quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Fernando Rodrigues:: O PT está se achando

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Quando a cúpula do PMDB saiu do Palácio da Alvorada na noite de 20 de outubro, Lula ficou entretendo um pouco mais alguns petistas de sua confiança. Os peemedebistas tinham acabado de fechar um pré-acordo com o PT sobre a sucessão presidencial. O negócio estava fechado.

Michel Temer e José Sarney encabeçavam a tropa do PMDB naquela noite. Ao ficar a sós com seus aliados, Lula suspirou e disse algo mais ou menos assim: "A gente construiu o PT, trabalhou duro para chegar até aqui e agora vamos fazer aliança com essa gente...". Alguns palavrões frequentaram a conversa, mas o assunto morreu ali.

Um dia depois, Lula elucubrou sobre como se moldam as alianças políticas no Brasil: "Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão".

O Judas da história é o PMDB. Nesta semana, Aloizio Mercadante (PT-SP) deu uma entrevista em Recife. Fez um ultimato ao atual governador pernambucano, Eduardo Campos, do PSB, que será candidato à reeleição em 2010: ou ele apoia a petista Dilma Rousseff para o Planalto ou Lula o abandona na campanha local.

Não contente, Mercadante pontificou sobre Ciro Gomes (PSB) -que é paulista, fez carreira no Nordeste e está sendo empurrado pelo PT para a disputa ao governo de São Paulo. Para o senador, Ciro apenas "pegou o pau de arara na direção errada. Um monte de gente veio para São Paulo e ele foi para lá [Ceará]".

O petista depois consertou a fala, mas o estrago estava feito.

Há algumas semanas o PT ostenta um certo ar superior, de já ganhou. Após o Datafolha apontar Dilma isolada em segundo lugar, dirigentes petistas passaram a cravar uma vitória no primeiro turno. Autossuficiência excessiva não combina com campanhas eleitorais. Se o partido seguir nessa toada, achando-se imbatível, é real a chance de tropeçar na própria arrogância.

Fernando de Barros e Silva:: De choques e pau de arara

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

São Paulo - A novidade de um presidente que "fala a língua do povo" tem aspectos obviamente simpáticos. Mas o que um dia foi ganho democrático degenerou em espetáculo.

Lula criou uma mitologia em torno de sua figura. É hoje um ator satisfeito e seguro de si. Difícil encontrar quem resista a seus improvisos retóricos. As pessoas em geral acham graça das muitas bobagens que ele diz. Ai de quem se atreve a apontá-las. É crime de lesa-pátria.

Anteontem, no Prêmio Direitos Humanos 2009, Lula se dirigiu a Inês Etienne Romeu -que foi presa e torturada como Dilma Rousseff durante a ditadura: "Minha querida Inês, eu só queria te dizer uma coisa: valeu a pena cada gesto que vocês fizeram. Cada choque que vocês tomaram, cada apertão que vocês tiveram, valeu a pena porque nós aprendemos".

Aplausos da plateia...

Será preciso anotar que essa história de tortura que valeu a pena, de martírio que serve de aprendizado, é o fim da linha? Alguém, entre os que o ovacionaram, será ainda capaz de se escandalizar com algo que Lula diga? Sim, foi "só" um deslize, mas a questão é esta: tem limite?

Na mesma cerimônia, Lula disse que "a gente sofreria menos se transformasse os nossos companheiros em heróis, e não apenas em perseguidos". É a velha visão sentimental e romântica. O país seria melhor se tivesse maturidade para julgar os torturadores, em vez de distribuir medalhas às suas vítimas.

A esquerda, de resto, irá um dia desmistificar a luta armada?

Já passou a hora de reconhecer que aquilo não foi só um delírio total, mas, antes disso, um grande erro, ainda que tivesse alguma chance de dar certo.

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Do choque virtuoso de Lula chegamos ao pau de arara de Aloizio Mercadante. Em entrevista a uma rádio de Recife, o senador do PT disse que Ciro Gomes, nascido no interior paulista, "pegou o pau de arara na direção errada". Enquanto as pessoas vinham para São Paulo, "ele foi para lá (o Ceará)".

Mercadante é aquele que acusou José Serra de preconceito contra os nordestinos na campanha de 2006.

Rosângela Bittar:: O Instituto Lula

DEU NO VALOR ECONÔMICO

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem, entre suas principais tarefas do ano que vem, em fim do segundo mandato e último ano de governo, a de pensar o futuro, dar forma a uma estrutura física destinada, ao mesmo tempo, a abrigar seu acervo e ser a base de um trabalho futuro que pretende, primordialmente, desenvolver na África. Definir esta atividade do futuro é algo que está evoluindo lentamente, sem pressa. O chefe do gabinete do presidente, Gilberto Carvalho, tem chamado esta estrutura física, ainda hipotética, de "Instituto Lula", local destinado, em princípio, a receber seu acervo.

Houve uma época que o presidente chegou a conversar com o governador do Distrito Federal sobre a possibilidade de criar, na capital, um museu dos ex-presidentes da República, de forma que pudesse guardar alí documentos, objetos, a história de cada um e, ao mesmo tempo, dar acesso ao público a esta preciosidade.

A ideia de criação de uma instituição pública não evoluiu mas, do ponto de vista individual, está voltando ao debate nesta que representa o início de último ano de governo. Lula recebe 8 mil cartas por mês, por exemplo, com assuntos que variam dos pedidos de casa própria à correção de aposentadoria, e 52 pessoas dedicam-se à tarefa de respondê-las. Estas cartas, só para ficar neste exemplo, terão que ir com ele para São Bernardo, quando lá for morar quando deixar a Presidência da República. São centenas de presentes, objetos que vai ganhando nas viagens pelo país e no exterior. É um material que o governo acha que tem que estar disponível a pesquisas, ao acesso do público.

Esta organização será também a base política para a ação do presidente, que afasta completamente qualquer tipo de intromissão no governo do seu sucessor, seja do seu campo seja do campo adversário. Mas não vai se afastar da política. Depois de descansar uns meses, o presidente pretende desenvolver uma ação articulada de apoio ao desenvolvimento na África.

Em sua última viagem a Roma, na véspera da reunião da FAO, Lula participou do que foi definido, na sede do governo, como aperitivo deste projeto. Reuniu-se com presidentes e ministros de países africanos para debater pontos de interesse e identidade entre estes países e o Brasil. Um capítulo, por exemplo, foi o que comparou a Savana africana e o Cerrado brasileiro, que teriam condições comuns para a agricultura. A Embrapa, enfatiza o governo brasileiro, está presente em 20 países da África.

Lula fez mais viagens à África que todos os presidentes brasileiros, contabiliza sua assessoria, e está preocupado porque é preciso correr: acha que a China está numa espécie de exercício de atração fatal sobre o continente, com cantos da sereia e construção de castelos.

A imagem do trabalho que o presidente poderá desenvolver a partir desse Instituto seria a de uma caravana da cidadania. Uma caravana organizada, permanente, especialmente para a África mas, nada impede, também para a América Latina, onde acredita poder realizar trabalho semelhante.

Nas viagens programadas para o último ano de governo ainda há, por sinal, duas visitas à África. Uma, por ocasião da Copa do Mundo, à África do Sul, outra seria mais uma rodada por 3 a 4 países ainda não definidos.

Nem por ser um ano de campanha eleitoral Lula suspenderá suas viagens ao exterior, pelo menos no primeiro semestre. Em janeiro, poderá ir a Davos, na Suiça, para o Fórum Econômico Mundial.

Em fevereiro há uma viagem grande, ao México e países da América Central para a Cúpula da América Latina e Caribe. Em março, está na agenda outra grande viagem, desta vez ao Oriente Médio: Israel, Palestina, Líbano, Síria. Provavelmente em maio (pode ser antecipada) está prevista viagem ao Irã e à Rússia. E também em maio irá à cúpula Brasil-União Europeia, em Madri. Existe uma hipótese de, em junho, o presidente Lula comparecer à exposição internacional de Xangai, provavelmente no dia dedicado ao Brasil.

No primeiro semestre, o presidente vai também dedicar-se à tarefa de reorganizar o governo. Até março, agirá como tem feito agora, uma campanha esparsa para inauguração de obras, em companhia da ministra Dilma Rousseff enquanto ela ainda pode participar dos eventos como integrante do governo, sem ferir a lei eleitoral.

No fim de março vão sair vários ministros, desincompatibilizando-se dos cargos para se candidatarem ao Executivo e Legislativo. Como regra geral, os que saírem serão substituídos por pessoas da equipe de cada um, com uma ou outra exceção. Estava previsto o afastamento de 15 a 17 ministros de Estado, provocando uma renovação sem precedentes no último ano do governo.

O presidente Lula, porém, há duas semanas, fez gestões para que alguns fiquem em seus cargos, pois suas candidaturas não fazem muito sentido. É o caso, por exemplo, do ministro do Esporte, Orlando Silva, do PCdoB. O presidente acha que ele tem muito a fazer no governo e seu partido já está muito bem servido de candidatos a deputado, entre eles Aldo Rebelo e Jamil Murad.

Com certeza, estão saindo Dilma Rousseff (Casa Civil), Tarso Genro (Justiça), José Pimentel (Previdência), Geddel Vieira Lima (Integração), Hélio Costa (Comunicações), Edson Santos (Igualdade Racial), entre os absolutamente definidos. Com a saída dos ministros, Lula dedicará um a dois meses ao comando da execução dos programas. A prioridade será governar, o presidente vai administrar mais.

