quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Hélio Schwartsman: Entretenimento barulhento

- Folha de S. Paulo

Pautas ligadas às guerras entretêm base eleitoral ruidosa de Bolsonaro

O verdadeiro teste da administração Bolsonaro será na economia. Ou ele faz as reformas que lhe darão fôlego orçamentário para governar até 2022, ou viveremos tempos conturbados. E, enquanto o futuro presidente e sua equipe econômica tentam se entender sobre o que farão, o núcleo bolsonariano vai entretendo a parte mais barulhenta de sua base eleitoral com pautas ligadas às guerras culturais.

A mais visível delas é o Escola sem Partido, que pretende vetar o proselitismo político em sala de aula. Ainda que se possa concordar, abstratamente, com a tese de que professores deveriam ensinar seus alunos e não tentar convertê-los para suas causas, o projeto é uma das iniciativas legislativas mais estúpidas que já li em minha vida.

A proposta erra no diagnóstico, revela-se patética na terapêutica e teria resultados quase certamente desastrosos se implementada. Ainda que professores, particularmente os de ciências humanas, tendam a ter opiniões de esquerda e por vezes as impinjam a seus estudantes, há pelo menos meia dúzia de problemas muito mais graves no sistema educacional que mereceriam a atenção de legisladores e do Executivo.

Bruno Boghossian: Temporada nas trevas

- Folha de S. Paulo

Após derrota, dirigentes do PT preveem era de adversidades

Entre atos de resistência e frentes democráticas, parte dos dirigentes do PT reconhece que a derrota do partido na eleição abre uma era inédita de adversidades. Com a vitória de Jair Bolsonaro, a prisão prolongada de Lula e o desgaste da imagem da sigla, os petistas se armam para uma batalha duradoura.

O diagnóstico já foi feito por quadros considerados mais combativos, como José Dirceu, Gilberto Carvalho e Gleisi Hoffmann. A maioria prevê um trabalho duro de reconstrução política, enquanto os mais pessimistas temem uma tentativa de asfixia da legenda nos próximos anos.

“É uma luta de longo prazo. Não nos iludamos”, alertou Dirceu, que presidiu o PT nos anos que antecederam a eleição de Lula. Em lançamento de suas memórias, na segunda (12), o ex-ministro disse que Bolsonaro tem uma base social forte que deve mantê-lo no poder por anos.

Alguns petistas enxergam na eleição de Bolsonaro a cristalização de um ambiente desfavorável à sigla também nas instituições do país. Os esforços pela libertação de Lula, por exemplo, tenderiam a perder força.

Vinicius Torres Freire: Falta gás no comércio

- Folha de S. Paulo

Resultados das vendas do varejo em setembro foram surpreendentemente ruins

O movimento no comércio está fraco. Enquanto a gente está distraída a discutir planos de inauguração ou mesmo refundação do governo, as vendas no varejo vão mal das pernas pelo menos desde o atropelamento do caminhonaço.

O resultado das vendas de varejo de setembro foi surpreendentemente ruim no país, mostram os dados do IBGE, espantando de economistas ao pessoal da Associação Comercial de São Paulo.

Pode ser passageiro, pois os indicadores do comércio andam voláteis, faz uns dois anos. Pode ser que tenha passado o efeito da liberação do dinheiro das contas do PIS-Pasep. Talvez cada vez mais gente espere as promoções de Black Friday ou, ainda, tenha se sentido receosa com as incertezas da eleição. Não raro, os ânimos e a confiança do consumidor melhoram depois de eleições.

Mas os fatos óbvios são: 1) a média dos salários passou a aumentar ainda mais devagar neste ano; 2) o crescimento anual (em 12 meses) das vendas do varejo dito restrito diminui praticamente desde março (nessa conta, estão excluídos o comércio de veículos e material de construção).

Claro que o paradão caminhoneiro prejudicou esses números. No entanto, quando se comparam as vendas dos meses posteriores ao caminhonaço com as do ano passado, nota-se que setores como móveis e eletrodomésticos vão mal; que tecidos, vestuário e calçados não se recuperaram do tombo de meados de ano.

Alexandre Schwartsman: A 'farsa' do desemprego

- Folha de S. Paulo

Economia não é para aspirantes; antes de falar do assunto, não custa passar no posto Ipiranga

Na semana passada, o presidente eleito se manifestou sobre asestatísticas de desemprego no país afirmando: “Vou querer que a metodologia para dar o número de desempregados seja alterada no Brasil, porque isso daí é uma farsa. Quem, por exemplo, recebe Bolsa Família é tido como empregado. Quem não procura emprego há mais de um ano é tido como empregado. Quem recebe seguro-desemprego é tido como empregado”.

Segundo o IBGE, a população brasileira em setembro deste ano era de aproximadamente 209 milhões de pessoas. Nem todos, porém, estão aptos a trabalhar. O IBGE define a População em Idade Ativa, PIA, como aqueles com mais de 14 anos, em torno de 170 milhões de pessoas.

Obviamente, apenas parte dos maiores de 14 anos está no mercado de trabalho. Alguns, por exemplo, estudam (ainda bem!), outros já se aposentaram, e há quem decida não tomar parte no mercado por uma série de motivos, alguns dos quais trataremos à frente.

Os que participam, seja trabalhando, seja buscando emprego, são definidos como “força de trabalho”, ou PEA (População Economicamente Ativa), e montavam a 105 milhões de pessoas em setembro.

Desses, 92,6 milhões estavam ocupados, e 12,5 milhões, desempregados. Assim a taxa de desemprego atingiu 11,9% (12,5÷105).

Ricardo Noblat: Avisos nada sutis ao capitão

- Blog do Noblat | Veja

Para jamais esquecer

O presidente eleito Jair Bolsonaro deve se perguntar por que tem recebido de presente tantos exemplares da Constituição.

Diante de sua cadeira, na sessão do Congresso que celebrou 30 anos da Constituição de 1988, havia um exemplar que ele usou para amparar seu curto pronunciamento onde invocou Deus cinco vezes.

Ao visitar o ministro José Antonio Dias Tóffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, recebeu dele mais um exemplar, este em embalagem especial.

A ministra Rosa Weber, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, presenteou-o com mais um na visita que Bolsonaro lhe fez ontem na companhia do seu principal assessor, o general Augusto Heleno.

Não será, portanto, por falta de exemplares e de avisos nada sutis que ele deixará de cumprir o que a Constituição prescreve.

Lula e o gostinho de liberdade

À espera de nova condenação

Recolhido desde 7 de abril último a uma cela da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, Lula provará, esta tarde, o que mais poderá se parecer com uma sensação de liberdade quando for tirado de lá para ser interrogado no prédio da Justiça Federal pela juíza Gabriela Hardt, sucessora de Sérgio Moro no comando da Lava Jato.

Terá direito a tudo que se reserva a uma celebridade. A segurança do prédio e ao longo do percurso de cinco quilômetros será reforçada, o trânsito interditado, escolta especial da Polícia Federal, e um número desconhecido de atiradores de elite postados no alto de prédio para prevenir um eventual atentado.

