segunda-feira, 23 de março de 2009

Quando bolso é atingido, popularidade não resiste

EDITORIAL
DEU NA GAZETA MERCANTIL

A percepção do brasileiro para enfrentar a crise econômica piorou muito, como mostrou a pesquisa CNI/Ibope. Apenas 38% dos entrevistados, entre 11 e 15 de março, consideram que o Brasil está preparado para conviver com a crise, ante 43% na última pesquisa realizada nos mesmos moldes em dezembro de 2008. Esses dados, divulgados pela Confederação Nacional da Indústria, indicam que só 32% dos brasileiros acreditam que a crise terminará ainda neste ano. Em dezembro, a visão otimista sobre essa crise era bem diferente: 51% dos entrevistados acreditavam que crise terminaria em 2009. A pesquisa revelou que aumentou de 29% para 37% o percentual dos brasileiros que admitiram já sentir os efeitos da crise no seu cotidiano.

Esses números explicam com maior clareza porque a mesma pesquisa CNI/Ibope também mostrou que a aprovação da maneira como o presidente Lula governa caiu de 84% em dezembro para 78% em março. No final do ano passado 73% dos entrevistados definiram o governo como ótimo e bom. Neste mês esse índice caiu para 64%. Em dezembro, o desempenho do governo foi considerado regular por 20% dos entrevistados e agora esse número saltou para 25%. Há três meses o governo era ruim e péssimo para 6% e hoje esse índice passou para 10%. Em termos gerais, a nota média do governo caiu de 7,8 para 7,4 nesse período.

A pesquisa sugere que há um descontentamento em relação ao governo. Não adianta buscar razões políticas envolvendo algum ato ou atitude pessoal do presidente Lula para entender esse julgamento popular. A evidência mais consistente dessa pesquisa é que os problemas não estão no carisma do presidente, mas nas decisões mais recentes de seu governo. A pesquisa mostrou que despencou de 49% para 41%, entre dezembro e março, os que consideravam o segundo mandato do presidente Lula como melhor que o primeiro. Vale notar que o segundo mandato do presidente foi julgado pior que o primeiro por 11% dos entrevistados no final do ano passado, enquanto hoje esse percentual avançou para 18%. A administração está sendo julgada pelo que ocorre agora, na crise, e não pelo conjunto da obra. Há notória distinção, e forte, entre duas fases do atual governo, pré e pós crise.

A pesquisa CNI/Ibope também mostrou que a expectativa popular sobre o futuro embute forte receio e não confiança no atual momento. E a principal razão desse receio é a manutenção do emprego: 68% dos entrevistados acreditam que haverá aumento do desemprego nos próximos seis meses. Em março 62% tinham essa perspectiva. Só 29% afirmam que o desemprego pode recuar ou pelo menos ficar onde está, no mesmo patamar de hoje. Esta não é constatação isolada desse levantamento. O quadro não é diferente na pesquisa do instituto DataFolha, realizada entre 16 e 19 de março, mostrando que 59% dos entrevistados acreditam que o desemprego terá expansão nos próximos meses. Em novembro, a mesma pesquisa do instituto revelou que essa era a perspectiva de 44% dos pesquisados. Vale notar que essa pesquisa também mostrou que desemprego e saúde são os maiores problemas do País para os brasileiros.

O impacto desses receios consolidados em torno da crise econômica também atingiu o medo da inflação: em março 73% dos entrevistados acreditavam que a inflação deve aumentar nos próximos seis meses; em dezembro esse percentual era de 66%.

É preciso observar que os números dessa pesquisa não sugerem qualquer queda vertiginosa da popularidade do presidente Lula. O recuo na aceitação popular do governo indica a óbvia necessidade de medidas mais drásticas e urgentes quanto à crise. Bem diferente das questões políticas que muitas vezes impõem perda de popularidade, e quase sempre traduzem opções ideológicas ou antipatias pessoais, a pesquisa CNI/Ibope demonstrou que a fase de crescente desaprovação popular é reação vinculada diretamente ao bolso e não a qualquer razão política ou partidária. Até o presente momento, o presidente Lula não enfrentara maus ventos no cenário econômico internacional e a população esperava atitudes mais rápidas contra a crise.

Esse é o ponto preocupante: a agilidade do governo em tomar decisões certas. A queda da arrecadação mostrou que as empresas estão estranguladas pela carência de crédito e o govenro hesita em tomar medidas mais eficazes para devolver fôlego financeiro às empresas, para que o emprego não fique em risco. A população notou essa hesitação e deu um sinal de alerta ao Planalto. Ao governo só resta exibir a suficiente humildade para captar essa mensagem.

AEROLULA

Alckmin é favorito para governo de SP

DEU EM O GLOBO

Tucano supera Marta Suplicy e lidera intenções de voto, segundo Datafolha

SÃO PAULO. O ex-governador e atual secretário estadual de Desenvolvimento, Geraldo Alckmin (PSDB), lidera a primeira pesquisa do instituto Datafolha de intenção de voto com possíveis candidatos ao governo de São Paulo, divulgada ontem. O tucano, derrotado no primeiro turno das eleições para prefeito em 2008, aparece com 41% das intenções de voto, contra 13% da ex-prefeita Marta Suplicy (PT), derrotada no segundo turno à prefeitura.

O ex-prefeito Paulo Maluf (PP) tem 12% das intenções de voto; Luiza Erundina (PSB), 7%; Soninha Francine (PPS), 5%; e Paulinho da Força (PDT), 3%. Campos Machado (PTB), Paulo Skaf (sem partido) e Ivan Valente (PSOL) contam com 1%, cada.

Marta é a petista mais bem cotada na pesquisa. No cenário em que o candidato petista é o ex-ministro da Fazenda e atual deputado Antonio Palocci, Alckmin tem 45% das intenções. Se o candidato petista fosse o ministro da Educação, Fernando Haddad, Alckmin pularia para 46% das intenções de voto.

Realizada entre 16 e 19 deste mês, a pesquisa ouviu 2.062 pessoas, com margem de erro é dois pontos percentuais, para mais ou menos. Na pesquisa espontânea, quando não se apresentam nomes, o mais lembrado foi atual governador do estado, José Serra, citado por 12% das pessoas. Alckmin vem em seguida, com 9%, seguido por Marta, que soma 3% e Maluf, 1%.

Em Minas Gerais, outro estado pesquisado pelo Datafolha, o ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB), tem vantagem sobre os demais possíveis candidatos. Em quatro cenários pesquisados, Costa lidera as intenções de voto, com índices que variam de 37% a 43%. Fernando Pimentel (PT) tem 24% das intenções de voto.

No Rio Grande do Sul, a governadora, Yeda Crusius (PSDB), aparece em terceiro lugar, com 9%, atrás do ministro da Justiça, o petista Tarso Genro (30%) e do prefeito de Porto Alegre, José Fogaça (PMDB), 27%.

PSDB também sai na frente no Paraná

No Paraná, o senador Álvaro Dias e o prefeito de Curitiba, Beto Richa, ambos do PSDB, lideram a corrida com 39% das intenções de voto cada em dois cenários pesquisados. A deputada federal Angela Amin (PP), ex-prefeita de Florianópolis, aparece como o principal nome em Santa Catarina, e lidera três cenários com potenciais candidatos no estado, com índices que vão de 32% a 37%.

AS HORAS (poema)

Graziela Melo

Fortuitas,
As horas
Se passam,

Se perdem
Em triste

Agonia

Se dispersam
Na fronteira

Entre
A saudade,
A dor
E a poesia...

Rio de janeiro, 17/10/08



ELEIÇÕES DATAFOLHA: RJ

Plínio Fraga
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Cabral lidera, mas oposição é forte no Rio

Governador tem 26% e vê empate entre Crivella, Gabeira, Montes e Maia em 2º

Com cacife eleitoral forte, Crivella, Gabeira e Maia são hoje capazes de enfrentar Cabral; Garotinho, com 7%, está num patamar abaixo

O governador Sérgio Cabral (PMDB) larga à frente na disputa sucessória de 2010 no Rio de Janeiro, mas pesquisa Datafolha mostra haver hoje adversários com potencial para tentar impedir sua eventual reeleição. Cabral aparece em primeiro nos dois cenários em que seu nome é apresentado, mas o senador Marcelo Crivella (PRB), o deputado federal Fernando Gabeira (PV), o deputado estadual Wagner Montes (PDT) e o ex-prefeito Cesar Maia (DEM) são rivais próximos.

Foram apresentados quatro cenários ao eleitor. No primeiro, foi levado em conta que os partidos mais representativos teriam candidato próprio (veja quadro). Cabral atingiu 26%, Crivella, 16%, Gabeira, 15%, Montes, 11%, e Maia, 10%. Como a margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos, os quatro estão empatados em segundo lugar.

O segundo cenário permite uma especulação caso Cabral consiga se viabilizar como candidato a vice, numa eventual chapa da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) à Presidência, e abra mão da disputa no Rio.

Nesse caso, com o ex-governador Anthony Garotinho sendo colocado como candidato do PMDB, a liderança se dividiria entre Gabeira com 18%, Crivella com 17%, Maia, 16% e Montes, 13%. Garotinho teria 8%, ao lado de Frossard, com 7%.

No atual atual quadro político, se Cabral ficasse fora da disputa, ele dificilmente apoiaria Garotinho como nome do PMDB, preferindo alguém de seu grupo político, como o vice-governador Luiz Fernando Pezão. Com Pezão como candidato do PMDB, Crivella teria 20% dos votos, Gabeira 19%, Maia 17% e Montes 14%.

A desgastada relação com Cabral pode levar Garotinho a trocar de partido. Ele já faz negociações discretas com legendas como PSDB, PTB e PR.

O Datafolha testou a hipótese de Garotinho deixar o PMDB. Cabral lideraria com 21% dos votos, seguido por Gabeira com 15%, Crivella com 14%, Montes com 12% e Maia com 11%. Garotinho ficaria com 7%, Frossard, com 6%.

Dos cenários traçados, conclui-se que Crivella, Gabeira e Maia são hoje donos de um cacife eleitoral forte, capazes de enfrentar Cabral. Garotinho está num patamar abaixo, e o petista Lindberg Farias vê comprometida a possibilidade de sair candidato.

ELEIÇÕES DATAFOLHA: MG

Paulo Peixoto
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Hélio Costa lidera em todos os cenários e PT é 2º em Minas

Anastasia, vice de Aécio e possível nome do PSDB, fica em 3º e não passa dos 5%

O fato de já ter disputado duas vezes o governo do Estado contribui para que o peemedebista seja mais lembrado pelos eleitores


O ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB), apresenta ampla vantagem em relação aos demais aspirantes a candidato ao governo de Minas Gerais, a um ano e sete meses da eleição. Segundo pesquisa Datafolha, Costa lidera nas quatro situações apresentadas, variando de 37% a 43% das intenções de voto.

