quarta-feira, 28 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Lula não tem mais como adiar plano de ajuste fiscal

Por O Globo

Mais importante que especular sobre nomes para Fazenda é uma proposta confiável para conter a dívida pública

Como era esperado, o mercado ficou estressado com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Bolsa caiu, juro futuro subiu, dólar disparou — e o Tesouro teve de intervir. A tensão diminuiu ontem, mas a incerteza persiste. O motivo é, na imagem feliz do colunista do GLOBO Carlos Alberto Sardenberg, a “herança maldita” de Lula para si mesmo. No atual governo, ele tratou com desdém a explosão da dívida pública, passou a campanha empilhando promessa sobre promessa sem nem querer ouvir falar em custo ou ajuste. Quem sabe fazer a conta constatou: ela não fecha. Sem ajuste, o país quebra.

O Zero Um sumiu: para onde vai a direita? Por Vera Magalhães

O Globo

Fuga de Flávio abre vácuo de liderança e expõe dificuldade da oposição a Lula de se desvencilhar do bolsonarismo

Quando parece que o Brasil vai curar a ressaca da comemoração ou do luto, o roteirista surpreende e oferece uma fuga espetacular de Flávio Bolsonaro do país, com plano ainda incerto e em tempo recorde depois da decisão de Alexandre de Moraes para que ele entregasse os passaportes.

E, como tudo no país é passível de interpretações opostas, o filho Zero Um de Jair é, para 64 milhões de brasileiros, um covarde que tem o que temer e, para boa parte dos 59 milhões que votaram nele, um perseguido por Moraes.

Se é verdade que o timing da decisão de Moraes foi coincidente com a eleição e que ela foi tomada sem que ele consultasse o Ministério Público ou que Flávio tivesse sido indiciado, também são concretos os argumentos da Polícia Federal (PF) para pedir a medida preventiva. A PF enumerou os seguintes fatos: o amigo e provável sócio de Flávio, Willer Tomaz, investigado no mesmo inquérito, já está na Flórida; o envio de vultosas quantias de recursos ainda não explicadas aos Estados Unidos pelo ex-candidato a presidente; e a declaração do irmão já foragido, Eduardo, de que, se perdesse, Flávio deveria se juntar a ele.

Da fuga fez sua verdade, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Direção Nacional de Migrações afirma que senador entrou no país às 22h50 desta terça

A Direção Nacional de Migrações, órgão do governo argentino, informou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entrou no país por via terrestre e decolou na madrugada desta quarta num jato particular rumo ao Equador.

De acordo com o plano de voo informado às autoridades locais, a aeronave decolou de Puerto Iguazú e deve pousar em Guayaquil, no Equador.

De lá, é esperado que o ex-presidenciável e a família sigam viagem rumo aos Estados Unidos, com autorização do presidente Donald Trump.

O Brasil voltou ao normal, por Elio Gaspari

O Globo

A ameaça do candidato do PL durou uma noite

Para quem se lembra do pesadelo vivido pelo Brasil há quatro anos, a decisão de Flávio Bolsonaro de desistir de batalhar pela anulação do pleito foi um alívio. Sinal de que a direita, derrotada por uma margem de 4,4 milhões de votos, decidiu aquietar-se nos Estados Unidos.

Há quatro anos, vivandeiras acampavam diante de quartéis, pedindo um golpe de Estado. O afastamento dos militares da política foi uma das maiores realizações do Lula 3.0.

Ele conseguiu isso porque, ao contrário de seu antecessor e de alguns çábios do mercado, não opera jogando na tensão. A vitória de Lula foi um poderoso sinal de que, em quatro anos, ele recolocou o Brasil no caminho da normalidade. Até Donald Trump e presidentes latino-americanos deram-se conta disso.

