sábado, 11 de outubro de 2008

Nova geografia eleitoral


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Qual a conseqüência política de uma eleição municipal em que o vitorioso claro foi o PMDB: teve 18,6% dos votos; elegeu o maior número de vereadores; é o único partido a disputar as três decisões mais importantes em segundo turno, em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, nos dois últimos com candidato próprio, e em São Paulo dando a vice da chapa de Gilberto Kassab. Além disso, o PMDB foi o que mais cresceu entre os grandes, com um aumento de nada menos que 195% de votos entre 2004 e hoje. O Sudeste, onde foi derrotado no interior do Rio, São Paulo e Minas, foi a única região onde o PMDB perdeu. Aumentou em 95% o número de prefeituras no Norte, 25% no Nordeste, 51% no Centro-Oeste e 5% no Sul.

Entre as capitais e os 53 municípios com mais de 200 mil eleitores, equivalentes a 36,4% do total do eleitorado, PT, PMDB e PSDB são os vencedores. O PT venceu em 13 cidades e disputará o segundo turno em outras 15. O PMDB e o PSDB venceram nove primeiros turnos cada um e disputam o segundo turno em outras dez.

O PT, que esperava chegar às mil prefeituras no país com a popularidade do presidente Lula - meta, aliás, que vem de 2004 - cresceu, mas nem tanto. O PT, que passou por vários períodos, começou como um partido de intelectuais e da classe média, depois virou um partido corporativo, especialmente dos sindicatos e, mais especificamente, dos funcionários públicos, perdeu com o mensalão a influência na classe média e nas grandes cidades, teve que ir para o Nordeste e, nesta eleição municipal, não conseguiu conquistar nem mesmo a nova classe média ascendente das regiões Sul e Sudeste.

A incapacidade de transferir seu prestígio popular para eleger Marta Suplicy em São Paulo no primeiro turno acabou colocando em xeque a estratégia do presidente Lula de fazer da ministra Dilma Rousseff a candidata do PT à sua sucessão. O reforço político do PMDB já se revela na pressão para que o presidente não tente ajudar candidatos petistas em estados onde a disputa é com o PMDB, como na Bahia ou no Rio Grande do Sul.

Além de tornar mais caro o apoio do partido nos últimos anos de governo, é provável que o PMDB não consiga se unir em torno nem de uma candidatura própria, nem para apoiar uma candidatura do PT, dividindo-se para governar no pós-Lula.

O sociólogo Hamilton Garcia, do Centro de Ciência do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense, vê uma diferença básica entre o PT e o PMDB: "O PT se guia pela conquista dos interesses imediatos das corporações que o integram, reduzindo o programa societário de esquerda a um minimalismo anti-inflacionário e assistencial, mantém seus vínculos populares corporativos, enfraquecendo sua cultura de esquerda, mas sem se reduzir ao peemedebismo".

Para Garcia, "enquanto o fisiologismo e a corrupção são a alma e o oxigênio do PMDB, para o PT e o PSDB eles não passam de instrumentos de governabilidade, pois suas bases sociais estão muito bem delimitadas".

Já o cientista político Fernando Lattman Weltman, da Fundação Getulio Vargas, não concorda que o fortalecimento do PT no Nordeste tenha a ver com a perda de prestígio entre a classe média devido ao escândalo do mensalão:

"Ele se tornou muito mais poderoso lá por força das políticas sociais e de redistribuição de renda postas em prática pelo governo Lula já bem antes do estouro da crise, em 2005; a rigor, sem o mensalão, muito provavelmente Lula já teria ganhado a reeleição no primeiro turno de 2006, de lavada, também no Sudeste, e talvez até no Sul, onde as variáveis econômicas talvez não lhe fossem tão favoráveis".

Weltman lembra que não é só o PT que muda: "O DEM também é um ótimo exemplo: deixa de ser importante no Nordeste e tenta se renovar - mudando de nome, inclusive - para aproximar-se das classes médias do Sul e Sudeste. É claro que militantes históricos, mais ou menos puristas de suas identidades partidárias, podem ficar incomodados com isso, mas é da competição democrática pelo poder numa sociedade dinâmica", analisa o cientista político da FGV.

Para Paulo Roberto Figueiredo, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, esse eleitorado que dá vitórias ao PT em muitos lugares nos quais o partido tinha pouca entrada, como no interior do Nordeste, não é uma base eleitoral petista, mas "lulista": "Na verdade, creio que o "petismo" e o "lulismo" podem até convergir em momentos ou em lugares específicos mas, no fundo, são forças cada vez menos coincidentes".

Para ele, um estudioso do PT, "o projeto de Lula demonstrou-se de tal modo personalista que não há garantias de transferência sistemática, pelo menos não de modo sustentável e perene, dos votos "lulistas" para o PT em eleições futuras".

Num momento excepcionalmente bom em termos de avaliação do governo federal e de Lula, Paulo Roberto Figueiredo faz uma análise do desempenho do PT "naquela que outrora foi sua base fundamental, as capitais do eixo Sul-Sudeste" e chega à conclusão de que foi "apenas razoável":

O PT venceu em Vitória e chegou ao segundo turno, como segundo colocado em Porto Alegre e São Paulo, cidades que já governou. Perdeu em Florianópolis, Curitiba, Rio e, em certo sentido, Belo Horizonte, onde está dividido entre os que defenderam e os que se opuseram à aliança com o governador Aécio Neves.

Além dos fatores eminentemente locais, que costumam ser predominantes nas disputas municipais, a influência de Lula no auge de sua popularidade não se transformou necessariamente em vitórias petistas, ressalta Figueiredo.

"Em alguns lugares certamente ajudou, mas não houve uma avalanche de votos "lulistas" se convertendo em votos "petistas", como alguns imaginavam. Isso sugere que tal transferência não é automática e pode ser decrescente em eleições futuras". ( Continua amanhã)

ELEIÇÕES: AGENDA DE GABEIRA


Dia 10/10 – Manhã: Jacarepaguá ( Taquara, Freguesia e Praça Seca)

Dia 11/10 – 10hs.: Corpo a corpo em Santa Cruz, Paciência e Bangu

Dia 12/10 - Domingo - 10hs. Corpo a corpo no Aterro do Flamengo
11.30 hs. - Corpo a corpo na Lagoa , Parque do Cantagalo
15 hs. Quinta da Boa Vista - Porta do Zoológico
22 hs Debate na Band.

Dia 13/10 – Corpo a corpo no Largo do Machado, Rua do Catete.

Dia 14/10 – 9/11 hs.: Debate Rádio Mundial
20 hs.: Debate JB (por 2 horas). Está sendo estudado cancelamento.

Dia 15/10 – Corpo a corpo na Av. N. S Copacapan.

Dia 16/10 – 11/13 hs: Debate da Folha de S. Paulo ( Cine Odeon – Cinelândia)
18 hs: Caminhada na Visconde Pirajá (Ipanema).

Dia 17/10 – 11 hs: Rádio CBN, com Sidney Resende
15 hs. Corpo a corpo no Saara

Dia 18/10 - Manhã: Corpo a corpo no Calçadão de Campo Grande
Tarde: Calçadão de Madureira

Dia 19/10 Domingo - Caminhada em Copacabana, Ipanema, Leblon
21 hs. Debate TV Brasil

Dia 20/10 – Pavuna, Vila da Penha, Ilha do Governador
22hs: Debate na CNT

Dia 21/10 - 9/12 hs: Debate na Fecomercio
15 hs: Corpo a corpo na Tijuca, Saens Pena

Dia 22/10 – Méier

Dia 23/10 – Av. Rio Branco / Largo da Carioca


Dia 24/10 – Debate TV. Globo

Dia 25/10 - Sábado Carreata encerramento da campanha.

Dia 26/10 – Eleições.

A campanha não segura a crise


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL

AS FICHAS QUE O GOVERNO APOSTOU no segundo turno da campanha para a eleição de prefeitos e vereadores estão caindo no pano da decepção. E a briga pelo voto é decidida na correria de três semanas, com a votação no domingo, dia 26. Uma semana passou com a velocidade da pista encharcada pela inclemência da chuva que não prejudicou a articulação das alianças que obedeceram ao rito da coerência. A estréia dos debates que devem cumprir a obrigação de esquentar a temporada não peca pela modéstia e, ao contrário, assusta pelo risco de passar da medida e maltratar a paciência do eleitor.

Nas manchas no rendilhado municipal em que a fatura foi liquidada no primeiro tempo, sobrou para a população a comodidade de espectadores da disputa na vizinhança, seja pela mídia que transmitirá os debates ou pelo horário de propaganda eleitoral, que promete ser mais animado e de melhor nível do que a baixaria deprimente do primeiro turno. Nem tudo está perdido. Afinal, qualquer eleição deve interessar a todos. E, como a próxima, em 2010, mobilizará o país na campanha para a sucessão do presidente e dos governadores e para senadores, deputados federais e estaduais, estamos na preliminar, com o alinhavo das alianças que antecipam o modelo de polarização do nosso falido esquema político, atolado na crise sistêmica que envolve os três poderes, com o destaque do distúrbio ético que aflige o Legislativo.

Antes de bater ponto no dia de amanhã, a ameaça da recessão mundial, afinal admitida pelo presidente Lula e pela dupla que embaralha as cartas, formada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega e pelo presidente do Banco Central, Domingos Meirelles, que desistiu do quebra-cega dos truques para ousar as primeiras medidas para valer, com injeções maciças de bilhões no mercado. Seguiram o rastro da redução dos juros pelos bancos centrais dos três continentes, em inédita decisão que sinaliza a gravidade da crise financeira desencadeada pelos Estados Unidos.

A choradeira ensopa os lenços em todo o mundo e pinga nos prognósticos de escassas esperanças. O Fundo Monetário Internacional (FMI), pela voz rouca do seu conselheiro econômico Oliver Blanchard, puxa o crepe e anuncia tempos difíceis, com crescimento zero e até negativo ­ o que não é crescimento, mas encolhimento ­ regado com o pífio consolo de longínqua recuperação que comece lá por 2009. O presidente George Bush buscou alivio dos seus remorsos e fracassos em um a bate-papo pelo telefone com o presidente Lula. Pela versão oficial, a voz chegou pelo fio no tom de otimismo: "o Brasil tem uma plataforma sólida para enfrentar a crise devido aos bons fundamentos da economia", deu o recado.

Lula retribuiu o agrado, saudando a aprovação do pacote de socorro do sistema financeiro americano. Em meio a tal turbação, sobra uma beirada no tabuleiro para o movimento no jogo de dama da política doméstica. Mas, não vamos sepultar a esperança de alguns dividendos com a eleição dos novos prefeitos e dos vencedores do mano a mano das urnas eletrônicas do dia 26.

