quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Bernardo Mello Franco: A destruição como projeto

O Globo

A Amazônia registrou o maior índice de desmatamento em dez anos. De janeiro a dezembro, a floresta perdeu 10.362 km² de mata nativa. Isso equivale a metade do território de Sergipe.

Os números foram divulgados na segunda-feira pelo Imazon. No mesmo dia, Jair Bolsonaro comemorou a redução de 80% nas multas aplicadas pelo Ibama. “Paramos de ter grandes problemas com a questão ambiental”, festejou.

O presidente transformou a devastação em política de governo. Trata a fiscalização como problema e a derrubada de árvores como solução. Sua cumplicidade com o crime ambiental é explícita. Grileiros, madeireiros e garimpeiros ilegais sabem que têm um aliado no Planalto.

A certeza da impunidade eleva a ousadia dos desmatadores. No ano passado, quase metade (47%) da destruição ocorreu em terras da União, mostram as imagens de satélite.

Elio Gaspari: O Brasil na armadilha argentina

O Globo

O andar de cima gerou o fantasma de Perón

O general Juan Domingo Perón foi deposto em 1955, e seu fantasma ainda influencia a política argentina. Dizem-se peronistas o presidente Alberto Fernández e sua vice, Cristina Kirchner, que governou de 2007 a 2015. Ela é a viúva de Néstor, presidente de 2003 a 2007. Era peronista Carlos Menem (1989-1999). O que é um peronista, não se pode saber, mas sabe-se que, desde 1955, o andar de cima argentino tentou criar alternativas a esse fantasma e fracassou. Como se cantava em Buenos Aires: Se siente / Se siente / Perón está presente.

Perón foi um ladravaz que emulou políticas sociais da época em seu primeiro governo (1946-1952). Tinha o apoio do andar de baixo, a que chamava de los descamisados. (De certa forma, fez na Argentina o que Getúlio Vargas fazia no Brasil sem roubar. Pindorama foi salva de uma perenização do “varguismo” pelo governo e pela personalidade de Juscelino Kubitschek.)

Luiz Carlos Azedo: Contagem regressiva para as federações acirra tensões partidárias

Correio Braziliense

O PT lançou candidatos onde não teria maiores dificuldades para composição, com o propósito de forçar o PSB a recuar de algumas pretensões; nos partidos de centro também há tensões.

A nova legislação eleitoral, que estabeleceu o prazo até 2 de abril para que os partidos formem federações, acirra as contradições internas e tensiona as alianças partidárias, principalmente no campo da oposição, que tem muitos candidatos. Mesmo com o favoritismo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, a federação do PT com os partidos de esquerda esbarra nos conflitos existentes com o PSB, para montagem dos palanques regionais. O PT lançou candidatos onde normalmente não teria maiores dificuldades para composição, com o simples propósito de forçar o PSB a recuar de algumas pretensões regionais e aceitar suas imposições.

Desde o início, a dança de acasalamento entre Lula e o ex-governador Geraldo Alckmin alimenta as tensões entre o PT e o PSB. O ex-tucano continua cotadíssimo para ser o vice da chapa, porém isso pode vir a ocorrer por outra legenda, porque tanto o PSD, de Gilberto Kassab, quanto o Solidariedade, de Paulinho da Força, namoram Alckmin. Quando o PSB passou a exigir o apoio à candidatura do ex-governador Márcio França ao Palácio Bandeirantes para fechar a aliança, setores do PT passaram a atacar o acordo e exigir o apoio dos socialistas à candidatura do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad. Em troca do apoio a Lula e da indicação Alckmin para a vice, o PSB também exige apoio dos petistas em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Acre e Pernambuco.

Vinicius Torres Freire: Aumenta o risco de inflação ainda alta em 2022

Folha de S. Paulo

Petróleo em alta, quebra de safra no Brasil, luz cara e até perigo de guerra e ômicron atrapalham

safra de grãos do Brasil seria recorde. O preço do petróleo subiria apenas um pouquinho mais. Com sorte, os reservatórios das hidrelétricas encheriam ao menos a ponto de se evitar racionamento ou aumentos extras da conta de luz.

Faz uma semana, se escrevia nestas colunas que o gato da inflação começava a espiar o telhado. Agora, meros sete dias depois, o bicho começou a subir a escada.

