Por Arthur Guimarães de Oliveira e Juliana Arreguy\Folha de S. Paulo
Ministro diz que vitória de Lula indica apoio
popular a políticas públicas e que cortes devem mirar emendas e supersalários
Mobilização nas redes e nas ruas, afirma ele,
será necessária para garantir governabilidade do presidente
O ministro da Secretaria-Geral da
Presidência, Guilherme
Boulos (PSOL),
diz ver uma chantagem do mercado no debate sobre ajuste fiscal
no novo governo do presidente Lula
(PT)
e afirma que os cortes devem mirar privilégios, não o "lombo dos mais
pobres".
A receita para economizar, segundo ele,
inclui discutir temas como desonerações fiscais, supersalários e emendas
parlamentares impositivas.
"Você não pode contrapor uma chantagem
de mercado à vontade popular. Isso é anular a democracia", diz o ministro
em entrevista à Folha.
Do fim de 2022, antes do terceiro mandato de
Lula, a julho de 2026, a dívida pública passou de 71,7% do PIB (Produto Interno
Bruto) para 82,5%.
Sobre a sucessão de Lula, Boulos afirma que o momento não é o de discutir quem será a próxima grande liderança progressista, mas sim o de garantir um "mandato biográfico" para a quarta passagem do petista pelo Palácio do Planalto.
Apesar da virada histórica, Flávio Bolsonaro
(PL) obteve quase 60 milhões de votos. O que a esquerda ainda não compreendeu
sobre o eleitor que vota no bolsonarismo?
O fenômeno de crescimento da extrema direita é no mundo inteiro, assim como a
tendência ao quase desaparecimento do centro político. [Mas] Destaco o fato de
a gente ter conseguido uma margem de 4
milhões de votos, maior que a de Lula contra Jair
Bolsonaro [em 2022]. E em uma eleição na qual, no primeiro turno,
ficamos atrás.
Não há nada a se aprender com o fato de
Flávio ter recebido tantos votos, mesmo sendo chamado de ‘o pior dos
Bolsonaros’?
O Jair tinha recebido uma quantidade proporcionalmente maior e é uma figura tão
nociva quanto. E 24 horas depois de ter recebido 60 milhões de votos, Flávio fugiu
como um rato. Não teve coragem de enfrentar suas questões judiciais, mesmo se
dizendo inocente. Simplesmente fugiu.
Flávio recebeu ajuda
para fugir. O sr. vê risco de interferência externa ou até de novos
episódios como o 8 de Janeiro?
Houve uma atuação confessa da Meta durante as eleições, com funcionários reconhecendo
que prejudicaram Lula e favoreceram Flávio. Não foi apenas uma
diretriz empresarial, você teve [Donald] Trump defendendo e apoiando a
candidatura de Flávio. O Brasil tem que permanecer atento aos vários
riscos de intervenção que marcam a política externa atual dos Estados Unidos.
No seu livro sobre o
futuro da esquerda, o sr. diz que a vitória só foi possível em 2022
porque era o Lula disputando. O mesmo se aplica a 2026?
O mesmo. Lula é a maior liderança política que esse país produziu. O eleitorado
de esquerda é 30% da sociedade. Para conseguir a maioria, precisa do
complemento de um eleitorado popular, como o lulista. Esse é um dos desafios do
Lula 4: não ficar só na resistência à extrema direita. Em 2022, ganhamos a
eleição, mas não a narrativa. Quem produziu a agenda política do país foi a
extrema direita. Nós temos a oportunidade de também ganhar a agenda e alimentar
a renovação da esquerda até 2030.
Quem a esquerda tem de nome para o futuro?
Esse segundo turno foi um movimento cívico da sociedade brasileira, tivemos
milhões de pessoas nas ruas como não se tinha desde as Diretas Já. Ganhamos as
eleições com as ruas e com as redes. E o Lula 4, para ter sucesso, precisará de
ambas.
E nomes?
Hoje esse exercício é inócuo, porque o debate para a sucessão do Lula vai
depender dos próximos quatro anos.
Alguns citam o seu nome. O sr. se vê como
sucessor de Lula?