As alianças que estão sendo firmadas ou ainda nas preliminares não prometem correções significativas na bagunça da incoerência dos blocos de interesse estaduais e municipais. Na nossa abandonada ex-capital do país e que não parece capital do Estado do Rio de Janeiro, a surpresa da classificação de Fernando Gabeira, do Partido Verde, pelo menos coloriu a campanha com o toque do inesperado.

O favoritismo do candidato do PMDB, ampliado com os acordos firmados com PT, o PSB e o PSC, vai enfrentar o teste dos debates, que prometem sacudir a cidade até o limite da saturação.

Mais de 20 estão agendados pelas redes de TV, emissoras de rádio e pela mídia. Além dos 10 minutos diários para cada um no horário eleitoral. Por todo o país, em todas as capitais e municípios em que a eleição será decidida no segundo turno, com as suas peculiaridades, a população será atraída para o espetáculo democrático do debate de idéias e até do xingamento entre os finalistas que conquistaram a vaga na primeira rodada. E até é o caso de lamentar pela oportunidade perdida ou adiada.

Na próxima eleição, com toda a certeza teremos uma nova legislação eleitoral. E uma das modificações inadiáveis atingirá o horário de propaganda eleitoral para acabar com o ridículo desfile dos candidatos a vereador e estimular o debate sobre programas e idéias. Quem viver, verá.

Ainda sobrou um otimista


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

MADRI - Não está entendendo o que ocorre na ciranda financeira global? Quase ninguém está. Tanto que dois professores de universidades de um mesmo país, os Estados Unidos, escrevem textos diametralmente opostos sobre o que vai acontecer com o mundo.

Em seu "site" e na entrevista que deu a Sérgio Dávila, desta Folha, Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York, prevê o apocalipse, fiel à todas as suas previsões anteriores: "O mundo corre sério risco de um derretimento global sistêmico e de uma severa depressão global".

Já Casey B. Mulligan (Universidade de Chicago) diz o oposto. "O setor não-financeiro de nossa economia não sofrerá muito, mesmo em uma prolongada crise bancária, porque a importância geral dos bancos tem sido muito exagerada".

O pior é que ambos trabalham não apenas com suas opiniões -firmes, muito firmes, como se vê- mas também com números da vida real. Os de Roubini já são conhecidos, e 99,9% das pessoas que comandam o mundo parecem acreditar neles.

Por isso, repasso ao leitor -que merece um pouco de cor-de-rosa- os números de Mulligan:


1 - Balanços das empresas dos EUA mostram nos últimos 18 meses um retorno de 10 centavos de dólar para cada dólar de capital investido. A média histórica, antes da crise, é inferior (entre 7% e 8%).

2 - "A pesquisa econômica tem demonstrado repetidamente que as oscilações do setor financeiro como as atuais dificilmente estão conectadas com a performance do setor não-financeiro. Estudos mostram que o crescimento econômico não pode ser previsto a partir da expectativa de retorno de títulos do governo, ações ou depósitos em poupança".

Não tenho a mais remota idéia de qual dos dois está certo (talvez nenhum esteja inteiramente certo), mas meu coração está com o professor de Chicago, quem diria.

O pânico derivado


Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


NOVA YORK - A boataria dominou os mercados ontem. Ford e GM tiveram de negar que estivessem falindo ou pedindo concordata. A Casa Branca precisou declarar desinteresse pelo plano de decretar feriado nos mercados financeiros. O presidente norte-americano praticamente pediu clemência às Bolsas de Valores num depoimento infeliz e ineficaz na TV. Nada adiantou.

Ontem a Bolsa de Valores de Nova York fechou sua pior semana nos seus 112 anos de vida. Os papéis despencam há oito pregões consecutivos. A semana acumulou uma desvalorização de 18%. Já se pode usar, sem medo de errar, a expressão "crash" (quebra) dos mercados.

É importante registrar esse momento, pois as quedas recentes eram ainda sempre menores em algum sentido do que as registradas em anos passados. A diferença agora parece ser o total descontrole dos agentes reguladores nos Estados Unidos, a incompetência e a tibieza política de George W. Bush e a globalização completa do mercado de ações.

Em nenhum dos outros "crashes" o mundo estava tão integrado. Mesmo no início da década, quando explodiu a bolha das empresas "pontocom", tratava-se de um setor específico. Havia ramificações, mas nada comparável à explosão dos chamados derivativos.

Há na praça US$ 531,2 trilhões de contratos de derivativos. Grosso modo, uns 500 "Brasis". Em 2002, o total era de US$ 106 trilhões. Não se sabe exatamente o quanto, mas uma parcela gigantesca desses papéis não vale nada.

Esse é o DNA do atual colapso financeiro. Se as reuniões do G7 e do G20 não chegarem a um consenso neste fim de semana sobre como tornar esse tipo de mercado mais regulado, nada adiantará injetar dinheiro nos bancos.
Será como enxugar gelo. Não há US$ 531 trilhões disponíveis para que todos os derivativos sejam honrados no mundo.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1114&portal=

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

FRASE SELECIONADA

“As disputas humanas, em geral, decorrem do fato de existirem, ao mesmo tempo, sábios e ignorantes, constituídos de maneira a verem apenas um lado dos fatos ou das idéias, cada um julgando ser a face que vê a única verdadeira, a única boa”.

(Balzac, na obra A Prima Bete, 1846)

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1113&portal=

Niemeyer declara apoio a Gabeira e pede a Lula que faça o mesmo


Alessandra Duarte
DEU EM O GLOBO


Arquiteto aceitou explicações do candidato sobre aliança com PSDB

Enquanto Eduardo Paes (PMDB) deve receber hoje o apoio de Jandira Feghali (PCdoB), Fernando Gabeira (PV) encontrou-se ontem com o arquiteto Oscar Niemeyer, referência da esquerda e que, no primeiro turno, fez campanha para a comunista. Niemeyer recebeu Gabeira em seu escritório, em Copacabana, e anunciou seu apoio. Eles conversaram por meia hora. Ao ser perguntado sobre as críticas feitas a Gabeira, por ter se aliado ao PSDB, Niemeyer respondeu:

- Ele explica muito bem. Ele não se aliou aos partidos, procurou o caminho certo, necessário para levar este país para a frente neste período tão difícil. Difícil, mas com otimismo, que é o caminho do Lula. Acho o Gabeira tão mais coerente, tão mais sensível aos problemas. Vai ganhar facilmente esta eleição. É uma figura importante, com um passado de luta, um grande brasileiro.


É uma pessoa que a gente segue com interesse e entusiasmo. Sempre lutou a vida inteira pelo povo. Temos plena confiança neste amigo.

Na conversa em particular, antes de receber a imprensa, o arquiteto disse terem falado "sobre amigos, Darcy Ribeiro, a luta política, o país e a crise internacional".

- Deixei ele falar. Queria ouvir ele falar - disse Niemeyer, para quem o presidente Lula deve apoiar Gabeira no Rio: - Ele (Lula) está ao lado do povo, está ao lado do Gabeira, com certeza, porque o Gabeira sempre lutou por isso.

Segundo Gabeira, ele e Niemeyer também conversaram sobre projetos para a cidade.

- Não só nos entusiasma seu apoio, como é uma pessoa que poderemos consultar. Temos uma cidade de frente para o mar, mas as construções nos roubaram o mar. Falamos sobre a Avenida Perimetral, que nos roubou um pouco o mar. Falei com ele que ia buscar um projeto para tentar resolver isso - disse.

Gabeira disse que conversou com o prefeito reeleito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias (PT):

- Vamos precisar um do outro. O prefeito não resolve os problemas do Rio se não tiver a cooperação metropolitana. Pretendo ter um núcleo de prefeitos metropolitanos. Meu contato com Lindberg é esse. Ele, como prefeito do PT, talvez não possa desrespeitar o partido e me apoiar abertamente.

Presidente interditado


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Na reunião do grupo de coordenação política do governo para discutir as campanhas do segundo turno houve uma inédita inversão de posições: acostumada a carimbar as decisões do presidente Luiz Inácio da Silva, aquela instância dessa vez enquadrou Lula aos costumes.

E o fez sob comando do PMDB. Mais exatamente daquela ala que foi oposição nos primeiros quatro anos, cansou-se da adversidade, aderiu no segundo mandato, cresceu na bonança, reassumiu sua verdadeira face e, como gesto inicial da nova fase proibiu Lula de pisar em territórios onde sua presença possa ajudar adversários do PMDB.

Claro que as coisas não são ditas nem feitas assim dessa forma crua, deselegante, impertinente. Há todo um ritual. Para todos os efeitos, o presidente reuniu, mediu circunstâncias e espontaneamente decidiu ficar distante dos embates entre partidos da “base”.

Faca pontuda ninguém põe em pescoço de presidente da República. Mas palavras bem direcionadas fazem o sentido certo para ouvidos aguçados.

“Com a crise, o presidente não vai querer desagregar a base”, disse o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, detalhando sua posição a respeito do risco que o envolvimento errático de Lula poderia representar à continuidade da aliança nacional entre PT e PMDB.

Se na eleição municipal com toda popularidade de Lula já foi difícil administrar a aliança de 15 partidos, na presidencial haverá muito mais dificuldade em mantê-los disciplinados ao lado de Dilma Rousseff. Rompimentos, ainda mais com o PMDB, tornariam o projeto praticamente impossível.

Diante disso, o presidente tinha alguma escolha a não ser “decidir” cumprir o ultimato?

Até teria, mas da última vez que resolveu desconsiderar o peso desse grupo de pemedebistas, deu-se mal. Foi logo depois da primeira eleição, pouco antes da posse. José Dirceu negociou e fechou acordo com o presidente do partido, Michel Temer, integrante da ala que havia dado apoio a José Serra em 2002 e, horas antes do anúncio da distribuição de ministérios Lula rompeu o combinado.

Achou que poderia viver das lideranças de José Sarney e Renan Calheiros, mas perdeu todas dentro do PMDB para os chamados oposicionistas, majoritários na máquina nacional e o apoio do partido todo lhe fez uma falta sentida.

Portanto, quando o ministro Geddel incorpora o deputado Vieira que assim, na pressão, atuava como líder do partido na Câmara durante o governo Fernando Henrique, não resta ao chefe do governo outra saída senão a plena aceitação das regras.

No presente momento incluem principalmente deixar o PMDB fazer a festa sobre os petistas Walter Pinheiro, em Salvador, e Maria do Rosário, no Rio Grande do Sul.

Maior e mais forte do que já era antes de aderir, o partido não se contenta em ser o campeão de votos municipais, ter 1.200 prefeitos, meia dúzia de ministérios, a quase certa próxima presidência da Câmara e um trânsito mais que amigável com José Serra, o candidato a presidente mais cotado da oposição.

