quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

PT adotou práticas equivocadas, diz Falcão

Sem citar diretamente mensalão, presidente da sigla afirma ter havido erro na adoção de ações 'comuns a outros partidos'

Referência é ao caixa dois, apesar de o STF ter condenado os réus do mensalão por compra de apoio no Congresso

José Ernesto Credendio, Daniela Lima

SÃO PAULO - Sem citar diretamente o caso do mensalão, o presidente do PT, Rui Falcão, disse ontem que em alguns momentos dos últimos dez anos o partido adotou práticas que não deveria ter adotado.

Falcão, que é deputado estadual em São Paulo, participou da posse de Fernando Haddad (PT) na prefeitura da capital paulista.

A declaração foi dada em resposta à pergunta sobre quais foram os erros e acertos do PT após 10 anos no comando do Executivo federal.

"O principal [erro] foi, em alguns momentos, termos enveredado por práticas comuns a outros partidos, mas que o PT não deveria ter se enveredado por elas", disse.

Em seguida, acrescentou que o maior desafio do partido é acabar com o financiamento privado da campanha, o que, no discurso de petistas, teria levado ao escândalo do mensalão.

"Vamos fazer uma iniciativa forte, quem sabe até com a coleta de assinaturas nas ruas, para realizarmos a reforma política, principalmente com o financiamento público exclusivo das campanhas [eleitorais]", afirmou.

Essas questões, de acordo com o dirigente petista, estarão no centro dos debates do 5º congresso do PT, que vai ocorrer no segundo semestre.

O PT argumenta que o escândalo do mensalão se resumiu à movimentação de recursos eleitorais não declarados à Justiça, o chamado caixa dois.

Já o Supremo Tribunal Federal condenou 25 réus, entre eles a ex-cúpula do PT, sob o argumento de que eles participaram de esquema de desvio de recursos públicos para a compra de apoio legislativo ao governo Lula.

Revisão

Ainda fazendo um balanço dos anos no poder, quando, segundo ele, houve mais acertos do que erros, o presidente do PT afirmou que o partido "demorou" em fazer alianças com outras siglas.

No encontro partidário, a legenda fará uma revisão programática e também vai avaliar as mudanças ocorridas no país desde 2003, quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o primeiro mandato.

Segundo ele, é necessário verificar quais são os novos estratos sociais do país e de onde partem as camadas que apoiam o projeto petista, além de identificar quais são os adversários do PT.

Hoje, na avaliação do deputado, mesmo os grandes grupos empresariais que vêm ganhando incentivos maciços do governo federal não se veem dentro do mesmo espectro petista.

"Ideologicamente, eles não se se sentem representados. Por isso precisamos conhecer melhor a estrutura de classes da sociedade. Vamos atualizar todo o programas desses 33 anos [que o partido completa neste ano] e abrir caminhos para o futuro."

O dirigente petista voltou a criticar o Judiciário, que estaria extrapolando seus poderes, mas não citou o Supremo Tribunal Federal.

Fonte: Folha de S. Paulo

Operação Porto Seguro: Weber e Vieira faziam encontros mensais

Ex-adjunto da AGU recebeu 29 pedidos de audiência

Evandro Éboli

BRASÍLIA - A agenda de compromissos do ex-adjunto da Advocacia Geral da União (AGU) José Weber Holanda, divulgada agora, revela que ele recebeu pelo menos 29 pedidos de audiência do ex-diretor da Agência Nacional das Águas (ANA) Paulo Vieira. Numa análise preliminar, a AGU havia estimado 23 encontros. A agenda, corrigida pela própria AGU, demonstra que entre novembro de 2010 e novembro de 2012 esses prováveis encontros ocorreram quase que mensalmente e, às vezes, mais de uma vez por mês. Os dois foram alvos da Operação Porto Seguro da Polícia Federal.

Na relação, aparecem agendadas ainda reuniões de Weber com 16 deputados federais, nove dos quais do PT, entre eles o presidente da Câmara, Marco Maia (RS). Há até a previsão de um encontro do ex-adjunto da AGU com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 11 de abril de 2011, no hotel Sofitel, em São Paulo. A AGU informou que não tem como garantir se todos os encontros previstos na agenda de fato ocorreram.

Em nota, a AGU explicou que, como o computador funcional de Weber foi apreendido por agentes da Polícia Federal, na Operação Porto Seguro, foi preciso desenvolver um sistema para recuperar os detalhes da agenda de Weber no sistema de informação do órgão. Na agenda de Weber estão previstos ainda dois encontros dele com o ex-senador Gilberto Miranda (PMDB-AM), também indiciado pela PF.

Paulo Vieira ocupou a diretoria de Hidrologia da ANA, chegou a ser preso e foi indiciado pela PF como chefe de um esquema que cooptava servidores públicos na elaboração de pareceres favoráveis a negócios privados. Weber teria beneficiado empreendimentos de Gilberto Miranda no litoral paulista.

O nome de Paulo Vieira é o que mais aparece na agenda de Weber nesse período, que registra 593 compromissos. Em alguns meses, foi agendada mais de uma reunião. Foram três em setembro de 2011 e três em outubro do mesmo ano. Foram quatro agendas em julho de 2012.

Gilberto Miranda também foi indiciado pela Polícia Federal, acusado de corrupção. O ex-senador tem interesse em construir um empreendimento na Ilha de Bagres e teria atuado junto à AGU para obter facilitação na liberação da área.

Na agenda de Weber ainda aparece uma reunião com Glauco Moreira, ex-procurador-geral da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), indiciado pela PF. Ele deixou o cargo na agência. Sindicância da AGU concluiu que Paulo Vieira tinha livre acesso à Procuradoria da Antaq.

Os deputados que aparecem na agenda de reuniões com Weber são de partidos da base governista no Congresso. Do PT, estão os deputados Carlos Zaratini (SP), Paulo Teixeira (SP), Vicente Cândido (SP), Dalva Figueiredo (AP), Amauri Teixeira (BA), Vander Loubert (MS), Angelo Vanhoni (PR) e Pedro Uczai (SC). Jovair Arantes (PTB-GO), Danilo Forte (PMDB-CE), Benjamin Maranhão (PMDB-MA), Alex Canziani (PTB-PR) e Ronaldo Benedet (PMDB-PR) também aparecem na lista.

Fonte:O Globo

Talvez o jeito seja mesclar Chapolim com De Gaulle

Ao longo do ano que terminou anteontem, o de 2012, brilhou a estrela do Supremo Tribunal Federal (STF) no céu da Pátria, acostumada aos brilharecos de marketing do Poder Executivo e aos buracos negros do Legislativo, que, apesar de representar o cidadão, continua de mal com ele, segundo pesquisa do Ibope. Estreante na pesquisa, o órgão máximo da Justiça superou a própria em prestígio - o que é natural, e até óbvio, porque, enquanto a instituição absorve golpes no plexo pela lerdeza e pela parcialidade, citados pelo novo presidente, Joaquim Barbosa, na posse, a Corte maior foi festejada pela publicidade explícita de um julgamento arrasa-quarteirão, o do mensalão.

A discussão em torno de um nome, um voto - do ministro Luiz Fux -, contudo, terminou por abrir, antes das festas de Natal e da virada do ano, uma discussão sobre um flanco, se não aberto, pelo menos mal vigiado, do Supremo, o que não põe em risco sua supremacia, mas em debate sua independência. A indicação do nome dos 11 membros do STF por decisão solitária do chefe de outro Poder, o presidente da República, poderia levantar suspeitas quanto à isenção dos indicados, apesar de serem estes sempre submetidos à arguição de uma das Casas do Congresso, o Senado? A decisão do Supremo de contrariar duas vezes - ao não adiar o julgamento, que já tardava sete anos, a pretexto da iminência das eleições municipais, e condenar seus companheiros de partido e churrasco - o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu a primeira resposta negativa (do ponto de vista ético, positiva) à questão. Dos 11 ministros que deram início à maratona, 7 foram indicados por Lula ou por Dilma, sua correligionária do Partido dos Trabalhadores (PT), sua aposta solitária na campanha sucessória e sua ex-chefe da Casa Civil. Como arguir qualquer suspeição se o relator do processo e o responsável pela mediação das votações, o presidente, foram indicados - de fato nomeados, porque nunca o Senado faz qualquer objeção às indicações presidenciais - por petistas de carteirinha?

A fidelidade canina com que o revisor, Ricardo Lewandowski, e outro ministro, Dias Toffoli, se opuseram aos votos da maioria é exceção que, longe de negar a regra geral do modelo traçado pelo colegiado de magistrados, a confirma. A discussão, tornada pública pelo próprio Luiz Fux, em torno de insinuações malévolas a respeito de eventual compromisso previamente assumido por ele de absolver réus petistas no processo também serve menos para fragilizar sua posição de julgador. E mais para condenar quaisquer tentativas de subordinar a decisão de um ministro à gratidão por quem o investiu no cargo. Este é vitalício e, portanto, infenso a quaisquer retaliações de outros Poderes e poderosos.