O que o BNDES ganha com a chegada de Levy: Editorial | O Globo

Com passagens em cargos públicos, novo presidente do banco tem papel a cumprir no ajuste fiscal

Há altos servidores públicos, funcionários ou não de carreira, que cumprem longas trajetórias em cargos técnicos no Estado. Mas nenhum rivaliza com o ecletismo e a frequência com que Joaquim Levy é convocado por governantes. Agora, por Jair Bolsonaro para presidir o BNDES. Secretário do Tesouro no primeiro governo Lula, na equipe do ministro Palocci, com Meirelles presidente do Banco Central, Levy participou do trabalho “neoliberal” que conteve a crise de 2003 deflagrada pela própria chegada do PT ao Planalto.

Secretário de Fazenda do emedebista Sérgio Cabral, ajustou as contas do Rio de Janeiro, e voltou a um governo petista, de Dilma, quando ela decidiu recuar, no segundo mandato, na destruição fiscal que promovera. Mas não deu tempo.

A missão de Levy no BNDES não parece tão desafiadora, mas nem por isso é desimportante. Bancado pelo futuro superministro Paulo Guedes e também, como este, pós-graduado pela Universidade de Chicago, referência no pensamento econômico liberal, Joaquim Levy serve de garantia de que o banco não será usado como instrumento de nacionalistas ativistas do desenvolvimento. Mesmo que, no Brasil, esta corrente, que esteve no poder com o lulopetismo, também tenha simpatizantes no meio militar do próximo presidente da República.

Além de tudo, o BNDES é peça-chave no ajuste fiscal por que passa o país, e não apenas na devolução ao Tesouro de parte do meio trilhão de reais proveniente de dívida pública que Dilma Rousseff, de forma irresponsável, injetou no banco. Constituiu-se uma das manobras decisivas para o país mergulhar na crise fiscal. Já foram estornados, este ano, R$ 130 bilhões, providencial ajuda para conter o déficit primário.

O caixa do BNDES: Editorial | Folha de S. Paulo

Banco de fomento pode elevar desembolsos em bases mais sustentáveis a partir de 2019

A indicação de Joaquim Levy para o comando do BNDES sugere que o banco federal de fomento dará prosseguimento, no próximo governo, à reorientação estratégica iniciada sob Michel Temer (MDB).

Findou-se, em meio à ruína das finanças públicas, o gigantismo patrocinado pelos governos petistas, que injetaram na instituição cerca de R$ 500 bilhões (ou 9,5% do Produto Interno Bruto) entre 2008 e 2014 —na tentativa fracassada de elevar o investimento e formar empresas campeãs nacionais.

Caminha-se agora no sentido de reduzir o volume de crédito para grandes negócios, de um lado, e incentivar o financiamento para infraestrutura e inovação, de outro.

Nesse escopo também se insere a assistência técnica para privatizações e obras públicas, áreas de competência do banco, o que pode resultar em parcerias com governos estaduais e municipais ávidos por novos recursos.

Uma questão de compostura: Editorial | O Estado de S. Paulo

O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), não titubeou em afirmar que o julgamento das ações relativas ao auxílio-moradia depende da concessão do aumento de 16,38% do salário dos ministros do Supremo, o que envolve elevar o soldo de toda a magistratura nacional. A falta de compostura avança, impávida.

“Os juízes não receberão cumulativamente recomposição e auxílio-moradia. Tão logo implementada a recomposição, o auxílio cairá”, disse o ministro Luiz Fux, que é o relator das ações que tratam do auxílio-moradia no STF. A mencionada “recomposição” é o aumento de 16,38% no salário dos ministros do Supremo, aprovado na semana passada pelo Senado Federal e encaminhado para a sanção do presidente Michel Temer.

Como não foi previsto na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2019, o aumento de 16,38% é ilegal e merece o veto presidencial. A Carta Magna, no § 1.º do art. 169, exige que a concessão de qualquer aumento de remuneração pelos órgãos da administração direta ou indireta deve ter prévia dotação orçamentária suficiente para atender às projeções de despesa de pessoal e aos acréscimos dela decorrentes e contar com autorização específica na lei de diretrizes orçamentárias. Não é o caso do aumento do salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal.

Situação financeira dos Estados vai de mal a pior: Editorial | Valor Econômico

A situação financeira dos Estados é uma bomba armada para explodir no governo de Jair Bolsonaro. Todos os indicadores são muito ruins e não melhoraram mesmo depois de dois programas de alívio do peso do endividamento realizados durante o governo de Michel Temer. O apoio político de governadores dos Estados em pior situação - o Rio, Rio Grande do Sul e Minas Gerais - ao presidente eleito não tornam a solução mais fácil, mas dão urgência à busca de uma saída. O desarranjo das contas é sério e pode piorar, se a economia não der logo sinais de vigor.

Quanto mais alívio foi dado às finanças estaduais, mais o desajuste parece ter se acentuado. Ao fim de 2016, via lei complementar 156, os Estados tiveram suas dívidas prorrogadas por 20 anos - com isso, a quitação se dará meio século após a renegociação -, mas os resultados primários não foram bons, apesar de redução de R$ 2,6 bilhões na amortização em 2017. Pelo diagnóstico do Tesouro, essa renegociação "não conseguiu equilibrar as finanças estaduais".

Desde o governo de Dilma Rousseff, os Estados ganharam tempo e dinheiro para resolver um problema que evitam atacar de frente. Primeiro, foi a correção do saldo devedor, mudada a seu favor, seguida de uma tentativa de reduzir a amortização de juros. A disputa levou a um acordo, em princípio, para que fosse estendido o prazo de pagamento com União e BNDES desde que os Estados unificassem as alíquotas do ICMS e encerrassem a guerra fiscal, que lhes drenava receitas. Os Estados obtiveram o que queriam sem se comprometerem com nada em relação ao imposto.

O Ministério da Defesa: Editorial | O Estado de S. Paulo

A nomeação de um militar para o Ministério da Defesa, em fevereiro, representou um claro retrocesso institucional. Ao nomear o general Joaquim Silva e Luna para a pasta - primeiro, como interino; em junho, efetivando-o no cargo -, o presidente Michel Temer rompeu o benfazejo ciclo de ministros civis na chefia do Ministério da Defesa desde que ele foi criado, em 1999, no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Como foi dito nesta página à época (ver editorial Retrocesso institucional, publicado em 28/2/2018), o problema não era a pessoa do general Joaquim Silva e Luna, evidentemente, homem de bem e de grandes serviços prestados ao País. O problema residia na atribuição de um poder eminentemente político - o cargo de ministro de Estado - a um militar. Não é uma prática que se coadune com o Estado Democrático de Direito.

Pode-se alegar que o presidente Michel Temer passava por período particularmente tenso de seu mandato. O ano havia começado com uma série de violentas rebeliões em presídios nas Regiões Norte e Nordeste do País. A crise da segurança pública era, como ainda é, tema mais do que presente na agenda de todas as esferas de governo. Não foi por outra razão que o presidente Temer criou o Ministério da Segurança Pública e nomeou para a pasta o então titular da Defesa, Raul Jungmann. E no lugar de Raul Jungmann foi nomeado o general Joaquim Silva e Luna.

