domingo, 1 de novembro de 2026

Alivio democrático, por Rodrigo Nunes*

Folha de S. Paulo

Um governo apenas de normalização institucional é muito pouco contra ameaças que nos assombram

Será indispensável manter mobilização social e ousadia para emparedar bolsonarismo

[RESUMO] Triunfo histórico de Lula merece ser celebrado pelos defensores da democracia, mas não podemos nos enganar sobre a gravidade da situação. O voto bolsonarista segue crescendo, consolidou domínio no Congresso e por pouco não leva a Presidência, impulsionado pela desintegração social em todo o mundo após 50 anos de neoliberalismo. Reverter esse quadro exigirá do governo federal preservar ao longo dos próximos quatro anos o senso de urgência descoberto no segundo turno, começando a se preparar para 2030 desde já.

Com uma inédita virada no segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva ganhou um inédito quarto mandato como presidente naquela que foi, sem dúvida, a eleição mais dramática da história do país.

Mais uma vez, a democracia brasileira respira aliviada após escapar por um triz do maior risco por que passou desde o fim da ditadura militar. Mas se o retorno de Lula há quatro anos pareceu ser interpretado por muitos como sinal de que a ameaça fora definitivamente derrotada, é preciso desta vez levar muito a sério o que as urnas indicam: ela não apenas não foi embora, como segue crescendo.

Embora o salto à frente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno não fosse esperado, tudo mais nos resultados daquele dia não deveria ser surpresa.

Malgrado a derrota na disputa presidencial de 2022, o voto bolsonarista continuou se ampliando e capilarizando desde 2018, conforme se pôde observar nas três últimas eleições, com a consolidação de sua presença no Congresso, nos governos e legislativos estaduais, nas prefeituras e câmaras de vereadores.

Em vez de uma virada de maré, o triunfo de Lula quatro anos atrás foi a recaptura do último bastião que ainda não estava plenamente nas mãos da extrema direita.

Se aquela eleição viu um dos melhores presidentes da história do Brasil bater o pior por uma margem mínima, 2026 obrigou Lula a correr atrás do resultado contra um candidato que não é o político mais expressivo nem de sua própria família —e o reconduziu ao governo para quatro anos sob o cerco permanente de um adversário hostil e empoderado.

Nas últimas semanas, um termo circulou para caracterizar esse cenário: haveria uma revolução de extrema direita em curso no país. Por um lado, tratar-se-ia de uma revolução cultural, visível, por exemplo, no avanço de todo um universo de valores e referências associados ao agronegócio ao longo da fronteira agrícola em expansão no interior do Brasil.

Uma revolução cultural também no modo como a extrema direita soube dar forma aos desejos e frustrações dos atletas da viração nas cidades grandes e médias: motoboys, motoristas de aplicativo, aspirantes a influencers e outros trabalhadores em situação permanente de sub e multiemprego que se identificam com a promessa de um mundo em que menos regulação e impostos possam impulsionar seus voos pessoais.

Revolução cultural, finalmente, no crescimento das igrejas evangélicas nas periferias e na ascensão dos empreendedores políticos: influenciadores digitais que fizeram da agitação de extrema direita uma carreira lucrativa e que, em muitos casos, lograram converter em votações estrondosas seu considerável capital midiático.

Mas o termo se justificaria sobretudo porque é a extrema direita que tem sabido melhor do que ninguém encarnar um desejo de ruptura que paira no ar há algum tempo —uma mistura de desencanto com as promessas da democracia e da modernidade, indiferença a instituições vistas como elitistas e corruptas, um sentimento de que as coisas não podem seguir como estão e uma dificuldade profunda de imaginar como elas poderiam ser diferentes.

Trata-se de uma revolta que acaba por ser extremamente conformista, na medida em que não se traduz em projetos coletivos de combate à explosão da concentração de poder econômico e político das últimas décadas, mas na aposta em figuras que prometem um ambiente mais desregulado de competição de todos contra todos. Isso, contudo, não a torna menos urgente para quem adere a ela.