Talvez por pretender defender-se dessas maldades, Sua Excelência deu entrevista a Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, na qual narrou seu périplo por gabinetes importantes na República para obter apoio à sua indicação para o topo da carreira, primeiro pelo ex-presidente Lula, depois pela presidente Dilma. Chegou a ser publicada afirmação atribuída a Lula de que desconfiava de alguém com apoios da direita, Delfim Netto, czar da economia na ditadura, e da esquerda, João Pedro Stédile, chefão do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). A afirmação do guru petista é falaciosa, pois os extremos foram procurados pelo fato óbvio de que tinham amplo acesso a seus pavilhões auriculares. Além do mais, pouco tempo depois, ele foi fotografado beijando a mão de outro egresso da ditadura, Paulo Maluf, no jardim de sua mansão, para obter o apoio dele à campanha municipal paulistana do petista Fernando Haddad, como Dilma, uma aposta de altíssimo risco que acabou ganhando. A procura de apoio ecumênico às pretensões de alguém no Brasil remonta à época dos "pistolões", que decidiam desde a nomeação de delegados de polícia no interior até o preenchimento de vagas no ensino superior.

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, informou que Fux lhe dissera que "não havia provas" contra os réus do mensalão e que sua atuação seria "muito clara". São truísmos que nada elucidam e lembram a máxima de Chacrinha: "Eu não vim para explicar, mas para confundir". O próprio Fux já havia dito antes que se surpreendera com a quantidade de provas e nenhum brasileiro que o viu atuar no julgamento poderia acusá-lo de falta de clareza. Mas não é bem disso que estamos tratando aqui e, sim, da forma da escolha dos membros do colegiado ao qual são submetidos os julgamentos finais em casos de violação da ordem constitucional. A cândida confissão de Carvalho reforça a sensação de que os figurões federais foram surpreendidos com a aplicação pelos ministros do STF da mistura de frases de Chapolim - "eles não contavam com minha astúcia" - e de Charles de Gaulle - "a maior virtude de um estadista é a ingratidão". O PT, habituado a subordinar tudo - do Banco do Brasil ao Tribunal de Contas da União (TCU) -, dava como favas contadas o aparelhamento do topo do Judiciário pela força da gravidade. E quebrou a cara.

Agora tenta desqualificar o Supremo levantando suspeitas sobre a campanha pela indicação que os eventuais candidatos à boa vaga fazem. Trata-se de uma ignomínia! Não há alternativas à vista: indicação pelo Congresso? É brincadeira! O Senado nem dá conta da sabatina, vai dar conta da indicação? Além do mais, o Congresso nomeia os membros do TCU. Recentemente, indicou Ana Arraes e o sobrenome ilustre não a impediu de tentar ajudar a companheirada considerando lícitas manobras de Marcos Valério, réu do mensalão condenado por unanimidade! E que tal a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)? Ou as associações de juízes? Aí, meus amigos, seria o caso de seguir a receita de Dilma para apagões: gargalhar.

Talvez a saída seja deixar como está e esperar que o cargo vitalício inspire a independência do julgamento do ocupante.

José, Nêumanne, jornalista, poeta, escritor,

Fonte: O Estado de S. Paulo

28 anos de democracia - Fernando Rodrigues

Em 15 de março próximo o Brasil completará 28 anos de democracia. É um caso clássico de copo meio cheio e meio vazio.

A parte cheia é o fato inédito de um país tão sem cultura democrática ter conseguido persistir nesse caminho por tanto tempo. Quando o civil José Sarney assumiu o Planalto, em 1985, o Brasil encerrava 21 anos de ditadura militar.

Antes do regime de arbítrio instaurado em 1964 houve um ou outro hiato democrático. Mas no passado mais remoto, embora o país tenha experimentado algum tipo de eleições diretas, seria uma licença poética classificar a República Velha de democracia plena.

Não são pouca coisa então os quase 28 anos de democracia já desfrutados pelos brasileiros. A repetição das regras de liberdade eleitoral tem sido essencial para enraizar esses valores civilizatórios no país.

O problema é que há ainda a parte meio vazia no copo quando se trata da democracia brasileira. Foram criados e fechados dezenas de partidos nas últimas décadas. Nenhum consegue ser nacional. A cada eleição, multiplicam-se os escândalos de financiamento ilegal de políticos em campanha.

A presidente atual, Dilma Rousseff, e seus dois antecessores imediatos, Lula e FHC, pouco fizeram para aperfeiçoar o modelo político-eleitoral brasileiro. Inexistem sinais de mudança à vista nessa área no restante da administração dilmista. Do Congresso nada se deve esperar.

Como é possível existir democracia verdadeira com um sistema partidário apodrecido? Ou com total falta de transparência a respeito de quem financia candidatos a cargos públicos?

No Congresso, vigora um democratismo com 24 partidos. A maioria não tem votos para estar ali. Muitos representam interesses próprios e não os dos cidadãos. Enquanto não houver correção dessa anomalia, a quase longeva democracia brasileira não estará completa.

Fonte: Folha de S. Paulo

O PT e a superação do mensalão - Cláudio Gonçalves Couto

Há alguns dias, numa entrevista à "Folha de S. Paulo", o governador gaúcho, Tarso Genro, observava que o PT precisa superar o mensalão. Segundo ele, o partido já teria feito o que lhe caberia no caso, prestando solidariedade aos seus membros que foram réus no processo, não fazendo mais sentido continuar a remoer essa história. O problema, para os mais críticos ao PT, é que a única forma efetiva e moralmente aceitável de superação do episódio passaria não pela solidariedade aos condenados, e sim pela reiteração, nas instâncias partidárias, da condenação judicial que lhes alcançou. Haveria até mesmo uma razão formal para isso, pois o estatuto partidário prevê a exclusão dos membros que forem condenados criminalmente.

Entretanto, o PT invocou sua autonomia para determinar em que situações dá-se a aplicação da norma de exclusão, decidindo que ela não valeria para o caso dos réus do mensalão. Seria essa uma mera demonstração de incoerência, ou o partido teria boas razões para proteger seus membros condenados no julgamento que, decerto, maior atenção pública obteve em toda a história do país? Talvez nem uma coisa, nem outra - ou, ao menos, nenhuma delas por completo.

Para compreender a lógica que levou o PT a fazer sua escolha é necessário perscrutar as motivações da decisão. Analisando-se isto é possível divisar quais tendem a ser as consequências do episódio para o futuro do partido e, consequentemente, do país - já que se trata da agremiação que mais frequentemente tem figurado como ator relevante nas principais disputas nacionais, ganhando-as ou perdendo-as.

A solidariedade aos réus do mensalão é meio de proteger-se

A primeira razão para a solidariedade pode ser explicada em termos organizacionais. Os principais envolvidos faziam parte do grupo dominante do partido que, mesmo sem sua participação direta, seguiu como setor hegemônico. Assim, a solidariedade da organização seria compreensível em termos da lealdade dos seguidores a seus líderes.

Mas isto é pouco, pois apesar de vozes dissonantes como a de Tarso Genro, amplos segmentos do PT (inclusive aqueles que não compõem a coalizão dominante) mantiveram-se solidários aos réus. O segundo motivo é o reconhecimento tácito de que as práticas que se tornaram objeto de condenação (o caixa dois de campanha, pelo menos) não eram ignoradas pelo conjunto do partido - mesmo por aqueles que não envolviam com elas. De modo que seria hipócrita jogar os companheiros ao mar. Tal reconhecimento fica evidenciado na frase que um tesoureiro de campanha petista teria proferido ao aceitar a incumbência: "Eu vou cuidar do convento; não quero saber onde fica o bordel."

A terceira razão pode ser apontada como uma reação defensiva. Construiu-se a ideia de que, tendo dirigentes importantes do PT se envolvido em ilícitos, o partido todo nada mais seria que uma gangue de bandidos, bastando sua chegada ao poder em qualquer lugar para que a corrupção se alastrasse de forma incontrolável. Assim, não haveria mais petistas, apenas "petralhas". A construção desse mito foi tão longe que levou um articulista caro ao público neoconservador - Demétrio Magnoli - a publicar em "O Estado de S. Paulo" um artigo intitulado "O PT não é uma quadrilha". Não tardou a que a blogosfera direitista passasse a atacar Magnoli como um traidor, reafirmando que "sim, o PT é uma quadrilha".

O problema de uma afirmativa como essa é seu corolário. Ora, se o PT fosse uma quadrilha, ele não seria uma organização legítima e, portanto, deveria ser proscrito. Ou seja, a disseminação de tal ideia poderia comprometer o próprio projeto partidário, atingindo até mesmo os adversários internos dos réus do mensalão. Desse modo, o ataque a eles passou a ser percebido por muitos como uma invectiva à própria sobrevivência do partido, levando o conjunto da agremiação e muitos de seus simpatizantes a cerrar fileiras.