No segundo semestre, Lula não pretende fazer viagens internacionais porque estará integralmente dedicado à campanha eleitoral, especialmente depois da Copa do Mundo. Fora do experiente. O presidente poderá cumprir sua agenda de presidente, dizem os auxiliares, e a partir das 17 horas pode viajar para um comício, em qualquer lugar do Brasil. Será a despedida de Lula dos comícios, acham alguns ministros. Se Dilma for eleita e fizer bom governo, ele pode até não voltar mais. Se não for eleita, voltará aos palanques no dia seguinte.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

José Nêumanne:: Vacas de presépio que se fazem de pastores

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Naquelas históricas assembleias gerais dos operários metalúrgicos de São Bernardo do Campo no Estádio de Vila Euclides na segunda metade dos anos 70 do século passado, o presidente do sindicato, Luiz Inácio da Silva, que ainda não havia incorporado o apelido Lula ao sobrenome, forjou um estilo ao qual foi fiel e que ao longo dos anos aperfeiçoou com esmero. Ele tinha dois lugares-tenentes, Osmar Mendonça, o Osmarzinho, e Enilson Simões de Moura, o Alemão. Encarregava cada um de defender uma posição e, enquanto os dois discursavam, Lula observava atentamente a multidão lá do alto do palanque. Somente quando tinha certeza absoluta sobre qual seria a posição a ser adotada para agradar a plateia dava a palavra final. Ali ele subverteu a ordem monolítica, mas frágil, da ditadura militar, que logo depois desabaria, e também inverteu o sentido original da palavra líder, não mais alguém que conduz a massa, mas quem se deixa por ela conduzir. Non duco, ducor.

Os longos anos de militância no PT, na oposição em plena democracia, frágil como a ditadura que sucedeu, ainda que parecesse inquebrantável, o retirante de Caetés, Pernambuco, tornou-se aos poucos o mais manhoso e bem-sucedido político da História do Brasil por aprimorar a arte de adular a massa para permanecer no topo. É um estilo de mando que contraria o dístico latino usado para definir o orgulho paulista. Tal como citado na última linha do parágrafo anterior, não mais o "não sou conduzido, conduzo" dos bandeirantes, dos coronéis, dos estancieiros e mesmo dos mineiros manhosos do PSD, mas um esperto "não conduzo, sou conduzido", que garante a permanência no alto das pesquisas de prestígio popular. Adular o povo é o jeitinho mais eficiente e menos perigoso de perpetuar seu excelente emprego, que garante fama e fortuna fáceis e um bando de bajuladores ao redor por muito mais tempo do que jamais poderia sonhar algum pretendente ao exercício pleno do mando. Trata-se de um meio extremamente inteligente e sem riscos de exercer o poder e garantir satisfação especial para si mesmo, a família, os amigos e os compadres sem ter de adotar uma decisão difícil, angústia que sempre incomodou o repouso dos guerreiros que de fato comandam.

Os altos índices de popularidade alcançados por Lula, como não o foram "nunca antes na História deste país", não são, contudo, um fenômeno paroquial, uma esquisitice tropical num universo estranho. Como se sabe, noço guia providencial dos povos da floresta, da roça, do açude e da transposição do Rio São Francisco é o cara (man) do homem mais poderoso da Terra, Barack Obama. Há entre o menino que teve o picolé recusado pelo pai sob o pretexto de que não sabia chupar e o primeiro mulato a ocupar a presidência dos Estados Unidos da América muito mais afinidades do que pode supor nossa vã historiografia. Mas isso não se tem comprovado em seus sucessos evidentes, e, sim, em seus fiascos ocultos. Como esse sofrido por ambos na Conferência do Clima em Copenhague semana passada.

Protagonistas de reuniões que partem de intenções magníficas e terminam em nulidades tenebrosas, ambos fazem parte de uma geração de estadistas pigmeus que de tanto se preocuparem com o que oferecer aos eleitores nas próximas eleições se esquecem do mundo que estão destruindo para as próximas gerações. Os dois se assemelham ao descendente de húngaros Nicolas Sarkozy, que só se aproxima do corso Napoleão Bonaparte na estatura física, distanciando-se do exemplo de antecessores em seus postos. Como Abraham Lincoln, que fez a guerra civil para garantir a unidade da confederação americana, e Dom Pedro II, sob cuja égide foi consolidado o domínio dos brasileiros sobre este território semicontinental onde estamos instalados.

Tanto eles quanto outros conduzidos que se fazem de condutores - Sílvio Berlusconi na Itália, Angela Merkel na Alemanha, etc. e tal - são hábeis comunicadores, capazes de encantar e engabelar as massas, mas inaptos para pôr em prática o verdadeiro sentido de governar: escolher metas a cumprir e persegui-las. Obama tem a habilidade de encantador de serpentes quando discursa. Lula põe as velhas raposas felpudas da política brasileira nos chinelos quando se trata de dizer a um interlocutor o que ele quer ouvir, seja individual, seja coletivamente. Mas nenhum dos dois tem a ousadia de enfrentar adversidade alguma para traçar o caminho a seguir, seja para resolver os impasses do comércio internacional, seja para evitar a tragédia ambiental que se abaterá sobre nós se providências não forem adotadas. Aos problemas que surgem respondem: "não é comigo." Aos que podem postergar reagem: "resolveremos no ano que vem."

Foi isso que ocorreu em Copenhague, como antes já havia acontecido na Rodada Doha. Lula dá lições de moral ao resto do mundo em matéria de preservação, mas não põe fim à destruição da Amazônia com uma simples proibição de queimadas e cortes pelos bandidos internacionais da motosserra. Falta-lhe coragem para fazer o que deve, mas lhe sobram argumentos para transferir a culpa para os outros. Neste mundo em que vivemos, Obama teve o topete de defender a guerra no habilíssimo discurso que fez na solenidade em que recebeu o absurdo Prêmio Nobel da Paz.

Essas vacas de presépio que se fingem de pastores de rebanhos repetem a geração de eunucos que permitiu o avanço de Hitler e Mussolini no período entre as guerras. Em pleno século 21, o mundo está a precisar que surja um novo Winston Churchill, um líder no sentido verdadeiro da palavra (condutor), temerário a ponto de prometer "sangue, suor e lágrimas" a seu povo para, contrariando-o e provocando-lhe dor, fazê-lo emergir sobrevivente e orgulhoso da devastação de uma guerra mundial.

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde

Artur Xexéu :: Dilma vence a primeira eleição

DEU EM O GLOBO /Segundo Caderno

Em uma prova do seu potencial eleitoral, a superexposta ministra, maestra do apagão e de frases como “O meio ambiente é uma ameaça so desenvolvimento” foi eleita a Mala do Ano de 2009, no tradicional certame promovido pelo colunista.

A mala do ano ou a musa do apagão

Conheça os dez mais votados na eleição mais tradicional da temporada de prêmios

Quem disse que Dilma Roussef não é boa de voto? Pois dobre a língua. Depois de uma carreira política inteirinha construída em gabinetes, a ministra participa de sua primeira eleição verdadeiramente democrática e sai vencedora. Este ano não teve para mais ninguém. Deu Dilma na cabeça.

Ela é a minha, a sua, a nossa Mala do Ano.

Justiça seja feita: Dilma fez uma campanha impecável. Quando o concurso mal tinha começado, quando ainda não havia favoritos, Dilma arrumou um apagão, deixou o país quase todo às escuras e ainda deu uma série de declarações minimizando o desastre. Não deu outra. Ficou em primeiro lugar desde a primeira apuração. E, agora, quase no finzinho, quando seu nome já estava praticamente sendo superado por outras malas de destaque, ela foi a Copenhage para dizer que “o meio ambiente é uma ameaça ao desenvolvimento”.

Dilma ganhou o pódio definitivamente.

Daqui para a frente, ela pode perder todas as outras eleições a que se candidatar. Já tem um vitória. É a mala do ano, primeira e única. Pesada e sem rodinha.

A vitória por maioria absoluta de Dilma só foi ameaçada pela força que Caetano Veloso tem nessa área. Ninguém aguenta mais ouvir Caetano tendo opinião formada sobre tudo. E, nas poucas vezes neste 2009 em que o leitor pensou que passaria uma semana inteira sem ouvir falar em Caetano Veloso, o cantor dava um jeito de levar um tombo no palco, e começava tudo outra vez.

O número de votos no baiano, por sinal, foi uma síntese da predileção do eleitorado pelo voto na baianada da música brasileira. Caetano tornou-se vicecampeão, mas ele representa Claudia Leytteh (sei que ela não é baiana de nascimento, mas é baiana na alma), Ivete Sangalo, Carlinhos Brown... É o voto-axé. É a mala regional.

O terceiro posto ficou com um personagem que ainda não tinha aparecido em nossa lista anual. Ele é empresário, ele é rico, ele cuida da cidade, ele é mala: Eike Batista, o homem dadivoso que Madonna ainda não tinha encontrado em lugar algum do mundo. Vamos combinar que, desde os tempos em que tinha o nome na coleira da Luma, Eike merecia estar no Top Ten. Mas escapou. No entanto, a superexposição — como todo mundo sabe, superexposição é credencial VIP para entrar na lista dos dez mais — dos últimos tempos não permite que ele fique de fora. Eike conquistou um honroso terceiro lugar. É mala de rico. É uma Louis Vuitton legítima.

No quarto lugar apareceu uma mala que tinha tudo para ser a mais votada do ano, mas dividiu a preferência do eleitorado com o campeão.

É o ministro Edison Lobão, aquele que, quando soube do apagão, achou que nem era com ele, que não tinha nada a ver com aquilo.

Como já vimos, o apagão influenciou muito os votos deste ano. Mas, falando sério, é uma mala sem charme. Lobão é uma mala apagada.

Logo depois do ministro do apagão aparece uma mala pequenininha, do tamanho de uma minissaia: Geyse Arruda. A aluna da Uniban que criou, em pleno século XXI, um caso com cara de anos 50. Num primeiro momento, Geyse até teve a simpatia do eleitorado. Mas não resistiu ao primeiro flash. Aproveitou os 15 minutos de fama para ir ao programa de Luciana Gimenez, para dizer que tinha recebido convites da “Playboy”, para virar notícia em sites de fofoca, para passar por transformação em programas vespertinos da TV... Geyse é mala.

Injustiçada, mas mala. Perseguida, mas mala. Vítima de preconceito, mas mala.

Devido ao tamanho de sua minissaia, virou a pochette do ano.