Quer consolidar o fim do reinado do PT no Rio Grande do Sul e inaugurar a dinastia Vieira Lima na Bahia. E, se tudo der certo, quem sabe tentar açambarcar também a presidência do Senado durante o período da sucessão presidencial.

Poderoso assim, seria natural ambicionar também a Presidência da República. Oficialmente, ambiciona. Já ressuscita a velha tese da candidatura própria, aquela conhecida escada de acesso a todos os governos eleitos nas últimas duas décadas.

Objetivamente o PMDB não tem nomes viáveis. O único possível, o governador Sérgio Cabral, mostrou sua força no Estado que governa, perdendo em todo o interior do Rio de Janeiro. Se ganhar na capital, será com um tucano estilizado, alguém que, como ele, é fiel a Lula na proporção direta do volume de verbas federais liberadas para o Rio.

Quando, e se, a perspectiva de poder mudar, as pontes para o transporte das armas e das bagagens para novo endereço estão devidamente construídas.

Mesmo que tivesse nomes o partido arrumaria um pretexto para queimá-lo. Para que se esfalfar na disputa presidencial, criar atritos e ainda correr o risco de vencer e assumir o ônus de governar se pode ficar com o bônus de fiador da “governabilidade”?

Na hora em que o barco aderna, alega-se ausência de compromisso com o erro, invoca-se a renovação de “contrato” com o eleitorado e pula-se para outra embarcação sem angústia ou nostalgia.

Pirão primeiro

O PT anuncia apoio ao PMDB no Rio para “barrar a oposição a Lula”. Quem dera fosse tudo tão orgânico e previsível no cenário das alianças partidárias.

No Rio o PT fica com o PMDB porque o PV está com o PPS e o PSDB, que apóiam o PT em Salvador contra o PMDB que quer ver o PT pelas costas em Porto Alegre e, em nome do acerto presidencial de 2010, ajuda o PSDB a derrotar o PT em São Paulo.

Não é, convenhamos, um ambiente de absoluta confiança.

A campanha traça o seu caminho


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


A campanha do segundo turno emendou no fim do primeiro para seguir rota inteiramente diferente que costuma desnortear os mais diretamente envolvidos, que confunde torcida com tentativa de análise isenta. E que também comete os seus erros e deles se penitencia.

A que arrancou com o embalo dos resultados do primeiro turno, com a carga de surpresas, decepções e esperanças, dispara com a velocidade de raio, exigindo a máxima acuidade para acompanhar a corrida de pequena distância de três semanas, até a chegada ao repeteco das urnas do dia 26 para o voto único da polarização da escolha dos prefeitos das capitais e municípios que não arrumaram a casa no último domingo.

A polarização é impositiva: governo versus oposição, com a mistura das cores das camisas na escalação das equipes. Na arrancada, candidatos e lideranças apostam o cacife para fechar as alianças na cúpula. As óbvias, que são quase todas, não exigem mais que os salamaleques que dissimulem os ressentimentos pelos eventuais equívocos da fase preparatória.

Não há tempo a perder. A campanha chega ao valorizado programa de propaganda eleitoral – com toda a probabilidade de virar pelo avesso o vexame do primeiro turno, com os 10 minutos para cada um da dupla de finalistas e mais a avalanche de debates promovidos pelas redes de TV, pela mídia e pelas excitadas e demais entidades, ansiosas por pegar uma carona no reboque do bonde do voto.

Os candidatos não resistirão aos apelos para comparecer a todos os convites. Até o limite do possível. E sem deixar de reservar algumas horas para os contatos diretos com o eleitorado.

É difícil seguir a trilha da lógica, do bom senso quando a decisão das campanhas está muito mais pendurada no imponderável da crise financeira que enlouquece o mundo e chega ao nosso país nas ondas que arrebentam nas pedras da contradição.

Mas, até onde a disparada do dólar – que nem os leilões do Banco Central estão conseguindo conter ou reduzir – será sentida pela classe média, pelos emergentes e pelos pobres?

Se o cenário é um só para todas as capitais e municípios na fornalha da escolha do prefeito para os próximos quatro anos, cada um terá uma história para ser contada, com as suas muitas e prováveis surpresas. Pois, é impossível que o comportamento do eleitorado não se altere nestas três semanas de imprevisível desdobramento da crise mundial. E dos seus reflexos na rotina doméstica da população.

Os conchavos entre candidatos, líderes de partidos, governadores e ministros – com a participação direta e compreensível do presidente Lula e da ministra-candidata Dilma Rousseff – correm o risco de serem desfeitos pelas imprevisíveis reações do eleitorado. Se faltar pão, desanda a eleição.

O real está em queda livre, com a desvalorização recordista entre moedas emergentes. A celebrada popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não apresenta sinais de abalo. Mas, até onde resistirá a uma frustração que contamine o voto e reverta a expectativa?

Lula está fazendo o que pode. Ordena que o Banco Central e a Caixa Econômica Federal socorram as pequenas instituições financeiras, sem recursos para a captação de dólares no exterior. Alinha um pacote para os ruralistas com o anunciado aumento de 3 a 5 pontos percentuais do compulsório para o crédito rural. E, na toada do otimismo, aconselha a população a manter os seus hábitos de consumo.

Não está tão fácil sustentar o discurso otimista do "se a crise chegar ao Brasil não será grave". E que mereceram do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no seu retorno à militância eleitoral, o comentário provocativo: "Não adianta enganar a população. As pessoas vão sentir a crise no bolso".

A campanha promete três semanas com a carga de emoção que ameaça as novelas.

Até quando a continuidade


Maria Cristina Fernandes
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Na manhã em que os resultados eleitorais foram oficializados, a Bolsa de Valores de São Paulo fechou duas vezes seguidas. Naquela manhã em que o se-mexer-piora se oficializava nas urnas de 5.562 municípios brasileiros, a negociação doméstica de valores, seguindo o inaudito desmonte do sistema financeiro internacional, parecia não deixar pedra sobre pedra.

Enquanto no mercado financeiro as análises iam pelo tom do "se houver amanhã", os prognósticos eleitorais se esmeravam em pautar o futuro pelos resultados já colhidos. Apesar da hecatombe, o mundo ainda não acabou. E, malgrados os vaticínios, os rumos da política nacional não estão escritos nas cartas municipais. O que as urnas do domingo têm a colher das bolsas da segunda-feira é se haverá outra eleição da continuidade.

Se as urnas resultaram em inéditos 66% de reeleição aos prefeitos, como calcula a Confederação Nacional de Municípios, é porque suas gestões, em geral, têm tido saúde financeira para fazer investimentos e melhorar os serviços públicos municipais. Nada disso seria possível num ambiente de retração econômica dizimando a arrecadação tributária própria dos municípios e as transferências da União e dos Estados.

São outras as cobranças do eleitor sobre o presidente da República, mas todas estão igualmente relacionadas aos indicadores da produção nacional. As cinco eleições presidenciais desde a ditadura já foram suficientes para se conhecer o impacto da atividade econômica sobre as expectativas eleitorais. A estabilidade da moeda deu duas eleições a Fernando Henrique Cardoso. A pressão por mudança na letargia econômica que se seguiu elegeu Luiz Inácio Lula da Silva e o crescimento o reelegeu.

A paralisação dos negócios da Bovespa duas vezes seguidas num único dia só havia acontecido antes uma única vez, em 1998, às vésperas da reeleição de FHC, desencadeando a crise cambial que explodiria antes da posse e minaria as chances de o presidente fazer seu sucessor.

Muita coisa mudou na economia brasileira mas não a ponto de se considerar que as chances de o governador José Serra eleger-se presidente estejam mais relacionadas à eleição paulistana do que à contaminação da vida real pela crise financeira.

Uma provável vitória de Gilberto Kassab em São Paulo, combinada às dificuldades de Márcio Lacerda em BH, guarda mais relação com as expectativas políticas em relação às chances da oposição em 2010 do que com o mercado de votos, como sói acontecer com essas disputas que intermedeiam eleições gerais.

Presidente da República nunca definiu eleição municipal nem teve sucessão definida por ela. Se os partidos governistas são vencedores é porque a conservação do poder foi a tônica numa eleição em que eles já ocupavam a maioria das prefeituras do país. Só se deseja a continuidade do que vai bem. E não há prefeituras saudáveis num país que vai mal. Mas transferência de voto de presidente para prefeito ou vice-versa é outra coisa. Se é que existe.

Só para ficar no decantado exemplo de São Paulo. Fernando Henrique Cardoso elegeu-se presidente da República depois de ter perdido uma eleição paulistana. A única eleição que Lula venceu em São Paulo foi a de 2002, contra Serra, e ainda assim, por uma diferença de 2% dos votos, quando o resultado nacional lhe deu uma vantagem geral de 22%. Marta era prefeita à época. Mas é quase um desvario imaginar que sua gestão à frente da Prefeitura, por melhor que fosse, tenha sido mais decisiva para a votação de Lula na capital do que a crise do final do governo FHC.

Não há sinais visíveis de que o governo Lula venha a sofrer semelhante desgaste. Nos seus dois mandatos, o governo FHC não chegou a crescer, em média, 2,5%. A média anual do governo Lula é de 3,8%. Nenhum análise séria derruba a previsão para este ano para aquém dos 5%. O baque viria em 2009, entre os 2,5% dos economistas brasileiros e os 3,5% do FMI. Nada parecido aos dois anos de crescimento zero de 98/98.

Os analistas vinculam a recuperação em 2010 às cotações internacionais dos produtos agrícolas e à oferta de crédito para financiar as exportações. Lula conheceu, em 2006, os danos eleitorais de uma agricultura em retração. Perdeu, no primeiro turno, em quase todos os Estados que têm nas commodities agrícolas o esteio de sua economia. Recuperou-se no segundo turno graças à conversão e mobilização política de governadores desses Estados eleitos no primeiro.

O impacto dessa turbulência financeira sobre as chances de Serra e Dilma Rousseff na sucessão presidencial é que pode tornar visível o embate entre a pressão por mudança e a força política da conservação do poder. Vem daí que o fortalecimento do PMDB como balizador da polarização da política nacional seja o resultado mais consequente das urnas de domingo - uma eleição conservadora num país que pode estar mudando.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

E o Banco Central agiu...


Luiz Carlos Mendonça de Barros
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Felizmente, o BC deixou de lado o tratamento jocoso que Lula tem dado à crise e foi à luta de maneira eficiente

NA COLUNA da semana passada, alertei para os primeiros sinais -ainda de natureza financeira- de que a crise que estamos vivendo nas principais economias do mundo havia chegado forte ao Brasil. Fui ainda mais longe ao pedir uma ação decisiva por parte do Banco Central para evitar problemas de maior gravidade, principalmente no setor produtivo. Posteriormente, o mercado foi informado de que empresas brasileiras haviam realizado volumes incríveis -aparentemente US$ 60 bilhões- de operações especulativas com a taxa de câmbio. Ao contrário do que disse nosso presidente, a especulação não era contra o real, mas a favor da nossa moeda. Imprudentes, algumas empresas apostaram na queda continuada da taxa de câmbio como forma de reduzir os custos de seus empréstimos.