Um quarto fator potencializou os efeitos dos demais. O julgamento foi espalhafatoso, ocorreu concomitantemente às eleições, sob intensa cobertura midiática e - aos menos aos olhos dos juridicamente leigos - rebaixou o sarrafo da condenação. Num país marcado pelo garantismo, que protege os criminosos de colarinho branco que dispõem de influência e bons advogados, o rigor condenatório do STF (liderado por Joaquim Barbosa) foi realmente de causar espécie. Não é a toa que Tarso Genro alega que Dirceu e Genoíno tenham sido condenados sem provas - embora Delúbio fosse réu confesso.

As dúvidas sobre a culpabilidade aumentam ainda mais quando se considera o aspecto do processo mais atraente ao imaginário da teoria conspiratória: a compra de votos de deputados. Ora, se foi isto o que houve, por que motivo parlamentares petistas também teriam recebido dinheiro do esquema? O PT comprava gente do PT? O dinheiro de origem ilícita era repassado a parlamentares para torná-los aliados, ou porque eles já eram aliados? Diante de tais dúvidas, o partido optou por não excluir seus membros por talvez considerar que eles tenham sido vítimas de um julgamento incorreto, embora não necessariamente ilegítimo - o que levou a direção partidária a rechaçar a proposta de uma campanha de rua contra o STF feita por um membro do diretório nacional.

O PT precisa superar o mensalão para seguir em frente, evitando porém cometer os mesmos erros. A solidariedade aos réus neste momento, se por um lado parece sinalizar que as transgressões não foram tão graves, por outro talvez fosse inevitável para preservar a coesão interna da agremiação. Ao comentar sua condenação, José Genoíno alegou que nem sob tortura, durante a ditadura militar, traiu companheiros - e que não faria isto agora, como forma de minorar sua própria pena. Esse tipo de solidariedade de grupo, embora possa ser condenável pela moralidade da sociedade circundante, é crucial para a preservação do grupo. Se isto é verdadeiro até mesmo em situações prosaicas (coleguinhas de classe não dedam quem está colando), não deixaria de ser em casos mais sérios e em organizações complexas como um grande partido.

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP

Fonte: Valor Econômico

Pontos para pensar – Miriam Leitão

O ano de 2013 tem vários pontos de dúvida. Um bem aqui próximo: o que vai acontecer na Venezuela? Nos Estados Unidos, a intransigência diante do abismo fiscal mostra que o segundo mandato de Barack Obama será de seguidas batalhas. No Brasil, como deve ficar o confronto entre o Supremo e a Câmara sobre o mandato dos condenados no processo do mensalão?

Esses pontos de dúvida vão marcar o desenrolar do ano. Na América Latina, o PRI voltou em dezembro ao poder no México. O país começa a colher algumas boas notícias na área econômica. Depois de hibernar por algum tempo, no ano passado o México cresceu mais que o Brasil. A violência, contudo, continua sendo um obstáculo ao desenvolvimento, mas será importante acompanhar o desempenho de Enrique Peña Nieto no mandato que lá é de seis anos. Ele prometeu lutar o mais rapidamente possível pela aprovação de reformas nas áreas tributária e petrolífera.

Na Venezuela, a dúvida é mais aguda e imediata. Não se sabe quem governará o país, na hipótese do agravamento do estado de saúde do presidente Hugo Chávez. A incerteza é tão absoluta que não se sabe a data da posse ou se haverá novas eleições em 2013. O ano pode ser o primeiro do pós-Chávez para o conturbado vizinho. Mas o que já se sabe é que o país está longe de superar as fraturas aprofundadas nos últimos anos.

O primeiro ano do último mandato de Barack Obama começou com a sombra da corda esticada até o último momento sobre o abismo fiscal. Foi possível ver que continuará o bloqueio parlamentar para tentar impedir avanços no governo dele. Se no primeiro mandato Obama aprovou a reforma da saúde, a dúvida agora é que briga ele escolherá brigar no segundo mandato. Não conseguirá ganhar nada se estiver em várias frentes.

No Brasil, qual será a dimensão da reforma ministerial do governo Dilma? A ministra chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, não teve o desempenho esperado e já encontrou a explicação ideal para sair em algum momento: quer disputar o governo do Paraná e precisa de tempo para a campanha. O ministro Edson Lobão está com problemas de saúde e o ministério deve sair da órbita do senador José Sarney. Pelo ministro Antonio Patriota a presidente já deu demonstrações de não ter o mesmo apreço que unia o ministro Celso Amorim ao presidente Lula. Qual será a dimensão dessa reestruturação do governo é um dos pontos de dúvida do governo Dilma nesse começo das atividades do ano.

A grande dúvida no Brasil, no entanto, será sobre os desdobramentos das condenações do mensalão. Quando acabar o período de recursos, o que vai acontecer? O PT escolherá o caminho de atacar o Supremo Tribunal Federal, quando os condenados estiverem indo para a prisão ou vai preferir seguir a rota apontada pelo governador Tarso Genro de mudar a agenda? Muito provavelmente ficará dividido, mas a maioria vai preferir mudar a agenda já de olho nas próximas eleições.

Na Câmara, a dúvida é se a proposta de confrontar o STF ensaiada pelo deputado Marco Maia será levada adiante ou se o bom senso vai prevalecer. Tudo fica mais dramático com o fato de que José Genoino assumirá uma cadeira na Câmara no início do ano legislativo. Mais sensato será evitar o radicalismo Maia.

Logo na volta do Congresso, o assunto dos royalties retornará e o resultado mais provável nas duas casas é a derrota do Rio e Espírito Santo. É uma questão aritmética. Além disso, prefeitos e governadores já estão contando com o dinheiro a mais. A dúvida é se a presidente Dilma trabalhará de alguma forma para contornar o conflito federativo ou se vai continuar dizendo que já fez o que podia. O tema deve ter um desdobramento no Supremo.

Na Europa, a agenda de 2013 tem, como virou rotina, vários pontos de dúvida, mas a mais imediata delas é se até 15 de março o continente conseguirá fazer o primeiro esboço da união bancária como se propôs. A maior dúvida, no entanto, é como se comportará a Europa em outro ano de recessão.

Na China, vai começar um governo novo, de Xi Jinping. Com a previsibilidade enfadonha das ditaduras, pode-se dizer que nada mudará de imediato, nem de forma dramática, seja na economia ou na política. Mas haverá mudanças. De que extensão e em que direção? A China será outro ponto de dúvida de 2013. A coluna continuará aqui nesse ponto a ponto de 2013.

Fonte: O Globo

Intervenção no câmbio - Celso Ming

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, passou meses desfilando o argumento de que a desvalorização cambial (alta do dólar) induzida pelo governo, de cerca de 20% desde março deste ano, revitalizou a indústria.

As lideranças do setor não escondem a insatisfação. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, por exemplo, quer um dólar que flutue entre R$ 2,30 e R$ 2,40, ou seja, quer uma desvalorização adicional do real de cerca de 15%. De todo modo, havia ficado a impressão de que o governo Dilma estava engajado na tarefa de dar mais competitividade à indústria.

Mas o Banco Central do Brasil, que vem fazendo o jogo ativista do governo tanto nos juros como no câmbio, foi obrigado a inverter prioridades. Ao longo de dezembro (até dia 21) vendeu US$ 1,7 bilhão em moeda estrangeira no câmbio futuro, disposto a impedir que a cotação do dólar saltasse para acima dos R$ 2,10. Sexta-feira, também sob efeito da atuação do Banco Central, presidido por Alexandre Tombini, a cotação do dólar fechou o ano a R$ R$ 2,045.

Estas não são intervenções meramente episódicas. Em novembro, o Banco Central também agira com firmeza redobrada para impedir que o câmbio produzisse mais inflação.

Essas mexidas no câmbio há muito mudaram de qualidade. Antes, limitavam-se a dar liquidez ao mercado e a evitar excessiva volatilidade. A partir de abril, deixaram de fazer parte de uma política estratégica do governo. O câmbio passou a ser usado como ferramenta de ocasião para apagar incêndios.

Hoje, está claro que o Banco Central está interessado em manter o câmbio relativamente fixo. Suas cotações não devem resvalar para abaixo dos R$ 2,00 por dólar. Também não devem saltar para acima de R$ 2,10.

Assim, a economia brasileira atua agora com os dois principais preços do real relativamente fixos. Os juros básicos (o preço interno) permanecerão nos 7,25% ao ano por "tempo suficientemente prolongado", como já avisou o Banco Central, e o câmbio (preço externo da moeda nacional) está amarrado aos tais R$ 2 por dólar, porque passou a a ter a função de conter a inflação.

Um governo pode manter fixos esses dois preços somente por um período curto. Com o tempo, as distorções serão inevitáveis. Não foi só o comportamento insatisfatório do PIB que atropelou o governo Dilma. O estouro da inflação para mais perto dos 6,0% do que dos 5,5% em 12 meses também contrariou suas expectativas. Mas, em vez de aceitar esses desvios como indicações de desequilíbrios da economia; e em vez de apertar mais as despesas públicas para controlar a inflação; o governo optou por borboletear sobre os sintomas. Trabalha com a hipótese de que essa e outras anomalias foram geradas pelas conturbações da economia global e serão superadas naturalmente.

