quinta-feira, 9 de julho de 2015

José Roberto de Toledo - Dilma, zebras e leões

- O Estado de S. Paulo

"Unhas e dentes" à parte, Dilma Rousseff começou a fazer contas para segurar-se na Presidência da República. A reunião com líderes aliados foi para computar votos na Câmara. Sua sobrevivência depende de 172 deputados com os quais ela possa contar até no mais fundo dos poços. Fernando Collor caiu porque ficou reduzido a míseros 38. Em 29 de setembro de 1992, 441 votaram pela abertura do processo de impeachment. Bastavam 342.

Os números evidenciam o pragmatismo dos deputados. Em situações extremas, a Câmara tem comportamento da manada. Raros votam com sua "consciência". A maioria migrará para o lado que tiver mais chance de ganhar. Questão de sobrevivência: alinhar-se com a oposição em questão de vida e morte para o governo é abrir mão de qualquer cargo e verba. Não tem volta. E votar com o governo que por ventura cair dificulta usufruir daquele que vai entrar.

Todo o palavrório sobre "golpe" e "golpismo", tanto por parte do governo quanto da oposição, seria desperdício de tinta e bytes se não tivesse um efeito simbólico para os deputados: sinaliza que ambos os lados estão dispostos a ir até o fim no seu propósito de ficar na cadeira presidencial ou de desocupá-la.

Isso é especialmente importante para Dilma. A qualquer sinal de dúvida ou fraqueza, a manada pode correr para o lado da oposição. Os deputados estão todos com orelhas e narinas alertas, como um bando de zebras auscultando leões.

A consequência fundamental da reunião de Dilma com os aliados na segunda-feira passada foi a declaração de apoio de PT, PMDB, PSD, PC do B, PDT, PRB, PR e PROS. Eles somam 262 deputados, hoje. Segundo o artigo 51 da Constituição, cabe privativamente à Câmara autorizar, por dois terços de seus membros, a instauração de processo contra o presidente e o vice. Dois terços de 513 dá 342 votos. Logo, 172 deputados é o mínimo que qualquer presidente precisa – sempre – para não ir mais cedo para casa.

Os 262 deputados dos oito partidos que se declararam governistas implicam, em tese, 90 votos a mais do que a presidente precisa para garantir-se no cargo. Está longe de ser "moleza". Em primeiro lugar, porque a base do governo é movediça: só 131 deputados votaram 90% das vezes nesta legislatura seguindo a orientação do governo – e a maioria deles é do PT.

Ter o apoio formal de outros partidos, portanto, é condição necessária à sobrevivência de Dilma. Mas não suficiente. Nem todos os deputados seguem a orientação do seu líder partidário. Haverá defecções.

Computando-se apenas aqueles deputados que votaram 90% das vezes de acordo com a orientação do líder de seu partido ou que seguiram o líder do governo em 80% das votações nominais neste ano, os 262 caem para 203. A margem de segurança de Dilma ficaria reduzida de 90 para 31 votos. Acrescente-se aí outro fator de incerteza: os partidos podem mudar de lado.

A deserção da liderança do PMDB, por exemplo, implicaria Dilma perder 39 votos de deputados fiéis a ela ou ao líder do PMDB. Já seria fatal para sua contabilidade. Com o agravante de que o PMDB tem um peso institucional extra por presidir a Câmara e o Senado, além de ter o vice-presidente, Michel Temer. Se os peemedebistas se bandearem para a tese do impeachment, outros partidos tendem a segui-lo. Zebras e leões.

Logo, é praticamente impossível para Dilma segurar-se no cargo sem o apoio do PMDB. Mas pode não bastar. Nas simulações e modelos estatísticos desenvolvidos pelo Estadão Dados, outro partido é sempre um bom termômetro das votações na Câmara: o PSD. Se o partido do ministro das Cidades, Gilberto Kassab, mudar de orientação, não seriam só 24 deputados fiéis a menos. Seria um sinal forte demais para a manada parlamentar ignorar.

Ao final das contas, para manter seu mandato, Dilma precisará manter PMDB e PSD do seu lado. Custe o que custar.

Bernardo Mello Franco - A esquerda pressiona Dilma

- Folha de S. Paulo

A presidente Dilma Rousseff terá que fazer concessões à esquerda se quiser mobilizar os movimentos sociais em defesa de seu mandato. O recado tem sido repetido a ministros petistas e ao ex-presidente Lula em conversas reservadas sobre o agravamento da crise.

Acuada pela oposição oficial e pelo PMDB, Dilma agora enfrenta a pressão de aliados históricos do PT para abandonar o ajuste fiscal. Na prática, a esquerda quer trocar o apoio nas ruas pela cabeça do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

"O governo está muito fraco e precisa mais do que nunca das ruas para resistir ao golpe. Mas não podemos defender um governo que está ficando indefensável por causa dessa política econômica", afirma Guilherme Boulos, principal líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.

O ativista ficou contrariado ao saber que a presidente prepara medidas para ampliar o ajuste, como ela contou à Folha. "A crise se agravou, e a reação da Dilma é dizer que vai aprofundar ainda mais o ajuste. Isso cria dificuldade para os movimentos que estão dispostos a enfrentar a ofensiva golpista", diz Boulos.

Apesar das críticas, ele articula um ato de "resposta à direita" para 20 de agosto, quatro dias depois dos protestos convocados por grupos anti-Dilma. "Será uma grande mobilização contra o golpismo, o Eduardo Cunha e a ofensiva conservadora, mas também contra a política econômica", ressalta o líder do MTST.

Próximo ao ex-presidente Lula, o senador petista Lindbergh Farias reforça a pressão. "O governo tem que parar de atirar na própria base. Quem pode defender Dilma contra o golpe são os movimentos sociais e o Lula. O que a gente quer é que o governo pare de atrapalhar", afirma.

A tese da guinada à esquerda seduz cada vez mais petistas, mas embute altos riscos. Se desistir do ajuste, Dilma pode perder o apoio que lhe resta no PMDB e engajar setores do empresariado e do mercado financeiro no movimento pró-impeachment.

Luiz Carlos Azedo - Lé com cré

Correio Braziliense

• A presidente da República estaria dando sinais de esgotamento nervoso, devido ao stress da carga de trabalho e à irritabilidade provocada pelo regime de emagrecimento ao qual vem se submetendo

A avaliação dos políticos governistas às declarações da presidente Dilma Rousseff sobre o impeachment, assunto da coluna de ontem, também não foi nada boa para o Palácio do Planalto. Segundo os aliados, gerou especulações de que a presidente da República não tem uma estratégia para enfrentar as articulações da oposição contra sua permanência no governo, provocou mais incertezas do que segurança nos agentes econômicos e transformou uma tese dos bastidores da política num assunto de conversa de botequins e padarias: a possibilidade de que venha a ser afastada do cargo pela Justiça ou pelo Congresso.

Entre ministros e assessores palacianos, indagava-se o por que de a presidente da República não preparar sua entrevista. Dilma tratou do assunto de forma muito restrita, sem consultar seu estado-maior. O resultado foi uma espécie de desabafo, legítimo diante das acusações de que sua campanha à reeleição teria recebido dinheiro desviado da Petrobras.

Mas a situação em que se encontra — grande desaprovação popular, economia ladeira abaixo e falta de governabilidade — exigia mais do que isso. Ao não fazer uma análise lúcida da situação política nem apresentar alternativas animadoras para a economia, Dilma, mais uma vez, não conseguiu construir um raciocínio lógico, com começo, meio e fim, sobre o momento que o país vive. A presidente da República já se expressou melhor em público e, também, nas entrevistas exclusivas.

Na linguagem popular, Dilma não estaria juntando lé com cré. Para alguns, a presidente da República dá sinais de esgotamento nervoso, devido ao stress da carga de trabalho e à irritabilidade provocada pelo regime de emagrecimento ao qual vem se submetendo. Suspeita-se de que esteja sob efeito de remédios. Medicamentos para emagrecer estão entre os mais usados do mundo. A maioria das pessoas não consegue emagrecer por conta própria — são “emagrecidas”.

Irritabilidade, estresse, insônia, memória fraca, dificuldade de concentração, ansiedade, palpitações e suores frios são sintomas que podem surgir em momentos de grande estresse e durar vários dias. Alguns desses sintomas, porém, são traços do comportamento da presidente da República já conhecidos de seus colaboradores — a irritação, por exemplo —, mas a dificuldade de concentração e concatenação de ideias vem sendo recorrente nas entrevistas, embora Dilma, com suas pedaladas, também tenha aparentado certo alheamento em relação à crise.