Revolução ou Aceleração?

Todos os elementos dessa análise estão corretos —e, no entanto, a palavra "revolução" não deixa de causar ruído. Não porque ela seja privilégio exclusivo da esquerda ou porque tenha um conteúdo determinado, mas porque falta à ascensão da extrema direita uma característica que parece essencial ao conceito: a de ir a contrapelo do atual estado de coisas.

Em cada um dos pontos acima, é possível dizer que o sucesso da extrema direita vem menos de sua capacidade de andar na contramão da história e mais de sua aptidão para navegar os ventos favoráveis das quase duas décadas de crise permanente que vieram na esteira da debacle financeira de 2008.

A internalização do empreendedorismo de si mesmo —aquilo que Verónica Gago chamou de "neoliberalismo desde baixo"— não é um fenômeno recente, mas o resultado cumulativo de cinco décadas de reformas neoliberais que reformataram o mundo em que vivemos.

O advento da plataformização e das redes digitais contribuiu para acelerar este processo, bem como o da colonização da política pela economia da atenção que fez crescer exponencialmente o poder das big techs, inclusive aquele de intervir diretamente em eleições, ao mesmo tempo que abria aos empreendedores políticos um mercado gigante de instrumentalização da raiva, do ressentimento e do ódio.

Neste processo, também as igrejas evangélicas funcionaram menos como inovadoras do que como organismos especialmente adaptados a um novo mundo que se formava.

Ocupando espaços deixados pela ausência do Estado e pela retirada da Igreja Católica de áreas mais pobres, elas ofereciam apoio a indivíduos expostos a condições cada vez mais hostis e uma mensagem adequada às circunstâncias, de esforço e salvação individuais.

Durante um tempo, os desejos despertados por essa reformatação da vida social e da subjetividade puderam se projetar em cenários de expansão: a globalização e a abertura ao capital internacional, bolhas especulativas como a da internet e a do mercado imobiliário. Com o estouro desta última, a situação mudou no mundo todo.

No Brasil, o fim do ciclo das commodities em 2015 fez com que mesmo alguns dos pilares do sucesso petista se voltassem contra o partido. Em 2026, o voto bolsonarista cresceu no Nordeste junto com a fronteira de um agronegócio que, desde 2018, se realinhou à extrema direita.

A expansão do crédito, que possibilitou a "inclusão pelo consumo" no início do século, virou endividamento em massa e fez com que a melhora dos indicadores macroeconômicos do terceiro governo Lula não se traduzisse na vida de muita gente.

Também a promoção do empreendedorismo popular, parte importante do repertório lulista nos tempos de prosperidade, virou-se contra o PT quando as condições mudaram. Não apenas a culpa pela piora recaiu sobre o partido, como este perdeu a batalha discursiva em torno de quais haviam sido as causas dos tempos de vacas gordas.

Em vez de as políticas redistributivas serem percebidas como aquilo que aquecera o mercado interno e tornara possível empreender, elas viraram as vilãs que tiravam dos busca-vidas para dar a quem não queria trabalhar.

É possível compreender essa mudança de vento global examinando a transformação do imaginário em torno dessa figura-chave de nosso tempo, o empreendedor.

As condições econômicas pós-2008 —explosão do subemprego, aceleração da concentração de renda, inflação de ativos financeiros— fizeram com que desaparecesse a perspectiva de uma progressão linear entre poupança e investimento em formação, por um lado, e a mobilidade social, pelo outro.

Com isso, a ética protestante do êxito mediante o trabalho duro sofreu uma inflexão. Quando o sonho da casa própria ou de ter filhos se torna tão distante que não há um caminho natural até ele, cresce a busca por atalhos: soluções mágicas como bets, criptomoedas ou o sonho de virar coach ou influencer, caminhos que elegem um caso de sucesso em cada dezena ou centena de milhar.