Nos dois primeiros cenários, com quatro candidatos, ele lidera com 41%. É seguido pelo também ministro do governo Lula, o petista Patrus Ananias (Desenvolvimento Social), com 11%. Na sequência aparecem o vice-governador Antonio Anastasia (PSDB), que tem 5% e está empatado tecnicamente com Maria da Consolação Rocha (PSOL), com 4%.

No segundo cenário, em que o candidato do PT é substituído pelo ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, a vantagem de Costa cai de 30 para 13 pontos. O ministro tem 37%, contra 24% de Pimentel, sendo que a intenção de voto no petista é maior na capital (50%) e na região metropolitana (45%). Costa aparece melhor no interior, com 42%.

Na segunda situação, Anastasia -que cada vez mais vem representando o governador Aécio Neves (PSDB) pelo interior- aparece com 4% das intenções de voto. Rocha tem 3%.O diretor do Datafolha, Mauro Paulino, afirma que neste momento vale muito o "recall" do pré-candidato. No caso de Hélio Costa, as duas eleições que ele disputou ao governo, em 1990 e 1994, contribuem para que seja lembrado.

No caso de Anastasia, o PSDB considera que o fato de ele ser um nome desconhecido e integrante de um governo bem avaliado lhe dá boas chances de crescimento. O diretor do Datafolha concorda: "Qualquer candidato que venha a ser apoiado pelo Aécio tem potencial de crescimento".

Além disso, a partir do início da campanha mais informações sobre os candidatos vão surgir e eles podem se beneficiar disso. Esse pode ser o caso também de Patrus, que comanda um ministério de Lula.

Os outros dois cenários colocados, sem um candidato do PSDB, estão relacionados ao fato de Aécio vir a ser candidato a presidente. Se isso ocorrer, o PSDB cogita abrir mão de candidatura em Minas em nome da "unidade mineira", ou seja, não se indispor e não dividir as forças regionais para se apresentar mais forte nacionalmente.

Nesses cenários, Costa também lidera. Tem 43% contra Patrus (13%) e 40% contra Pimentel, que aparece com 25%. Rocha aparece com 5% e 4%, respectivamente.

Os votos brancos e nulos variam de 17% a 23% e os que disseram não saber em quem votar, entre 14% e 17%.

Em qualquer cenário, porém, a crise econômica poderá ser "componente importante" dependendo do seu desenrolar. Para o diretor do Datafolha, o candidato do PT e o candidato do governo estadual poderão se enfraquecer.

A margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais, para mais ou para menos. O Datafolha ouviu 1.073 eleitores entre os dias 16 e 19 deste mês, em 42 municípios mineiros.

ELEIÇÕES DATAFOLHA: SP

José Alberto Bombig
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Alckmin lidera com folga e opositor está indefinido

Tucano obtém de 41% a 46% das intenções de voto para o governo de SP em 2010

Ex-governador obtém pior resultado em confronto com Marta; Datafolha diz que favoritismo de Alckmin está ligado a "recall" de eleições

O tucano Geraldo Alckmin, derrotado ainda no primeiro turno da eleição do ano passado para prefeito de São Paulo, é o preferido dos paulistas na corrida para governador, segundo o Datafolha. Trata-se da primeira pesquisa de intenção de voto nas eleições de 2010 para governos estaduais.

Atual secretário de Desenvolvimento do governador José Serra (PSDB), ele obtém entre 41% e 46% das intenções de voto -sempre na liderança- em todos os cenários em que ele foi citado.

Serra, nome mais cotado entre os tucanos para disputar a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também em 2010 e líder nas pesquisas, não aparece em nenhum deles.A 19 meses da eleição, nenhum dos adversários de Alckmin atinge sequer a metade de suas intenções de voto nos cenários em que ele é apresentado. Os mais bem posicionados são os ex-prefeitos Marta Suplicy (PT) e Paulo Maluf (PP).

O melhor desempenho do tucano (46%), que governou São Paulo de 2001 a 2006, ocorre quando o candidato do PT é o ministro da Educação de Lula, Fernando Haddad. Contra Marta, o tucano obtém seu pior resultado (41%).

Na hipótese de o deputado federal e ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci concorrer pelo PT, Alckmin chega a 45%.

O outro nome tucano apresentado pelo Datafolha, o do secretário da Casa Civil de Serra, Aloysio Nunes Ferreira, oscila de 2% a 3% das intenções. Ele e Alckmin já travam uma batalha dentro do partido e do Palácio dos Bandeirantes pelo direito de concorrer em 2010.

A pesquisa foi realizada entre 16 e 19 deste mês. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

"Recall"

O diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, diz que o levantamento mostra "amplo favoritismo de Alckmin". Mas ele ressalva que Aloysio, Haddad e o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf -também testado em todos os cenários-, ainda são pouco conhecidos.

"Os demais já concorreram nas urnas muitas vezes e recentemente. A campanha para o governo costuma ficar escondida por conta da disputa pela Presidência, e o eleitor, por causa disso, só se lembra dela mais adiante", afirma Paulino.

Como exemplo, ele cita o desempenho de Paulo Maluf (PP), que chega a liderar com 20% quando Alckmin sai da disputa. Também sem o ex-governador tucano, a ex-prefeita Luiza Erundina (PSB) atinge 14%, seu melhor índice.

O resultado da pesquisa deve servir de combustível para Marta na disputa interna do PT. Derrotada por Gilberto Kassab (DEM) no segundo turno da eleição para a Prefeitura de São Paulo, ela chegou a ser apontada como nome descartado do processo.

No entanto, Palocci e Haddad, que seriam os preferidos de Lula, ainda mostram pouca viabilidade. O ex-ministro da Fazenda oscila de 3% a 5%.

O ministro da Educação não passa de 2%. Já Marta chega a liderar com 19% no cenário sem Alckmin e com Aloysio.

Além de Skaf (sem partido), também foram apresentados em todos os cenários Campos Machado (PTB), Ivan Valente (PSOL), Paulinho (PDT) e Soninha (PPS).

ELEIÇÕES DATAFOLHA: PR

Pedro Serápio
DEU NA GAZETA DO POVO/PR

Alvaro e Beto lideram pesquisa

Senador Osmar Dias (PDT) é o único que pode enfrentar os tucanos na disputa pelo governo do estado no próximo ano

Se a eleição para governador do Paraná fosse hoje, o prefeito Beto Richa e o senador Alvaro Dias, ambos do PSDB, seriam os nomes com maiores chances de vencer a disputa, tendo o senador Osmar Dias (PDT) como único capaz de enfrentar um dos tucanos. A pesquisa Datafolha divulgada ontem mostra empate entre Alvaro Dias e Beto Richa em quatro possíveis cenários da pesquisa estimulada, com 39% e 52%. Já na pesquisa espontânea (em que o nome dos candidatos não é apresentado) o prefeito leva vantagem sobre todos os pré-candidatos. Ele aparece com 9%, enquanto os irmãos Alvaro e Osmar Dias têm 6%. Os outros não atingiram 1%. Na espontânea, o nome do governador Roberto Requião lidera as intenções de voto, com 16%, embora ele seja impedido de disputar a reeleição.

Nas simulações sem Beto Richa, Alvaro Dias aparece na frente do irmão com 39% a 27%. Sem Osmar Dias, o tucano aumenta seu desempenho e pode vencer a eleição no primeiro turno, com 52% contra 10% do segundo colocado, Rubens Bueno.

Beto Richa também leva a melhor sobre Osmar Dias, com 39% a 31%. Se o senador estiver fora da disputa, aumenta a chance de o prefeito ganhar a eleição no primeiro turno com 52%, o mesmo porcentual do outro cenário liderado por Alvaro Dias. Rubens Bueno aparece novamente na segunda posição com 10%.

Em todos as situações, o vice-governador Orlando Pessuti, do PMDB, oscila entre 7% e 8%, enquanto o pré-candidato do PT, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, não ultrapassa 4%.

Com larga vantagem sobre os demais concorrentes, Alvaro Dias e Beto Richa defendem a continuidade da aliança com o PDT e o PPS, o que tornaria o grupo “imbatível” na eleição. Como Rubens Bueno já anunciou que não será candidato, PSDB e PDT precisam chegar a um consenso.
Beto Richa disse ter ficado “honrado” com o resultado, mas ponderou que todos precisam ter sabedoria e desprendimento para manter o grupo unido nas eleições.

Sobre a definição de nomes, ele considera cedo demais. “O momento oportuno para discutir isso é no próximo ano, quando escolheremos o melhor nome que reúna as condições de representar o grupo e vencer as eleições”, afirmou.

A aliança, segundo Beto Richa, tem nomes com credibilidade, como Alvaro Dias, Osmar Dias, Rubens Bueno e Gustavo Fruet, mas “se cada um puxar para o seu lado vai ser difícil ficar unido”.

O senador Alvaro Dias também espera manter a aliança PSDB-PDT-PPS e descarta a possibilidade de enfrentar o irmão Osmar Dias. “Eu não disputo contra ele e ele não disputa contra mim.” No entanto, se o PSDB o escolher e o PDT lançar Osmar, Alvaro Dias diz que pretende manter sua candidatura.

Para o senador, a pesquisa Datafolha revelou um cenário bem próximo do que ele vinha traçando em sua avaliação pessoal. Com vantagens entre 8 e 42 pontos sobre os nomes que ficaram em segundo lugar, ele afirmou que o resultado “não interfere” em suas decisões e que se mantém como alternativa ao nome de Beto Richa dentro do PSDB.

O senador Osmar Dias não quis comentar o resultado. Ele informou, por meio de sua assessoria, que não analisa pesquisas desde 2006, quando os institutos Datafolha e Ibope revelaram que não teria 2º turno na eleição para o governo do estado e erraram.

Os números foram surpresa para Rubens Bueno. “Não disputei eleição em 2008, não faço campanha, não tenho exposição na mídia e não fazia a mínima ideia de uma pesquisa com esse resultado”, disse.

Apesar do bom desempenho, ele reafirmou que abriu mão da candidatura para que a aliança se consolide.

Para Rubens Bueno, o grupo precisa dar uma resposta ao que o povo do Paraná está esperando. “Todos nós teremos responsabilidade de, no momento certo, não só manter a aliança, mas lançar uma candidatura de fôlego para ser vitoriosa”, afirmou.