Sabia-se que a safra de grãos não seria recorde. As notícias pioraram. O preço do milho sobe. A safra de soja vai pior do que o esperado. É seca num lugar, chuva em excesso noutro. Rações animais e óleos, pois, ficam mais caros; falta pasto. O feijão vai ficar caro.

Bruno Boghossian: Bolsonaro é um sucesso

Folha de S. Paulo

Presidente comemora promessa de campanha cumprida ao reduzir multas ambientais

Jair Bolsonaro renovou suas credenciais com grileiros, madeireiros e produtores rurais interessados em driblar o combate ao desmatamento. Num evento em Brasília, ele anunciou que o governo reduziu em 80% o registro de infrações nessa área. "Paramos de ter grandes problemas com a questão ambiental, em especial no tocante à multa", celebrou.

O presidente cumpriu uma promessa de campanha. Antes de tomar posse, Bolsonaro aproveitava viagens pelo interior e encontros com grupos do agronegócio para divulgar uma plataforma de redução da fiscalização ambiental. Ele afirmava que acabaria com a "festa" do que chamava de "indústria da multa".

Nos últimos três anos, quem fez a festa foram outros personagens. O garimpo ilegal avançou no país durante o governo Bolsonaro, com o incentivo público do capitão. No ano passado, o desmatamento da Amazônia Legal cresceu 29% e atingiu o maior nível em 14 anos, segundo dados do instituto Imazon divulgados pelo Jornal Nacional.

Maríliz Pereira Jorge: Bolsonaro no paredão

Folha de S. Paulo

Programa trouxe ao horário nobre assuntos ignorados por muito tempo

Se Jair Bolsonaro estivesse no BBB, não duraria uma semana. Aliás, ele, Marcelo Queiroga, Paulo Guedes, Mario Frias e toda essa gente desqualificada que desgoverna o país já teriam sido expulsos com rejeição máxima. Não teria centrão, não teria "com o STF, com tudo", não teria acordo para manter esse bando de embustes.

Podem desdenhar, mas a única instituição que funciona no país é o Big Brother. A casa é um raio-X da sociedade e trouxe para o horário nobre assuntos ignorados por muito tempo. Ahh, Mariliz, você vai escrever sobre BBB? Raramente, mas o programa estreou ontem e foi difícil não fazer essa analogia.

Hélio Schwartsman: Falta caridade ao debate público

Folha de S. Paulo

As pessoas preferem desenhar espantalhos em suas mentes

Princípio da caridade. O nome não é muito bom, já que evoca esmolas e favores, mas a ideia é das mais interessantes. E o que diz o princípio da caridade? Ele diz que, no curso de uma discussão intelectual, devemos conceder às declarações analisadas a mais generosa interpretação possível. Isso significa que devemos tratá-las em princípio como racionais e bem-intencionadas. Só poderemos considerá-las falaciosas e malévolas quando não houver outra leitura possível.

Se há algo em falta no debate público hoje, é o princípio da caridade. As pessoas preferem desenhar espantalhos em suas mentes e argumentar contra essa imagem a discutir o que de fato está escrito num texto. A tática funciona muito bem se o objetivo é "vencer" a discussão ou posicionar-se ideologicamente para ganhar pontos com os amigos, mas ela mata na origem a possibilidade de uma discussão intelectualmente profícua.

Fernando Exman: Uma história sobre a guerra no Senado

Valor Econômico

Governo está sem líder em área hostil e cheia de adversários

O presidente Jair Bolsonaro terminou o ano passado, começou 2022 e avança sobre o mês de janeiro sem definir quem ocupará, no Senado, uma função estratégica. A liderança do governo está vaga e, até agora, não há sinal vindo do Palácio do Planalto sobre uma definição. O mais grave problema do Executivo em relação a este tema, contudo, não é quando o seu novo representante chegará para o primeiro dia de trabalho. É como isso ocorrerá.

O Senado vem se mostrando uma Casa mais hostil ao governo do que a Câmara. Hospedou a CPI da Covid, atrapalhou planos da equipe econômica, como a reforma tributária, e nos últimos meses tornou-se área de atuação de outros três pré-candidatos à Presidência. É um terreno que merece atenção especial dos articuladores políticos do governo.

Bolsonaro ficou sem líder na última quinzena do ano, sempre um período de pauta cheia, mas pelo menos agora os trabalhos no Legislativo estão praticamente paralisados devido ao recesso parlamentar. Além disso, na ausência do titular, os vice-líderes podem executar alguma missão eventual, mesmo que sem a mesma autoridade.

