segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Opinião do dia – Richarlison*


“Ultimamente, em toda entrevista que eu dou, uma pergunta é certa: ‘Por que você se posiciona?’ Mas talvez o melhor fosse ‘Por quem você se posiciona?’ É muito importante que isso fique claro."

"As pessoas de onde eu venho não têm voz e nem vez. Poucos, até hoje, procuraram saber o que é importante ou o que falta para que elas vivam melhor. No Brasil é assim, muitos só recebem atenção em época de eleição."

"Falando nisso, vocês sabem, eu nunca tive um partido político. Para ser sincero, nem me interesso, porque não preciso de um para saber que é errado faltar energia elétrica por 22 dias em um estado inteiro. Ou ainda que é um direito básico ter comida na mesa, saúde, educação e moradia."

"Também nunca entrei num laboratório. Ainda assim, eu posso dizer a todos que a ciência é a nossa única saída em todos os momentos. Eu vejo isso no meu dia a dia como jogador. Meu corpo precisa da ciência e da medicina para que eu possa fazer o que mais amo."

"Bom, eu sequer terminei meus estudos. Mas não é necessário um diploma para enxergar que muita gente é intimidada, encurralada e morta pelo racismo todos os dias no Brasil. Li numa matéria que 75% da população pobre é preta, e que 76% das pessoas mortas todos os anos também são pretas. Coincidência? Não precisa ser o rei da matemática para concluir o óbvio."

"É por isso que todos os dias agradeço a Deus pela oportunidade e por não ter virado estatística. O futebol me salvou! É por isso que eu falo, me posiciono e mostro a minha indignação: pelo mínimo de dignidade e igualdade para todos os brasileiros que não tiveram a mesma sorte que eu."

*Richarlison, jogador do time inglês Everton e da seleção brasileira. Na coluna do Ancelmo Gois | O Globo, 7/12/2020.

Ricardo Noblat - O Supremo Tribunal salva-se do vexame de rasgar a Constituição

- Blog do Noblat | Veja

Menos mal, mas nada a celebrar

Nada a comemorar quando o Supremo Tribunal Federal decide que os atuais presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado não poderão ser reeleitos. Por maioria de votos, os ministros do Supremo limitaram-se apenas a respeitar o que está escrito no parágrafo 4 do artigo 57 da Constituição que diz:

“Cada uma das Casas reunir-se-á em sessões preparatórias, a partir de 1º de fevereiro, no primeiro ano da legislatura, para a posse de seus membros e eleição das respectivas Mesas, para mandato de 2 (dois) anos, vedada a recondução para o mesmo cargo na eleição imediatamente subsequente”.

A atual legislatura começou em fevereiro de 2019 com a eleição de David Alcolumbre (DEM-AP) para presidente do Senado, e a reeleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ) para presidente da Câmara. E se estenderá até fevereiro de 2023. Logo, eles não poderiam permanecer onde estão a partir de fevereiro próximo.

O que espanta é que até a semana passada houvesse no Supremo uma maioria de votos para favorecer os dois e, na prática, rasgar a Constituição. Ministros que acabaram votando contra, como Luiz Fux, por exemplo, presidente do tribunal, admitiam votar a favor com a intenção de barrar o avanço de Bolsonaro no Congresso.

O presidente da República queria a recondução de Alcolumbre, seu aliado, mas não a de Maia a quem considera um desafeto e aliado do governador João Doria (PSDB-SP) que deseja concorrer com ele na eleição de 2022. Agora, para que Bolsonaro consiga o que quer, precisaria aprovar uma emenda à Constituição. Mas como?

Emendar a Constituição requer dois terços dos 513 votos possíveis na Câmara e dos 81 no Senado. Bolsonaro não conta com mais do que 200 na Câmara, e menos da metade necessária no Senado. Resta-lhe trabalhar para que os sucessores de Alcolumbre e Maia sejam nomes pelo menos simpáticos ao seu governo.

Na Câmara, esse nome seria o do deputado Arthur Lira (PP-AL). Acontece que Lira é alvo de denúncias de corrupção e Maia se opõe à sua escolha. A parada para Bolsonaro poderá ser menos difícil no Senado onde são muitos os que desejam seu aval para se eleger. Muita água ainda rolará por debaixo da ponte até lá.

O Supremo salvou-se da vergonha de se meter onde não deveria e fechar os olhos ao que manda a Constituição – menos mal. Mas só o fez, é bom reconhecer, porque foi grande e unânime a reação da opinião pública. Pena que tenha sido acima de tudo por isso. O episódio não engrandeceu a toga.

Fernando Gabeira - Mensagem na garrafa

- O Globo

Quais as fontes de Bolsonaro para dizer que houve fraude na eleição nos EUA? A Abin descobriu fatos que escaparam ao FBI e à CIA?

 ‘Minha vida é uma desgraça. É problema o tempo todo, não tenho paz para absolutamente nada. Não posso mais tomar um caldo de cana na rua, comer um pastel.’

Quando Bolsonaro fez esse discurso, os acólitos aplaudiram. Entendi, no entanto, que estava pedindo socorro, de alguma maneira.

No mesmo discurso, disse que não podia tomar um guaraná, pois era assediado pelos urubus da imprensa. Era uma referência ao guaraná Jesus, que descreveu com uma piada machista ao tomá-lo no Maranhão.

Os sensíveis olhos e lentes da imprensa contam uma história cotidiana de Bolsonaro. E as fotos e relatos que saem de Brasília indicam que Bolsonaro está, no mínimo, descompensado.