Alimentar essa discussão agora só serve à divisão interna na esquerda e no
governo. Ganhamos a eleição porque o povo quer manter as conquistas que teve e
quer melhorias. O próximo governo precisa responder a ambas.
Como conciliar a necessidade de cortar gastos
com a de financiar as promessas de campanha?
Os governos Lula sempre tiveram equilíbrio fiscal. A diferença é que a gente
não aceita ajuste fiscal que corta no SUS (Sistema Único de Saúde) e na
educação, o tesouraço
que o Flávio propunha. Esse programa foi derrotado nas urnas. Você
não pode contrapor uma chantagem de mercado à vontade popular. Isso é anular a
democracia.
O corte que queremos é em privilégios: temos
quase R$ 600 bilhões por ano em desonerações fiscais. O presidente falou
durante toda a campanha em reforma judiciária, que envolve cortes dos
supersalários, e reforma política também, que envolve repensar a emenda
parlamentar impositiva. Só aí tem R$ 61 bilhões. Comparem a elevação da dívida
do Brasil com a dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico) nos últimos 15 anos. A do Brasil está longe de ser a
que mais cresceu.
A questão é a trajetória.
Não estou falando só que o Japão tem 200% e nós temos 80% [de dívida pública em
relação ao PIB]. Pegue a trajetória de crescimento da dívida dos EUA, da
maioria dos países europeus, do Japão, da China.
Eles também sofrem pressão por lá.
Mas algum desses países deixou de fazer um projeto de desenvolvimento nacional?
Pelo contrário. E a receita que esse mercado quer impor para o Brasil é corte
no povo. Não foi essa agenda que ganhou eleição.
Para implementar essa agenda, será necessário
negociar com o Congresso. Isso não vai ser difícil?
O presidente fará negociação com essa composição do Congresso. Agora, o próprio
Lula deu a senha. A governabilidade será com o Congresso, com o Judiciário, mas
também terá um outro componente. Precisaremos governar com
as ruas e as redes. Com as redes, para disputar a narrativa. Com as
ruas, porque sabemos que, quando o povo se manifesta, mesmo com um Congresso
hostil a determinadas pautas populares, as coisas mudam.
Tem alguma estratégia concreta para
transformar essa mobilização eleitoral em participação política?
Tivemos até aqui instrumentos de participação tradicionais: conselhos e
conferências, que são importantes, mas precisamos pensar em instrumentos mais
digitalizados como formas de consulta pública.
O sr. já sabe se continua no ministério?
A única pessoa que tem autoridade para falar sobre ministério é quem teve 65
milhões de votos. Nós vamos conversar nos próximos dias para avaliar onde posso
contribuir melhor.
Houve um racha interno
no seu partido e muitos indicaram que pretendem sair. É o seu caso?
Pretende sair do PSOL e migrar para o PT?
Não é segredo para ninguém a divergência com o que hoje é a maioria no PSOL.
Nosso grupo está fazendo uma discussão sobre os caminhos políticos a tomar, e
essa discussão deve estar amadurecida nas próximas semanas.
O sr. pretende se candidatar à Prefeitura de
São Paulo em 2028?
Meu foco está em ajudar Lula a fazer um mandato histórico. Para além de um
mandato de legado biográfico, por ser o último, pode ser um mandato histórico
para o povo brasileiro. É um ciclo que se encerra e que pode apontar os
caminhos para os próximos 20 anos.
O sr. fala que a esquerda precisa ter o
celular na mão e o pé no barro. Nessa campanha, André Janones
(Rede-MG) representou o celular na mão e o sr., o pé no barro?
Janones cumpriu um papel extraordinário. A organização do "Exército
do Lula" foi louvável, merece todo o nosso respeito. Eu fui coordenador
de mobilização, e a gente conseguiu estimular muitas manifestações ao redor do
país. Nesse segundo turno, a gente teve um processo de levante da sociedade
além de qualquer liderança política, como não se via há muito tempo.
*Guilherme Boulos, 44 - É formado em
filosofia e mestre em psiquiatria pela USP (Universidade de São Paulo). Foi
coordenador do MTST
(Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e candidato a presidente em 2018 e a
prefeito de São Paulo em 2020 e 2024. Eleito deputado federal em 2022 pelo
PSOL, é ministro da Secretaria-Geral da Presidência.

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