sexta-feira, 31 de julho de 2015

Claudia Safatle - As pedras no caminho de Levy

- Valor Econômico

• Crise política dificulta o conserto da economia

O balanço de risco para o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, aumentou de janeiro para cá.

A deterioração das contas públicas era muito pior do que ele imaginava; as condições de aprovação de medidas necessárias ao conserto da situação no Congresso são adversas; e o ambiente político está longe de permitir alguma discussão mais séria sobre o que fazer daqui por diante.

É praticamente impossível, hoje, sensibilizar as forças partidárias para, por exemplo, reduzir as vinculações do gasto público que deixam como despesa discricionárias menos de 10% do Orçamento. Ou encontrar alguém interessado em rediscutir os incentivos fiscais, as desonerações da folha de salários das empresas, de qualidade duvidosa e que reduzem as receitas da União em R$ 25 bilhões ao ano. Não comoveu ninguém o ministro mostrar estudos que revelam que cada emprego gerado com a desoneração custa ao governo entre R$ 80 mil e R$ 100 mil por ano. Ou, ainda, diante das constatações já visíveis das investigações da Operação Lava-Jato, se pensar em redimensionar o tamanho do Estado.

Levy tem batido na tecla da redução da dívida pública, cuja trajetória, afirma, inviabiliza a retomada do crescimento. A dívida bruta do governo geral, pelas projeções oficiais feitas após a redução das metas fiscais, chega a 64,7% do PIB este ano, sobe para 66,4% do PIB no ano que vem e encerra este mandato, em 2018, em 65,6% do PIB. Estimativas feitas por economistas do setor privado, com parâmetros distintos, indicam que pode ultrapassar 70% do PIB em 2017.

A dívida líquida sobe de 36,3% do PIB este ano para 38% do PIB em 2018, conforme a nova trajetória de superávit primário do governo. O problema não é necessariamente o tamanho da dívida como proporção do produto, mas a taxa de juros implícita na dívida líquida que é exorbitante. O juro, que em 2014 era de 19,3%, em maio havia subido para 24,8% em 12 meses e deve ter aumentado mais em junho. Os dados oficiais do Banco Central serão divulgados hoje. Para o governo federal e BC, a taxa implícita chegou a impressionantes 33,9% em maio.

A dívida líquida é composta de passivos e ativos com remunerações distintas. A taxa de juros implícita corresponde à média dos custos incidentes sobre esses ativos e passivos. O salto mais recente se deve às operações de "swap" cambial, mas os juros implícitos já eram muito altos antes. O que o BC perde nos swaps, com a depreciação da moeda, ele ganha nas reservas cambiais, com a diferença que o primeiro conta nos juros enquanto os ganhos das reservas, não.

Mesmo após os aumentos da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), cobrada nos financiamentos do BNDES, para 6,5% ao ano, ela está muito abaixo da Selic, de 14,25% ao ano. Esse é um outro fator de elevação dos juros implícitos, além do custo de carregamento das reservas cambiais.

No caso da TJLP, há um agravante. Como os créditos no âmbito do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) foram feitos a taxas pré-fixadas, quanto mais se aumentar a taxa de longo prazo maior será a despesa do Tesouro com a equalização de juros, que é um gasto primário, como lembrou o economista do Ibre, José Roberto Afonso.

A Selic, que teve um último aumento na quarta feira, para 14,25% ao ano, ficará nesse patamar "por um período suficientemente prolongado", segundo o comunicado do Copom, o que encarecerá mais os juros da dívida. A última vez que o Copom falou em manter os juros por período prolongado, em 2012, a estabilidade da taxa durou três reuniões. Agora, porém, o prazo deve ser maior. O mercado estima mudança só no fim do primeiro semestre de 2016.

Diante de trajetória tão desconfortável da dívida - que no limite levaria o país para uma situação de insolvência - a redução das metas de superávit primário dos próximos anos foi uma decisão difícil. Ainda mais tendo fresca na memória a lembrança da recente e traumática experiência da "nova matriz econômica", que patrocinou uma flexibilização geral dos instrumentos de controle fiscal e monetário, levando o país a um déficit primário, inflação de 9%, desemprego e desconfiança geral de empresas e consumidores. O resultado é a recessão e o aumento do desemprego que se vê este ano.

Quando Levy assumiu, evitou a piora do quadro geral de "ruptura" que se desenhava, com perda do grau de investimento pelo país, fuga de capitais, câmbio nas alturas, mais inflação e todas as consequências que se pode esperar de um processo dessa natureza. Não se imaginava, porém, que as condições políticas ficassem tão fora de controle e que as investigações da Lava-Jato contaminassem tanto a economia e as forças políticas do Congresso. Aos sérios desequilíbrios da economia associou-se uma crise política. Desde então, está complicado avançar.

A fragilidade do governo da presidente Dilma Rousseff se soma à rebeldia dos presidentes da Câmara e do Senado, citados na Lava-Jato, formando um ambiente onde as propostas de Levy são desidratadas ou aprova-se medidas na direção contrária ao ajuste.

Fala-se em uma articulação política que estaria sendo conduzida por lideranças do PMDB junto a partidos da base e de oposição, para construir condições mínimas de governabilidade. Trata-se, porém, de conversas muito preliminares, com mais perguntas do que respostas. Elas se desenvolveriam em torno de um programa econômico mais amplo, como a aprovação da reforma do ICMS e do PIS/Cofins, desvinculação de receitas, repatriação de capitais, idade mínima para aposentadoria, dentre outras iniciativas.

Na avaliação de fontes qualificadas da área econômica, as maiores incertezas, hoje, não decorrem de questões econômicas nem de eventuais divergências na equipe do governo que não são segredo. Também não é segredo que o ex-presidente Lula gostaria de ver o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, na pasta da Fazenda. São as incertezas políticas, segundo essa avaliação, que estão na raiz das desconfianças dos empresários que não investem, e das empresas que não estão pagando os impostos, minando ainda mais as receitas públicas.

Rogério Furquim Werneck - Dilma, no final das contas

- O Globo

• A presidente da República, afinal, percebeu quão caras podem lhe sair as lambanças fiscais de 2014

Há poucos meses, ao se dar conta das reais proporções da devastação fiscal ocorrida no primeiro mandato da presidente Dilma, o país foi levado a crer que os danos poderiam ser reparados num par de anos. Submetido a novo choque de realidade, contudo, constata agora que os desdobramentos da devastação fiscal deverão ser muito mais custosos e prolongados do que supunha.

No embate que se travou dentro do governo, prevaleceu, como se temia, a ideia de um ajuste fiscal bem menos ambicioso do que o que fora prometido. Como isso deverá implicar elevação persistente e substancial da dívida pública como proporção do PIB, é bem provável que o país perca o grau de investimento. E que tenha de enfrentar condições muito mais adversas para reconstruir a economia e retomar o crescimento.

É nesse clima de desalento com as perspectivas da economia e de indignação com as enormes dificuldades de reparar os danos da devastação fiscal dos últimos quatro anos que as contas de 2014 da presidente Dilma deverão ser apreciadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e, em seguida, pelo Congresso.

Os problemas que a presidente vem enfrentando no TCU decorrem, em boa medida, de lambanças cometidas no calor da campanha eleitoral, para dissimular, a qualquer custo, a gravidade da deterioração das contas públicas. Tendo deixado de repassar às instituições financeiras federais recursos suficientes para bancar as transferências governamentais pagas por essas instituições, o Tesouro apelou para as chamadas pedaladas fiscais. Para não sustar os pagamentos das transferências, permitiu-se “entrar no cheque especial”, ou seja, contrair dívida com as instituições financeiras que controla, o que é estritamente vedado pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

As pedaladas fizeram parte de uma operação de dissimulação mais ampla, cuidadosamente concertada. Em agosto de 2014, enquanto o ministro Guido Mantega continuava reiterando o compromisso do governo com a meta de superávit primário de 1,9% do PIB, dirigentes das instituições financeiras federais já não escondiam sua preocupação com os montantes dos saldos em vermelho nas contas do Tesouro (“Folha de S.Paulo”, 17 e 22/8/2014). A farsa seria mantida por dois meses mais. Às vésperas do primeiro turno da eleição, o então secretário do Tesouro, Arno Augustin, “muito satisfeito” com a “bem-sucedida” política fiscal, continuava asseverando que a meta de 1,9% do PIB ainda seria cumprida (“Estadão”, 1/10/2014).

Reeleita a presidente Dilma, em segundo turno, a desatinada operação de dissimulação pôde, afinal, ser desmontada. O que se seguiu foi bem sintetizado pelo título de uma matéria do “Estadão” de 1º/11: “Governo para de ‘pedalar’ e gastos disparam”. Quando as reais dimensões do rombo fiscal de 2014 foram, por fim, conhecidas, constatou-se que, em vez de um superávit primário de 1,9% do PIB, o setor público gerara um déficit de 0,6% do PIB.

Desde que a LRF foi promulgada, em 2000, jamais se vira descalabro fiscal parecido. Pelo vulto que adquiriram, as pedaladas foram cruciais para esconder do eleitorado as reais proporções do desastre.

Alega agora o governo que o tamanho da violação não importa. E que, no passado, o TCU fechou os olhos para irregularidades similares. Agarrando-se ao formalismo de quem acredita que merece a mesma condenação quem rouba um pão ou um bilhão, a Advocacia-Geral da União (AGU) argui que “usar o cheque especial não tem nenhuma relação com o volume, mas com o fato de usar o cheque especial”. E que, “se for para revisar o passado, temos de condenar todo mundo, todos os governos anteriores” (“Estadão”, 24/7).

