sexta-feira, 6 de março de 2020

Vinicius Torres Freire - Carnaval no governo, cinzas na economia

- Folha de S. Paulo

Autoridades econômicas colaboram para aumentar o paniquito no mercado

Era um daqueles dias de pânico nos mercados financeiros, quando muita gente não sabe bem o que está fazendo nem para onde o vento sopra. O ministro da Economia deu mais uns tiros nesse desconcerto.

Para quê? O tempo está fechando. Já há paniquito entre os negociantes de dinheiro grosso, "o mercado", mas também questões reais na praça, além dos lobbies de costume.

Nesta quinta-feira (5), o pessoal da finança pediu ao Banco Central que atenue a corrida do dólar. Foi também dia de pregar que o BC não reduza a taxa básica de juros daqui a duas semanas.

O mercado já jogou a "sua" taxa básica de curto prazo no chão, mas argumenta que nova queda da Selic vai colaborar para alta adicional do dólar e alimentar riscos de inflação, com o que os juros de prazo mais longo já sobem. Na terça-feira (3), o Banco Central sugeriu que tal coisa não tende a acontecer.

Caso fosse duradoura e relevante, essa alta das taxas de juros de prazos mais longos encareceria o financiamento dos negócios, de fato. Mas a alta dos juros mais longos nem durou nada, nem foi relevante e nem alguém tem ideia segura do destino do dólar e de seus efeitos na inflação. Até mesmo o impacto da crise que veio da China no PIB brasileiro é incerto.

O tiroteio de frases de Paulo Guedes pode dar em nada, assim como a desordem desta quinta-feira na praça financeira --por vezes isso simplesmente passa. No entanto, como o governo de Jair Bolsonaro é dado ao disparate atroz contínuo, o ambiente anda estressado e a desconfiança aumenta.

Por exemplo, há cada vez mais fofoca sobre a permanência de Guedes no governo, o que não está em questão, mas é um exemplo dos efeitos nocivos do rumorejo constante, desde janeiro em nível de gritaria graças às crises de Bolsonaro.

Um governo de outro mundo – Editorial | O Estado de S.Paulo

Enquanto preocupações atrapalham a bolsa, jogam o dólar para cima e levam o mercado a rever projeções, o ministro Guedes diz que o País está reacelerando

Danos econômicos já se espalham por todo o mundo, produzidos pela epidemia de coronavírus, mas o governo brasileiro tem-se comportado como se estivesse em outro planeta. O crescimento mundial poderá cair de 2,6% em 2019 para cerca de 1% neste ano, segundo o Instituto de Finanças Internacionais (IIF), formado por 500 dos maiores grupos financeiros do mundo. No Brasil, já há quem projete expansão abaixo de 2% para o Produto Interno Bruto (PIB). Exportadores de petróleo voltaram a rebaixar a demanda mundial esperada para este ano, enquanto a Associação Internacional de Transportes Aéreos (Iata) calcula perdas entre US$ 63 bilhões e US$ 113 bilhões, em 2020, para a indústria da aviação civil. Mas os brasileiros deveriam ficar tranquilos, garantiu na quarta-feira, em Brasília, o ministro da Economia, Paulo Guedes.

O Brasil, segundo ele, está longe de ser “uma folha ao vento do comércio internacional”. Além disso, o País avança, de acordo com o ministro, em sentido oposto ao do resto do mundo. “Agora o mundo começou a desacelerar e nós estamos reacelerando – estamos fora de fase com eles.”

Se o ministro falou, essa deve ser a posição oficial de seu Ministério e também do governo, mas nem dentro do Ministério há entendimento. Isso é evidenciado pela confissão do secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, em palestra ontem de manhã. “Durmo preocupado”, disse ele, “por não saber o que vai acontecer com o crescimento do mundo. A gente sabe o que é a China crescendo 6%, 7% ao ano. Não sabe o que é a China crescendo 3% ao ano. Que vai acontecer com o mundo num cenário de crescimento baixo, em que ainda se está numa fase de recuperação? Assusta.” O Brasil, lembrou o secretário, também é afetado pela piora mundial.

Fernando Gabeira - O psicodrama na divisão do bolo

- O Estado de S.Paulo

A discussão sobre o Orçamento acabou revelando mais uma vez os limites do populismo

Não creio que seja demagógico dizer que o momento no Brasil deveria reunir os Poderes para um debate sobre a economia de recursos. Mas a crise surgida nos últimos dias gira em torno de R$ 30 bilhões. O Congresso garantiu para si este naco do Orçamento. O governo vetou. Possivelmente vão rachar esse bolo.

Houve muita hesitação, mas desfecho previsível. Começou com a frase do general Heleno, concluída com um sonoro “f...-se!”. Durante a semana sites nas redes sociais anunciavam a manifestação do “f...-se” para 15 março. Essa batalha pode não acontecer, como a de Itararé. Estão marcadas manifestações da oposição e do governo para dias 14 e 15. Elas podem até ser grandes, mas o sentido original, a disputa pelo dinheiro do Orçamento, é um pouco confuso neste momento histórico.

O Orçamento mesmo está se distanciando da realidade. Primeiro, porque surgem gastos imprevisíveis, como os do combate ao coronavírus, e os militares, com o motim de policiais no Ceará. No caso do coronavírus, não se trata apenas do que se vai gastar, estimado em R$ 350 milhões, suficiente se a situação permanecer num estágio relativamente favorável: não há evidência de transmissão do vírus no território nacional. 

O problema econômico do coronavírus é o que se deixa de ganhar. As dificuldades vividas pela China, a semiparalisação na Itália são só alguns indícios de que o crescimento global será reduzido pela disseminação do vírus. Aliás, de passagem, é bom lembrar que o Brasil é um país singular: marca grandes demonstrações de massa num período de coronavírus. Nesta mesma época, a Suíça está proibindo reunião de mais de mil pessoas e a própria Olimpíada de Tóquio pode ser adiada.

Eliane Cantanhêde - Que surpresa?

- O Estado de S.Paulo

É normal crescer 1%? Não. Não é normal, mas não é surpresa e faz todo o sentido

O ministro Paulo Guedes manifestou “surpresa com a surpresa” diante do pibinho de 1,1% de 2019, que conseguiu a proeza de ser menor que o 1,3% de 2017 e 2018, apesar de pesos e condições políticas bem diferentes: o presidente Michel Temer assumiu após um impeachment, Jair Bolsonaro chegou com a força do voto.

Na verdade, porém, não houve “surpresa” com o pibinho, mas, sim, desânimo, decepção e preocupação com o futuro. Se no primeiro ano de um governo cheio de gás foi assim, como será o segundo? Em 2019, houve Brumadinho, os embates EUA-China, se quiserem dá para incluir a crise suína na China. Em 2020, há coronavírus, Bolsas derretendo, dólar disparando e previsão de desaquecimento global, que já antecedia tudo isso. E não é só. Há muito mais para atrapalhar.

Na barafunda, uma constatação incomoda: a agenda do governo parece ter se esgotado em 2019, com a reforma da Previdência e o programa de privatizações e concessões deixado praticamente de bandeja por Temer. Logo, não dá para pular de otimismo para este ano. Nem para os próximos.