O risco que corre o governo Dilma - e aí vai sendo apontada uma das distorções acima mencionadas - é que a contenção da alta do dólar não seja suficiente para segurar a inflação. E à medida que a inflação mantiver sua força, entre 5% e 6% ao ano, o câmbio contido à altura dos R$ 2,00 por dólar estará corroendo a competitividade que o governo pretendeu dar à indústria quando promoveu a desvalorização cambial. E, aí, o que fará o governo para evitar as pressões por novas desvalorizações do real?

Fonte: O Estado de S. Paulo

Geraldo Julio quer transformar Recife em vitrine para o PSB

Murillo Camarotto

RECIFE - Começou ontem uma das mais importantes etapas do projeto pelo qual o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), pretende chegar ao Palácio do Planalto. Ao assumir a Prefeitura do Recife, o administrador de empresas Geraldo Julio (PSB) - estreante em cargos eletivos - se tornou responsável pela vitrine que o PSB quer apresentar ao Brasil nos próximos anos. No discurso do novo prefeito, eficiência na gestão pública, preocupação com a economia nacional e com as finanças dos municípios. E afagos a Campos.

"Sei que vou contar com o apoio do governador Eduardo Campos. E isso será importante para a cidade. Sei também, governador, que um lugar de destaque lhe espera no futuro político deste país", afirmou o novo prefeito, sob aplausos dos presentes à cerimônia de posse, realizada na Câmara Municipal do Recife. Julio também definiu o governador como "um jovem líder da política nacional, que nos serve de exemplo tanto na atuação política quanto na capacidade de juntar pessoas".

Na chegada à Câmara de Vereadores, Eduardo Campos voltou a falar sobre 2013 como um divisor de águas na política nacional. "Estamos confiantes que vamos viver um ano de conquistas e realizações para o Recife. E que a gente possa vencer os desafios de um ano que será decisivo para o Brasil", afirmou o pernambucano, cuja candidatura ao Planalto depende, em boa medida, do desempenho da economia nacional neste ano.

Em linha com o que vem defendendo seu padrinho político, o novo prefeito do Recife manifestou preocupação com o desempenho da economia. Também se queixou do aperto fiscal pelo qual passam os municípios. Nas suas palavras, o Brasil precisa que seu Produto Interno Bruto (PIB) cresça mais do que em 2012 neste ano. "As contas públicas também estão apertadas em todas as esferas, sobretudo nos governos municipais. A cidade tem urgência", disse Geraldo Julio.

Após o racha político e a disputa eleitoral virulenta com o PT, o novo prefeito do Recife passou com relativa tranquilidade pelo processo de transição. Rompido com as principais lideranças petistas de Pernambuco - que lhe tiraram da disputa pela reeleição - o agora ex-prefeito João da Costa entregou a administração municipal com as contas em dia. Conseguiu, inclusive, indicar um aliado para a secretaria de Finanças.

Com o reforço do PT, Geraldo Julio começa a gestão com maioria folgada no Legislativo municipal. Dos 35 vereadores, apenas quatro - dois do PSDB, um do PPS e um do DEM - prometem oposição. O maior desafio do prefeito, entretanto, será o de levantar todo o dinheiro necessário para o cumprimento de seu programa de governo, que foi registrado em cartório e será implementado por sistema de metas, a exemplo do que faz Eduardo Campos na esfera estadual.

Para dar conta das promessas de campanha, o novo prefeito já anunciou uma reforma administrativa, com redução no número de secretarias e de cargos comissionados. A prefeitura também vai ampliar as operações de crédito e quer fechar mais parcerias com o governo federal. Em seu discurso, Geraldo Julio não esqueceu de mencionar a presidente Dilma Rousseff, "um exemplo de caráter e que guarda valores que serão caros à nossa gestão".

Fonte: Valor Econômico

Posse de Paes não teve o aliado PT, mas teve PV, PSDB e muitos ex-DEM

O PT não foi à posse do prefeito reeleito Eduardo Paes, no Palácio da Cidade, embora o partido do vice Adilson Pires tenha composto a chapa. Nem os mais entusiastas da aliança com PMDB, como Benedita da Silva, compareceram.

DIante dos poucos que lá estavam, Paes repetiu três vezes: "O meu candidato para 2016 é o Pezão!". Mas não era um recado apenas para os que sonham com um apoio do PMDB a Lindbergh Farias (PT). O próprio prefeito tem se esforçado para dizer que não é candidato em 2014. "Mais que isso, Pezão, só se eu pendurar uma faixa. Eu não sou candidato!", brincou com o vice-governador. Logo depois, emendou: "Na política, eu sou assim. Jogo pesado. Pesado com Pezão", não resistindo ao trocadilho.

Fonte: Jornal do Brasil

A pré-campanha de Lula pelo Brasil

Julia Duailib

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve definir a partir do dia 15 de janeiro o roteiro de viagens que pretende fazer pelo País em 2013. O petista resolveu que neste ano viajará por vários Estados brasileiros como forma de retomar a política partidária e fortalecer o PT. Durante 2012, o ex-presidente manteve uma agenda mais discreta em razão do tratamento contra um câncer na laringe.

“Vamos montar uma boa agenda no Brasil adentro, não afora”, afirmou Clara Ant, durante a posse do petista Fernando Haddad como prefeito de São Paulo. Ant é responsável pela agenda do ex-presidente no Instituto Lula. “Ele estará mais presente no Brasil”, completou.

Ant negou que o roteiro seja uma retomada das Caravanas da Cidadania, viagens feitas por Lula pelo País nos anos 90, durante as quais era acompanhado pela imprensa.

Lula terá de conciliar a agenda internacional com os compromissos pelo Brasil, que provavelmente terão um tom de pré-campanha eleitoral, antecipando a disputa em 2014 pelos governos do Estado e pela Presidência da República.

Entre os compromissos no exterior, o petista participará de um evento em Cuba no final de janeiro para comemorar os 160 anos de nascimento do poeta e ativista político cubano José Martí. Em abril, irá a Nova York receber um prêmio concedido pela organização International Crisis Group.

Lula dividirá o prêmio com o presidente de Myanmar, Thein Sein.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Solenidade com secretários vira ato pela candidatura de Pezão.

Paes diz que governa até o fim de 2016; Cabral afirma que fica até 2014

Fábio Vasconcelos

A cerimônia de posse dos novos secretários no Palácio da Cidade se transformou ontem num ato público a favor da candidatura do vice-governador, Luiz Fernando Pezão à sucessão de Sergio Cabral, em 2014. O governador e o prefeito Eduardo Paes deram o tom nos seus discursos.

Primeiro, Cabral afirmou que permanecerá no cargo até 2014, afastando especulações de que poderia deixar o governo para Pezão ficar à frente do Executivo durante as eleições. Logo em seguida, Paes pediu uma salva de palmas para o vice-governador e disse que ele será o próximo governador.

- Queria pedir uma salva de palmas para o Cabral e para o Pezão, que vai substituí-lo daqui a dois anos. Posse é um ato político, e em ato político eu jogo pezado com o Pezão.

Paes também garantiu que permanecerá no cargo até 2016. Com isso, procurou acabar com as conversas de que poderia se candidatar ao governo em 2014.

- Eu repito para que não restem dúvidas. Não deixo essa missão de ser prefeito de jeito nenhum. Não abro mão do meu mandato um minuto sequer. O meu candidato a governador chama-se Luiz Fernando Pezão.

Paes disse que fala diariamente com Cabral so telefone, e que, se as conversas forem reveladas, “não resistirá absolutamente nada” nas suas vidas:

- Foi um prazer governar ao seu lado (Cabral), eu tenho certeza de que será muito mais prazeroso a partir de 2015 com Pezão. Pezão, eu já falei a quarta vez, se não virar notícia, só se eu aparecesse com a faixa. Já jurei de pés juntos que não sou candidato a nada.

Fonte: O Globo

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A lição de Antonio Ribeiro Netto – Elio Gaspari

O neurocirurgião que matou o plantão e deixou a menina com a bala na cabeça pode aprender o que é ser médico

O neurocirurgião Adão Crespo, do Hospital Salgado Filho, do Rio, faltou ao serviço no dia de Natal. Por isso, a menina Adrielly dos Santos, de 10 anos, ficou oito horas esperando por atendimento adequado. 

Tinha uma bala na cabeça.

Chamado à polícia, informou que faltava aos plantões há um mês, porque discordava da escala de serviço. Segundo o doutor, uma determinação do Conselho Regional de Medicina manda que haja nos hospitais públicos dois neurocirurgiões por plantão. Como escalavam-no sozinho, não ia. Lindo. O Cremerj determina que os plantonistas sejam dois, e o neurocirurgião decide que é dois ou nada, passa o dia de Natal em casa e Adrielly fica com a bala na cabeça. Vale registrar que é uma temeridade botar um caso como o da menina nas mãos de um só neurocirurgião. Seria necessário que no plantão houvesse pelo menos um residente para assisti-lo. Bingo: o sistema público do Rio não tem mão de obra para respeitar essa necessidade.