Ao contrário do que ocorreu na viagem aos Estados Unidos, na qual as denúncias da Operação Lava-Jato entraram na pauta como intrometidas, no encontro com o presidente Vladimir Putin, ontem, em Ufa, a mil quilômetros de Moscou, o único incidente foi um atraso de cinco minutos de Dilma, nos quais o anfitrião ficou esperando a colega brasileira em público. A fala de Dilma, porém, foi comedida e não tratou de política; apenas da economia.

Líderes das duas únicas economias do Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) que não crescerão neste ano, Dilma e Putin precisam ampliar o comércio bilateral. E esse foi o único tema da conversa presenciada por jornalistas. “Temos grande interesse em ampliar nosso investimento recíproco”, disse Dilma, que pretende atrair empresas russas de portos e ferrovias para o programa de investimentos em infraestrutura lançado no mês passado.

Nova derrota
Com Dilma no exterior e Michel Temer no exercício da Presidência, o governo sofreu nova derrota política ontem, desta vez no Senado, que aprovou a medida provisória que mantém as atuais regras de reajuste do salário mínimo para o período de 2016 a 2019. O reajuste é calculado pela soma da variação da inflação (INPC) e do Produto Interno Bruto (PIB).

Governistas tentaram aprovar uma emenda que faria com que o texto voltasse à Câmara, mas a mudança foi rejeitada. Não poderá haver mudanças no mérito. A novidade no texto aprovado no Congresso em relação ao original feito pelo Executivo é a extensão dos reajustes aos benefícios de valor superior a um salário mínimo pagos pela Previdência Social (aposentadorias e pensões). Essa mudança foi feita na Câmara, depois de a comissão mista que analisou o texto ter rejeitado várias emendas com esse objetivo. O governo é contra esse reajuste.

O senador Paulo Paim (PT-RS) questionou se era justo deixar de ter uma política para reajustar os benefícios de quem ganha acima de um salário mínimo. “Se não houver uma política salarial que garanta que o benefício do aposentado cresça, no mínimo, o correspondente ao salário mínimo, com certeza, ligeirinho, ligeirinho, todos os aposentados do regime geral ganharão somente um salário mínimo, não importando se pagaram sobre 10, cinco, oito ou três”, argumentou. Votou com a oposição.

Jarbas de Holanda - Salvação ou troca do governo. Negociações partidárias e as ruas

O segundo semestre começa e prosseguirá mais intensamente dominado pela combinação das crises econômica e política. A primeira, com as dimensões de uma estagflação de crescentes e perversos efeitos sociais. A segunda desdobrável em duas: a político-institucional, com a busca de alternativas ao atual Executivo ou, ainda, para uma reconstrução partidária dele, e com os conflitos entre a presidente e o Congresso acentuados pelos desdobramentos dos processos do TCU, do TSE (a respeito das “pedaladas fiscais” de 2014 e de irregularidades da campanha reeleitoral) e da operação Lava-Jato, bem como refletindo aumento da insatisfação social e mais quedas da avaliação popular da presidente; e a crise político-administrativa, decorrente de baixíssimo nível de governabilidade desse Executivo, com sérias implicações econômicas e sociais. Cabendo assinalar que essas crises deverão ter o reforço da retomada de manifestações de protesto, em escala possivelmente mais ampla.

Será nesse cenário que tais negociações político-partidárias ganharão fôlego. Os principais atores já estão em cena. O PMDB dividido entre o oposicionismo predominante nas bancadas federais do partido e o grupo liderado por Michel Temer, este podendo vir a desempenhar dois papeis – ou uma espécie de primeiro-ministro de uma titular da presidência extremamente debilitada, ou o substituto institucional da chefe do governo, após uma renúncia ou impeachment exclusivo dela. 

O PSDB que, na convenção nacional de domingo último, respaldou o posicionamento do presidente Aécio Neves em favor da troca de governo por meio de renúncia ou impeachment seguidos de novas eleições. Mas no qual há espaço para posturas voltadas para objetivos diferentes, e até contrários, assumidas por duas outras lideranças importantes – a do governador paulista Geraldo Alckmin, que não se centra na troca de governo mas na sua candidatura presidencial em 2018, e a do senador José Serra, aberto a uma composição com o “presidente substituto” Michel Temer e com o PMDB, pelo qual poderia disputar o Palácio do Planalto daqui a pouco mais de três anos. 

Outro ator de peso é o ex-presidente Lula. Que, sob a ameaça de envolvimento direto nas investigações da Lava-Jato, deixou de lado o projeto que ensaiava de descolamento da afilhada Dilma Rousseff, para tentar salvar o governo dela e recompor seu controle sobre ele, tendo em vista uma recuperação da economia que lhe permita construir uma candidatura competitiva em 2018 (apoiado numa “frente popular” esquerdista, pois sabe que não contará mais com a parceria do PMDB). Um quarto ator, ou atriz, a própria presidente, terá papel secundário nessas negociações em face do grande isolamento político e social em que está enredada.

 E há, ainda, um quinto fator com forte potencial de influenciar os diversos atores das negociações institucionais de respostas às crises econômica, política e ética que sufocam o país – as manifestações de rua já em preparo. As bandeiras, previsíveis, da retomada delas são o apoio à operação Lava-Jato (ao juiz Sérgio Moro, ao Ministério Público, à autonomia da Polícia Federal), e as cobranças de impeachment e de novas eleições.

Crise política enfraquece ajuste fiscal
Preocupação econômica significativa suscitada por reportagem da Folha de S. Paulo, de domingo: “Levy na geladeira”, com o subtítulo “Dilma demonstra impaciência e passa a questionar ministro em reuniões internas do governo”. Mudança de postura de Dilma Rousseff em relação ao ministro da Fazenda que deve refletir os efeitos das restrições e resistências do lulopetismo ao ajuste fiscal. 

Resistências que se tornam mais fortes com o agravamento da crise política, de riscos maiores para a continuidade do mandato da presidente. E às quais o ministro respondeu com entrevista ao Valor, de anteontem: “Levy pede persistência para país concluir travessia (Levy teme que incerteza paralise empresas e eleve custo do ajuste)”.

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Jarbas de Holanda é jornalista

Carlos Alberto Sardenberg - O triunfo de Dilma: deu tudo errado

- O Globo

Na noite de 23 de janeiro de 2013, Dilma surgiu triunfante em rede nacional de televisão para a anunciar uma redução de 18% na conta de luz de todos os brasileiros, acentuando: "Primeira vez que acontece no país".

Embora já fosse bastante, a presidente não ficou nisso. Explicou, "com números", conforme ressaltou, que o "Brasil vai ter energia cada vez melhor e mais barata".

Foi além. Desafiadora, atacou os pessimistas e zombou das "previsões erradas" daqueles que "diziam que não iríamos conseguir baixar os juros e nem o custo da energia".

De fato, naquele momento, a taxa básica de juros era de 7,25% ao ano, a mais baixa na era do Real e a conta de luz caiu no dia seguinte.

Animada com isso, Dilma informou que os investimentos estavam em alta, empregos idem, salários subindo, de modo que o Brasil vivia "dos melhores momentos da história".

Hoje, todo mundo sabe, os juros estão nas alturas - a taxa vai passar dos 14% - e a conta de luz não para de subir. Desde 2013, ano em que Dilma anunciou a redução, já ficou 60% mais cara, na média nacional. E ainda há vários reajustes previstos para este e o próximo ano. O desemprego sobe - 500 mil vagas formais fechadas este ano -, o PIB empacou, o salário perde poder de compra para a inflação e os investimentos públicos e privados desabaram.

Os pessimistas estavam certos, a presidente, errada, muito errada. Como Dilma pode ter se equivocado tanto?

Começa que ela não ouve ou não entende as críticas. Ninguém dizia que o governo não conseguiria ou não podia reduzir juros e tarifas de energia. Os críticos diziam, sim, que essas medidas eram insustentáveis mesmo no curto prazo.

Para resumir o ponto de vista dito pessimista: a redução da conta da luz se fizera por um artificialismo que desorganizava o setor elétrico; naquele momento, a tendência do custo da energia, sem truques, era de alta. Quanto à inflação, já estava alta e, mesmo assim, contida artificialmente pelo controle de preços administrados, como o da gasolina.

Era o ponto de vista correto. Dirá o pessoal da presidente: agora, em retrospectiva, é fácil falar. Negativo. Como bem apontava Dilma, os críticos e pessimistas diziam, fazia tempo, que o modelo econômico dela iria explodir em inflação, baixo crescimento, juros altos, contas públicas em déficit e desorganização de diversos setores, como o elétrico, hoje atolado em dívidas, prejuízos para a Petrobras.