Ultimamente, sai das solenidades correndo e olhando para o relógio. Às vezes, para para olhar o céu, cercado de segurança; outras, acena para o vazio da Esplanada. Foi visto falando no ouvido de um dragão da Independência e, quando há mulheres bonitas em solenidade, lança olhares sedutores.

Quando veio ao Rio, fez uma declaração importante: houve fraude nas eleições dos EUA, e ele sabia por fontes próprias.

Ninguém se incomodou com isso. A imprensa considerou apenas mais uma frase de Bolsonaro, o Congresso silenciou, os próprios americanos ignoraram.

Quais foram as fontes de Bolsonaro? A Abin do general Heleno descobriu fatos que escaparam ao FBI e à CIA? Ou as fontes seriam agentes do esquema pessoal de Bolsonaro: um sargento na Filadélfia, um delegado em Las Vegas?

Marcus André Melo* - Bolsonaro e seu futuro

- Folha d S. Paulo

O que é bom para a sobrevivência política, é ruim para a reeleição

Um dos fatores decisivos para o futuro de Bolsonaro é sua relação com o sistema partidário. Diria que há dois Bolsonaros: o candidato e o institucional. O primeiro governou até abril, embora desponte em arroubos ocasionais. É uma persona que mobiliza emoções; ele é reativo à velha, política, anti-institucional.

O segundo Bolsonaro é a liderança de um campo partidário que venceu as últimas eleições. Ocorre que a conversão do primeiro no segundo tem custos. Esta mutação não ocorreu com nenhuma das lideranças populistas com que Bolsonaro é comparado: Trump, Orbán, Kackynski.

Bolsonaro ascendeu ao poder sem o apoio de um partido, e se mostrou incapaz de criar um. Trump, por sua vez, conquistou a candidatura através de disputa interna em um partido centenário. E 94% dos eleitores que se declararam apoiadores do partido votaram nele em novembro. O apoio que desfruta mesmo após sua derrota decorre do fato de que Trump gerou ganhos partidários: alavancou o comparecimento às urnas e reverteu perdas junto ao eleitorado latino e negro.

Celso Rocha de Barros* - Centro seguirá governando por Jair?

- Folha de S. Paulo

Um clima de conflito generalizado pode favorecer o projeto autoritário do presidente

Desde janeiro de 2019, estabeleceu-se uma divisão do trabalho entre o governo Bolsonaro e a maioria de centro-direita no Congresso.

Do seu lado, o Congresso governa por Bolsonaro: faz reforma da Previdência, marco do saneamento, auxílio emergencial (com ajuda da esquerda). Do outro lado, Bolsonaro tenta fechar o Congresso.

Veja bem, eu não disse que era um relacionamento saudável.

Esse arranjo deve entrar em crise agora que as eleições de 2020 deram esperança de vitória presidencial para a centro-direita. Em todos os casos anteriores, Bolsonaro colheu os frutos de popularidade e/ou apoio das elites gerados pelo trabalho do Congresso.

Se a centro-direita tiver seu próprio candidato em 2022, não é provável que continue governando por Bolsonaro.

Mas abandonar Bolsonaro à maldição bíblica de ter que ganhar o pão com o suor do próprio rosto também pode ter custos. Ano que vem a crise vai ser feia. Isso pode mudar o humor do eleitorado, no momento favorável a candidatos moderados.

Em janeiro o auxílio emergencial acaba. Daí em diante, as projeções são muito ruins.

Ruy Castro - O poder gera folgados

- Folha de S. Paulo

Donald Trump, depois de presidente, nunca mais abriu uma porta; Bolsonaro, a Constituição

Num dos melhores episódios da última temporada de “The Crown”, série da Netflix, há uma reveladora sequência envolvendo a personagem de Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido, interpretada por Gillian Anderson. Ela é mostrada em casa, ao fogão, de panela na mão e avental, aviando o jantar, enquanto seus nervosos ministros, também na cozinha, tentam convencê-la a aprovar uma sanção à África do Sul, exigida pelos membros da Commonwealth. É uma decisão de que depende a unidade do Império Britânico. Mas Thatcher nem cogita interromper o preparo de sua omelete ou fritada para discutir o assunto. Eles saem de mãos abanando.

Margaret Thatcher foi uma das mulheres mais poderosas do século 20. Tomou amargas medidas econômicas, peitou a monarquia, declarou guerra à Argentina e ganhou todas. Era a Dama de Ferro. Se quisesse, teria oito chefs à sua disposição para cozinhar, mas preferia ela própria pilotar suas trempes. Em diversas ocasiões, a série a mostra como uma governante modesta, atenta a custos. Numa produção de luxo quase indescritível, seu guarda-roupa pouco varia, como se ela só tivesse mesmo dois ou três tailleurs.

Rosiska Darcy de Oliveira - Presente de Ano Novo

- O Globo

Lembrem os amigos que reuniões de mais de dez pessoas são de alto risco

Foi-se Crivella! Aleluia! Um novo capítulo na história do Rio. Boa sorte, Eduardo.

O legado da pior prefeitura que jamais tivemos é o desânimo que se mistura ao medo da pandemia. Apesar do risco, a população foi às urnas dizer chega. O mantra de que o Rio está acabado, que corria de boca em boca, lembra o conto de García Márquez “Alguma coisa muito grave vai acontecer nesta aldeia”.

Uma velhinha anuncia que algo muito grave vai acontecer naquele dia. O boato corre, sobe a temperatura do medo, atinge o pânico, os aldeãos então põem fogo em suas casas e fogem abandonando a aldeia. A velhinha comenta: “Eu não disse que uma coisa muito grave ia acontecer hoje?”.