Se o doutor Crespo, ou qualquer outro, quer se rebelar contra a má qualidade dos serviços públicos de saúde, tem dois caminhos: pede as contas ou usa o seu tempo disponível para infernizar a vida do prefeito Eduardo Paes, do governador Sérgio Cabral, do ministro Alexandre Padilha e da doutora Dilma. Pode até protestar contra o papa, mas não pode faltar ao serviço, nem se defender na polícia com o manto branco do corporativismo médico.

Crespo e todos os seus similares deveriam ser convidados a preparar uma biografia de um colega: Antonio Ribeiro Netto. Durante mais de 40 anos, até sua morte, nos anos 90, foi cirurgião de tórax do Hospital Souza Aguiar. Lá, o CTI da neurocirurgia chamava-se "Coreia". Não sabia quanto ganhava. Quando se aborrecia com as questões do cotidiano, ia para o hospital adiantar procedimentos cirúrgicos. Em 1993, vendo a medicina pública do Rio assolada por "escolhas de Sofia", nas quais os médicos eram obrigados a decidir quem morreria por falta de atendimento, ele olhava para o descalabro e dizia: "A culpa é minha. Fui míope. Talvez se eu tivesse ido para os jornais atacar o governador, talvez se eu tivesse entrado aos gritos no gabinete do secretário, não sei. A verdade é que deixei a peteca cair". Dizia isso sabendo que nunca faltara a plantão. Hoje Ribeiro Netto é nome de policlínica, mas seu exemplo perdeu-se na poeira do descaso.

As guildas médicas são incapazes de diagnosticar as patologias individuais de seus profissionais. Algo como se um doutor, diante de um caso de pneumonia (o neurocirurgião que falta ao serviço), quisesse discutir o aspecto epidemiológico do problema (a falta de dois profissionais no plantão). Nisso, Adrielly ficou com a bala na cabeça. O Conselho Regional de Medicina faz bonito quando pede dois neurocirurgiões, mas fica numa posição troncha quando um deles se justifica usando sua recomendação para deixar o plantão sem neurocirurgião algum.

Já os presidentes, ministros, governadores e prefeitos dedicam-se a uma espetacularização da ruína. Sérgio Cabral chegou ao governo dizendo que a medicina pública do Rio praticava um "genocídio", e o prefeito Eduardo Paes disse que Adão Crespo é "um delinquente". E o chefe do doutor, a quem ele diz ter comunicado que não iria aos plantões?

Fonte: O Globo

Lacerda crê em oposição 'responsável e consciente' em BH

Durante a solenidade de posse do prefeito reeleito em Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), na Câmara Municipal, o governante da capital mineira afirmou nesta terça-feira que a oposição é "bem-vinda" em sua gestão, desde que cumpra seu papel "para o bem da cidade", e não para "prejudicar" o governo. O prefeito reeleito, entretanto, ressalvou que os vereadores oposicionistas são conscientes da importância de que não interrompam projetos essenciais da cidade.

"Nós contamos com o apoio da Câmara. Na primeira gestão não tínhamos uma base clara, muitos projetos foram aprovados com maioria simples, e, naturalmente, sempre contamos com a oposição. Nesta nova formação, também teremos, mas vejo vereadores empenhados para trabalhar pela cidade, cada um com seu papel, cada um com o interesse de melhorar a vida de todos. A oposição é sempre bem-vinda, faz parte da democracia, desde que seja para o bem da cidade, que não venha para paralisar tudo. Para não prejudicar. Acredito que isso não vai acontecer, temos uma oposição responsável e consciente", argumentou.

Lacerda elogiou bastante seu vice-prefeito, Délio Malheiros (PV). Apesar dos problemas antes das eleições municipais, quando um vídeo divulgado na internet mostrava Malheiros deixando claro que faria tudo contra o atual prefeito, Lacerda garantiu que seu companheiro será importante em vários pontos.

"Délio é uma pessoa preparada, um militante dos direitos dos consumidores, um deputado atuante, um advogado preparado, ele vai nos ajudar cumprindo tarefas caso a caso. Já temos tarefas para ele, coisas pontuais, dependem de negociações, que envolvem questões jurídicas e ele, com a experiência, vai ajudar bastante", justificou.

A solenidade de posse dos 41 vereadores, do prefeito Marcio Lacerda e do vice Délio Malheiros começou com aproximadamente uma hora e meia de atraso. No ato formal, o candidato eleito confirma sua condição, assume os direitos e obrigações do mandato. Todos foram até o microfone, firmaram o compromisso e assinaram um documento.

Logo em seguida, o prefeito reeleito Marcio Lacerda fez seu discurso de posse. Ele falou muito sobre as novas metas de Belo Horizonte. Também voltou a dizer que existe uma preocupação com saúde e transporte público e garantiu vontade para trabalhar por Belo Horizonte. O prefeito também elogiou bastante o atual senador da república e antigo governador de Minas, Aécio Neves.

"Temos vários projetos. A expectativa principal é em relação à melhoria da mobilidade urbana, do transporte de massa, entendemos que o BRT (Bus Rapid Transit, sistema de ônibus expressos) vai apresentar uma melhoria significativa para a cidade. Estamos preocupados com um transporte de qualidade, do metrô de Belo Horizonte. Outra preocupação está também na saúde e ainda na habitação, lançando novas unidades de moradias. Vamos seguir o modelo de gestão", disse.

Porém, apesar de ser especulado que o prefeito poderia ser um nome forte para concorrer ao governo de Minas Gerais em 2014, Lacerda garantiu que não deixará a prefeitura de Belo Horizonte para assumir outro cargo. "Ainda tenho muita coisa para fazer e não tenho o interesse de candidatar a nenhum outro cargo", finalizou.

Fonte: O Tempo (MG)

Beth Carvalho - samba da minha terra

Por causa de Jandira - Murilo Mendes

O mundo começava nos seios de Jandira.

Depois surgiram outras peças da criação:
Surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(Às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos.)
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
O ar inteirinho ficou rodeado de sons
Mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
Captavam objetos animados, inanimados.
Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis
[ do ar
Quando Jandira penteava a cabeleira...

Depois o mundo desvendou-se completamente,
Foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
Da cabeça aos pés,
Todas as partes do mecanismo tinham
[ importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
De sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedeciam aos sinais de Jandira
Crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de
[ Jandira
E eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
Deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
Por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
E apareceram cadáveres boiando por causa de
[ Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
Por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda
[ de Jandira.

E seus cabelos cresciam furiosamente com a força
[ das máquinas;
Não caía nem um fio,
Nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
Tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
A família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
Por causa de Jandira.
E um padre na missa
Esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de
[ Jandira.

E Jandira se casou
E seu corpo inaugurou uma vida nova.
Apareceram ritmos que estavam de reserva.
Combinações de movimento entre as ancas e os
[ seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas
[ que repetem
As formas e os sestros de Jandira desde o
[ princípio do tempo.

E o marido de Jandira
Morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
Fez um grande esforço para ressuscitar:
Não se conforma, no quarto escuro onde está,
Que Jandira viva sozinha,
Que os seios, a cabeleira dela transtornem a
[ cidade
E que ele fique ali à toa.

E as filhas de Jandira
Inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
Espera que os clarins do juízo final
Venham chamar seu corpo,
Mas eles não vêm.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
Ressuscitará inda mais belo, mais ágil e
[ transparente.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

FELIZ 2013!


Boa sorte e juízo! - Eliane Cantanhêde

A nova leva de prefeitos que assume hoje traz uma lufada de otimismo à política brasileira. Inaugura o pós-mensalão e projeta o futuro. Corrupção sempre haverá, mas projeta-se uma fase de mais pudor na gestão pública.

A estrela da festa é Fernando Haddad, que chega à prefeitura mais importante do país por um empurrão decisivo dos 80% de popularidade de Lula, mas tem todos os atributos pessoais e vem adquirindo os políticos para fazer não apenas uma boa gestão em São Paulo, mas também abrir horizontes para o PT. Nova cara, nova esperança.

Há, ainda, promessas em diferentes regiões e de diferentes partidos, como Gustavo Fruet (PDT) em Curitiba, Geraldo Júlio (PSB) em Recife, Rui Palmeira (PSDB) em Maceió, assim como Clécio Luís (PSOL) na distante Macapá. Apenas exemplos de sangue novo, para revigorar o combalido corpo político brasileiro.

Tudo, porém, está só começando. Haddad passou pelo MEC, Fruet e Palmeira, de famílias políticas, foram deputados, Geraldo Júlio, cria de Miguel Arraes, foi secretário em Pernambuco, e Clécio Luís, professor da rede pública, era vereador. Mas é agora que vão enfrentar o seu grande desafio, uma espécie de BBB político. O futuro de cada um depende de erros e acertos nas prefeituras.

Há histórico de prefeitos que fizeram excelentes carreiras, mas não faltam exemplos dos que naufragaram para todo o sempre. O mais recente é a de Micarla de Sousa em Natal. Jovem, bonita, tida como inteligente, ela disputou e ganhou a prefeitura pelo charmoso PV. Foi um fracasso retumbante e sai do cargo escorraçada pela decepção popular.