Até o otimismo de nossos tempos tem um quê de desesperado. Isso implica que, se é essencial à esquerda saber ouvir as aspirações dos que querem brilhar, ela não pode contentar-se com acolhê-las em seus próprios termos, sem questionar as (im)possibilidades estruturais de sua realização ou articular a necessidade de uma outra economia, sustentável e mais igualitária, onde outros tipos de sonho encontrem outras condições de se realizar.

Em boa medida, a guinada à extrema direita no mundo todo pode ser entendida como aquilo que acontece com os desejos despertados pelo neoliberalismo quando suas promessas de boa vida se tornam cada vez mais difíceis de realizar: eles azedam.

Trata-se de uma política para "um tempo de expectativas decrescentes", potencializado pelo espectro da crise ambiental, quando perceber o mundo como um jogo de soma zero se torna cada vez mais natural.

Se as condições não parecem poder mudar, a não ser para pior, e redistribuir a renda concentrada no topo não parece possível, só resta a quem está na base da pirâmide competir entre si —empurrando para fora do jogo minorias, imigrantes, ou quem quer que esteja do lado mais fraco da corda.

É por conta desta continuidade com o atual estado de coisas que, sem menosprezar a força galvanizante da extrema direita, parece mais adequado falar não em revolução, mas em instrumentalização e aceleração da desintegração social produzida por 50 anos de neoliberalismo, incluindo as já quase duas décadas de sua sobrevida zumbi pós-2008.

Alimentando-se das forças liberadas por essa desintegração, a extrema direita as direciona na direção do colapso: da democracia e do universalismo liberais, da legalidade, da capacidade estatal, do meio ambiente e até mesmo da soberania indivisível —como se vê no avanço de atores soberanos não estatais como milícias e narcotráfico, que tinham um representante direto nessas eleições em Flávio Bolsonaro, agora foragido das investigações criminais que pesam sobre ele.

Emancipação em Tempos de Expectativas Decrescentes

Pensar o ascenso da extrema direita como continuação e aceleração de tendências existentes também nos ajuda a entender todas as vantagens estruturais que ela aparenta possuir.

Vantagens do ponto de vista da mensagem, que está em continuidade com o momento histórico de horizontes reduzidos, a gramática moral dominante e a experiência vivida de muita gente; e vantagens do ponto de vista organizacional, já que ela se acha mais capilarizada no tecido social e encontra nas plataformas digitais um terreno mais favorável ao tipo de política que propõe.

Vantagem, finalmente e sobretudo, porque, apesar do discurso antissistema, sua prática está em perfeita continuidade com os interesses de elites domésticas e globais que decidiram pisar no acelerador da concentração de riqueza às custas da democracia, do meio ambiente e da imensa maioria da população mundial.

Mais do que qualquer coisa, a quarta vitória de Lula significa comprar tempo. Tempo para a democracia, afastando o risco de tomada do Judiciário que um Executivo e Legislativo em mãos bolsonaristas representava.

Tempo para o meio ambiente, diante do fato de que mais quatro anos de um Bolsonaro na Presidência certamente poria a Amazônia numa trajetória irreversível de savanização, com um impacto fortíssimo sobre o aquecimento global.

Tempo para serviços públicos como saúde e educação, afastando por ora a ameaça de cortes e privatização. Tempo para proteger as instituições e a vida pública da infiltração cada vez maior pelo crime organizado.

Mas é preciso ter sobre essa vitória a clareza que faltou em 2022: por ora, estamos apenas comprando tempo. Lula 3 foi um governo de normalização, o que não deixava de ser bem-vindo após quase dez anos de anormalidade constante; mas, em um mundo em que a tendência natural das coisas favorece a extrema direita, agir como se estivéssemos em tempos normais é um grande erro.

Quando as coisas vão longe demais em uma direção, as medidas capazes de realmente corrigir seu curso não podem deixar de parecer radicais.