Também diziam que o aumento do crédito e do consumo era insustentável; que não havia ambiente para investimento privado; e que o governo não conseguiria dar conta das promessas de investimentos dos PACs. Lembram-se do trem bala?

Pois é - e não foi a primeira vez que a presidente exibiu um triunfalismo infundado. No início de seu governo, em março de 2011, deu uma entrevista para o jornal "Valor Econômico", garantindo que em seu mandato a economia cresceria na faixa de 5% ao ano, com inflação de 4,5%, na meta.

Também atacou os pessimistas e disse que era adivinhação daqueles que sustentavam não haver condições para uma expansão sustentada.

A coisa saiu ainda pior do que imaginavam os pessimistas. A média de crescimento anual do PIB (2011/14) ficou em 2,2%, só melhor que o período Collor. E a inflação foi de 6,16%.

Discursos e entrevistas da presidente Dilma podem ser encontrados no site do Planalto. Essa exposição não seria um motivo suficiente para a presidente vir a público e dizer "desculpaí, foi mal"?

Mas não. A presidente e seus próximos dizem que passamos por um probleminha passageiro, consequência da crise mundial, e que logo, logo... os pessimistas serão derrotados.

De novo, como pode se equivocar tão completamente?

Socialistas no capitalismo

Dá para entender o desconforto de Alexis Tsipras e seu ministro das Finanças, Euclid Tsakalotos.

Imaginem: você faz sua formação intelectual no marxismo; inicia-se na política dizendo que a União Europeia e zona do euro formam uma construção neoliberal, uma falsa democracia, e que tudo se resume num sistema de dominação capitalista pelo qual os países ricos do Norte exploram os pobres do Sul. Ah, sim, e que o sistema financeiro europeu está lá para garantir os lucros imorais dos banqueiros, danem-se as pessoas. E que pregar ajuste fiscal é terrorismo de credor contra o devedor.

Aí, surpreendentemente, seu partido de extrema-esquerda ganha a eleição prometendo o socialismo - e lá está você sentado à mesa com os terroristas neoliberais, tentando salvar o sistema financeiro/capitalista, prometendo ajustes e sacrifícios em troca de uns trocados a mais.

Não pode dar certo.

Maria Cristina Fernandes - Na rota da seda

- Valor Econômico

• Uma mudança de mentalidade para além da turbulência

O arrefecimento da economia doméstica mudou a mentalidade dos empresários chineses. Em vez de investir para abastecer o mercado local, hoje buscam oportunidades de investimento que abram novos mercados. O setor da economia chinesa mais alavancado para trocar o canal, inclusive com fortes subsídios de bancos oficiais, é o da infraestrutura. É disso que tem se ocupado a diplomacia chinesa em suas viagens, inclusive aquela que trouxe recentemente o primeiro-ministro Li Keqiang ao país da Lava-jato.

Há sete anos na China, onde ocupou seu último posto na diplomacia brasileira, como cônsul-geral em Xangai, Marcos Caramuru de Paiva, percorreu, no Instituto Fernando Henrique Cardoso no mês passado, a rota dos ventos que hoje sopram na economia chinesa. Sua palestra, disponível na rede, é uma biruta neste momento de turbulência na Bolsa de Xangai.

A China traçada por Caramuru não é um país guiado pela mudança da ordem mundial, mas pela presença de sua economia neste concerto. Mais do que a queda conjuntural que arrastou o preço do minério de ferro, o que deveria preocupar o Brasil é o estímulo dado pela China em outras praças a produtores desta e de outras estrelas da balança comercial brasileira, como a soja.

O ex-diplomata brasileiro recolhe dois países diferentes das conversas com chineses de classe média e empresários. Os primeiros, que tiveram aumentos salariais muito acima da inflação nos últimos anos, desfrutam de otimismo e confortos. Os segundos estão com a corda no pescoço pela retração na demanda internacional e pelas políticas de combate à corrupção que mudaram a regra do jogo. Quem dispusesse de 'guanxi', canais de acesso ao Estado, deslanchava. Hoje o crédito passa por controles que ainda custam a ser absorvidos.

O combate à corrupção e a fixação de uma meta de crescimento baseada na manutenção do emprego dá segurança à classe média mas gera expectativas opostas nos empresários. Estes são obrigados a se manter em operação a despeito de venderem apenas 20% de sua produção. Os desarranjos da bolsa de Xangai das últimas semanas podem ser um sinal de que este é um cenário que não se sustenta no longo prazo e pressionará por ajustes.

Caramuru discorda da ideia de que o país desperdiçou anos de crescimento acelerado sem promover reformas. As leis do contrato de trabalho, por exemplo, que aumentaram o emprego formal, resistiram à crise financeira de 2008. Outras que afetam o equilíbrio de poder entre a administração central e as municipalidades, foram arrefecidas pela resistência empresarial. Voltam a ser enfrentadas agora por um governo de economistas e advogados formados em universidades estrangeiras focados em submeter as disputas políticas a resultados.

Na mesma rota das democracias ocidentais, a China tenta empreender a centralização de sua política fiscal e enfrenta a resistência de governos locais. Houve alguma flexibilização na previdência social, que na China é local, permitindo que os trabalhadores, ao migrarem, carreguem suas contribuições, mas as maiores barricadas mesmo foram levantadas na reforma fiscal. O governo quer centralizar a arrecadação do imposto sobre valor agregado que hoje é recolhido nos bairros, sob a estreita proximidade de empresários e coletores locais que têm poder discricionário sobre isenções e diferimentos.

As metas de crescimento são um instrumento político nas mãos das municipalidades. Não há estatais centralizadas como no Brasil. O exemplo usado foi o da CNR, fabricante de vagões ferroviários que é, na verdade, uma holding de pequenas empresas distribuídas pelo território e que competem entre si, inclusive em licitações internacionais.

Quando o governo central determina que haja uma redução na produção de vagões, a municipalidade em que está sediada um das subsidiárias da estatal, reage. A operação daquela empresa é fundamental para que o governo local atinja a meta de crescimento demandada pela autoridade central e cobrada pela população da instância de governo que lhe é mais próxima.

É o atendimento a essas metas que determina, em grande parte, a ascensão dos burocratas locais na estrutura do Partido Comunista. Antes da renovação do conselho consultivo do partido, em 2017, dificilmente haverá condições de se enfrentar esse pacto político que mantém o poder das municipalidades.

Até lá, o governo vai investir decididamente em casar setores que produzem em excesso com a demanda externa. É o caso da infraestrutura. O Banco Asiático de Desenvolvimento, por exemplo, hoje empresta US$ 10 bilhões por ano. Deve chegar a US$ 200 bilhões em 2020. Quando um dirigente chinês vai à Inglaterra está focado no aeroporto de Manchester. Quando vai ao Canadá, o objetivo é levar o gasoduto que corta o país de leste a oeste.

A visita ao Brasil do primeiro-ministro chinês coincidiu como emparedamento das gigantes da infraestrutura brasileira que lançaram a carta geopolítica para pressionar o governo a defendê-los na carceragem de Curitiba para enfrentar um governo que oferece os predicados de sua indústria à conquista de mercado.

A troca de fiação
A abertura da infraestrutura brasileira a empresas estrangeiras, que contam com fontes próprias de financiamento corrobora a visão de setores do governo brasileiro, capitaneados pelo Ministério da Fazenda, de que a mudança de modelo do país passa pela desalavancagem dos bancos públicos.

A mudança, que o ministro Joaquim Levy, em entrevista ao Valor, chamou de 'troca de fiação', passa ainda pela abertura de capital em empresas como a Caixa Seguridade e o Instituto de Resseguros do Brasil.

Esta toada foi contraditada com o lançamento do Plano de Proteção ao Emprego, capitaneado por um dos principais aliados do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Esplanada, o ministro do Planejamento Nelson Barbosa, e visto, na Fazenda, como mais um subsídio do Tesouro.

A turbulência na Bolsa de Xangai abre um novo round nessa disputa. O de que o Brasil estará tanto mais apto a receber o capital que deixa a China quanto mais fiscalista se mostrar.

Celso Ming - Perto da cumieira

- O Estado de S. Paulo

Como na vida, tem coisa boa e coisa ruim na evolução do IPCA, ontem divulgada.

Antes disso, alguns números: a inflação de junho foi de 0,79% (maio, 0,74%) e no primeiro semestre, 6,17% (3,75% em 2014).

De bom, há a relativamente baixa inflação de alimentos e bebidas (0,63%, contra 1,37% em maio), fator que ajudou a segurar a inflação do mês e indica certo recuo para os meses seguintes. Também vai ficando claro que o impacto dos reajustes dos preços administrados (tarifaços), que descarregaram a pressão que havia sido acumulada ao longo de 2014 pelo governo Dilma, já deu quase tudo o que tinha de dar. Ainda há uma ponta de estoque a desovar, principalmente nos reajustes dos combustíveis e alguma coisa nas tarifas de energia elétrica, mas o grosso desse ajuste está feito.