A maldição derrotista de um Rio sem solução foi exorcizada pelo voto. O prefeito eleito detém hoje um capital de esperança. A pandemia está devastando a cidade, levando os hospitais ao colapso, como adverte a nota técnica da Fiocruz. É preciso que ele comece a “governar” já. Se o Rio for dizimado antes da chegada da vacina pelo aumento das contaminações em trens, praias, bares, festas natalinas, como se a pandemia não existisse, seu governo terá acabado antes de começar. Paes não pode temer pedir à população o que acha que ela não vai fazer, e sim convencê-la, com sua autoridade, do que o Comitê Científico diz que é preciso ser feito.

Cacá Diegues - Um prefeito

- O Globo

Zé Pelintra se impôs ao ódio ao carnaval

Temos finalmente um prefeito, coisa que nos faltava há quatro anos. O deputado Pedro Paulo já nos deu más notícias de como vai encontrar as contas da cidade. Mas pelo menos não somos mais obrigados a ver na televisão a cara do bispo tentando iludir não sei quem, com aquela voz e trejeitos de falsa realidade virtual. Seu coração não se partirá mais, o Zé Pelintra se impôs a seu ódio ao carnaval. Agora vamos trabalhar para recuperar a cidade de tanta crueldade com ela e seus (bons) costumes.

As mortes de João Alberto, assassinado num supermercado em Porto Alegre, e de Carlos Eduardo, vítima da tuberculose no chão de uma padaria em Ipanema, bem ilustram a violência brasileira. Não se trata apenas da morte de dois negros. Mas da morte de dois negros pobres que certamente não seriam assassinados, nem deixados sob um plástico às costas de insensíveis, se tivessem algum dinheiro para se virar. Não se trata apenas de racismo, mas de discriminação social agravada pelo racismo. A desigualdade, segundo o Índice Brasileiro de Privação (IBP), um IDH nacional criado pela Fiocruz, responde hoje por 30% da mortalidade de crianças de até 5 anos.

Denis Lerrer Rosenfield* - A esquerda perdeu!

- O Estado de S. Paulo

E fragorosamente. Isso não significa que a extrema direita tenha vencido

O alarido das eleições, antes e depois dos resultados, terminou por produzir um barulho inusitado, o de que as esquerdas estariam avançando, recuperando antigas posições. Se antes as evidências já indicavam o contrário, apesar do esforço de institutos de pesquisas de apresentar “retratos” distantes da realidade, depois ficou ainda mais difícil, dada a sua perda de posições, com o PT desaparecendo das capitais do País. A esquerda perdeu. E fragorosamente.

Isso não significa que a extrema direita tenha ganho. O segundo turno apenas confirmou o que o primeiro já havia sinalizado. Candidatos bolsonaristas, como Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro, e Capitão Wagner, em Fortaleza, não tiveram sucesso. O primeiro perdeu por 30 pontos porcentuais, não deixando nenhuma margem a dúvidas; o segundo, embora tenha sido mais competitivo, perdeu para o candidato da família Gomes. A estrondosa vitória de 2018 minguou em pouco tempo, deixando um acre sabor de insucesso.

Insucesso revelador da incapacidade de governar, de oferecer soluções para os urgentes problemas nacionais, para além da grave crise da pandemia, em que o único espetáculo apresentado é uma pantomima sem fim. Chegamos às raias do absurdo. O presidente e o ministro da Saúde advogam tratamentos preventivos, que inexistem para a comunidade científica do Brasil e de todo o planeta. Procuram somente mascarar decisões equivocadas, como a de dar vazão à distribuição de hidroxicloroquina indevidamente financiada e produzida. Discute-se também a obrigatoriedade ou não da vacina, quando não há vacina a ser distribuída. Discute-se sobre o modo de aplicação de algo no momento inexistente. É surreal!

Bruno Carazza* - São muitos os Brasis

- Valor Econômico

Entender resultado das urnas exige mergulho nos dados

Nas últimas semanas vocês foram inundados com números sobre as eleições municipais. Fechadas as urnas, no calor da apuração, produzimos uma profusão de análises apontando vencedores e derrotados. A partir do sobe-e-desce das prefeituras obtidas por cada partido, generalizamos os resultados e projetamos seus impactos para a eleição presidencial de 2022. E em geral a história termina aí.

Mas o Brasil é muito grande e diverso. Entender o que houve em 2020 e tentar extrair lições para o futuro exige um mergulho nos dados que a maioria de nós não faz - e mesmo os que desejam fazê-lo, esbarram na baixa qualidade dos dados.

O TSE até merece elogios por divulgar os dados das votações na unidade mais desagregada possível (a seção eleitoral). O problema é que as planilhas são extremamente pesadas e de difícil manuseio, além de os dados do perfil dos eleitores não serem atualizados periodicamente - o que os torna inúteis com o passar do tempo, pois as pessoas envelhecem, mudam de cidade, continuam estudando e até escolhem trocar de gênero.

Alex Ribeiro - BC entre a pressão do mercado e do FMI

- Valor Econômico

É improvável que, pelo menos no curto prazo, a autoridade monetária caminhe para um lado ou para outro

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central abre amanhã sua reunião de dezembro sofrendo pressão dos dois lados. O corpo técnico do Fundo Monetário Internacional (FMI) fez os seus cálculos e concluiu que seria necessário levar a taxa de juros para perto de zero. Já no mercado crescem as apostas de que, em 2021, o BC será levado a começar a normalizar os juros.