O sexto e o sétimo lugares devem ser anunciados juntos. Por que um ficou na frente do outro? Por que um é mais mala do que o outro? Tenho minha teoria. Eduardo Paes, o prefeito, ficou com a sexta posição; Sergio Cabral, o governador, com a sétima. Paes, a bem da verdade, começou a eleição com poucos votos. Mas aí implicou até com o coco na praia e, na reta final, posou para quela foto em que simulava pegar uma onda sobre sua mesa de escritório. Foi fatal. Eduardo Paes é mala esportiva. E, na modesta opinião do presidente do Trema — o Tribunal Regional da Mala Eleitoral —, só ficou na frente do governador porque o eleitorado acreditou que, cravando seu voto em Sergio Cabral, corria o risco de ele não aparecer para receber o prêmio. Certamente estaria fora do país. Sergio Cabral é uma mala perdida na esteira do aeroporto.

O espaço está acabando e ainda faltam três malas a serem abertas. São malas cheias, por isso estão ocupando tanto espaço. O oitavo lugar ficou com Jesus Luz, a mala acoplada. O modelo e DJ não falou muito, mas só sua performance de papagaio de pirata (papagaio mudo, que fique claro) já foi o bastante para ele aparecer entre os mais votados.

Em penúltimo lugar, encontramos uma mala da televisão. Neste 2009 não tivemos atrizes de novela ou participantes de reality shows.

Todos os votos sobraram, então, para Luciano Huck. O principal argumento do eleitorado foi o excesso de anúncios em que ele aparece como garoto-propaganda. É justo. Uma mala comercial.

E, por último, ela, a musa da irritação, a protagonista de “Irritando Fernanda Young” que, na verdade, deveria ser chamado de “Fernanda Young irritando”. Aquela que posa para a “Playboy” e ainda faz tese a respeito. É a mala que não foi depilada.

A todas as malas que se sentiram injustiçadas por não estar nesta lista, fica um conselho: não desista. Ano que vem tem mais.

O QUE PENSA A MÍDIA

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Vinicius Torres Freire:: Impostos e imposturas

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Para empresários, Lula diz que sem "carga tributária forte" não há bem-estar social, lema e problema de seu governo

"Não Imaginem um país com carga tributária fraca (...). Os Estados [Europa e EUA] só podem ter o bem-estar social porque têm recursos", Lula disse. Portanto, o bem-estar social também no Brasil depende de carga tributária "forte". É verdade. Esse é o problema. Não, o problema não são "impostos que escorcham os cidadãos", como se os tributos fossem distribuídos a marcianos.

O problema é que a histórica guerra brasílica de poucos contra quase todos produziu um Leviatã para remediar a miséria e, assim, evitar que a política e a economia se tornem disfuncionais demais. Isto é, sujeitas a tumulto social, insurreições criminosas, salvacionismos autoritários e instabilidades no "ambiente de negócios".

Tal arranjo deriva de um pacto social tácito que faz muito sucesso, evidente na "grande satisfação" dos anos Lula 2. Resta saber se tal arranjo pode dar em algo mais que não a reprodução de si mesmo, de sua mediocridade, de sua pobreza cinzenta e aridez de civilização: o "jeitinho brasileiro" enfim encarnado na nossa, digamos, ordem social.

Nosso "Estado tributário forte" resulta em parte da tentativa de apaziguar a multidão que nos anos 1960-70 migrava em massa para se juntar aos pobres das cidades, depois de séculos largada sem pão, paz, terra e letras. Até a ditadura percebeu o risco. Projetou uma reforma agrária já anacrônica e de resto natimorta; criou o primeiro "Bolsa Família", nos 1970. Com a democracia de massa e os tumultos do final dos 1980 e início dos 90, remediar a miséria tornou-se quase inevitável.

Parte da "tributação forte" é apropriada por quem propõe e administra o "bem-estar social" e os subsídios "desenvolvimentistas", para ricos e grande empresa (ressalte-se que a iniquidade brasileira nem de longe é produzida apenas aí). Tal sistema desabrochou com a Carta de 88, plena de tentativas ansiosas de garantir direitos. A despesa federal passou de 14,5% do PIB para 24%, de 1991 a 2008. Metade do aumento foi para gastos do INSS. Um quarto para Estados e municípios, a quem coube dar escola e saúde aos deserdados; 9% foi para salário e aposentadorias dos servidores. Na conta do economista Fábio Giambiagi, o gasto federal cresceu em média 6% ao ano de 1991 a 2009, o dobro do PIB.

Para o bem e para o mal, graças a Lula não há como voltar atrás nesse caminho sem criar conturbação séria. Politicamente, é difícil pensar como o arranjo vai se desenvolver -o que o povo pobre vai demandar?

A economia do arranjo é instável. A carga tributária é alta, mas não exatamente ou apenas porque esteja "acima da média" de países assemelhados -o "país médio" é tão real como o monstro de Frankenstein. Temos dificuldades específicas. A economia informal é imensa, o que faz a carga pesar ainda mais sobre os "formais"; inibe empreendimentos e a produtividade. Mesmo "forte", a tributação não dá conta da demanda social, crescente devido à democratização contínua e à lerdeza da mudança estrutural. Num país iletrado, de economia pequena, de moeda fraca, exposta ao mercado mundial, isso pode ser um problema.

Mas a história tem sortes. A ascensão da China nos enriqueceu; o país da miséria mitigada é desconhecido. Daí pode brotar o imprevisto.

CHARGE


Diário do Nordeste (CE)

Miriam Leitão:: O não dito

DEU EM O GLOBO

O presidente Lula disse aos jornalistas que na mensagem de Natal vai incentivar os brasileiros a investir. Deveria seguir o conselho que dá. Segundo o site Contas Abertas, dos R$ 54,4 bilhões previstos para investir em 2009, o governo só usou US$ 11,9 bilhões, 22%. Se contar o que pagou das contas dos anos anteriores, chega a 56%. O governo gastou muito e investiu pouco.

Essa foi uma das várias informações que ele não deu na sua conversa com os jornalistas. O presidente Lula não tem o hábito dos presidentes democráticos de dar coletivas. Faz seus monólogos em solenidades, se deixa atropelar às vezes por microfones, em algum evento, onde só responde o que quer. Foi o único chefe de Estado a não receber a imprensa de seu país em Copenhague. No fim do ano, toma o café da manhã com jornalistas em ambiente que lhe favorece.

O clima, nestes cafés da manhã, o deixa à vontade.

Muitos convidados na mesa em U. Ninguém pode insistir numa questão para não ser descortês com os colegas e parecer monopolizar a conversa.

Não há muito espaço para o contraditório. Assim, ele discorre sobre o que quer, sem riscos.

No ano em que o governo mais gastou dinheiro do contribuinte para salvar empresas e transferir recursos para empresários, ele fugiu do tema.

O governo até agora não disse quanto custou a conta.

Quantos bilhões de impostos não foram pagos por produtores de carros, de bens de consumo duráveis? Quanto custou ao BNDES ter resgatado empresas que se encrencaram sozinhas na especulação cambial? Quanto custou ao Banco do Brasil seus empréstimos de emergências a empresas como a Sadia? Quanto se transferiu para grandes grupos nacionais e estrangeiros em nome do aumento do consumo da população? Uma reunião assim de fim de ano é uma boa oportunidade para que a Presidência faça uma prestação de contas séria. Mas para isso teria que ser uma Presidência que entende que prestar contas é uma obrigação, e a imprensa, um dos canais.

Lula disse que “inflação é coisa séria” e que “o controle da inflação é coisa da qual não abdicaremos”, mas, ao mesmo tempo, disse que não acha necessário elevar o superávit primário, defende aumento de gastos com funcionários, faz populismo com os aposentados, e diz que se o governo tem capacidade de endividamento deve usar.

Tudo junto é uma contradição ambulante. O governo este ano gastou demais, em subsídios pouco transparentes aos empresários, elevou fortemente o gasto com funcionários em plena queda de arrecadação, reduziu o superávit primário e acha que defendeu a inflação.

Na verdade, o governo Lula foi herdeiro da superação do pior problema brasileiro no final do século XX. Herdou sem merecer, porque foi, quando oposição, adversário de cada uma das etapas do controle inflacionário.

Hoje, ele se apropria desse patrimônio. Por nunca ter entendido exatamente como se formam os riscos inflacionários, o governo Lula está minando as bases da estabilidade. E este ano de 2009 foi um exemplo disso.

O país saiu da recessão com a ajuda dos gastos públicos e porque o mundo ajudou, saindo também da recessão. Gastos públicos são o remédio num caso assim, mas o governo não demonstrou ter noção dos riscos de médio e longo prazo de um gasto corrente que cresce acima do PIB, com despesas de custeio em alta e investimento baixo.

O controle da inflação tem recaído sobre o Banco Central, e pelo uso da mais perversa das armas: a taxa de juros. Assim, se encarece a dívida do governo que já está aumentando pela elevação do gasto público.

Lula negou, durante o café da manhã, que vá ocorrer mudança na economia: “É difícil mudar o que está dando certo. Só se pode aperfeiçoar.

O governo (Dilma) vai ser a continuidade do aperfeiçoamento. Dilma tem juízo político e econômico.

Não rasga nota.” A resposta já mostra que o presidente foi para o encontro para fazer dele mais um palanque para a sua candidata e não para uma prestação de contas. A verdade é que o estatismo, do qual Dilma é a maior defensora dentro do governo, é uma ameaça concreta à estabilidade e ao projeto que nos trouxe a inflação baixa. O estatismo, o gasto sem controle, os subsídios escondidos atrás da derrama do BNDES são uma forma de rasgar nota, de ameaçar o que foi conquistado em anos anteriores aos do governo Lula.