Janela para rearranjos das forças de esquerda e direita, por Fernando Exman

Valor Econômico

Nos bastidores, há também uma cobrança para que Lula prestigie novas lideranças locais

Concluída a eleição, esquerda e direita devem passar por processos de reorganização de suas forças políticas. À esquerda, o que se espera é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidere pessoalmente o processo e não repita o “erro” dos últimos quatro anos de não aproveitar o comando do governo central para fortalecer novas lideranças e partidos aliados - não apenas o PT. A avaliação é que, em caso de derrota no domingo (25), a esquerda só voltaria ao poder em um horizonte de longo prazo, o que não ocorreu por muito pouco. Em relação à direita, o desafio é distinto: aproveitar a fuga de Flávio para os Estados Unidos e abrir caminho a uma liderança que não tenha o sobrenome nem dependa do crivo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Cenário cria fissura na extrema direita, diz pesquisador, por Lucas Monteiro

Valor Econômico

Para Odilon Caldeira Neto, campo bolsonarista terá que disputar com esquerda mais organizada nas redes

A possível fuga do senador e candidato derrotado à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), do Brasil para os Estados Unidos, provoca uma fissura e abre espaço para novos nomes na extrema direita, mas o bolsonarismo tem pela frente o desafio de disputar as ruas com o que chama de campo democrático, avalia Odilon Caldeira Neto, professor de História na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e coordenador do Observatório da Extrema Direita.

“Com Jair Bolsonaro preso; Eduardo e possivelmente Flávio nos Estados Unidos e a incógnita na articulação política que representam Carlos e Jair Renan, foram criadas fissuras no campo da extrema direita, que podem se refletir numa reorganização das alas desse grupo”, afirma o professor. As alas às quais Odilon se refere são a evangélica, a feminina e a de segurança.

O homem que viu o trem passar e a fuga de Flávio Bolsonaro para os EUA, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Flávio Bolsonaro recebeu 48% dos votos. A votação não lhe concede imunidade penal, mas aumenta a responsabilidade das autoridades de explicar suas decisões

 George Simenon foi um dos mais importantes e produtivos escritores de romances policiais, a maioria deles tendo como protagonista o Comissário Maigret. “O homem que via o trem passar” (1938) é um célebre romance psicológico do autor, cujo principal personagem é Kees Popinga, holandês pacato, burguês e exemplar chefe de escritório na cidade de Groningen, que pira quando descobre que seu patrão faliu e fraudou a empresa.

Lula usará a sua força popular para garantir a governabilidade? Por Pedro Neiva*

Correio Braziliense

Lula pode mobilizar apoio público para aumentar o custo político da resistência parlamentar e melhorar suas condições de negociação

Depois da vitória do presidente Lula no domingo, a pergunta que fica é: como irá governar com um Legislativo dominado pelo Centrão e pela extrema-direita? Será ele um “pato manco” ou será capaz de fechar a sua biografia de forma triunfante? Difícil dizer com certeza, mas podemos especular. 

Desde os anos 1990 até 2014, o país vinha sendo governado por meio de uma composição governamental baseada na distribuição de ministérios e cargos entre os partidos e na execução de emendas orçamentárias de interesse dos parlamentares. A forma centralizada de funcionamento do Congresso em torno das lideranças partidárias permitia que o presidente negociasse a sua agenda com as bancadas partidárias, e não com os deputados individualmente. A iniciativa exclusiva do presidente em determinadas matérias, a solicitação de urgência legislativa e a possibilidade de editar medidas provisórias completavam o quadro, dando ao Poder Executivo a capacidade de pautar e acelerar a sua agenda no Congresso.

Fuga de Flávio é problema para a direita e para Lula, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Senador repete pai e irmão, agindo como culpado de crimes enquanto alega sofrer perseguição política

Aliados serão obrigados a optar entre solidariedade e distância; episódio pode gerar crise com os EUA

Dois dias após receber 59.826.041 votos, credenciando-se como ator central da direita brasileira, Flávio Bolsonaro comportou-se como culpado dos crimes pelos quais é acusado, optando pela fuga e pela fácil retórica da perseguição política.

O senador pelo PL do Rio fez jus ao sobrenome. No penúltimo dia como presidente da República, seu pai Jair embarcou para um autoexílio conveniente nos Estados Unidos, tendo fracassado em arregimentar os militares para dar um golpe e fingindo nada ter a ver com a intentona bolsonarista do 8 de Janeiro.

Depois, já bafejado pela condenação inevitável no julgamento daquela trama, cumprindo medida cautelar, Bolsonaro protagonizou o inacreditável episódio em que tentou romper sua tornozeleira eletrônica com um ferro de solda e escapulir da prisão domiciliar.