De ruim nessa narrativa é o salto da inflação medida em 12 meses. Em junho, chegou aos 8,89%, o mais alto desde 2003 e, em julho, deverá avançar para além dos 9,00%. Fácil de entender por que: a inflação de julho do ano passado, que vai sair do cálculo da evolução em 12 meses, foi de apenas 0,01% e a que vai entrar será de pelo menos 0,43%, a julgar pelos prognósticos da Pesquisa Focus.

É fator negativo, na medida em que a economia brasileira ainda trabalha com reajustes pela inflação passada (indexação). Esses nove por cento e quebrados serão descarregados sobre os reajustes salariais e, um pouco mais ou pouco menos, para o restante dos preços. Em todo o caso, dá para dizer que a cumieira da inflação em 12 meses está para ser atingida. A partir de agosto, provavelmente começa a cair - se nenhuma surpresa ruim aparecer. Entre os focos de surpresa ruim pode estar nova alta do dólar em reais, c0nsequência do preocupante desempenho da economia da China. Se o câmbio interno voltar a pressionar os preços internos dos produtos importados - derivados do petróleo entre eles -, não fica descartada nova estocada nos preços.

No mais, a inflação continua espalhada demais. Nada menos que 68% dos itens que compõem a cesta de consumo apresentaram alta em junho. É um índice de difusão mais baixo do que o de maio (70%), mas, ainda assim, muito alto. Indica que nem tudo é obra das remarcações dos preços administrados.

Na lógica do Banco Central há um saldo de inflação de demanda a ser atacado por meio da política monetária (política de juros).

Alguns analistas se arriscam a apostar em que o Banco Central começará a reduzir a dose da alta dos juros, de meio ponto porcentual por vez, para apenas um quarto. Hoje, os juros básicos (Selic) estão nos 13,75% ao ano. Mas esse corte é mais torcida de que seja assim do que tendência firme.

Mais provável é que, na sua reunião marcada para o dia 29 deste mês, o Copom continue cravando alta de 0,5 ponto porcentual e se prepare para reduzir a dose nas duas reuniões seguintes, para só então dar a parada esperada e começar a baixar os juros nos primeiros meses de 2016.

Míriam Leitão - Ruim de conta

- O Globo

O Programa de Proteção ao Emprego está correndo o risco de desagradar a todos. Recebeu críticas de trabalhadores, empresas e do FAT. O plano é o governo pagar uma parte do salário do trabalhador do setor privado, através do FAT, que já está precisando de aportes, e em um momento em que o governo adiou o pagamento do abono salarial.

O PPE quer proteger o emprego de quem ganha até R$ 6.000. Só que o governo acaba de avisar que não pagará o abono a quem ganha até dois salários mínimos. Com o plano, o governo abre uma nova frente de gastos, no meio de corte de despesas. O argumento é que o programa custará pouco e economizará muito porque evitará demissões e, portanto, os custos do seguro-desemprego e saques do FGTS. As contas, no entanto, não convencem.

Os governos Lula e Dilma se especializaram em lançar programas que viram rombos. Na hora do lançamento, os gastos são subestimados, e as receitas, superestimadas. Quando vem a realidade, muitas vezes, os planos têm que ser suspensos ou reduzidos. O PPE tem a boa intenção de conter a alta do desemprego, mas segundo o governo tem custo pequeno, evita demissões e aumenta a arrecadação. Será?

O governo teme o aumento das demissões, e com razão. Imaginava que seriam perdidos 200 mil postos de trabalho no ano. O cálculo agora é que se aproximará de um milhão. O gasto com seguro-desemprego disparou quando o mercado de trabalho estava bom. Como será agora? O programa tenta evitar demissões estabelecendo a possibilidade de redução da jornada, com redução do salário, e o governo pagando, através do combalido FAT, 15% do salário dos trabalhadores das empresas que aderirem.

O programa foi lançado em meio a discursos contra os "golpistas" por parte do ministro Miguel Rossetto, e com cálculos nada convincentes. Periga ser mais um factoide pensado para ser uma arma na tal guerra política. Apresentou-se o seguinte raciocínio: qual seria o gasto com seguro-desemprego, quanto seria sacado do FGTS, quanto se perderia com queda de arrecadação? A partir desse número - não divulgado -, calcula que pagar 15% dos salários é mais barato.

Empresas do setor de serviços dizem que ele foi feito para ajudar as montadoras, mas duas montadoras já disseram que não vão aderir. O conselho do FAT avisou que não tem dinheiro.

Se for adotado por muitas empresas, o gasto será mais do que o governo calculou. Isso num momento em que o país está com um déficit nominal de 7,9% do PIB, e a dívida bruta subiu 10 pontos percentuais e chegou a 62% do PIB durante o governo Dilma.

A dúvida é sobre a solidez dos cálculos porque o histórico deste governo não é bom. Programas como o Fies e o Plano de Sustentação do Investimento (PSI) tiveram gastos além das contas e criaram esqueletos.

O PSI não sustentou o investimento e seu custo teve que ser pedalado para adiante. Lançado em junho de 2009, tinha o objetivo de estimular a compra de máquinas, equipamentos, caminhões e ônibus, no auge da crise, e fazer a taxa de investimento subir. Tinha duração de seis meses e oferecia financiamento com juros baixos, de 4,5% em algumas linhas, enquanto a Selic, estava na casa de 9%. A diferença era o gasto do Tesouro, que teve, portanto, um custo variável: quanto maior a Selic, maior a despesa.

O então ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao prorrogar o PSI, em março de 2010, em meio à campanha para eleger a presidente Dilma, projetava um "crescimento sustentado do PIB" de 5,5% nos próximos quatro anos, "sem pressão inflacionária", e um "superávit nominal" a partir de 2013. O que aconteceu, hoje se sabe, foi o período de mais baixo crescimento desde a implementação do plano real. As receitas desabaram, e os gastos explodiram.

A conta do PSI até hoje está sendo paga, graças à Portaria 357, assinada pelo então ministro interino da Fazenda Nelson Barbosa em 15 de outubro de 2012. Barbosa determinou que o desembolso do Tesouro para a equalização de juros só aconteceria 24 meses depois da contração do crédito. Essa manobra está sendo contestada pelo TCU.

Planos que envolvem gastos públicos têm que ser bem calculados para que não se descubra, tarde demais, que se criou outro rombo.

Chumbo trocado – Editorial / O Estado de S. Paulo

A reação de forças governistas e oposicionistas aos desdobramentos da crise política está virando bate-boca de botequim e ameaçando descambar para o perigoso campo da galhofa. Foi a própria presidente da República quem definiu a nova matriz do Festival de Besteiras que Assola o País, com as sandices que verteu abundantemente em entrevista à Folha de S. Paulo, tais como chegar à beira do chilique – "Não vou cair! Não vou cair!" – ao negar a possibilidade de seu afastamento do cargo, ou quando, numa tentativa canhestra de posar de heroína, voltou a tratar como se fossem a mesma coisa a delação obtida por tortura física praticada nos porões da repressão ditatorial e a delação premiada que está ajudando a Justiça a desvendar o escândalo de corrupção na Petrobrás.

Todo mundo sabe que nas desarticuladas manifestações de improviso de Dilma Rousseff nem sempre impera a lucidez, para não falar em senso de oportunidade política. Assim, somente a irreprimível autossuficiência da chefe do governo é capaz de explicar a desastrada entrevista. Desastrada porque forneceu munição aos oposicionistas, conforme as queixas off the record colhidas dentro do próprio PT. Também lamentável porque rebaixou o parâmetro do debate político, como se pode constatar pelo nível dos ataques com que governistas e oposicionistas passaram a se contemplar mutuamente.

Um bom exemplo de que o cenário político começa a descambar para o vale-tudo é dado por um notório adepto da política do porrete, o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), em declaração registrada pelo Globo: "Baixar a bola? Nós vamos é para cima deles. Não tem essa de amenizar. Vamos para a beligerância". É o caso de perguntar: partir "para cima" como, se a tigrada não dá conta nem mesmo de defender o governo instalado no Planalto?