'Blocão' pode diminuir força do PSL na Câmara

Raphael Di Cunto e Marcelo Ribeiro | Valor Econômico

BRASÍLIA - Os partidos da Câmara dos Deputados discutem a formação de um "blocão" parlamentar sem a presença de PT e PSL para disputar o comanda da Casa, os cargos na Mesa Diretora e as presidências das comissões. Se isso se concretizar, os dois partidos - que serão os maiores da próxima legislatura - perderiam influência nas negociações na Câmara.

O "blocão", que passou a ser discutido mais a sério num jantar na casa do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), anteontem, juntaria do PCdoB e PDT ao PSDB e DEM, passando por todos os partidos do "Centrão" (PP, PR, PRB, PSD e MDB).

Formalmente, deputados dizem que PT e PSL também serão convidados a integrar o grupo, mas que a tendência é que "os extremos" se recusem a participar de uma aliança com o adversário, mesmo que apenas para divisão dos postos na Câmara. O PSL já disse que pretende "tratorar" a oposição e que não pretende manter diálogo com PT e PCdoB.

"Não estamos discutindo valores, princípios. Estamos discutindo procedimentos de convivência aqui na Casa", afirmou o líder do PSB na Câmara, deputado Tadeu Alencar (PE). "O bloco é para um momento específico, a eleição da mesa. Depois se desfaz", completou. As conversas foram confirmadas por outros cinco líderes e presidentes de partidos.

Fusão com PPS só depende da decisão da Rede, diz Roberto Freire

Em entrevista à rádio Eldorado (ouça aqui  e veja matéria abaixo) nesta terça-feira (13), o presidente do PPS, Roberto Freire, falou sobre os avanços nas negociações para a fusão ou incorporação do partido com a Rede Sustentabilidade, de Marina Silva. De acordo com ele, a Rede discutirá e tomará uma decisão final em janeiro. Ele foi entrevistado pelos jornalistas Haisem Abaki e Carolina Ercolin.

Fusão com PPS só depende da decisão da Rede, diz Roberto Freire

Presidente do PPS diz que partido de Marina Silva discutirá e tomará uma decisão final em Congresso Nacional em janeiro

Matheus Lara | O Estado de S.Paulo

O presidente do PPS, Roberto Freire, falou nesta terça-feira, 13, sobre os avanços nas negociações para a fusão de seu partido com a Rede Sustentabilidade, de Marina Silva. De acordo com o deputado federal, a Rede discutirá e tomará uma decisão final em Congresso Nacional em janeiro.

"Há uma tendência para este processo de incorporação do partido (Rede) nesta nova formação. O que impede ainda é que a decisão que a Rede vai tomar acontecerá no Congresso Nacional, em janeiro", disse o deputado em entrevista à Rádio Eldorado. "(As conversas) caminham bem. A Rede se reuniu neste fim de semana e foi positiva a discussão de que talvez seja necessária a incorporação, a fusão. Este movimento tem sido pensado já há algum tempo. Vamos ver se em janeiro conseguimos construir esta nova formação."

A ideia é que as siglas se unam ainda que informalmente, como mostrou o Estado no mês passado, já que a minirreforma eleitoral de 2015 passou a impedir a fusão ou incorporação de partidos com menos de cinco anos - caso da Rede, criada em 2015. O partido de Marina elegeu apenas uma deputada federal neste ano e por isso não terá acesso ao Fundo Partidário.

"Estamos tratando como uma fusão. É a opção qe eles discutem e pela qual temos muita satisfação", afirmou Roberto Freire. "Antes da eleição, já houve certa integração (do PPS) com movimentos de renovação da política que foram bem sucedidos (Marcelo Calero, do movimento RenovaBR, foi eleito deputado federal pelo PPS-RJ). É a demonstração que vivemos um novo momento. Por isso, estamos trabalhando e nos integrando a eles."

Freire disse que PPS e Rede precisarão "afinar" discursos, mas não vê diferenças programáticas que impeçam a união. "Não é que a Rede seja contra reformas. Algumas lideranças se posicionaram contra, outras a favor. Temos que discutir para afinar discursos. Mas não vamos nem devemos ser um partido que tenha pensamento único."

O deputado disse que ainda não há uma definição acerca da posição do PPS (mesmo antes da possível fusão) sobre o governo Jair Bolsonaro, mas fala numa possível "oposição democrática". "O que vai vencer é a democracia. A oposição sistemática, como fez o PT, não sei se é uma boa opção para o Brasil. O Brasil deu a resposta dizendo que não. A sociedade percebeu. No PPS, discutimos a possibilidade de uma posição independente ou de oposição democrática. Não sistemática. Mas ainda não está decidido."

Mudança de nome. Freire disse que a nova configuração do PPS pode abandonar a palavra "partido" do nome. "Houve uma enquete com militantes e participantes dos movimentos que deu como primeira opção a palavra 'movimento'. Movimento 23. Mas se a Rede vier, vamos reabrir a discussão. O nome tem que representar algo não tão assemelhado às estruturas partidárias que temos e que receberam uma rejeição grande nesta eleição."

Frevo do Bloco / Getúlio Cavalcanti & Coral Edgard Moraes

Graziela Melo: Poema de Carnaval

Entre
as estrelas
e a lua
transitam
nuvens
inquietas

Há muito
se escondeu
o sol
atrás
das sombras
da terra!

Ruminando
um certo
desejo
que consome
minha alma

E do meu sono
tripudia

Olho pela janela
e vejo a rua
vazia...

E apenas
olhar
para o mundo,
era só
o que eu
queria!!!

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Opinião do dia: Emmanuel Macron

"A história ameaça às vezes retomar seu curso trágico e comprometer nosso legado de paz.

Somemos nossas esperanças em vez de colocar em confronto nossos medos.

Juntos, podemos afastar essas ameaças que são o espectro do aquecimento global, a pobreza, a fome, as desigualdades, a ignorância."

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Emmanuel Macron, presidente da França, domingo (11) na cerimônia do centenário do Armistício da Primeira Guerra (1914-18)

*Rubens Barbosa: A política externa e o novo governo

- O Estado de S.Paulo

Espera-se que a ação do Itamaraty não repita as estripulias do PT com sinal trocado

O presidente Jair Bolsonaro enfrentará o mais imprevisível e complexo cenário internacional desde 1945. O multilateralismo (ONU e OMC) e a globalização estão sob ataque com o risco concreto de uma guerra protecionista, pondo em perigo a ordem liberal e ameaçando trazer de volta a recessão.

Políticas equivocadas nos 13 anos e meio do PT puseram o Brasil numa situação de isolamento nas negociações comerciais, de atraso na inovação e tecnologia, de perda de poder, de influência e de espaço no comércio internacional e de manufaturas, além de ter crescido abaixo da média mundial e dos países em desenvolvimento.

Sendo o Brasil uma das dez maiores economias do mundo, espera-se que o novo governo responda - como foi feito nos últimos dois anos - a esses desafios e busque restaurar e ampliar a voz do País no cenário internacional, e nos reinserir nos fluxos dinâmicos da economia e do comércio exterior.