Flávio, o mártir do pau oco, quer criar nova revolta dos Bolsonaros contra o 'sistema', por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

No padrão da família, candidato derrotado foge da polícia e quer subverter política

Fuga lança tumulto nas fileiras da oposição a Lula 4 e inspira adeptos da 'direita cheirosa'

A fuga de Flávio Bolsonaro dá o que pensar sobre o destino da oposição a Lula 4 e sobre a montagem de um projeto da direita para 2030. Talvez os Bolsonaros se façam de mártires da desdemocratização do Brasil, de vingadores dos oprimidos pelo "sistema", mote fundamental da família e das extremas direitas.

Podem meter os pés pelas mãos se tentarem, com sucesso, apoio do governo americano para campanha qualquer contra o Brasil. Por exemplo, Donald Trump poderia aceitar um processo de asilo político para os Bolsonaros. Diria assim que o regime brasileiro não é democrático, que persegue politicamente cidadãos. Pelo meio do caminho, haveria sanções, políticas ou comerciais.

Lula ganhou a eleição e agora precisa reconquistar a classe C, por Renato Meirelles

Folha de S. Paulo

Petista ganhou porque, diante de Flávio, pareceu a escolha mais segura

Presidente deu motivo ao eleitor para não trocar o certo pelo duvidoso, mas o quarto mandato precisa oferecer mais do que a opção menos arriscada

Há 25 anos ganho a vida escutando os brasileiros. Em cada eleição, aprendo alguma coisa que não cabe no questionário. A deste domingo me lembrou uma lição antiga: é possível reclamar do governo, desejar mudanças e, diante da alternativa, decidir continuar com o presidente. Foi o que fez uma fatia decisiva da classe C. Sem entusiasmo, somando a rejeição ao adversário à segurança de quem já sabe o que tem em casa.

Escutei muita impaciência com Lula. O preço da feira não voltou ao que era, a dívida não desapareceu e o medo de andar na rua continua. Nada disso sumiu na cabine de votação. Mudou a comparação. No primeiro turno, quando Flávio terminou na frente, bastava ao eleitor descontente manifestar a insatisfação, e o bolsonarismo era o endereço mais à mão. No segundo, ele precisava decidir quem colocaria no lugar de Lula.

Final feliz? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Lula escapou de encerrar carreira perdendo para o pior dos Bolsonaros

Próximos quatro anos não serão fáceis e definirão biografia do petista

Ao conquistar seu quarto mandato, Lula foi abençoado ou amaldiçoado pelos deuses da política? A resposta não é óbvia, e não apenas porque o futuro é contingente.

Atribui-se a Sólon a máxima segundo a qual, diante das reviravoltas da vida, não podemos afirmar que uma pessoa foi feliz até que ela tenha morrido. Divirjo de Sólon. Imaginemos um indivíduo que tenha vivido 80 anos desfrutando de todos os prazeres carnais e intelectuais e em pleno êxtase moral, mas que, em seu último dia de existência, tenha sido torturado e depois degolado. Penso que, objetivamente, pelas métricas mais razoáveis, esse homem foi mais feliz do que infeliz. Falamos de 29.220 dias de bem-aventurança contra algumas horas de dor. Reconheço, porém, e aí convergindo com o sábio grego, que, para efeitos biográficos e de narrativa, finais fazem toda a diferença. E política é narrativa.

País deu recados ao governo e à oposição, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Primeiro turno foi um aviso a Lula, e o segundo alerta à direita sobre malefícios de se atrelar ao bolsonarismo

Antiguidades como fascismo e comunismo não estiveram em disputa na cabeça do eleitorado pragmático

A cena eleitoral de 2026 desenhou com nitidez a escrita de que o segundo turno é uma outra eleição. O primeiro foi um aviso de insatisfação do eleitorado ao presidente Lula (PT); o segundo enviou à direita um recado sobre os malefícios de se manter agarrada ao pé da mesa da família Bolsonaro.

Se o campo que se fortaleceu nos governos estaduais e no Legislativo insistir em lançar desconfiança sobre o resultado das urnas e ficar preso a anistias de golpistas, pode perder o bonde, o controle da agenda e desperdiçar a vantagem no Congresso.