Orlando Pessuti também gostou do resultado. Nas pesquisas internas realizadas em dezembro, ele diz que aparecia com 3 pontos e agora está com 8. “É um crescimento lento, mas firme. No ano que vem nas convenções temos condições de estar com mais de 20% das intenções de voto”, prevê.

O ministro Paulo Bernardo não foi localizado para analisar a pesquisa. Segundo a presidente estadual do PT, Gleisi Hoffmann, ele estava num compromisso fora.

Alianças

Faltando pouco mais de 18 meses das eleições, as alianças nacionais ainda podem mudar o atual quadro político no Paraná. O governo federal trabalha para unir a pré-candidata a presidência da República, Dilma Rousseff (PT), e o senador Osmar Dias, numa aliança entre os dois partidos. Nos dois cenários da pesquisa Datafolha em que aparece Osmar Dias, nenhum nome do PT é colocado como adversário.

Do outro lado, Alvaro Dias e Beto Richa trabalham para dar um palanque forte para a candidatura do PSDB nacional. O partido também não descarta a possibilidade de apoio do PMDB do governador Roberto Requião.

Embora o PMDB trabalhe pela candidatura própria, as conversas sobre uma aliança com o PSDB não foram suspensas.

ELEIÇÕES DATAFOLHA: BA

Breno Costa
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Wagner está em 1º na Bahia; Geddel não passa do 4º lugar

Em todos os cenários, o 2º colocado é um nome do DEM e o 3º é César Borges, do PR

Peemedebista não vai bem na pesquisa porque ainda é desconhecido do eleitorado baiano, afirma o diretor do Datafolha, Mauro Paulino

Cotado a vice em uma eventual chapa presidencial encabeçada pela chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), aparece apenas em quarto lugar na intenção de voto dos eleitores da Bahia para o governo do Estado, a pouco mais de um ano e meio das eleições.

Quatro cenários projetados pelo Datafolha com oito possíveis candidatos ao governo indicam liderança folgada do atual governador baiano, Jaques Wagner (PT). Ele oscila entre 36% e 38% das intenções de voto na pesquisa estimulada. Na espontânea -sem a apresentação de nomes-, também mantém a dianteira, com 24%.

Geddel aparece em 2 dos 4 cenários. Em um deles, com a presença dos ex-governadores Paulo Souto (DEM) e César Borges (PR), tem 7%. No outro, em que Souto é substituído pelo deputado federal Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM), fica com 8%. Nos dois casos, ele aparece tecnicamente empatado com o radialista Raimundo Varela (PRB).

O diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, diz acreditar que, caso Geddel se candidate de fato ao governo da Bahia, a intenção de voto deve aumentar. Geddel nunca disputou cargos majoritários.

"Acredito que seja desconhecimento da população, que pode ser revertido a partir do momento em que começar a campanha. Muitas vezes as articulações de bastidores não atingem os eleitores", diz Paulino, em referência ao cenário das eleições municipais de Salvador, em outubro, quando o candidato de Geddel venceu o apadrinhado de Wagner.

DEM

O segundo lugar nas pesquisas é disputado entre os dois principais nomes do DEM baiano, ACM Neto e Paulo Souto. O partido vem sendo considerado cambaleante no Estado após três fatos: a morte do senador Antonio Carlos Magalhães, a perda da hegemonia no governo para o PT e a derrota de ACM Neto na disputa pela Prefeitura de Salvador no ano passado, quando não chegou ao segundo turno.

Quando confrontados, nos cenários, com o senador César Borges, ambos se saem melhor. ACM Neto fica com 17% nos dois cenários em que é citado. Em um deles, Borges tem 14%. Em outro, com Geddel Vieira Lima, o senador fica com 12%.

Quando o possível candidato é Paulo Souto, a diferença chega a ser de nove pontos percentuais (19% x 10%) quando Geddel é incluído na disputa. Sem o ministro, a diferença cai para quatro pontos (18% x 14%).

O Datafolha entrevistou 991 pessoas em 36 municípios baianos, entre os dias 16 e 19 deste mês. A margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

ELEIÇÕES DATAFOLHA: PE

Sílvia Freire
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Eduardo Campos e Jarbas lideram empatados em PE

Diferença entre governador do PSB e senador do PMDB diminui em cenário com PT

Para o diretor do Datafolha, o equilíbrio na disputa não reflete a presença recente de Jarbas no noticiário, mas sua experiência no governo de PE

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) aparecem empatados tecnicamente em dois possíveis cenários na disputa pelo governo do Estado em 2010, segundo pesquisa Datafolha.

Em um cenário sem nome do PT, o ex-prefeito de Recife João Paulo, Campos tem 40% das intenção de voto, seguido por Jarbas, com 34%. Nesta simulação, os dois estão em empate técnico no limite da margem de erro -três pontos percentuais para mais ou para menos.

O equilíbrio entre Campos e Jarbas não reflete, segundo o diretor do Datafolha, Mauro Paulino, a presença do senador no noticiário recente. Em entrevista à revista "Veja", em fevereiro, Jarbas afirmou que "boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção", gerando críticas da cúpula do partido. Na ocasião, também disse que "mais de 90% [do PMDB] praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos".

A 18 meses das eleições, no entanto, o que conta mais é a memória do eleitor, segundo Paulino. "O noticiário reforça uma imagem que ele [Jarbas] já tem, mas não chega a atingir a maioria do eleitorado. Os índices refletem mais a tradição dele em administrações anteriores em Pernambuco, e isso acaba contando mais nesse momento." Jarbas foi duas vezes seguidas governador de Pernambuco (1999-2006).

No cenário em que o ex-prefeito João Paulo foi incluído, a distância entre Campos e Jarbas diminui. O atual governador aparece com 34% das intenções de voto, e Jarbas, com 31%. João Paulo está em terceiro lugar, com 12% das citações, em empate técnico com o ex-governador José Mendonça Filho (DEM), com 10%. Outros candidatos somam 6%. Votos brancos e nulos tiveram 4%.

Na simulação em que o nome de Campos não foi incluído, Jarbas abre uma vantagem de 20 pontos percentuais sobre o segundo colocado, o ex-prefeito de Recife João Paulo (PT). O governador foi excluído deste cenário porque existe a possibilidade de coligação com o PT para que o ex-prefeito seja o candidato dos partidos.

Jarbas lidera com 41% das intenções, enquanto o petista João Paulo é citado por 21% dos entrevistados e se distancia de Mendonça Filho, que tem 13%. Os deputados federais Carlos Eduardo Cadoca (PSC) e Raul Jungmann (PPS) aparecem com 5% e 3% das intenções de voto, respectivamente. Edilson Silva (PSOL) tem 1%.

Na pesquisa espontânea, em que os nomes dos possíveis candidatos não são apresentados, o atual governador lidera com 26%. Jarbas tem 10%; João Paulo e Mendonça Filho, 2% cada um. Os demais não atingiram 1%.

ELEIÇÕES DATAFOLHA: CE

Breno Costa
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Atual governador, Cid lidera cenários no Ceará

Diferença para 2º colocado é superior a 15 pontos

Atual governador do Ceará, Cid Gomes (PSB) lidera com folga as intenções de voto dos cearenses para o governo do Estado. Nos dois cenários projetados pelo Datafolha Cid seria reeleito, com vantagens superiores a 15 pontos percentuais sobre o segundo colocado.No retrovisor de Cid Gomes, disputam entre si o senador e ex-governador Tasso Jereissati (PSDB), o ex-governador Lúcio Alcântara (PR), a prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins (PT), e o ex-deputado federal Moroni Torgan (DEM).

Na pesquisa espontânea, em que nomes de possíveis candidatos não são apresentados ao eleitor, Cid Gomes também lidera, com 20% das intenções de voto. Em segundo lugar, aparece seu irmão, o deputado federal e ex-governador Ciro Gomes, do mesmo partido.

Ciro não foi incluído em nenhum dos dois cenários porque a tendência mais forte, no momento, é que ele tente uma candidatura presidencial, ainda que como vice.

"A presença do Ciro na espontânea é um recall que o eleitorado tem de campanhas e de administrações anteriores. É natural que ele apareça", diz o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino.

No primeiro cenário pesquisado pelo Datafolha, Cid tem 34% das intenções de voto, com maior concentração no interior do Ceará. Tasso aparece em segundo, com 18%. Em seguida, tecnicamente empatados, vêm Alcântara (13%), Luizianne (12%) e Moroni (11%).

No segundo cenário, em que Tasso fica de fora, Cid aumenta sua vantagem para o segundo colocado. Ele tem 39%, contra 18% de Alcântara. O ex-governador segue tecnicamente empatado com Luizianne (13%) e Moroni, que oscilou positivamente três pontos percentuais, indo para 14%. Os dois cenários incluem o presidente estadual do PMDB e ex-ministro das Comunicações, Eunício Oliveira, e o possível candidato do PSOL no Estado Renato Roseno.

ELEIÇÕES DATAFOLHA: DF

Adriano Ceolin
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Arruda e Roriz disputam liderança no DF

Em dois cenários, governador, filiado ao DEM está tecnicamente empatado com seu antecessor, do PMDB
O governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), e seu antecessor, Joaquim Roriz (PMDB), lideram na disputa pelo comando da capital do país em 2010. De acordo com a mais recente pesquisa Datafolha, eles estão tecnicamente empatados, apesar da vantagem do democrata em pontos percentuais.

Enquanto Arruda obtém 40% e 41% nos dois cenários em que aparece como candidato, Roriz conquista 35% e 36%. A margem de erro da pesquisa é de quatro pontos percentuais para mais ou para menos, por isso o empate técnico.

No primeiro cenário, Arruda está com 41% das intenções de voto e Roriz aparece com 35%. Já o ex-ministro dos Esportes Agnelo Queiroz (PT) tem 7% e o senador Gim Argello (PTB), que ficou com a vaga após Roriz renunciar ao Senado, fica com 3%. Nessa situação, votos em branco ou nulos são 9%, e 6% estão indecisos.

Na segunda situação, com o deputado Geraldo Magela como nome do PT, Arruda tem 40% e Roriz, 36%. O petista tem 7% e Argello, 3%. Nesse caso, 8% votariam nulo ou em branco, 6% se dizem indecisos.

Em outro cenário em que Arruda é substituído pelo vice-governador Paulo Octávio (DEM) como candidato, Roriz lidera com folga. O ex-governador chega a 46% contra 22% de Paulo Octávio. Agnelo fica com 9% e Gim Argello mantém 3%.

Na pesquisa espontânea, quando os entrevistados são questionados sem a apresentação prévia dos nomes dos candidatos, Arruda fica 17 pontos percentuais à frente de Roriz. Dos entrevistados, 34% querem reeleger o governador e 17% preferem o peemedebista.