Lula disse que a proposta do pré-sal atende a todos. A proposta do pré-sal concentra a receita na União, expropria estados produtores, divide a Federação jogando estados contra estados, transfere patrimônio indevidamente à Petrobras, dá poderes regulatórios a uma nova estatal e descarna o órgão regulador. Durante a tarde, em um dos seus monólogos, ele disse no Rio que seus antecessores nos últimos 50 anos abandonaram o estado. Ele estaria fazendo o oposto. Não deve estar lembrando que da sua base política saiu uma proposta que tira do estado do Rio R$ 10 bilhões. O governo Lula chega ao seu último ano sem ter entendido a diferença entre prestar contas e fazer propaganda.

Mikhail Gorbachev ::Um futuro para nossos netos

ISTOÉ

O último presidente da União Soviética e ambientalista ressalta a importância dos governantes diante da crise

O desafio ambiental é um dos grandes temas com os quais a humanidade hoje se defronta. Esse desafio diz respeito não apenas ao meio ambiente, mas também à possibilidade de que ocorram graves conflitos étnicos e internacionais, e está conectado às numerosas migrações de populações que implicam graves efeitos desestabilizadores na política e na economia. Tudo isso repercute na crescente pobreza e desigualdade social, na crise da água e na escassez de alimento.

Temos de agir para salvar o planeta. Esse deve ser um desafio comum a todos os governos, às comunidades econômicas e científicas e à sociedade civil. A responsabilidade principal recai sobre os Estados e as suas instituições. Só o Estado pode impor o respeito às normas e aos padrões acordados, sem os quais as tentativas de se enfrentar as mudanças climáticas são inúteis. Só o Estado pode mobilizar recursos para o desenvolvimento de tecnologias e dar suporte adequado àqueles que estão em perigo por causa das mudanças climáticas. Com frequência, no entanto, os Estados agem de modo oposto: gastam centenas de bilhões em armamentos, subvencionam indústrias que utilizam combustíveis fósseis em vez de privilegiar o setor energético e economizam em programas sociais em vez de investir no capital humano.

Nos últimos dias, os representantes de 192 países se reuniram em Copenhague, na Dinamarca, para anunciar uma nova e importante era de cooperação entre os Estados e para enfrentar os problemas causados pelo aquecimento global. A posição dos Estados Unidos desempenha um papel determinante. Sem uma contribuição significativa por parte dessa nação, não será possível obter nenhum resultado na redução das emissões ou no apoio aos países em desenvolvimento. Pouco antes da conferência de Copenhague, os discursos eram muito positivos: falava-se de “como” e não de “se”. É possível chegar a um acordo efetivo após a COP-15, mas para isso é necessário que os países industrializados e os que se encontram em desenvolvimento finalmente se entendam.

A sociedade civil também desempenha um papel importante na modificação do modo de pensar das pessoas e no exercício de pressão política. Nossa ONG, a Green Cross International (Cruz Verde Internacional), acredita que as organizações governamentais devem agir tanto em conjunto quanto individualmente. Torna-se importante aumentar os canais de comunicação e criar novas comunidades através da internet. Todos os esforços devem ser feitos para apoiar a recente iniciativa promovida por várias organizações, entre as quais a Green Cross International, o Clube de Roma e o Clube de Madri, com a finalidade de se criar e desenvolver um inventário para “além de Copenhague”. Esperamos que essa iniciativa contribua para avançarmos em busca de resultados. Procuramos também sensibilizar a opinião pública para tais problemas, enviando mensagens de alerta facilmente reconhecíveis por todos através do computador ou do telefone celular.

Não podemos permanecer inermes. Temos de agir para assegurar um futuro a nossos netos e bisnetos.

Bom dia! - Maria Rita- Não Deixe o Samba Morrer(DVD

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Reflexão do dia – Ferreira Gullar

“É hora de os políticos honestos e idealistas despertarem para esta verdade: uma grande causa nos ajuda a viver porque dá sentido a nossa vida. Ninguém perde nada em lutar por um país melhor, e o sacrifício que faça pouco significará diante da felicidade de respeitar-se a si mesmo e de ter o respeito dos demais. Só os calhordas não entendem isso”.


(Ferreira Gullar, no artigo "Cabra safado não se ama", domingo(20/12/2009), na Folha de S. Paulo)

'Quando um jogador é bom, dá para duplicar'

DEU EM O GLOBO

Serra rebate Lula, mas diz não falar de possível chapa puro-sangue com Aécio; PT também reage

Wagner Gomes e Germano Oliveira

SÃO PAULO. O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), discordou do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e disse que é possível, sim, escalar dois grandes craques no mesmo time. Ao ser perguntado sobre a frase de Lula, que minimizou a possibilidade de uma chapa com Serra e o também tucano Aécio Neves para disputar a Presidência, Serra disse: — Quando um jogador é muito bom, dá para duplicar. Encontra-se um jeito de se arrumar no campo.

Serra negou que estivesse falando sobre política ou sobre uma chapa puro-sangue com Aécio.

Disse apenas que é possível se pensar em duas pessoas muito boas trabalhando na mesma chapa.
Semana passada, o mineiro anunciou oficialmente que desistiu de disputar com o governador de São Paulo a indicação do PSDB para ser o candidato à Presidência. Aécio também tem descartado a proposta de ser vice de Serra.

Sem adiantar o assunto, o governador contou que é possível que se encontre com Lula amanhã em São Paulo. Serra participou da abertura da Conferência Internacional sobre Direitos Humanos, na capital paulista. Ele disse que o desafio é manter a política de direitos humanos avançando. Ele afirmou que tem orientado a polícia paulista para ter firmeza no combate ao crime, mas também respeito aos direitos individuais.

Também o presidente nacional do PT, deputado Ricardo Berzoini (PT-SP), rebateu ontem o presidente Lula, que, apesar de dizer que o PT de São Paulo tem muito cacique e por isso não se meteria em suas decisões, afirmou que a legenda comete muitos erros sobre as alianças para sustentar suas candidaturas no estado.

— O PT de São Paulo tem mesmo muito cacique, mas também tem muito índio. O PT de São Paulo tem 60 prefeitos, 20 deputados federais, 20 estaduais, dois senadores. O partido em São Paulo tem muitas contradições, mas está alinhado com Lula na escolha das alianças. O problema é que muitas vezes as alianças imaginadas para o estado não foram possíveis de serem viabilizadas — disse Berzoini.

Segundo o presidente do PT, Lula fez uma “reflexão” ao dizer que o partido em São Paulo comete erros, ao imaginar coligações apenas com a esquerda, o que dá uma soma de zero com zero: — Essa é uma reflexão do presidente e ele, como qualquer petista, pode fazer suas reflexões. Tem gente no partido que pensa como Lula e tem gente que não. Acho que o PT de São Paulo sempre teve os melhores candidatos dentro das circunstâncias.

Já teve como candidato a governador o senador Suplicy, o Plínio de Arruda Sampaio, o José Dirceu, a Marta Suplicy, o Genoino e o Mercadante. Sempre gente ligada ao presidente e que teve o apoio de Lula. Na época ninguém se opôs a essas candidaturas, e reflexão a posteriori é mais fácil

CHARGE



Diário do Nordeste(CE)

Para Marina, ''plebiscito'' desrespeita a democracia

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Eduardo Kattah

A senadora Marina Silva (AC), pré-candidata do PV à Presidência, disse ontem que a estratégia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de estabelecer na eleição de 2010 uma disputa plebiscitária entre seu governo e o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é um "desrespeito à democracia". Marina afirmou que acredita que o tema do desenvolvimento sustentável, sua principal bandeira como presidenciável, evitará uma polarização entre PT e PSDB.

"Até porque em uma eleição em dois turnos é um erro e um desrespeito à democracia querer fazer uma polarização em relação a quem fez melhor no passado. Nós temos é que apostar em quem pode fazer mais e melhor no presente para viabilizarmos o futuro que queremos", disse, após palestra na Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil, em Belo Horizonte.

A pré-candidata do PV reiterou que pretende fazer uma campanha com "proposição" e de respeito ao governo Lula, do qual fez parte. Ela lamentou a decisão do governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), de desistir de sua pré-candidatura presidencial.

De acordo com ela, a saída do governador se "constituiu num prejuízo para a fase inicial do debate". "Obviamente que esse debate interno no PSDB para definir a candidatura teria sido algo muito positivo, dinamizando cada vez mais o debate político em torno de propostas."

NEGOCIAÇÕES

Indagada se teria sido procurada para se alinhar à candidatura presidencial do PSDB, Marina ironizou. "Até agora nenhum tucano disse que vai me apoiar."

Na capital mineira, a senadora também se reuniu com lideranças do PV em Minas, numa sala do hotel Ouro Minas.

Lula sobre Battisti: 'Não me importa o que disse o STF. A decisão é minha'

DEU EM O GLOBO

Presidente diz que não pode dar "o que a gente não tem" a aposentados

BRASÍLIA. O presidente Lula, na entrevista, voltou a afirmar que caberá apenas a ele a decisão sobre a extradição ou não do ex-ativista italiano Cesare Battisti, condenado por assassinatos na Itália na década de 70.

O Supremo Tribunal Federal aprovou a extradição, mas entendeu que a palavra final caberá ao presidente Lula.

O que o presidente falou sobre este e outros assuntos:

CESARE BATTISTI: “Só vou me pronunciar nos autos. Assim que receber do STF (a decisão), vou tomar a melhor decisão para o Brasil. Não me importa o que disse o STF. Ele teve a chance de fazer e fez. Eu não dei palpite. A decisão é minha. Até lá não tenho comentários a fazer”.

CONFECOM: “A gente não poderia terminar o ano melhor do que estamos terminando, com a Conferência Nacional de Comunicação. Uma Conferência que gerou medo, que gerou muitas discussões, que gerou antagonismo. Mas o que a gente percebeu é que a gente destravou uma coisa que estava tensionada, e as pessoas puderam descobrir que essa convivência democrática na diversidade é o melhor jeito de a gente construir um novo marco regulatório para as telecomunicações no Brasil. Nós temos muita novidade a cada dia, e nós ainda temos uma regulamentação que data de 1962. Então, é importante que as pessoas saibam que nós não queremos fazer uma coisa do governo, nós não queremos fazer uma coisa dos empresários, nós não queremos fazer uma coisa do movimento social. Nós queremos fazer uma coisa para o Brasil, que seja melhor, que seja confortável para o fortalecimento da democracia brasileira”.