Apanhadas em um movimento mundial de valorização do dólar, acabaram por provocar um desequilíbrio extraordinário no mercado futuro da BM&F, ao tentar cobrir suas posições. Para a especulação passar do dólar futuro para o mercado à vista, foi um passo. Dessa forma, um desequilíbrio de caixa que afetou poucas empresas transformou-se em um choque de oferta importante no lado real da economia. O real chegou a R$ 2,50 por dólar -uma desvalorização de quase 50% em poucas semanas. Se a febre em nossa economia estava na casa dos 38 graus, com o choque do câmbio chegou a atingir, na última quarta-feira, mais de 40 graus. Nessa situação, somente um tratamento de choque -tipo banheira com água gelada- poderia evitar o pior. E, felizmente, o Banco Central deixou de lado o tratamento jocoso que Lula tem dado à crise e foi à luta de maneira eficiente.

Quando escrevo esta coluna, o paciente já dá sinais de melhora, e a taxa de câmbio deve voltar a refletir apenas o realinhamento global das moedas emergentes. Com isso, o governo pode se preocupar com os desdobramentos dos impactos da crise externa. O primeiro ponto é a recomposição da liquidez do sistema bancário, principalmente no segmento dos bancos médios e pequenos. A redução dos depósitos compulsórios, principalmente no segmento mais atingido pela crise, é uma decisão correta e eficiente. Agora será preciso monitorar a forma como esses recursos serão reciclados para a economia. Já temos sinais claros de que os bancos estão evitando expandir seus empréstimos por conta dos riscos -reais ou imaginários- que vão aparecer em uma economia submetida a uma parada brusca em sua liquidez. A eficiência da medida tomada está diretamente ligada à forma como os bancos vão tratar a questão do crédito daqui para a frente.

Nesse aspecto, os elevados prejuízos criados pela especulação com a taxa de câmbio vieram reforçar o comportamento cauteloso, medroso até, do sistema financeiro. Não posso deixar de citar outra questão que me preocupa hoje. A brusca interrupção das operações de ACC (Adiantamento de Contrato de Câmbio) já está criando uma queda importante da disponibilidade de dólares no mercado. Afinal, entre US$ 40 bilhões e US$ 60 bilhões em adiantamentos de câmbio vinham irrigando o mercado.

Isso é importante porque, nos últimos anos, o câmbio comercial foi o amortecedor natural do mercado, permitindo estabilidade mesmo em momentos de fortes remessas de capital financeiro para o exterior. Caso persistam as saídas de capital de curto prazo -ações e títulos de renda fixa-, poderemos viver uma nova fase de desvalorização do real.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS , 65, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

Brincando com fogo


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Mesmo quem tentava defender o presidente do Equador, Rafael Correa, agora concorda: ele ultrapassou todos os limites e está brincando com fogo. Com a retração do crédito mundial, quem vai investir no Equador e na Bolívia?

Os EUA, que estão feito barata tonta? A Alemanha, a França ou o Reino Unido, que mal sabem o que fazer com eles próprios? Ou a Islândia, que fechou Bolsas e bancos? Se há um país com alguma capacidade ainda de investir nos vizinhos, por ser mais rico, por estratégica ou até por uma questão ideológica, esse país é o Brasil. Pelo menos por enquanto... Correa, pois, comete o maior erro que pessoas, partidos e países podem cometer: escolher o inimigo errado. Ele tanto tensionou que Lula ontem parou de dizer que era tudo "problema de política interna" e partiu para a briga. Numa briga Brasil-Equador, quem ganha?

Correa assumiu o compromisso com Lula, no dia 30/9, em Manaus, de que recuaria na expulsão da Odebrecht e permitiria que seus dois funcionários deixassem o país. Lula, então, enviaria missão técnica com o anteprojeto dos sonhos de Correa, unindo Manaus à equatoriana Manta. Mas Correa rompeu o compromisso e, em vez de recuar, avançou na expulsão da Odebrecht e nas ameaças contra a Petrobras e contra o BNDES. Lula enfim deixou de ser bonzinho e deu o troco: fim da reunião, adiamento sine die do Manta-Manaus.

Quando Evo Morales decidiu abrir a temporada de enfrentamento ao Brasil, ele tinha lá seus trunfos: Lula não queria caso com país pobre e com presidente indígena, vindo da esquerda. E, "last but not least", o Brasil efetivamente precisava do gás boliviano. Correa não notou a diferença. O Brasil, a Odebrecht e a Petrobras não morrem sem um projeto a mais ou a menos.


Mas, sem a boa vontade, as empresas e as verbas brasileiras, o Equador fica a ver navios. E pode afundar nesta hora de crise.

Mundo louco


Míriam Leitão
DEU EM O GLOBO


Nada do que está acontecendo é normal. Os tempos não são normais, são de crise aguda, mas a reação das autoridades econômicas e monetárias do mundo está piorando a crise em si, e deixando uma herança maldita para o futuro. Os Tesouros dos EUA e inglês vão virar banqueiros, comprando ações e até controle acionário de bancos privados. Se não é o fim do capitalismo, eles estão se esforçando!


A Islândia levou muito a sério o próprio nome - Iceland, terra do gelo - e congelou os depósitos de clientes ingleses; isto, depois de ter estatizado os bancos. Países periféricos podem tomar medidas estapafúrdias. O esquisito é a Islândia virar assunto nos mercados internacionais. Ela não tem saído da primeira página nos últimos tempos. Ou pela reação desesperada do seu governo, dizendo que estava à beira da "falência nacional", ou pelo empréstimo bilionário tomado junto à Rússia, ou pela estatização dos bancos. Ontem foi pelo ataque aos ingleses.

As autoridades mundiais parecem baratas tontas, correndo de um lado para o outro, e isso realimenta o pânico. O propalado pacote de US$ 700 bilhões de resgate do secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, é um capítulo à parte em matéria de proposta confusa feita pelas autoridades. Mas o mais importante agora é confirmar - de novo! - a avaliação do economista Nouriel Roubini: "O pacote é um não-evento."

Se tivesse tido o efeito que Paulson disse que teria, o secretário do Tesouro americano não estava ontem propondo fazer nos EUA o mesmo pacote inglês em que o Tesouro vira sócio dos bancos. A versão americana é mais exagerada: ele quer comprar o controle acionário dos bancos. Se exibir neste plano a mesma perícia, destreza e respeito aos contribuintes que demonstrou no pacote de US$700 bilhões, os Estados Unidos terão acelerado a sua marcha rumo ao passado. Remoto.

É normal bancos centrais injetarem liquidez nos mercados em épocas de crise de liquidez, é normal a liberação de compulsório, é normal a queda das taxas de juros. Em época de risco de crise sistêmica começam as anomalias. E é como anomalia que se entendem os pacotes de saneamento de sistema financeiro, como foi o Proer aqui, o caso das Savings&Loans nos anos 1980 nos Estados Unidos, ou o saneamento dos bancos japoneses.

Mas, nesta crise, o Fed foi além das anomalias esperáveis. Ben Bernanke saiu de braços dados com o secretário do Tesouro num corpo-a-corpo no Parlamento para aprovar um plano do Executivo de compra de ativos podres em carteira dos bancos. Não sobrou nada da antiga independência do banco central americano. Se ainda fosse o plano para acabar com todos os planos, tudo bem. Mas era um plano defeituoso, e foram inúmeros os economistas que apontaram os erros. Bernanke gosta de se definir como um professor de Economia. Como professor, está reprovado, por ter aprovado plano tão ruim. Agora, o plano B não é mais a faxina de ativos tóxicos; é tomar conta da banca diretamente. O rombo criado por salvações de bancos já supera US$2 trilhões e não se tem idéia de onde vai parar.

Paulson-Bernanke, esses ases do volante, deixaram um banco quebrar. Apenas um. Salvaram todos os outros. Mas este um que deixaram quebrar, o Lehman Brothers, está custando muito mais caro que todos os outros, porque detonou a pior crise de confiança já vista em 80 anos. E é mesmo para desconfiar com o mundo entregue a esses gênios. O presidente Bush, esse lame duck, faz agora pronunciamentos tão diários quanto inúteis. Hoje falará novamente.

A atuação coordenada dos bancos centrais esta semana foi um momento de lucidez neste festival de maluquices. E vinha surtindo efeito. Até que Paulson destrancou de novo o fantasma do armário, avisando que outros bancos poderiam quebrar. Ontem, o bom humor não atravessou um pregão. A Dow Jones, que chegou a estar positiva, fechou em menos 7,33%: S&P caiu 7,6%. Aqui, a Bovespa mostrou que o mercado não sabe para onde vai. Chegou a estar em alta de 4,8% e fechou em queda de 3,92%.

Agora já está ligado o círculo vicioso: a crise do mercado financeiro está produzindo efeitos na economia real, o que realimenta o pessimismo no mercado financeiro. A queda de ontem nas bolsas americanas foi em parte pelas más, e previsíveis, notícias do mercado de automóveis americano. Que o PIB americano vai encolher, está dado. Uma economia que era movida a crédito barato e concedido de forma irresponsável, em que as dívidas refinanciadas geravam mais capacidade de consumo, obviamente encolhe quando o castelo de cartas desmonta. O erro foi de novo das autoridades, que não viram que a economia tinha tão insustentáveis fundamentos.

No Brasil, não se viu, ainda, nenhuma medida tresloucada. Felizmente. O que houve de fora de propósito foi a convicção insensata de que a crise não nos atingiria porque estávamos sólidos, robustos, blindados; que aqui chegaria uma marolinha e outras tolices ditas pelos que nos governam. A demora de agir no câmbio produziu uma maxidesvalorização despropositada, de 50%, que está fazendo as empresas sangrarem. O problema aqui é este.

No mundo, parte da crise é provocada pela imperícia dos que governam os países ricos. É a maluquice dos líderes o pior neste momento de risco.

Tempo de sacrifícios


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. No recente debate entre os candidatos à Presidência dos Estados Unidos, uma eleitora perguntou-lhes qual o sacrifício que pediriam aos cidadãos americanos para superar a crise econômica, e o democrata Barack Obama deu o exemplo do que não deveria ser feito: lembrou que, logo após os atentados de setembro de 2001, o presidente Bush foi à televisão e exortou os americanos a "saírem e comprarem". "Este não é o tipo de convocação que os americanos estavam querendo ouvir", censurou Obama. Foi impossível não se lembrar do presidente Lula mandando seus ministros tomarem cuidado com o crédito "porque o Natal está chegando", e depois incitando os cidadãos a manter seus hábitos de consumo: "Continuem fazendo o que sempre fizeram", conclamou o presidente, garantindo que, se precisar ir à televisão para avisar "que a porca torceu o rabo", ele irá.