No mesmo caso, Paulo Octávio ficou com 2%. Já os petistas Agnelo e Magela não passaram de 1%. Apesar de ter sido citado pelos entrevistados, Gim Argello não chegou a 1%. Votos brancos e nulos somam 5% e 35% não sabem em quem votar.

Arruda leva vantagem sobre Roriz entre os eleitores mais jovens, mais ricos e com maior escolaridade. Nos cenários em que concorre, obtém 46% entre pessoas de 25 a 34 anos. Ele chega a 60%, entre os que tem ensino superior, e a 55%, entre as pessoas com renda superior a dez salários mínimos.

Governador por quatro mandatos, Roriz lidera entre os que tem ensino fundamental, com percentuais que variam de 49% a 63%. Entre os de menor renda, tem melhor desempenho, com variação de 43% a 58%.

Judiciário, política e responsabilidade

Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO


O país atravessa um momento talvez peculiar de sua história institucional. Um dinamismo que pode ser visto como promissor e criativo, por certos aspectos, mostra nele outra face, em que se vê preocupante fluidez nas relações entre os poderes. O instrumento das medidas provisórias à disposição do Executivo e os dispositivos que lhe aumentam o poder de iniciativa e controle em relação à agenda do Congresso; um Judiciário marcado pela adesão explícita e afirmativa a uma postura ativista; um Legislativo acossado por denúncias, amplamente paralisado com respeito ao exercício de suas atribuições próprias, confrontado com o ativismo do Judiciário e a invasão do Executivo - e a tatear (como ocorre com os demais poderes, às vezes estouvadamente) em busca de ampliar ou recuperar espaços.

A reinterpretação agora proposta por Michel Temer quanto aos efeitos das medidas provisórias sobre o trancamento da pauta do Congresso é o episódio mais recente da fluidez mencionada.

Tudo somado, ela é certamente defensável do ponto de vista do anseio por relações equilibradas entre Executivo e Legislativo, e, a julgar pelo que noticiava a imprensa dias atrás, parece contar com receptividade entre os ministros do STF. É estranho, porém, como notaram constitucionalistas citados em matéria do Valor e atentos às disposições explícitas da Constituição, que se tenha pura e simplesmente nova leitura de um dispositivo legal pelos próprios órgãos legislativos que aprovaram há alguns anos a emenda constitucional cuja intenção era evidentemente contrária à leitura de agora. Desse ponto de vista, a suposta receptividade à ideia por parte de um STF ativista pode ela própria ser tomada como indício do que tem de precário o quadro geral.

Essa precariedade se mostra de maneira mais vívida na confusão envolvida nas recentes cassações pelo TSE de governadores eleitos em 2006. Por certo, nesse caso estamos longe da invencionice estapafúrdia de decisões como, por exemplo, a que impôs há algum tempo a "verticalização" das eleições: acham-se em vigor normas que têm sua justificação e que respaldam as decisões. Mas é evidente o que há de insatisfatório numa situação em que as normas em vigor e os instrumentos deficientes de que dispõe a Justiça eleitoral redundam numa espécie de "samba da Justiça doida", em que governadores eleitos em 2006 e empossados em 2007 são cassados em 2009 e o cargo é transferido, sem mais, aos derrotados na eleição, eles mesmos, em vários casos, submetidos a acusações e processos semelhantes aos dos cassados... Não será com a Justiça eleitoral substituindo-se aos eleitores, e de forma tão canhestra, que os vícios do processo de eleição serão sanados.

Mas talvez mereça destaque a manifestação pública do ministro Gilmar Mendes de há algumas semanas - mais uma. A propósito de críticas feitas anteriormente ao governo pela transferência de recursos públicos ao MST e de comentários de Lula no sentido de que ele falaria a título pessoal, Gilmar Mendes fez questão de esclarecer que falava como chefe do Judiciário e atento às responsabilidades políticas e institucionais que a posição envolveria.

É claro que o Judiciário tem responsabilidades institucionais, o que traz tais responsabilidades, naturalmente, também para o presidente do STF. Reclamar responsabilidades políticas para o Judiciário e seu chefe, porém, é algo bem mais complicado e exposto a confusões. O papel por excelência do Judiciário, num sistema constitucional baseado na separação de poderes, é o da revisão judicial, em que um princípio de "responsabilidade horizontal", para usar expressão de Guillermo O"Donnell, permite que um Judiciário que se supõe politicamente independente e imparcial atue como instância de controle dos demais poderes. Esse desiderato de independência e imparcialidade políticas é o que torna defensável que os membros do Judiciário não sejam escolhidos em eleições em que competissemm pelo voto popular, mas sim por meio de procedimentos capazes de permitir atenção maior para aspectos de qualificação "técnica" e de capacitação para aquilo que o próprio Gilmar Mendes tem designado como a "representação argumentativa" que supostamente caberia ao Judiciário, ao STF em particular.

O controle e a responsabilização do governo feitos em termos "horizontais", com base destacadamente na revisão judicial, podem mesmo ser vistos como forma importante de suprir as deficiências na "responsabilidade vertical", expressão com que O"Donnell designa a relação democrática do governo com o eleitorado em geral. E cabe assinalar, ainda, algo que tem sido salientado em discussões recentes sobre as chamadas "democracias iliberais" (Fareed Zakaria), em que o recurso a eleições, desacompanhado de garantias adequadas dos direitos civis ou liberais, levaria a autoritarismos com respaldo popular. Daí se tem pretendido extrair o argumento de que seria preciso estender a outros setores ou entidades da aparelhagem estatal o princípio, afirmado quanto ao Judiciário, de tratar de neutralizar sua exposição aos setores politicamente sensíveis do governo: um exemplo importante se tem com a pretensão de assegurar autonomia para os bancos centrais.

Sem dúvida, não há razão para acreditar, mesmo na vigência de orientações em princípio marcadas pela ideia de isenção política, que o que se observa na atuação do Judiciário moderno em países diversos justifique a leitura de que essa isenção prevaleça de maneira irrestrita: o que se observa é com frequência a Justiça contaminada pelo jogo político-partidário. De todo modo, não há como negar as complicações com que se choca o reclamo de responsabilidade "política" para o Judiciário e seu chefe. Pretenderá o ministro cancelar a invocação da "representação argumentativa" e sugerir que venhamos a ter eleições para o Judiciário?

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

MAROLINHA


Vícios são vícios, mesmo quando úteis

Carlos Alberto Sardenberg
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Sabem por que o Brasil apanha menos que outros emergentes nesta crise? Por causa de seus vícios.

Há uma forte queda no comércio mundial ? e a economia brasileira é fechada, exporta pouco, ou seja, perde relativamente menos.

Há uma severa restrição do crédito ? e havia muito pouco crédito no Brasil, de novo, com pouco a perder.

Considerem o comércio. Neste ano, pela primeira vez em décadas, a soma de exportações e importações mundiais vai encolher, será menor do que em 2008. Isso já está ocorrendo desde outubro, o que arrasa o desempenho das economias exportadoras.

Coreia do Sul e México, por exemplo, estão apanhando mais do que o Brasil neste quesito. Ocorre que a economia coreana exporta algo equivalente a 50% do seu Produto Interno Bruto (PIB), vendas de US$ 420 bilhões para um PIB de US$ 860 bilhões.

No México, a exportação passa um pouco dos 40% do PIB e vai, na maior parte, para os Estados Unidos, o centro da crise.

No Brasil? As vendas externas (US$ 198 bilhões no ano passado) equivalem a 13% do PIB. Portanto, a queda nas exportações, que já ocorre, afeta menos a atividade econômica local.

Mas o lado mais evidente dessa "vantagem" dos vícios está no departamento do crédito.

No ano passado, o crédito total no Brasil chegou a 41% do PIB, um resultado muito bom para os padrões locais.

Na Coreia, para dar apenas um exemplo, o crédito doméstico equivale a 110% do PIB. Portanto, investimentos e consumo dependem muito mais do fluxo de empréstimos do que no Brasil.

Logo, se o crédito seca, o problema é maior lá.

Outras comparações: no grande ano de 2007, quando o mundo todo cresceu espetacularmente, o crédito concedido nos Estados Unidos para a compra de casa própria chegou a 86% do PIB, algo como a espantosa cifra de US$ 12 trilhões. Para a aquisição de carros, 9,2%.

Na Coreia do Sul, o crédito imobiliário representava 53% do PIB. Para automóveis, 17%.

E no Brasil? O ano passado foi considerado um dos melhores para o setor imobiliário. Só pelo Sistema Financeiro de Habitação ? empréstimos com base nos recursos da caderneta de poupança ? foram financiadas quase 300 mil casas, no valor total de R$ 30 bilhões. Isso dá a ridícula relação de 1% do PIB. Se consideradas outras modalidades de financiamento, incluindo as casas populares, subsidiadas, o total financiado não chega a 3% do PIB.

Eis o ponto: o Brasil não teve bolha imobiliária simplesmente porque não empresta.

Para completar as comparações, o financiamento de automóveis é um pouco melhor no Brasil, 3% do PIB, ainda assim muito abaixo dos outros países desenvolvidos e emergentes importantes.

Quais conclusões se podem tirar daí?

A mais estúpida seria afirmar que é melhor exportar menos e emprestar pouco, para evitar danos maiores na eventualidade das crises. Seria como não comer para prevenir eventuais dores de estômago.

Tanto assim que os melhores esforços que o Brasil deve fazer para sair da crise são justamente elevar o crédito para consumo e investimento e aumentar as exportações.

Por outro lado, antes da crise os outros emergentes mais abertos e com mais crédito cresceram mais que o Brasil. Lá no México se costuma dizer: tão perto dos Estados Unidos; tão longe de Deus.

O lamento vale especialmente para estes momentos, mas atenção. Desde que o México assinou o acordo de livre comércio com os americanos, os Estados Unidos tiveram muito mais anos de crescimento do que de recessão.

Isso vale para o conjunto do mundo. Em 2009, o comércio global está diminuindo, mas este é um ano de raríssima exceção.

O panorama geral do mundo emergente mostra o seguinte. Antes da crise mundial, todos os principais países haviam alcançado a estabilidade macroeconômica baseada no tripé: inflação de no máximo 4,5% ao ano; contas públicas equilibradas; dívida líquida pública não superior aos 30% do PIB; contas externas financiáveis e reservas elevadas.

Cada país tem um problema nesta ou naquela perna, mas o geral era isso aí. Todos cresceram fortemente do final dos anos 1990 para cá, especialmente no século 21. Todos elevaram fortemente suas exportações.