IMPRENSA: “O Brasil termina o ano bem. O Brasil quer respeitar todo mundo e o Brasil quer ser respeitado. E eu acho que isso não seria possível a gente ter conseguido sem vocês. Quando vocês fazem matérias críticas, quando vocês fazem matérias elogiosas, cada vez menos, porque se criou no Brasil a ideia de que falar a verdade é ser chapabranca.

Colocar, muitas vezes, coisas que não são verdadeiras é que dá o charme, ou seja, o que é uma bobagem imensa, do ponto de vista de uma palavra sagrada, chamada credibilidade”.

APOSENTADOS: “A gente pode procurar dor de cabeça onde a gente quiser. A gente só não pode é dizer que tem onde não tem. No meu governo, os aposentados não tiveram um centavo de prejuízo. Nós repusemos aos aposentados brasileiros aquilo que foi a inflação.

E os que ganham salário mínimo tiveram aumentos substanciais.

A cada vez que a gente aumenta o salário mínimo, colocamos R$ 20 bilhões a mais na economia, por ano”.

APOSENTADOS 1: “Agora, eu tenho uma coisa, que é da minha seriedade e do meu comportamento. O dinheiro da Previdência é dos aposentados, não é meu. O ideal seria que a gente pudesse dar tudo o que as pessoas pedem, a todo momento, porque é o discurso mais fácil, mais simples, mais tranquilo. A Previdência tem um limite, tem uma arrecadação.

A gente não pode pagar o que a gente não tem. Eu não posso fugir do limite do bom senso, para o bem deles, porque, se a Previdência quebrar, será mal para todos os brasileiros”.

APOSENTADOS 2: “Eu estou tratando com muito carinho.

Na hora em que for formulada a proposta e estiver ao alcance da possibilidade da Receita e da Previdência, nós iremos fazer isso, mas sem nervosismo e sem trauma”.

Merval Pereira:: Em busca de clareza

DEU EM O GLOBO

A elaboração das ementas das decisões do Supremo Tribunal Federal — que são o anúncio oficial da Corte sobre o resultado final de um julgamento — está em discussão interna e pode vir a ser disciplinada para que não persistam dúvidas quanto ao que foi decidido. Foi o que me disse o presidente do Supremo, ministro Gilmar Mendes, a respeito da coluna de domingo, onde eu analisava as polêmicas cercando decisões recentes do Tribunal a respeito da censura judicial ao “Estadão” e à extradição do terrorista italiano Cesare Battisti.

O caso da extradição de Battisti, decidida pelo Supremo, ficou esclarecido com a explicação do ministro Eros Grau de que votara no sentido de que a decisão final seria do presidente da República, de acordo com os termos do tratado assinado com a Itália. A frase do presidente Lula, de que “a decisão é minha”, não importando o que o Supremo disse, não provocou preocupações no ministro Gilmar Mendes, que não quis comentá-la, mas disse que não antevia problemas nessa questão.

No caso da censura, três ministros votaram pelo acolhimento da reclamação do “Estado de S. Paulo” com base na decisão do Supremo sobre a Lei de Imprensa, cuja ementa afirma a certa altura que não há liberdade de imprensa “sob as tenazes da censura prévia, inclusive procedente do Poder Judiciário”.

A abrangência registrada na ementa redigida pelo ministro Carlos Ayres Britto teria desagradado a parte do colegiado, que estaria agora “refinando” a decisão.

O presidente do Supremo, Gilmar Mendes, não quis entrar em detalhes, mas disse que no caso da Lei de Imprensa não há divergência quanto ao resultado, a favor da liberdade de imprensa, mas quanto aos fundamentos da decisão pode haver “um oceano de divergências”.

Ele lembra que é impossível, sem paralisar os trabalhos, discutir colegiadamente a redação de uma ementa num tribunal que já chegou a ter cem mil delas.

Mas acha que é possível que as decisões com efeito vinculante possam ter as ementas mais discutidas antes de divulgadas.

O caso da decisão sobre a reserva indígena Raposa Serra do Sol foi o de uma ementa discutida em conjunto, para que todas os detalhes da decisão fossem registrados.

O presidente do Supremo admite que como os julgamentos são abertos ao público e televisionados, ao contrário dos da Corte Suprema dos Estados Unidos, as divergências ficam mais expostas, como comentou aqui o jurista Joaquim Falcão: “Mas não podemos alterar uma tradição histórica que traz vantagens em termos de publicidade e transparência nas tomadas de decisão”.

Especificamente quanto à reclamação do jornal “O Estado de S. Paulo”, o Supremo não a aceitou porque entendeu que ela só seria cabível se a decisão judicial de impedir a publicação de um processo contra Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney, ferisse uma decisão do Tribunal.

“Mas nós não nos pronunciamos sobre o tema específico”, relembra o ministro Gilmar Mendes, ressaltando que a lei criminaliza a divulgação de matéria sob segredo de Justiça. “Se nós tivéssemos decidido que vazamento de segredo de Justiça era publicável, aí a reclamação seria cabível”, afirma.

Já o deputado federal Miro Teixeira, autor da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) que resultou na decisão do Supremo de considerar a Lei de Imprensa inconstitucional, acha que a reclamação deveria ter sido aceita pelo Supremo: “É um dever reafirmar a posição do relator Ayres Brito, porque sua ementa reflete a causa e a sessão de julgamento da Lei de Imprensa”.

Miro Teixeira afirma que a censura não é admissível no Brasil por força da Constituição “e também por força da decisão do Supremo sobre a ADPF”.

Para ele, “o constituinte de 1988 evitou que o poder derivado mexesse com essa liberdade que é a mais fundamental, é a partir dela que você assegura as outras liberdades. O descumprimento em relação às outras pode ser denunciado”.

Na definição de Miro Teixeira, a Constituição “criou um sistema de proteção ao que não é direito do acionista do jornal, não é direito do jornalista, é direito do cidadão, ter acesso à informação”.

Quando se vem para o caso concreto, lembra, vamos nos perguntar se a liberdade de imprensa “interessa ao povo ou àqueles que estavam botando dinheiro na meia?”.

Miro explica que Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental foi o instrumento escolhido, em vez da Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) por que a Lei de Imprensa é anterior à Constituição de 1988 e “não cabe Ação Direta de Inconstitucionalidade contra leis que existiam antes da vigência de novo texto constitucional.

Assim decidiu o Supremo, assim se faz”.

Miro Teixeira, discordando do jurista Sérgio Bermudes, garante que a ADPF tem sim “eficácia contra todos” e “efeito vinculante relativamente aos demais órgãos do poder público”, como ressalta do parágrafo 3o, do artigo 10, da Lei 9.882, de 3 de dezembro de 1999, que “dispõe sobre o processo e julgamento da arguição de descumprimento de preceito fundamental”, sob o comando do § 1odo art. 102 da Constituição Federal”.

Como considera que a ementa da decisão, redigida pelo ministro Carlos Ayres Britto, “reflete exatamente o que manda a Constituição e o que existe nos autos”, Miro diz que “opinar sobre ela é direito de cada um, afinal acabamos com a censura.

Tentar desqualificá-la, não.

Quem divergência tivesse poderia manifestá-la, a qualquer tempo”.

Mas o deputado comemora que “a inconstitucionalidade da famigerada Lei de Imprensa e da censura que nela estava embutida já transitou em julgado”.

Dora Kramer:: Acúmulo de capital

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Quando José Serra deixou o Ministério do Planejamento, em 1996, para concorrer à Prefeitura de São Paulo e perdeu a eleição sem conseguir chegar ao segundo turno, que acabou disputado por Celso Pitta e Luiza Erundina, todas as previsões eram de que não teria mais cacife para ser candidato majoritário.

Depois disso, ganhou uma eleição de prefeito, uma de governador e desde então vem mantendo a dianteira nas pesquisas de intenção de votos para presidente em 2010.

Heloisa Helena teve um desempenho aquém do imaginado na eleição presidencial de 2006 - 6,85% dos votos -, ficou três anos longe da vitrine do Senado e, até desistir da candidatura presidencial em 2010, ainda aparecia nas pesquisas na casa dos dois dígitos, com índices entre 11% e 15%.

Ciro Gomes concorreu a presidente em 2002, terminou a eleição em quarto lugar (11,97% dos votos) depois de ter vislumbrado a possibilidade de vitória e em seguida se tornado vítima do próprio temperamento. Passou a maior parte do governo Luiz Inácio da Silva relativamente longe do noticiário, primeiro como ministro e depois como deputado e, quando entrou nas pesquisas para 2010, chegou a ameaçar o segundo lugar da ministra Dilma Rousseff, com índices variando entre 14% e 25%, dependendo do cenário.

Geraldo Alckmin subiu ao pódio do segundo turno com Lula em 2006, conseguiu a façanha de sair da etapa final menor do que entrou - eleitoral e politicamente falando -, foi eliminado ainda no primeiro turno da eleição para prefeito em 2008 e hoje lidera com folga (50%) as pesquisas para governador de São Paulo.

O senador Aloizio Mercadante nos dois últimos anos enfrentou dissabores como a abstenção da votação do processo por quebra de decoro contra o então presidente do Senado, Renan Calheiros, e mais recentemente o episódio da revogada renúncia "irrevogável" à liderança do PT por causa do mesmo tipo de problemas, desta vez envolvendo o senador José Sarney.

Mercadante aparece em primeiro lugar na pesquisa Datafolha para o Senado em São Paulo.

O exemplo de Lula é um clássico. Perdeu três eleições presidenciais, sendo duas no primeiro turno, e ganhou outras duas, sendo uma na adversa condição da companhia de escândalos ocorridos no primeiro mandato e no decorrer (dossiê dos aloprados) da campanha propriamente dita.