Porém, do ponto de vista de quem terá pouco tempo para trabalhar antes que toda a atenção dos senadores se volte para a campanha eleitoral, seria bom contar com alguém adiantando as amarrações necessárias para acelerar a tramitação dos projetos mais urgentes e barrar eventuais pautas-bomba.

Daniel Rittner: No caminho do PL havia um Tarcísio

Valor Econômico

Candidatura do ministro da Infraestrutura ao governo de São Paulo causa estranhamento

Julho de 2011. Após uma sequência de revelações sobre um esquema baseado na cobrança de propina a construtoras que faziam obras em rodovias federais, Alfredo Nascimento é demitido do Ministério dos Transportes. Na época, seu filho foi acusado de enriquecimento ilícito. Uma empresa familiar com capital social de R$ 60 mil juntou, em dois anos, patrimônio superior a R$ 50 milhões. Nascimento, primeiro deputado e depois senador, era um dos caciques do PL no Congresso Nacional.

Julho de 2012. A Polícia Federal bate à porta de uma casa no Alphaville, um dos condomínios mais luxuosos de Goiânia, para prender Juquinha das Neves. Apelidado por sua miudeza, presidente da Valec por oito anos, ele protagonizou um festival de irregularidades na Ferrovia Norte-Sul, que se tornou sumidouro de verba pública. Para a PF, uma rede de desvios ia da terraplenagem ao fornecimento de dormentes. O Ministério Público sustentava que o patrimônio imobiliário de Juquinha havia aumentado 14.000%. Ele foi condenado por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, mas recorre em liberdade. Era referência no PL.

Armando Castelar Pinheiro*: O PT e os Bourbon

Valor Econômico

Dúvida sobre o que Lula viria a fazer, se eleito, não tende a desaparecer tão cedo

 “Eles não aprenderam nada, e não esqueceram nada”. A frase, atribuída a Talleyrand, influente político da época, refere-se aos Bourbon, família que retornou ao poder na França, em 1814, com a queda de Napoleão. Para ele, as políticas do rei Luís XVIII (e seu irmão, depois Carlos X) ignoravam as mudanças ocorridas na França com a Revolução Francesa e, depois, com Napoleão.

Não é raro ver essa citação em referência ao Partido dos Trabalhadores (PT). Isso, talvez, por sua tendência a não reconhecer erros e, assim, a não mudar, insistindo sempre nas mesmas políticas. Em certo grau, um padrão presente no artigo de Guido Mantega publicado este mês no jornal Folha de São Paulo.

O artigo só vê méritos nas políticas dos governos do PT e atribui nossos problemas apenas àqueles que vieram depois. Porém, já ao parecer datar em 2014 o fim das administrações petistas, ignorando a brutal recessão de 2015-16, gerada no governo Dilma, a maior da nossa história, o artigo, por ausência, chama a atenção para os erros, que não foram poucos, da gestão petista.

As políticas defendidas para um novo mandato do PT são uma volta ao passado. Além da reversão do teto de gastos e da reforma trabalhista, propõe-se mais gastos públicos, mais política industrial e uma revisão dos objetivos de política monetária, para darem menos peso à inflação e mais à atividade econômica e ao impacto sobre as despesas com juros. Em suma, um retorno à Nova Matriz Econômica, ainda que esse termo não seja citado no texto.

Mantega foi, de longe, a principal autoridade econômica do governo do PT, chefiando o Ministério da Fazenda de 2006 a 2014. Mas, em artigo que saiu neste espaço faz uma semana, Nilson Teixeira argumenta que propostas como essas visam apenas a campanha eleitoral, servindo “para agradar as bases mais aguerridas”, e não são “uma sinalização (...) sobre a linha a ser adotada” em um eventual terceiro mandato de Lula.

José Nêumanne*: Corrupção pega, vicia e arruína

O Estado de S. Paulo.