Sem apriorismos ideológicos, e com visão de futuro, o Itamaraty deveria definir as prioridades segundo o atual interesse nacional e as transformações do cenário internacional no século 21. Parece evidente que os principais interesses estratégicos do Brasil se encontram nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia, em particular com a China, pela importância da agenda bilateral. A integração regional deveria merecer uma atenção especial, já que interessa ao Brasil ampliar a liberalização comercial, aprofundar os acordos vigentes e a integração física da região. Em relação ao Mercosul, depois de 25 anos de sua criação, para reexaminar seu funcionamento e sua prioridade para o Brasil poderia ser convocada a conferência diplomática prevista no Tratado de Ouro Preto, que estabeleceu a união aduaneira. O relacionamento com a Venezuela deveria merecer cuidado especial pelo impacto sobre nossos interesses (tráfico de armas e drogas, refugiados, dívida), assim como deveriam ser ampliadas as medidas de coordenação com os nossos vizinhos para a proteção das fronteiras, a fim de combater o crime transnacional.

Aloysio Nunes Ferreira: O Itamaraty e a política comercial brasileira

- O Globo

A ideia de retirar do Itamaraty a condução das negociações comerciais internacionais e a defesa do Brasil em disputas nessa área aparece sazonalmente. Ela insinua ares modernizantes, mas, na verdade, abre margem ao domínio por interesses setoriais do ciclo da política comercial, desde sua formulação até a liderança em negociações multilaterais, plurilaterais ou bilaterais.

Os argumentos são, normalmente, um festival de distorções: em outros países há área separada das chancelarias para negociar, então devemos imitá-los, afinal tudo que vem de fora tem de ser melhor; diplomatas têm visão política, então é preciso assegurar prevalência de visão técnica, deslocando a condução das negociações para o colo de luminares do comércio internacional; a política comercial tem sido passiva, de modo que a solução seria mudara máquina para assegurar novo ímpeto negociador.

Por distintas razões, em vários países a condução das negociações comerciais não se situa nas chancelarias, embora isso não seja uma unanimidade. Mas essa é uma falsa questão. A imitação de modelos forâneos não leva em conta as características de nossa história institucional e os resultados que foram obtidos ao concentrar no Itamaraty capacidade e conhecimento, que não podem ser desaproveitados sob pena de graves prejuízos ao país.

Bernardo Mello Franco: Novo chanceler terá trabalho dobrado

- O Globo

O futuro ministro das Relações Exteriores terá que segurar a língua de Bolsonaro e dos colegas. O governo ainda não começou, mas já criou atritos com Argentina, Egito, China e Noruega

O próximo chanceler ainda não foi escolhido, mas terá trabalho dobrado. Quem assumir o Itamaraty enfrentará uma forte desconfiança externa sobre os rumos do país. Além disso, precisará conter a língua do presidente e de seus principais assessores.

Na campanha, Jair Bolsonaro já demonstrou potencial para produzir incidentes diplomáticos. O então candidato fez uma série de provocações à China, maior parceira comercial do Brasil. Depois do segundo turno, foi avisado de que as bravatas podem custar caro à economia do país.

O presidente eleito também criou mal-estar com os países árabes ao imitar Donald Trump e anunciar a mudança da embaixada em Israel para Jerusalém. O Egito foi o primeiro a reagir: cancelou uma visita oficial do ministro Aloysio Nunes. Os empresários brasileiros tiveram que antecipar a volta para casa sem fechar negócios.

Eliane Cantanhêde: Engolir sapos

- O Estado de S.Paulo

Governar não é moleza nem para quem tem experiência, partido, programa e equipe. E para quem não tem?

Eunício Oliveira é do MDB, não tem nada de esquerda e apoiou Lula e Fernando Haddad pela força do PT no Nordeste, mas já no primeiro turno Haddad e o próprio Eunício perderam a eleição no Ceará. Coisa rara, o presidente do Senado não se reelegeu.

Assim, ele é um pote até aqui de mágoa e, além de dizer, ele já mostrou que não está nem aí para o presidente eleito: após Jair Bolsonaro dizer que “não é o momento” de reajustar os salários do Supremo e pedir “grandeza” aos senadores, Eunício desdenhou o apelo, pôs o aumento na pauta e ajudou a inflar em bilhões por ano o rombo fiscal.

Para piorar, Paulo Guedes foi infeliz ao falar em “dar uma prensa” no Congresso e as relações entre Executivo e Legislativo começaram a azedar antes mesmo da posse de Bolsonaro e Guedes, em janeiro, e da nova Legislatura, em fevereiro.

É um choque de realidade, porque presidentes da República não fazem o que querem e precisam aprender algo que envolve política, experiência, maturidade e personalidade: engolir sapos. “Crus, fritos, assados, cozidos, grandes, pequenos, sem sal”, acrescenta um velho conhecedor de Brasília.

Merval Pereira: Novo jeito de governar

- O Globo

Colocar um civil no Ministério da Defesa pode ser uma maneira de não constranger nenhuma das Forças Armadas

Ao confirmar a nomeação de Joaquim Levy, ex-ministro da Fazenda de Dilma Rousseff, para presidir o BNDES, o presidente eleito Jair Bolsonaro ratificou a decisão de delegar aos ministros, especialmente aos dois superministros — Paulo Guedes, da Economia; Sergio Moro, da Justiça —, a escolha de seus principais assessores, de porteira fechada como se diz na política de Brasília, mas sem interferências políticas.

Além disso, está fechando negociações com as bancadas suprapartidárias de corporações, como a da Agricultura, para onde indicou a deputada Tereza Cristina, que preside a Frente Parlamentar da Agropecuária. Desistiu de unificar o ministério com o Meio Ambiente, mas deixou claro que a nomeação do futuro ministro dependerá da aceitação da deputada.

Tanto Guedes quanto Moro foram escolhas pessoais de Bolsonaro; nem a bancada da economia, nem a da bala interferiram nas escolhas, mas o espírito das nomeações é o mesmo: uma definição técnica que simbolize a importância que o presidente eleito dá aos setores.

O futuro chanceler, tudo indica, será um embaixador de carreira, fortalecendo o Itamaraty. Também os militares ocuparão alguns ministérios dentro de suas atribuições, e até mesmo a não indicação de um civil para o Ministério da Defesa, que era a intenção original quando a pasta foi criada, não pode ser creditada a Bolsonaro, pois o governo Michel Temer quebrou essa tradição colocando o general Silva e Luna à frente da Defesa.

Míriam Leitão: Moro no país das urgências

- O Globo

Moro deu entrevistas esclarecedoras, mostrou convergências com Bolsonaro, mas ainda há enigmas sobre como lidará com temas difíceis

Há uma enorme expectativa sobre como o novo ministro da Justiça e Segurança, Sergio Moro, vai lidar com questões inteiramente novas para ele, que vão dos índios às prisões, passando pela migração nas nossas fronteiras. Sobre os pontos polêmicos da agenda do presidente eleito, o futuro ministro já mostrou muitas convergências e algumas dissonâncias. Ontem, o Cade saiu da alçada dele, mas a lista do que ele terá que assumir é imensa.