Temendo o pior, a AGU quer pautar a decisão do TCU: “Não há uma avaliação de conduta aqui, mas das contas. Não é possível responsabilizar a presidente” (“Estadão”, 23/7). Mas, tendo em vista quem se beneficiou com as pedaladas e o desolador atoleiro fiscal em que o país foi metido, será difícil convencer o tribunal — e, mais ainda, o Congresso — de que a conduta da presidente não vem ao caso.
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Rogério Furquim Werneck é economista e professor da PUC-Rio

Celso Ming - O recado do Banco Central

- O Estado de S. Paulo

Está agora aberta a temporada para as apostas sobre quando o Banco Central começará a baixar os juros básicos (Selic), hoje nos 14,25% ao ano, nível mais alto dos últimos sete anos. Cá entre nós, nem o Banco Central sabe.

Este não é um assunto de interesse só dos banqueiros e dos que vivem de aplicações financeiras. Mexe com a vida de todos porque determina em boa medida como se comportará a produção, os investimentos, o emprego, os salários, o crédito e o consumo.

Aviso aos navegantes menos atentos: o comunicado do Copom divulgado após a reunião de quarta-feira não disse que acabou o aperto dos juros; ao contrário, disse que o aperto aumentou (mais meio ponto porcentual) e vai seguir "por um período suficientemente prolongado", para assegurar a convergência da inflação para a meta de 4,5% ao ano até o fim de 2016.

Ainda pelos termos do comunicado, não dá para dizer que essa escrita foi gravada em pedra e será cumprida à risca. Lá ficou dito que o Copom tomou essa decisão "avaliando o atual balanço de riscos". Eventual mudança para mais ou para menos nesse balanço de riscos poderá mudar também a intensidade do aperto.

Entre os possíveis fatores que, em princípio, poderiam agravar o quadro inflacionário e que, portanto, poderiam alterar esse balanço estão: uma grave crise política; a disparada do dólar no câmbio interno; o aprofundamento do rombo fiscal muito além do previsto (veja o Confira); e imediato rebaixamento da nota da dívida brasileira pelas agências de classificação de risco. Puro chute: deve ter lá uns 25% a 30% de probabilidade para acontecer.

Há outro conjunto de fatores que podem atuar na direção oposta: mais recessão, aumento do desemprego, queda do consumo (e, portanto, dos preços) e mais rápida recuperação das contas externas, que provoque forte entrada de moeda estrangeira e derrube as cotações do dólar. Há perto de 40 a 45% de probabilidade de acontecer. Não é desprezível a hipótese de que ocorra uma mistura das duas influências.

A Ata do Copom, a ser divulgada na próxima quinta-feira, poderá esclarecer o que pensa o Banco Central a respeito dessas e de outras variáveis. Mas, independentemente do que disser a ata, é de esperar que a autoridade monetária fique de olho no vaivém das expectativas. Quando ficar mais claro que os formadores de preços passaram a acreditar em que a inflação embicará para os 4,5% ao ano em dezembro de 2016, conforme quer o Banco Central, o Copom poderá começar a aliviar a política monetária.

Como você pode conferir no gráfico aí no centro, o atual ciclo de alta de juros começou em abril de 2013, deu uma parada à altura dos 11,0% aparentemente para não interferir nas eleições e, agora, chegou ao pico. Quando a escalada começou, a inflação, com os truques conhecidos de represamento dos preços administrados, era de 6,5% e os juros reais (descontada a inflação) eram de apenas 1%; hoje, a inflação é de 8,9% em 12 meses e os juros reais, à altura dos 5,0%. Como a maior parte do serviço do realinhamento dos preços antes atrasados já foi feita, há razões para esperar pelo recuo consistente da inflação.

Aumenta o rombo
O rombo já era esperado. Mas não que fosse tão grande. Ao final do primeiro semestre do ano passado, havia um superávit de R$ 17,4 bi. O primeiro semestre deste ano fechou com um déficit de nada menos que R$ 1,6 bi. As despesas continuam aumentando, mas o problema maior está na derrubada das receitas, de 3,5% no semestre (em relação ao mesmo período de 2014). Deve-se não apenas ao recuo do PIB, mas, também, ao não recolhimento de impostos pelas empresas.

Míriam Leitão - Prova da anomalia

- O Globo

Quando o país estava crescendo, o mercado de crédito era uma alavanca para empresas e famílias expandirem seus investimentos e consumo. Quando o crescimento perdeu o fôlego, o crédito foi o fator que manteve o consumo em alta. Agora, na crise, ele mostra o tamanho das suas distorções. As taxas de juros cobradas em quase todas as modalidades no Brasil são uma anomalia.

A Selic é alta demais, mas ela não explica tudo. Quem olhar para as taxas estratosféricas do cartão de crédito e do cheque especial, pelos números da nota divulgada ontem pelo Banco Central, terá noção clara da falta de sentido deste mercado no país. O custo do crédito rotativo do cartão subiu de 360% para 372% de maio para junho. Ao longo de um ano, aumentou 63 pontos. A segunda taxa mais cara, que é a do cheque especial, foi a 241%, subindo 69 pontos no mesmo período. Já a taxa básica de juros, Selic, saltou de 11% para 14,25% em 12 meses. Um aumento de 3,25 pontos.

Diante desses números, os bancos sempre argumentam que essas linhas são punitivas e sobre elas incidem impostos, taxa de risco e inadimplência. Mesmo com tudo isso, não dá para explicar nem uma fração desses juros. Em outras modalidades de crédito, não punitivas, se pode ver que o custo também é exorbitante.

O crédito pessoal não consignado saltou de 100% para 111% em um ano. Para a aquisição de bens, os juros cobrados chegaram a 81% ao ano. Os bancos praticam taxas menores para a compra de veículos (24,7%), que é um bem que pode ser tomado de volta, e no consignado (27,3%), que tem desconto em folha de pagamento. Ainda assim, são números que superam muito a taxa Selic.

A inadimplência não é justificativa para o aumento dos juros. Os atrasos de mais de 90 dias das pessoas físicas no crédito livre ficaram estáveis em 5,4% em junho, mas menores do que os 5,6% do mesmo mês do ano passado. Nas pessoas jurídicas, houve um aumento de 3,5% em dezembro para 3,9% em junho, mas ainda estão baixas. Esses indicadores podem subir, porque geralmente pioram depois que o desemprego aumenta, mas, até aqui, seguem comportados.

A Selic sobe em um momento em que a economia está em recessão. A dose do remédio faz com que os juros reais sejam os mais altos do mundo. O Brasil está com uma das mais altas taxas de inflação nos países que entram em tabelas comparativas internacionais. Há países que nem entram na conta porque manipulam os dados ou não os divulgam, como Venezuela e Argentina. A Rússia é um dos poucos com inflação mais alta que os 8,9% do Brasil. Passamos à frente da Índia, da Turquia e da Indonésia, países que são reconhecidos por terem inflação elevada.

É por isso que o Banco Central subiu a Selic, mas é bom lembrar que o Copom começou a elevar os juros apenas depois que foram fechadas as urnas das últimas eleições presidenciais. De outubro para cá, foram sete altas. O remédio foi receitado com atraso e agora aprofundará o quadro recessivo. A estratégia do BC é manter nesse nível alto por tanto tempo que se consiga levar a inflação para o centro da meta no final do ano que vem. O índice de preços subiu principalmente pelo efeito do tarifaço de energia, mas o Copom tenta evitar que esse nível em que está, perto de dois dígitos, contamine toda a economia.

Um outro dado que chama atenção na nota de crédito é o descompasso na concessão entre os bancos públicos e os privados. Enquanto o sistema financeiro privado nacional tem sido mais seletivo, com aumento de 3,3% no seu saldo de empréstimos em 12 meses, os bancos públicos cresceram 14,3%. No primeiro semestre, houve encolhimento de 1% no saldo dos bancos privados e alta de 5,1% nos bancos públicos.

O estoque de crédito sobre o PIB ficou em 54,5% em junho, com alta de 0,1% sobre o mês anterior. Mas o percentual é menor do que em dezembro, 54,7%. O crédito subiu bastante nos últimos anos e agora não tem capacidade de continuar aumentando no mesmo ritmo. As famílias não têm condições de se endividar mais em período de encolhimento dos salários, da renda disponível e do emprego. Principalmente não podem tomar mais empréstimos com taxas de juros tão despropositadas quanto as praticadas no mercado bancário brasileiro.

Luiz Garcia - Ficar de olho

- O Globo

Sou de um tempo antigo, em que rico não ia para a cadeia, a não ser por razões políticas, ou seja, quando prejudicasse os interesses de quem estava no poder. Hoje, temos como fenômeno a Operação Lava-Jato, assim batizada por razões desconhecidas pela plateia - o que não tem impedido que ela bata palmas entusiásticas pelos resultados já conhecidos.

No episódio mais recente, ficamos sabendo que o Partido dos Trabalhadores, mais conhecido por PT, tem trabalhado com grande entusiasmo para encher os bolsos de uma turma que certamente não se identifica com as ideias e propostas com que foi criado.