Presidente da perpétua república da corrupção impune se concretizará, se polarização se confirmar na reeleição

Há seis anos a república da impunidade reinante no Brasil sofreu profundo abalo com a consequência prática produzida pela adesão do País, governado em sequência por Fernando Henrique, Lula, Dilma Rousseff e, até certo ponto, Michel Temer, a acordos internacionais de combate à corrupção. A atuação de procuradores da Operação Lava Jato, juízes federais como Sérgio Moro e Marcelo Bretas e do Tribunal Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre, levou a consequências inusitadas, como a prisão de um empresário tope (e torpe), a condenação do mais popular ex-presidente da República e penas de 400 anos para um ex-governador. A adoção da delação premiada, a permissão de condenação de réus, após a segunda instância, e uma onda de popularidade de agentes do Estado envolvidos nessa ação, contudo, não impediram a sabotagem de chefões partidários e funcionários dos altos escalões de polícias e tribunais superiores as destroçarem em três anos do desgoverno da extrema direita deficiente e delinquente. Hoje, a elite dirigente política nacional suspeita, processada, condenada e aprisionada pisa nos destroços desses esforços abandonados pela cúpula dos Três Poderes da República aviltada.

Roberto DaMatta: Notas de um janeiro chuvoso

O Globo

A chuva é o imprevisto mais rotineiro de nossas vidas. Maviosa como um adorável chuvisco, pode virar furiosa tempestade que não acaba, como a TV ou a luz, por meio do botão controlado por nossa vontade. Teimosa e inesperada, obriga a usar o guarda-chuva e impede grandes e pequenas coisas como ir à praia ou dar um passeio.

Nos bairros pobres, ela destrói e rotineiramente leva nas suas enxurradas as posses de grupos familiares inteiros. O que nos obriga a recitar a ladainha da ausência de políticas públicas...

O “tempo”, mesmo com “previsão”, tem seu imprevisível.

 A Operação Lava-Jato foi morta, mas a corrupção continua viva. O sistema legalizante foi feito para ela. Seria a roubalheira um mecanismo ligado ao que chamamos de “política” no Brasil e noutros lugares? Ou seria simplesmente um hábito ou costume de certos grupos e classes sociais, um aproveitar-se de cargos — um “arranjar-se”, como no atualíssimo livro de Manuel Antônio de Almeida...

Disse e repito: roubar o que é de todos (a “verba”, o dinheiro impessoal que é de todos) não é uma fraude, é uma pilhagem suscitada por uma oportunidade ou, quem sabe, um direito. Uma cota-parte: os fiscais têm direito a uma parcela do imposto pago pela população. A questão é o controle de um velho hábito aristocrático e republicanicamente legitimado?

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*: Pedaladas na economia

JK, um paradigma perdido: pedala-se a economia sem plano de futuro.

Décadas perdidas e ausência de um projeto de futuro. Desde JK, o brasileiro vive distopicamente, em condições alternadas de abundância e privação, acreditando-se todo o tempo um ser abençoado por Deus. No fundo não entende e nem sabe o que fazer do Brasil. Alguns tem dúvida até do que estão fazendo por aqui.  Convive-se passivamente com uma sucessão de governos incompetentes e corruptos, sem preocupação com o desenvolvimento e com o futuro.  

No Executivo só se fala em metas não cumpridas e ajustes na economia. Tudo casuístico. Dinheiro para investimento não existe. O crescimento que se anuncia, de certa forma leviana, vem se fazendo sozinho e, por causa disso, gerando demagogia, desajustes e casuísmos. No Judiciário torna-se rotina tergiversar entre as disposições constitucionais e a opinião pública, mesmo a configurada em pesquisas dirigidas. Divertem-se e ganham dinheiro os advogados   com o prolongamento das causas. Não se apresenta nenhuma solução para o País. Não se preocupam sequer com a destruição criativa.

Brigando junto com as minorias na rua contra uma segregação generalizada, os sociólogos fazem emergir, a cada dia, novos problemas, despreocupados com a governabilidade.  Para eles, a Nação vive em estado de apartheid.  Conclusões como essa pegam fogo no jornalismo. Se tem chance, jogam mais lenha na fogueira. A imprensa curte o bad news, good news. Assim, ela definha ante o empoderamento das redes sociais, que também nada oferecem ao futuro.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

MEC continua a sabotar futuro dos jovens e do país

O Globo


O Ministério da Educação (MEC), sob o comando do pastor Milton Ribeiro, se tornou um dos maiores focos de políticas desastradas no governo Bolsonaro. Ribeiro está de férias, mas, estando ou não em Brasília, não se nota grande diferença. Reportagem publicada pelo GLOBO nesta semana revelou como estados e municípios têm tentado combater a evasão escolar provocada pela pandemia sem nenhum tipo de apoio do governo federal.