Na tarde de terça-feira, os dirigentes dos partidos da falida base aliada – menos PP e PTB – reuniram-se na Vice-Presidência, convocados por Michel Temer, para, a pedido do Planalto, divulgar uma nota de apoio à presidente da República diante das ameaças de afastamento do cargo. Para não perder o hábito dos tempos em que podia tratar os aliados como subordinados, o presidente do PT, Rui Falcão, chegou ao encontro com o documento pronto, vazado em termos de vigoroso repúdio ao "golpismo" da oposição e à tendência do Tribunal de Contas da União (TCU) de rejeitar as contas do governo relativas a 2014, o que abriria a possibilidade de o Congresso colocar em pauta o impeachment de Dilma. A pouca disposição dos demais partidos de comprar briga defendendo a presidente obrigou Falcão a mexer no texto, que acabou se transformando numa nota de apoio pro forma, na qual se registra o "respeito à Constituição e seu inarredável compromisso com a vontade popular expressa nas urnas e com a legalidade democrática".

Por parte da oposição, coube ao senador Aécio Neves rebater a acusação de golpismo, em nota na qual afirma que "discurso golpista é o do PT, que não reconhece os instrumentos de fiscalização e de representação da sociedade em uma democracia", para arrematar: "Tudo o que contraria o PT é golpe".

Com o tiroteio entre governistas e oposicionistas ganhando intensidade, chamaria a atenção o silêncio atrás do qual Lula se tem protegido nos últimos dias, não fosse exatamente esse o padrão de comportamento do ex-presidente nos momentos mais agudos de qualquer crise que lhe possa trazer prejuízos políticos. A radicalização que domina o cenário só permitiria a Lula tomar o partido de Dilma, algo que decididamente não lhe interessa no momento, já que aparentemente ele não tem ainda clara a melhor estratégia para preservar sua ambição de voltar ao Planalto em 2018.

Para Lula, o melhor cenário é aquele que lhe permita assumir o comando da oposição a um governo desmoralizado. De preferência, se a mão do gato se encarregar de tirar Dilma da frente.

A atitude de Lula é a maior evidência de que a possibilidade de afastamento de Dilma – o "golpismo", como acusa o PT – não é a causa, mas a consequência da atual crise política que, por sua vez, é o resultado da incompetência de uma presidente que apenas 9% da população apoia e do mar de lama em que chafurda parte da elite do PT e aliados.

A banalização do uso da palavra ‘golpe’ – Editorial / O Globo

• Não há quebra da ordem institucional quando o Estado age dentro da lei, de forma impessoal, sem discriminações de qualquer ordem

O PT foi rápido no gatilho ao sacar a denúncia de que há um “golpe” em marcha contra a presidente Dilma. Tem sido esta a reação-padrão do partido em momentos difíceis no poder. Foi assim no mensalão, quando a denúncia do então deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) permitiu a investigação de um esquema de compra de votos no Congresso para apoiar o governo Lula, com a condenação de petistas ilustres e aliados, entre eles o próprio Jefferson.

A operação dissimuladora se repete agora, quando a presidente bate recordes negativos de popularidade, e enfrenta duas frentes ameaçadoras: enquanto as contas de seu último ano do primeiro governo estão sob análise no TCU, o empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, considerado o chefe do cartel que atuou no petrolão, tem depoimento marcado para a semana que vem no TSE, onde deverá repetir o que confessou em testemunho prestado sob o regime de delação premiada — que propinas pagas em negócios bilionários com a Petrobras foram “lavadas” como doações legais à campanha da presidente.

Admita-se que a atmosfera em torno do governo e do partido da presidente esteja carregada. Mas nada que nem de longe indique haver um golpe sendo urdido. Há, tão-somente, instituições funcionado dentro das prerrogativas constitucionais. Como o TCU e o TSE.

O mesmo acontece na Operação Lava-Jato. A Polícia Federal e o Ministério Público investigam, encaminham denúncias ao juiz federal Sérgio Moro. Este as acolhe ou não, decreta prisões, provisórias ou preventivas, advogados de defesa impetram pedidos de habeas corpus, aceitos ou não por instância superiores. O tratamento tem sido impessoal, como estabelece a lei, sem preocupações com sobrenomes e filiações partidárias.

Quando o PT encaminha propostas contra a Carta, por exemplo, como o da "Assembleia Constituinte exclusiva" para tratar da reforma política, o Congresso, dentro de suas prerrogativas, cauteriza a manobra, sem crises e enfrentamentos. O mesmo ocorre quando se tenta encaminhar plebiscitos descabidos. São lances do jogo democrático.

A presidente Dilma, em reações instintivas, parece regredir ao passado da luta armada ao fazer descabida confusão entre delação premiada, ato jurídico perfeito, com delação feita sob tortura em regime de exceção. O mesmo aconteceu na entrevista à "Folha de S.Paulo", na qual garantiu que "não cai", ao lembrar como reagia nos interrogatórios na prisão.

Se, no lado da oposição, há alguma exacerbação diante de hipóteses de impeachment, mesmo que hoje inexista prova concreta que justifique a abertura de processo contra Dilma, no campo petista vislumbra-se um quadro "golpista", com descabidas comparações com 1963/64, em surtos delirantes. O momento é de todos voltarem à realidade.

Caetano Veloso - Sampa

Pablo Neruda - Tu eras também uma pequena folha

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Opinião do dia – Aécio Neves: O discurso do golpe

“O discurso do golpe que vemos hoje assumido pela presidente da República, e repetido pelos seus ministros e pelos petistas, nada mais é do que parte de uma estratégia planejada para inibir a ação das instituições e da imprensa brasileiras no momento em que pesam sobre a presidente da República e sobre seu partido denúncias da maior gravidade.

Para o PT, se o TCU identifica ilegalidades e crime de responsabilidade nas manobras fiscais autorizadas pela presidente da República, trata-se de golpe.

Para o PT, se o TSE investiga ilegalidades na prestação de contas das campanhas eleitorais da presidente da República, trata-se de golpe.

Se a Polícia Federal e o Ministério Público investigam crimes de corrupção praticados por petistas, para o PT trata-se de golpe.

Tudo que contraria o PT, e os interesses do PT, é golpe!

Na verdade o discurso golpista é o do PT, que não reconhece os instrumentos de fiscalização e de representação da sociedade em uma democracia.

O discurso golpista do PT tem claramente o objetivo de constranger e inibir instituições legítimas, que cumprem plenamente seu papel.

Os partidos de oposição continuarão atentos e trabalhando para impedir as reiteradas tentativas do PT para constranger e inibir a autonomia e independência das instituições brasileiras.”

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Aécio Neves é senador e presidente nacional do PSDB.

Plano já sofre resistência de empresas e sindicatos

Pouca adesão ao plano do governo

• Proposta para reduzir jornada e salário enfrenta resistência de sindicatos e empresas

Ana Paula Machado – O Globo

SÃO PAULO, RIO e BRASÍLIA - Anunciado para evitar um corte ainda maior de postos de trabalho, o Plano de Proteção ao Emprego enfrenta resistência de empresas e sindicatos e já corre o risco de produzir resultados muito aquém do esperado pelo governo. Menos de 24 horas depois da divulgação do plano, a General Motors comunicou a redução permanente de 5% de seus empregados em São Caetano do Sul, no ABC paulista - o equivalente a cerca de 500 funcionários. As demissões começaram na segunda-feira, mesmo dia em que Luiz Moan, diretor de Assuntos Institucionais da GM e presidente da Anfavea, associação das montadoras e entidade que colaborou com a elaboração da proposta, participava do lançamento do plano Brasília.

Em nota, a GM declarou apoiar o novo programa, mas ressaltou que "no caso específico de necessidade de restruturação de uma operação industrial para adequar sua organização a uma nova realidade de mercado, não é o melhor caminho neste momento". A Fiat também informou que não pretende aderir ao programa. Já a Volkswagen e a Mercedes-Benz disseram que ainda aguardam definição melhor da proposta.

Saboia: "Medida é boa para trabalhador"
A medida provisória que criou o plano autoriza empresas a reduzir jornada de trabalho e salários em até 30%, pelo período máximo de um ano. Na prática, porém, a perda do trabalhador seria de no máximo 15%, porque o governo vai usar dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para bancar metade do salário cortado. Antes de ser adotada, a medida precisa ser alvo de acordo coletivo entre empresas e trabalhadores. E sindicalistas também preveem dificuldades para negociar o corte de salários.

- A premissa tem de ser o menor impacto possível nos salários. Podemos, por exemplo, negociar uma redução de 10% da jornada e do salário, mas com as empresas bancado os 5% em forma de vale-alimentação. É uma possibilidade - afirmou o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Rafael Marques.

Mais enfático, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Betim e região, João Alves, disse que o plano "não foi bem recebido" e não haverá negociação para redução de jornada e salário.