Como o que está ruim sempre pode piorar, há um mesmo fator político em 2019 e 2020 segurando investimentos, confiança e a própria recuperação do Brasil: o presidente Jair Bolsonaro, que insiste em viver em guerra e ultrapassa limites mínimos de civilidade e de respeito ao cargo.

Celso Ming - A turbulência cresce e aumenta as incertezas

- O Estado de S.Paulo

Analistas continuam no escuro sobre o impacto do coronavírus na economia mundial

Os analistas continuam no escuro sobre o impacto do surto do coronavírus na economia mundial. No Brasil, a escuridão parece ainda mais densa. Sobram palpites e até apostas de vários calibres, que, no entanto, não passam de palpites e de apostas. Enquanto isso, o medo se espalha e vai empurrando pessoas e empresas para refúgios seguros, seja lá o que isso hoje signifique.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), instituição melhor informada sobre o que acontece, vem passando sinais contraditórios. Reconhece, por exemplo, que a China, epicentro da epidemia, vem contendo o vírus com impressionante rapidez. Mas não esconde que o flagelo se alastra pelo resto do mundo, a ponto de estar muito perto de reconhecer a existência de uma situação geral de pandemia.

Os governos dos senhores do mundo, o G-7 (do Grupo dos Sete), prometem ação coordenada de políticas públicas, tanto na área de saúde para estancar o contágio quanto na da economia, para contra-atacar os efeitos paralisantes sobre a atividade produtiva, o emprego e o mercado de ativos financeiros.

Enquanto isso, os grandes bancos centrais ou voltaram a derrubar os juros ou se preparam para isso, que é para irrigar a economia com mais recursos e mais crédito. Mas sobre essa decisão pairam mais dúvidas do que certezas. O caroço do problema não é nem de falta de dinheiro nem de falta de crédito. Os juros nos países avançados já estão tão baixos – em grande número de países, chegam até a ser negativos –, que fica difícil imaginar como juros ainda mais baixos possam ajudar a recuperar a economia.

Bolsonaro não tem ideia da agenda de presidente – Editorial | O Globo

A confirmação de que a economia demora a reagir obriga o Planalto a só tratar de temas relevantes

Por mais que o presidente Bolsonaro tenha se esforçado para se esquivar de perguntas sobre o baixo desempenho da economia no ano passado, com a evolução do PIB se mantendo no nível decepcionante de 1%, a realidade de uma economia quase estagnada continua a existir e, cada vez mais, pressiona sua gestão.

A atitude que se espera do presidente é reagir à inércia que tomou conta do seu governo com respeito às reformas. Precisa reativá-las, uma resposta adequada à virtual estagnação da economia.

Isso requer o envolvimento direto do Palácio nas articulações com o Congresso, falha recorrente do governo Bolsonaro. O que faz aumentar as preocupações com o alheamento do presidente e as demonstrações de que não entende as suas funções.

Podia não ter encontrado a imprensa na quarta-feira, dia da divulgação do PIB de 1,1%, se não queria falar sobre o assunto.

Mas na porta do Alvorada decidiu ir ao encontro dos repórteres com uma performance debochada e desrespeitosa, em que um humorista com faixa presidencial saiu do carro oficial para oferecer bananas aos jornalistas. Transformou o Palácio em circo.

Bolsonaro constrói com eficiência a imagem de alguém que não está à altura do cargo. Mostra não entender a dimensão da agenda presidencial. Dela consta não apenas apressar as reformas, como também resistir a pressões que devem surgir para abandonar o ajuste fiscal, a fim de supostamente acelerar a retomada da economia com mais gastos públicos.

Merval Pereira - Sem compostura (2*)

- O Globo

Brincar com crescimento pífio do PIB é brincar com desemprego, é menosprezar consequências no cotidiano do cidadão

Vivendo na bolha virtual das redes sociais, o presidente Bolsonaro espanta-se quando os jornais independentes estampam nas manchetes sua falta de compostura. Diz que jornalista é raça em extinção, mas se incomoda quando identificam nele a contrafação do palhaço contratado.

Numa metalinguagem involuntária, um palhaço orientava o outro sobre que perguntas fazer para os jornalistas, enquanto bananas eram distribuídas. O que em Chacrinha era pura arte brasileira, em Bolsonaro e Carioca é a explicitação de uma visão de mundo apequenada pela atuação permanente no lado escuro da sociedade.

Beppe Grillo, o cômico italiano, youtuber e blogueiro, que criou um partido político de extrema-direita com influência importante na política italiana, é o que há de mais próximo de Bolsonaro na política internacional. Não por ser de extrema-direita, mas por ser palhaço.

Apalhaçado também é Trump, assim como foram Hitler e Mussolini, em comum todos de extrema-direita chegados ao poder em momentos críticos da vida de seus países e do mundo.

Como não podia deixar de ser, Bolsonaro enfrentou reações negativas sobre sua postura em relação ao resultado do PIB. "PIB? O que é PIB? Pergunta para eles (jornalistas) o que é PIB", disse Bolsonaro ao humorista Márvio Lúcio, conhecido como Carioca, caracterizado como o presidente, que chegou ao Palácio da Alvorada num carro oficial da Presidência, ao lado do chefe da Secom, Fabio Wajngarten.

Brincar com o crescimento pífio do PIB brasileiro é brincar com a taxa de desemprego, é menosprezar as conseqüências no cotidiano do cidadão de baixa renda ou sem renda. Bolsonaro, de tão tosco, deixa pistas sobre suas impropriedades, e até mesmo suas ilegalidades, pelo caminho.

Flávia Oliveira - PIB per capita quase parando

- O Globo

Brasil tem um dos maiores níveis de concentração de riqueza do planeta

Desde que o paquistanês Mahbub ul Haq e o indiano Amartya Sen, Nobel de Economia em 1998, apresentaram ao mundo o Índice de Desenvolvimento Humano, nos anos 1990, o PIB per capita perdeu relevância como indicador social. Os dois economistas não aceitavam que condições de vida nos países fossem comparáveis apenas sob a ótica da geração de riqueza, via soma da produção de bens e serviços. À divisão do Produto Interno Bruto sobre o total de habitantes, dimensão da renda, acrescentaram variáveis de educação (alfabetização e anos de escolaridade) e saúde (esperança de vida). E o IDH tornou-se o termômetro mais adequado para medir, ainda que de forma resumida, o progresso de uma sociedade.

A renda per capita perdeu espaço nos resultados das contas nacionais, mas ainda guarda significado. Anteontem, o IBGE informou que a economia brasileira cresceu modestíssimo 1,1% no primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro. O que fora pibinho — apenas 1,3% ao ano, no biênio de Michel Temer, na Presidência, e Henrique Meirelles, na Fazenda — tornou-se pibículo com Paulo Guedes no (super) Ministério da Economia. É pouco para uma gestão que assumiu prometendo muito, e para um país com urgência em reverter os dois anos de recessão aguda do derradeiro mandato de Dilma Rousseff: -3,5% em 2015; -3,3% em 2016.