Pois há indícios de que a porca já torceu o rabo há muito tempo, e de que o governo, depois de um tempo perdido em arrogâncias, está tomando providências cujo teor não é revelado, pelo menos na sua totalidade.

A oposição, por exemplo, está se debruçando sobre a medida provisória editada recentemente para a atuação do Banco Central no resgate do sistema financeiro brasileiro e, na definição de um assessor, "montamos um quebra cabeça que não fecha".

Apesar de definir sua ação como "mera operação financeira", o Banco Central, no limite, tem a autorização pela medida provisória de estatizar as instituições financeiras que ele socorrer, sem limitações para essa intervenção, o que em tese indica que ele está pronto para atuar caso não apenas os pequenos bancos precisem de auxílio. E tudo será feito sob segredo de Justiça.

São muitos os pontos de inconsistência na política econômica. Se o dólar dispara muito, prejudica as importações, mas melhora as exportações - porém, estas também dependem do preço das commodities e do desempenho da economia mundial, ambos, com tendência de baixa.

As empresas estão sem crédito para exportar, ou seja, não ganham com o aumento do dólar sobre as vendas que já tinham prometido, e nem conseguem crédito para vender mais. Para o economista José Roberto Afonso, um dos "pais" da Lei de Responsabilidade Fiscal, "há uma bomba-relógio montada no campo fiscal".

O que seria herança maldita para o sucessor, pode explodir no colo de quem a gestou. Se a receita cair mais rapidamente do que se pensava, o governo ou terá que cortar gastos, ou cortar fundo nos juros e no superávit primário.

"Como será impossível ajustar via recarga tributária, finalmente Lula terá que escolher se brigará com os servidores, os aposentados e os bolsistas, ou com os banqueiros. Não vai dar mais para bolsas aos ricos e aos pobres", completa Afonso.

A equação é simples: até aqui, o equilíbrio fiscal tem sempre se baseado no aumento de receita tributária, e esta, com o decréscimo do crescimento da economia, vai começar a cair.

Já há informações de que, passado o segundo turno das eleições municipais, o governo vai apresentar uma reforma do Imposto de Renda, com novas e maiores alíquotas, e até estariam pensando novamente no imposto sobre grandes fortunas.

Não existe um consenso sobre a rapidez da desaceleração da economia, em virtude da recessão global que se avizinha. Há economistas, como Edmar Bacha, do BBA-Itaú, que já prevêem uma queda de crescimento de 5% este ano para 2% em 2009, o que representaria um baque formidável em termos de emprego e investimentos e, na prática, um crescimento zero no próximo ano.

Outros, como José Roberto Afonso, acham que a desaceleração da economia brasileira não será tão rápida como a européia, a japonesa ou mesmo a americana: só o embalo de crescimento em que estamos este ano já garantiria 2,6% de expansão em 2009. "Ou seja, uma taxa abaixo disso só ocorreria se entrarmos em forte recessão já no início do próximo ano, e por ora não há tendência disso", comenta.

O lado real da economia será contaminado pela crise financeira, mas ainda levará um pouco de tempo. "Passado o incêndio, câmbio e crédito voltarão aos poucos para a normalidade, mas, em outro nível, sem a farra do câmbio valorizado ou do crédito fácil do passado", analisa Afonso.

Já Edmar Bacha, que deu uma palestra no Centro de Estudos Brasileiros na Universidade Columbia, acha que o governo, com as reservas de mais de US$200 bilhões, tem condições de decidir quando intervir no câmbio, não havendo o perigo de perder as reservas para garantir uma taxa cambial, já que o câmbio é flutuante e não mais fixo, como era nas primeiras crises internacionais vividas pelo país nos anos 1990 do século passado.

Bacha está relativamente otimista com a situação econômica do país, e diz que o único perigo é o governo insistir em manter um crescimento do PIB no mesmo nível de 2007 e 2008, o que considera impossível diante da crise internacional.

Já o economista José Roberto Afonso acha que a economia brasileira teria que mudar diante do quadro novo, e adverte: "Seria um suicídio completo subir taxas de juros e, se Lula gosta tanto de ser Primeiro Mundo, já está atrasado para diminuir a taxa, como fizeram todos os bancos centrais, inclusive o chinês. Mesmo que corte igual aos outros, poderá ficar tranqüilo que continuará pagando a maior taxa de juros reais do mundo".

Para ele, "será impossível continuar brincando com o câmbio". Não poderemos mais ficar brincando de "exportadores financistas", que exportavam barato ou até com prejuízo para ganhar no circuito financeiro.

Na coluna de ontem troquei as bolas: é a dívida externa dos Estados Unidos que está em US$10 trilhões, e não o déficit externo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

FRASE SELECIONADA

“A esquerda não tem nem uma puta idéia do mundo em que vive”.


(o escritor comunista José Saramago em 1/10/2008 em seu blog)

CRISE MUNDIAL

Crise no Leblon
Ancelmo Góis
DEU EM O GLOBO


Ontem, num sinal luminoso do Leblon, no Rio, para fugir da chuva, uma carioca ia comprar de um camelô um guarda-chuva. O ambulante pedia R$ 15, ela oferecia R$ 10, e o impasse foi desfeito pelo argumento econômico do vendedor:

- Ô gata, o dólar subiu muito e o produto é importado...

Gabeira e Paes largam empatados na disputa pela prefeitura do Rio


FOLHA DE S. PAULO
DA SUCURSAL DO RIO


Candidato do PV herda mais votos de Jandira e Solange; peemedebista atrai mais eleitor de Crivella

Pesquisa Datafolha feita ontem e anteontem mostra que Gabeira tem 51% dos votos válidos contra 49% do candidato do PMDB


A disputa pela Prefeitura do Rio no segundo turno começa empatada, revela pesquisa Datafolha realizada ontem e anteontem. O candidato do PV, Fernando Gabeira, tem 43% das intenções de voto contra 41% de Eduardo Paes (PMDB), a 18 dias do pleito.

Os dois candidatos estão tecnicamente empatados, já que a margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais para mais ou para menos. Assim, Gabeira pode ter entre 40% e 46% dos votos, e Paes, entre 38% e 44%.

No primeiro turno, Paes recebeu 31,98% dos votos válidos (1.049.019), e Gabeira obteve 25,61% (839.994 votos).

De acordo com o Datafolha, entre os eleitores que disseram ter candidato no segundo turno, Gabeira herdou mais votos entre os eleitores de Jandira Feghali (PC do B) e de Solange Amaral (DEM), candidata do prefeito Cesar Maia, que já anunciou apoio ao deputado federal: 59% dos eleitores que haviam votado no primeiro turno em Jandira migraram agora para o candidato do PV e 41% foram para Paes; entre os eleitores de Solange, 55% foram para Gabeira e 45% para Paes.

A vantagem de Gabeira nessa migração o deixou numericamente à frente de Paes, apesar de o candidato do PMDB ser o principal beneficiário do eleitorado de Marcelo Crivella (PRB), terceiro colocado no primeiro turno. Desses 54% optam por Paes e 46% preferem Gabeira.

No domingo passado, Crivella recebeu 19,06% dos votos válidos (625.237), Jandira 9,79% (321.012), Alessandro Molon (PT) 4,97% (162.926) e Solange 3,92% (128.596).Os índices de Gabeira ficam acima da média entre os mais jovens (53%), os mais escolarizados (60%), os mais ricos (62%) e entre os que desaprovam os governos do prefeito Cesar Maia (47%), do governador Sérgio Cabral (55%) e do presidente Lula (58%).

As taxas de Paes são maiores entre os mais pobres (46%), os menos escolarizados (49%), os mais velhos (50%) e entre os que aprovam as gestões de Cesar Maia (48%), Sérgio Cabral (55%) e Lula (58%).

Votos válidos

A pesquisa Datafolha mostra que 7% dos entrevistados disseram pretender anular ou votar em branco, e 9% se definiram como indecisos, atingindo 16% os que não têm candidato. No levantamento realizado ontem e anteontem com 1.304 eleitores, em votos válidos (ou seja, excetuados os brancos e nulos), Gabeira tem 51%, e Paes, 49%.

No primeiro turno, dos 4,580 milhões de leitores do Rio, 17,91% não compareceram, 6,14% anularam o voto e 4,33% votaram em branco.

Na simulação anterior de segundo turno entre os dois candidatos, realizada pelo Datafolha nos dias 3 e 4 de outubro, o peemedebista tinha 52% das intenções de voto, e o verde, 36% -uma diferença de 16 pontos percentuais. Na simulação dos dias 29 e 30 de setembro, essa diferença era de 20 pontos (53% a 23%).

As simulações de segundo turno realizadas no primeiro turno são sinalizações dadas pelo eleitorado, mas não são comparáveis às pesquisas realizadas durante o segundo turno.

No primeiro caso, é pedido ao eleitor que analise seu comportamento na possibilidade de ocorrerem determinadas situações eleitorais, apresentadas com variações. Já no segundo cenário, o eleitor é convidado a se posicionar perante uma situação concreta de disputa entre dois candidatos.

Bodas de vento


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A caça frenética dos candidatos finalistas pelo apoio dos partidos que ficaram de fora do segundo turno impressiona. Serve como passatempo no intervalo até o início do horário eleitoral no rádio e na televisão, presta algum serviço ao exibicionismo, mas não funciona no essencial.

Principalmente nessa etapa final em que as disputas acontecem apenas nas grandes cidades e o horário gratuito é repartido ao meio entre os dois oponentes independentemente do tamanho da coligação, o peso das alianças sobre o resultado da eleição é quase zero.

Quase, porque há uma vantagem objetiva. Quanto mais partidos houver ao lado de um candidato, em tese mais estruturas e mais gente haverá trabalhando por ele.

Mas, se é patente a preferência do eleitorado por pessoas em detrimento dos partidos, evidente que ao fim e ao cabo conta mesmo a capacidade de sedução - ou convencimento, para tratar o assunto com mais formalidade - do candidato na percepção do eleitor.

Então, por que os partidos se dedicam com tanto afinco a conquistar o apoio das legendas restantes e alguns até fazem da exibição desses acordos um movimento estratégico?

Basicamente por dois motivos: para criar um fato político por dia no curto período de entressafra e para se posicionar no jogo de correlação de forças presentes e futuras. Não é a fase de diálogo com o eleitor, é o momento de conversarem entre si, passarem os seus recados, mostrar os músculos uns para os outros, demonstrar agrados e desagrados.