Num governo que tem improvisado além do razoável na comunicação, e tropeçado demais na relação com a imprensa, Moro tomou a decisão correta, de dar, no primeiro momento, uma entrevista longa, organizada, clara e aberta a todos os veículos. Na entrevista do fim de semana, ao “Fantástico” ele esclareceu outros pontos das dúvidas levantadas pela ida dele para o governo Bolsonaro.

Nos dois momentos exibiu sua capacidade de pensar antes de falar, e de procurar palavras que arredondem as arestas. Mas não dá para contornar o incontornável. Disse que nunca viu de Bolsonaro “uma proposta de cunho discriminatório” contra minorias. Elas foram desrespeitadas em várias declarações do deputado. Ele foi bem explícito.

José Casado: O valor do voto-Cedae

- O Globo

Faltavam quatro semanas para a eleição. Na noite de terça-feira, 4 de setembro, o deputado Luiz Martins atendeu o telefonema de um cabo eleitoral de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Eram 22h46m, registrou o gravador: “Luiz, tão prejudicando você aqui em Austin, tá?”

Líder da bancada do PDT na Assembleia do Rio, Martins lutava pela quarta eleição, e Austin, bairro pobre de 30 mil votos, havia sido relevante em 2014, quando sua votação cresceu 50% na Região Metropolitana.

“É a Cedae, tá?”, prosseguiu o auxiliar. “Estão mandando pro outro candidato. É dois, três caminhão por semana... o André Ceciliano, pô! Entendeu? A Cedae parece que quer que tu perde a eleição, tá?”

A Cedae é uma joia do governo estadual: fatura cerca de US$ 1,5 bilhão, ou R$ 6 bilhões, em serviços de qualidade questionável de água e esgoto.

Martins decidira impedir a privatização da Cedae. Seu adversário Ceciliano, líder do PT na Baixada, era a favor no verão, mas no inverno mudou e ficou contra. Ambos disputavam os mesmos redutos pobres, onde água vale como moeda.

Luiz Carlos Azedo: O terceiro turno

- Correio Braziliense

“Bolsonaro tem um projeto ambicioso: sepultar o modelo de “presidencialismo de coalizão”, que tem caraterizado o governo federal desde o presidente Itamar Franco”

Ao contrário do que se imaginava, por enquanto, não é com a oposição petista que se arma uma espécie de “terceiro turno” das eleições. É com as forças centristas do Congresso, que controlam as duas casas legislativas e não querem abrir mão desse poder no novo governo. Por enquanto, não é uma guerra aberta, mas uma queda de braços em torno das presidências da Câmara e do Senado. Formalmente, o presidente eleito, Jair Bolsonaro, declara que não tomará partido nas disputas, mas isso é apenas uma cortina de fumaça. Há muitas coisas em jogo, entre as quais a própria natureza do governo, que lida com duas forças que sempre optaram por arbitrar a governabilidade do país a partir do Congresso: o MDB e o DEM.

Na Câmara, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) opera com desenvoltura a própria reeleição. Mas há surpresas: ontem, um deputado do PSB, João Henrique Caldas (PSB-AL), conhecido como JHC, visitou Bolsonaro na Barra da Tijuca, no Rio, para comunicar sua candidatura. O vice-presidente da Câmara, Fábio Ramalho (MDB-MG), também articula sua candidatura. Bolsonaro cancelou a reunião que teria nesta semana com Maia e com o presidente do Senado, Eunício de Oliveira (MDB-CE), para tratar das agendas legislativas que podem virar uma pauta-bomba.

Maia tem reclamado da falta de interlocução de Bolsonaro com o Congresso: “Ainda não houve nenhuma articulação. Não vou pautar uma matéria porque eu li no jornal”, disse, na semana passada, numa reunião de representantes do mercado financeiro, sobre a reforma da Previdência. “O governo acha que viabiliza a base por meio das frentes parlamentares, mas eu acho que não viabiliza”, arrematou Maia.

Fernando Exman: Acerto de contas entre modelos políticos

- Valor Econômico


Congresso reserva surpresas para o presidente eleito



Deputados e senadores tinham certeza que logo chegaria o acerto de contas entre os profissionais da política e a propensa nova forma de se relacionar com o Congresso defendida pelo presidente da República eleito. Não foi preciso nem Jair Bolsonaro tomar posse para que esse ajuste começasse a ocorrer.


O discurso de desqualificação da política catapultou a candidatura de Bolsonaro e facilitou seu caminho rumo ao Palácio do Planalto, mas a manutenção dessa postura já provocou os primeiros atritos entre seu governo, a administração atual e o Parlamento. Em pouco mais de duas semanas, Bolsonaro já tem que lidar com um quebra-cabeça orçamentário e um não menos complexo processo de eleição para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

Bolsonaro e seus articuladores políticos deveriam estar preparados. O período entre o fim do processo eleitoral e o início da próxima legislatura é tradicionalmente desafiador para quem vai assumir o Executivo nos quatro anos seguintes. É uma época em que os parlamentares se aproveitam que o café está esfriando na mesa do presidente da República em exercício, mas ainda não começou a ser servido para o seu sucessor. Neste vácuo de poder, ocorre sempre uma espécie de xepa parlamentar, em que são aprovados todos os tipos de benesses, cujas faturas são inevitavelmente endereçadas aos cofres públicos. Líderes partidários asseguram que mais nada polêmico deve ser votado, mas o reajuste do Judiciário e o regime especial para o setor automotivo podem ter sido apenas os primeiros projetos de uma leva que ainda pode surpreender a equipe de transição.

Ao se pronunciar nas redes sociais dizendo que não pode ser responsabilizado pelo reajuste salarial concedido ao Judiciário, Bolsonaro colocou em prática, pela primeira vez desde que foi eleito, sua estratégia de tentar conduzir a opinião pública a pressionar parlamentares e o próprio presidente Michel Temer. Ou seja, condenou as declarações de seu futuro ministro da Economia sobre a necessidade de dar "uma prensa" no Congresso, mas na prática o fez por uma via alternativa.

Bruno Boghossian: Perda de tempo

- Folha de S. Paulo

Guerra ideológica de Bolsonaro incomoda até políticos conservadores

Não foram poucas as ocasiões em que Jair Bolsonaro disse que "a questão ideológica é tão ou mais grave que a corrupção". Parecia um exagero retórico para alimentar o antipetismo que o empurrou para a vitória nas urnas. Passada a campanha, aliados do presidente eleito ainda levam a máxima ao pé da letra.

Eduardo Bolsonaro acha razoável prender até 100 mil pessoas ligadas a movimentos sociais. Defende substituições em massa no corpo diplomático para se livrar do "marxismo" do Itamaraty. Também considera importante aprovar uma lei que torne crime o comunismo.

O tom que o filho do presidente eleito adotou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo incomodou até políticos conservadores. Dirigentes de partidos dispostos a apoiar as pautas do próximo governo temem que a equipe de Bolsonaro perca tempo e gaste energia à toa com sua guerra ideológica.

Embora a agenda de direita tenha aderência no Congresso que tomará posse em 2019, as tintas usadas por personagens como Eduardo costumam aborrecer potenciais aliados.