O Brasil veio atrasado. Estabilizou a macroeconomia depois de todos os outros e pegou a onda mundial depois dos outros. Assim, o Brasil ainda não havia atingido o voo de cruzeiro ? juros ainda muito elevados, carga tributária altíssima, crédito limitado, pouca abertura ao exterior.

Tudo isso era e continua sendo defeito. A menor exposição brasileira ao comércio externo e ao crédito limita os efeitos da crise externa, mas, antes, limitou muito mais o crescimento do País.

Isso quer dizer que, terminada a crise mundial, os outros países iniciarão a retomada de modo mais firme e rápido. Assim como apanham mais agora, a Coreia e o México (e a China, por sinal) vão decolar quando o comércio mundial voltar a crescer.

É uma história diferente da que conta o presidente Lula. Ele tem dito que o Brasil sofre menos porque estava mais bem preparado do que outros. Basta olhar os quesitos. Onde o Brasil estava melhor?

Na inflação? Todos a tinham controlado.

Nas contas públicas? A dívida brasileira ainda é a maior entre os mais importantes.

Nas reservas? Nas exportações? As nossas eram menores.

No sistema bancário sólido e regulado? Mas claro que é sólido: não empresta e quando empresta cobra esses juros!

*Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

Proposta brasileira ao G20

Luiz Carlos Bresser-Pereira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Está na hora de o Brasil fazer uma proposta inovadora: o estabelecimento de limites para déficits em conta corrente

ESTAMOS na véspera da reunião de cúpula do G20. Qual deve ser o papel do Brasil nela?

Deveremos desempenhar um papel que nunca teve real êxito -o de intermediário entre os países ricos e os demais países de renda média que adotam políticas econômicas mais nacionalistas, como a China e a Índia? Deveremos nos aliar a esses países? Apoiar as medidas visando maior regulação dos mercados financeiros -algo sobre o qual já existe um razoável consenso mundial?

Concentrarmo-nos em pedir maior participação do Brasil nos fóruns internacionais? Ou existe alternativa mais criativa, que reflita experiência e implique contribuição brasileira para a crise?

Se optarmos pela última alternativa, a proposta fundamental deve ser a da limitação dos déficits em conta corrente. Se existe uma recomendação universal de prudência em relação ao déficit do setor público, se o Tratado de Maastricht estabelece para os países da União Europeia um limite de 3%, por que não estabelecer limites acordados internacionalmente também para os déficits em conta corrente -ou seja, para os déficits dos países?

Em vez de caminharem nessa direção, os países ricos estão dando grande ênfase ao aumento do capital do FMI (Fundo Monetário Internacional). Repetem, assim, sua política de incentivar os países em desenvolvimento a se endividarem -a incorrem em déficits em conta corrente e, assim, "crescerem com poupança externa". Depois das crises de balanço de pagamentos dos anos 1990, muitos países em desenvolvimento aprenderam que essa política era absurda, que grande parte dos recursos externos acaba indo para o consumo devido à apreciação do câmbio e ao aumento artificial dos salários. Verificaram que mesmo os investimentos diretos provocavam uma elevada taxa de substituição da poupança interna pela externa na medida em que causavam valorização cambial.

Por isso, principalmente os países asiáticos dinâmicos desvalorizaram suas taxas de câmbio, passaram a ter superávits em conta corrente e deixaram o FMI sem clientes. Mas apenas por algum tempo, porque, de um lado, a pressão dos países ricos para que os países em desenvolvimento recorram a seu capital é forte, e, de outro, porque a tentação dos políticos e dos empresários de usar recursos externos "baratos" é grande. Por isso, alguns países desavisados situados principalmente no leste da Europa incorreram em elevados déficits em conta corrente e agora estão obrigados a recorrer ao FMI.

Os países em desenvolvimento já pagam verdadeiras fortunas aos países ricos para remunerar sob a forma de lucros e juros investimentos que pouco ou nada representam em termos de promoção de seu desenvolvimento econômico e, principalmente, causam a substituição da poupança interna pela externa. Diante desse fato, o lógico do seu ponto de vista é realizar pequenos superávits em conta corrente de forma a gradualmente reduzir as remessas de lucros e juros ou então compensá-los com receitas derivadas de investimentos no exterior.

A reunião do G20 é uma excelente oportunidade para colocar essa proposta. O presidente Lula teve uma viagem exitosa aos Estados Unidos, onde tratou de igual para igual o presidente americano. Não chegou a oferecer auxílio, como fazem os chineses, mas quase. Agora está na hora de o Brasil fazer uma proposta simples, positiva e inovadora que muito contribuirá para a diminuição da instabilidade financeira mundial: o estabelecimento de limites para os déficits em conta corrente.

Luiz Carlos Bresser-Pereira, 74, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

Choro nº 1

Heitor Villa- Lobos
Violão: David Russell
Veja o vídeo

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O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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domingo, 22 de março de 2009

PESQUISAS


Quanto pior, melhor

Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Vamos supor que a crise chegue pra valer, atropelando o governo. Não há garantia de que Serra e Aécio serão os mais beneficiados

Durante todo o seu período de bonança, a economia brasileira (centrada no controle da inflação, no superávit fiscal e no câmbio flutuante) parecia blindada em relação à política, apesar das duras críticas de setores empresariais, da oposição e até no interior do governo às altas taxas de juros. Porém, o mundo desabou e a política propriamente dita recuperou sua centralidade. No Brasil, tudo parecia de cabeça para baixo, com a política nacional blindada em relação à crise econômica. Até que as pesquisas de opinião divulgadas no final da semana se encarregaram de desnudar a mudança de humor na sociedade. No Ibope, a avaliação positiva do governo caiu 13 pontos. No Datafolha, caiu cinco pontos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo assim, mantém grande popularidade. Mas colocou as barbas de molho. Sabe que não está surfando uma marolinha, conduz a nau governista num mar proceloso e desconhecido.

Humores

O governo finalmente percebeu que o Brasil não está à margem da crise ou atingido brandamente por ela. A crise chegou, é mais profunda do que se imaginava e atinge em cheio o setor exportador, do agronegócio às empresas de alta tecnologia. O lado mais globalizado da nossa economia foi abalado de duas maneiras: primeiro, pela retração do mercado mundial; segundo, pela desvalorização cambial. Não se conhece toda a extensão dos prejuízos das grandes empresas do setor com a especulação financeira, mas toda hora surge uma novidade. É o que está por trás de boa parte das dificuldades de gigantes do setor, como a Embraer e a Sadia, só para citar dois exemplos robustos.

O humor da sociedade mudou por causa da onda de desemprego no país. O principal sintoma é a desconfiança de investidores, produtores e consumidores em relação ao futuro imediato. O impacto da retração econômica na arrecadação federal já obrigou o governo a cair na real e rever o orçamento da União. Isso funciona como uma bola de neve, pois as receitas estaduais e municipais também estão desabando. Em pequenos municípios, prefeituras estão fechando as portas. Aqui no Distrito Federal, que parecia à margem da crise, os repasses federais para o GDF foram reduzidos, provocando cortes de investimentos, suspensão de concursos e de aumentos salariais. Inevitavelmente, haverá impacto na atividade econômica. Em estados como São Paulo e Minas, com mais dinamismo econômico, o problema do desemprego tende a retrair ainda o mercado, reduzir a arrecadação, elevar de índices de criminalidade e insatisfação social.

Desgastes

O sinal mais importante da pesquisa de opinião em relação ao prestígio do governo Lula é a queda de popularidade junto à população de mais baixa renda, aquela que foi até hoje o foco principal das políticas sociais do governo, com projetos como Bolsa Família e Luz para Todos. Teoricamente, esses setores deveriam ser preservados do desgaste provocado pela crise, seja pela empatia que têm com o presidente Lula, seja pelo fato de que não houve mudança na política de transferência de renda do governo federal. A única explicação para essa mudança é a retração generalizada da atividade econômica. É ilusão avaliar que o desgaste atingirá apenas o governo Lula. Governadores e prefeitos também vão pagar o preço da crise, em maior ou menor escala. Tudo vai depender das atitudes de cada um.

É por essa razão que tenho minhas dúvidas quanto aos benefícios que a oposição poderia colher com o agravamento da crise econômica. O “quanto pior, melhor” pode ser uma grande roubada para quem divide responsabilidade de governo, como acontece com os governadores de São Paulo, José Serra, e de Minas, Aécio Neves, ambos do PSDB, que postulam a posição de candidato da oposição. A crise mudou os planos do governo federal, que trabalhava com um cenário róseo para a candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, mas agora já sabe que precisa ter foco na crise, para a casa não cair. Mas a situação não se alterou a ponto de inviabilizar o projeto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de eleger seu sucessor. Tudo vai depender da evolução da crise e da competência do governo na condução da economia.

Mas vamos supor que a crise chegue pra valer, com a recessão atropelando o governo. Não há garantia de que Serra e Aécio serão os mais beneficiados. Dependendo da situação social em seus estados, podem ser levados de roldão junto com Dilma. Um cenário de desastre, teoricamente, pode favorecer quem está fora dessa polarização, como o deputado Ciro Gomes (PSDB) ou Heloisa Helena (PSol), que se mantêm teimosamente em boa posição nas pesquisas. Mas o “salvacionismo” mesmo não seria a eleição de nenhum dos dois, seria um terceiro mandato para o presidente Lula, que continuaria sendo o político de maior prestígio no país. É o risco do “quanto pior, melhor”.

A garantia dos direitos

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


O "ativismo judicial" está fazendo com que o Supremo Tribunal Federal esteja no centro das discussões políticas desde que seu presidente, ministro Gilmar Mendes, a partir de uma denúncia da revista "Veja", levou diretamente ao presidente da República uma exigência de apuração sobre uma escuta telefônica clandestina de que teria sido vítima. A transcrição de uma conversa com o senador Demóstenes Torres, confirmada pelos dois, seria a prova de que a Operação Satiagraha, conduzida pelo delegado Protógenes Queiroz, teria grampeado ilegalmente diversas autoridades na seqüência da investigação que levou à prisão do banqueiro Daniel Dantas. Uma investigação da Corregedoria da própria Polícia Federal acabou indiciando criminalmente o delegado por ilegalidades na operação, entre elas escutas telefônicas não autorizadas e a violação de sigilo funcional.

Um grupo de agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), recrutados "informalmente" teve acesso a dados sigilosos da investigação, como escutas telefônicas, fazendo papel de polícia judiciária, o que é proibido por lei.