É improvável que, pelo menos no curto prazo, o Banco Central vá caminhar para um lado ou para o outro. Provavelmente vai colher mais informações no primeiro trimestre sobre decisões de política fiscal e a evolução da atividade econômica. Apesar de todo o barulho sobre a alta da inflação no curto prazo, não será isso que deverá mover a autoridade monetária, salvo uma piora significativa.

No seu relatório de avaliação da economia brasileira, o FMI faz umas continhas simples com a regra de Taylor, que é um roteiro de reação a desvios da inflação e do nível de atividade. Por elas, seria possível cortar os juros abaixo dos atuais 2% ao ano, desde que não haja uma deterioração adicional nas expectativas de inflação.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

A pressão no Supremo para obrigar o governo Bolsonaro a trabalhar – Opinião | O Globo

É insólito que entidades clamem ao Judiciário para forçar o Executivo a cumprir seu dever, mas é o que ocorre

Partidos e organizações não governamentais têm recorrido ao Supremo Tribunal Federal (STF) com um pedido inusitado: que o Judiciário obrigue o governo Jair Bolsonaro a trabalhar, na forma prevista pela Constituição e pela lei ambiental. É insólito que entidades representativas da sociedade clamem por intervenção judicial para forçar o Executivo a cumprir seu dever, mas é precisamente isso que ocorre diante da inércia deliberada dos organismos federais na proteção do meio ambiente.

A inação não é casual e, por isso mesmo, passível de enquadramento no rol de delitos de responsabilidade administrativa. Delineia-se na Amazônia uma política cuja essência é incompatível com o espírito das leis vigentes. A opção política pelo “liberou geral” favorece o desmatamento, o avanço da grilagem de áreas públicas e a invasão de terras indígenas por madeireiros, garimpeiros e agricultores. A impassibilidade do ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e das chefias do Ibama e da Funai, demonstra um nível inédito de incompetência na gestão.

Desde julho, o Supremo exercita paciência, à espera de que o governo Bolsonaro cumpra a ordem judicial para apresentar um plano de proteção a 505 mil indígenas contra a Covid-19. Eles se distribuem por 188 tribos e 38 diferentes famílias linguísticas — sem contar os isolados.

O STF já rejeitou duas versões da proposta governamental, algo também incomum. Sempre pelo mesmo motivo, como certificou nos autos o ministro Luís Roberto Barroso: o plano oficial não era plano, mas mera pilha de frases sem lógica, metas, cronograma de ações e previsão de resultados auditáveis. Na sentença, o Supremo deu-se ao trabalho de descrever, didaticamente, ponto a ponto, como o governo deve elaborar um projeto para a emergência nas tribos indígenas. Aguarda a terceira versão do plano para esta semana.

Música | Coral Edgard Moraes e Nena Queiroga - Recife manhã de sol (Live dia do Frevo de Bloco)

 

Poesia | Fernando Pessoa - Enfia a agulha

Enfia a agulha,
E ergue do colo
A costura enrugada.
Escuta : (volto a folha
Com desconsolo).
Não ouviste nada.

Os meus poemas, este 
E os outros que tenho _
São só a brincar.
Tu nunca os leste,
E nem mesmo estranho
Que ouças sem pensar.

Mas dá-me um certo agrado
Sentir que tos leio 
E que ouves sem saber.
Faz um certo quadro.
Dá-me um certo enleio...
E ler é esquecer.

domingo, 6 de dezembro de 2020

Fernando Henrique Cardoso* - Agonia e esperanças


-  O Estado de S. Paulo | O Globo

Por uma fatalidade os dias vindouros serão de máximo perigo. Confiemos, agindo

Quase ao chegar ao fim do ano em curso, as agonias aumentaram. Na economia o País se arrasta numa recessão há já algum tempo, que foi agravada pela pandemia causada pelo novo coronavírus. Tudo, naturalmente, aumentado pela desconfiança no governo federal: faltam a ele as qualidades necessárias não só para agir com rapidez, mas mesmo para agir. Não vou relembrar, por ocioso, mas a “gripezinha” virou morte para milhares de pessoas. O descaso chegou a tanto que na área da Saúde os ministros se sucedem e os erros não cessam: falta muita coisa, mas chama a atenção a imprevisibilidade, o desconhecimento é substituído por palpites em grande quantidade.

No auge da pandemia, quando liderança, informação verídica e respeito à ciência salvam vidas, o governo federal persiste no negacionismo, na politização e no desprezo ao conhecimento. Isso, que já seria grave em tempos normais, chega às raias do absurdo diante da ameaça que pesa sobre o nosso país.

Agora mesmo, como se não houvesse urgência, há gente na sociedade pondo em dúvida a eficácia das vacinas em geral. Isso num país como o nosso, de amplíssima tradição na matéria. Os dias tristes das revoltas “contra as vacinas”, no caso a da varíola e a da febre amarela, que marcaram um tento de Oswaldo Cruz, podem até virar o feitiço contra o feiticeiro. A revolta agora é contra a demora das vacinas, quando, na verdade, nunca se viu esforço tão rápido para encontrar alguma que contenha a ação negativa do referido vírus.

Mas existe também a descrença nelas. É certo que, por enquanto, da parte de um grupo que se deixa levar pelo que deduz serem as promessas de vacinas com falta de cautela das autoridades.