Não é, obviamente, o que se deseja aos novos e promissores prefeitos, que emprestam boas caras, currículos respeitáveis e milhões de boas intenções às suas cidades e às expectativas de seus eleitores. Que estejam à altura delas, deles e do futuro.

Ótimo 2013!

Fonte: Folha de S. Paulo

Ano-novo - Tereza Cruvinel

Comecemos o ano com poesia, ainda que buscando a leitura política. “Os dias do futuro estão em frente a nós/ como uma longa fila de círios acesos/ Dourados, quentes, vivos, pequeninos círios/ Os dias do passado ficam para trás/ como triste fileira de apagados círios ”’(Konstantyn Kavafys). Somos todos feitos de tempo , de círios que não devem ser queimados em vão: as pessoas, as instituições, os países. Os últimos 20 anos foram bem aproveitados pelo Brasil. Hoje começa um ano-novo que vem com deficits, mas também com as condições para ser produtivo e manter o país na trilha dos avanços. Não haverá eleições, com suas tensões, interdições e fortes antagonismos. Novos prefeitos tomam posse hoje, herdando problemas , mas olhando para frente. A presidente e os governa-dores poderão se dedicar inteiramente à gestão, ainda que pensando em faturar eleitoralmente no ano que vem.

O Congresso, com as Mesas Diretoras renovadas, deve buscar o prestígio perdido. Este ano, o que o calendário exige é preparação para a Copa de 2014. Na economia, as medidas contra a crise externa já foram tomadas. A reação demorou, mas começou no fim de 2012. O crescimento foi baixo mas com o emprego e os salários fecharam em alta. A nova classe média se consolidou, fortalecendo o mercado interno. Esses são os elementos favoráveis a que o ano seja menos conturbado e mais produtivo para o Brasil. Mas há problemas e elementos nefastos e o dia é propício a recordá-los. Haverá crescimento este ano, garantem analistas céticos e economistas engajados. Mas, para crescer sustentavelmente, o foco no consumo terá que ganhar uma inflexão pró-investimento.

O governo tomou medidas para modernizar e ampliar a infraestrutura, atraindo o setor privado para as parcerias. Mas faltam ainda iniciativas na área de inovação e tecnologia, o que exigirá mudanças drásticas na educação. As políticas sociais, o crédito e a distribuição de renda reduziram indiscutivelmente a pobreza e a desigualdade, mas a inflação nos espreita e, se tiver chance, pode devorar os ganhos obtidos pelos mais pobres. A união federativa resistiu a muitos solavancos desde a independência, mas o ano começa com a maioria dos municípios empobrecidos e disputas entre os estados e a União. Continuam irresolvidos problemas como a distribuição dos royalties do petróleo e dos recursos do FPE, a unificação das alíquotas do ICMS e a correção das dívidas estaduais, entre outros. Começa também o ano com disputas entre os Poderes, com o Judiciário avançando sobre os espaços normativos que o Congresso não ocupou. Por fim, há uma antecipada ansiedade com a disputa eleitoral de 2014. PT e PSDB, partidos polares do sistema, bem podiam se conter , sem deixar de se preparar para ela. O ano nos traz favores e desfavores mas, na balança, as condições permitem que a luz do círio seja bem queimada em 2013. Feliz ano-novo ao Brasil e aos brasileiros!

Preliminar

A reunião que o senador Aécio Neves teve após o Natal com os economistas Arminio Fraga, Pedro Malan e Edmar Bacha, presente o ex-presidente Fernando Henrique, foi uma preliminar para a formulação de seu discurso na pré-campanha presidencial. Denúncias de corrupção e temas polêmicos, como aborto, darão lugar a crítica permanente aos pontos fracos da gestão Dilma. “ Aécio apresentará um projeto alternativo. O mercado e os investidores estão muito inseguros, médio e longo prazos, com alguns traços do governo, como o viés estatista e intervencionista e a incerteza regulatória. Isso não é bom para o Brasil” , diz o deputado Marcus Pestana, um dos arqueiros de Aécio.

Fonte: Correio Braziliense

Brasileiro segue otimista com economia

Datafolha mostra que, após um 2012 fraco, 44% acreditam em melhora neste ano, mas com inflação mais alta

Para 57%, situação econômica pessoal vai progredir; otimismo é menor entre aqueles de maior renda

Patrícia Campos Mello

SÃO PAULO - O "pibinho" não abalou as expectativas dos brasileiros.

Apesar do desempenho pífio da economia em 2012, com crescimento que deve ficar abaixo de 1%, quase metade dos brasileiros acredita que a economia do país vai melhorar nos próximos meses.

Esse otimismo moderado apareceu em pesquisa nacional feita pelo Datafolha em 13 de dezembro, em 160 municípios. Para 44% dos 2.588 entrevistados, a economia vai melhorar; 38% acreditam que ficará como está e 13% acham que vai piorar. Não opinaram 5%. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

Em janeiro de 2012 -antes, portanto, do PIB decepcionante-, a percepção dos brasileiros sobre o futuro da economia era praticamente a mesma: 46% achavam que ia melhorar, 13% apostavam em uma piora e 37% acreditavam que ficaria igual.

Os brasileiros com renda entre cinco e dez salários mínimos são os mais otimistas: 48% apostam na melhora da economia. Os mais pessimistas são os de maior renda (mais de dez salários mínimos) -16% acreditam que a situação vai piorar. A renda dos 10% mais pobres da população foi a que mais cresceu entre 2001 e 2009.

Situação pessoal

Os entrevistados se mostram esperançosos quanto à sua situação econômica. A maioria, 57%, acha que sua situação pessoal vai melhorar, enquanto 31% acreditam que ela não vai mudar. Apenas 8% dizem que vai piorar.

O desemprego tampouco desperta preocupações. A taxa medida pelo IBGE ficou em 4,9% em novembro, a menor para o mês desde 2002.

Segundo o Datafolha, 33% dos brasileiros acham que o desemprego vai diminuir; 31%, que vai ficar como está, e 33%, que vai subir -resultado semelhante ao da pesquisa de janeiro.

Mas o brasileiro se mostra mais receoso em relação à inflação, que deve ficar acima do centro da meta de 4,5% em 2012. Segundo última pesquisa do Banco Central de 2012, a estimativa de mercado é que o IPCA feche o ano em 5,71%. Segundo o Datafolha, 44% das pessoas acham que a inflação vai subir; 13%, que vai diminuir, e 37%, que vai ficar como está.

Fonte: Folha de S. Paulo

Perspectivas de emprego para 2013 - José Pastore

Em relação a muitos países, o Brasil tem sido um verdadeiro oásis em matéria de emprego. Enquanto os espanhóis amargam um desemprego de 25%, entre nós, a taxa é menor do que 5%. No Brasil, o quadro dos últimos anos tem sido o de falta de mão de obra.

Mas o que dizer de 2013? Confesso estar preocupado, especialmente, com o comportamento do emprego industrial. A geração de novos postos de trabalho nesse setor está em ritmo muito lento. Em alguns segmentos, já começa a haver perda de empregos, como é o caso da construção civil.

As indústrias brasileiras vêm perdendo competitividade a passos largos. No que tange ao fator trabalho, o Brasil apresenta um dos mais altos custos unitários do mundo em decorrência de aumentos explosivos da remuneração, da baixa produtividade e do avassalador intervencionismo das leis e da Justiça do Trabalho no campo trabalhista. Resumo: a disparada do custo do trabalho brasileiro já assusta os investidores. A tais problemas se somam os entraves sistêmicos já conhecidos - ineficiência da logística, tributos e burocracia sufocantes, regulação imprevisível, educação de baixa qualidade e minguados investimentos em inovação. A lista é enorme e, no conjunto, pesa muito mais do que a crise externa na determinação da baixa competitividade das nossas indústrias. Tanto que vários dos nossos concorrentes estão se saindo melhor do que o Brasil, a despeito da crise externa.

Nos últimos meses alastrou-se a percepção de que o Brasil deixou de ser a bola da vez por ser pouco competitivo, em especial, na indústria. Com o descasamento acelerado entre o custo do trabalho - que explode - e a produtividade - que permanece estagnada -, é difícil visualizar um cenário de crescimento sustentável no campo do emprego industrial em 2013. Ao contrário, podemos ter perdas. Há notícias indicando que algumas empresas já vêm promovendo demissões em massa. Há também as que transferiram suas operações para o exterior.

O comércio e os serviços ainda respondem por um bom volume de empregos graças ao crescimento da massa salarial que leva muitas pessoas a consumir. Mas mesmo nesses setores há segmentos preocupantes. Os bancos iniciaram um período de dispensa de funcionários que tende a se acentuar em 2013. A elevação da inflação e o endividamento crescente fazem os recém-chegados à classe média reverem seus planos de consumo, o que deve afetar o comércio e os serviços neste próximo ano.