A experiência internacional demonstra que, em federações de grande dimensão territorial como o Brasil, o Ministério da Educação tem papel crítico no sucesso (ou fracasso) do ensino básico. Cabe ao ministério coordenar vários objetivos: permitir que inovações locais (municipais e estaduais) despontem para atender a circunstâncias particulares de cada região; medir os resultados dessas experiências para que eventuais correções de rumo sejam feitas; incentivar a adoção de práticas bem-sucedidas onde elas fizerem sentido; e, acima de tudo, trabalhar para que nenhum estado e município fique para trás.

Nada disso tem sido feito no MEC de Ribeiro e, desgraçadamente, o Brasil tem sido destaque negativo desde o início da pandemia. Está entre os países que ficaram mais tempo com as escolas fechadas. Isso certamente inflou o número daqueles que abandonaram os estudos. Há ainda o perigo de alunos que voltaram a estudar decidirem parar por não conseguirem acompanhar as aulas. Governadores e prefeitos estão certos ao buscar, com urgência, inovações para atrair e manter crianças e jovens em sala de aula.

Arnaldo Niskier*: As diversas vidas de Nara Leão

O Globo

A minha passagem pelo jornal Ultima Hora, na década de 50, sob a liderança esportiva de Augusto Falcão Rodrigues, trouxe-me a alegria de uma bela amizade com o repórter e compositor Ronaldo Bôscoli. Foi ele que me ajudou a comprar as alianças do meu sólido relacionamento com a minha querida Ruth, que dura até hoje.

Na festa dos 15 anos da Vera Bloch, filha de um dos meus patrões, no Edifício Chopin, em Copacabana, fui levado pelo Ronaldo para ouvir a jovem cantora Nara leão, que depois se tornaria sua namorada. Foi a cantora da Bossa Nova, da MPB, do show "Opinião", e de tantos outros êxitos, que marcaram a sua carreira na cultura brasileira. Graças ao milagre da televisão (Globoplay), podemos agora recordar a vitoriosa carreira da irmã de Danuza Leão que morreu precocemente em 1989, vítima de um tumor na cabeça.

Música | Nara Leão : A Banda

 

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Miguel Caballero*: Errado por linhas tortas

O Globo

As pesquisas de intenção de voto mostram que parte do eleitorado de Jair Bolsonaro mudou de ideia e não pretende repetir a escolha em 2022. Sempre que um bolsonarista arrependido justifica a mudança com o argumento de que não era possível prever, em 2018, como seria o governo, a oposição de esquerda reage com indignação. São imediatamente lembrados episódios em que o deputado Jair Bolsonaro já defendia teses incivilizadas ou preconceituosas e expunha seu desapreço pelas instituições e pela democracia.

Várias das piores facetas do governo eram previsíveis — e foram mesmo previstas por quem já se opunha ao presidente. Não se pode alegar surpresa com o incentivo ao desmatamento da Amazônia ou com o isolacionismo na política externa. Os ataques antidemocráticos e o desmonte do aparelho estatal em várias áreas também não podem ser tidos como inesperados.

Apesar da gravidade, não são esses traços autoritários que fazem o presidente entrar no ano eleitoral como uma espécie de “favorito à derrota”. Bolsonaro já estimulava e fazia vista grossa às queimadas, já carbonizava o filme da diplomacia brasileira e já ameaçava romper com o sistema democrático quando ainda estava fortemente competitivo para se reeleger. No fim de 2020, mesmo um ano depois de encampar o negacionismo e combater o isolamento que previne a Covid-19, seus índices de aprovação eram satisfatórios. Naquele dezembro, o Datafolha mostrava que 37% dos brasileiros consideravam o governo “ótimo ou bom”, ante 32% de “ruim ou péssimo”.

Carlos Andreazza: O ganha-ganha de Ciro Nogueira

O Globo

Li o artigo de Ciro Nogueira neste GLOBO. O ministro avisa — ameaça: “Na economia, haverá um dia seguinte!”. E pergunta: “Como será?”.

Será com ele no volante.

O texto é a exposição alegre e segura — com delírios metodicamente ministrados — de quem foi consagrado regente do Orçamento no ano eleitoral.

Como será?