As constantes intervenções do ministro Gilmar Mendes contra os abusos da Polícia Federal nas investigações e prisões levaram a que fosse acusado de estar protegendo o banqueiro Daniel Dantas, a quem concedeu dois habeas-corpus.

A última polêmica tem a ver com a interpretação de uma decisão do ministro Carlos Alberto Direito, que arquivou uma representação do PPS que alegava que são inconstitucionais os decretos 4.376/2002 e 6.540/2008, que autorizam a Abin a manter, em caráter permanente, representantes dos órgãos componentes do Sistema Brasileiro de Inteligência no Departamento de Integração do Sistema Brasileiro de Inteligência.

O arquivamento foi interpretado erroneamente como se o ministro Carlos Alberto Direito tivesse admitido que a atuação da Abin na Operação Satiagraha fora legal. O ministro me disse, no entanto, que decidiu apenas que a Ação Direta de Inconstitucionalidade não é o meio correto para questionar os decretos.

Outra decisão polêmica foi a súmula vinculante sobre o uso das algemas nas operações policiais, que devem ter caráter excepcional. Na verdade, o Supremo não pretendia editar uma súmula vinculante sobre o assunto, mas o fez depois que um delegado usou algemas desnecessariamente e, questionado sobre o pronunciamento do Supremo, disse que aquela decisão "não valia".

Joaquim Falcão, da Fundação Getúlio Vargas, do Rio, e membro do Conselho Nacional de Justiça, considera que a imagem do Poder Judiciário vem se afirmando diante da população. Com base em uma pesquisa nacional realizada pelo Ipespe, ele mostra que a Justiça do Trabalho e os juizados Especiais ou de Pequenas Causas são as instituições mais bem avaliadas pela população, o que demonstraria que a agilidade da Justiça, e sua atuação na base da sociedade, reforçam o seu papel institucional, legitimando um "ativismo" judicial.

O site Consultor Jurídico registrou recentemente que o advogado Saul Tourinho Leal, mestre em Direito Constitucional pelo Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), uma instituição de ensino cujo proprietário é o ministro Gilmar Mendes, fez uma tese de mestrado em que compara as decisões da Suprema Corte dos Estados Unidos em sua fase mais ativista, quando foi presidida pelo juiz Earl Warren, nas décadas de 1950 e 60, com precedentes adotados pelo Supremo no Brasil, garantindo direitos fundamentais aos indivíduos, em muitos casos contra a opinião majoritária da sociedade, como a progressão da pena para crimes hediondos ou o direito de um réu responder em liberdade, mesmo condenado, até que sejam esgotados os recursos legais.

Luiz Roberto Barroso, em estudo a ser publicado no mês que vem no volume 4 do livro Temas de Direito Constitucional, ressalta que quando Earl Warren deixou a presidência da Suprema Corte, em 1969, a segregação em escolas e demais ambientes públicos já não era mais permitida; o arbítrio policial contra pobres e negros estava minorado; acusados em processos criminais não podiam ser julgados sem advogado.

"Todas as profundas transformações foram efetivadas sem qualquer ato do Congresso ou decreto presidencial", realça. Barroso considera que esse "ativismo" do Supremo está acontecendo no Brasil por duas razões: primeiro, o Supremo mudou a composição.

Na sua análise, nos primeiros anos da Constituição de 1988, foi mantida a composição do Supremo que vinha do regime militar, que tinha um perfil muito comprometido com a velha ordem, fazia interpretações conservadoras, a jurisprudência ficava alinhada ao que sempre fora.

Nos últimos anos houve uma renovação do Supremo e, hoje, há mais ministros que têm um sentimento ligado ao novo regime, à Constituição de 1988, liberando forças represadas.

O outro motivo é que, para Barroso, o Poder Legislativo vive uma crise de funcionalidade que estimula também as medidas provisórias. A energia política que é necessária para aprovar qualquer coisa no Congresso é tão grande, para compor as maiorias, que é mais fácil atuar por medidas provisórias.

A recente decisão do presidente da Câmara, deputado Michel Temer, de encontrar um artifício legal para que as medidas provisórias não tranquem a pauta do Congresso, também é polêmica do ponto de vista jurídico e é outra forma de as interpretações jurídicas interferirem na política.

Barroso diz que ainda não se deteve a fundo na questão, mas considera que essa decisão frustra o sentido da lei, que é impedir que as medidas provisórias fiquem sem ser votadas. Mas admite que, ao mesmo tempo, o Poder Executivo ter o poder de paralisar a ação do Legislativo também fere a independência dos poderes. "O país precisa mesmo é de uma reforma política, e isso o Supremo não pode fazer."

De chips e outras bossas

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O Tribunal Superior Eleitoral concluiu um projeto de aperfeiçoamento do sistema de votação eletrônica que, segundo o presidente do TSE, ministro Ayres Britto, a partir de 2014 vai permitir ao brasileiro ir às urnas mesmo se estiver fora de seu domicílio eleitoral.

Hoje o eleitor é obrigado a justificar a ausência, mas não pode ter seu voto contabilizado.

"É espetacular. É uma revolução", comemorou o ministro Ayres Britto, entusiasmado com a nova sistemática de cartões eletrônicos com chips e outras bossas.

Todas novíssimas, à altura do avançado sistema de votação brasileiro, reconhecidamente um dos mais, se não o mais, modernos do mundo.

Em contrapartida, o Brasil é um dos poucos, entre as nações civilizadas, a sustentar a tradição do voto obrigatório. Isso desde 1932, há 77 anos, portanto.

Não obstante a longevidade do sistema, as mudanças ocorridas principalmente nos últimos anos e o consenso em torno da necessidade de uma reforma político-eleitoral, o voto facultativo é um tema interditado do debate.

Pouco se fala no assunto e, quando se levanta a hipótese de liberação do eleitor para decidir se quer ou não votar, o mundo desaba em argumentos segundo os quais o Brasil - e o brasileiro, portanto - ainda não está preparado para fazer a opção entre comparecer ou não comparecer às urnas.

O que é um direito na Europa, na América do Norte (à exceção do México), na maior parte da América Central, em 205 nações do planeta, no Brasil e em outros 23 países (a maioria da América do Sul) é uma obrigação, passível de penalidades. Insignificantes na forma, mas desconfortáveis no conteúdo, principalmente pelo caráter impositivo a um ato que resulta numa escolha.

Por conta de um acordo tácito firmado sabe-se lá onde ou quando, a tese é intocável. Foi rechaçada durante a Constituinte por parlamentares de todos os matizes ideológicos e não encontra porta-vozes dispostos a levantá-la, ainda que como hipótese de consulta popular para conferir se o eleitor está satisfeito com o sistema atual ou se gostaria de mudar.

Um dos poucos defensores de peso era justamente o ministro Ayres Britto, entusiasta da modernização do sistema de votação, que, no entanto, mudou de opinião depois das eleições municipais do ano passado.

Em outubro de 2008, o ministro entendia que brevemente o Brasil teria "um encontro marcado" com o voto facultativo.

"Entendo que a legislação consagrará, como em outros países, a voluntariedade do voto", que, argumentava ele, dá ao eleitor a possibilidade de se engajar no processo eleitoral "com mais conhecimento de causa e determinação".

Em janeiro de 2009, passou a defender o oposto. "A eleição é tanto mais participativa quanto obrigatório o voto. O voto facultativo significaria uma desmobilização física, provavelmente com maior repercussão nos setores economicamente mais necessitados e com menos educação formal." Os pobres, bem entendido.

A razão da mudança? A de sempre: o Brasil precisa de educação política e uma das formas mais eficientes de educar o povo é obrigá-lo a votar.

Com cartão eletrônico e chip para reconhecimento digital, mas no cabresto. De pai para filho desde 1932 e até quando a justiça divina decidir que o brasileiro sabe se comportar direitinho e não vai dar vexame na democracia.

À sorrelfa

Aos quase dois meses da mais recente crise, o Senado vai caminhado para debitar suas mazelas na conta dos funcionários. Desde a negociação da "trégua" entre PT e PMDB, a questão passou a ser tratada como se as irregularidades fossem meramente funcionais, quando a disfunção ali é atinente ao decoro parlamentar, ao desrespeito à Constituição, à cultura do privilégio.

"Precisamos enxugar essa máquina", alardeou o primeiro-secretário, Heráclito Fortes, que nos últimos dias assumiu o problema, permitindo ao presidente José Sarney um distanciamento estratégico do desgaste.

Fez um carnaval com a demissão de 50 diretores. Divulgou os nomes, ironizou a existência de diretorias bizarras, humilhou publicamente quem pediu para ficar, mandou recolher os carros oficiais aos costumes, falou como se o problema fosse da responsabilidade dos servidores e não primordialmente da alçada dos senadores.

Prometeu mais na semana que vem. Do mesmo, naturalmente.

O foco foi desviado para o lado administrativo. Assim, não se toca nos pecados dos parlamentares, não se responsabilizam aqueles que tomam as decisões e permitem que o Legislativo seja uma instituição onde o privilégio é a lei.

Há as diretorias absurdas, há os diretores sem compostura, há os passageiros de trens da alegria, há quem receba horas extras indevidas, há quem pinte e borde, mas nada - ou muito menos - disso haveria se suas excelências não autorizassem as práticas e não compartilhassem dos abusos.

A ira e o rei

Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO(PE)

Os EUA estão indignados, há muito tempo que o gigante não se agitava desta maneira. O caso Watergate, no início dos anos 70, mexeu com a sociedade, tocou a consciência pública. O caso dos bônus milionários oferecidos aos executivos das instituições financeiras falidas vai além dos brios cívicos, multiplica a indignação pessoal por milhões. A sociedade de massas, geralmente amorfa e ponderada, de repente individua-se. Através da ira.

O cidadão sente-se roubado. O contribuinte – desempregado ou não, quebrado ou não, mais ou menos informado – sabe que o tremendo abalo naquela estrutura que lhe oferecia tanta segurança e orgulho foi causado pela incompetência e ganância de altos funcionários de empresas salvas pelo Tesouro e, não obstante, agraciados com generosos prêmios em dinheiro. Os americanos ultrajados pelos abusos praticados no mercado financeiro não se tornaram esquerdistas, ao contrário, estão furiosos com estes traidores do capitalismo, duplamente fracassados como depositários da poupança e da confiança popular. Congressistas republicanos de direita chegaram a propor que os responsáveis pela quebradeira fossem obrigados a cometer haraquiri.

A legislação aprovada nessa quinta feira em Washington é extremamente rigorosa com aqueles que até recentemente simbolizavam a ousadia pessoal e o sucesso rápido. Inusitadamente casuista, sob medida, tudo nela tem endereço certo: taxa em 90% os ganhos com bônus em empresas que receberam mais de cinco milhões de dólares em ajuda e, além disso, é retroativa, inclui os ganhos de 2008 quando a crise escancarou-se.

