domingo, 18 de outubro de 2026

As eleições vistas de outro ângulo, por Elimar Nascimento*

Revista Será?

O historiador, cientista político e escritor português João Pereira Coutinho publicou pela editora Três Estrelas um livro fortemente interessante. Intrigante, na verdade, e desde o título: As ideias conservadoras explicadas a reacionários e revolucionários (2014).

Bem resumidamente, Coutinho defende que o mundo moderno, nascido da Revolução Francesa, pariu três grandes ideologias: a conservadora, a reacionária e a revolucionária. O que as distingue? O conservadorismo, em essência, afirma que o mundo está em movimento, que a mudança é a forma de existir da modernidade; porém, considera que estas mudanças devem se fazer de forma lenta. A ideologia reacionária, ao contrário, se opõe à mudança e prega o retorno ao passado idealizado. No outro extremo, surgem as ideias revolucionárias, que querem “fazer do passado uma tábua rasa”.

Essas ideologias assumiram feições próprias em momentos distintos e sociedades diferentes. De forma específica, a ideologia conservadora caracteriza o que denominamos hodiernamente de direita, formada por cidadãos e políticos que defendem a manutenção de velhos costumes, mas aceitam o regime democrático como algo imperfeito; porém, reconhecem que é o que de melhor inventamos na política. Os reacionários se confundem com o que hoje denominamos de extrema-direita, que recusa os tempos modernos, a democracia liberal e a igualdade entre homens e mulheres perante a lei. Na sua expressão mais radical, querem voltar ao passado, restaurar a monarquia e a supremacia branca. E os revolucionários? Sumiram, derrotados ao longo de pouco mais de meio século que nos antecederam, com a derrota da URSS e a adesão da China à economia de mercado. Deram lugar a reformistas.

Portanto, a hegemonia da onda de direita sinalizada por alguns analistas já se realizou, no mundo e no Brasil. O problema é que esta onda está sendo estressada pelos reacionários, ou seja, pela extrema-direita.

As eleições brasileiras representam muito este movimento. Quem venceu nas eleições parlamentares não foi a direita, mas a extrema-direita, representada basicamente pelo PL. Assim, nas eleições presidenciais, colocam-se frente a frente um reformista, que é o Lula, e um líder da extrema-direita, o Flávio Bolsonaro. Aliás, se fossemos utilizar a expressão de Chico de Oliveira, um conservador reformista e um fascista.

O filho do ex-presidente venceu o primeiro turno, não porque a maioria de seus eleitores concorde com suas ideias, mas porque estavam cansados e insatisfeitos com as entregas do governo Lula. Queriam mudar. Não votaram em Flávio Bolsonaro, mas pelo fim da hegemonia petista, que foi mal exercida desde o governo Dilma.

No segundo turno, as duas proposições ideológicas se confrontam de forma mais clara. E, com a maioria no Parlamento, o líder bolsonarista terá as condições de realizar suas propostas, com a provável extinção de muitos dos direitos construídos ao longo de nossa história recente. E, com mais um ano, seu poder crescerá enormemente com o controle do STF. Teremos um quase imperador. E o que será do Brasil? Não sabemos.

É contra esse risco que a sociedade brasileira se deu conta neste segundo turno, saiu às ruas, e ocupou as redes sociais de maneira antes inimaginável. De forma estupenda, diria. Não é tanto um apoio ao governo Lula e menos ainda ao PT. É uma reação, como um grito, contra o risco que representa um extremista vencer com o poder que terá. Reação alimentada, é verdade, com as medidas tomadas mais recentemente por Lula: eliminou o imposto de renda dos que ganham pouco, resolveu a dívida de grande parte dos empreendedores, retirou famílias inteiras do sofrimento do vício nos jogos e, finalmente, conseguiu aprovar no senado a lei que institui 40 horas de trabalho semanais no lugar de 48. Pode-se afirmar que são medidas populistas, contudo, estimulam as pessoas a mudarem de voto ou ir as urnas.

Como diz um de nossos analistas mais conceituados: o Lula está no jogo, e o que antes nunca aconteceu pode vir a acontecer: o candidato que ocupou o segundo lugar no primeiro turno ganhar as eleições. E, se assim for, não estaremos no melhor dos mundos, mas teremos evitado o pior. O que não é pouco. E é o que provavelmente acontecerá se a onda vermelha persistir. Mas precisa persistir e se alargar, incorporar novos contingentes. Se isso ocorrer, será uma vitória fantástica. Com repercussões no futuro e no mundo. O humanismo terá sido resgatado.

*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011)

Um comentário:

Mais um amador disse...

O livro de Coutinho é ótimo. Aliás, este autor mereceria mais postagens por aqui, pois sua coluna na Folha é uma das melhores do jornal.