Folha S. Paulo
Lei protege o cidadão na frente da urna, mas
deixa qualquer pessoa desamparada diante da multidão
Quem mais exige posicionamento alheio costuma
ser o primeiro a cancelar quem pensa diferente
Em 1932, o Código Eleitoral criou a cabine
indevassável para encerrar o voto de cabresto. Noventa e quatro anos depois,
esse espaço segue intacto —quer dizer, mais ou menos, porque já temos vigias de
gestual tentando adivinhar pelo movimento do braço ou do dedo se o sujeito
digitou 13 ou 22. Ainda assim, o problema maior acontece do lado de fora.
Nem todo conservador, mas sempre um bolsonarista. Basta abrir o noticiário para ver de onde parte a chantagem do desemprego. É a mesma turma que bate no peito pela liberdade de recusar vacina, guardar fuzil em casa ou negociar direto com o patrão a jornada e o salário. Porém, essa autonomia toda some quando o subordinado resolve apertar o 13 na urna. Aí a escolha pessoal vira motivo de justa causa.
No Rio, a deputada estadual mais votada,
Índia Armelau (PL), sugeriu que
empresários vasculhassem as redes dos funcionários para conferir
quem "fez o L" e agissem de acordo. Pelo Paraná, a campeã de votos
Jessicão, do mesmo partido, desenhou a regra: doméstica petista, rua; amigo,
adeus. Em Goiás, o dono de um frigorífico ofereceu viagem paga a Caldas Novas
para mil eleitores de Lula,
desde que ficassem longe da seção. No Maranhão, até prefeito avisou que
servidor alinhado ao presidente seria demitido.
O Ministério Público do Trabalho somou quase
quatro mil denúncias de assédio
eleitoral até agora. O grupo de WhatsApp faz as vezes de curral,
enquanto o capataz dá print em postagens e monta listas de padarias,
restaurantes ou lojistas que precisam quebrar.
Há algo muito perverso em usar a fome como
argumento de campanha. Demitir a faxineira ou o caixa de supermercado que
precisa do pagamento para comprar arroz e feijão não é disputa política, mas
simples covardia contra quem não tem como se defender. Na mesma toada, surgiram
anúncios de cortes de doações a ONGs e projetos sociais —justamente aqueles que
chegam onde a maioria dos governos jamais pisou— por vingança diante do
resultado das urnas. Punir quem depende de marmita comunitária para dar lição
ao eleitorado mostra bem o tamanho dessa gente.
Mas o bolsonarismo não detém o monopólio da patrulha.
Enquanto uma trincheira persegue quem declarou o voto, uma ala barulhenta da
esquerda caçou os que preferiram ficar calados. O cantor João Gomes é
o retrato acabado desse cerco. Em 2022, após puxar coro contra Bolsonaro no
Rock in Rio, viu o Sindicato Rural de Imperatriz barrar seu show no parque de
exposições. Agora, quatro anos depois, apanhou do lado oposto por escolher o
silêncio. Sua mulher, Ary Mirelle, contou que ele toma antidepressivos desde a
disputa anterior por causa de ataques e ameaças mirando até os dois filhos
pequenos do casal.
Acuado, o rapaz acabou lendo uma mensagem no
palco para tentar acalmar a patrulha. Tinha as mãos e a voz trêmulas. Ao
assistir àquela cena, fiquei pensando: o que existe de democrático em coagir
alguém que, seja pelo motivo que for, preferiu se calar? Transformar um artista
jovem, visivelmente assustado e medicado, em refém de um tribunal de internet
para arrancar um manifesto sob pressão não tem nada de progressista; é pura
tortura psicológica fantasiada de consciência social.
Um humorista ainda achou graça em publicar
montagens de inteligência
artificial estampando os rostos de João, Vini Jr., Gisele Bündchen e
Selton Mello em caixas de leite, como pessoas desaparecidas. Do ator que viveu
Rubens Paiva no cinema, que perdeu o pai, Dalton, em julho, cobraram pedágio:
como ousava viver o luto quieto após ganhar dinheiro com aquele filme?
Quando fãs e colegas colocam celebridades
contra a parede, não cometem delito trabalhista, mas recorrem a um método velho
conhecido de regimes autoritários: a coação. A lei protege o cidadão na frente
da urna e tenta salvar
o emprego do operário, só que deixa qualquer pessoa desamparada
diante da multidão. Como resumiu o sanfoneiro Mestrinho, parceiro de palco e
eleitor declarado de Lula, quem mais exige posicionamento alheio costuma ser o
primeiro a cancelar quem pensa diferente. Tem muita gente precisando lavar a
boca com sabão antes de falar em democracia.

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