Em São Paulo, dificilmente há algum eleitor preocupado com o fato de o PTB apoiar Gilberto Kassab, o PPS anunciar neutralidade ou de Marta Suplicy dirigir gestos elegantes a Geraldo Alckmin.

Ali, o relevante foi o acordo da dupla DEM-PSDB com Orestes Quércia, pelo qual José Serra tirou do governo federal o PMDB paulista para a parceria de 2010. E ainda assim, nada garante a perenidade deste ou de qualquer outro acerto.

Todos dependem da direção dos ventos. No Rio, o PT saiu das urnas com algo em torno de 6% dos votos e, no entanto, o apoio do partido a Eduardo Paes é tido como um feito e tanto.

A direção petista sabe perfeitamente da irrelevância eleitoral presente nessa decisão, como conhece bem o perfil de seus adeptos para supor que sejam mais afeitos ao modelo Fernando Gabeira. Mas o partido do presidente da República precisa fazer agradar, e muito, o PMDB do governador Sérgio Cabral e seu candidato Eduardo Paes.

Carinho que se revelará útil ou inútil só mais à frente, quando os pemedebistas decidirem em qual porto suas canoas ficarão mais seguras na perspectiva do poder federal.

Antídoto

Depois de meses agindo de modo oposto, o PT, por meio de seu presidente, Ricardo Berzoini, decreta: “Não há transferência de votos no Brasil”.

Com isso, o partido cria a teoria adequada ao distanciamento do presidente Lula das eventuais derrotas do segundo turno, mas abre espaço para contestações internas à pré-candidatura da ministra Dilma Rousseff.

Se não há transferência, vale o patrimônio de cada um.

Cara-pálida

Candidato da aliança Aécio Neves-Fernando Pimentel em Belo Horizonte, Márcio Lacerda explicou em duas palavras a frustração da expectativa de vitória no primeiro turno: “Fomos incompetentes”.
Para um político aprendiz, Lacerda já socializa prejuízos com a autoridade de um autêntico catedrático.

Outro mineiro, este apenas um espectador apartidário da cena, lamenta o risco do desmonte de um trabalho administrativo muito bem avaliado pela população da capital, e levanta uma tese que, se correta, serve como lição e explicação: o governador Aécio provavelmente esteja pagando o preço de pretender alçar à condição de unanimidade.

Carapuça

Ao justificar sua não-interferência na decisão de Geraldo Alckmin de concorrer à prefeitura, o governador José Serra disse que o PSDB de São Paulo não é um “partido de coronéis”.

Feita assim, em tom de ressalva à seção paulista, a afirmação do governador presta-se a interpretações ariscas por parte de colegas de partido, que veriam nela uma indireta à existência do vezo do mandonismo em tucanos de outros Estados.

O senador Tasso Jereissati, por exemplo. Se não tivesse absoluta certeza de que José Serra achou perfeito seu apoio explícito à candidatura de Ciro Gomes em 2002, poderiam imaginar tratar-se de uma referência ao Ceará.

Não por isso

Se Lula fez de Mangabeira Unger ministro, por que negaria apoio no Rio a Eduardo Paes baseado em rancores do passado? Os dois achavam que Lula comandava um governo corrupto e, neste aspecto, fica mal quem se curva para beijar e não quem estende a mão para ser beijada.

Geografia da eleição de 5 de outubro


Maria Inês Nassif
DEU NO VALOR ECONÔMICO


A Região Sudeste exerce historicamente um contrapeso ideológico em relação ao restante da Federação, em especial ao Nordeste. Nas vésperas da Revolução de 1964, o apelo por políticas populares, se movia ativistas do Sudeste, provocava verdadeira efervescência no Nordeste, em especial em Pernambuco, onde um governador de esquerda, Miguel Arraes, e um movimento atuante pela reforma agrária, faziam o sonho da esquerda nacional. A reação ao governo João Goulart veio, em especial, do Rio, onde Carlos Lacerda não era apenas o governador, mas a voz da UDN que conspirava; em Minas, onde Magalhães Pinto, também da UDN, conspirava baixinho; e em São Paulo, onde uma elite conservadora mais tarde ajudaria inclusive a criar e manter o "piloto" de aparelho de tortura que unificava as forças militares e policiais, a Operação Bandeirantes (Oban), depois denominada DOI-Codi. É certo, existiam nos Estados mais ricos da Federação uma oposição popular e democrática e grupos que mais tarde rumaram para a luta armada, mas é inegável que o movimento conservador que resultou num golpe de Estado era hegemônico, pelo menos nos primeiros anos de ditadura militar.

No período de desgaste da ditadura, quando o governo militar já havia esmagado a oposição no Nordeste e as tentativas da esquerda armada de organização no Norte do país, e as famílias que tradicionalmente dominavam a política nordestina tornaram novamente hegemônica a política de compadrio e de clientela, foi o Sudeste a primeira região a registrar a disposição civil à resistência e à luta pacífica pela redemocratização do país. O MDB ganhou musculatura no Sudeste, antes de tornar-se um instrumento nacional de mudança pelo voto. Em 1974, quando apenas dois partidos eram permitidos pelo regime - o MDB, de oposição, e a Arena situacionista -, o MDB conseguiu 16 das 22 cadeiras em disputa para o Senado, chegando a 30% da bancada; e fez 44% da Câmara dos Deputados. Em 1977 o general-presidente Ernesto Geisel fechou o Congresso e editou o Pacote de Abril, para garantir maioria situacionista no Congresso e no Colégio Eleitoral que escolheria seu sucessor no ano seguinte, e era composto por membros do Congresso Nacional e delegados das Assembléias Legislativas. Com uma penada, o general mudou a composição da Câmara, dando maior peso aos Estados do Nordeste e do Norte, teoricamente sob controle dos "coronéis" donos de votos e partidários do regime. Em 1978, graças ao pacote de Geisel, a Arena manteve a maioria no Congresso, mesmo tendo obtido 13,1 milhões de votos, contra 17,4 milhões de votos dados ao MDB.

Depois da redemocratização, houve um processo lento de transferência de votos dos partidos mais conservadores para os mais afinados à esquerda no Nordeste. Lideranças nordestinas da antiga Arena, ou do MDB conservador, que foram se abrigar no PFL depois da redemocratização, mantiveram suas posições naquela região como partidos da base parlamentar do governo central, exceto pelo curto período do governo Itamar Franco (PMDB), até o segundo governo de Fernando Henrique Cardoso. O PFL tinha, em 1988, seu primeiro ano de existência legal, 1.058 prefeitos em todo o país, decresceu um pouco sua participação municipal nas eleições seguintes, de 1992 e 1996, mas recobrou musculatura em 2000, quando fez 1.026 prefeitos. Na oposição após a eleição de Lula, só fez cair: elegeu 792 prefeitos em 2004 e caiu para 494 no primeiro turno das eleições desse ano. O ex-PFL, hoje Democratas, quase foi varrido da sua base tradicional, o Nordeste: teve uma queda de 63% no número de prefeituras daquela região, de 2004 para 2008. Em compensação, três partidos à esquerda do espectro político cresceram assombrosamente em território nordestino: PT (105%), PDT (126%) e PSB (91%). No Sudeste, o DEM caiu 11% - muito menos do que caiu no Nordeste -, mas, mesmo em declínio numérico, conseguir acesso aos eleitores paulistas numa eleição para a prefeitura da capital é um feito. Gilberto Kassab tem grandes chances de vencer a eleição contra o PT no segundo turno, mas apenas tem essa oportunidade porque, desde 2006, São Paulo, Estado e capital, estão no meio de uma onda conservadora que se formou quase simultânea à queda do voto conservador no Nordeste. E isso ocorre num período em que o DEM mais manteve afinidade ideológica com o PSDB, que guinou para a direita no Estado e manteve, nessa posição, uma quase hegemonia nos últimos anos. A Região Sudeste foi a única em que o PSDB aumentou o número de prefeitos - em 8%; em todas as demais regiões o partido sofreu queda.

Dos números das eleições, pode-se concluir que a tendência do Nordeste à esquerda é uma inexorável atração da região pelo governismo - e o PT, afinal, está no governo federal; e que os partidos brasileiros, pela sua fraca organicidade, tendem a murchar quando na oposição. Isso parece ser um senso comum. O que existe de diferente no cenário, no entanto, é que desde 2006, com a radicalização que se seguiu ao escândalo do mensalão, as posições políticas dos partidos ficaram muito marcadas e eles passaram a representar com mais clareza estratos sociais. Assim como em 1964, o "ser governista" não explica, por si só, a virada política do Nordeste, nem o apelo maior dos setores conservadores na política do Sudeste.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras

Fim ou troca de caciques?


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Novo mundo, novo Brasil. Enquanto o capitalismo se contorce com a quebradeira de bancos e a queda das Bolsas, no Brasil quem está na berlinda é o velho caciquismo político.

Na Bahia, ACM Neto é deputado federal em primeiro mandato e certamente promissor, mas ser excluído do segundo turno em Salvador foi um aviso: ele vai precisar comer muito feijão antes de assumir uma posição de liderança no Estado. O nome e a força do carlismo, sozinhos, já não dão para o gasto.

ACM, o avô, morto em 2007, era o "rei da Bahia". E não se fazem mais reis como antigamente, nem súditos. O eleitorado está mais mais disputado e diversificado, a correlação de forças é heterogênea.

No Maranhão, a família Sarney não apenas sofreu um revés como andou na contramão do que ocorreu com o PMDB no resto do país.

Sarney filiou-se ao partido para ser vice de Tancredo e foi ficando, ficando... e ficou. Agora, mais de 20 anos depois, também Roseana saiu do ex-PFL para ficar no PMDB e mais próxima de Lula.

Mas enquanto o partido é campeão em prefeituras em 14 Estados e avançou no Acre, no Amazonas, na Bahia, em Goiás, em Mato Grosso do Sul, no Pará, na Paraíba e no Rio Grande do Norte, no Maranhão ele encolheu. E encolheu bem. O reinado dos Sarney dura meio século, mas não se fazem mais reis...

Em São Paulo, Kassab é um nome diferente no cenário. No Rio, Eduardo Paes é novo em idade e em liderança, e Fernando Gabeira não é novo, mas é uma novidade. Em Belo Horizonte, você já tinha ouvido falar em Márcio Lacerda, Leonardo Quintão ou mesmo Jô Moraes, a terceira colocada?

A dúvida é se a política está se desfazendo do caciquismo ou só trocando de caciques. Olho vivo na Bahia, onde termina o reinado de ACM, mas Geddel Vieira Lima está babando pelo cetro e pela coroa. E pronto para ser disputado a peso de outro entre PT e PSDB em 2010.