Flávio fujão, por Mariliz Pereira Jorge

Folha de S. Paulo

Tique-taque soa como bomba-relógio; em fevereiro, senador fica sem costas quentes pela primeira vez em 24 anos

País só vai recuperar a sanidade quando essa família for varrida da política pelo voto e pela lei

Fugiu, desapareceu, escafedeu-se. Para Flávio, o Bolsonaro mais corrupto, era isso ou cadeia o que restava. No domingo, derrotado, engrossou a voz para anunciar que pediria anulação do resultado. Na segunda, intimado a entregar os passaportes, gravou vídeo jurando patriotismo: jamais pensara em deixar o país. Na terça, segundo aliados, já está na Flórida com a família, com asilo garantido.

Para que serve a polarização? Por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

No domingo, com o seu voto, você ajudou a adormecer uma forma de polaridade: a oposição, burramente vista no Brasil como irreconciliável, entre a direita e a esquerda. Este dualismo, em tese, impede de maneira estúpida qualquer colaboração. Hoje, porém, com um novo presidente eleito, essa polarização terminou para dar lugar a uma oposição que a esquerda e a direita escamoteavam, a saber: a oposição entre a centralidade dos poderosos que vão para os palácios e a situação dos perdedores que são relegados à periferia. Agora, tranquilos, sabemos quem são os mandões e quem são os mandados. Ou seja, voltamos a viver a oposição rotineira entre os que detêm o poder e aqueles que devem se submeter a ele. Recuperamos a concepção tradicional de autoridade e, assim, restauramos o velho reino imperial iniciado com d. João VI e continuado pelos golpes, ditaduras e governos demagógicos.

Mais Alckmin, menos Janja, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O sentimento de vários analistas é de que Lula precisa mudar a postura dos últimos quatro anos

No calor do desfecho da eleição presidencial, no domingo à noite, ao ser perguntado sobre o que esperava da política econômica no quarto mandato de Lula, um renomado economista foi lacônico: “Mais Alckmin, menos Janja”. A conversa parou por aí, mas resumiu o sentimento de vários analistas de que o presidente reeleito precisa mudar a postura dos últimos quatro anos, quando deu ouvidos às opiniões das lideranças do PT em detrimento do que esperava a coalizão de centro que o ajudou a derrotar Jair Bolsonaro em 2022.

Fuga de Flávio abre disputa na oposição, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Presidente é aconselhado a ignorar rival e anunciar medidas para conter crescimento de despesas; petista não acredita em nova intentona golpista

A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos abre uma disputa acirrada pelo comando da oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito para o quarto mandato. Até agora, o PL não definiu quem exercerá esse papel e há uma briga nas fileiras do bolsonarismo pelo espólio político de Jair Bolsonaro.

Embora o mandato de Flávio termine em 31 de janeiro de 2027, data em que perde o foro por prerrogativa de função, ele próprio anunciou, um dia após a derrota para Lula, que irá “organizar” a oposição ao governo. A portas fechadas, aliados de Flávio dizem que os senadores eleitos Michelle e Carlos Bolsonaro, ambos do PL, não têm esse perfil. Os dois, aliás, nem se falam.

Poesia | Monotonia, de Fernando Pessoa

 

Música | Canta, Canta Minha Gente - Varios Artistas (Sambabook Martinho da Vila)

 

terça-feira, 27 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Flávio precisa reconhecer que perdeu eleição

Por O Globo

Ante resultado incontestável das urnas, senador sairia mais forte se admitisse que nada há a contestar

O resultado da eleição de domingo é incontestável. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) por 51,8% a 48,2% dos votos válidos, diferença superior a 4,4 milhões de votos. Ainda assim, a exemplo do que fez Jair Bolsonaro em 2022, Flávio não reconheceu a derrota. “É impossível reconhecer o resultado das eleições”, afirmou na noite de domingo, em seu primeiro pronunciamento depois da divulgação dos números pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ora, o próprio presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, veio a público reafirmar a lisura do pleito e confirmou a vitória de Lula. “Temos absoluta segurança de todo o processo eleitoral”, afirmou. A recusa em aceitar o resultado das urnas viola o princípio mais básico de qualquer democracia.