Merval Pereira - Saúde à frente

- O Globo

Uma nova geração de economistas, por iniciativa de Fabio Giambiagi, um dos maiores especialistas em Previdência e em finanças do país, está reunida no livro “O Futuro do Brasil” (editora Grupo GEN), uma coletânea de textos com reflexões sobre a situação atual do Brasil, seus graves problemas, e, principalmente, propostas para a retomada do crescimento, além do curto prazo. Com prefácio de Samuel Pessoa e orelha de Paulo Hartung, o volume traz textos assinados por 32 autores, que fomentam o debate acerca de questões verdadeiramente estruturais para o crescimento econômico no período 2021-2030.

Com o olhar voltado para inserir o Brasil efetivamente no século XXI, os autores definem metas e meios para promover mudanças mirando previsibilidade, estabilidade e rigidez fiscal e crescimento econômico. Mas uma questão central permeia o debate dos especialistas: a modernização do setor público brasileiro como condição necessária para o país crescer de forma sustentável. Uma agenda que permita conjugar o atendimento das demandas dos agentes econômicos com um conjunto de tópicos voltados para os interesses da população —segurança pública, saneamento, agenda social e, sobretudo, educação e saúde.

Míriam Leitão - Este governo é um risco de vida

- O Globo

Existem governos bons, existem governos ruins e existe o governo Bolsonaro. Ele é um risco de vida. A declaração do ministro Eduardo Pazuello de que as aglomerações da campanha eleitoral não causaram aumento da pandemia no Brasil é um atentado à saúde dos brasileiros. Mostra que o general da ativa nada entendeu dos assustadores números que estão diante de nós. Os casos aumentaram muito, os hospitais estão chegando ao limite, os médicos e enfermeiros estão esgotados e tendo que buscar forças para a nova e perigosa batalha pela vida humana.

O governo Bolsonaro atravessou todas as fronteiras do que pode ser considerado um mau governo. Ele é pior. Está além dessa classificação. O ministro da Saúde nos mandou morrer, pelo visto. Olha a frase: “Se esse vírus se propaga por aglomeração, por contato pessoal, por aerossóis, e tivemos a maior campanha que podia ter nesse país, que é a municipal, nos últimos dois meses, se isso não trouxe nenhum tipo de incremento ou aumento da contaminação, não podemos falar mais em lockdown nem nada”.

O que é essa declaração? O ministro da Saúde de um país que já perdeu mais de 175 mil pessoas para o coronavírus continua não entendendo a sua responsabilidade? Nessa frase ele ignora que essa foi uma campanha muito mais contida. Quem promoveu aglomerações foi principalmente o presidente. Os candidatos usaram muito mais os meios digitais e os encontros com proteção. Mas o mais importante que Pazuello demonstra desconhecer nessa declaração no Congresso é que os números de contaminação, mortes, ocupação de leitos de UTI têm aumentado muito. E isso em função de um relaxamento dos cuidados e do distanciamento.

Vera Magalhães - O velho casuísmo

-  O Estado de S. Paulo

STF, ‘guardião’ da Carta, estende tapetão para Maia e Alcolumbre

O Brasil precisa de Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia no comando do Legislativo? Ambos e alguns ministros do Supremo Tribunal Federal parecem crer que sim. Ou pior: parecem querer convencer o Brasil de que sim, mesmo sabendo que se trata apenas e tão somente de uma briga pela manutenção de um importante naco de poder, num momento especialmente delicado da vida nacional. 

O fato é que não, o Brasil não precisa dos dois mais dois anos à frente do Senado e da Câmara, mas sim, caso eles permaneçam lá (com a ajuda suprema), as decisões que eles tomarem terão amplo impacto na vida do Brasil, e não apenas interna corporis das Casas que comandam. O que torna o casuísmo supremo ainda mais deletério para o nosso sempre adiado amadurecimento institucional. 

Gilmar Mendes fez um voto tão longo quanto confuso para tentar convencer o País e seus pares de que Rodrigo Maia poderia tentar não o quarto, mas o segundo mandato como presidente da Câmara. E que Alcolumbre pode, sim, se candidatar a mais um biênio na cadeira azul do Senado quando outras raposas que o antecederam bem que gostariam de fazê-lo, se a regra fosse mesmo essa.

Luiz Carlos Azedo - Como perder a guerra

- Correio Braziliense /| Estado de Minas

Bolsonaro cria mais obstáculos para o desenvolvimento do país do que se imagina, pois aprofunda nosso atraso econômico e tecnológico e retarda a recuperação da economia

Quando invadiu a antiga União Soviética, Adolf Hitler já havia conquistado boa parte da Europa: além da Áustria, Tchecoslováquia e Polônia — o que deflagrou a Segunda Guerra Mundial —, a Noruega, a Dinamarca, a Bélgica, a Holanda, a França, a antiga Iugoslávia e a Grécia, além de ex-colônias europeias na África. A Operação Barbarrosa foi iniciada pelos alemães em 22 de junho de 1941 e mobilizou mais de três milhões de soldados. Sua intenção era conquistar a URSS em oito semanas. Três objetivos estratégicos foram estabelecidos por Hitler. Ocupar Moscou, a sede do governo; obter a rendição de Leningrado (São Petersburgo), a grande porta russa para o Ocidente; e controlar Stalingrado (antiga Tsarítsin, hoje, Volgogrado), para garantir petróleo em abundância. Foram passos maiores que as pernas. A 30 quilômetros de Moscou, que chegou a ser evacuada, os alemães foram repelidos; apesar da fome, a população de Leningrado resistiu até o cerco ser quebrado, em 1944. Estratégica para o controle do Cáucaso, área considerada vital para o abastecimento das tropas alemãs, em Stalingrado, a batalha foi a mais longa e sangrenta de toda a guerra, mudando seu curso.