Coluna do Milton Coelho


Milton Coelho da Graça
DEU NO DIÁRIO DA MANHÃ (GO)

BARÃO DO RIO BRANCO TREME NO TÚMULO

Se alguém fizer uma lista dos 100, 50, 10 ou até apenas 3 dos maiores brasileiros de todos os tempos, sem dúvida nenhuma o Barão do Rio Branco será um deles. Depois de nos metermos em uma carnificina no Paraguai e inspirarmos natural receio pela diferença de tamanho de populaçao e recursos naturais em relação aos outros países da América do Sul, o nosso grande barão construiu as bases de um patrimônio inigualável no resto do mundo: temos fronteiras com dez países e nem um só problema, uma só divergência sobre elas com nossos vizinhos. E tudo resolvido na mais completa paz. Também firmamos na consciência de todos os companheiros de continente a confiança de que o Brasil tem uma política sagrada de não-intervenção nos assuntos internos de cada um deles e colocamos em nossa Constituição a renúncia a qualquer agressão guerreira.

No entanto, de vez em quando, influenciados por idéias, estratégias e interesses de outros países não-sul-americanos, nossos militares têm espasmos de grandeza bélica. Certa vez compramos dois porta-aviões, armas claramente de ataque, numa operação que só se explica como mamata. Durante décadas, mantivemos em Santa Maria, Rio Grande do Sul, talvez a mais poderosa de nossas bases aéreas, com a óbvia intenção de assustar os argentinos.

Nosso Exército até hoje foi incapaz de aproveitar a grande extensão de nosso país e a experiência internacional para formular uma estratégia defensiva apoiada na guerra de guerrilha, capaz de enfrentar e derrotar qualquer um que algum dia resolva nos atacar. Continua basicamente agarrado a grandes bases e fortalezas inúteis em nossas maiores cidades, evidentemente mais preocupado com convulsões internas do que possíveis inimigos externos.

Pois nosso ministro civil da Defesa de repente começa a falar em reequipar as Forças Armadas com o intuito cada vez mais nítido – e até claramente expressado em jornais por alguns admiradores belicosos – de “assustar” os vizinhos envolvidos em disputas políticas internas com a hipótese de uma possível intervenção brasileira.

Por que e para que vamos gastar bilhões de dólares em novos caças supersônicos, muito pouco úteis para proteger nosso país das reais ameaças externas – sejam terroristas, traficantes, falsos missionários ou ladrões de nossa biodiversidade? E por que voltarmos novamente a proteger as indústrias de armamentos, alucinadas por subsídios?

PMDB PREPARA FESTA,TEMPORÃO PAGA CONTA

Os chefões do PMDB já acertaram todo o esquema para ficar com a presidência das duas casas do Congresso: Michel Temer comandará a Câmara Federal, José Sarney, o Senado. O deputado Henrique Alves assume a presidência do partido e o alagoano Renan Calheiros ressuscita e será o líder no Senado, Tudo certinho, mas e o PT, que insiste no tal acordo de Senado para um, Câmara para outro, e quer lançar Tião Viana? Aí já está até embrulhado o presente de consolação: a cabeça do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que não vem “atendendo” bem os pedidos dos parlamentares peemedebistas;

QUEM VAI SE MOLHAR COM OS RESPINGOS?

Um veterano do Itamaraty disse esta semana, durante um jantar em Brasília, que a extrema tolerância do presidente Lula com as maquinações do PMDB parecem inspiradas naquela explicação que o presidente americano Lyndon Johnson deu para manter uma raposa inconfiável como J. Edgard Hoover na direção do FBI:

“Eu sei que, se tirasse o William da nossa tenda, ele iria ficar lá fora mijando aqui para dentro. Prefiro que ele fique aqui dentro mijando lá pra fora.”

DUPLA BIBI-JUCA BAIXA PORRADA NO CONGRESSO

A veterana-eternamente-maravilhosa Bibi Ferreira estrela no Rio, com o teatro sempre lotado, a peça “Às favas os escrúpulos”, de Juca Oliveira. Todos os nossos senadores e deputados deveriam ir assisti-la, não só para aplaudir Bibi, mas principalmente para ver a reação do público – predominantemente de classe média, feminino e meia idade.

A peça conta a história de um senador com fama de honesto e bom chefe de família, mas na verdade trambiqueiro, com milhões de dólares de dólares e derretido por uma secretária boazuda. Bibi, a mulher, descobre tudo e só não conto o resto porque não quero tirar o gostinho das surpresas para brasilienses e goianos quando ela se apresentar no Planalto Central.

Esta notinha é só para registrar o aplauso e o entusiasmo do público com todas as falas severas criadas por Juca, expressando o desprezo e a descrença crescentes do país em relação ao Congresso e – perigosamente – até em relação à democracia representativa.

PRESUNTOS E EUCALIPTOS EM NOSSA CRISE

Esse é um ângulo novo e brasileiro na crise financeira, que provavelmente também surgirá em outros países com políticas monetária e cambial iguais ou parecidas com a nossa. Indústrias exportadoras com diretores financeiros metidos a espertos mergulhavam nas operações de jogatina da Bolsa, para obter lucros extras com os dólares das exportações. Faziam mais ou menos assim: exportavam presuntos (Sadia) e resmas de papel (Aracruz) e, em vez de simplesmente meterem os dólares na caixa, iam à Bolsa e apostavam que o dólar não cairia.

O diabo é que o dólar caiu. E muito. Agora está pintando aquela velha história: enquanto estavam ganhando, os lucros eram deles - dos acionistas e controladores das empresas metidas nesse pagode. Mas, na hora dos prejuízos, o socialismo é a doutrina favorita, em alguns corredores do poder a idéia de que o Estado brasileiro deve socorrer suas empresas em perigo. Presidente Lula, cuidado para não cair no conto da Bolsa-Presunto ou da Bolsa-Eucalipto!

E AINDA NÃO HAVIA GELADEIRA NEM TIRA-GOSTO

Josef Reichholf, historiador alemão, defende uma nova versão para o homem primitivo ter deixado de ser nômade e se tornar agricultor: a descoberta da cerveja, amigos, é que fez o homem construir uma casa, ficar quietinho e começar a cantar “daqui não saio, daqui ninguém me tira”.

Parece doido, mas o catedrático da Universidade Técnica de Munique (logo onde!) tem argumentos sérios. O homem teria se estabelecido inicialmente no Oriente Médio, onde havia muita caça. Portanto, ele começou a plantar, um trabalho muito mais duro do que caçar, não para comer, mas sim porque descobriu a cevada e para o quê ela servia nas horas de lazer. E tome loura, mesmo quente, com qualquer churrasco, de camelo ou pássaro distraído. Dêem uma boa olhada nos bares, nas noites de sexta-feira. segundo Reichholf, vocês verão diretos descendentes daquele homem cabeludo que aderiu ao descanso bem irrigado.

NA HORA DA SOMA, CADA UM FAÇA A QUE QUISER

Está difícil determinar qual realmente foi o partido que mostrou mais força nas eleições municipais. Segundo resultados oficiais do TSE, foi o PMDB quem teve mais votos: 18.422.732 (18,6% do total de válidos), com 2.543 candidatos, dos quais 1143 já se elegeram prefeitos e outros 11 foram para o segundo turno. O PT, com 1609 candidatos, 545 eleitos mais 15 no segundo turno. foi o segundo em votos: 16.486.025 votos (16,6%). E o PSDB, também considerando o total de votos “oficiais”, foi o terceiro – 14.454.949 – obtidos por 1702 candidatos, dos quais 778 já eleitos e mais 10 ainda no páreo.

Mas a classificação se complica se levarmos em consideração a relação entre número de candidatos e eleitos: O PMDB já elegeu 47% dos candidatos, o PSDB 46% e o PT apenas 34%.

E se complica ainda mais se considerarmos que os votos foram somados aos partidos em que os candidatos estão inscritos e que nem sempre foram os principais nas coligações que os apoiaram. Por exemplo, Gilberto Kassab foi incluído no total do DEM e Gabeira no do PV. Mas, nos dois casos, receberam forte apoio dos tucanos. Mas, na conta do Tribunal, o PSDB ficou com os votos de Geraldo Alkmin, derrotado e afastado do segundo turno.

Confuso. E mais confuso ainda o caso de Belo Horizonte, em que os votos de Márcio Guerra estão no total do PSB, mas, na verdade, a grande maioria veio do apoio do governador Aécio Neves (PSDB) e do prefeito Fernando Pimentel (PT)? E como calcular exatamente o número de votos espalhados por candidatos de todos os partidos da frente governista unicamente pela altíssima aprovação popular do presidente Lula?

Cada um pode fazer sua conta e escolher o partido vencedor das eleições.

ENTRE OS VEREADORES, A COISA É MAIS SIMPLES

O PMDB é o campeão dos vereadores no Brasil, elegeu 23% de seus 36.482 candidatos, com 11.977.196 votos. O PSDB derrotou o PT por escassa diferença de votos – 10.714.393 x 10.539.880 – elegendo 21% (5.894) de seus 28.681 candidatos, enquanto o PT só conseguiu emplacar 14% (4186) do total de 29.882 candidatos.

Mas, na área municipal, outros partidos chegaram mais perto dos Três Grandes, tanto em número de eleitos como de votos: DEM (4815, 7.999.337), PP (5.122, 7.233.167), PDT (3.509, 6.717.625), PTB (3.929, 6.315.928). O resto teve menos de 6 milhões de votos e de 3 mil eleitos

Vertigem


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


MADRI - Dá vertigem acompanhar os números envolvidos no noticiário sobre a crise financeira. Dupla vertigem, aliás: a primeira, porque são tão violentos que não é possível nem sequer imaginar aproximadamente o que significam. Alguém aí sabe "quem" é US$ 700 bilhões (ou, em reais, R$ 1,603 trilhão, ao câmbio do fechamento de ontem)?

A segunda vertigem vem da montanha-russa que é tentar acompanhar o cassino. Acordei ontem, liguei, como de hábito, o computador e, dos cantos da telinha, até dava para ver pedaços derretidos das Bolsas asiáticas. Se era assim lá, aqui na Europa tenderia a repetir-se o caos da segunda-feira.

Saio para assuntar e, lá pela hora do almoço, um interlocutor me informa que os BCs de meio mundo reduziram conjuntamente os juros, com o que as Bolsas (européias) se recuperavam algo. Já tinha feito perguntas a meia dúzia de interlocutores com foco no derretimento.Parecia trabalho meio perdido.

Depois do almoço, já não era trabalho perdido, porque as Bolsas podiam até não estar derretendo, mas caíam pesadamente. Não tenho mais idade para andar na montanha-russa.

Volto aos números. Carlos Eduardo Lins da Silva, o ombudsman, tem reclamado que a gente não consegue apresentar "quem" é US$ 700 bi ao leitor. No fundo, é uma abstração, não é?