O Orçamento de 2022, que já pilota, é a melhor resposta. Uma peça que, mesmo ante os mais de R$ 115 bilhões de espaço fiscal arrombado pela PEC dos Precatórios, mesmo com quase R$ 17 bilhões para emendas do relator, mesmo com possivelmente R$ 5,7 bilhões em fundo eleitoral, ainda assim — dada a sanha da galera — precisará cavar R$ 10 bilhões para recompor gastos obrigatórios propositalmente subestimados pelo Parlamento no seu arranjo. Será assim.

Assim: “Um governo que mais do que duplicou o valor do antigo Bolsa Família (...) Tudo isso sem pedaladas fiscais (...)”. Tudo isso como se a PEC dos Precatórios não tivesse constitucionalizado as pedaladas fiscais.

E a turma quer mais. Quer e terá. Como será?

Está aí, valendo, a consagração de Nogueira, a nova expressão do contrato entre liras e governo, também o novo encolhimento do já minúsculo Paulo Guedes: o Decreto 10.937, por meio do qual Bolsonaro lista delegações (para manejo dos recursos orçamentários) ao ministro da Economia, em seguida ao que condiciona, em movimento sem precedentes, “a prática dos atos à manifestação prévia favorável do ministro da Casa Civil”; que passou a ter controle, o pulo do gato, sobre mudanças solicitadas pelo Congresso no fluxo das emendas do relator — fachada ao exercício do orçamento secreto.

Nogueira é o senhor do Orçamento e vai distribuir. Como será? Está sendo. Bolsonaro já declarou que “hoje em dia estão todos ganhando”. E não se referia a nós, roídos pela inflação — os que ainda têm emprego e alguma grana para ser comida. Falava de deputados e senadores, os que o apoiam, “todos ganhando” dinheiros públicos para suas paróquias: “O Parlamento está muito bem atendido conosco”.

Luiz Carlos Azedo: Bolsonaro perdeu a guerra porque contrariou o bom senso

Correio Braziliense

Para 59% da população, sabotou a imunização. Esse resultado, obviamente, terá sérias consequências eleitorais; 81% são a favor da exigência do “passaporte de vacina” em locais fechados

No começo do século passado, por uma série de razões, houve uma grande revolta popular no Rio de Janeiro contra a vacinação da população. O episódio, porém, é um marco contra a ignorância e o negacionismo da ciência. Àquela época, a antiga capital era uma cidade insalubre, em péssimas condições de saúde pública, na qual proliferavam doenças contagiosas: tuberculose, peste bubônica, febre amarela, varíola, malária, tifo, cólera etc. O presidente Rodrigues Alves resolveu realizar uma série de reformas urbanas para melhorar as condições de vida da então capital, a cargo do engenheiro Pereira Passo, que alargou ruas e removeu cortiços, desalojando a população; o mais miserável. Diretor-geral de Saúde Pública desde 1903, o médico Oswaldo Cruz assumiu o cargo com a missão de implementar o saneamento público e erradicar a febre amarela, a peste bubônica e a varíola, principalmente.

Com essa intenção, em 1904, o governo propôs a obrigatoriedade da vacinação, lei aprovada em 31 de outubro, apesar dos protestos, inclusive um abaixo-assinado com 18 mil assinaturas, muito para aquela época. A lei exigia comprovantes de vacinação para realizar matrículas nas escolas, assim como para obtenção de empregos, viagens, hospedagens e casamentos. Previa multas para quem não se vacinasse. O povo se revoltou, estimulado pelos políticos de oposição. A confusão começou no Largo do São Francisco e se espalhou de Copacabana ao Engenho Novo, com quebra-quebras, tiros, barricadas. O saldo foi de 945 pessoas na Ilha de Cobras, 30 mortos, 110 feridos e 461 deportações para o estado do Acre. Historiadores avaliam que a política higienista e a forma autoritária como foi imposta a vacinação causaram a revolta, além do fato de que a vacinação de mulheres era vista como uma ameaça à honra machista.

Eliane Cantanhêde: Num mato sem cachorro

O Estado de S. Paulo.

Militares, evangélicos e o ‘capital’ pulam do barco de Bolsonaro, mas não caem no de Lula

As reações à coluna de domingo (“Ainda tem jeito?”) confirmam que o melhor do mundo para bolsonaristas e petistas é manter a polarização entre o continuísmo e a volta ao passado. Tudo que o presidente Jair Bolsonaro sonha é disputar com o ex-presidente Lula. Tudo o que Lula pretende é ter Bolsonaro como adversário. Nenhum dos dois quer ouvir falar em terceira via.

