariamente, nem no ponto de vista político, nem nas bases territoriais. Não é como a extrema-direita francesa, em que Marine Le Pen tem votos em determinada região do país, ou como os verdes na Alemanha. Não é assim que funciona aqui. Por outro lado, em vez de alavancar, Marina está atrapalhando Eduardo Campos. Tudo o que ele quer fazer, ela quer o contrário. Além disso, há uma disputa entre as três principais elites nordestinas: a baiana, a pernambucana e a cearense. O que significa que Campos pode não ter boa votação na Bahia e no Ceará.

Marina, então, não agrega?

Os votos de Marina em 2010 não eram de Marina. Aliás, cada terceiro colocado tem uma conjuntura diferente. No caso de Marina, ela reuniu os insatisfeitos com José Serra, que escondeu Fernando Henrique de sua campanha (agora temos Aécio exaltando os 20 anos do Plano Real); os insatisfeitos com o governo do PT, que não foi suficientemente radical; os verdes, que tinham Marina como candidata; e os evangélicos, para quem ela não fez campanha voltada para eles, mas que votaram na ambientalista. Marina é a vice que nenhum presidente quer ter. É diferente de Marco Maciel com Fernando Henrique; de José Alencar, que criticava os juros altos para os empresários, mas certamente combinado com Lula; de Michel Temer, que é um bombeiro e ajuda a apagar os problemas do PMDB para se manter na base aliada do governo. Se Campos vai negociar com o agronegócio, ela diz que com o agronegócio não pode.

Eduardo Campos tem em seu programa de governo a proposta de candidaturas avulsas.

Num cenário em que temos mais de 30 partidos, uma proposta como essa só faz fragmentar ainda mais. A história mostra que isso não deu certo. Candidatura avulsa foi a de Fernando Collor, em 1989, tendo o PRN como partido de aluguel. A candidatura do Collor foi uma aventura. Essa medida do Campos pode ser uma tentativa de deixar Marina contente, até para uma eventual candidatura dela, que ainda não tem partido legalizado. Mas ela vai se eleger e montar seu partido depois?

O Pastor Everaldo (PSC), em algumas pesquisas de intenção de voto, tem se aproximado de Eduardo Campos. Ele pode forçar o segundo turno?

Ele pode conseguir atrair um bom número de evangélicos, já que é o único candidato religioso à Presidência da República. Mas evangélicos candidatos a cargos majoritários tem piso alto e teto baixo, ou seja, uma rejeição muito grande do eleitorado não-evangélico. Se ele fizesse a política pelo partido, e não pelas igrejas, não significa que não teria o apoio delas. Quando a questão da religião é de foro íntimo, não há problema. Fernando Henrique Cardoso é agnóstico, mas não fez proselitismo do ateísmo em sua campanha. O problema é quando isso se mistura com a máquina das igrejas.

Em que medida o Pastor Everaldo pode ser uma alternativa a Dilma, Aécio e Campos?

Dilma, Aécio e Campos são muito próximos. Os três têm compromissos com as agendas dos últimos 30 anos. Na ordem cronológica, a saber: a proposta da democracia durante a ditadura; a estabilização da economia na década de 90 — os três candidatos são formados em economia e defendem meta de inflação, taxa de câmbio flutuante e superávit primário — e, por fim, a redução da miséria, que aconteceu mais agudamente nesses últimos 12 anos. Eles podem fazer isso de forma diferente, mas têm o mesmo compromisso. Dilma foi presa política, Aécio e Campos são de famílias cujos avôs lutaram contra a ditadura. Isso acaba abrindo espaços e agendas à esquerda e à direita. Na direita, temos o Pastor Everaldo. Mas ele está a serviço de quem? É claro que ele está a serviço da construção de seu partido. Mas pode estar, também, a serviço de Dilma ou Aécio, para enfraquecer Marina. Há espaço para uma campanha de perfil conservador. Ele tentará demarcar essa posição.

No Rio de Janeiro, é possível que o governador Pezão abra espaço para o pastor em seu palanque. Ele se beneficia disso?