A variação do PIB per capita foi mais dramática. Nocauteada na crise, modesta na recuperação da atividade, a capacidade de geração de riqueza do país fica ainda menor quando confrontada ao ritmo de aumento da população, cerca de 0,8% ao ano. A renda por habitante despencou mais de 9% no triênio 2014-2016; subiu 0,5% ao ano em 2017 e 2018, com o fim do ciclo recessivo; avançou apenas 0,3% no ano passado. Desde o início da década, só cresceu mais de 1% em duas ocasiões: 2011 (1%) e 2012 (2,1%).

Bernardo Mello Franco - Os limites da tesoura

- O Globo

Após o terceiro pibinho seguido, Rodrigo Maia defendeu a retomada do investimento público. O deputado disse o óbvio, mas o tema andava banido do debate econômico

“A gente não consegue organizar um país apenas fazendo as reformas e cortando, cortando, cortando”. A frase caberia na boca de economistas ligados à esquerda. Mas foi dita por Rodrigo Maia, um político afinado com o mercado financeiro.

Na quarta-feira, o presidente da Câmara apontou os limites da tesoura. Depois de o IBGE confirmar o mau desempenho da economia no ano passado, Maia disse que “o setor privado sozinho não vai resolver os problemas”.

“A grande mensagem do PIB é que a participação do Estado também será sempre importante para que o Brasil possa crescer”, afirmou. O deputado disse uma obviedade, mas defender o investimento público parece ter virado uma heresia desde a posse de Michel Temer.

Em 2016, os economistas ultraliberais prometiam uma nova era de prosperidade. A recessão ficou para trás, mas a fada da confiança não apareceu. O terceiro pibinho consecutivo mostra que a receita da austeridade fracassou em tirar o país do atoleiro.

Nos últimos três anos, o Congresso retalhou direitos trabalhistas, aprovou o teto de gastos e cortou as aposentadorias de quem não usa farda. Os resultados na economia real foram pífios, mas os fundamentalistas de mercado se recusam a fazer uma autocrítica.

Rogério Furquim Werneck - Mudar o Brasil em 15 semanas

- O Globo / O Estado de S. Paulo

Não existe uma base parlamentar governista que possa dar celeridade à aprovação dos projetos

Aleluia! O governo afinal se deu conta de quão pouco tempo lhe resta para aprovar o complexo programa de reformas que pretende extrair do Congresso, neste problemático ano de eleições municipais. No início desta semana, ao tentar atrair o apoio de movimentos de rua à aprovação das reformas pendentes, numa reunião em Brasília, o ministro Paulo Guedes soou o alarme com certa grandiloquência: “Temos só 15 semanas para mudar o Brasil”.

É o que falta para o recesso parlamentar de julho. O governo bem sabe que, quando retomarem os trabalhos em agosto, deputados e senadores já estarão com a cabeça virada, mobilizados com as campanhas eleitorais que terão de enfrentar nos municípios.

Mesmo que as relações do governo com o Congresso fossem impecavelmente harmônicas e o governo contasse com o apoio irrestrito de ampla base parlamentar, o cronograma apresentado pelo ministro, para tramitação em 15 semanas dos muitos projetos contemplados, já pareceria pouco factível. Menos factível ainda parece quando se leva em conta a tumultuada relação que o Planalto continua a manter com o Congresso e, pior, a completa inexistência de base parlamentar governista que possa dar celeridade à aprovação dos projetos.

Míriam Leitão - A resposta contra a crise e o vírus

- O Globo

Governo não dará estímulo fiscal. Estagnação do PIB e risco externo serão enfrentados com reformas, que estão paradas no próprio governo

O presidente Jair Bolsonaro mudou vários pontos da reforma administrativa, mas tem adiado insistentemente o seu envio ao Congresso. Ela e a proposta de reforma tributária estão paradas no governo. O problema é que diante do baixo crescimento do ano passado e dos riscos de desaceleração forte da economia internacional, por causa do coronavírus, a agenda de reformas é a resposta que a equipe econômica gostaria de dar para manter um clima positivo na economia do país.

Na semana que vem, a projeção de crescimento oficial será revista de 2,4% para 2%. As previsões de várias instituições do mercado financeiro são de crescimento menor e há várias delas refazendo os cálculos para baixo. A explicação dada dentro do Ministério da Economia é que apesar de ter sido apenas 1,1% de alta do PIB, no último trimestre o país cresceu 1,7% em comparação ao mesmo trimestre do ano anterior. E que a composição do PIB mudou, há muito mais presença do PIB privado que do governo.

O governo não pensa em adotar qualquer estímulo fiscal, ao contrário de alguns países que estão anunciando expansão de gastos. A avaliação feita no governo é que a economia brasileira tem uma “dinâmica própria” e, portanto, será menos atingida. E que é possível estimular o crescimento através das reformas. A crise internacional decorrente do coronavírus já atingiu o país, na verdade. Estão em queda todas as projeções de alta do PIB e já houve um forte impacto no câmbio. Para se ter uma ideia, a cotação de R$ 4,65 de ontem representa uma alta de 16% desde 30 de dezembro, quando estava em R$ 4,00.

Doria lança candidatura de Bebianno a prefeito do Rio

O ex-ministro Gustavo Bebianno foi lançado pelo governador de São Paulo, João Doria, como o nome do PSDB para a disputa eleitoral à prefeitura do Rio. Eles são desafetos do presidente Jair Bolsonaro.

Xadrez Carioca

Doria lança Bebianno e quer apoio de Witzel, que avança por nome próprio

Silvia Amorim | O Globo

SÃO PAULO - Dois movimentos ligados a governadores que se apresentam como adversários do presidente Jair Bolsonaro mexeram no tabuleiro das eleições para a prefeitura do Rio. O tucano João Doria (PSDB) lançou a candidatura do ex-ministro Gustavo Bebianno — outro desafeto do presidente da República — pelo partido. Doria ainda deu a entender que busca o apoio do governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), ao nome de Bebianno, citando a “boa atmosfera” que tem com o colega. Já a juíza Glória Heloíza apresentou ao Tribunal de Justiça (TJ) seu pedido de exoneração da função, um passo concreto em direção à sua candidatura, como informou o colunista Ancelmo Gois. Ela é a preferida de Witzel para representá-lo na disputa municipal.

O gesto de Doria de patrocinar o nome de Bebianno, com direito a uma entrevista coletiva conjunta em São Paulo, teve ainda uma consequência de impacto nacional no PSDB. O presidente do partido, Bruno Araújo, e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, duas das principais lideranças tucanas, manifestaram publicamente incômodo com a forma como o governador paulista impôs o nome de Bebianno, atropelando a ex-secretária de Cultura

“Consenso nunca é de imediato. A maior parte do partido não sabe o que aconteceu”

Gustavo Bebianno, pré-candidato à prefeitura do Rio, sobre as reações no PSDB à sua indicação

do Rio Mariana Ribas, que havia sido anteriormente anunciada como pré-candidata à prefeitura do Rio pelo PSDB. É um indício de que Doria pretende fazer prevalecer indicados seus como candidatos do partido em importantes capitais este ano.