Quando se preparava para disputar sua quarta eleição presidencial, de 2002, Lula enfrentava o descrédito de muitos correligionários e o menosprezo dos adversários, certos de que estaria mais uma vez fadado ao fracasso.

Em comum entre esses casos há o acúmulo do capital eleitoral conquistado em disputas passadas, mostrando como o peso da presença de um político em eleições é importante para a construção do patamar a partir do qual projetará os desempenhos futuros. Pelos dados, os fracassos contam menos que a trajetória de presença na cabeça do eleitor.

Isso, pelo menos, na largada.

Um derrotado de ontem pode ser o recompensado de amanhã. Mas, para o estreante, é tudo mais difícil. Sofre a desvantagem da dúvida e da hesitação naturais em relação ao desconhecido.

Pode residir aí uma explicação para a ainda pífia performance da senadora Marina Silva (faz o maior sucesso até no exterior, é figura respeitadíssima, mas disputou só uma eleição e pelo Acre) nas pesquisas se comparada ao impacto provocado pelo anúncio de sua saída do PT e filiação ao PV para se candidatar à Presidência.

Provavelmente justifica-se por aí a vagarosa caminhada da ministra Dilma Rousseff que, segundo prognósticos feitos por especialistas, por aliados e adversários políticos, chegaria ao fim do ano com 30% nas pesquisas. Está com 23%. Se vai ou não deslanchar, só o começo do jogo de verdade dirá. Assim como vai dizer se a vantagem de José Serra é só produto da memória ou se é de fato fruto da vontade do eleitor.

Posto mesmo está que na política a persistência pode ser mais vantajosa que a invenção de personagens.

E demonstrada também fica a importância de os partidos interessados em pilotar a nave do poder, e não fazer parte dela sempre como passageiros, disputarem eleições.

Presidenciais ou estaduais. O PMDB, por exemplo, já desistiu de um projeto nacional, mas não abriu mão de concorrer aos governos dos Estados porque só com isso pode levar adiante sua política de fortalecimento regional e representação forte no Congresso.

Sem candidatos majoritários, some. Não comanda máquinas estaduais nem elege parlamentares federais.

É o ponto da discórdia entre PT e PMDB. Em 2010 ambos querem o mesmo. Ocupando um só espaço em aliança de palanque único nos Estados, um dos dois fracassa em seu intento. Por isso o PMDB briga com o PT, o PT resiste ao PMDB e ficam loucos para brincar separados.

Desigual

A ministra Dilma o presidente desautoriza, mas Serra e Aécio Lula chama de craques. Não é justo.

Janio de Freitas:: A descoberta

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O Datafolha desencadeou um interesse especulativo, como se descobríssemos que está em curso uma eleição inesperada

O DATAFOLHA da sucessão presidencial desencadeou um interesse especulativo surpreendente, ainda mais nesta época do ano, como se descobríssemos de súbito que está em curso uma eleição inesperada.

A primeira impressão proporcionada pelas reações é que mudou bastante a percepção da perspectiva de Dilma Rousseff. Os sete pontos conquistados, em contraste com a sofrida ascensão que apenas a igualara a Ciro Gomes, apesar da exaustiva exibição com Lula por todo o país, TV e jornais, chocaram-se com a imagem de uma candidatura, no mínimo, difícil. Ao passo que a detenção de José Serra nos 37 pontos, há quatro meses, precipitou até a suspeita de que esteja, ali, já próximo do seu teto no primeiro turno.

Nada a opor-se, como impressão imediata. Mas frágil. A situação de Ciro Gomes ainda é de incerteza absoluta, e pendente não de uma, senão de várias circunstâncias e definições que nem parecem estar em suas mãos -como sugerem a orientação de Lula para mudança do seu domicílio eleitoral, agora em São Paulo, e o chamado para novas conversas diretas.

Permaneça ou saia da relação de pré-candidatos à Presidência, ainda por algum tempo Ciro Gomes vai representar um curinga. E são, hoje, 13 pontos investidos em seu nome, cuja eventual distribuição pode produzir alterações substanciais na impressão provocada pelo atual Datafolha.

E há também a presença de Marina Silva, que entra com oito pontos. O seu Partido Verde se mostra amadorístico demais, lembra aqueles clubes juvenis sediados na garagem de casa.

Por esse jeitão, que atrai entusiasmos sem, no entanto, lhes dar maior efeito, Marina Silva não pode contar com a retaguarda. Mas suas muitas capacidades pessoais, que incluem excelente competência de explanação e de oratória, exibida em Copenhague como melhor feito brasileiro por lá, podem lhe dar uma relevância maior do que o crédito eleitoral que lhe é dado agora.

É difícil, porque nem tempo de propaganda gratuita Marina Silva tem, mas a faixa de classe média que não se satisfaz com a alternativa Serra/Dilma se insinua bastante larga: talvez não em São Paulo, mas no restante essa alternativa soa demais como PSDB/PT.

À brasileira

No país em que não se pode tomar um vinho ou uma cerveja ao jantar fora, a menos que se abandone o carro aos ladrões ou se arrisque outra perda do carro, da carteira, da paciência, se não lhe quiserem tomar também a dignidade, eis este trabalho publicitário: "Brahmeiro é guerreiro". Brahmeiro é o cachaceiro de cerveja e guerreiro, no caso, é o boçal em estado puro, sem retoque algum.

Abraço

Tenha, por favor, um Natal com novidades apenas natalinas.

Fernando de Barros e Silva:: A esquerda e os coadjuvantes

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

São Paulo - Entre a pesquisa Datafolha de meados de agosto e a publicada anteontem, Dilma Rousseff (PT) aparece, no cenário mais provável, com sete pontos a mais: tinha 16%, agora tem 23%. Marina Silva (PV) também ganhou cinco pontos entre uma pesquisa e outra: tinha 3%, passou a contar com 8%.

Os 12 pontos que, juntas, Dilma e Marina ganharam são os mesmos 12% que Heloísa Helena tinha em agosto. Ela foi retirada da pesquisa atual porque anunciou que pretende disputar o Senado -o PSOL, seu partido, negocia apoio a Marina.

Como Serra (PSDB) ficou onde estava, na casa dos 37%, e Ciro (PSB) oscilou dois pontos negativamente, pode-se dizer que Dilma e Marina herdaram os votos de HH. É o que pensa, por exemplo, o diretor do Datafolha, Mauro Paulino.

De cada dez votos que estavam sendo depositados em HH, seis foram parar na cesta de Dilma, outros quatro na de Marina. Ou seja, a opção de esquerda representada pela candidata do PSOL se dividiu entre o retorno ao "ninho petista", abandonado lá atrás por Heloísa Helena, e a nova dissidência do PT, de estilo mais suave, que Marina vocaliza.

A sucessão se encontra ainda na fase da "acumulação primitiva". As coisas, porém, começam a se desenhar no horizonte. O Datafolha capta, pela primeira vez, a polarização tão anunciada entre PSDB e PT.

Marina e Ciro devem ser mesmo coadjuvantes nesse jogo, mas não da mesma maneira. A primeira, identificada com a "energia limpa" num ambiente poluído pela corrupção, tende a ser a opção do voto progressista marcado pela insatisfação moral. É provável que ainda cresça.

Ciro é diferente. Sua candidatura, estrangulada por Lula, vai se desidratando. Hoje, ele se encontra reduzido a um soldado de reserva do governo que eventualmente pode ser mobilizado para impedir a vitória de Serra no primeiro turno. Para quem imaginava ser uma opção real de poder, encarnando uma espécie de terceira via infiltrada entre PT e PSDB, é um destino um pouco triste, do qual parece difícil resgatá-lo.

Graziela Melo - Chuva cinzenta

Cinzenta
Está
A tarde
A alma
A vida

Há
No ar
Um certo
Ar

De
Despedida

E
A chuva
Que pinga
Respinga

Fria
Triste

Comtemplativa

Persistente
Insistente
Renintente
Solitária

Meditativa!!!

A alma
É um cão
Sem dono

Sarnento,
Magro
Faminto

Sem teto
Sem afeto

E cheio
De feridas...

Raymundo Costa:: Fiasco de Copenhague

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Era para ser o triunfo de Dilma Rousseff (Casa Civil), mas nem por isso deve a ela ser atribuída a conta do fracasso da conferência do clima. Exageros à parte, o Brasil até que não saiu mal na foto de Copenhague. Os tropeços de Dilma são conta a ser debitada no cartão daqueles que tentam reinventar suas habilidades profissionais e personalidade desde o momento em que Lula a impôs como candidata ao PT, quando talvez baste a ela ser simplesmente Dilma.

É difícil apontar erros numa estratégia que está dando certo, pois é disso que se fala quando Dilma alcança os 23% das intenções de votos no Datafolha. Falar em mais que isso é megalomania típica petista. Mas o fato é que a ministra foi literalmente jogada numa fria em Copenhague, sem trocadilhos. Se ela pode ser culpada de alguma coisa é por concordar em se submeter aos estrategistas de sua campanha eleitoral, que tentam transformar Dilma no que ela nem sempre é.

A ministra tem uma personalidade forte? Não será levando-a trocar afagos com o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente), um dia depois do bate-cabeça entre os dois, que fará dela a "Dilminha paz e amor". Algo, aliás, que Lula só conseguiu depois de rodar muito bambolê e três eleições depois. "Cintura política" não é algo que se adquira de um dia para o outro. Que o diga José Serra, ainda agora, depois da prefeitura e do governo de São Paulo, vítima do estigma de truculento mau humorado.

Para Copenhague, os estrategistas palacianos-petistas costuraram um figurino ambientalista para a "ministra-chefe- de- tudo- o- que-há-no-governo". Para tanto, Dilma submeteu-se a um intensivão sobre a questão do aquecimento global. Ela teve que processar em semanas o que a senadora Marina Silva (PV-AC) levou uma existência para assimilar e assim formular. E o sucesso de Marina foi segmentado na CoP 15, de pouca exposição para o eleitorado brasileiro mais amplo. Era mais que previsível que a ministra, em algum momento, trocasse as bolas

Submetida a viagem cansativa e extensas reuniões, Dilma ainda tinha que arredondar o palavreado nas entrevistas, difícil quando se fala na diferença entre adaptação e mitigação ou nos países que integram o anexo 1 do Protocolo de Kyoto. Talvez Ciro Gomes (PSB-CE) e seu vocabulário rebuscado pudessem ter se dado melhor. Muito político de boa cepa já confundiu nomes de aliados. Portanto, é um exagero rir da ministra por ela ter dito que Blairo Maggi é governador de Mato Grosso do Sul.