Por isso, será indispensável manter ao longo dos próximos quatro anos o senso de urgência descoberto no segundo turno para garantir que Lula 4 tenha não apenas a chance de existir, mas de fazer o que é preciso para começar a reverter o cenário em que a aceleração da desintegração opera e a extrema direita cresce.

Isso significa sustentar tanto a mobilização popular quanto a ousadia que o governo federal assumiu na reta final das eleições, quando uma série de medidas até então tidas como impossíveis subitamente se tornaram imparáveis —com a proibição das bets, o reajuste do Bolsa Família, a redução da jornada de trabalho e a PEC da Tarifa Zero.

A estas precisarão se somar, o quanto antes, a regulação das big techs e o combate ao sequestro do orçamento por emendas parlamentares nada transparentes.

Acima de tudo, a esquerda será obrigada a enfrentar a questão fundamental que o sucesso da extrema direita em capitalizar em cima da desintegração traz à tona: o que significa articular um projeto emancipatório em tempos de expectativas decrescentes?

Como podem os desejos, as esperanças e as aspirações atualmente depositados na extrema direita serem transformados e redirecionados para uma alternativa à altura do desafio de combater a desigualdade em um mundo que se aproxima perigosamente do colapso ambiental?

A vitória improvável sobre o bolsonarismo, Donald Trump, o crime organizado e o Vale do Silício tornou-se uma fonte de esperança e entusiasmo ao redor do mundo —uma espécie de equivalente, na política eleitoral, ao que foi o Vietnã.

A impressionante mobilização que tornou isso possível virou um caso de estudo sobre como vencer a extrema direita nas urnas, além de ter posto uma pulga atrás da orelha da maioria de direita no Congresso, que certamente viu ali a possível emergência de uma força capaz de reorganizar a correlação de forças pós-eleições.

Contudo, é preciso lembrar que foi preciso uma figura do porte de Lula para bater o bolsonarismo em 2022 e 2026 —o que significa que a preparação para 2030, quando ele já não poderá se candidatar, começa desde já.

Mas é preciso estar atento para não confundir estratégia eleitoral com estratégia política. Uma coisa, evidentemente importante, é construir candidaturas fortes para a Presidência e o Legislativo nas próximas eleições.

Nomes novos que despontaram com força neste último ciclo, como Érika Hilton e Ana Elisa, não só oferecem esperança como apontam alguns caminhos.

Outra coisa, condição imprescindível para o sucesso da primeira, é compor uma base social em condições não apenas de eleger tais candidaturas, mas de emparedar aqueles que tentarão emparedar o governo, gerando a demanda e as oportunidades para que este consiga ir além.

Isso não se fará apenas com mais influenciadores de esquerda, como muitos pareceram concluir após o primeiro turno, mas também com organização analógica e o esforço para elaborar um programa capaz de atualizar o lulismo para condições muito diferentes.

Neste sentido, há uma lição muito forte a se aprender com este segundo turno. Iniciativas vindas de fora do quartel-general de campanha, tais como o Exército do Lula e o projeto Revelando, foram decisivas nesta virada.

Elas, por sua vez, não teriam produzido os mesmos efeitos sem a tenacidade de milhões de pessoas que dedicaram seu tempo, dentro e fora das redes, para correr atrás de um resultado improvável.

Não foi o PT, nem foi Lula, mas sim a ecologia que se constituiu em torno deles que venceu a eleição.

Se Lula, com esse triunfo, inscreveu seu nome em definitivo nas páginas da história brasileira, é a sua imagem nessa reta final que oferece a lição mais potente para o que virá agora: a de um indivíduo extraordinário, de trajetória extraordinária, mas que precisou de um povo extraordinário para carregá-lo até a linha de chegada.

*Professor da Universidade de Essex e da PUC-Rio. Autor de "Do Transe à Vertigem: Ensaios sobre Bolsonarismo e um Mundo em Transição" e "Nem Vertical Nem Horizontal: uma Teoria da Organização"

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