Para esses caciques, a eleição de Bolsonaro é uma oportunidade para aprovar a redução da maioridade penal e a flexibilização da posse de armas, por exemplo. Levar para a cadeia quem usa boné do MST, jogar o PC do B na ilegalidade e caçar embaixadores prestigiados está longe de ser uma prioridade.

Pablo Ortellado: O viés dos outros

- Folha de S. Paulo

Com orientação ideológica, Bolsonaro compromete autonomia e eficácia das instituições

Jair Bolsonaro se elegeu prometendo acabar com o "viés ideológico" nas escolas e na política externa. Mas, até agora, tudo o que fez foi imprimir uma orientação ideológica ainda mais marcante, comprometendo a autonomia e a eficácia das instituições.

No discurso da vitória, Bolsonaro celebrou o compromisso de libertar "o Brasil e o Itamaraty das relações internacionais com viés ideológico".

Uma das suas primeiras ações foi o anúncio, pelo Twitter, de que o Brasil transferiria sua embaixada de Tel Aviv, capital comercial de Israel, para Jerusalém, a capital política reivindicada tanto por israelenses como por palestinos.

Até recentemente, havia consenso na comunidade internacional de que as representações diplomáticas deveriam ficar em Tel Aviv, deixando o controverso status de Jerusalém ser decidido em negociações de paz.

Entre os países grandes, apenas os Estados Unidos de Donald Trumptransferiram a embaixada para Jerusalém, num gesto que a comunidade internacional condenou por ser belicoso e desequilibrado.

Ao tomar o partido de Israel, Bolsonaro imprimiu forte sentido político a uma orientação anterior que era mais prudente e mais equilibrada.

A resposta veio rápida, com ameaça de boicote pelos países árabes que são o segundo mercado de exportação de alimentos produzidos no Brasil.

Justamente por ser mais e não menos ideológica, a política externa de Bolsonaro colocou em risco os interesses comerciais brasileiros.

Joel Pinheiro da Fonseca: Há doutrinação nas salas de aula?

- Folha de S. Paulo

A corda está no pescoço dos professores, que foram eleitos os grandes inimigos infiltrados da família e da ordem social

Existe, de maneira geral, um viés ideológico na educação brasileira. Quem nunca teve um professor de esquerda? Eu tive vários, e dos que traziam suas convicções políticas para a sala de aula.

Alguns foram do perfil autoritário, que desestimulava o debate e exigia que os alunos “esquerdassem” na prova. Já outros foram professores incríveis, que estimulavam a discussão e incitavam os alunos a pensar por conta própria. A crença política era o material que animava o debate. Fui doutrinado? Se fui, não funcionou.

E eis que esse fato corriqueiro do nosso sistema —muitos professores serem de esquerda— virou o grande bode expiatório da precariedade de nossa educação.

Ninguém se preocupou em medir e conhecer a real extensão da tal doutrinação em sala de aula; mas os proponentes do projeto Escola Sem Partido (que se manifesta em diversas iniciativas e projetos de lei, uma das quais vem sendo debatida pelo Congresso) juram que se trata de um problema gravíssimo e que justifica colocar o Ministério Público para perseguir professores.

Não existe sequer um consenso mínimo do que seja “doutrinação”. Há todo um espectro de práticas que podem entrar na conta: desde um caso de abuso claro como o professor obrigar os alunos a fazer manifestação partidária para passar de ano, até práticas mais corriqueiras como usar um livro de autor “de esquerda” ou mesmo propor alguma análise que irrite algum pai de aluno.

Na prática, a corda está no pescoço de todos os professores, que foram eleitos os grandes inimigos infiltrados da família e da ordem social.

Hélio Schwartsman: Marechal Piolho

- Folha de S. Paulo

Antes da 1ª Guerra, maioria dos óbitos nos conflitos era por epidemias com ectoparasitas como vetor

O presidente da França, Emmanuel Macron, em seu discurso por ocasião do centenário do armistício que pôs fim à Primeira Guerra Mundial, queixou-se de demônios do passado que estariam ressurgindo na forma de nacionalismo e ameaçando mais uma vez colocar a história num curso trágico.

Não há dúvida de que o nacionalismo, que era ruim cem anos atrás, continua ruim hoje, mas, ao traçar comparações históricas de grande envergadura, é preciso estar atento para não fechar os olhos para as diferenças que marcam cada um dos períodos. Dados quaisquer dois momentos da história, sempre haverá mais diferenças do que semelhanças entre eles.

Há demônios e demônios, e, se alguns ressurgem, outros parecem ter sido exorcizados. Algo pouco destacado nas efemérides da Primeira Guerra é que ela foi o primeiro conflito envolvendo grandes exércitos em que a maior parte das baixas foi provocada pelos combates propriamente ditos e não por doenças.

Em guerras anteriores, a maioria dos óbitos era causada por epidemias que têm ectoparasitas como vetor, a exemplo do tifo. Exalta-se o papel do general Inverno na derrota de Napoleão na Rússia, mas o marechal Piolho foi muito mais decisivo. Estima-se que, para cada soldado francês morto no campo de batalha, quatro tenham sucumbido a patógenos transmitidos por insetos.

Ricardo Noblat: Corre o risco de dar certo

- Blog do Noblat | Veja

Um novo presidencialismo

Uma nova forma de governar o país será testada quando o presidente eleito Jair Bolsonaro tomar posse em 1º de janeiro do próximo ano. É isso o que está em construção desde agora.

Se antes os presidentes negociavam com os partidos a escalação dos seus ministros em troca de apoio no Congresso, agora é o presidente que os escolhe e, por tabela, quem com ele governará.

Os partidos perderam força. Quem ganhou foram as bancadas suprapartidárias organizadas em torno de temas – a da bala, a dos ruralistas, a dos evangélicos, a dos empresários, e assim por diante.

Os representantes das bancadas dentro do governo serão os ministros – não mais os presidentes ou líderes dos partidos na Câmara dos Deputados e no Senado. Os líderes do governo no Congresso terão mais um papel formal.

Um governo com menos ministros e com dois deles – o economista Paulo Guedes e o juiz Sérgio Moro – como superministros libera o presidente da obrigação de se envolver com muitos assuntos, inclusive com os menores.

No caso de Bolsonaro, ele se ocupará das relações com os demais poderes, das tarefas de representação do país e do ativismo político, o seu forte. Dele dependerá, é claro, a palavra final na hora de tomar decisões importantes.

O principal segredo para que a fórmula dê certo será a montagem de uma equipe de governo que aponte para uma mesma direção. A direita ganhou a eleição e é ela que governará o país pelo menos até 2022.

Rasgando dinheiro

Gilles Lapouge: O Ocidente rompido

- O Estado de S.Paulo

Na Europa, agora não há nações de peso que poderiam apoiar a visão de Macron

As cerimônias organizadas por Emmanuel Macron para o 100.º aniversário do fim da 1.ª Guerra foram maravilhosas, comoventes e fervorosas. Todos os 80 chefes de Estado e de governo falaram de seu horror da guerra, das carnificinas e do amor que tinham uns pelos outros. Todos – ou quase todos – defenderam a amizade entre os povos.