Alguns eleitores indignados talvez digam que o PT finalmente mostrou que é farinha do mesmo saco. Ou seja, o partido está apenas se igualando à maioria dos outros partidos. O tal saco, pelo visto, teria farinha para todos. E seria irresistível para políticos de todos os continentes.

No mais recente episódio da Lava-Jato, o operador Mário Goes fez revelações interessantes. Ele contou que passava dinheiro de empreiteiras para ex-diretores da Petrobras, usando para isso contas na Suíça, aquele pequeno país europeu famoso por abrigar a riqueza de senhores que enchem seus bolsos com atividades ilegais.

Quando nasceu, o PT foi visto por muita gente boa como um partido que serviria para melhorar o nosso sistema político, já que representaria a grande massa de operários, que até então não tinha quem defendesse seus interesses.

Foi o que ele fez, durante muito tempo. Hoje, é com uma mistura de tristeza e indignação que vemos algo bem diferente: ele serve, talvez até com mais entusiasmo, aos interesses pessoais de uma grande fatia de seus quadros políticos.

É pena, mas é uma verdade inegável. Muitos talvez digam que todos os partidos políticos agem da mesma maneira. Como se dizia antigamente, seriam farinha do mesmo saco.

Podemos ter algum consolo lembrando que o saco é universal. Seja como for, sempre vale a pena buscar, em todas as eleições, candidatos que não moram nele. Não é fácil, mas, quem sabe, a gente talvez consiga encontrar, pelo menos, políticos que ainda não se tenham corrompido. E que prestem atenção a um aviso por enquanto amistoso: "Vamos ficar de olho em você."

André Lara Resende - Corrupção e capital cívico

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

• Há quem escolha não levar vantagem mesmo na ausência de punição para o comportamento incorreto. Referências culturais contam

• Mais do que cálculos de custos e benefícios, são os valores da comunidade que restringem, ou não, nossa propensão às práticas desonestas

• A impressão de que a desonestidade impera ajuda a racionalização do comportamento desonesto. Se todos são, ninguém é

A extensão e a profundidade da corrupção no Brasil atual causam perplexidade até aos mais calejados observadores. Sempre fomos complacentes em relação às pequenas transgressões, sempre houve corrupção, aqui como em toda parte, mas é o caso de perguntar: como foi possível chegar a um tal nível de desonestidade institucionalizada? A gravidade da situação paralisa a política e a economia. Ainda não está claro como sairemos da crise e o que virá a seguir. Espera-se que o país mude para melhor, que a exposição da corrupção na vida pública e empresarial, com a condenação dos envolvidos, reduza a corrupção. O fim da impunidade é fundamental para reduzir a criminalidade.

Gary Becker, da Universidade de Chicago e ganhador do Nobel em economia, foi o primeiro a utilizar o arcabouço conceitual da microeconomia, com agentes racionais que maximizam utilidade, para entender o processo de tomada de decisão em questões não especificamente econômicas. Seus trabalhos pioneiros procuravam explicar a tomada de decisão em relação a questões como quantos anos estudar, qual o melhor momento para se casar e quantos filhos ter. Segundo Becker, todo comportamento humano pode ser entendido como uma avaliação de custos e benefícios. A decisão de cometer um crime depende do que se tem a ganhar, comparado ao custo do castigo ponderado pela probabilidade de ser pego. Se o benefício for maior do que o custo estimado da punição, opta-se pelo crime. Simples assim. O modelo tem enorme apelo, exatamente por ser simples, lógico, e dar sugestões claras sobre a prevenção do crime: deve-se aumentar a probabilidade de que o criminoso seja preso e endurecer as penas.

Feliz ou infelizmente, as coisas não são bem assim. Os avanços da psicologia comportamental demonstram que nossa tomada de decisão é mais complexa, não se restringe a um cálculo de racionalidade econômica. Bastam alguns segundos de reflexão para concluir que ao longo da vida, mesmo durante um único dia, temos inúmeras possibilidades de ser desonestos, com baixíssima probabilidade de ser pegos. Nem por isso somos sistematicamente desonestos. Ao contrário, o padrão do ser humano é ser honesto, respeitar a lei e os códigos de ética da sociedade. A desonestidade, ao menos a desonestidade consciente e deliberada, é a exceção.

Os trabalhos recentes de Dan Ariely, professor da Universidade de Duke, nos EUA, chegam a resultados interessantes e até certo ponto surpreendentes em relação à desonestidade. A partir de experiências, muito engenhosamente formuladas, com diferentes grupos de pessoas, a maioria delas alunos universitários americanos, Ariely conclui que a desonestidade não é uma questão de custos e benefícios. Seus experimentos mostram que não há relação entre o valor do que se tem a ganhar e a desonestidade num grupo. Também não há relação entre a probabilidade de ser pego e a desonestidade. São resultados que contradizem frontalmente a teoria do cálculo racional como fundamento para a opção pela honestidade ou pela desonestidade.

É claro que não se é de todo insensível aos custos e benefícios da desonestidade. Especialmente os desonestos contumazes, aqueles que fazem da desonestidade um meio de vida, levam em conta os riscos associados à atividade. Mas para a maioria das pessoas, que se percebem como honestas, não se trata de um cálculo racional. Estamos todos dispostos a incorrer em pequenas infrações, pequenas desonestidades, desde que as consideremos suficientemente irrelevantes, para não arranhar nossa percepção de que somos honestos. Queremos nos perceber e ser percebidos como pessoas honestas, mas estamos dispostos a transgredir, desde que a transgressão nos permita manter a autoestima.

Os estudos mostram que as pessoas são menos desonestas quando são lembradas das leis ou dos códigos de ética. O grau de desonestidade depende daquilo que é percebido como flagrantemente desonesto, assim como do grau de tolerância em relação à desonestidade. Onde as infrações de trânsito, como estacionar em local proibido, circular pelo acostamento, são comuns e disseminadas, quem as comete não se percebe como desonesto. Por isso mesmo, são mais frequentes.

A propensão a agir incorretamente depende também da nossa capacidade de racionalizar. Se formos capazes de justificar a desonestidade, somos muito mais propensos a agir de forma inapropriada. Isso vale tanto para atos mais corriqueiros de incorreção, como também para os mais graves. Roubos, assaltos, até mesmo assassinatos, podem ser cometidos de forma fria, por pessoas que se consideram honestas, desde que em nome de uma causa. O caso de políticos que roubam para o partido, ou para financiar campanhas eleitorais, nunca para o seu enriquecimento, é exemplar da necessidade de racionalização. Os estudos mostram que, quando a desonestidade pode beneficiar pessoas do nosso grupo, ou até mesmo desconhecidos, a propensão à desonestidade aumenta. Uma vez encontrada a justificativa nobre, a racionalização, é possível ser desonesto e manter a autoestima. É o efeito Robin Hood, mas, uma vez rompida a barreira psicológica, passa-se mais facilmente para a desonestidade aberta. Quando passamos a nos ver como desonestos, perde-se o pudor. Se este for o comportamento disseminado entre nossos pares, tudo se torna ainda mais natural.

Queremos ser honestos, mas a propensão para a desonestidade está em todos nós. Mais do que um cálculo de custos e benefícios, o que nos restringe são os valores de nossa comunidade. Se no meio em que vivemos a incorreção é aceitável, insuficiente para arranhar nossa percepção de que somos honestos, somos mais propensos à desonestidade. Essa é a razão pela qual povos diferentes se comportam de forma diferente, ainda que diante dos mesmos incentivos e riscos em relação a um comportamento questionável.

Uma história curiosa, triste para nós, brasileiros, ilustra bem como há comportamentos distintos diante da certeza da impunidade. Até alguns anos atrás, a lei dava aos diplomatas estrangeiros, lotados nas Nações Unidas, a isenção de pagamento das multas de estacionamento na cidade de Nova York. A cidade, porém, nunca deixou de emitir as multas. Como não precisavam ser pagas, não havia sanção para os diplomatas que estacionassem em locais proibidos. Um estudo mostrou que, ao longo de cinco anos, os diplomatas suecos e canadenses não tiveram multas, os alemães tiveram uma multa per capita, os italianos 15, e os brasileiros 30 multas por diplomata. Se serve de consolo, a média dos diplomatas kuaitianos foi de 246 multas.


A certeza da impunidade não leva todos a ser desonestos. A referência cultural conta. Os diplomatas suecos não são menos racionais do que os brasileiros, mas optam pela correção. Optam por não levar vantagem, mesmo quando não há punição para o comportamento incorreto. Há algo na cultura de certos povos, que se poderia chamar de capital cívico, que faz a diferença. Na definição dos que cunharam o termo, capital cívico é o estoque de crenças e valores que estimulam a cooperação entre as pessoas. Os entusiastas dos mercados não se cansam de defender a importância da competição e da meritocracia, mas os que entendem do riscado sabem que na base de uma economia de mercado, antes de tudo mais, estão a confiança e a cooperação. Vale a pena ouvir o que tem a dizer a respeito Kenneth Arrow, prêmio Nobel de economia. Seus trabalhos, em parceria com Gerard Debreu, formalizaram o chamado modelo de equilíbrio geral, do qual são deduzidos os corolários de eficiência dos mercados competitivos: "Virtualmente toda transação comercial tem em si um elemento de confiança. Pode-se dizer, de forma plausível, que muito do atraso econômico no mundo deve-se à falta de confiança mútua".