Como tenho muito respeito pelo Carlos Eduardo, resolvi traduzir para o Brasil conta inspirada na edição eletrônica da "Der Spiegel", alemã: US$ 700 bi dariam para pagar um salário mínimo por dez anos para quase 30 milhões de brasileiros, se é que não errei nas contas, de tantos zeros.

Continua uma abstração, mas dá ao menos pálida idéia de como é a vida no que o Elio Gaspari chama de andar de cima e andar de baixo. Dá ou não dá vertigem?

Mudar os juros


Míriam Leitão
DEU EM O GLOBO


O Banco Central deveria mudar sua política de juros, interrompendo o ciclo de alta, diante do agravamento da crise. Ontem, ao fim de mais um dia tenso, o clima começou a melhorar. O BC vendeu dólar físico e liberou mais compulsório. Além disso, algumas exportadoras começaram a negociar com bancos a liquidação das opções de câmbio. Lá fora, a ação conjunta dos BCs começa a surtir efeito.

As empresas exportadoras encalacradas com futuro de câmbio começaram a negociar com os bancos para fazer uma liquidação compulsória. A dívida delas com o derivativo começou a ficar tão alta que algumas empresas procuraram escritório de advocacia para contestar judicialmente os contratos. "Algumas cláusulas são leoninas", disse um exportador. Quanto mais o dólar subia, mais as empresas tinham que depositar margem, mais compravam dólar, mais faziam a moeda subir e maior era o prejuízo. Os bancos que operam com esse ativo poderiam simplesmente ficar sem receber e, além disso, enfrentar uma contestação judicial. Um banqueiro me confirmou a negociação.

- Cada banco cuida do seu cliente, mesmo porque não tem outra alternativa. O risco era não receber.

As duas partes estariam começando a negociar. Nos casos em que estas opções foram vendidas a terceiros, os bancos estão financiando as empresas. De qualquer maneira, essa operação está bastante disseminada. Não será tão simples acabar com o problema.

Outro banqueiro me informou que as empresas brasileiras aumentaram muito a exposição ao dólar nos últimos cinco anos, e não apenas as exportadoras, mas também as que têm qualquer atividade no exterior e as que têm competidores estrangeiros. Há rumores em relação às grandes empresas mineradoras e às da área siderúrgica. A Vale negou que tivesse problemas nessa área. A Votorantim informou que fez operações de opção de dólar nos últimos meses, mas garantiu que "a exposição, após um conjunto de operações programadas, foi totalmente eliminada na data de hoje" (ontem).

O Banco Central mudou de atitude novamente e passou a vender dólar físico, ajudando a acalmar o mercado de câmbio. Ele tem mostrado agilidade nos últimos dias, depois de ter ficado algum tempo prisioneiro daquela análise equivocada feita no governo brasileiro, de que a crise não chegaria aqui. Chegou, tem um capítulo só nosso nessa confusão cambial e exigia atitude do BC. Mas ainda que ele esteja mais ativo, um problema continua grave: a falta absoluta de linhas para o fechamento de contratos de câmbio.

Outro problema que começa a ser resolvido é das dificuldades dos bancos pequenos por não estarem tendo acesso ao interbancário. O presidente do Banco do Brasil, Antonio Francisco de Lima Neto, negou que tivesse comprado ontem carteira de consignado por imposição do governo.

- Fazemos porque é uma oportunidade. Nós temos liderança em crédito consignado, nossa participação no mercado é de 19%, com R$11 bilhões, e compramos mais R$900 milhões. É um produto padronizado, com baixo risco, e nós do Banco do Brasil queremos crescer em crédito à pessoa física urbana.

Mesmo que se resolvam estes problemas, o dinheiro continua sem circular. O problema é comum ao Brasil e ao mundo: mesmo quando o Banco Central injeta dinheiro, ele fica nos bancos. O crédito não circula.

A economia continua a funcionar por crédito liberado antes. Eu conversei com pessoas ligadas a três grandes empresas de varejo. Em uma delas, as vendas continuam, mas é um grupo com vendas diversificadas, inclusive muito eletroeletrônico; em outra, especializada em ramo mole, as vendas estão piores do que no ano passado e, na terceira, estão em queda. A economia real começa a sentir o tranco da liquidez. Os juros estão crescendo fortemente. Os últimos dados já superados - porque eles têm subido diariamente - são de taxas de 137% ao ano para empréstimos à pessoa física e 66% no crédito às pessoas jurídicas.

No mercado financeiro, a volatilidade intensa mostra que ainda se está longe da normalidade. O dólar chega a variar, entre quedas e altas, dez por cento; ontem a Bovespa oscilou 3.000 pontos entre quedas e altas. Vários economistas com quem a coluna entrou em contato acham que o mercado continuará ao sabor das notícias de cada dia.

O BC enfrentará agora o dilema da sua política de juros. No mundo, os juros estão em queda e ontem o corte coordenado dos maiores países do mundo confirma que essa é a tendência. Mas o BC brasileiro está no meio de um "ciclo de aperto de política monetária". Ele continuará subindo os juros, mesmo com a queda das taxas no mundo, com a inflação cedendo no Brasil e com a economia reduzindo o ritmo? Mas há também impacto inflacionário da alta do câmbio. O Bradesco acha que o BC deveria apenas aumentar mais 0,25 ponto percentual e encerrar a elevação. Nílson Teixeira, do CSFB, acha que os juros deveriam parar de subir já na próxima reunião, mesmo que venham a subir depois, caso haja elevação da inflação. Thomas Málaga, do BBA, acha que os juros deveriam parar de subir, ou até cair um pouco diante do novo quadro econômico brasileiro, de restrição de crédito, e novo quadro internacional, de forte desaceleração.

O medo da recessão


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. O fato de que nenhuma das perguntas dos eleitores reunidos anteontem no debate entre os candidatos a presidente dos Estados Unidos se referiu aos "escândalos" que envolvem os dois, mas sim às questões econômicas, deveria servir de lição nesses últimos dias de campanha. Ninguém do público, escolhido pelo instituto de pesquisas Gallup entre os eleitores indecisos, estava interessado em saber sobre as relações de Barack Obama com o ex-terrorista Bill Ayers, ou com o pastor radical Jeremiah Wright; nem sobre o escândalo em que cinco senadores, entre eles McCain, foram acusados, anos atrás, de tentar proteger o banqueiro Charles Keating, que estava sendo investigado por irregularidades no Lincoln Savings & Loan Association, que quebrou em 1989, levando o amigo de McCain para a cadeia.

Esses temas têm dominado as campanhas dos dois candidatos, nas propagandas de televisão e nas mensagens pela internet, mas não interessam de fato aos eleitores, que estão mesmo preocupados com as conseqüências da crise econômica no seu dia-a-dia.

A atuação dos dois com relação ao tema tem provocado frustração nos eleitores, que não sentem firmeza nos seus discursos, que não encontram respostas nos programas de governo de nenhum dos dois. No debate de terça-feira na Universidade de Belmont, no Tennessee, os dois candidatos se aproximaram um pouco da verdade, mas ficaram a uma distância prudente para seus projetos políticos.

O republicano McCain porque tem uma missão quase impossível de se dissociar do governo republicano que está na Casa Branca há oito anos e, como Obama salienta a cada momento, recebeu um governo com superávit fiscal e hoje apresenta um déficit de cerca de US$400 bilhões este ano, e um déficit externo que era de US$5 trilhões e dobrou nestes oito anos.

Esse quadro econômico nada favorável, que já era objeto de crítica de Obama durante a campanha, acabou mostrando sua verdadeira face com a crise financeira que estourou há 15 dias, explicitando a gravidade da situação.

Isso tudo torna a posição de McCain cada vez mais difícil, e é previsível que não queira que o tema econômico domine os debates. Em Nashville, como não controlava as perguntas, não pôde evitar que o verdadeiro interesse do cidadão-eleitor se evidenciasse nas perguntas.

Já Obama, à frente das pesquisas, ampliando sua vantagem em estados-chave e tornando-se a alternativa natural do eleitor que quer mudar a política econômica, claramente não quer arriscar essa posição confortável. Os dois estão mais focados em ganhar a eleição do que em se mostrar em condições de enfrentar a crise econômica, o que está incomodando os eleitores.

A crise não apenas dominou a maior parte do debate; até mesmo quando a discussão passou para as questões internacionais, a primeira pergunta da platéia foi sobre se a crise econômica vai reduzir a capacidade dos Estados Unidos de intervir para manter a paz mundial quando necessário.

As perguntas dos eleitores indecisos mostraram também o quanto o cidadão comum está descontente com os políticos de maneira geral. Uma senhora perguntou por que confiar em um dos dois quando os dois partidos colocaram o país nessa situação; um jovem duvidou se o pacote econômico aprovado pelo Congresso, com o apoio dos dois candidatos, realmente resolveria o problema; uma outra, com a experiência de ter passado pela crise de 1929, foi direto ao ponto: qual o sacrifício que cada um deles exigiria de cada americano para superar a crise econômica?

Nem mesmo com essa "permissão" da eleitora os dois ousaram. O republicano McCain respondeu genericamente, dizendo que cortaria vários programas ineficientes, mas não citou nenhum. Voltou a defender que o orçamento federal deveria ser expurgado de adendos que não sejam essenciais, e ressaltou que só não pediria cortes em verbas para a segurança nacional e educação.

Já Obama conseguiu ser mais criativo, falando na necessidade de o país sair da dependência do petróleo estrangeiro. Os dois candidatos tratam do tema como sendo uma questão de segurança nacional, pois, os dois ressaltam, os Estados Unidos dependem do fornecimento de energia de países que, como diz McCain constantemente, "não gostam muito de nós".

O próprio Obama chegou a citar a Venezuela e países árabes, e até o Irã, como países de cuja produção os Estados Unidos dependem na questão de energia. E McCain citou a importância estratégica da Geórgia na distribuição de gás para a Europa como um dos motivos para que os Estados Unidos a defendam da Rússia.

Mas, além da política de combustíveis alternativos, Obama tocou num ponto crucial: a capacidade de cada americano de cortar seu próprio consumo, de economizar combustível no seu dia-a-dia, mudando os hábitos.

Essa é uma luta que é muito impopular, e talvez por isso o candidato democrata não tenha querido se aprofundar no assunto, mas será um dos principais papéis do futuro governo: fazer com que o desperdício de combustível seja evitado, mudando os hábitos da população, muito arraigada ao transporte individual.

Dois detalhes paralelos ao debate, mas que têm importância fundamental na percepção dos eleitores:

1. A certa altura, McCain referiu-se a Obama como "that one" ("aquele ali"), o que está sendo considerado falta de respeito pelo adversário. Já há camisetas com a frase, que vai ser explorada pela campanha democrata.

2. O formato do debate não ajudou McCain, que mostrou o peso da idade ao se movimentar pelo cenário, e não olhava para os eleitores em vários momentos.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1112&portal=