Até agora, a corrida eleitoral do Rio tem 12 pré-candidatos que foram testados pelo Datafolha em dezembro (ver tabela ao lado), em pesquisa contratada pelo GLOBO e pela “Folha de S.Paulo”. No cenários apurados pelo instituto, o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) aparece com 22% das intenções de voto. Em seguida, em empate dentro da margem de erro, ficou o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL), com 18%. Depois, está o atual prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), com 8%. Crivella vem buscando se aproximar do presidente Jair Bolsonaro para garantir seu apoio na corrida pela reeleição. Contudo, por causa da alta rejeição —sua gestão é reprovada por 72% dos cariocas, de acordo com o Datafolha —, o mais provável é que ele receba um apoio “velado” de Bolsonaro.

Monica de Bolle* - A economia da epidemia

- Revista Época

A esta altura da epidemia que se alastra rapidamente pelo planeta é razoável dizer que não sabemos absolutamente nada. Nessas situações, a reação é a mais extrema possível

Já compraram montanhas de desinfetantes para as mãos, máscaras, papel higiênico? E quanto a pilhas, antitérmicos, termômetros e vitamina C? Velas e lanternas? Já não há álcool ou sabonete líquido nas farmácias? Vai faltar comida?

O comportamento que tem levado ao desaparecimento de medicamentos das farmácias, ao sumiço de produtos de higiene pessoal e de alimentos não perecíveis das prateleiras dos supermercados é o mesmo que leva às corridas bancárias. Explico: a crise bancária típica ocorre quando as pessoas, temendo que os bancos não serão capazes de devolver seus depósitos, correm para sacá-los o mais rapidamente possível.

Como os bancos não mantêm 100% dos depósitos em caixa, se todos os depositantes correrem ao mesmo tempo, alguns de fato não receberão o dinheiro de volta, justificando o pânico inicial.
Nenhuma farmácia ou supermercado estoca toda a quantidade de suprimentos que a população pode vir a demandar em casos excepcionais. Logo, quando há uma epidemia, ou o risco de que ela aconteça, as pessoas farão exatamente a mesma coisa que fazem quando imaginam que não terão acesso a seus depósitos: correm para as farmácias e para os supermercados, esgotando produtos. Os afortunados garantirão seus suprimentos, enquanto os demais ficarão a ver navios. Esse é apenas um dos aspectos da economia da epidemia.

Outro aspecto é o comportamento das pessoas diante de situações de incerteza. Incerteza não é risco — incerteza é tudo aquilo que pode ser descrito como um imponderável desconhecido, enquanto risco envolve algum conhecimento sobre a probabilidade de diferentes cenários. A esta altura da epidemia que se alastra rapidamente pelo planeta é razoável dizer que não sabemos absolutamente nada — inclusive não sabemos aquilo que não sabemos.

‘Se Estado é corrupto e ineficiente, a solução não é asfixiá-lo’, diz Lara

Lara Resende critica viés fiscalista, fruto de liberalismo anacrônico

Por Hugo Passarelli | Valor Econômico

SÃO PAULO - A atual política econômica do governo brasileiro está asfixiando e destruindo o Estado, o que elimina a chance de se criar uma economia de mercado e saudável, segundo o economista André Lara Resende. Um dos formuladores do Plano Real, ele considera que esse viés fiscalista é fruto de mitos e de um liberalismo anacrônico de Chicago dos anos 1960. Lara Resende fez essas declarações ontem em São Paulo, no lançamento do livro “Consenso e contrassenso, por uma economia não dogmática”.

“Depois dos absurdos que foram feitos nos governos do PT, o Brasil sofre de um estresse pós-traumático e não pode ouvir falar em gasto público” disse o ex-presidente do BNDES, ao apresentar as linhas gerais de sua obra.

Esse entendimento leva à condução de políticas públicas equivocadas, afirmou Lara Resende. Segundo ele, a defesa desse viés não significa que se pode gastar sem responsabilidade ou em projetos com objetivos bem delimitados. Mas a maneira como o ajuste fiscal está sendo conduzido é um “sacrifício autoimposto” que vai acabar levando a um resultado oposto, que é desorganizar e conduzir o Estado para uma falência, disse ele.

“Os defensores do atual governo diziam muito que o Brasil estava caminhando para virar a Venezuela. Mas o perigo hoje é muito maior do que era, você pode caminhar para a Venezuela para a esquerda ou para a direita” O exemplo do país vizinho mostra que a recessão é o que leva, sim, à inflação, segundo ele.

Nesse contexto, o economista aponta uma visão anacrônica hoje sobre as reformas necessárias para acelerar o crescimento e melhorar o bem-estar da sociedade. “É preciso repensar e organizar o Estado para torná-lo competente. Com as novas possibilidades que a tecnologia nos dá, vamos pensar o que se pode fazer hoje em vez de pensar nas reformas que deveríamos ter feito na segunda metade do século passado.”

O que a mídia pensa - Editoriais

Um governo de outro mundo – Editorial | O Estado de S. Paulo

Danos econômicos já se espalham por todo o mundo, produzidos pela epidemia de coronavírus, mas o governo brasileiro tem-se comportado como se estivesse em outro planeta. O crescimento mundial poderá cair de 2,6% em 2019 para cerca de 1% neste ano, segundo o Instituto de Finanças Internacionais (IIF), formado por 500 dos maiores grupos financeiros do mundo. No Brasil, já há quem projete expansão abaixo de 2% para o Produto Interno Bruto (PIB). Exportadores de petróleo voltaram a rebaixar a demanda mundial esperada para este ano, enquanto a Associação Internacional de Transportes Aéreos (Iata) calcula perdas entre US$ 63 bilhões e US$ 113 bilhões, em 2020, para a indústria da aviação civil. Mas os brasileiros deveriam ficar tranquilos, garantiu na quarta-feira, em Brasília, o ministro da Economia, Paulo Guedes.

O Brasil, segundo ele, está longe de ser “uma folha ao vento do comércio internacional”. Além disso, o País avança, de acordo com o ministro, em sentido oposto ao do resto do mundo. “Agora o mundo começou a desacelerar e nós estamos reacelerando – estamos fora de fase com eles.”

Música | Pretinho da Serrinha - Alguém me avisou

Poesia | Fernando Pessoa - Meto-me para dentro

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Bolsonaro insiste em desonrar a Presidência da República – Editorial | O Globo

Escalar um humorista para, passando-se por ele, dar bananas aos repórteres foi mais uma agressão à imprensa e aos direitos constitucionais que a garantem

O presidente Bolsonaro, em mais uma agressão aos jornalistas profissionais que por dever de ofício o seguem — logo, em mais um ataque à própria imprensa — recusou-se a responder sobre o frustrante PIB de 2019, ao escalar um humorista para que, passando-se por ele, oferecesse bananas aos repórteres.

Em decisão correta, parte se retirou. Foram desrespeitados e, por meio deles, agredidos, além da própria imprensa profissional, os direitos constitucionais que a garantem.