Nas sociedades em que o capital cívico é baixo, impera o que Edward Banfield, que foi professor da Universidade de Harvard, chamou de " amoralidade de laços familiares" 2. Com base em sua experiência num vilarejo do sul da Itália, Banfield procurou entender as razões do atraso da região. Concluiu que a resposta estava na obsessão com que os habitantes se dedicavam exclusivamente aos interesses de suas famílias. Incapazes de cooperar, até mesmo com os vizinhos, os camponeses restringiam-se ao cultivo de suas pequenas propriedades. Ficavam assim impossibilitados de se beneficiar dos ganhos de produtividade da escala e da cooperação. Esse tipo de comportamento se auto-reforça, pois onde todos desconfiam de todos e só estão preocupados com seus próprios interesses, a desconfiança tem razão de ser. Não se pode superestimar a importância da confiança nas relações econômicas e sociais. A confiança importante para o bom funcionamento da sociedade é a confiança nos desconhecidos. É a confiança naqueles que não conhecemos pessoalmente que permite estabelecer contatos, desenvolver os mercados e a cultura.

Em pesquisas sobre valores e atitudes em diferentes países costuma-se perguntar aos entrevistados se a maioria das pessoas merece confiança ou se, ao contrário, é preciso tomar cuidado ao se relacionar com elas. Mais uma vez o Brasil fica mal na fita. Enquanto na Suécia quase 70% dos entrevistados respondem que os outros são dignos de confiança, no Brasil, menos de 10% consideram que as pessoas são confiáveis. É sempre possível argumentar que os brasileiros confiam menos nos outros porque a Justiça é falha, há menos possibilidade de ser punido e, logo, todos são efetivamente mais propensos a ser desonestos. Haveria assim uma lógica no fato de por aqui se confiar menos nos outros, estaríamos de volta à racionalidade do modelo de Gary Becker.

Acontece que a confiança nos outros, o grau de confiança básica, difusa numa sociedade, não é simples consequência do bom funcionamento da Justiça. Há, com certeza, correlação entre as duas coisas, mas o sentido da causalidade não é claro. Assim como a Justiça eficiente contribui para a confiança, mais confiança leva ao melhor funcionamento da Justiça. A confiança e a propensão a cooperar não decorrem exclusivamente dos mecanismos legais de prevenção e punição da desonestidade. São traços culturais, forjados ao longo da história, reforçados pela experiência de cooperação bem-sucedida. Constituem um ativo de longo prazo, que não se adquire da noite para o dia. Como todo traço cultural, são preconceitos, tanto positivos quanto negativos, que não são facilmente revistos. Um exemplo da longa inércia a ser vencida para a acumulação do capital cívico, da persistência das feridas na confiança entre membros de uma sociedade, para o qual Luigi Zingales chama atenção1, é o fato de que, até hoje, mais de um século e meio depois do fim do tráfico de escravos, há significativas diferenças entre as etnias na África. Aquelas que tiveram pessoas capturadas e traficadas como escravos, muitas vezes por membros de suas próprias tribos, até hoje desconfiam de tudo e todos.

"A construção do capital cívico é um longo percurso. A confiança e a capacidade de colaborar, assim urdidas lentamente no decorrer da história, podem ser muito rapidamente destruídas. Uma vez perdidas, é preciso recomeçar do zero, refazer toda a longa história de acumulação de capital cívico, de confiança e de cooperação. Não é fácil, pois a desconfiança leva à desconfiança, e termina por justificar a falta de confiança. É um círculo vicioso duro de ser rompido. A melhor forma de fazer evoluir o capital cívico é não permitir que se deteriore.

A forma como a população avalia o Estado e suas instituições é uma boa aproximação do capital cívico. Onde o capital cívico é alto, o Estado é visto como um aliado confiável. Onde o capital cívico é baixo, o Estado é percebido como um criador de dificuldades para todos e de vantagens para seus ocupantes. Mais uma vez, o processo é do tipo que se auto-reforça.

Se o Estado é percebido como ocupado por desonestos pautados por seus próprios interesses, os bem intencionados evitam a vida pública, o que termina por dar razão à desconfiança. Dada a visibilidade dos políticos e a necessidade de se lidar cotidianamente com as autoridades, o Estado corrupto é um poderoso fator de erosão do capital cívico. Nada mais corrosivo da confiança e do espírito público do que a exposição diária a um Estado ineficiente e patrimonialista.

Assim como o mau Estado destrói o capital cívico, as boas instituições são imprescindíveis para sua preservação. Os estudos de Ariely sugerem que o grau de desonestidade de uma comunidade tem características parecidas com a de uma infecção. A desonestidade pega e se alastra. Basta que uma única pessoa se comporte de forma flagrantemente desonesta para que o grau de desonestidade de um grupo de alunos universitários, submetidos às suas engenhosas experiências, aumente significativamente.

Se uma única pessoa, um desconhecido, é capaz de aumentar a desonestidade dos demais num grupo de universitários, fica claro que a desonestidade dos governantes tem grande impacto sobre o grau de desonestidade do país. Existe um "efeito demonstração" da desonestidade, sua capacidade de se alastrar e de infeccionar a sociedade como um todo. Esta é a razão pela qual é importante reduzir a frequência dos pequenos atos de transgressão, das pequenas desonestidades aparentemente inofensivas. A política de "tolerância zero" em relação ao pequenos delitos, adotada pela polícia de Nova York, contribuiu para a dramática redução da criminalidade na cidade. Pequenas infrações podem parecer inócuas, mas contribuem para criar o ambiente propício às mais graves.

Anos atrás, quando eu ocupava um cargo público, um político com quem eu tinha relações próximas queixou-se comigo da corrupção de pessoas ligadas à sua área. Sugeri que ele fizesse uma denúncia pública. Disse-me que jamais faria isso, porque o impacto para o descrédito da política seria gravíssimo. Intuitivamente, ele estava dando expressão ao efeito demonstração. É evidente que o argumento era falacioso, uma racionalização para não se sentir compactuando com a corrupção sem incorrer nos custos de denunciar seus pares. A concordar com ele, para evitar a contaminação da sociedade, toda sujeira deveria ser empurrada para debaixo do tapete. Isso não significa que não haja uma contradição a ser resolvida: para reduzir a desonestidade, não se pode esconder a corrupção, mas sua divulgação, através do efeito demonstração, contribui para o aumento da desonestidade.

A condenação dos envolvidos na operação Lava-Jato deverá reduzir a percepção de impunidade. De acordo com o modelo de racionalidade da desonestidade, haverá menos pessoas decididas a correr o risco. Para os que já cruzaram a barreira, não há dúvida: pensarão duas vezes antes de retomar as práticas a que estavam habituados. Mas, para a grande maioria da população, para os que prezam a honestidade, que não se baseiam num cálculo racional de custos e benefícios, o efeito demonstração terá um impacto negativo. A impressão de que o governo, os políticos e os empresários são desonestos aumenta a tolerância com a desonestidade no dia a dia. Nas inúmeras pequenas oportunidades em que é possível transgredir sem ser punido haverá maior propensão à desonestidade. A impressão de que a desonestidade impera ajuda na racionalização do comportamento desonesto. Se todos são, ninguém é. Por isso é importante ir até o fim, não deixar a impressão de que só alguns foram punidos, que os mais espertos, como sempre, escaparam.

Infelizmente, ainda assim, não é inequívoco que o capital cívico do país sairá fortalecido da crise. É sempre possível que o impacto negativo do efeito demonstração domine o impacto positivo do fim da impunidade. Essa possibilidade é reforçada por mais um interessante resultado dos estudos de Ariely. Quanto mais cansados, desanimados e deprimidos estamos, mais propensos somos a ser desonestos. A honestidade aumenta a autoestima e a baixa autoestima aumenta a desonestidade. A recessão econômica e a depressão psicológica contribuem para o aumento da desonestidade.

Para que o país saia melhor de tão grave e deprimente surto de desonestidade, para que não passe à infecção generalizada, é importante condenar e punir os culpados. Sem dúvida, mas não basta. É preciso, o quanto antes, sair da crise, expurgar da vida pública os envolvidos, recuperar a economia e dar início a uma nova era. O que exigirá, antes de mais nada, novas e exemplares lideranças, ainda longe de estar evidentes.

(1) L. Zingales, P. Sapienza, L. Zingales, "Civic Capital as the Missing Link", NBER working paper 15845. Março de 2010. Citado em L. Zingales, "Capitalism for the People: Recapturing the Lost Genius of American Prosperity", Basic Books, 2012.

(2) E. Banfield, "The Moral Basis of a Backward Society", The Free Press, 1958

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André Lara Resende é economista

Documentário revê a trajetória de Cosme Alves Netto, guardião dos filmes e da memória

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo / Caderno 2

• Em 'Tudo por Amor ao Cinema', diretor Aurélio Michiles revela Cosme Alves Netto como defensor dos filmes; veja o trailer

Antes mesmo de falar do próprio filme, Tudo por Amor ao Cinema, Aurélio Michiles, como pai coruja, fala do filho: “Ele está na seleção do Festival Latino de São Paulo. O André fez Através com dois amigos, Fábio Bardella e Diogo Martins. É um road movie que se passa em Cuba, um filme muito interessante que vê as mudanças da ilha pelo olhar de uma cubana.” E Aurélio adverte: “Não perca que vai valer a pena.” Agora é o repórter quem diz: não perca Tudo por Amor ao Cinema. Também vai valer (muito) a pena. O novo documentário de Aurélio Michiles centra-se na figura de Cosme Alves Netto (1937-1996).