Acostumado a engolir gigantescas mentiras, altas doses de cinismo e imensas bandalheiras semiabertas, o cidadão brasileiro começou o ano sem oferecer qualquer sinal de mudança. Nada indicava que a recondução de velhas raposas para presidir a Câmara e o Senado seria capaz de produzir algum tipo de comoção numa república dominada pela modorra estival e a inapetência para questões morais.

Um deputado-castelão, esquecido da sua função de corregedor, proclamou as virtudes da impunidade e o vício da amizade. A recondução de José Sarney à presidência da Câmara Alta atravessou as fronteiras e foi repudiada pela imprensa internacional. O ex-presidente Fernando Collor, desmoralizado pelas fraudes que praticou no passado, foi escolhido pelos pares para chefiar importante comissão parlamentar.

A sucessão de escândalos, principalmente no âmbito do Senado, somada à percepção de que a sociedade já não dispõe de uma agremiação política capaz de empunhar a bandeira da decência e da dignidade, acionaram iniciativas individuais desesperadas – quase suicidas, como a do senador Jarbas Vasconcelos – que, por milagre, produziram alguma ressonância.

Enquanto nos EUA a indignação alimenta-se nos milhões de dólares em prêmios indevidos, nossa numerologia é mais modesta e nem por isso menos absurda: para 81 parlamentares, o Senado dispunha de 181 diretorias administrativas e, mesmo que diante da grita tenham sido sumariamente cortados cinquenta marajás, cada senador continua com pouco menos de um diretor e meio (alguns com direito a carro oficial). Isto sem falar no séquito de assessores, aspones e no número assustador de senadores-suplentes, eleitos sem votos, por osmose.

Por força de sua biografia e dos atributos que faz questão de ostentar, o ex-presidente da República José Sarney tornou-se símbolo das pequenas, médias e grandes mazelas que deslustram nosso panteão político. Intoxicado pelas próprias façanhas tornou-se menos cuidadoso, não se importa em deixar as impressões digitais em episódios pouco edificantes.

Senhor absoluto do Maranhão foi visitar seu segundo feudo, o Amapá, que o escolheu como senador. Recebido no aeroporto como "nosso rei" aceitou o agrado sorridente, certo de que o merece.

Está evidente que nossa ira, ao contrário da americana, ainda é precária, difusa, insuficiente. A sociedade brasileira ainda não se sente violentada nem roubada como acontece agora com a história dos bônus nos EUA. A ignorância, a distância, os conchavos e cumplicidades impedem que a indignação chegue ao Amapá. Todos sabem que o rei Sarney está nu. Só falta mostrar.

» Alberto Dines é jornalista

As pegadinhas do governo

Suely Caldas
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O Brasil inteiro torce para superar esta crise, acabar o tormento e o País voltar a crescer. Ah, se dependesse de torcida... Mas, infelizmente, a realidade não tem ajudado os brasileiros torcedores. Desde outubro de 2008 os indicadores têm mais piorado do que melhorado, e a cada pesquisa divulgada, a decepção: foi pior do que o esperado. Com isso, as projeções (do governo e fora dele) para o crescimento econômico em 2009 caíram em cinco meses de 4,5% para 3%, 2%, 1,5% e hoje oscilam entre 2% e 1,5% negativo.

O presidente Lula se diz um contumaz otimista, o que é bom. Expressar otimismo em situações adversas faz todo o sentido, mas com cuidado e equilíbrio para não romper a barreira da sensatez, do senso de realidade. Foi desastroso seu desdém com a crise: a marolinha caiu no ridículo, virou piada. E certos ministros e auxiliares de Lula não aprenderam com a marolinha. Seja pela ansiedade de imitar e agradar ao chefe ou porque confundem desejo com realidade e menosprezam a inteligência alheia, insistem em levar para a população análises e projeções contraditórias e desacreditadas que, de tão desmentidas pelos fatos, já não são levadas em conta.

O risco de um gestor público que engendra e administra soluções para a crise é justamente cair no descrédito por mascarar, falsear a dimensão real do problema. E, se ele vende uma versão fantasiosa, de que o pior já passou e chegou o momento da virada, vai encontrar quem a compre dentro da máquina do governo: os que procuram motivos para relaxar os controles de gastos que uma crise exige. É o caso, por exemplo, do escandaloso pagamento de horas extras para os funcionários do Senado em pleno recesso parlamentar.

Ao anunciar mudanças na remuneração das cadernetas de poupança, na última terça-feira, o presidente Lula cometeu um desses erros que falseiam a realidade. O vício de sair bem na foto, seja a notícia boa ou ruim, levou Lula a justificar as mudanças com a absurda explicação de que "é necessário proteger o pequeno poupador, o grande que procure outra aplicação, não a caderneta". Ora, como o novo cálculo vai reduzir o rendimento da caderneta, obviamente o pequeno investidor terá é prejuízo. Isso é protegê-lo? Cadê a oposição?

Também o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, tem mostrado desapreço com a verdade em suas projeções sobre o desemprego nesse período de crise. Na quarta-feira ele divulgou a pesquisa de emprego de fevereiro, que resultou em saldo positivo de 9,2 mil vagas, o primeiro depois da perda de 797 mil empregos desde novembro, mas um tombo respeitável se comparado com as 204,9 mil vagas de fevereiro de 2008. E Lupi não perdeu a pose: "Março será o mês da virada. Acredito que podemos gerar mais de 100 mil empregos e 1,5 milhão em 2009", delirou. A compulsão de Lupi é tal que, na véspera, já com os números na mão, ele afirmava que o saldo de emprego em fevereiro teria sido de 20 mil. Não chegou nem à metade.

Outro que faz estimativas contraditórias, desencontradas é o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann. Esse caso é mais grave porque ele dirige o órgão responsável por pesquisas e análises que orientam ações e decisões do governo. Em vez de trabalhar para ajudar o governo a amenizar a crise com propostas realistas, o Ipea dá uma estranha coloração política aos seus estudos. Na véspera da reunião do Copom para decidir juros, o órgão divulgou estudo intitulado A gravidade da crise e a despesa de juro do governo, propondo uma redução drástica de mais de 5% na taxa Selic. São conhecidas as divergências do Ipea com o Banco Central, em matéria de reclamar de juros altos o órgão só perde para o vice-presidente José Alencar. Daí o interesse em divulgar tal estudo na véspera do Copom. Nele o autor escreve: "A crise que o governo brasileiro enfrenta é gravíssima (...) o crescimento econômico e o nível do emprego estão comprometidos de forma bastante negativa neste primeiro trimestre."

Pois bem. Uma semana depois o Ipea mudou radicalmente seu diagnóstico. Ao analisar os números da pesquisa de emprego do Ministério do Trabalho, citada acima, seu presidente, Marcio Pochmann, afirmou à Agência Estado que "a economia vai recuperar em março, o PIB vai se crescer na margem e não haverá recessão técnica". A recessão é dada como certa pela maioria dos economistas, inclusive o autor do estudo sobre juros do Ipea. Assim Pochmann contribui para abalar a imagem de qualidade de um órgão que sempre baseou suas análises em fundamentos técnicos da realidade.

*Suely Caldas, jornalista, é professora de Comunicação da PUC-Rio

Vida após a vida

Bemvindo Sequeira
ator e diretor de teatro e TV, autor e idoso.


Sempre pensei que ia morrer cedo. A luta armada, a clandestinidade na luta contra a ditadura, aventuras, promiscuidade, orgias, riscos...tudo me levava a crer que não chegaria aos trinta anos. Para quem tem vinte anos, quem tem trinta já é coroa. Tomei um susto quando vi-me vivo e saudável aos trinta. Aos quarenta percebi a possibilidade real da morte. No dia do meu aniversário quarentão, um jovem ator de 24 anos perguntou como eu me sentia: “Agora? de frente para a morte”. Para minha surpresa foi o jovem quem morreu logo depois.

Aos cinqüenta apaixonei-me pela letra de Aldir Blanc na voz de Paulinho da Viola: “...aos cinqüenta anos, insisto na juventude...”, isto enquanto percebia meu ângulo peniano caminhando para os 90º. Mas, antes dos sessenta a pílula azul alargou minhas possibilidades e possibilitou-me ver o sexo por ângulos mais estreitos.

Agora estou além dos sessenta. Aos quarenta rezava pela alma dos mortos amigos e parentes.

Nome por nome eu pedia ao Senhor. Hoje, são tantos os que caíram, que apenas peço “...pelos mortos em geral”. E mais uma vez espanto-me por estar ainda vivo, e consolo-me no Salmo 91.7 que diz: “...1.000 cairão ao teu lado e 10.000 à sua direita, mas você não será atingido”. Mesmo confiando na Palavra, ainda assim caminho embaixo de marquise pra São Pedro não me ver.

Ainda estou vivo, e pra quem pensou que morreria aos trinta descubro que existe vida após a vida. Mas o preço do viver é muito alto para o jovem de hoje: tem que comprar apartamento, arranjar um trampo, ganhar dinheiro, ficar famoso, comer todas, bombar no iutube, malhar, casar, ter filhos, comprar carro, estar bronzeado, conhecer tudo de web, e ainda ir ao show da Madonna, entre outras miudezas.

Após os sessenta você já está quite com tudo isto e pensa que vai viver em paz. Qual o quê: tem que tomar insulina, antidepressivos, rivotris, controlar a pressão, não comer açúcar, não comer sal, não fumar, não beber, se conseguir comer uma e outra já é uma vitória, tem que caminhar ao menos meia hora por dia mesmo sem querer, cuidar do joanete, dormir cedo, vender o apartamento, fugir da bolsa, não discutir no trânsito, não se alterar no caixa do supermercado, tolerar os filhos, agradar os netos, ficar calado diante da mediocridade, aceitar o salário de aposentado, ter o testamento em dia, e curtir todas as dores ósseas, nervosas e musculares porque se algum dia você acordar sem dor é porque está morto.

Claro que o idoso tem suas vantagens: uma delas é a transparência. Quanto mais velho mais transparente você se torna. Chega a ficar invisível: ninguém mais lhe percebe, mais um pouco e nem lhe enxergam. Mas, pode passar à frente dos jovens nas filas todas, com aquele ar de superior: “Você é jovem e sarado, mas eu tenho prioridade”. E ante qualquer aborrecimento ou dificuldade você ameaça enfartar ou ter um AVC. Funciona sempre, todos logo se tornam gentis e cordatos, e é garantia de muitas meias e lenços como presentes no Natal.