Não quero exagerar. Mas, em algum ponto, o fraco desempenho da indústria e do setor financeiro afetará o agregado, trazendo a geração de postos de trabalho para cerca de 1,2 milhão em 2013 - bem inferior aos anos em que o Brasil era realmente uma usina de empregos, como em 2010, quando o País abriu quase 3 milhões de novas oportunidades.

O quadro só não é de alarme porque a proporção de pessoas dispostas a trabalhar vem diminuindo por força da queda da taxa de natalidade ocorrida há décadas. Ademais, os jovens estão retardando a entrada no mercado de trabalho e os idosos estão antecipando a saída. Os três fenômenos concorrem para uma redução dos que se oferecem para trabalhar, contribuindo, assim, para baixar a taxa de desemprego.

As medidas de estímulo, apesar de estarem na direção certa, ainda não produziram os efeitos esperados para elevar a competitividade do setor industrial. Aumentar os investimentos e melhorar a sua qualidade são cruciais. Bem o contrário do que ocorreu em 2012, quando os investimentos industriais reduziram 28% em relação a 2011, que por sua vez já haviam encolhido, quando comparados com 2010.

Em suma, penso que 2013 será marcado por um baixo crescimento do emprego em decorrência da deterioração do mercado de trabalho do setor industrial e dos seus reflexos. Não será um ano catastrófico, mas estará longe do céu de brigadeiro usufruído nos últimos tempos.

José Pastore, professor de Relações do Trabalho da FEA-USP. É membro da Academia Paulista de Letras,

Fonte: O Estado de S. Paulo

Em busca do tempo perdido – Miriam Leitão

Em 2013 a presidente Dilma Rousseff terá seu ano decisivo. No terceiro ano de governo ela tentará deslanchar o crescimento para ter mais um mandato no Planalto. O crescimento medíocre do primeiro biênio e a inflação em patamar alto só não corroeram sua popularidade porque o consumo tem sido turbinado pelo crédito. Mas sua imagem de gerente perdeu consistência.

Na área internacional a incerteza terá como foco os Estados Unidos. A Europa tentará a difícil tarefa da construção das bases da união bancária, mas o continente passará o ano em recessão. A China pode crescer um pouco mais, mas não volta ao patamar de dois dígitos de alguns anos atrás. A crise política americana produzirá novos eventos de ameaça à recuperação.

O mundo pode não prejudicar muito o Brasil, mas não ajudará, como fez de 2003 a 2007 no governo Lula. Não se espera um novo boom de commodities, no máximo que o minério de ferro não caia abaixo do nível de 2012.

Aqui dentro há chances razoáveis de um ano com um PIB mais forte. Ontem, a média das projeções do mercado confirmaram os 3,3%, o que não quer dizer nada porque eles erraram muito em 2012, mas depois de dois anos de baixo crescimento, há o efeito até estatístico de recuperação. O crescimento não poderá contar apenas com o aumento do endividamento das famílias, porque esse processo está se esgotando. Houve no ano passado preocupação com o excesso de comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas. Muito devedor ainda está encalacrado. A relação crédito-PIB saiu de 25% para 52% em dez anos. Como os juros do crédito ao consumo continuam altos, os níveis de crédito-PIB de outros países não são parâmetro para nós.

O investimento público tem que ser maior e mais eficiente. Como recentemente disse o ex-presidente do BC Armínio Fraga, adianta pouco usar o investimento público na construção de pirâmides. O governo tem que ser capaz de fazer as apostas certas e mais racionais em projetos que realmente aumentem a competitividade do Brasil e eliminem gargalos.

A inflação deve permanecer alta, mas haverá alguns pontos de redução. Os alimentos não devem subir tanto, porque no ano passado o aumento foi em parte pela seca nos Estados Unidos. Eventos extremos de clima têm se repetido ano a ano, mas não se espera algo como a perda de grande parte das lavouras de soja, milho e trigo nos Estados Unidos. Mesmo assim, a inflação de alimentos, que ficou em 10% em 2012, permanecerá forte. A de serviços pode cair, porque o reajuste do salário mínimo será em percentual menor. E há ainda a queda dos preços de energia. Esse efeito será em parte neutralizado pelo reajuste da gasolina.

O governo tentará fazer algo mais forte para impulsionar a retomada do crescimento porque sabe que este ano é fundamental para os projetos do PT de permanecer no governo, seja com Dilma ou Lula.

O ano mais fácil de qualquer governo é sempre o primeiro e Dilma o perdeu. O governo parou nas sucessivas denúncias de corrupção que derrubaram sete dos seus ministros. Na economia foi preciso conter a inflação que refletiu os excessos de gastos eleitoreiros de 2010 e que bateram em 2011. Todas as previsões eram de recuperação do crescimento no ano passado, mas o país ficou estagnado.

A presidente Dilma tem cada vez menos entusiastas dos seus métodos de gestão. Tem muita decisão que depende apenas da sua atuação e fica estacionada em sua mesa. Bom gerente decide com agilidade. A política econômica é dominada pelo pacotismo que gera mais incerteza do que estímulo. É adepta dos projetos de impacto, como os do governo militar, mas sem ligação com as urgências do país, como o trem-bala. É lenta em decisões como a da privatização do Galeão que consumiu dois anos de hesitação.

Nesses dois anos que faltam para o fim do mandato, Dilma terá que superar seus erros gerenciais e focar no investimento público, se quiser melhorar seu desempenho na área econômica. Ao mesmo tempo terá que ter mais cuidado com a área fiscal. As contas finais não chegaram, mas até agora há risco de não cumprimento das metas de 2012 e o governo tem comprometido demais os bancos públicos em financiamento que não terá retorno garantido, principalmente Caixa e Banco do Brasil. Fazer bolha é fácil. O ano precisará ser de crescimento com boa gerência.

Fonte: O Globo

O que pensa a mída - Editoriais dos principais jornais do País

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Criador do PSD concentra foco

Artur Rodrigues

Gilberto Kassab trocará o helicóptero que usava diariamente para ir aos eventos da Prefeitura pelo avião. Na ponte aérea entre São Paulo e Brasília, deve preparar o caminho para a disputa das eleições dos governos dos Estados por candidatos do Partido Social Democrático. Entre os pleiteantes da sigla, deve estar o próprio Kassab, no páreo para o Palácio dos Bandeirante.

Até 2014, Kassab passará quase 100% do tempo fazendo o que fez com mais eficiência nos últimos anos: política. Após sete anos de mandato, ele saiu da Prefeitura com a pior avaliação desde Celso Pitta - 42% dos paulistanos classificaram a gestão como ruim ou péssima, enquanto 27% disseram que foi boa ou ótima, segundo o Ibope. No entanto, o recém-criado Partido Social Democrático (PSD) firmou-se como a quarta força política do País, com 494 prefeitos eleitos, atrás só dos poderosos PMDB, PSDB e PT.

Nos primeiros dias de janeiro, ele volta para a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, onde se formou em Engenharia, para dar início à criação de um núcleo de estudos voltado à gestão de cidades. "Depois, na segunda quinzena de janeiro faço palestra sobre desenvolvimento urbano em Abu Dhabi (nos Emirados Árabes Unidos)", diz.

O descanso de verdade deve vir só em fevereiro. "Viajo para Nova York com uma sobrinha que vai iniciar o MBA. Vou acompanhá-la, aproveito e descanso."

Já visando o governo do Estado, Kassab terá de trabalhar para ganhar votos no interior, onde o governador Geraldo Alckmin (PSDB) é bastante popular. "Apesar de eu ter nascido em São Paulo, sempre atuei mais no interior", garante.

Dilma. No plano federal, o apoio à reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT), segundo ele, é o mais provável. Ele deve garantir o primeiro ministério do PSD, o que vai cuidar das pequenas e médias empresas. Pelos planos de Kassab, quem assumirá a carga é o vice-governador, Guilherme Afif Domingos.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Mercado vê PIB abaixo de 1% em 2012 e eleva inflação

Expectativa para 2013, no entanto, foi mantida em 3,3%

SÃO PAULO — O mercado encerrou o ano estimando pela primeira vez que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano ficará abaixo de 1%, ao mesmo tempo em que elevou pela quarta semana seguida sua projeção para a inflação em 2012, mostrou pesquisa Focus do Banco Central, divulgada nesta segunda-feira. Os analistas consultados preveem agora que o PIB terá uma expansão de 0,98% neste ano, ante expectativa de 1% na semana anterior. Mas a perspectiva para 2013 foi mantida em 3,3%.

Em relação à inflação, os analistas preveem agora que a taxa medida pelo IPCA terá chegado a 5,71% em 2012, ante 5,69% na semana anterior. Já a expectativa para a inflação em 2013 é de alta de 5,47%, inalterado ante a semana anterior. O Banco Central já reduziu sua previsão para o crescimento da economia brasileira neste ano a 1 por cento, ante 1,6% estimado anteriormente. Ao mesmo tempo, elevou a perspectiva para a inflação neste ano a 5,7% e reduziu a projeção para 2013 a 4,8%.

A pesquisa Focus desta segunda-feira mostrou ainda que os analistas mantiveram a previsão de que a Selic encerrará 2013 nos atuais 7,25%, mesmo percentual estimado para a taxa básica de juros em janeiro.