Sim, porque ele provoca uma fragmentação dos evangélicos no Estado, que tem mais dois candidatos evangélicos ao governo do Rio. Everaldo é da Assembleia de Deus, o deputado federal Anthony Garotinho (PR) é presbiteriano e o senador Marcelo Crivella (PRB) é da Igreja Universal do Reino de Deus. Presbiterianos tendem a não fazer esse vínculo da religião com a política, o famoso "irmão vota em irmão". No caso do Garotinho, como político, ele sempre transitou no mundo evangélico pentecostal, e estes estão na teologia da austeridade, que é também típica da Assembleia de Deus, onde está Everaldo. Já na Igreja Universal, do Crivella, é o contrário, é a teologia da prosperidade. A Assembleia está presente na área mais pobre da região metropolitana do Rio. Ali, é mais difícil, inclusive para o candidato, defender a teologia da prosperidade. A teologia da prosperidade significaria uma certa visão de consumo que a Igreja Universal não condena.

Há uma possibilidade de junção dessas vertentes evangélicas em segundo turno, tanto no Rio quanto no cenário nacional?

Sempre. É novamente a ideia de que "irmão vota no irmão" e não na política, se é que ainda é possível falar de programas partidários, diante da chamada "bacanal eleitoral" que estamos vivendo no Estado. Quando não há o "irmão", os evangélicos se dividem entre os diversos candidatos. Pelo menos a partir da eleição do Lula, em 2002, foi assim. Eles foram para o colo de Fernando Henrique, porque achavam que o PT era o partido da Igreja Católica, já que havia integrantes da legenda com origem na Teologia da Libertação.

Há uma relação do discurso petista de ascensão da classe média coma teologia da prosperidade da Igreja Universal?

Não existe esse vínculo. O Brasil transitou nos últimos 30 anos com agendas não da política, mas da sociedade. A transição da ditadura para a democracia não era uma agenda política, mas social, que foi aproveitada por Tancredo Neves. Mas não há também democracia consolidada com inflação alta, agenda que pertenceu aos anos 90, porque, numa economia muito desorganizada, é difícil não ter tentações revolucionárias ou golpistas, pelo grau de desespero das pessoas — essa foi a agenda de Itamar e Fernando Henrique. Em seguida, pelos anseios sociais, veio a constatação de que de nada adiantaria democracia e economia estável num país desigual, e aí temos os programas de Lula e Dilma, no sentido de reduzir a desigualdade acentuada. São três etapas, quase em processo, das exigências da sociedade. A redução da miséria e o aumento real do salário mínimo, agendas do PT, permitem que a classe C vá ao shopping. É aí que a Igreja Universal está focada.

Candidatos evangélicos, em geral, têm rejeição entre os eleitores que não são religiosos?

Não necessariamente. Marina Silva e a deputada Benedita da Silva (PT-RJ) conseguem fazer uma campanha mais ampla, mesmo sendo evangélicas, porque não fazem política com esse viés. Elas podem não ter feito campanha voltada apenas para o segmento, mas não significa que o segmento não fez campanha para elas. Importante ressaltar que estamos falando de evangélicos pentecostais, porque os evangélicos históricos pensam na mesma linha da Igreja Católica, que tanto pode ser tucana, petista ou socialista, e que acha que é melhor não levar para a igreja uma divisão que está fora dela.

A Igreja Católica não orienta o eleitor religioso, então?

Na eleição, o que a Igreja Católica faz é defender princípios. Pontualmente, ela pode se colocar contra algo. E, ainda assim, há diferenças entre a igreja de João Paulo II e Bento 16, papas conservadores, e a igreja do Papa Francisco, que é mais progressista.

Há chances de temas como aborto e casamento gay entrarem no debate presidencial, como aconteceu em 2010?

Aborto, sim. Casamento gay, acredito que não, na medida em que o Papa Francisco defende mais tolerância com os gays e, consequentemente, não haveria respaldo do Vaticano para uma demonização do tema. Quanto ao aborto, ele atinge setores da Igreja Católica, mas nenhum dos três candidatos (Dilma, Aécio e Campos) são a favor do aborto, quando a discussão não é relacionada à saúde pública. Aborto pode aparecer de forma mais polêmica na campanha do Pastor Everaldo.