O cinéfilo sabe, o cinéfilo conhece. Foi o diretor da Cinemateca do MAM, o Museu de Arte Moderna do Rio. Um grande agitador cultural. Com seu resgate da memória do cinema brasileiro e mundial, ajudou a fazer mais de uma geração de cinéfilos. Mas essa era apenas uma – a mais evidente – faceta da sua persona. “O Cosme fez a resistência ao regime militar. Teve ligação com a guerrilha e chegou a ser preso e torturado. E ele amava as mulheres tanto quanto foi amado por elas. Um dia, para a realização do documentário, reuni as mulheres do Cosme. Todas trouxeram seus álbuns de fotos e as histórias. Foi maravilhoso.”

Aurélio Michiles dirigiu O Cineasta da Selva, um docudrama, mistura de documentário e ficção, que resgata o pioneiro Silvino Simões dos Santos. O que Michiles, Silvino Simões e Cosme Alves Netto têm em comum? O Amazonas. Silvino foi um português que, radicado no Brasil, e no Norte, deixou registros importantíssimos da selva. Michiles é amazonense, como Cosme. E, antes de se interessar por ele, já era um apaixonado por Cosme Ferreira Filho. Deputado constituinte, o pai de Cosme Alves Netto foi um pensador do Brasil, e da Amazônia. Numa época em que as elites só pensavam em tirar o máximo da cultura extrativista, ele, como empresário, já defendia que o futuro estava no controle ambiental e na transformação do extrativismo numa cultura industrial. Era um visionário. O filho, que trabalhou com ele, era louco por cinema.

Cosme já estava no MAM quando, em 1981, Michiles foi filmar uma tribo de índios que, no interior do Amazonas, fazia o que o pai do diretor da cinemateca do museu defendia. Os índios haviam elaborado uma forma de colher e processar o guaraná. E foi lá, no meio da selva, que Michiles ouviu, na Voz do Brasil, que Glauber Rocha havia morrido. Quase surtou. Os índios pensaram que ele havia perdido o pai – ‘o pai do cinema brasileiro’, como Eryk Rocha definiu Glauber na entrevista ao Estado. Nasceu ali, daquela angústia, a decisão de fazer um vídeo sobre Glauber. Uma carta de amor ao cineasta (e ao cinema). Cosme viu, e enviou uma mensagem a Michiles, saudando o nascimento de um cineasta amazonense. Quis conhecê-lo. Foi assim que começou a aproximação.

O filme nasceu de outra fonte – Rudá de Andrade, que morava em frente à casa de Michiles, em Higienópolis, e Thomas Farkas lhe cobravam que fizesse um filme sobre Cosme, morto em 1996. “Contavam-me histórias. Cosme guerreiro do cinema brasileiro, Cosme que fez a ponte entre Brasil e Cuba numa época em que os dois países não tinham relações oficiais.” Rudá e Thomas morreram antes que Michiles gravasse seus depoimentos, mas foram tão importantes que o diretor dedica seu filme a eles. Tudo por Amor ao Cinema tinha quatro horas, que Michiles reduziu a 97 minutos. Você vai conhecer um personagem raro. E os filmes que ele amava. Filmes díspares – O Encouraçado Potemkin, Cantando na Chuva, As Cantoras do Rádio. Cosme era da estirpe de Paulo Emílio Salles Gomes. Esses homens amavam o Brasil. E tudo o que fizeram foi por amor ao cinema.

HISTÓRIAS

Eduardo Coutinho
Cosme Alves Netto conseguiu esconder no MAM o material original de Cabra Marcado para Morrer. Sem a sua ação, o filme teria se perdido.

Paissandu
Como programador do lendário Cine Paissandu, no Rio, resgatou filmes marginalizados pelos exibidores e impôs a nouvelle vague. Sem ele, Godard e Truffaut não seriam tão conhecidos no País.

Vale tudo
Em defesa da memória, Cosme só tinha uma regra. Não selecionava nada pela qualidade. Todo filme merecia ser salvo.

Filme sobre Cosme Alves Netto evidencia o amor desinteressado e total pelas imagens

Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S. Paulo / Caderno 2

• Diretor retrata o personagem singular por intermédio das obras que tiveram maior significado em sua vida

Há o personagem singular e o homem cuja importância na preservação da memória fílmica brasileira deve ser destacada. Em Tudo por Amor ao Cinema, Aurélio Michiles une os dois. Mesmo porque se trata de uma mesma e única pessoa – Cosme Alves Netto, amazonense como o diretor, cinéfilo e alma da Cinemateca do MAM, no Rio de Janeiro.

O Cosme personagem foi inesquecível. Cardíaco, era sempre visto com um “puro” cubano em riste. O país caribenho não lhe forneceu apenas o ideal de uma causa e o hábito do charuto, mas também a indumentária. Para quem o conheceu parece impossível imaginar Cosme sem a guayabera tropical que adotou como camisa. Era doce, irônico e mantinha a fama de amar o cinema, mas poucas vezes era visto dentro da sala de projeção. Preferia esperar os amigos do lado de fora para comentar os filmes, como se já tivesse visto todos.

O Cosme caçador de imagens foi fundamental para um país descuidado com a preservação de sua memória – e não apenas fílmica. Nesse sentido, fazia dupla com o outro grande “cinematequeiro” do País, Paulo Emilio Salles Gomes, criador da Cinemateca Brasileira. Ambos, pode-se dizer, influenciados pelo francês Henri Langlois, o mitológico diretor da Cinemateca Francesa, mentor e pai espiritual de todos os preservadores de película do mundo.

Essa modalidade de caçador de imagens é uma forma particular de exercer o amor pelo cinema. Diferentemente do amor do fã, ou do crítico, trata-se de um amor não seletivo, às vezes mal compreendido pelos estranhos à confraria. O fã idolatra determinados astros e estrelas. O cinéfilo adora seus autores, com exclusão de outros. Por isso, existe tanta intolerância na cinefilia, como nas seitas em geral. Já a preservação é uma espécie de amor total, desinteressado e abrangente. Nada lhe é indiferente. Não existem, para ele, filmes ruins. Todos têm direito à existência e, com o tempo, os maus filmes se tornam preciosos documentários sobre sua época.

Mas, claro, mesmo esse amante inveterado da película abriga suas preferências, suas favoritas no imenso harém da cinematografia mundial. São os filmes formadores, aqueles cuja presença marca uma existência humana. Cosme os tinha. Sabiamente, Aurélio Michiles usa essa memória fílmica afetiva de Cosme para construir um documentário que vai além do convencional. Desse modo, as imagens de Encouraçado Potemkin a Cantando na Chuva, passando por Cabra Marcado para Morrer são usadas para edificar esse perfil.

O homem de esquerda, preso durante a ditadura, se representa na revolta impressa em celuloide por Eisenstein. O Cosme esteta, amante da alegria e das belas imagens, vê-se também nos movimentos de Gene Kelly em Cantando na Chuva. O militante astuto está espelhado nas imagens de Dona Elizabeth Teixeira e dos camponeses de Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, cujas filmagens foram interrompidas pelo golpe de 1964. Com a integridade das imagens ameaçada, elas foram armazenadas no depósito da Cinemateca sob o título falso e, levemente irônico, de Rosa do Campo. Cosme viveu seu tempo e os filmes formaram sua circunstância.

Teresa Cristina e Grupo Semente - Moema Morenou

Paulo Mendes Campos - Três Coisas

Não consigo entender
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo é muito comprido
A morte não tem sentido
Teu olhar me põe perdido

Não consigo medir
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo, quando é que cessa?
A morte, quando começa?
Teu olhar, quando se expressa?

Muito medo tenho
Do tempo
Da morte
De teu olhar

O tempo levanta o muro.

A morte será o escuro?

Em teu olhar me procuro.

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Paulo Mendes Campos, in 'Antologia Poética'

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Opinião do dia – Eliane Cantanhêde

“Em algum momento, os governadores tendem a fazer o que o PMDB faz: entre o pragmatismo pró-Dilma e a pressão popular anti Dilma, para onde será que eles irão? Governadores podem muito, mas em épocas de crise valem tanto quanto Dilma na política agora, ou seja, muito pouco. E, se hoje estão ocupados em defender Dilma, amanhã terão de se preocupar em salvar a própria popularidade, ou seja, o próprio pescoço.”
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Eliane Cantanhêde é jornalista. Em artigo 'Grito de socorro'. O Estado de S. Paulo, 29 de julho de 2015.

Lava-Jato tem mais seis delatores e 13 novos réus

Delações em série

Cleide Carvalho, Germano Oliveira e Tiago Dantas

• Um dos seis novos colaboradores da Lava-Jato, Mário Goes diz que propinas iam para PT

SÃO PAULO - A Operação Lava-Jato ganhou seis novos delatores nos últimos dias, aumentando para 22 o número de investigados que colaboram com a Justiça em troca de redução de pena. O primeiro do grupo a falar foi o operador Mário Goes, que prestou depoimento anteontem à Polícia Federal e começou a revelar detalhes de sua atuação como intermediário do pagamento de propinas no esquema de corrupção investigado na Petrobras. Ele afirmou que repassava dinheiro de empreiteiras para funcionários da estatal por meio de contas na Suíça e que o PT era beneficiário da divisão da propina na diretoria de Serviços da estatal. Segundo Goes, o ex-gerente executivo de Engenharia e Serviços Pedro Barusco pediu para que ele destruísse documentos que citariam a existência de contas no exterior usadas no esquema.