Bolsonaro insiste em desonrar a Presidência da República. Continua sem entender o que ele representa por ocupar o Palácio do Planalto. E vai, assim, criando ineditismos, como ser um presidente que simpatiza com motim de policiais, e manda desligar radares das estradas federais para atender a seu curral eleitoral de caminhoneiros, mesmo que aumente o número de mortes nas vias.


Se não criasse uma crise profunda, já teria decretado o congelamento do diesel para agradar à categoria. A imprensa continuará a informar tudo de importante que o presidente faça ou diga. Cenas como a que patrocinou ontem agravam a falta de decoro com que representa a nação.

Roberto Dias – A claque

- Folha de S. Paulo

Presidente ativa engrenagem ao ligar a câmera na frente do Alvorada

O dia era de PIB raquítico, mas teve um número que Jair Bolsonaro conseguiu fazer crescer. Foi o de comentários em seus posts no Facebook. Sua média em março vinha na casa de 3.800 reações por post. Isso até a transmissão ao vivo desta quarta (4), ao lado do humorista Carioca. Nas oito primeiras horas no ar, o vídeo somou mais de 16 mil comentários.

Entre algumas poucas críticas e reclamações, como as relacionadas ao preço dos combustíveis, ao efeito das chuvas e às aposentadorias, muitos, muitíssimos elogios, quando não declarações de amor e pedidos de encontro. Uma pequena amostra dá ideia da engrenagem que Bolsonaro ativa ao ligar a câmera na frente do Alvorada.

"Bom começar o dia sorrindo, espantando as tristezas", escreveu Shirley Aparecida Dervinis, de Osasco.

"Como é maravilhoso ter um presidente que, mesmo com toda luta e problemas, ainda arranja um tempo para abraçar, ouvir, brincar, sorrir para as pessoas!", escreveu Márcia Ébani, do Espírito Santo.

"Aí pergunta por que o cara é mito. Adoro, ele tira onda mesmo. Comédia com comédia se paga", disse Luis Claudio Pedroso, de Porto Alegre.

Bruno Boghossian – Bolsonaro e o circo sem pão

- Folha de S. Paulo

Ao se esconder atrás de imitador, presidente cria retrato vergonhoso de si mesmo

Era para ser uma sátira, mas foi uma representação fiel da realidade. No dia em que o país registrou um crescimento frustrante do PIB, Jair Bolsonaro apareceu ao lado de um humorista que encarnava um presidente que não dá a mínima para a economia e não sabe nem o significado daquelas três letras.

"PIB? O que que é PIB? Pergunta o que que é PIB", recomendou Bolsonaro ao piadista Márvio Lúcio, vestido com a faixa presidencial.

Quem esperava do verdadeiro governante um plano para o crescimento precisou se contentar com mais uma encenação indecente. Bolsonaro pôs um imitador diante das câmeras e o estimulou a se comportar como um pateta malcriado. Depois que o presidente se recusou a falar sobre os apertos da economia, o comediante atirou bananas aos jornalistas.

Além de levar a um novo patamar de insulto suas afrontas à imprensa, Bolsonaro criou um retrato vergonhoso de si mesmo e do governo. A cena revelou um presidente sem capacidade de liderança sobre um tema delicado, disposto a apelar para distrações cada vez mais infantis.

Mariliz Pereira Jorge - Circo Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Para falar do PIB, presidente pôs um comediante em seu lugar

O contorcionismo que Jair Bolsonaro faz para não responder perguntas indesejadas é digno do Cirque du Soleil. Diante da missão de falar sobre o pobre desempenho do PIB, achou OK que um comediante tomasse o seu lugar e distribuísse bananas à imprensa.

Este governo é o que melhor ilustra a máxima "se cobrir com lona, vira circo; se trancar a porta, vira hospício". E, se era por falta de palhaço, o circo Bolsonaro está completo. No dia a dia, temos o próprio presidente, que se acha muito engraçado, apesar de só fazer piadas desrespeitosas e de mau gosto. Agora, ganhou um comediante para chamar de seu, Márvio Lúcio, o Carioca.

Na terça (3), Carioca gravou com Bolsonaro um quadro para o Domingo Espetacular (Record). No dia seguinte, tomou café da manhã com o presidente e teria sugerido que se passasse por ele na saída do Alvorada. Chegou no carro em que estava o chefe da Secom, Fabio Wajngarten.

Maria Hermínia Tavares* - O alvo é outro

- Folha de S. Paulo

Congresso não é nem foi obstáculo às iniciativas do Planalto

Entraram pela madrugada de terça-feira (3) as conversas entre líderes do Congresso em busca de uma saída negociada para o impasse que impedia a votação dos vetos presidenciais ao trecho da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2020 que ampliava o poder dos parlamentares sobre a execução de emendas impositivas.

Alcançado o entendimento, a votação foi adiada porque o governo tardou em enviar ao Congresso os projetos de lei que eram parte do acordo e deveriam regulamentar a execução do Orçamento impositivo. De seu lado, Bolsonaro pela enésima vez apelou às redes sociais a fim de trapacear, negando que tivesse autorizado o acerto —o que é público e notório.

Disso tudo fica claro que o Congresso não é —nem foi, desde o início do governo— obstáculo às iniciativas do Planalto. É o que confirma o boletim do Observatório do Legislativo Brasileiro, do Instituto de Estudos Políticos e Sociais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro publicado há dois meses.

O trabalho classifica deputados e senadores pelo seu grau de governismo, conforme se conduziram em 252 votações na Câmara e 28 no Senado. O ranking mostra que, mesmo sem articulação entre Executivo e Legislativo, ampla maioria governista dominou as votações nominais em que não houve unanimidade: cerca de 73% dos deputados e 50% dos senadores destacaram-se pela frequência com que apoiaram as propostas do Executivo.

Fernando Schüler* - Madison tinha razão

- Folha de S. Paulo

Há uma agenda estrutural de reformas no Congresso, e é nela que devemos focar nossa atenção

A semana do Carnaval foi agitada. Bolsonaro distribuiu aquele vídeo pelo WhatsApp, e a república quase caiu. A república digital, bem entendido. Do vídeo ninguém mais se lembra, mas consta que inspirou paródias impagáveis de filmes com super-heróis que circulam na internet.

Muita gente achou que o fim havia chegado. Li de uma jornalista que “o golpe estava em curso”. O texto era longo, confesso que tive preguiça de ler até o fim, mas parecia ser um “alerta ao país”. Fui na janela temeroso de ver tanques na rua, mas nada. Tudo que vi, ao longe, foi um bloquinho de Carnaval um pouco cansado, já no fim da festa.

Na semana seguinte, governo e Legislativo fecham acordo em torno do Orçamento impositivo, confirmam-se os vetos de Bolsonaro, e um certo tédio volta a reinar em nosso mundo político. Ao menos por alguns dias, imagino. Até a próxima frase mal-humorada do general Heleno, em algum coquetel de Brasília.

Tudo isso parece engraçado, mas é o novo feijão com arroz das nossas democracias. A política na era da irrelevância. Voltei a ler Baudrillard e suas teses esquisitas sobre os males do excesso de informação e o assalto do mundo virtual sobre a realidade. Baudrillard profetizou a nós todos.