Nas multidões dos Champs-Elysées, nos rostos dos mais emocionados, havia lágrimas. Todos nós nos amávamos, os checos e os irlandeses, os italianos e os poloneses, era como um milagre.

Essa efervescência durou apenas o tempo das cerimônias. Antes mesmo de aterrissar em Paris, o “líder do mundo ocidental”, Donald Trump, enviou a seu “amigo” Macron um feroz tuíte para “castigá-lo” por ter desejado a criação de uma defesa da Europa, destinada a se proteger da Rússia, ou da China ou mesmo, nunca saberemos, até dos EUA (é verdade que a formulação de Macron não foi uma obra-prima de delicadeza).

Um pouco mais tarde, Trump estava amuado, preferindo recolher-se, solitário, aos túmulos dos soldados americanos que haviam caído na França no fim da guerra. Evidentemente, havíamos compreendido alguns meses atrás que os EUA de Trump retornaram a uma tradição com a qual romperam desde 1945.

Mas com essas cerimônias do centenário, ficou em destaque essa ruptura entre Trump e a Europa, e especialmente entre Trump e as instituições “supranacionais” e “multilaterais” da Europa (UE). Devemos admitir que ela é eficaz, nítida, incisiva. E surge a questão: Como pode a Europa “estar à altura” diante desses três monstros que são a imensa China, a imensa Rússia, a imensa América?

A radicalização nas universidades: Editorial | O Estado d S. Paulo

Apesar de o 2.º turno da eleição presidencial ter sido realizado há mais de duas semanas, em clima de absoluta normalidade democrática, em muitas universidades a polarização ideológica e partidária continua crescendo de modo preocupante, a ponto de denúncias, acusações, ameaças de agressão física e afrontas morais a professores e estudantes estarem comprometendo o convívio acadêmico.

Como mostrou o Estado em reportagem da jornalista Renata Cafardo, o clima de radicalização na vida universitária se disseminou em todo o País. Em algumas instituições, circulam listas com nomes de professores acusados de ser fascistas ou comunistas e de expressar “opiniões preconceituosas”. No Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco, um docente não conseguiu entrar em sala de aula e teve de ser escoltado até em casa pela guarda universitária. Em universidades do Sudeste, estudantes têm fotografado a lousa em aulas das quais discordam da orientação dos professores e divulgado o conteúdo nas redes sociais. Na USP, a reitoria precisou acionar a polícia para impedir confrontos em algumas faculdades logo após o término do 2.º turno.

Antes das eleições, os embates entre grupos de direita e de esquerda foram agravados por decisões dos Tribunais de Justiça Eleitoral de alguns Estados, cujos juízes proibiram debates e a colocação de faixas contra e a favor dos dois candidatos que disputaram o segundo turno, Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL). Depois do pleito, o acirramento político foi estimulado pelas discussões sobre a votação do projeto conhecido como Escola sem Partido. O projeto, que proíbe o uso dos termos gênero ou orientação sexual nas atividades acadêmicas e veda aos professores a manifestação de suas preferências ideológicas, religiosas e morais, tem sofrido críticas de diretores de faculdades e reitores de universidades públicas.

Ensaio de otimismo: Editorial | Folha de S. Paulo

Agenda liberal e formação da equipe encorajam previsões mais favoráveis para a economia

As previsões para o crescimento da economia em 2019 convergem para 2,5%. Tendo em vista que o Produto Interno Bruto avançará neste ano pouco mais que o 1% de 2017, trata-se de algum progresso, embora lento, insuficiente e incerto.

Lento porque basicamente reproduz a média verificada de 1995 a 2017, um desempenho medíocre, perdoe-se o trocadilho, para um país que se pretende emergente.

Insuficiente, dado que, a esse ritmo, o PIB nacional por habitante só voltaria ao nível de 2014 em 2023. O período configuraria, pois, mais uma década perdida.

Incerto porque, em primeiro lugar, tais previsões têm mostrado elevada margem de erro nos últimos anos, em boa parte devido à adoção de premissas que não se confirmam. No presente momento, o pressuposto para a recuperação econômica é a realização de um cardápio básico de reformas pelo governo Jair Bolsonaro (PSL).

A atenuação da turbulência internacional e o fim da campanha ao Planalto propiciaram melhora das condições financeiras no mercado. Taxas de juros e de câmbio e o índice da Bolsa de Valores retornaram a patamares mais amigáveis à expansão dos negócios.

Aumento do STF é nova fonte de pressão nas contas públicas: Editorial | Valor Econômico

Está nas mãos do presidente Michel Temer barrar o aumento de 16,38% do salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), aprovado pelo Senado, após ter sido colocado em votação de surpresa, em uma manobra de seu presidente, Eunício de Oliveira. Entre os 41 votos a favor, foram identificados vários senadores com processos na Justiça; apenas 16 foram contra. Tudo indica que o aumento vai ser sancionado, pregando uma nova despesa anual de R$ 4 bilhões a R$ 6 bilhões nas contas públicas dos próximos governos.

Temer disse que iria esperar, no período de 15 dias que tem para se pronunciar a respeito, um gesto do STF em direção a acabar com o criticado auxílio-moradia. A promessa de rever a concessão do penduricalho foi feita pelo próprio presidente do STF, Dias Toffoli, como contrapartida para minimizar o impacto do reajuste salarial. Sai arranhado também o futuro presidente Jair Bolsonaro, já que ele no mesmo dia dito publicamente que era contra o reajuste.

No entanto, tudo parece encenação para tentar aplacar as críticas ao aumento e a revolta da opinião pública, amplificada pela expectativa com o anúncio de medidas que vão penalizar a população para cobrir o rombo do setor público. Com processos na Justiça, correndo no âmbito do STF, se Temer quisesse cortar o problema pela raiz, já poderia tê-lo feito. O reajuste dos salários dos ministros do STF foi inicialmente aprovado pela Câmara dos Deputados em 1º de junho de 2016, sem maiores comoções, beneficiando-se do vácuo de poder então existente, uma vez que o Congresso estava mergulhado no processo do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

É erro crasso adiar uma real reforma da Previdência: Editorial | O Globo

Executar as mudanças necessárias a passos lentos é repetir a falha de Mauricio Macri na Argentina

Não há tema no campo econômico e social mais debatido nestes 30 anos de redemocratização, a contar da Constituição de 88, do que a crise da Previdência.

Nada justifica, então, pedir mais discussões de um tema já por demais esclarecido. Tampouco político pode dizer-se desinformado, pois o assunto é de amplo conhecimento do Congresso. Do próprio Estado brasileiro como um todo, porque também as finanças de estados e municípios estão sendo asfixiadas por aposentadorias e pensões do funcionalismo.

Na verdade, já passou, e muito, da hora de Executivo e Legislativo executarem a necessária reforma de um sistema cujo déficit ultrapassará em breve R$ 300 bilhões anuais, e está em ascensão descontrolada.

O rombo é a soma das perdas do INSS (empregados no setor privado, abrigados no Regime Geral da Previdência) e do Regime Próprio, do funcionalismo federal e de militares das Forças Armadas. Sem incluir servidores estaduais e municipais.