Os alemães não tinham recursos suficientes para manter uma guerra de longa duração em território soviético, na qual exauriram suas energias. Além disso, a derrota em Stalingrado quebrou a aura de invencibilidade do Exército alemão, que acabou cercado e se rendeu. Cerca de 400 mil alemães, 200 mil romenos, 130 mil italianos e 120 mil húngaros morreram, foram feridos ou capturados. Dos 91 mil alemães feitos prisioneiros em Stalingrado, apenas 5 mil voltaram para a Alemanha. Os soviéticos sofreram cerca de 1,13 milhão de baixas, sendo 480 mil mortos e prisioneiros e 650 mil feridos em toda área de Stalingrado. Quando se rendeu, o comandante do 6º Exército alemão, marechal de campo Friedrich Paulus, referindo-se a Hitler, declarou: “Não tenho intenção de me suicidar por aquele cabo da Baviera”. Nunca antes um marechal de campo alemão havia se rendido numa frente de batalha; preferiam o suicídio à desonra. Ele havia cumprido as ordens de não se retirar de Stalingrado, a qualquer preço, mas acabou isolado, sem munição nem suprimentos.

Tem gente que considera a política uma guerra sem derramamento de sangue. Geralmente, trata os adversários como inimigos a serem exterminados. Entretanto, eles ressuscitam. Um dos três protagonistas da Conferência de Yalta, que dividiu o mundo em áreas de influência — ao lado de Franklin Delano Roosevelt (EUA) e Josef Stálin (URSS) —, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill dizia: “A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes.”

Bernardo Mello Franco - O exemplo de Belém

- O Globo

Em 2020, a oposição se dividiu e perdeu na maioria das capitais. Uma exceção foi Belém, onde Edmilson Rodrigues encabeçou uma frente de esquerda para conquistar a prefeitura. O deputado do PSOL montou uma aliança com seis partidos, incluindo o PT de Lula e o PDT de Ciro Gomes. No segundo turno, venceu o bolsonarista Delegado Eguchi, que dizia defender “valores da família e da pátria”.

Foi por pouco. Edmilson teve 51,7% dos votos, apenas 26 mil a mais que o rival. A disputa repetiu o enredo de 2018, com acusações rasteiras no campo moral. “Enfrentei uma campanha muito violenta. Disseram que eu construiria banheiro unissex nas escolas, que as crianças poderiam trocar de sexo aos 9 anos de idade”, conta o prefeito eleito.

A capital do Pará é uma cidade religiosa. Além de sediar o Círio de Nazaré, considerado a maior festa católica do mundo, assistiu ao nascimento da Assembleia de Deus, maior denominação evangélica do país. Sobrinho de pastor, Edmilson precisou desmentir boatos de que perseguiria os cristãos. No último debate na TV, o candidato do Patriota disse que o PSOL queria liberar as drogas e implantar a “ideologia de gênero”. O deputado ignorou a conversa e usou a réplica para falar sobre educação.

Cristovam Buarque* - Sem Teto e Sem Futuro

- Blog do Noblat | Veja

Radicalismo solidário não é o bastante

Boulos trouxe uma cara nova para a esquerda, mas não apresentou ideias novas da esquerda. Trouxe o radicalismo solidário, decente e justo de não aceitar um sem-teto em frente a edifício sem morador, mas não defendeu reformas necessárias para fechar a fábrica de sem-teto que caracteriza a estrutura social brasileira. Ele aproximou a esquerda dos sem-teto, mas não dos sem-futuro: uma utopia para o Brasil, a ser construída sobre bases sustentáveis. Ele ressuscitou a solidariedade que a direita nunca teve nem terá, e a esquerda eleitoreira e sindical perdeu; mas passou a ideias que foram soterradas pela evolução da realidade. A impressão é que a esquerda não percebeu que o Muro de Berlim caiu, e a direita não aceita que a Lei Áurea foi proclamada.

Não percebemos que o Estado se esgotou financeira, ética e gerencialmente. Seu gigantismo se fez ineficiente e atende mais aos interesses da própria máquina do que aos da população. Não aceitamos que estatal não é sinônimo de público, ainda menos de popular. Não vimos que para servir melhor aos interesses do povo é preciso considerar a inversão na pirâmide etária e a velocidade do avanço técnico, que a realidade exige reformas econômicas.

Não entendemos que a globalização, não é uma invenção do capitalismo, mas uma marcha da civilização industrial, e que o papel do progressista é tirar proveito dela para todos.

Celso Ming - O governo a reboque

- O Estado de S. Paulo

O presidente Jair Bolsonaro não poderá tirar grande proveito político da chegada da vacina porque até agora só fez jogo contra

Este início de mês parece caracterizar-se pela criação de fatos econômicos importantes por fatores externos à política econômica propriamente dita. Um deles é a vacina. Em que pesem as informações parciais e desencontradas sobre a eficácia da fase final de testes, a vacina contra a covid-19 está às portas.

As primeiras remessas não estarão disponíveis para toda a população, mas o início da vacinação começará a exercer efeitos econômicos e políticos mesmo antes disso. Investimentos serão destravados, segmentos da área de serviços poderão operar de maneira mais próxima da normalidade, as viagens serão retomadas e algumas incertezas em relação ao futuro, removidas.