Vinicius Torres Freire – O pibinho na geringonça da direita

- Folha de S. Paulo

Geringonça política e econômica da direita deve continuar, assim como o arrocho do povo miúdo

O Brasil está em crise política ou econômica faz seis anos. Mais pobre do que era faz dez anos. Com o sistema político tradicional desacreditado pelo menos desde 2013 e desmoralizado desde 2015. Caberia perguntar por quanto tempo o país ainda pode se desmilinguir sem revolta social ou rompimento político.

A pergunta parece mais oportuna por causa da renovação da perspectiva de quase nenhum crescimento da economia, como agora. Até quando seria paciente a maioria silenciosa do povo miúdo, que parece ainda mais quieta por causa da algazarra atroz das milícias digitais?

Mas algum rompimento houve, pela via institucional. Jair Bolsonaro é o resultado disso. De certo modo, o tempo de tolerância da crise voltou a ser contado na eleição de 2018. As urnas são momento de renovação de otimismo, por mais estranha ou monstruosa a forma que essa esperança possa tomar.

O sentimento de que o país se esboroa se deve também ao fato de que acontecem mudanças profundas, goste-se ou não. Mudam a Previdência, a poupança pública e privada, as relações trabalhistas, o emprego. Há contenção do gasto público por asfixia.

Maria Cristina Fernandes - A guarda pretoriana do comediante

- Valor Econômico

Se estava difícil de entender, o coronel Aginaldo desenhou com o estímulo à insubordinação policial

Como estivesse difícil entender, o coronel Aginaldo de Oliveira resolveu desenhar. Ao celebrar a coragem dos policiais militares na assembleia que deliberou pelo fim do motim policial no Ceará, o coronel, que é diretor da Força Nacional de Segurança, mostrou que o presidente Jair Bolsonaro hoje dispõe de meios para arregimentar uma guarda pretoriana. Não é um feito solitário. Tem a decisiva ajuda do ministro da Justiça, Sergio Moro, cuja autoridade se mostrou incapaz de repreender amotinados.

A guerra de facções do crime organizado no Ceará, Estado que se tornou corredor de exportação do narcotráfico andino, foi a primeira crise enfrentada pelo presidente da República. Na semana da sua posse, Bolsonaro optou pelo envio da Força Nacional de Segurança para o Estado que havia acabado de reeleger um governador do PT.

Um ano depois, nova crise eclodiria sob a forma de motim policial. Como a força especial composta por policiais militares já não desse conta de reprimir seus próprios colegas, o presidente foi pressionado a decretar uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), conduzida por militares do Exército. Entre uma e outra crise, deterioraram-se as bases da hierarquia e da disciplina das tropas locais e a capacidade de operação da força nacional. O governador é o mesmo, Camilo Santana, reeleito pelo PT. Quem mudou foi o presidente, ocupado, desde a posse, em incutir, nas bases policiais, o vírus da insubordinação que marcou sua carreira militar.

É uma barafunda bolsonarista por excelência. Desde sua criação, em 2000, a Secretaria Nacional de Segurança Pública, chapéu, no MJ, para a Força Nacional de Segurança, foi ocupada por policiais e especialistas. No governo Michel Temer, assumiu o primeiro general, Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro do governo Bolsonaro e um dos poucos militares da reserva a expor publicamente sua crítica à insubordinação policial.

Ribamar Oliveira - Regulamentação chegou muito tarde

- Valor Econômico

Agilidade do governo teria evitado os problemas ocorridos no início deste ano envolvendo o Orçamento impositivo

Por mais incrível que possa parecer, somente nesta semana o governo tomou a iniciativa de encaminhar ao Congresso Nacional um projeto de lei alterando a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), válida para 2020, estabelecendo normas para aplicação, com segurança jurídica, do chamado Orçamento impositivo. Ou seja, os pneus estão sendo trocados com o carro em movimento.

Na exposição de motivos que acompanha o projeto de lei, o ministro da Economia, Paulo Guedes, comete uma impropriedade. Ele diz ao presidente Jair Bolsonaro que a regulamentação está sendo feita agora porque, quando as emendas constitucionais 100 e 102, que instituíram o Orçamento impositivo, foram promulgadas, o projeto da LDO válido para 2020 já tinha sido aprovado pelo plenário da Comissão Mista de Orçamento do Congresso (CMO).

Na verdade, a emenda constitucional 100 foi promulgada no dia 26 de junho de 2019, quando o relator do projeto da LDO, deputado Cacá Leão (PP-BA), nem sequer tinha apresentado o seu relatório, o que só foi feito no dia 7 de julho do ano passado. Foi a EC 100 que determinou ser dever da administração “executar as programações orçamentárias, adotando os meios e as medidas necessários, com o propósito de garantir a efetiva entrega de bens e serviços à sociedade”.

Luiz Carlos Azedo - Acordo envergonhado

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“Bolsonaro mantém uma posição ambígua em relação aos três projetos enviados pelo governo ao Congresso e um apoio velado à manifestação convocada para 15 de março”

O Congresso Nacional manteve os vetos do presidente Jair Bolsonaro a trechos da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2020 que tratam do chamado “Orçamento Impositivo” por 398 votos a 2. Quando ocorre uma maioria dessa magnitude, não tenham dúvida, houve um tremendo acordão, ainda que um dos lados, no caso o presidente Jair Bolsonaro, bata no peito e diga que não. O acordo incluiu o envio, pelo Palácio do Planalto, de três projetos para regulamentar o assunto, que serão analisados na próxima semana. Provavelmente, haverá disputa entre grupos governistas e da oposição que discordam do acordo feito nos bastidores da negociação entre a equipe econômica e os líderes do Congresso, principalmente seu presidente, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Há muitos interesses em jogo, além das emendas parlamentares ao Orçamento da União.

Seis vetos foram derrubados pelos congressistas, para impedir o bloqueio de verbas destinadas à pesquisa da Embrapa, Fiocruz, Ipea e IBGE, de autoria do deputado Arnaldo Jardim (SP), líder do Cidadania. Nesse caso, porém, a orientação do governo foi pela derrubada dos vetos. Votaram a favor 282 deputados e 50 senadores (eram necessários 257 e 41 votos, respectivamente). O líder do governo no Congresso, Eduardo Gomes (MDB-TO), lembrou que o acordo fora costurado no fim do ano passado e assegura recursos para instituições científicas, inclusive para garantir pesquisas sobre o coronavírus.

William Waack - Haja Confusão

- O Estado de S.Paulo

O cenário político está embaralhado, mas o pequeno PIB de 2019 não confunde

É óbvio que um presidente contracenando com humoristas faz parte do arsenal de promoção de imagem “humana” ou “popular” em qualquer lugar – Barack “Late Night Show” Obama que o diga. Mas quando Jair Bolsonaro divide a cena com um humorista fantasiado de presidente do Brasil diante do Alvorada (um edifício oficial) – como ocorreu ontem –, a quem encarrega de responder a perguntas de repórteres, e depois o próprio presidente divulga o vídeo em redes sociais, sugere uma confusão: afinal, quem é o comediante?