Os nomes dos outros cinco delatores são mantidos em sigilo pelo Ministério Público Federal (MPF), mas a expectativa é que eles forneçam informações sobre o envolvimento de outros agentes públicos no esquema e a relação de mais contratos em que ocorria o pagamento de propina.

Em seu primeiro depoimento, Goes, dono da Riomarine, disse que fez repasses a Barusco por meio de suas contas Maranelle e Phad, no Banco Safra da Suíça. O dinheiro era desviado de contratos da Petrobras com empreiteiras como a Andrade Gutierrez. As comissões pagas a Barusco por Mário Goes eram divididas com o ex-diretor de Serviços da estatal Renato Duque e com o PT, segundo revelou Goes à força-tarefa da Lava-Jato.

- Barusco me disse que Duque gostava mais de jantares, cabendo a ele resolver as coisas (divisão de propinas). Ele disse isso na presença do (empresário) Ricardo Pessoa, da UTC. E me tranquilizou dizendo que haveria outras pessoas envolvidas no esquema e que o Partido dos Trabalhadores estaria dando algum tipo de suporte a essa atividade - disse Mário Goes.

O dinheiro que entrava na conta Maranelle, segundo Goes, era dividido em seis ou sete partes. Quando eram seis, duas iam para Duque, duas para Barusco e uma parte para ele próprio. A sexta parte era repartida no percentual de 60% para Barusco e 40% para Goes. Quando havia uma sétima parte, disse que não sabia a quem se destinava. Quanto ao dinheiro para o PT, responsável pela indicação de Duque para a diretoria da Petrobras, Goes disse que "Barusco dizia que era outra parte" e que "preferia nem saber do assunto".

A relação de Barusco e Goes começou no início dos anos 2000, quando o ex-gerente trabalhava na área de Produção da Petrobras. Ele procurou o operador para propor a divisão de propinas, mas o primeiro negócio não deu certo. A pareceria se efetivou nos anos de 2003 e 2004, quando Barusco passou a atuar como gerente executivo da diretoria de Serviços, dirigida por Duque.

Detalhes da operação na Suíça
A primeira operação feita por Goes com Barusco foi ligada ao Consórcio PRA-1, integrado pela Odebrecht e UTC, de acordo com o depoimento. Esse consórcio repassou, em 2004, R$ 1,53 milhão para a Jamp Engenheiros Associados, de Milton Pascowitch. Da parte da Jamp, R$ 1,4 milhão foi transferida para a empresa de consultoria do ex-ministro José Dirceu. O mesmo valor foi repassado para a Riomarine, de Mário Goes, que transferiu o dinheiro para a conta Maranelle na Suíça. Dessa conta, os valores iriam para Barusco e Duque.

A conta Maranelle foi aberta no Banco Safra da Suíça por Denise Kos, uma brasileira que morava naquele país europeu. Denise controlava os depósitos na conta e destruía os extratos. A conta, de acordo com Goes, recebeu recursos da construtora Andrade Gutierrez, por meio da Zagope, uma das empresas mantidas pelo grupo em Portugal.

A Zagope enviou US$ 6,4 milhões para outra off-shore controlada por Goes, a Phad Corporation. O operador confirmou ao MPF que "os serviços no contrato com a Zagope eram simulados". Esse montante também foi repassado para Barusco, na versão dada pelo operador e reproduzida em despacho do juiz Sérgio Moro, na decisão de ontem em que aceitou denúncia contra executivos da Andrade Gutierrez. A investigação da Lava-Jato mostrou que o ex-gerente da Petrobras recebeu da Andrade, ao todo, US$ 9,9 milhões de dólares, 2,6 milhões de francos suíços, 2,1 milhões de euros. Os repasses envolviam outros operadores, como Fernando Soares, o Baiano, e Alberto Youssef.

Também em depoimento, Mário Goes disse que o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco possuía um controle das obras que gerenciava, dos pagamentos que deveria receber e das contas utilizadas para pagar propina. Os documentos foram destruídos ano passado, quando começaram as investigações de contratos da SBM com a Petrobras. Segundo o delator, Barusco "estava preocupado com o fato da investigação sobre a SBM ampliar-se para o Brasil e vir a atingir outras operações realizadas por ele."

Goes afirmou aos investigadores que teve seu primeiro contato com executivos da Andrade Gutierrez em 2006, quando Barusco pediu para cobrar uma propina que estava atrasada. Ele chegou a receber dinheiro vivo em casa de executivos da empreiteira. O novo delator diz que a decisão de pagar propina "se tratava de uma decisão empresarial". A parceria terminou em 2010 porque Goes, em suas palavras "estava cansado dessa atividade de ficar cobrando dívidas de Pedro Barusco".

No depoimento, Goes diz que era amigo de Barusco. A dupla comprou dois aviões em sociedade, e o operador chegou a apresentar a atual mulher de Barusco em um jantar na sua casa.

Preso no Paraná, Goes vinha dando sinais de que estava disposto a colaborar com as investigações. Além de reclamar de problemas na coluna e no intestino, chorou duas vezes ao prestar depoimentos ao juiz Sérgio Moro.

Ontem à noite, a revista Época publicou em seu site o nome que seria de um novo delator da Lava-Jato. Apontado pela publicação como o "maior lobista da Petrobras", Hamylon Padilha disse que fez depósitos em contas secretas no exterior para Nestor Cerveró e Jorge Zelada, ex-diretores da área internacional, Renato Duque e operadores políticos do PMDB. Ele cita o nome do empresário Raul Schmidt, sócio de Zelada e responsável por recolher as propinas em contratos para contratação de sondas.

Schmidt teve R$ 7 milhões bloqueados em 2 de julho, durante a 15ª fase da Operação Lava-Jato, que levou Zelada à prisão. A Justiça tem informação de que uma conta, a Atlas Asset S/A, está em nome de Zelada, mas tem Schmidt como beneficiário controlador. Schmidt seria responsável, ainda, por depósito, de US$ 2 milhões na conta da off-shore Milzart, controlada por Duque.

Banco Central eleva Selic a 14,25% e indica fim do ciclo de alta de juros

Célia Froufe - O Estado de S. Paulo

• Trecho do comunicado em que o BC afirma que 'manutenção dos juros nesse patamar por período suficientemente prolongado' é necessária para controlar a inflação foi a senha para o mercado acreditar em um ponto final para a escalada da taxa

BRASÍLIA - O Banco Central aumentou nesta quarta-feira a taxa básica Selic de 13,75% para 14,25% ao ano, o maior nível desde agosto de 2006, quando estava exatamente nesse patamar. Foi a sétima elevação seguida dos juros. A alta veio em linha com a expectativa majoritária do mercado financeiro, que dá o ciclo por encerrado agora. Numa ação inédita, um membro do Comitê de Política Monetária (Copom) deixou de participar propositalmente de uma decisão do colegiado.

Após ter sido criticado por parlamentares por ter revelado o seu voto antes da reunião, o Diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Tony Volpon, decidiu se abster da votação.

A decisão do Copom revela que a alta recente do dólar e o abandono da meta de economia que o governo faz para pagar juros da dívida falaram mais alto do que a recessão que o País enfrenta.

A opção pelo aumento de meio ponto porcentual foi unânime dentro do colegiado.
O comunicado que se seguiu à decisão teve uma primeira parte muito similar à dos últimos quatro, mas trouxe uma mudança de tom. Desde janeiro, o BC justifica os aumentos levando em conta a avaliação do “cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação”.

Desta vez, no entanto, os diretores acrescentaram que entendem que “a manutenção desse patamar da taxa básica de juros, por período suficientemente prolongado” é necessária para que a inflação chegue aos 4,5% no fim de 2016. Essa foi a senha para o mercado acreditar em um ponto final agora.

Para o diretor de Pesquisas Macroeconômicas do Bradesco, Octavio de Barros, os juros sairão da mídia até 2016. “O BC encerrou e sepultou o ciclo de aperto, finalmente. Isso aumenta a previsibilidade de um parâmetro fundamental para a retomada gradual da confiança”, disse.

Opinião semelhante apresentou a economista e sócia da Tendências Consultoria Integrada, Alessandra Ribeiro. Para ela, a mudança no comunicado dá um “claro sinal” de que a autoridade monetária pretende encerrar o ciclo de alta da taxa básica de juros. “O comunicado sinaliza que o BC vai sustentar a Selic neste patamar pelos próximos meses”, afirmou.

Meta fiscal. Na nota, o BC acrescentou ainda que avaliou o “balanço dos riscos” para tomar a decisão. A inclusão do termo, para alguns analistas, pode ser uma referência à mudança da meta fiscal promovida pelo Ministério da Fazenda. Na semana passada, Joaquim Levy anunciou que a meta fiscal seria agora de 0,15% do Produto Interno Bruto (PIB), e não mais de 1,13%. Com isso, a política fiscal deixa de contribuir ou auxilia menos o trabalho do comitê de aumentar juros. / Colaboraram Francisco Carlos de Assis e Carla Araújo

BC eleva juros a 14,25 % e diz ter encerrado o ciclo de altas

- Folha de S. Paulo

• No sétimo aumento consecutivo, Selic vai a 14,25% ao ano e atinge maior patamar desde 2006

• Após polêmica sobre antecipação do voto, diretor Tony Volpon não participa da reunião

Uma semana depois de o governo anunciar uma redução substancial na sua meta de economia para o ano, o Banco Central elevou nesta quarta-feira (29) a taxa básica de juros da economia em mais 0,5 ponto percentual, para 14,25% ao ano.