Como já avançado por esta Coluna no dia 3, o presidente Jair Bolsonaro não poderá tirar grande proveito político da chegada da vacina porque até agora só fez jogo contra. Sua imagem não está identificada com ela. Ele negou a gravidade da pandemia, recomendou remédios ineficazes, como a cloroquina e hidroxicloroquina, desdenhou da vacina e vem tentando torpedear a ação dos governadores comprometidos com ela. É possível até que, nessa matéria, o Supremo Tribunal Federal meta sua colher nesse caldeirão contra o presidente. Ou seja, o acesso à vacina pela população pouco ou nada contribuirá para que o presidente Bolsonaro adquira poder de barganha política na busca de outros objetivos do governo na área econômica.

Affonso Celso Pastore*- Risco de inflação e a reação do governo

- O Estado de S. Paulo

A esperança de que Bolsonaro não embarque em uma nova aventura expansionista não se deve ao seu discernimento

Com o resultado do terceiro trimestre, sabemos que a recuperação dentro de 2020 superou todas as expectativas, reduzindo a queda do PIB a algo em torno de 4,5%. As projeções de consenso da última semana informam que em 2021 o PIB deverá crescer em torno de 3,5%, mas não esclarecem que essa taxa é próxima do carry-over de 2020. Ou seja, há um crescimento de 3,5% entre 2020 e 2021, mas praticamente não há crescimento dentro de 2021. Para amenizar as preocupações, argumenta-se que a poupança dos ricos acumulada durante o afastamento social compensará a queda da demanda dos pobres, acarretada pelo fim da ajuda emergencial. Tenho dificuldades enormes com esse argumento. Com uma taxa de desemprego podendo chegar no pico a 20%, é difícil apostar no consumo dos mais pobres e, com a incerteza elevada, é difícil que os ricos não se protejam, guardando boa parte do que acumularam. 

O fato é que a rápida recuperação – inegavelmente positiva – deixou uma herança fiscal que dificulta a continuidade do crescimento em 2021. Devido ao risco de insolvência do governo, o nível de incerteza da economia atingiu um recorde, inibindo os investimentos em capital fixo. Uma forma de aferir como a percepção deste risco se transmite é olhando para os prêmios de risco em ativos financeiros em mercados muito líquidos, como os de juros e de câmbio. 

Todos os caminhos levam ao centro

O pleito de 2020 trouxe uma má notícia para quem aposta no radicalismo. Mas os nomes moderados ainda não têm força para enfrentar Jair Bolsonaro

Por Edoardo Ghirotto, Juliana Castro  | Revista Veja

Como é típico da política brasileira, Jair Bolsonaro esqueceu rapidamente a promessa de que não se envolveria nas eleições municipais. Usou as lives semanais para pedir votos e exibiu santinhos de apadrinhados. Não adiantou: fez campanha para 59 candidatos e só dez deles emplacaram. No balanço final do pleito, o bolsonarismo foi derrotado onde o presidente assumiu um lado e mostrou pouca intensidade ou influência em diversas praças. Seu inimigo número 1, o petismo, foi ainda pior, passando por uma nova rodada de vexames. O outrora todo-poderoso partido da esquerda, o PT, não comanda mais nenhuma prefeitura de capital brasileira. Enquanto as urnas castigaram os radicais, as siglas de centro saíram premiadas, com o controle de quase metade dos municípios do país. Mesmo tendo caído de 1 035 para 784 prefeituras, o MDB do ex-presidente Michel Temer continua sendo o maioral nessa área. Nas capitais, PSDB e DEM mostraram força, com quatro vitórias cada um, incluindo a do tucano Bruno Covas, em São Paulo, e a do democrata Eduardo Paes, no Rio — dois colégios eleitorais de peso que votaram contra um candidato da esquerda e contra um apoiado diretamente por Bolsonaro.

Numa eleição impactada pela pandemia e com as campanhas de rua reduzidas, o eleitorado indicou, sim, estar farto de extremos — e menos propenso a novidades. A “velha política”, calcada numa maior experiência e capacidade de negociação, saiu fortalecida das urnas. A questão é entender quanto esse fenômeno pode influenciar a eleição de 2022. Pleitos municipais registram tendências que podem ser confirmadas dois anos depois. Em 2000, o PT colheu diversas vitórias pelo país, inclusive em São Paulo, com Marta Suplicy. Em 2002, depois de várias tentativas frustradas, Luiz Inácio Lula da Silva foi presidente. Em 2016, o eleitorado brasileiro deu demonstrações claras de que queria outsiders na política. Nessa toada, João Doria foi eleito na cidade de São Paulo e Alexandre Kalil, em Belo Horizonte. No pleito seguinte, Jair Bolsonaro, que bradava contra tudo e contra todos, consagrou-se nas urnas. Esse movimento parece perder força agora. “Não foi um chamado à moderação, mas a clivagem antipetista e lavajatista arrefeceu”, pontua Lucas Martins Novaes, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper).

Nessa perspectiva, e olhando para 2022, o desafio que se coloca para o centro é encontrar um nome que empolgue, um líder que aglutine apoios em todo o país e seja capaz de desbancar o presidente, que busca a reeleição, a exemplo do fenômeno que varreu Donald Trump nos Estados Unidos. Em outros termos, não surgiu ainda uma espécie de “Joe Biden brasileiro”. Por enquanto, conforme fica evidente na mais nova pesquisa sobre o assunto, esse espaço permanece desocupado. A pedido de VEJA, o instituto Paraná Pesquisas entrevistou por telefone 2 036 pessoas no país entre os dias 28 de novembro e 1º de dezembro, testando cenários para a eleição presidencial. E a principal conclusão do levantamento é que, embora tenha saído derrotado das urnas na semana passada, Jair Bolsonaro continua sólido na dianteira. Na verdade, se a disputa ocorresse hoje, Bolsonaro seria o vitorioso — por larga margem.