- Esse é um programa de proteção à empresa, e não ao emprego. Não há como o trabalhador pagar sozinho a queda do mercado. O governo, para defender realmente os empregos, deveria adotar medidas mais eficazes de controle da inflação e reduzir a taxa de juros para estimular os investimentos no país - afirmou.

De acordo com o Ministério do Trabalho, pelo menos cinco setores já manifestaram interesse em aderir ao PPE: automotivo, carnes, açúcar e álcool, componentes eletrônicos e metalúrgico. Um comitê do governo ainda vai definir os segmentos que podem aderir, mas segundo o ministério, são potenciais beneficiários aqueles que recorrem ao lay-off (suspensão temporária do contrato de trabalho). Entre janeiro e junho, 11.481 trabalhadores, principalmente da indústria (fabricação de automóveis e álcool) e agropecuária (cultivo de cana-de açúcar), foram colocados em Lay-off .

Especialista em mercado de trabalho, o professor da UFRJ João Saboia, afirma que, diante da crise, a proposta do governo é boa para o trabalhador. Mas há dúvidas sobre o interesse das empresas.

- Para o trabalhador, reduzir a jornada em 30% ganhando 85% do salário é uma proposta muito positiva, mas a empresa vai ter que assumir alguns compromissos, como a estabilidade ao fim do período. Resta saber o que a empresas estão pensando. Se não tiver perspectiva de melhoria na frente, não vão querer o acordo, vão insistir na demissão - diz.

Entre as empresas de máquinas e equipamentos, a previsão também é de baixa adesão ao plano.

- Num momento como este, todos devem dar a sua contribuição. Mas há no Brasil a cultura de que toda proposta que vem do empregador é contra o empregado. Não querem perder. Não conseguem compreender que pode se perder o anel, mas não o dedo - afirma o diretor de Assuntos Tributários, Relações Trabalhistas e Financiamentos da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Hiroyuki Sato.

"Lei difícil de pegar"
Segundo Sato, o setor de máquinas e equipamentos deve ser um dos que não deve aderir ao PPE. Além das negociações mais duras com os sindicatos, muitas fabricantes não têm Certidão Negativa Débito (CND) adequada para se candidatar ao programa:

- O setor está em situação complicada há muito tempo, e as empresas preferem pagar os salários do que os impostos.

A Whirlpool, donas das marcas Brastemp e Consul, não deve aderir ao programa, segundo um alto executivo da empresa. Neste ano, a Whirlpool reduziu sua folha de pagamento em 3 mil pessoas. No total, a companhia emprega cercas de 18 mil pessoas no país.

- O empregado tem que ter em mente que ele vai perder até 15% do seu salário. É a contrapartida dele. E isso, vai ser difícil de negociar. Além disso, os ajustes que fizemos ao longo do ano já nos dão condições de enfrentar esse momento de crise. No ambiente atual, é uma lei difícil de pegar - disse o executivo.

A redução de salários com corte de jornada já era prevista na legislação trabalhista, desde que negociada com os sindicatos dos trabalhadores. A diferença é que no programa antigo, criado em 1998, não havia ajuda por parte do governo. Segundo Sérgio Leite, da Força Sindical, os acordos gerados desde então foram esporádicos:

- Essa permissão é muito antiga. Mas pouco utilizada. Não temos levantamento porque esses acordos são muito dispersos -disse Leite.

Oposição reage a Dilma; para Aécio, ‘discurso golpista é do PT'

Reação de Dilma à crise faz oposição e PT trocarem acusações de 'golpismo'

• Turbulência. Sem apoio político e acuada por ações no TCU e no TSE, presidente afirma que não vai "cair" e acusa opositores de tentarem abreviar seu mandato; Aécio vê "golpe" em discurso para constranger investigações, e Alckmin diz que "fatos decidirão futuro"

Isadora Peron, Ricardo Brito – O Estado de S. Paulo

A ofensiva da presidente Dilma Rousseff para tentar conter a escalada da atual crise política provocou ontem reações entre governistas e oposição, que trocaram acusações de "golpismo" e colocaram o tema do impeachment e de qualquer outra forma de abreviamento do atual mandato dela no centro da agenda pública do Palácio do Planalto e do Congresso.

Em entrevista publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, Di1ma afirmou: "Eu não vou cair, eu não vou. Isso é moleza, é luta política. As pessoas caem quando estão dispostas a cair. Não estou. Não tem base para eu cair". Ela também desafiou a oposição a derrubá-la: "E venha tentar, venha tentar".

Conforme mostrou o Estado ontem, Dilma prometeu, em conversas reservadas com seus assessores, defender seu mandato "com unhas e dentes". Em nota, o senador Aécio Neves, presidente do PSDB, reagiu. "Na verdade, o discurso golpista é o do PT, que não reconhece os instrumentos de fiscalização e de representação da sociedade em uma democracia."

Para a oposição, Dilma assumiu um discurso de vitimização para barrar as investigações relativas ao governo e à campanha presidencial. Logo no início da tarde, Aécio divulgou nota apontando o que chamou de estratégia para "constranger" e "inibir" a ação das instituições, como o TCU, responsável pela análise das contas de governo, e o Tribunal Superior Eleitoral, que investiga as contas de campanha de Dilma. "Tudo que contraria o PT, e os interesses do PT, é golpe! O discurso golpista do PT tem claramente o objetivo de constranger e inibir instituições legítimas, que cumprem plenamente seu papel", afirmou em nota o senador tucano.

Em São Paulo, mesmo o governador Geraldo Alckmin, considerado um moderado dentro do partido, também criticou Dilma. "Eu acho que ela (Dilma) foi infeliz (nas declarações). Nós (da oposição) cumprimos a Constituição. Os fatos é que decidirão o futuro. Nós temos é o dever de cumprir a Constituição e apurar as coisas. Ninguém deve ter medo de apuração, de investigação", afirmou o governador paulista.

Reação. Na entrevista, a presidente disse que as previsões de que não termina seu mandato partem "do ponto de vista de uma oposição um tanto quanto golpista". A ofensiva de Dilma foi comemorada por setores do PT que achavam a presidente "apática" diante da crise.

A bancada petista no Senado divulgou nota dizendo que "Aécio Neves parece cada vez mais inspirado pelo espírito golpista (...) e deveria se inspirar mais na figura democrática e visceralmente antigolpista de seu avô, Tancredo Neves". Reservadamente, o conteúdo das falas de Dilma, no entanto, não gerou consenso entre os governistas, temerosos de que ela tenha colocado o tema no centro da agenda política. Depois de ter divulgado a nota, Aécio disse que a presidente deveria se preocupar mais com as movimentações dos seus aliados. "Deixo aqui para ela (Dilma) uma sugestão: se ocupe cada vez menos da oposição e se preocupe mais com seus aliados", afirmou o senador.

Integrantes do PMDB procuraram a cúpula tucana para sondar qual seria a receptividade do partido em relação a um eventual governo do vice-presidente da República, Michel Temer. O presidente nacional do DEM, senador Agripino Maia (RN), disse que Dilma tem de provar a sua inocência em relação às acusações e não se fazer de vítima. "A presidente parece achar que a vitimologia será mais forte do que os argumentos jurídicos contidos nas ações que ela terá que enfrentar no TCU e no TSE."

Para oposição, Dilma tenta inibir ação de tribunais

• Aécio diz que presidente quer "constranger" investigações no TCU e no TSE

• Em entrevista à Folha, petista falou em "certa oposição golpista" e que não há base real para afastá-la

Flávia Foreque, Mariana Haubert, Marina Dias e Valdo Cruz – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Em resposta ao desafio lançado pela presidente Dilma Rousseff em entrevista à Folha, quando disse que os adversários não terão êxito se tentarem afastá-la do cargo antes do fim do seu mandato, líderes da oposição acusaram a petista de tentar constranger as instituições que investigam as contas do governo e sua campanha à reeleição.

O presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), disse que viu na entrevista a presidente "cada vez mais fragilizada", tentando "constranger e inibir instituições legítimas" como o TCU (Tribunal de Contas da União) e o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

O TCU apontou irregularidades nas contas do governo Dilma em 2014. O TSE conduz uma investigação sobre suspeitas de abuso de poder econômico durante a campanha da presidente à reeleição.

"O discurso golpista é o do PT, que não reconhece os instrumentos de fiscalização e de representação da sociedade em uma democracia", afirmou o senador tucano em nota distribuída para rebater as declarações da presidente.

"Os partidos de oposição continuarão atentos e trabalhando para impedir as reiteradas tentativas do PT para constranger e inibir a autonomia e independência das instituições", acrescentou.

Em entrevista à Folha, Dilma chamou os adversários para briga: "Eu não vou cair", disse. "Não tem base para eu cair. E venha tentar". Ela afirmou que alguns de seus opositores tem comportamento "golpista", sem identificá-los.

O líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado (GO) questionou os ataques da petista à oposição. "Ela é imune a tudo? É uma postura imperial, não é uma postura republicana." Para ele, a presidente está "escrevendo o script" de quem está deixando o poder.

O líder do PSDB na Câmara, deputado Carlos Sampaio (SP), disse que Dilma revelou "prepotência" e "uma desconsideração para com os órgãos de controle do país".

Vista como sua primeira reação significativa depois do agravamento da crise política, a entrevista da presidente recebeu várias manifestações públicas de apoio na base governista, mas não foi unanimidade entre seus aliados.

Reservadamente, senadores do PMDB e do PT avaliaram que Dilma exagerou no tom. Um peemedebista disse que ela "deu uma de Collor" e "chamou a crise para si".

Um petista afirmou que a presidente atrapalhou toda uma articulação montada na última segunda-feira (6) para baixar a temperatura da crise e provocou novas reações da oposição contra ela.

Segundo ele, estava tudo acertado para que líderes governistas assumissem a defesa de Dilma, como ocorreu na divulgação de uma nota conjunta em apoio a ela, assinada por 11 partidos aliados.

Além da articulação para que os ministros Nelson Barbosa (Planejamento) e Luís Inácio Adams (Advocacia-Geral da União) fossem acionados para dar "explicações exaustivas" ao Congresso.

Foi aprovado nesta terça (7) convite para que os dois falem no Congresso sobre as chamadas "pedaladas fiscais", que são consideradas irregulares por técnicos do TCU e podem levar à rejeição das contas de Dilma. Eles já foram nesta terça à Câmara falar com a bancada do PT.

O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), acusou Aécio Neves de ser o "porta-voz do golpe" e pediu que honrasse a "história de seu avô", o presidente Tancredo Neves (1910-1985).

A nota dos partidos aliados, costurada pelo governo e elaborada durante reunião no gabinete do vice-presidente Michel Temer, diz que eles "manifestam o seu apoio à presidenta e ao vice-presidente" e "reafirmam seu profundo respeito à Constituição".

Aliados criticam tom e dizem que fala não estanca crise política

Vera Magalhães – Folha de S. Paulo

A presidente Dilma Rousseff repetiu várias vezes na entrevista à Folha que não vai cair, como se todos os caminhos possíveis para abreviar seu mandato dependessem de ato de vontade.

Nas três hipóteses que podem levar a esse desfecho --impeachment, cassação ou renúncia--, só a última depende exclusivamente dela.

O tom "bravateiro" e "autossuficiente" da presidente, como classificaram dois aliados de proa, não agradou nem mesmo o PT e os partidos da base.

Um petista diz que não é o momento de a presidente querer "resolver tudo sozinha", "no gogó". Um cacique peemedebista notou que não cabe à presidente discutir o próprio impeachment.

A fala não pacificou nem a ala do PT que, na véspera, se queixava do alheamento da presidente diante da escalada vertiginosa da crise.

Enquanto tucanos berravam na convenção de domingo que seu governo podia ser abreviado, Dilma saudava nas redes sociais a vitória do Chile sobre a Argentina.

Além disso, aliados se queixam da falta de perspectivas na entrevista. Dilma bate no peito e diz que fica, mas não fala em conciliação institucional nem no pós-ajuste.

Os mais realistas no governo e no PT sabem que apontar a "oposição golpista" como a origem das ameaças funciona para a plateia, mas não condiz com a realidade.

Ministros do STF, do TSE e do TCU, senadores e deputados de vários partidos da base, advogados e empresários conversam sobre meios de ejetá-la da cadeira, analisando qual é mais viável, mais rápido, menos traumático.

Nenhum desses atores se lançará de pronto ao "fora Dilma". Todos sabem que faltam provas de crime de responsabilidade ou crime eleitoral da petista, apoio popular e união de forças políticas para galvanizar o processo.

Ao circunscrever o tema à oposição Dilma corre o risco de não estancar a sangria.

É o PMDB que pode fazer avançar alguma das frentes abertas para apeá-la do poder. E a negociação no partido não se dá num só guichê, mas em pelo menos três.

Aliados querem que Temer deixe articulação

• Saída já havia sido pregada por Eduardo Cunha; agora, pressão vem do grupo mais próximo do vice-presidente

• Interlocutores do peemedebista pregam aproximação com a oposição e setores distantes de Dilma

Daniela Lima, Bela Megale – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Integrantes do grupo político do vice-presidente Michel Temer no PMDB passaram a pressioná-lo para deixar a articulação política do governo Dilma Rousseff.

A saída de Temer do posto já havia sido pregada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que lidera sua própria ala na sigla. Agora, no entanto, a mudança de posição passou a ser defendida pelos principais interlocutores de Temer.

"Nós dissemos a ele que o papel que lhe deram na articulação política termina por apequenar a sua história. O colocam como responsável por negociar cargos e não é essa a contribuição que ele deve dar", avalia o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB-BA). "O vice-presidente não tem que ficar debatendo sobre as vagas na Docas do Pará, entende?"

Segundo pessoas próximas a Temer, a ala de entusiastas da sua saída do posto de articulador político do governo conta ainda com o ministro da Secretaria de Aviação Civil, Eliseu Padilha, e o ex-ministro Moreira Franco.

Esse grupo esteve reunido com Temer na noite desta segunda-feira (6), no Palácio do Jaburu, em Brasília.

As conversas foram até a madrugada. Esses interlocutores avaliam que Temer deveria assumir um papel "de estadista", articulando uma saída para a crise com setores que hoje estão em conflito com o governo Dilma.

Aliados do vice-presidente têm buscado diálogo com líderes da oposição e de grupos que estão divorciados da petista, como o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). O próprio Temer tem conversado discretamente com nomes como o senador José Serra (PSDB-SP).

Ele também enviou sinais de que gostaria de marcar uma reunião com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB). Os dois nomes têm externado uma postura mais amena no tucanato em relação a um desfecho para a crise que atinge a presidente Dilma.

A oposição aposta em duas frentes para ter base jurídica para formular um pedido de afastamento: uma condenação no TCU (Tribunal de Contas da União) pelas chamadas pedaladas fiscais, ou uma condenação no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2014.

No primeiro caso, apenas a presidente ficaria vulnerável ao impeachment. Uma condenação eleitoral, no entanto, poderia contaminar toda a chapa da disputa presidencial, o que implicaria o risco de afastamento de Dilma e Temer, seu vice.

A ala paulista do PSDB tem dito que a queda de todo o governo ampliaria o clima de instabilidade no país, o que vem sendo interpretado como um sinal de que teria preferência pela saída menos "traumática": a manutenção de Temer no poder até 2018.

Auxiliares diretos do vice-presidente, no entanto, dizem que ele não vai influenciar essas conversas e que agora está preocupado em cumprir seu papel institucional de auxiliar o governo e o país a atravessarem a crise.

"O Temer chegou aonde chegou sendo cauteloso e moderado. Até porque sabe que, num movimento em falso, pode se tornar alvo dos dois lados [PT e PSDB]", avaliou um colaborador do vice.

Discurso do golpe faz parte de estratégia para inibir as instituições, diz Aécio sobre fala de Dilma

• Líderes do DEM veem bravata em entrevista sobre crise política

Chico de Gois / Cristiane Jungblut / Maria Lima – O Globo

BRASÍLIA — A oposição criticou nesta terça-feira as declarações da presidente Dilma Rousseff de que não vai cair e que há setores que desejam um golpe contra seu governo. Em nota, o presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves, disse que o discurso de Dilma é uma estratégia para inibir as instituições. O senador diz ainda que o PT tem discurso golpista, e não a oposição.

“O discurso do golpe que vemos hoje assumido pela presidente da República, e repetido pelos seus ministros e pelos petistas, nada mais é do que parte de uma estratégia planejada para inibir a ação das instituições e da imprensa brasileiras no momento em que pesam sobre a presidente da República e sobre seu partido denúncias da maior gravidade”, disse o senador.

Em entrevista ao jornal "Folha de S. Paulo", Dilma afirmou que não vai renunciar ao mandato porque não tem nenhuma culpa sobre os desvios de dinheiro na Petrobras e que enxerga uma "oposição um tanto quanto golpista" quando se diz que ela não concluirá seu mandato.

Aécio afirmou que tudo o que contraria o PT é tratado como golpe. O tucano diz que os petistas não reconhecem os instrumentos da democracia.