Não tem guinada à direita no PSDB, diz Alckmin

Para o tucano, partido é de 'centro, reformista, moderno, liberal em economia'

Marco Rodrigo Almeida | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Candidato tucano derrotado na eleição presidencial, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin disse que o PSDB não passa por processo de guinada à direita.

"Não há guinada à direita. O PSDB é um partido de centro. É importante para o Brasil ter um partido longe dos extremos. Um partido de centro crítico, reformista, moderno, liberal em economia", disse ele.

No segundo turno das eleições, João Doria, eleito pelo PSDB governador de São Paulo, declarou apoio entusiasmado a JairBolsonaro (PSL), eleito para a Planalto, o que acarretou especulações de que os tucanos adeririam à agenda de direita do capitão reformado do Exército. Doria cunhou na disputa a expressão "Bolsodoria".

Alckmin ficou em quarto lugar no primeiro turno, o pior resultado da história do PSDB.

Também presidente de seu partido, Alckmin disse que os tucanos farão um congresso nacional, provavelmente em maio, para discutir o futuro da sigla.

Alckmin esteve na noite desta segunda (12) no lançamento de livro do ministro do STF Gilmar Mendes, em São Paulo.

Pouco depois de o ex-governador ter ido embora, o senador José Serra, outro nome histórico do partido, chegou ao evento.

Serra afirmou a jornalistas que não faz mais sentido ficar discutindo classificações como esquerda e direita.

Alckmin marca congresso tucano para março

Por André Guilherme Vieira | Valor Econômico

SÃO PAULO - O ex-governador de São Paulo e presidente nacional do PSDB, Geraldo Alckmin, confirmou ontem que a sigla irá realizar um congresso em março do próximo ano para discutir os rumos da legenda. Ele negou, contudo, que o partido tenha dado uma guinada à direita, com a eleição de João Doria para governador do Estado. Doria tem afirmado que, agora, o PSDB "tem lado".

Alckmin foi governador do Estado até abril e disputou a presidência da República no mês passado, terminando em quarto lugar, com 5% dos votos.

"Não tem guinada à direita. O PSDB é um partido de centro. É importante para o Brasil ter partidos longe dos extremos, seja extrema direita, seja esquerda. É importante para o país ter um centro crítico, reformista, moderno, liberal na economia. Esse é o bom caminho".

Segundo Alckmin, o congresso do PSDB em março "será para rediscutir programas, propostas, temas, estatuto". O mandato do ex-governador como dirigente partidário se encerra em maio. Ele estava sendo pressionado pelos governadores eleitos da sigla para abreviar sua gestão. O mês do Congresso será o mesmo em que a sigla renova suas direções no âmbito municipal. Em abril, acontecerá a renovação estadual.

Alckmin desconversou quando questionado sobre o fato de Doria ter ascendido à posição de principal liderança do PSDB. "Todos os governadores eleitos são lideranças importantes. Isso é natural e participarão do processo". Ele e o governador eleito almoçaram juntos na semana passada, depois de Doria articular-se com o governador eleito do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e do Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja.

Executiva Nacional do PPS debate implementação da mudança de nome do partido dia 21

O presidente do PPS, Roberto Freire, divulgou convocação (veja abaixo) de reunião da Comissão Executiva Nacional do PPS para o dia 21 de novembro, em Brasília, com a finalidade de debater a convocação de Congresso Extraordinário para implementação da mudança de nome do partido e novos estatutos, aprovada no 19º Congresso Nacional da sigla, em março.

Ofício Nº 026/18
Brasília, 12 de novembro de 2018.

Prezado(a) companheiro(a),

Estamos convocando os membros da Comissão Executiva do Diretório Nacional, e nossa bancada no Congresso atual, incluindo os recém-eleitos, para uma reunião no dia 21, quarta-feira próxima, das 10h às 13h, tendo como local o San Marco Hotel, quando trataremos das seguintes questões:

1. Convocação do Congresso Extraordinário para implementar a mudança de nome do Partido e novos Estatutos, aprovado no 19º Congresso Nacional;
2. Conjuntura Política;
3. Informes Gerais.
Sem mais para o momento e certos de contarmos com sua imprescindível presença, subscrevemo-nos,
Atenciosamente,

Roberto Freire
Presidente Nacional

Entrevista / Rebens Ricupero: ‘Estamos voltando ao mundo de 1914’

Para embaixador, Primeira Guerra Mundial marcou entrada da diplomacia brasileira no século 20 como protagonista

Luiz Raatz | O Estado de S.Paulo

O fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), cujo centenário se celebra neste mês, marcou a entrada da diplomacia brasileira como protagonista no século 20. A avaliação é do diplomata Rubens Ricupero, diretor da Faculdade Armando Alvares Penteado (Faap).

Para Ricupero, a relação custo benefício da participação brasileira no conflito foi excelente em termos diplomáticos e de prestígio no cenário mundial em virtude do pequeno capital militar empregado no conflito.

Ele alerta para os riscos do ressurgimento do nacionalismo no mundo.

• Qual a importância para a diplomacia brasileira da atuação do País durante a Primeira Guerra?

O que vale a pena realçar é que é uma grande relação custo-benefício. O custo foi pequeno em termos militares e estratégicos. Perdemos seis navios, mas eram perdas inevitáveis. O Brasil em relação à Segunda Guerra Mundial até participou menos. Mas o que recebeu em troca em termos diplomáticos e políticos foi muito grande. Participamos da Conferência de Paris com três delegados, algo destinado apenas às grandes potências da época, graças ao apoio americano e ao argumento de que o Brasil de certa maneira representava todo o continente latino-americano. Então, a participação foi destacada e resolveu as duas questões pendentes de seu interesse: o pagamento do café apreendido pelos alemães em depósitos na Europa e a posse dos 46 navios alemães apreendidos pelo País. De certa maneira, a primeira vez que o Brasil aparece de fato entre as grandes potências mundiais é na Conferência de Paris (em 1919). Quando a Primeira Guerra acabou, França, Inglaterra e Itália elevaram o nível da delegação que tinham no Brasil para embaixada, que, na época, apenas Estados Unidos e Argentina mantinham aqui.

Silvio Rodriguez: Mariposas

Vinicius de Moraes: O Mergulhador

"E il naufragar m'è dolce in questo mare".
Leopardi

Como, dentro do mar, libérrimos, os polvos
No líquido luar tateiam a coisa a vir
Assim, dentro do ar, meus lentos dedos loucos
Passeiam no teu corpo a te buscar-te a ti.

És a princípio doce plasma submarino
Flutuando ao sabor de súbitas correntes
Frias e quentes, substância estranha e íntima
De teor irreal e tato transparente.

Depois teu seio é a infância, duna mansa
Cheia de alísios, marco espectral do istmo
Onde, a nudez vestida só de lua branca
Eu ia mergulhar minha face já triste.

Nele soterro a mão como a cravei criança
Noutro seio de que me lembro, também pleno...
Mas não sei... o ímpeto deste é doido e espanta
O outro me dava vida, este me mete medo.

Toco uma a uma as doces glândulas em feixes
Com a sensação que tinha ao mergulhar os dedos
Na massa cintilante e convulsa de peixes
Retiradas ao mar nas grandes redes pensas.