A alta, já esperada pelo mercado, foi a sétima consecutiva da Selic, e o BC disse que os juros devem permanecer nesse novo patamar "por período suficientemente prolongado" para garantir a convergência da inflação para a meta no fim de 2016.

A inflação chegou a 8,9% nos 12 meses encerrados em junho, e a expectativa de analistas é que ela chegue a 9,2% em dezembro –bem acima da meta, de 4,5%, com tolerância de dois pontos. Para o ano que vem, os especialistas preveem alta de 5,4%.

A Selic de 14,25% é a maior em nove anos. Os juros reais hoje (descontada a inflação projetada para 12 meses), porém, são menores que em 2006: 8% atualmente, ante 8,9% no último ano do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Abstenção
A decisão de subir os juros foi tomada por 8 dos 9 diretores do Banco Central.

Em iniciativa inédita, o diretor de Assuntos Internacionais, Tony Volpon, absteve-se de participar da reunião depois que declarações feitas por ele na semana passada geraram polêmica.

Segundo o jornal "Valor", Volpon descartou em apresentação a investidores a possibilidade de votar por redução dos juros até que a projeção do BC aponte para inflação no centro da meta de 4,5%.

Alguns analistas de mercado e políticos consideraram que o diretor teria antecipado o seu voto no Copom (Comitê de Política Monetária).

Em comunicado, o BC disse que compreendeu a decisão do diretor de não participar da reunião.

Há duas semanas, parte dos economistas ainda cogitava a possibilidade de o BC reduzir o ritmo de aperto dos juros, optando por uma alta de 0,25 ponto após seis aumentos de 0,5 ponto, diante da retração da atividade econômica e da melhora gradual das expectativas de inflação para o próximo ano.

A decisão do governo de reduzir sua meta de superavit primário de 1,1% do PIB para 0,15% do PIB, com possibilidade de deficit, reforçou, no entanto, a expectativa de um aperto maior pelo BC.

Quanto menor a economia feita pelo governo para o pagamento de juros da dívida, maior o volume de recursos disponível na economia para consumo e investimento –combustível para o reajuste de preços em um cenário de inflação já elevada.

Em meio a preocupações dos investidores com a trajetória da dívida pública, a redução da meta de economia também alimentou uma alta do dólar, o que tem efeito inflacionário.

Essas mesmas preocupações contribuíram para que a agência de classificação de risco Standard & Poor"s indicasse nesta semana a possibilidade de reduzir a nota do Brasil para o grau especulativo em um futuro próximo.

Para este ano, em que a inflação sentiu o choque de reajustes das tarifas reguladas pelo governo, principalmente de energia, e também da alta do dólar, a expectativa é que o IPCA fique bem acima do teto da meta.

Líderes do PMDB querem saída de Volpon, do BC

Maria Lima – O Globo

• Serra quer que caso de diretor que antecipou voto seja analisado no Senado

BRASÍLIA - No dia em que o Comitê de Política Monetária (Copom) se reuniu para decidir sobre a elevação da taxa básica de juros, lideranças do PMDB bombardearam o diretor da área externa do Banco Central, Tony Volpon, acusando-o de ter antecipado seu voto durante encontro com investidores em São Paulo. O líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), pediu a demissão do diretor e anunciou que irá apoiar a decisão do senador José Serra (PSDB-SP) de encaminhar o caso para análise na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.

Segundo o jornal "Valor Econômico", em apresentação pública a investidores, Volpon declarou: "Pessoalmente, vou votar para o aumento de juros até que a nossa projeção esteja de maneira satisfatória apontando para o centro da meta." Em meio à polêmica, o diretor se absteve de participar da reunião de ontem.

- Esse diretor do Banco Central precisa ser investigado e demitido. Antecipação de voto em uma decisão que mexe com a economia e com Bolsa de Valores não pode ser tratada com tamanha irresponsabilidade - cobrou Eunício Oliveira, concordando com a discussão do caso na CAE.

Terça-feira, Serra criticou Volpon em artigo na "Folha de S.Paulo", acusando-o de desrespeitar o rito da autoridade monetária. "O Copom não é lugar para amantes da vuvuzela. Justificativas posteriores baseadas em teorias arcanas ou "eu quis dizer outra coisa" não cabem".

O BC disse que a declaração não implicou antecipação de voto e, por ser pública, "não representou vantagem competitiva ou informação privilegiada". Segundo o BC, a manifestação correspondeu "à exposição da convicção técnica" em um procedimento operacional mediante o qual as decisões sobre juros "são tomadas com fundamento em projeções da inflação futura".

Juros vão demorar mais para cair, avaliam economistas

- Folha de S. Paulo

• Interpretação do comunicado do Banco Central é que taxa básica vai permanecer em 14,25% ao ano até o segundo trimestre de 2016

O Banco Central foi absolutamente claro, em seu comunicado, que encerrou o atual ciclo de aumento nas taxas de juros, segundo economistas do mercado financeiro. Por outro lado, sinalizou que o atual patamar de 14,25% ao ano deverá perdurar por um bom tempo antes de voltar a recuar, mesmo com a fraqueza da economia.

Até então, grande parte dos economistas acreditava em mais um aumento nos juros neste ano, possivelmente, em um ritmo mais comedido de 0,25 ponto percentual. Já em 2016, quando a inflação desse sinais de que ficaria no centro da meta de 4,5%, o BC poderia começar a reduzir as taxas. E isso poderia ocorrer já no primeiro trimestre do próximo ano.

"Foi a porta de saída. O recado foi forte", disse o economista Alexandre Schwartsman, colunista da Folha.

"Difícil será manter esse discurso se acontecer alguma coisa diferente. Vai ficar feio chegar a setembro e dizer que se enganou. E a história recente mostra que o BC já se enganou outras vezes."

Para Mauricio Molan, economista-chefe do Santander, o Banco Central deixou claro que a Selic ficará estável em 14,25% "por período suficientemente prolongado", como consta no comunicado.

A expectativa do banco era de mais um aumento de 0,25 ponto, terminando o ano em 14,5%. Em 2016, o Santander esperava a redução já no primeiro trimestre. Após o comunicado, o banco passou a considerar que a Selic vai estabilizar em 14,25% e só voltará a cair no segundo trimestre de 2016.

Ajustes no mercado
A mudança no discurso do BC deverá levar a um ajuste nas taxas de juros negociadas pelos investidores para janeiro de 2016, que reflete o que acontecerá neste ano. Nos anos seguintes, pode ocorrer aumento nas taxas.

Na BM&FBovespa, os juros para janeiro de 2016 terminaram nesta quarta (29) a 14,31% –0,06 ponto acima da Selic atual. Para janeiro de 2017, os juros estavam em 13,87%, já considerando queda taxa Selic no próximo ano.

Dilma veta nova regra de reajuste de aposentadorias

- O Estado de S. Paulo

A presidente Dilma Rousseff vetou ontem o texto aprovado pelo Congresso Nacional que incorporou a regra de reajuste do salário mínimo, com índices acima da inflação, a todos os benefícios e aposentadorias concedidos pelo INSS. O governo é contra á mudança porque alega que extensão da norma para aposentados irá comprometer as contas previdenciárias. Um dos responsáveis pela articulação política do governo, o ministro-chefe da Secretaria de Aviação Civil, Eliseu Padilha, disse que "esta conta é impagável" e "a solução é vetar". "Não tem outra saída", emendou.

Ontem venceu o prazo para a presidente decidir o que fazer com o projeto que, originalmente, pretendia apenas prorrogar até 2019 a política de valorização do salário mínimo. No entanto, os deputados, estenderam, na Câmara, o mesmo reajuste, acima da inflação, também para as aposentadorias, pensões e benefícios pagos pela Previdência, de quem ganha acima do mínimo.

No Senado, o texto que promovia recuperação do mínimo e que reajustava as demais aposentadorias foram separados, permitindo que apresidente vetasse apenas a parte que o Planalto considera "insustentável" para as contas públicas. O gasto estimado pela Previdência é de R$ 9,2 bilhões extras por ano.

Esta regra foi um dos chamados "jabutis" incluídos pela Câmara e mantidos pelo Senado, na Medida Provisória editada em março pela presidente. O texto original não previa que esta regra fosse estendida para aposentadorias, pensões e outros benefícios de quem ganha acima do mínimo.

A Câmara, comandada por Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que está em guerra com o Planalto e aprovando seguidas pautas-bomba, endossou e aprovou a medida, para desespero do governo. O vice-presidente Michel Temer chegou a dizer , que a medida seria "um rombo nas contas públicas".

Regra vigente. O governo lembra que todas as aposentadorias, mesmo as que têm valor acima do mínimo, já são contempladas anualmente com o reajuste correspondente à inflação. Este ano, o reajuste dos benefícios foi de 6,23%, equivalente ao INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) de 2014.

A presidente Dilma sabe que o veto lhe trará novo desgaste político, mas considera que isso é inevitável. Na conversa que terá com os líderes dos partidos da base e ministros políticos, vai pedir mais este apoio para evitar a derrubada do veto, pela sua insustentabilidade.