Outro exagero é dizer que foi um "ato falho" da ministra dizer que o desenvolvimento sustentável ameaça o meio ambiente ou de que o meio ambiente ameaça o desenvolvimento sustentável - circularam as duas versões, mas é um dilema tostines. Ela apenas trocou as bolas. Em Dilma a palavra "desenvolvimentista" virou palavrão e sinônimo de demônios ambientais. É possível a um país se desenvolver sem destruir o meio ambiente. Suas divergências com a ex-ministra Marina não autorizam ninguém a colocá-la no panteão dos vilões da degradação ambiental.

Fiasco, em Copenhague, foram os líderes mundiais incapazes de chegar a um acordo sobre o clima. O Brasil até foi bem, sem precisar das bravatas eleitoreiras de Lula. "Luís (sic) Inácio Lula da Silva também terá arrancado sorrisos à audiência ao anunciar estar disposto a apoiar financeiramente os países mais pobres", resumiu um jornal português, ao final da CoP 15. Na campanha eleitoral brasileira cairia bem Lula dizer que era "chic" o Brasil colocar dinheiro no fundo climático, como já fala atualmente ele em relação ao FMI.

O erro primário dos estrategistas eleitorais do Planalto foi ter transformado Dilma num alvo fixo, uma vitrine exposta às pedradas no momento em que a ministra foi designada chefe da delegação brasileira à CoP 15. Não é por outro motivo que José Serra até agora não admitiu e nem admitirá tão cedo que é candidato a presidente da República em 2010. Faz parte do beabá da política. E o que é pior: Lula antecipou em 24 horas sua chegada a Copenhague. O PT jogou alto na CoP 15. Uma aposta de risco. Em toda aposta de risco o custo da derrota é alto como altos são os dividendos de uma vitória. Dilma paga o preço da partidarização do jogo do governo federal na conferência do clima.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

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Em 3º, Gabeira descarta governo e afirma que vai disputar Senado

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Da Sucursal do Rio

Principal nome da oposição no Rio -em nível estadual e federal- e em terceiro lugar na disputa pelo governo do Rio na pesquisa Datafolha, o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) disse ontem que não será candidato à sucessão de Sérgio Cabral Filho (PMDB).

"Pretendo concorrer ao Senado. O governo me desinteressou. Não sou candidato mesmo. Na verdade, não tenho nada a comentar", afirmou Gabeira, por telefone.

Mesmo dizendo estar fora da eleição para o Palácio Guanabara, o deputado falou que o panorama revelado pelo Datafolha, no qual tem de 14% a 17% das intenções de voto, "está um pouco melhor". "Costumo começar com uns 3%", disse.

De acordo com pesquisa Datafolha publicada ontem, Cabral lidera com índices de 36% a 39% dos votos, abrindo uma vantagem de 13 a 15 pontos sobre o segundo colocado, dependendo da lista de concorrentes. Seu principal adversário é o ex-governador Anthony Garotinho (PR), que oscila entre 23% e 24%.

Quando Gabeira é substituído por seu hoje aliado Cesar Maia (DEM), o ex-prefeito do Rio varia de 12% a 13%. O prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias (PT), oscila entre 6% e 8%.Garotinho afirmou que a pesquisa Datafolha é um "ótimo resultado". "Isso com ele (Cabral) em plena campanha e eu sem ter declarado se sou ou não candidato", postou em seu blog.

Ontem, em visita ao Rio, o presidente Lula elogiou Cabral e defendeu que ele permaneça no cargo por "muitos e muitos anos". Parte do PT no Rio resiste à aliança com Cabral e quer a candidatura de Lindberg ao governo.

José Pastore*:: O trabalho atípico

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O Japão sempre se destacou como um país de muita estabilidade de emprego. Houve tempo em que a dispensa era praticamente desconhecida para a maioria dos japoneses. Hoje, tudo mudou. As empresas mantêm uma pequena parte de seus colaboradores como estáveis, que é cercada por uma grande constelação de profissionais (sem estabilidade) que trabalham nas mais diversas formas de contratação rotuladas, genericamente, de trabalho atípico, incluindo os serviços casuais, temporários, a distância, em tempo parcial, por projeto, por prazo determinado e outros. Nesse sentido, o Japão se assemelha às economias avançadas da União Europeia e da América do Norte.

O Instituto de Políticas do Trabalho do Japão, um dos melhores do mundo, acaba de publicar um conjunto de estudos sobre as mudanças que vêm ocorrendo com o trabalho atípico naquele país (Yoshihide Sano, Human resource management of atypical employment, The Japan Institute for Labour Policy and Training, vol. 6, nº 4, outono/2009).

Entre 1999 e 2008 o porcentual de pessoas que têm contratos atípicos subiu de 24,9% para 34,1%. Embora a grande concentração esteja entre as mulheres, cuja proporção subiu de 45,2% para 53,6%, o salto maior ocorreu entre os homens: de 11,7% para 19,2%. Além disso, o trabalho atípico vem mudando de finalidade. No passado, era reservado para as tarefas rotineiras e distantes do "core business" das empresas. Nos últimos anos, esse tipo de atividade se aproxima cada vez mais das atividades-fim das empresas.

Para garantir qualidade e lealdade, as empresas contratantes passaram a patrocinar treinamentos sofisticados para esses colaboradores, o que lhes dá a oportunidade de renovar seus contratos até o limite de três anos, como prevê a lei. Mesmo sem estabilidade, eles trabalham por períodos longos, desfrutam de confiança das contratantes e recebem melhor remuneração.

Essa parece ser uma tendência geral. Gary Gereffi, estudioso da terceirização em todo o mundo, mostra que os empregados das empresas contratadas estão sendo demandados a conhecer e dominar as tecnologias das empresas contratantes, o que enriquece o seu capital humano e aumenta a sua renda (Gary Gereffi, The New Offshoring of Jobs and Global Development, Genebra: OIT, 2005). Isso contraria frontalmente a tese dos que advogam ser a terceirização a causa inevitável da precarização das condições de trabalho.

As empresas que optam por contratos atípicos visam a transformar custos fixos em custos variáveis. Isso é possível porque as tecnologias modernas permitem a fragmentação do trabalho em várias tarefas. Não há razão de contratarem em seus quadros um profissional por prazo indeterminado quando as empresas precisam apenas de parte do tempo dos profissionais em tela.

Do lado dos profissionais também há ganhos. Eles trabalham por mais tempo, aperfeiçoam-se na profissão e elevam a remuneração.

No Brasil já há vários sinais desses movimentos. As empresas de maior densidade tecnológica vêm exigindo uma capacitação crescente dos profissionais terceirizados. Aqui também a renda sobe e o tempo de trabalho aumenta. Entre nós, o crônico problema nesse campo é a ausência de uma legislação flexível para ajustar as necessidades dos contratantes e dos contratados a esse novo regime de trabalho. A lei atual não oferece a segurança jurídica requerida pelas empresas e a proteção social demandada pelos profissionais.

Na maior parte dos países avançados, esse ajuste vem sendo gradualmente materializado com base em novas regras que regem o trabalho atípico, enquanto no Brasil, até mesmo a Emenda Constitucional nº 3, que foi aprovada pelo Congresso Nacional em 2007 e que atendia às necessidades de segurança e proteção aludidas, foi vetada pelo presidente Lula. Com isso, continuamos no vácuo. As contratações prosseguem de maneira incerta, a informalidade é alta, o treinamento do pessoal eventual é irrisório e a melhoria da renda é pequena.

Ao contrário do que ocorre nos países mais avançados, inexistem no País até mesmo projetos de lei que busquem regularizar o trabalho atípico, que, aliás, se torna cada vez mais típico. Esse tema não pode ficar fora da agenda de modernização das instituições do País.

*José Pastore é professor de relações do trabalho da FEA-USP.

CHARGE

Jornal do Commercio (PE)

Giacomo Rossi* :: Copenhague, um passo adiante

Dificll afirmar se foi uma vitória ou um revés. A longa noite de Copenhagem produziu um resultado inesperado. Não significa um fracasso em termos negociais nem um sucesso do ponto de vistas das expectativas. Mas, sim, um passo adiante. Naturalmente incerto.

Mesmo não tendo caráter vinculante, o acordo entre os Estados Unidos, a China, a India, África do Sul e o Brasil pela mudança climática representa um primeiro comprometimento por parte de atores (China e EUA) que até agora se punham à margem do debate sobre o aquecimento global.

O acordo põe em destaque outro grande país emergente, a India, e envolve influentes e importantes países para a luta pela mudança climática, como o Brasil e a África do Sul.”

*Giacomo Rossi, jornalista do Portal do Partido Democrático da Itália, 21 de dezembro de 2009.

Miriam Leitão:: Tempo dramático

DEU EM O GLOBO

A Inglaterra e a Alemanha culpam a China; a França culpa Estados Unidos e China; o Brasil culpa os países ricos; a África culpa ricos e emergentes. Casa Branca e governo chinês usam a mesma palavra — “significativo” — para definir o suposto avanço que o mundo chama de fracasso. A Terra ainda treme pósCOP-15. Não houve o acordo que se esperava, mas ficou nítida a divisão do poder mundial no clima.

Estados Unidos e China são os dois pólos de poder, mas querem a mesma coisa.