Pode-se até acreditar que confusão seja uma arma conscientemente empregada por Bolsonaro para desequilibrar adversários, mas não se pode fugir à constatação de que virou uma de suas características permanentes. Para focar no que é mais recente, é confusa a pauta da manifestação que ele apoia (ou não?) para o dia 15, além da palavra de ordem mais abrangente de prestigiar o presidente.

Ficou confusa também a demanda, do ministro da Economia, Paulo Guedes, para que participantes do ato “defendam reformas”. No caso da tributária, qual a ser defendida? Existe uma do governo? Qual das várias que tramitam no Legislativo? Qual se deveria pedir em primeiro lugar? A PEC emergencial, talvez?

A favor de Bolsonaro deve-se assinalar que não é o único, de propósito ou não, a criar confusões. Na raiz da queda de braço entre Legislativo e Executivo para disputar migalhas do Orçamento (afinal, mais de 90% já estão comprometidos em despesas obrigatórias), está uma confusão política de autoria dos próprios parlamentares.

O fundo da questão não era o Orçamento impositivo, mas a esdrúxula criação do dispositivo que permitiria a um relator dispor de R$ 30 bilhões do Orçamento. Os parlamentares criaram uma perigosa confusão entre “legisladores” e “executores” do Orçamento. Que o governo, confuso, demorou para perceber.

Zeina Latif* - Juros baixos não blindam a economia

- O Estado de S.Paulo

O contágio financeiro sobre o setor produtivo, se relevante, precisa ser mitigado

O momento é de apreensão por conta das incertezas decorrentes da epidemia de coronavírus. Não há, no momento, como afirmar quando será o ápice da crise, para podermos dizer que o pior já passou.

Como agravante, o timing da epidemia não é nada favorável, pois o comércio mundial está encolhendo desde o ano passado, por conta, principalmente, das políticas protecionistas dos países. O foco da crise, a China, representa hoje mais de 20% do PIB mundial, e a expectativa de uma desaceleração econômica suave caducou. Estivesse a economia mundial em melhor forma, seria mais fácil dirimir as incertezas.

Adicionalmente, os países, com poucas exceções, não contam com muitos instrumentos para mitigar o impacto da crise. Além dos juros já muito baixos, poucos têm espaço para expansão fiscal, diante dos déficits e dívidas elevados. Exageros na expansão dos gastos públicos podem até piorar o quadro econômico, ao despertar a desconfiança de credores. Além disso, não é qualquer expansão fiscal que funcionaria. O momento pede políticas sanitárias e para ampliar o acesso da população aos serviços de saúde, e não o aumento indiscriminado de gastos.

Celso Ming - A fraqueza desse PIB

- O Estado de S.Paulo

Se não chegou a surpreender, esse Produto Interno Bruto (PIB) também não deixou de decepcionar.

Um avanço de 1,1% em 2019 (sobre 2018) e de 0,5% no quarto trimestre (sobre o terceiro) foi o que a maioria dos analistas já vinha cantando.

As previsões iniciais de um crescimento de pelo menos 2,8% em 2019 se frustraram em consequência de três fatores: a crise da Argentina; os desdobramentos da guerra comercial entre Estados Unidos e China, que estreitaram o mercado de exportações e derrubaram os preços das commodities, das quais o Brasil é grande fornecedor global; e a tragédia de Brumadinho, que achatou a produção da indústria extrativa. Só esses três fatores devem ter comido cerca de 1% do PIB em 2019.

Mas isso é como trombada de carro em barranco provocada por um cachorro que atravessava a estrada. As verdadeiras causas são outras: é desatenção e imperícia do condutor do veículo e, talvez, freios sem manutenção. Dá para conferir, também, que o Brasil só consegue bons resultados no seu sistema produtivo quando tudo vai bem no resto do mundo e quando não sobrevêm desastres naturais.

Há anos, a economia brasileira vem patinando em consequência de sua reduzida poupança e baixíssimo investimento. Quem come as sementes não semeia e também não colhe. Para crescer pouco mais de 3% ao ano, o investimento (Formação Bruta de Capital Fixo) teria de ser da ordem de 22% do PIB. No ano passado, ficou nos 15,4% e, em 2018, em 15,2% do PIB, como está no gráfico ao pé desta Coluna. Ninguém esperava a piora do ritmo do investimento no quarto trimestre de 2019 de 3,9% para 2,2%.

A poupança nacional também é a precariedade já conhecida. Não passou de 12,2% do PIB, abaixo dos 12,4% registrados no ano anterior. E não se diga que baixo nível de poupança é sina de país pobre, que vive da mão para a boca, como tanto se ouve por aí. O padrão asiático de países ainda pobres é poupança de 30% a 35% do PIB. A China vai muito além, poupa em torno de 50% da renda. Ou seja, o chinês, de quem tanto se diz que é mal remunerado, consegue poupar metade do seu salário. E ainda tem de sustentar seus idosos, porque o país não tem sistema previdenciário público. No ano passado, o Brasil apresentou poupança de apenas 12,2%.

Merval Pereira - Futuro Nublado

- O Globo

Presidente da República sem apoio do Congresso, e com a economia em desacerto, não termina bem

Mesmo, ou talvez por isso, com o presidente Jair Bolsonaro fazendo piada sobre seu próprio pibinho, nada muda o fato de que o país está com dificuldades econômicas graves, e sem perspectiva de solução, agora que o Covid-19 atacou a economia mundial. Antigamente dizia-se que quando os Estados Unidos espirrava, o Brasil pegava uma pneumonia. E agora que o coronavírus contaminou o mundo todo, numa pandemia não declarada, inclusive as duas maiores economias do mundo globalizado, Estados Unidos e China?

Mais do que nunca é preciso avançar com as reformas, mas à medida que o resultado econômico não chega, mais Bolsonaro vai deixando de lado seu viés liberal. Já teria pedido um crescimento mínimo de 2% do PIB para este ano a Paulo Guedes, missão que, com as novidades, parece impossível.

Seu faro político-eleitoral está apontando para um cenário perigoso, e ele tem razão, sobretudo quando a crise com o Congresso, que o favorece diante de seu eleitorado mais fanático, tem efeitos colaterais que nossa história recente registra tristemente.

Presidente sem apoio do Congresso, e com a economia em desacerto, não termina bem. É verdade que os dois presidentes impedidos desde a redemocratização chegaram a crises econômicas devastadoras: o governo Collor registrou retração de 2,06% do PIB e, de 6,97% da renda per capita.

Ascânio Seleme - A quem o Congresso assusta

- O Globo

Brasil superaria muito mais rapidamente suas crises sob regime parlamentarista

Um grande número de brasileiros odeia o Congresso Nacional ou dele tem pavor. Estas pessoas enxergam no Parlamento um poço por onde escorrem todas as economias nacionais ou boa parte delas. Olham para deputados e senadores e só conseguem ver larápios, usurpadores das riquezas nacionais. Dizem sem se constranger que são eles que destroem o Brasil impedindo que gente digna e honesta, como Jair Bolsonaro, trabalhe. As convocações para o ato do dia 15 de março carregam esse vício de nascença, já que todos os problemas do Brasil têm origem no Congresso. Por esta ótica, enfrentar, atacar, desonrar o Congresso significa dar uma chance ao Brasil.