Fonte: O Globo

Cabral põe Pezão na rua para garantir continuidade no Rio

Vice-governador deve disputar a eleição estadual só daqui a dois anos, mas já conta com ajuda de profissionais

Alfredo Junqueira

RIO - O torneiro mecânico Darcy Souza, 86 anos, não acreditava muito nas chances de seu filho, Luiz Fernando, na disputa de sua primeira eleição à Câmara Municipal de Piraí, pequena cidade no interior do Rio de Janeiro, em 1982. Para ajudá-lo, resolveu fazer uma graça com os vizinhos inspirando-se na principal característica física do filho. Pegou uma tábua de madeira e talhou um pé enorme. Escreveu "Luiz Fernando Pezão" e o número do garoto na disputa, pendurando a peça publicitária improvisada no bar mais frequentado do bairro.

O filho do seu Darcy se elegeu vereador, depois faturou duas disputas à Prefeitura de Piraí (1996 e 2000), virou secretário estadual e desde 2007 é vice-governador. Principal gestor da administração fluminense, foi ungido pelo governador Sérgio Cabral (PMDB) como candidato a sua sucessão em 2014.

Responsável pelas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Rio, tem excelente trânsito no governo federal e chegou a ser cotado para assumir um ministério no início da administração Dilma Rousseff - que o adora.

Apesar do currículo, Pezão - 57 anos e calçado nº 47/48 - ainda é um ilustre desconhecido. Lançado por Cabral em 2010, a viabilidade eleitoral dele ainda é vista com desconfiança até por peemedebistas.

Campanha. Para tentar reverter o quadro, Cabral e Pezão colocaram a chamada pré-campanha na rua depois do 2.º turno das eleições municipais. Os tempos do marketing amador do pai ficaram para trás e, desde o início de novembro, o vice-governador passou a ser tutelado por profissionais do pacote de comunicação de Cabral.

A FSB Comunicações assumiu sua assessoria de imprensa e o publicitário e antropólogo Renato Pereira, dono da Prole Gestão de Imagem e estrategista das campanhas vitoriosas de Cabral e do prefeito Eduardo Paes (PMDB), já atua como consultor informal da candidatura.

As duas empresas prestam serviço para a administração estadual. A FSB recebe R$ 18 milhões anuais para cuidar da assessoria de imprensa do governo - incluindo a vice-governadoria. Já a Prole faz parte da PPR - Profissionais de Publicidade Reunidos, uma das seis agências que administram a propaganda institucional do Estado - cujos gastos somaram R$ 206 milhões em 2011.

A espontaneidade de Pezão passou a ser regulada, e ele praticamente sumiu do noticiário. A quase dois anos da disputa eleitoral, a prioridade é evitar desgastes. Até porque o vice-governador terá dois adversários experientes em pleitos ao estilo vale-tudo: o ex-governador e deputado federal Anthony Garotinho (PR) e o senador Lindberg Farias (PT).

Em pelo menos duas ocasiões este ano, por exemplo, o vice-governador fez questão de fazer elogios a Delta Construções - empreiteira que mais faturou em obras com a administração Cabral e que se tornou alvo de todo tipo de suspeita depois que a Polícia Federal revelou, na Operação Monte Carlo, as relações de sua diretoria com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

"Ela (Delta) é uma empresa agressiva e por isso tem mais contratos", defendeu Pezão, no fim de abril, dias antes de Garotinho divulgar em seu blog fotos e vídeos de Cabral em companhia do dono da construtora, Fernando Cavendish, e de secretários de Estado em festas e restaurantes de luxo pela Europa.

Imagem. Pezão recusou-se a dar entrevista ao Estado. Segundo sua assessoria, a prioridade neste momento é a agenda de entrega de obras do governo.

O desempenho de Pezão em 2014 depende totalmente da avaliação de Cabral pelo eleitorado - afirmam integrantes da equipe da dupla. O desastre na imagem do governador provocado pelo escândalo Cachoeira-Delta e as fotos dele com Cavendish está sendo revertido, segundo dados de pesquisas internas aos quais o Estado teve acesso.

As avaliações de "ótimo" e "bom" de Cabral somavam 53% antes do escândalo. Despencaram para 34% após a divulgação da fotos. Na reeleição de Paes, em outubro, esse número chegava a 45%. Em novembro, subia para 48%.

Com a recuperação do governador, Pezão será apresentado ao eleitorado como representante do que será chamado de "Renascimento do Rio", numa clara comparação entre as gestões Cabral e as do casal Anthony e Rosinha Garotinho, ressaltando a pacificação de favelas, investimentos em infraestrutura e os grandes eventos esportivos.

Embora o PMDB do Rio ainda conte com uma pressão do PT nacional para abater novamente a candidatura de Lindberg, como ocorreu em 2010, a equipe que prepara Pezão também articula uma estratégia para tentar neutralizar o carisma do petista. Para isso, vai reforçar a imagem do vice-governador como político dotado de três elementos de capacidade pessoal "fundamental": diálogo, realização e liderança.

Pezão ainda contará com uma extensa agenda de inaugurações de obras sob sua responsabilidade para tentar decolar até 2014, como a reforma do Maracanã para a Copa do Mundo, o Arco Metropolitano e novas intervenções em favelas e comunidades carentes.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Cotado para governo é réu em cinco ações por improbidade

Inquérito também apura se vice beneficiou família da mulher ao ter desapropriado imóvel em cidade do interior do Rio

Desde setembro de 2006, o vice-governador do Rio de Janeiro Luiz Fernando Pezão está instalado num apartamento no Leblon, bairro mais valorizado da zona sul do Rio, comprado por sua mulher, a economista Maria Lucia Cautiero Horta Jardim.

Certidão do 2.º Ofício de Registro de Imóveis mostra que faltando pouco menos de um mês para a primeira eleição de Cabral, Maria Lucia pagou R$ 315 mil pelo imóvel. Atualmente, um apartamento similar na área vale pelo menos quatro vezes mais.

O documento também mostra que o imóvel foi colocado em indisponibilidade pela Justiça Federal em cinco ocasiões. Pezão reverteu a decisão em instâncias superiores. O vice-governador é réu em cinco ações que tramitam na 1.ª Vara Federal de Barra do Piraí por improbidade administrativa supostamente cometida durante suas gestões na cidade vizinha de Piraí. Nos processos, o Ministério Público Federal alega que a máfia das sanguessugas atuou na cidade vendendo ambulância superfaturada para a prefeitura. Pezão nega todas as acusações.

Um outro imóvel é fonte de preocupação para o vice-governador. Em 29 de janeiro de 2010, numa das muitas vezes em que assumiu a administração durante viagens de Cabral ao exterior, Pezão assinou decreto desapropriando um imóvel de parentes de Maria Lucia em Barra do Piraí.

O Estado do Rio pagou R$ 470 mil pela casa, cujo preço de mercado era avaliado em torno de R$ 300 mil. Até o fim de dezembro, o local ainda estava em obras para receber a sede da Procuradoria-Geral do Estado na cidade.

O caso virou um inquérito civil na 2.ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Cidadania de Barra do Piraí, que apura eventuais irregularidades no processo. O caso foi revelado pela revista Época, para qual Pezão disse que não sabia que a pertencia à família de sua mulher. "Eu não misturo assuntos de Estado com a família", afirmou o vice-governador, na ocasião. / A.J.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Vice ganhou espaço na política com Garotinho

Ao final de seu segundo mandato como prefeito de Piraí, Luiz Fernando Pezão foi levado por Garotinho para ocupar a Subsecretaria de Governo durante a gestão Rosinha Garotinho (2003/2006). Posteriormente, assumiu a pasta como titular. Foi o início de sua ascensão na política regional.

Em pouco tempo, Pezão passou a frequentar reuniões do núcleo político dos Garotinho. Tornou-se íntimo e nome de confiança do casal - que na época era aliado do atual governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB).

Quando começaram as negociações para a composição da chapa que sucederia Rosinha na eleição estadual de 2006, Garotinho impôs Pezão como vice.

Cabral, na época senador, não gostou. Argumentava que não poderia ter como vice um ex-prefeito de uma cidade que tinha apenas 15 mil eleitores. Preferia Antonio Francisco Neto, que era secretário de Receita e ex-prefeito de Volta Redonda (200 mil eleitores), ou Nelson Bornier, deputado federal e ex-prefeito de Nova Iguaçu (490 mil eleitores).

Vencedor da eleição, Cabral rompeu com Garotinho no período de transição, em dezembro. Pezão fez o mesmo semanas depois. Rapidamente, o vice-governador conquistou a confiança de Cabral e tornou-se peça fundamental de sua administração.

Garotinho nunca perdoou o que chama até hoje de traição do aliado. Em seu blog, não o poupa Pezão de críticas e ofensas. Em 2014, em palanques opostos, os dois devem protagonizar os momentos mais polêmicos da campanha eleitoral, com trocas mútuas de acusações. / A. J.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Coral Mocambo - Evocação Nº 1

Receita de Ano Novo - Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.