Há outros temas polêmicos na esfera moral e religiosa que podem aparecer?

Acredito que não. Eutanásia, células-tronco e pena de morte não estão na pauta da campanha eleitoral no Brasil.

Mas a religião entra em pauta no caso de uma disputa mais acirrada de segundo turno entre Dilma e Aécio?

Isso é difícil de prever, porque pode ser provocado por terceiros. Em 2010, o assunto foi provocado pelo processo eleitoral, por manifestações do bispo de Guarulhos. Com exceção de uma resposta mal dada num debate, acredito que a religião pode aparecer mais em decorrência do apoio que os candidatos podem vir a ter de tal ou qual igreja. Em princípio, os candidatos não abordarão temas polêmicos. Percalços de campanha sempre podem existir, claro. E essas polêmicas podem vir mais das redes sociais, com temas constrangedores para todos os candidatos.

Voltando à Copa, a oposição e a população podem querer responsabilizar o governo pela derrota da seleção brasileira?

Ainda não está claro que interpretação irá prevalecer por parte da população em relação a essa derrota. No momento, ela está tentando entender o que aconteceu. Depois, ela vai querer respostas e soluções. A crítica à CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e ao futebol brasileiro vem bem antes desse resultado e é suprapartidária. O que pode acontecer — e isso vai além do pleito de outubro, já que a Alemanha levou 10 anos para reformular seu futebol — é o governo ser capaz de dar início à reformulação do futebol brasileiro. Isso, sim, pode ter algum tipo de influência na eleição.

O governo pode exercer alguma influência nas mudanças da CBF?

O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, está tendo o cuidado de que essa questão não seja apenas do governo e está tornando esse debate suprapartidário. A Dilma não tem relações com o Marin (José Maria Marin, presidente da CBF) e não há como colocar a responsabilidade da CBF no colo dela. As forças, tanto no governo quanto no Congresso, tendem a empurrar o problema para a CBF, sobretudo diante do fato de que o Felipão (Luiz Felipe Scolari, técnico da seleção) não assumiu o erro e credita tudo à "pane dos seis minutos", coloca a culpa nos jogadores e se exime do problema.

A falada CPI da Copa na oposição perde a força diante do bom resultado fora de campo e do mau resultado da seleção?

A CPI da Copa, assim como a CPI da Petrobras, não passa de um factóide. Os parlamentares irão para as campanhas, haverá um esvaziamento do Congresso nos próximos meses. Além disso, muitos dos estádios estão em estados governados pelo PSDB. CPI demanda tempo, e os deputados e senadores estão, neste momento, preocupados em salvar a própria pele e se eleger em outubro.

Diante do resultado da seleção, o slogan Copa das Copas ainda faz sentido?

A Copa das Copas faria sentido caso a seleção tivesse conquistado o hexacampeonato. Mas Felipão e a CBF não fizeram o dever de casa. Não foi por outro motivo que Dilma tirou de circulação esse slogan. Do ponto de vista do futebol, a Copa das Copas virou o "Desastre dos Desastres". Apesar de a história recente do país mostrar que não existe relação entre o desempenho da seleção no Mundial e o resultado da eleição, o que acontece agora é que tivemos uma Copa em casa. E a Dilma teria se beneficiado, sim, de um resultado positivo no futebol.

O governo se beneficia como fato de a Fifa ter sido exposta a partir do desvendamento da máfia da Match, responsável pela venda de ingressos dos jogos?

Isso não vira voto. O grande legado poderá ser a reformulação do futebol brasileiro. Se o legado for a reformulação do que é criticado há muito tempo, isso pode se tornar benefício. Por outro lado, tem gente dizendo que um dos legados terá sido desmascarar a Fifa. Mas isso foi a Polícia Civil do Rio de Janeiro. Esse conluio entre dirigentes da Fifa e a empresa associada desmonta a arrogância do "Padrão Fifa". É o padrão "Pifa". Problema com a venda de ingressos, agora explicado, problemas com a comida nos estádios... a Fifa sai arranhada. Mas Dilma não tem como faturar em cima disso.