Os dois países têm simbioses e falsos conflitos. No clima, para ambos é interessante adiar tratados internacionais que estabeleçam restrições que eles ainda não têm. Eles não se alinham mesmo tendo os mesmos objetivos: brigam, produzem um impasse, que é bom para ambos. São os dois maiores poluidores, e sem acordo em Copenhague nada os obriga a reduzir suas emissões. Enfrentaramse em Copenhague por detalhes técnicos que poderiam ter sido resolvidos depois, como a fórmula de verificação internacional das ações nacionais de redução das emissões. Convenhamos! O importante era ter as metas no acordo.

A Europa é um poder moderador.

Está mais comprometida com a questão climática: assinou Kioto, cumpre metas, tem propostas ousadas. Há muito tempo tem dito que sua meta, hoje em 20% abaixo de 1990, poderia chegar a 30%, se houvesse um bom acordo. O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, disse que ninguém pediu à Europa que fosse a 30%. Se pedissem, ela daria esse passo.

A diplomacia brasileira ainda tenta passar a ideia de que no clima, como no comércio, a divisão se dá entre ricos e pobres. E na lista dos pobres inclui Brasil, Índia e China. Os pobres não acham que esses países sejam pobres.

Tuvalu fez um favor ao mundo: ajudou a mostrar as reais fissuras no Grupo dos 77. Os muito pobres têm uma agenda, os petrolíferos, outra. O BASIC (Brasil, África do Sul, Índia e China), outra. Foi para a sala do BASIC que o presidente Barack Obama se dirigiu, no meio da tarde de sexta-feira, e de lá saiu, às oito da noite, dizendo que tinha fechado um acordo. A imprensa americana comprou a versão.

A Venezuela tenta melar qualquer jogo. Ficou contra Tuvalu, junto com os outros petroleiros e mais a China e a Índia, quando a pequena ilha quis um acordo mais ambicioso.

Hugo Chávez não foi ao jantar da rainha da Dinamarca, onde se articulou, para logo depois, a reunião no Bella Center, na noite de quinta-feira. E depois, junto com Evo Morales — que também esnobou a rainha —, protestou contra a reunião noturna de “alguns poucos”.

Quando Tuvalu, na madrugada final da conferência, disse que não poderia assinar o acordo de Copenhague, a Venezuela então se solidarizou com Tuvalu, e votou pela rejeição do acordo.

No final da sexta-feira, por volta das seis da tarde, o presidente do México, Felipe Calderón, se debruçou no parapeito do mezanino da delegação da Dinamarca e olhou longamente para nós, aglomerados abaixo. Nas salas do mezanino, chefes de Estado dos países mais poderosos estavam reunidos.

Jornalistas aguardavam embaixo.

Calderón estava ali fora, e não na reunião dos emergentes com Obama, apesar de ser emergente. Detalhe interessante: o México se uniu à Noruega, país exemplo, lançou um fundo verde em que todos terão que contribuir, exceto os muito pobres, e se prepara para liderar a próxima COP.

Horas depois, os chefes de Estado abandonaram o texto e o local. O que se passou em seguida foi um dos eventos mais estranhos que já se viu. Houve uma debandada de líderes. Eles foram saindo um a um e deixando negociadores para terminar o texto. Abandonado, o texto, que já vinha sendo desidratado, foi ficando ainda menor e mais impreciso.

Até que às três da manhã as magras duas páginas e meia de não compromissos foi apresentada no plenário da Convenção para que as partes “tomassem nota”, o que, em linguagem diplomática, quer dizer que o texto não valeu.

A COP-15 veio para dividir.

Até a imprensa. No domingo, os jornais franceses e americanos falavam de dois mundos. Os americanos continuavam contando uma história que não houve: a de que Obama foi a Copenhague e resolveu o problema fechando um acordo. O francês “Liberation” tinha a manchete que definia o sentimento mais comum por lá: “Copenhague em meio à dor”.

Maratona, avalanche, drama, tragédia, fúria. Palavras assim tão intensas não costumam qualificar reuniões da ONU, nem cúpulas. Mas são elas que foram usadas pelos jornalistas de todos os países para descrever os últimos dias em Copenhague. Não houve um único dia calmo, mas alguns foram piores.

Aquela imensa sala onde se aglomeravam 3.500 jornalistas parecia o mundo inteiro: ouviam-se, em todos os idiomas, pessoas gravando textos para rádios, blogs, vídeos, matérias de TV, escrevendo, discutindo, tuitando. O twitter explodiu como produto e fonte dos jornalistas. Os governos da França e da Inglaterra usaram o twitter, muitas vezes dando furo.

A explosão dos microblogs, a vasta cobertura, o colapso logístico da Conferência, o enfrentamento dos países, quase na nossa frente, a avalanche dos fatos, o fim espantoso, tudo fez da COP15 uma cobertura inesquecível.

Um tempo dramático.

Santiago Carrillo :: ¿La guerra de Bush o la de Obama?

DEU NO EL PAIS

No parece aventurado pensar que detrás del discurso de Obama sobre la nueva estrategia en Afganistán hay varias semanas de duro contraste entre el presidente y el Pentágono, en las que se ha llegado a un compromiso cargado de riesgos.

¿En qué se diferencia esta nueva estrategia de la de Bush? Es más probable que una nueva escalada en la guerra, con miles de muertos civiles, en vez de atraer a la población afgana, fortalezca a los talibanes y multiplique la participación de musulmanes de otros países. La implicación mayor de Pakistán al lado de Estados Unidos ¿no compromete gravemente la estabilidad del Gobierno de este país, ya muy frágil?

En realidad, la nueva estrategia está construida sobre una simulación, un espejismo: que las tropas estadounidenses están en Afganistán apoyando a un Gobierno afgano. En esto reside la simulación porque, aunque Karzai sea originario de aquellas tierras, la verdad es que era un emigrante que vino en los furgones del Ejército norteamericano y que su Gobierno fue instalado por Estados Unidos.

EE UU acusa a Karzai y a sus auxiliares de ser corruptos. Pero ¿de qué extrañarse? El ciudadano de un país ocupado que se pone al servicio del invasor no lo hace nunca por patriotismo, lo hace por dinero y cuanto más, mejor. La corrupción está en la naturaleza de ese tipo de gobierno, que no es afgano sino impuesto por EE UU. Es ese Gobierno de mercenarios el que está apoyando a EE UU, aunque lo haga mal. La pantomima de elecciones representada en ese país bajo la ocupación es parte del simulacro.

Mi impresión es que Obama ha sido forzado a aceptar la continuación de la guerra de Bush, que, a los ojos de muchos, empieza a ser la suya. Así, la lucha contra el terrorismo sigue siendo una guerra, como quería Bush, en la que cada día pueden apuntarse más países. Obama trata de que se impliquen más los de Occidente. Pero por Oriente también se extiende. Pakistán, que ya está implicado, corre el peligro de dar un vuelco que le sitúe enfrente. Y atención a lo que puede pasar con Irán.

¿Hasta dónde puede llevar esta estrategia? Porque una nueva escalada en Afganistán para “terminar la guerra en 18 meses” va a hacerse procurando que la pérdida de vidas norteamericanas sea mínima, lo que significa que los daños colaterales, es decir, la pérdida de vidas de la población musulmana, incluidos mujeres, niños y ancianos, puede ser enorme. Esto provocará una reacción muy fuerte en todo el mundo musulmán y más allá, incluso en Estados Unidos y en Europa. La reciente crisis del Gobierno alemán es prueba de ello.

Obama puede perder así el apoyo de la izquierda americana y, si a esto se une el odio cerval de la derecha que está llegando ya a extremos delirantes, las formidables ilusiones despertadas en su país y en el mundo entero habrían sido sólo eso: ilusiones, sueños.

El golpe de timón que Obama se proponía dar a la política de Estados Unidos y, como consecuencia, a toda la política mundial corre el peligro de quedar sin efecto. Reconozco que cambiar profundamente el rumbo de una potencia como ésta, orientada largos años hacia un objetivo, la dominación mundial, es una tarea muy difícil. Se han ido creando poderes fácticos, ajenos a principios democráticos, muy potentes. Eisenhower, al abandonar la presidencia, llamó ya la atención sobre el complejo militar-industrial: el Pentágono, los lobbies financieros e industriales, los múltiples servicios secretos habituados a la impunidad, los grandes medios de comunicación controlados por las finanzas. Todo esto constituye un poder enorme que puede anular los resultados de la voluntad popular.

Una estrategia militar salida de una transación entre dos criterios opuestos, como es ahora el caso de Afganistán, no suele dar resultado. Una guerra no suele conducirse así. Pero si además se basa en una simulación de la realidad, en la esperanza de que el sistema que corona Karzai deje de ser corrupto y pueda sustituir al Ejército de ocupación, y todo esto además en el plazo de un año, parece más bien una quimera. Si el Pentágono la ha aceptado, lo más probable es que piense obtener más refuerzos en 2011, cuando se compruebe que la nueva estrategia no ha modificado el panorama militar. Por cierto, que el panglosiano secretario general de la OTAN, más cerca del Pentágono que de Obama, advierte ya — corrigiendo a éste — que “transición no quiere decir estrategia de salida”.

Treinta mil o 40.000 soldados no van a evitar un nuevo Vietnam. Hay que recordar que hace unas semanas 20.000 soldados paquistaníes iniciaban una ofensiva para limpiar de talibanes la frontera, operación que se consideraba muy importante. A los dos días ya no se ha vuelto a hablar más de ella ni de los 20.000 soldados.

¿Qué va a hacer Europa? En nuestro continente parece que muy pocos Gobiernos están encantados con la solución que se propone y la mayoría de los ciudadanos son contrarios a ella. Pero hay una inercia que consiste en respaldar siempre las iniciativas americanas, inercia que podría imponerse en la reunión prevista para el próximo 25 de enero. Sería un error en el que el Gobierno español no debería incurrir. Ya ha muerto demasiada gente en guerras sucias e injustas. Hay que evitar que la lucha contra el terrorismo sea la tercera guerra mundial como imaginaba Bush.

Santiago Carrillo, ex secretario general del PCE, es comentarista político.

(El País, 18 dez. 2009)

Bom dia! - Ciro Monteiro - Parte 2