Lidando com a minha “terceira idade” ouço de meu psicanalista, o bom Luiz Alfredo : “Só há dois caminhos: envelhecer...ou o outro, muito pior”. Prefiro envelhecer, aceitando cada minúsculo “sim” que a vida me dá com uma grande alegria e uma grande vitória. Hoje quando encontro vaga num elevador do shopping, quando o banco está vazio, ou quando encontro promoção na farmácia, já considero uma bênção gigantesca e agradeço a Deus pela Graça Alcançada.

Após os sessenta, como no filme de Brad Pitt, regrido na existência, deixo Paulinho e a viola de lado e reencontro Lupiscinio “Esses moços, pobres moços...ah se soubessem o que eu sei...” . Mas se soubessem não ia adiantar nada: porque a sabedoria é filha do tempo.

Como diz o amigo Percinotto, também idoso: “o diabo é sábio porque é velho”.

Pelo andar da carruagem, percebo que já morri muitas vezes nesta vida, e que viverei até fartar-me.

Exportação de manufaturados desaba 34%

Paulo Justus e Márcia De Chiara
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A crise de crédito e de consumo derrubou as exportações dos manufaturados brasileiros. As vendas externas desses produtos encerraram o primeiro bimestre com a maior queda em 20 anos, aponta a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Em janeiro e fevereiro, a receita de exportação de manufaturados recuou 34% na comparação com o mesmo período de 2008. A última queda anual ocorreu em 1999 e foi de 7%.

Da perda de US$ 6,6 bilhões nas exportações no primeiro bimestre de 2009 na comparação anual, quase 70% provêm dos manufaturados. Já os produtos básicos tiveram retração de 9,7% no bimestre. "O quadro é preocupante", diz o vice-presidente da AEB, José Augusto de Castro. Ele destaca que os manufaturados têm forte efeito multiplicador no emprego e na renda. Até os anos 90, a cada US$ 1 bilhão de manufaturados exportados eram gerados 50 mil empregos. Nos básicos, esse número não passava de 20 mil.

No primeiro bimestre, os manufaturados que apresentaram maiores quedas de exportação foram automóveis, com US$ 345,6 milhões; máquinas (US$ 192 milhões); bombas e compressores (US$ 163,6 milhões); aviões (US$ 119,9 milhões) e celulares (U$ 105,6 milhões), mostra levantamento do economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), Fernando Ribeiro. Ele observa que, se fosse pelo câmbio que se desvalorizou 20,8% nos últimos seis meses, a exportação de manufaturados deveria subir: "O tipo de crise que estamos vivendo, baseada na falta de crédito, tende a afetar investimentos e bens de consumo".

A Mabe, fabricante de eletrodomésticos com as marcas GE e Dako, por exemplo, teve queda de 15% nas exportações em fevereiro ante o mesmo mês de 2008. "Os números de fevereiro indicam que a crise atingiu os países emergentes", diz o presidente da companhia para o Mercosul, Patricio Mendizábal. No Brasil, a filial da empresa mexicana vende fogões para a América Latina e África.

Pesquisa da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) indica que a receita de exportação de eletrodomésticos caiu 31,6% no primeiro bimestre de 2009 na comparação anual. Os celulares sofreram tombo maior, de 44%; nos eletrônicos houve retração de 32,2%. De acordo com a sondagem, 68% das empresas consultadas viram a exportação recuar no período.

A redução na demanda externa provocou forte ajuste na produção das exportadoras. Em fevereiro, a Embraer demitiu 4,2 mil funcionários por causa da redução nas expectativas de vendas. Em novembro, planejava produzir 270 aviões este ano; agora prevê 242 entregas. Também a Embraco, que produz compressores e tem 70% do faturamento baseado nas exportações, reduziu em 5,7% o salário de 4,6 mil funcionários neste mês.

A proteção social de Lula e a crise

Vinicius Torres Freire
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Pibinho arranha presidente, mas rede luliana de benefícios sociais e salariais ficou ainda mais ampla e alterou a política

O PRESTÍGIO de Lula caiu. Seriam os primeiros reflexos do baile da crise, parece. Mas a reação política a períodos de dureza econômica não é previsível como a de um cão de Pavlov. De resto, quem pretenda estimar os efeitos do PIBinho na avaliação do presidente e, mais temerário, na eleição de 2010 terá de prestar ainda mais atenção à "rede de proteção social" de Lula. A ambiguidade é proposital: é proteção de Lula e dos desvalidos.

Mesmo em termos apenas quantitativos, os benefícios sociais vão muito além do clichê do Bolsa Família e não afetam apenas recipientes diretos de assistência. Em termos políticos, a rede social luliana parece ter redefinido o contrato entre pobres e governante; alterou a qualidade e a quantidade dos "mínimos sociais" que devem constar dos compromissos dos futuros candidatos.

A quantidade de pessoas colhida diretamente pela rede social luliana é imensa. São os 11 milhões de famílias do Bolsa Família (cerca de 40 milhões de pessoas). São os 17,8 milhões que recebem benefícios previdenciários e assistenciais de até um salário mínimo, que teve reajuste real de 45,5% no governo Lula.

Mesmo que não alterem a qualidade da economia de pequenas cidades, os benefícios previdenciários e de assistência social alimentam o pequeno comércio, os negócios caseiros e dão vazão a pequenas sobras da agricultura de subsistência. O "Bolsa Avós", a Previdência "rural", auxilia parentes e agregados. Entre Previdência e assistência, contados só programas de renda, são 37 milhões de beneficiados diretos.

O menos conhecido Pronaf concede, por ano, 1,5 milhão de financiamentos para agricultores familiares (média de R$ 5.000 para cada um). Há outros tantos no Proger, que auxilia micronegócios, mas que foi em parte desvirtuado e ajuda negócios maiores, o que dificulta o cálculo de beneficiados pobres (no total, são 2 milhões de operações por ano). O ProUni banca o ensino superior de 310 mil garotos. Há os assentados da reforma agrária, os quilombolas, os resgatados do trabalho infantil etc.

Uns 7% da população ocupada, 6,2 milhões, são funcionários públicos. Muitos servidores federais receberam aumentos sob Lula. Servidores estaduais e municipais tiveram os reajustes do mínimo, que também elevou o salário dos mais pobres.

Há mais empregos formais. O país não crescia tanto como no último quinquênio desde os cinco anos encerrados em 1981 ou em 1988 (este não conta muito, dados a hiperinflação, a base baixa de comparação e o estelionato do Cruzado). O nível de pobreza é o menor desde que se tem registro (isto é, em 32 anos).

Mesmo que não piore no resto do mundo, a crise ainda vai produzir coisas feias no Brasil. Até 2010. Mas a maioria vai absolver Lula, por considerar que ele cumpriu o "contrato" de aliviar a pobreza (tanto faz se mal ou bem, esse é um debate teórico, restrito a poucos)? Verá em Dilma Rousseff a herdeira dessa credibilidade política (caso a herança não se desfaça)? A memória dos "direitos adquiridos" vai fazer com que o eleitor queira mais, a ponto de arriscar o novo? Ou vai torná-lo conservador? Com qual programa a oposição convencerá a maioria pobre de que vai respeitar esse "novo contrato social" e ainda oferecer algo mais?

Marolinha que virou tsunami

Yoshiaki Nakano
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Os que perderam o emprego reduzirão a demanda, o que levará à queda na produção e gerará novas demissões

TINHA RAZÃO nosso presidente quando disse que a crise financeira mundial chegaria ao Brasil suavemente e seria transitória. Estávamos construindo um círculo virtuoso de crescimento baseado no aumento de emprego e de salários, acompanhado de elevação na produtividade, desenvolvendo um dinamismo baseado na expansão do mercado interno. Mas a incapacidade de diagnosticar e a excessiva cautela das autoridades monetárias fizeram a marolinha virar tsunami. O FMI estimou a queda do PIB global no quarto trimestre de 2008 em 5% (taxa anualizada), 6% nos EUA e na zona do euro e 13% no Japão. Pelo mesmo critério, a queda do PIB no Brasil, no mesmo período, foi de 15,2% -o país foi um dos que sofreram maior redução na produção e no emprego, e queda de 45,3% nos investimentos! Dada essa queda, vamos amargar recessão neste ano, e, se as respostas na área monetária e creditícia continuarem tímidas como a última decisão do Copom, não demoramos a concluir que o PIB poderá ter contração, que poderá superar quatro pontos percentuais.

No agregado, pelo canal do comércio, a crise chegou ao Brasil como uma marolinha. Numa economia fechada como a nossa, a queda nas exportações e nos preços das commodities teve impacto mínimo na contração da demanda agregada porque as importações sofreram forte desaceleração. Pelo canal da destruição de riqueza, com queda nas Bolsas, prejuízos nos fundos de investimento e aplicações em derivativos tóxicos, o impacto também não foi grande. O canal da desalavancagem ficou circunscrito a poucas empresas -as que apostaram em derivativos exóticos- e a pequenos bancos.

Foi pelo canal do crédito e da incerteza que a crise chegou ao Brasil. Enquanto todos os demais BCs reagiam prontamente, expandindo fortemente o crédito doméstico e reduzindo os juros para contrabalançar a restrição no crédito externo, o nosso reagiu timidamente. Argumentou-se que o crédito externo representava pequena parcela do crédito bancário total e que o problema de liquidez estava restrito a pequenos bancos. Esqueceram do efeito multiplicador de crédito e que houve parada total no fluxo de recursos que vinha pelo mercado de capitais. As reduções no depósito compulsório tiveram pouco impacto num ambiente de incerteza aguda em que o próprio BC, pagando 13,75% ao ano para aplicações no over, criava alternativa óbvia de aplicação. E, como previsto, as medidas não conseguiram compensar o crédito externo. Assim, a contração brusca de crédito para as empresas foi brutal, gerando um quase pânico, levando-os a paralisar os investimentos, a cancelar os pedidos e a frear a produção preventivamente, já que a demanda não havia caído, como as vendas do comércio comprovam, a não ser naqueles setores diretamente afetados pelo crédito, como o automobilístico.

O erro grosseiro do BC já custou 800 mil postos de trabalho. Em mais dois ou três meses, aqueles que perderam o emprego vão reduzir a demanda, provocando queda na produção e gerando novas demissões. Infelizmente, o erro de política monetária obrigará o governo a acionar mais ativamente a política fiscal, que, aliás, não tem muito espaço.

Yoshiaki Nakano, 64, diretor da Escola de Economia de São Paulo, da FGV, foi secretário da Fazenda do Estado de São Paulo no governo Mario Covas (1995-2001).