Vejo exatamente o contrário. Pelo ritmo alucinado com que se escala a intolerância política no Brasil, onde até a primeira-dama do país é vilipendiada pelo radicalismo, o Parlamento pode ser a única saída. Já testamos uma vez a alternativa parlamentarista. Funcionou provisoriamente para que João Goulart pudesse assumir o cargo aberto pela renúncia de Jânio Quadros. Como os militares não aceitavam Jango, achou-se a opção parlamentar.

Fabricada às pressas para resolver um impasse, não durou. Como também não durou o governo de Jango, derrubado pelo golpe de 1964, menos de dois anos depois.

O parlamentarismo é discutido nas redes sociais como uma armação que está sendo tramada no Congresso para tirar poder de Bolsonaro. Um golpe contra o presidente eleito democraticamente, denunciam. Bobagem. O tema não está na pauta da Câmara ou do Senado. Depois, para se fazer uma mudança de sistema de governo é obrigatório que todo o país participe do debate. Além disso, para aprovar uma emenda constitucional nesse sentido seriam necessários dois terços dos votos do Congresso, impossível de se alcançar nas circunstâncias atuais.

Bernardo Mello Franco - Pouco pão e muito circo

- O Globo

Em dia de pibinho, Bolsonaro levou um comediante ao Alvorada. O truque já ficou manjado. Quando a notícia é ruim, o capitão apela ao bizarro para desviar a atenção

O truque já ficou manjado. Quando se vê diante de uma notícia ruim, Jair Bolsonaro apela à bizarrice para desviar a atenção. Ontem o presidente recrutou um humorista para substituí-lo no contato matinal com a imprensa. O objetivo era se esconder de perguntas sobre o pibinho do ano passado.

O dado mostrou que as promessas de recuperação econômica eram conversa fiada. No início de 2019, o Banco Central projetava um crescimento de 2,53%. O ministro Paulo Guedes arrochou salários e cortou aposentadorias, mas só conseguiu entregar 1,1%. Um desempenho pior que o do governo Michel Temer.

Para não comentar o resultado pífio, Bolsonaro cedeu o lugar a um comediante da TV Record. De terno escuro e faixa presidencial, o dublê tentou distribuir bananas e dar entrevista no lugar do presidente. Só arrancou risos dos puxa-sacos que amanhecem na porta do palácio para aplaudir o “Mito”.

A presepada consumiu tempo e estrutura do governo. O humorista desceu de um carro oficial com o secretário de Comunicação Social, o enrolado Fabio Wajngarten. Um ajudante de ordens filmou a cena para abastecer as redes sociais do chefe.

Bolsonaro ainda tentou participar do número. “PIB? O que é PIB? Pergunta para eles o que é PIB”, disse, apontando na direção dos repórteres. Ninguém achou graça, e ele foi embora sem dar explicações sobre o fiasco econômico.

O desrespeito tem sido rotina nas entrevistas no cercadinho do Alvorada. Em vez de prestar contas à sociedade, o presidente usa o espaço para fazer grosserias e insultar jornalistas. Os bolsonaristas pensam que os desaforos humilham a imprensa. Na verdade, eles só escancaram a falta de compostura do capitão.

Míriam Leitão - Erros e fatos que explicam o pibinho

- O Globo

Ano de 2019 poderia ter sido de recuperação no PIB, mas o governo Bolsonaro perdeu tempo com falsos problemas e criou desgastes evitáveis

O primeiro ano do governo Bolsonaro foi decepcionante também do ponto de vista da economia. A previsão do PIB em janeiro era 2,5% e terminou em 1,1%. Houve fatores externos e tormentos internos na essência desse número. Mas o mais relevante agora é que 2020 não será igual ao ano que passou, porque o coronavírus criou uma nova dinâmica nas economias mundial e brasileira. Os economistas olham para 2019 como sendo um passado remoto, porque o presente concentra a atenção e é intensamente incerto.

O PIB per capita cresceu apenas 0,3%. O último trimestre, que se esperava fosse ganhar fôlego após a aprovação da reforma da Previdência, cresceu 0,5%. No ano, houve dados um pouco melhores no consumo das famílias (1,8%) e na construção (1,6%). O consumo foi estimulado pela liberação dos recursos do FGTS, mas isso não tem muita duração. O resultado da construção é decorrente da forte queda de juros ao longo dos últimos anos e que tem efeito cumulativo. É uma boa notícia, principalmente quando se pensa no contexto de cinco anos consecutivos de queda e de um encolhimento do setor em 30%. Porém, o último trimestre da construção foi decepcionante, queda de 2,5%. O crescimento brasileiro tem sido anêmico e não se sustenta.

É contrafactual tentar saber o que seria esse PIB se o governo não tivesse criado tanto ruído, mas certamente dá para imaginar que uma nova administração sempre consegue aproveitar a lua de mel, as expectativas positivas, e injetar ânimo na economia. O presidente Bolsonaro permaneceu em palanque e aprofundando as fraturas de uma eleição polarizada. Criou sucessivos ruídos com o Congresso. Deu sinais assustadores nas áreas ambiental e de direitos humanos.

O que a mídia pensa – Editoriais

Piada de mau gosto – Editorial | O Estado de S. Paulo

Como pode ter êxito um governo cujo presidente trata questões sérias como piada?

O ministro da Economia, Paulo Guedes, reuniu-se na terça-feira passada com representantes do Vem Pra Rua e do Movimento Brasil Livre, grupos que ganharam projeção fazendo protestos contra o lulopetismo e se alinham à agenda econômica do governo de Jair Bolsonaro. No encontro, durante um almoço na casa do secretário de Desestatização, Desinvestimento e Mercados, Salim Mattar, Guedes pediu apoio dos movimentos às reformas. Disse que o governo tem “15 semanas para mudar o Brasil”, em provável referência ao fato de que, no segundo semestre, o Congresso estará desmobilizado em razão da campanha para as eleições municipais.

Que dois altos funcionários do governo tenham deixado de lado seus afazeres para pedir o apoio e a opinião de movimentos de rua acerca das reformas econômicas que o governo pretende aprovar já é bastante inusitado. Mais inusitado ainda foi o cronograma apresentado por Guedes: em 15 semanas, o governo Bolsonaro pretende fazer o que foi incapaz nas 61 semanas de seu mandato até agora.

E não foi capaz porque se recusou a estabelecer as necessárias pontes com o Congresso e porque o próprio governo parece não se entender sobre o teor de algumas reformas que diz pretender apresentar, como a tributária e a administrativa. Em vez de pedir apoio às ruas, o governo Bolsonaro deveria se dedicar mais a melhorar sua interlocução com os parlamentares. Mas essa é uma perspectiva cada vez mais remota.

Música | A amizade - eu, você e o samba

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Canção amiga

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.