Ao contrário do que se imagina, sua popularidade continua firme. De acordo com a pesquisa, sua taxa de aprovação é de 50,2%, a maior já registrada pelo instituto (em abril era de 44% e em julho, de 47,1%). Na comparação com os levantamentos anteriores, o presidente avançou acima da margem de erro de 2 pontos porcentuais nas três simulações de primeiro turno, sempre acima da casa dos 30%. Enquanto isso, os possíveis adversários retrocederam ou estagnaram. Nas cinco projeções de confrontos no segundo turno, Bolsonaro também aparece com ampla vantagem, entre as casas de 40% a 50% das intenções de voto, dependendo do oponente. À esquerda, Ciro e Lula contabilizam desempenhos semelhantes, na faixa de 30%. Mais ao centro, com 34,7%, o ex-ministro Sergio Moro é quem mais se aproxima do capitão, ficando cerca de 10 pontos abaixo dele. Outros nomes do mesmo espectro, como João Doria e o apresentador Luciano Huck, cravaram abaixo do desempenho de Moro (23,8% e 29,7%, respectivamente).

Guilherme Amado - Em busca do anti-Bolsonaro

- Revista Época

Os movimentos políticos rumo à construção de uma candidatura forte para enfrentar o presidente começaram antes mesmo do primeiro turno, mas até agora qualquer avanço esbarra no excesso de nomes para encabeçar chapas e na falta de clareza do PT sobre qual será seu rumo

Terminada a eleição de 2020, foi dada a largada em busca de quem será o anti-Bolsonaro, o mais apto (ou apta) a derrotar o ex-capitão em 2022 e devolver o país aos trilhos da tão distante tranquilidade democrática. Os movimentos políticos rumo à construção de uma candidatura forte para enfrentar o presidente começaram antes mesmo do primeiro turno, mas até agora qualquer avanço esbarra no excesso de nomes para encabeçar chapas e na falta de clareza do PT sobre qual será seu rumo.

Atualmente, quatro nomes já se movimentam com mais clareza para enfrentá-lo, cada um num degrau diferente da escada rumo ao que pode se tornar uma candidatura de fato: Ciro Gomes, o terceiro colocado de 2018; João Doria, o governador de São Paulo eleito pelo voto bolsodoria e agora opositor; Luciano Huck, o apresentador de TV que ninguém sabe de fato se será candidato; e Sergio Moro, o ex-juiz, ex-ministro e agora consultor. Os quatro tentam formar uma chapa que una centro-direita e centro-esquerda, sabedores de que uma aliança forte será fundamental para tentar furar a polarização Bolsonaro-PT. E é aí que mora o primeiro problema.

Nenhum dos quatro tem perfil para ser vice do outro. Alguém imagina Huck deixando a vida de estrela da TV para ser vice de Doria? Ou de Moro? Ciro? Mais experiente da turma, Ciro toparia ser vice de Huck, a quem só se refere como “o estagiário”? E Doria, há tempos convicto de que seu próximo ambiente de trabalho será o terceiro andar do Planalto, por acaso aceitaria ser vice de Moro? Ou de Huck? E há mais nome na praça.

O ex-presidente do STF Joaquim Barbosa não descartou concorrer a presidente.

Janio de Freitas – Mais do que notícias da traição

- Folha de S. Paulo

Bolsonaro e seus generais seguiram o ídolo Trump na pandemia do coronavírus

Os mortos por Covid-19 nos Estados Unidos de Trump já equivalem aos americanos mortos em cinco guerras do Vietnã.

Os 58 mil do número oficial de americanos mortos na guerra iniciada pelo democrata John Kennedy multiplicam-se por cinco com a recusa de Donald Trump a combater a contaminação. A “America great again”, que o impulsionou à Casa Branca, a cada dia fica menor também em vidas.

Mas nada acontecerá a esse genocida, como nada aconteceu aos genocidas das bombas de napalm, com gelatinas em chamas pegajosas nos corpos, lançadas sobre as populações civis: um milhão de mortos, na estimativa autocomplacente dos americanos, e perto de três milhões para centros de estudo da guerra.

Jair Bolsonaro e seus generais seguiram o ídolo, com primarismo ainda maior. Até hoje inexiste um plano de orientação nacional, ficando os estados entregues às ações e inações, precariedades e perplexidades de cada um.

Repete-se o descaso deliberado quando o novo ataque do vírus alcança proporções alarmantes, seja ou não uma segunda onda, discussão ociosa.

Bruno Boghossian – Os valores da família

- Folha de S. Paulo

Clã presidencial explora a estrutura do governo em benefício próprio

Não bastavam três filhos do presidente agarrados ao poder do pai. Nas últimas semanas, o quarto descendente de Jair Bolsonaro também decidiu apitar em decisões oficiais e misturar ações do governo com seus interesses particulares.

Aos 22 anos, Jair Renan Bolsonaro descolou uma reunião no Ministério do Desenvolvimento Regional para os donos de uma produtora de granito e mármore. Segundo a revista Veja, eles eram os novos patrocinadores de uma empresa de eventos e mídia fundada poucas semanas antes pelo filho 04 do presidente.

Os representantes da firma foram recebidos em 13 de novembro pelo ministro Rogério Marinho e apresentaram um projeto de casas populares. Jair Renan estava lá "por acreditar que o sistema construtivo teria potencial de reduzir custos para União". Ninguém explicou qual é a experiência do jovem no assunto. Ele cursa faculdade de análise e desenvolvimento de sistemas.