Outra justificativa para o veto é com o princípio que podería ser criado pelo projeto, que ao conceder reajustes para toda a base de aposentados colocaria em risco a própria política do salário mínimo.

O ministro da Previdência, Carlos Gabas, já havia alegado que a lógica é equivocada e não tem o mínimo fundamento, além de criar dificuldades econômicas em tempos de ajuste fiscal. O veto e as suas justificativas serão publicadas hoje no Diário Oficial da União.

Para lembrar: Gasto seria de R$ 3,4 bilhões
A extensão da regra de correção do salário mínimo a todas as aposentadorias foi incluída pelos parlamentares em uma Medida Provisória (MP) que a presidente Dilma Rousseff enviou ao Congresso para manter a política de valorização do mínimo até 2019. Os parlamentares colocaram uma emenda que estendeu a fórmula do cálculo - que leva em conta a inflação mais o PIB dos últimos dois anos para todos os benefícios previdenciários, inclusive aposentadorias superiores ao mínimo. 

A presidente já tinha adiantado que vetaria a medida aprovada pela Câmara e pelo Senado. Segundo cálculos oficiais, o impacto nos cofres públicos seria de R$ 3,4 bilhões até 2018. Desde 2006, as aposentadorias acima do piso são reajustadas, todo ano, só com base na variação do INPC. Neste ano, essas aposentadorias tiveram incremento de 6,23%, enquanto o salário mínimo aumentou 8,84%. As três maiores centrais sindicais afirmam que vão pressionar os parlamentares para derrubar o veto da presidente à equiparação.

Dilma afaga Estados por apoio ao ajuste

Andrea Jubé, Fernando Exman e Raphael Di Cunto - Valor Econômico

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff anuncia hoje, em reunião com os governadores, que vai sancionar o projeto que permite a Estados e municípios usarem os recursos de depósitos judiciais para pagar precatórios. Será um gesto de afago aos governadores, porque a medida será um alívio para os cofres dos Estados.

O encontro tem duas pautas prioritárias: pedir apoio ao projeto de unificação do ICMS, com a criação de fundo de compensação aos Estados, e um apelo para que os governadores reforcem o diálogo com suas bancadas no Congresso para evitar a aprovação de projetos que onerem os cofres públicos. A presidente fará menção sutil ao pedido de apoio ao ajuste fiscal, para não parecer que está pedindo socorro aos governadore

Dilma acena com alívio financeiro a Estados
A presidente Dilma Rousseff anunciará hoje, em reunião com governadores, que decidiu sancionar a proposta que permite a Estados e municípios usarem os recursos de depósitos judiciais para pagar precatórios, num gesto para dar alívio aos cofres dos demais entes federativos.

O encontro com os gestores estaduais tem duas pautas prioritárias: pedir apoio ao projeto de unificação do ICMS, com a criação de fundos de compensação dos Estados - que pressupõe a aprovação do projeto que regulariza recursos enviados ao exterior ilegalmente -, e um apelo para que os governadores reforcem o diálogo com suas bancadas no Congresso, para evitar a aprovação de projetos que aumentem o rombo nos cofres públicos.

Conforme antecipou o Valor, Dilma e o vice-presidente Michel Temer comandam a reunião no Palácio do Planalto, a partir das 16h, com a presença de 25 governadores e da vice-governadora do Mato Grosso do Sul, Rose Modesto (PSDB). Apesar de o Planalto ter a informação de que 26 governadores estarão presentes, o do Espírito Santo, Paulo Hartung, não deve participar do encontro. Também participam os ministros da Fazenda, Joaquim Levy, do Planejamento, Nelson Barbosa, e da Casa Civil, Aloizio Mercadante.

O discurso inaugural da presidente será transmitido pelos veículos estatais de rádio e TV. A presidente fará uma menção sutil e institucional ao pedido de apoio, sem parecer, em tempos de instabilidade política e alta reprovação popular, que o governo está pedindo socorro aos governadores.

Levy e Barbosa farão exposições sobre o cenário econômico, incluindo a justificativa de reduzir a meta fiscal. Levy pedirá aos governadores que reforcem o apoio no Congresso ao projeto de lei do senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) que permite a repatriação de recursos de brasileiros no exterior não declarados à Receita Federal. O ministro conta com esses recursos para viabilizar o fundo de compensação aos Estados, com a unificação do ICMS.

A reunião ocorre em meio a mais um episódio constrangedor para Dilma provocado pelo Congresso: a publicação do veto ao reajuste dos aposentados seguindo a correção do salário mínimo. O risco de derrubada deste e de outros vetos que buscam evitar impactos fiscais negativos é uma preocupação do Planalto. Outro veto polêmico foi ao aumento dos servidores do Judiciário, que pode gerar um gasto de R$ 25 bilhões em quatro anos.

O tema é sensível porque há projetos com impacto à União que, de outro lado, interessam aos governadores. Um exemplo é uma emenda incluída na Medida Provisória 670 que concede isenção de PIS e Cofins para o óleo diesel. A perda estimada de receita federal é de R$ 13 bilhões ao ano. Dilma vetou a proposta e teme a reversão de sua decisão.

Em contrapartida, a presidente acenará com boas notícias aos governadores, como a decisão de sancionar a chamada "emenda Serra", do senador José Serra (PSDB-SP), que libera mais recursos aos Estados e municípios para arcarem com despesas de precatórios. O texto eleva de 40% para 70% o teto para esses gastos. O Ministério da Fazenda era contrário à proposta, mas os parlamentares atenderam ao apelo dos governadores e prefeitos que - assim como a União - também tentam elevar a arrecadação.

A sanção a essa proposta foi um pedido que o governador Rodrigo Rollemberg (PSB), do Distrito Federal, fez pessoalmente a Dilma há duas semanas. Em dificuldades para promover seu próprio ajuste fiscal e com um rombo de R$ 1,5 bilhão para pagar as contas até o fim do ano, Rollemberg defende que os governadores tenham uma postura colaborativa para ajudar o governo federal neste momento. "Agora mais do que nunca os entes federativos têm que dialogar para buscar alternativas comuns e conjuntas para superar as dificuldades", disse aoValor. "Estamos acompanhando o esforço do governo para equilibrar seu Orçamento, estamos fazendo isso também", completou.

Rollemberg, cujo partido tem votado contra o governo no Congresso, diz que o PSB é independente, e não de oposição. Ele afirmou que, "caso seja bem pactuado", os governadores devem concordar com o projeto de lei de equalização das alíquotas de ICMS, que depende da criação de dois fundos de compensação. Ele acrescentou que os governadores vão pedir a Dilma também autorização para contrair novos empréstimos no exterior, travadas este ano pelo Ministério da Fazenda. Essa proposta também será defendida pelos governadores Luiz Fernando Pezão (RJ), Geraldo Alckmin (SP) e Fernando Pimentel (MG), que se reunirão antes do encontro com Dilma.

Rollemberg avalia que o rompimento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), com o governo federal é preocupante, pois o momento exige um ambiente de diálogo para se pactuar temas de interesse nacional.

Dilma recebe governadores no Planalto

- Folha de S. Paulo

• Presidente quer discutir a reforma do ICMS e articular para impedir aprovação de medidas que ampliem gastos

• Reunião não deve tratar de ajuda para evitar que o TCU rejeite as contas do governo de 2014; ministros participarão

A presidente Dilma Rousseff recebe nesta quinta (30), no Palácio do Planalto, os governadores para discutir a reforma do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) e dividir com eles a responsabilidade de evitar a aprovação das chamadas pautas-bomba no Congresso.

O governo quer que os chefes estaduais articulem suas bancadas na Câmara e no Senado para impedir a aprovação de projetos que custem caro aos cofres públicos.

Entre as demandas, impedir a derrubada de vetos presidenciais, como ao reajuste do salário dos servidores do Judiciário, ajudar na aprovação do projeto que permite a repatriação do dinheiro de brasileiros no exterior e tentar barrar a aprovação da medida que muda a correção dos recursos do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), de 3% para quase 6%.

O Planalto também quer unificar as alíquotas de ICMS em 4% para todo o país. Atualmente, cada Estado adota um percentual, criando uma espécie de "guerra fiscal".

Em 13 de julho, Dilma assinou uma medida provisória que cria dois fundos para, segundo a presidente, compensar as perdas nos Estados prejudicados com a eventual unificação do ICMS.

O debate deve ser fechado e terá a participação do vice-presidente, Michel Temer (PMDB), e dos ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil), Nelson Barbosa (Planejamento) e Joaquim Levy (Fazenda).

Até a noite desta quarta (29), segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência, dos 27 governadores, 26 haviam confirmado presença. Apenas o representante do Mato Grosso do Sul, em viagem internacional, enviará a vice-governadora.

Formato
O formato do encontro gerou polêmica nos bastidores do Planalto. Inicialmente, a ideia era convidar os governadores da base aliada e apenas alguns nomes da oposição. Depois, definiu-se que os 27 governadores seriam convidados para pedir um "pacto federativo".

Segundo a Folha apurou, não vão entrar na pauta assuntos como um pedido de ajuda para evitar que o TCU (Tribunal de Contas da União) rejeite as contas de 2014 do governo. Auxiliares de Dilma avaliam que esses temas poderiam inviabilizar a reunião.

A aposta é atender a demanda dos governadores que, preocupados com a crise econômica, sabem que medidas que ampliam gastos da União têm impacto nos Estados.