“Para o PT, se o TCU identifica ilegalidades e crime de responsabilidade nas manobras fiscais autorizadas pela presidente da República, trata-se de golpe. Para o PT, se o TSE investiga ilegalidades na prestação de contas das campanhas eleitorais da presidente da República, trata-se de golpe. Se a Polícia Federal e o Ministério Público investigam crimes de corrupção praticados por petistas, para o PT trata-se de golpe”, disse o senador, que completou:

"Na verdade o discurso golpista é o do PT, que não reconhece os instrumentos de fiscalização e de representação da sociedade em uma democracia".

Mais tarde, ao GLOBO, Aécio ironizou a reação inesperada da presidente Dilma aos discursos dos tucanos na convenção nacional do partido, no fim de semana, dando conta de que estariam preparados para assumir o governo, em caso de impedimento da chapa eleita em 2014, pela Justiça Eleitoral, se constatado crime eleitoral. Aécio disse que Dilma “piscou” e “passou recibo”.

— Ela se assustou. Olha o nível de instabilidade emocional e política da nossa presidente! Não achava que a nossa convençãozinha ia deixar a presidente Dilma tão assustada. Ela piscou. Está tão fragilizada que passou recibo. Se assustou em demasia com nossa convenção. A sorte dela é que somos nós , na oposição. Imagina nessa situação, se ela tivesse que enfrentar o PT como oposição? — comentou Aécio ao sair da comissão especial da reforma política.

Ao invés de partir para o ataque, dizendo que lutará por seu mandato com “unhas e dentes”, disse Aécio, a presidente da República teria que anunciar a Nação que irá usar todas as suas armas para baixar a inflação, o desemprego, e todos os índices negativos da economia para o Brasil voltar a crescer.

— O que ela vai fazer? Utilizar de novo a estrutura do Estado brasileiro para se manter no poder? Vamos aguardar os desdobramentos dos julgamentos que investigam prática de crimes na Justiça eleitoral e no TCU — disse Aécio

Entrevista movida pela emoção
Para o presidente do DEM, senador José Agripino, Dilma fez declarações movidas a emoção.

— Foi uma entrevista movida a pura emoção. A presidente parece achar que a vitimologia será mais forte do que os argumentos jurídicos contidos nas ações que ela terá que enfrentar no Tribunal de Contas da União (TCU), na Procuradoria Geral da República (PGR) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — , disse ele, referindo-se a processos que investigam se a campanha dela à reeleição recebeu recursos do esquema de corrupção na Petrobras; no TCU ela pode ter as contas rejeitadas por conta das pedaladas fiscais do ano passado.

Candidato derrotado nas eleições presidenciais de 2014, o senador disse que os partidos de oposição continuarão trabalhando para garantir a atuação das instituições, numa referência indireta ao TCU e apoio.

"Os partidos de oposição continuarão atentos e trabalhando para impedir as reiteradas tentativas do PT para constranger e inibir a autonomia e independência das instituições brasileiras", diz o senador.

Já o líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado (GO), acusou Dilma de não se comportar com a estatura que o cargo de presidente exige e de adotar uma "posição de desafio".

— Dilma adota uma postura imperial. Crime de responsabilidade fiscal? Golpe. Crime eleitoral? Golpe. Omissão como presidente do Conselho da Petrobras? Golpe. Então ela é imune a tudo? Caso essa tese prevaleça, todo cidadão amanhã vai se embasar no cargo que ocupa para dizer que qualquer tentativa de buscar aquilo que a legislação determina, seja eleitoral ou fiscal, é golpe — disse Caiado.

O líder do DEM na Câmara, Mendonça Filho (PE), afirmou que não é oposição, mas o próprio PT, quem tem criticado o governo da presidente.

— A principal reclamação que ela tem que fazer é contra o partido dela mesmo, porque as piores derrotas no congresso têm sido provocadas pelo PT. Quem tem mais vocalizado a respeito do desempenho dela na Presidência não é a oposição. O ex-presidente Lula tem dado carga muito forte, criticando a conduta dela — afirmou.

— Os aspecto relativos à sua reeleição são de ordem legais. Quem questiona é o TCU, que tem uma composição não partidária. Não há o que questionar na posição do TCU porque ele está cumprindo com suas atribuições. Corre um processo no TSE sobre o que foi praticado de forma inadequada durante a eleição do ano passado — observou o líder.

— Antes de fazer um discurso público na linha da bravata, acho que a presidente deveria tentar serenar os ânimos do país, mostrar uma direção, porque, infelizmente, o quadro atual é de muita contestação do processo de reeleição dela e do desempenho dela como presidente, que não oferece perspectivas de longo prazo — concluiu.

Para o líder do PSD, Rogério Rosso (DF), acredita que a Câmara precisa ter equilíbrio.

— A Câmara precisa exercer um papel de bombeiro e não de incendiário— disse.

Ele avaliou que o clima político está vinculado ao quadro econômico e, nesse sentido, é bom o governo apresentar medidas para melhorar a economia. Ele elogiou a Medida Provisória que será encaminhada ao Congresso e que permite a redução da jornada de trabalho e de salários.

Rosso elogiou a entrevista de Dilma e apontou uma mudança de espírito por parte da presidente.

— Quando ela diz que não vai cair, ela está convicta e tranquila sobre qualquer responsabilidade.

Para ele, a convenção do PSDB no fim de semana e declarações dos tucanos de que estariam prontos para assumir o poder fez com que Dilma reagisse.

Romero Jucá: Dilma, em entrevista, 'deu uma de Collor'

• Para peemedebista, presidente da República ‘chamou a crise para si’; Jorge Viana (PT-AC) diz que Dilma não deveria ter dado tanto destaque aos ataques da oposição

Maria Lima e Fernanda Krakovics – O Globo

BRASÍLIA — Aliados da base governista ficaram assustados com o teor e a repercussão política das declarações dadas pela presidente Dilma Rousseff em entrevista publicada nesta terça-feira pelo jornal "Folha de S.Paulo". Relator da reforma política na comissão especial do Senado, e um dos integrantes da cúpula do PMDB, o senador Romero Jucá (RR) lembrou os últimos momentos que precederam a crise que levou ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor .

— Pense num juízo! A presidente Dilma deu uma de Collor, chamou a crise para si — avaliou o senador peemedebista.

Jucá fez referência à postura de Collor antes de ser afastado do cargo. O ex-presidente dizia que cumpriria mandato até o último dia. Nesta sexta-feira, na entrevista, Dilma sentenciou:

— Eu não vou cair.

O senador Jorge Viana (PT-AC) afirmou que, na sua avaliação, a presidente Dilma não deveria ter dado tanto destaque às tentativas da oposição de abreviarem seu mandato.

— Não precisava ter gasto tanto tempo falando do PSDB. Deixa a gente (parlamentares) tratar dos golpistas. Isso é problema nosso — afirmou Viana.

A oposição também criticou nesta terça-feira as declarações de Dilma. Em nota, o presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves, disse que o discurso de Dilma é uma estratégia para inibir as instituições.

“O discurso do golpe que vemos hoje assumido pela presidente da República, e repetido pelos seus ministros e pelos petistas, nada mais é do que parte de uma estratégia planejada para inibir a ação das instituições e da imprensa brasileiras no momento em que pesam sobre a presidente da República e sobre seu partido denúncias da maior gravidade”, disse o senador.

Habitualmente crítico ao governo, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) elogiou o tom da entrevista de Dilma:

— Ela fez certo, a situação é grave. Ela pareceu, depois de muito tempo, a Dilma coração valente, disposta a brigar — disse Lindbergh, referindo-se ao slogan da campanha à reeleição.

Em 1992, durante solenidade no Palácio do Planalto, o então presidente Fernando Collor de Melo afirmou que ficaria no cargo até o fim de seu mandato. À época, Collor anunciara medidas que beneficiariam taxistas e caminhoneiros. Durante o discurso, ele pediu aos brasileiros para vestirem verde e amarelo em apoio a ele e ao seu governo.

— Peçam às suas famílias que no próximo domingo que saiam de casa com peças de roupa com uma das cores de nossa bandeira. Exponham nas janelas toalhas, panos e o que tiver nas cores da nossa bandeira. Quero pedir isso e irei cobrar de vocês esse pedido que lhes faço. No próximo domingo, nós estaremos mostrando onde está a verdadeira maioria: na minha gente, no meu povo, nos pés descalços, nos descamisados. Naqueles por quem fui eleito e para quem estarei governando até o último dia do meu mandato —disse Collor.

A estratégia de Collor, porém, foi malsucedida. Os chamados "caras-pintadas" foram às ruas vestidos de preto e pedindo o impeachment do então presidente. Dias depois, a CPI no Congresso concluiu que Collor foi beneficiado pelo suposto esquema de corrupção montado pelo ex-tesoureiro Paulo César Farias.