Sim, se a eleição fosse hoje, daria Lula no primeiro turno ou ele e Bolsonaro no segundo. O problema é que a eleição não é hoje e há milhões de brasileiros incomodados e se sentindo emparedados entre as duas soluções – o que também surgiu, claramente, nas reações à coluna.

Andrea Jubé: Breve manual político do velho pescador

Valor Econômico

Com Alckmin à espera, PT e PSB reúnem-se na quinta-feira

Publicado há 70 anos, “O velho e o mar” traz o duelo eletrizante entre Santiago, um velho pescador, e um peixe gigante, de mais de cinco metros, que o desafiou em uma aparente centelha de sorte, após uma maré de revezes. “A sorte é uma coisa que vem de muitas formas, e quem é que pode reconhecê-la?”, refletiu a certa altura o personagem de Ernest Hemingway (1899-1961).

Quem conhece a obra, sabe que após uma luta que se estendeu por tortuosos dois dias e duas noites, a história chegou ao fim sem vencedor ou vencido, a não ser por um remoto “triunfo interior” que alguns críticos atribuem ao pescador. “O homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”, ensinou Santiago, em outro trecho do romance.

O embate entre o velho e o peixe serve de metáfora ao duelo de forças que se desdobra nos bastidores entre PT e PSB. Do desfecho depende a possível indicação do ex-governador Geraldo Alckmin para a vaga de vice do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na chapa petista.

Alvaro Costa e Silva: Bolsonaro nos debates

Folha de S. Paulo

Ninguém acredita que ele vá, mas bastaria uma pergunta para derrotá-lo

Como na fábula do menino pastor e o lobo, o dia chegou. Pressionado pela surra que está levando nas pesquisas, Bolsonaro disse que pretende comparecer a todos os debates da campanha presidencial. Nem a seita acreditou.

Ainda mais agora que ele arranjou uma desculpa perfeita para se ausentar: comer camarões sem mastigar, engolindo-os com cabeça e tudo, baixar no hospital e, deitado na cama, tirar aquela foto já clássica, exibindo a sonda nasogástrica. 

Cada internação por dores na barriga ressuscita o atentado sofrido em 2018. Os bolsonaristas acreditam que o episódio, já virado pelo avesso do avesso pela Polícia Federal, ainda pode ter influência no eleitor de 2022. O chato da narrativa é a realidade: o candidato sobreviveu à facada e foi eleito, sendo obrigado a ocupar o cargo e a fingir que governa há mais de três anos.

Cristina Serra: A campanha do ódio em ação

Folha de S. Paulo

Táticas usadas na campanha de 2018 serão agora brincadeira de criança

Reportagem de Jamil Chade e Lucas Valença, no UOL, mostra tratativas do "gabinete do ódio" para adquirir tecnologias de espionagem israelense. Uma das empresas procuradas, que atende pelo sugestivo nome de DarkMatter (em português significa "matéria escura"), desenvolveu dispositivos que podem invadir computadores e celulares, mesmo com os aparelhos desligados.

Essas movimentações prenunciam que os mecanismos de disparo em massa de mentiras por aplicativo, largamente utilizados em 2018, serão brincadeira de criança perto do que estará, agora, ao alcance das quadrilhas que apoiam o chefe miliciano. Indicam também como a campanha de reeleição de Bolsonaro poderá atuar totalmente fora do radar do TSE, deixando os concorrentes a comer poeira e as instituições a enxugar gelo.

Hélio Schwartsman: Testes de Covid no buraco negro

Folha de S. Paulo

Para cada teste computado pelo sistema, quase um passou abaixo do radar

Pelo Datafolha, 42 milhões de brasileiros acima de 16 anos já tiveram Covid-19, com diagnóstico confirmado por um teste laboratorial. Pelos registros oficiosos, foram, em todas as faixas etárias, 23 milhões.

É uma diferença brutal, especialmente quando se considera que, no Brasil, apenas serviços credenciados puderam aplicar testes e eles têm a obrigação de informar as autoridades de todos os resultados. O número de casos "perdidos" deveria, portanto, ser muito baixo ou mesmo zero. O que se vê, porém, é que, para cada teste computado pelo sistema, quase um passou abaixo do radar.

Pedro Fernando Nery: O progresso vetado

O Estado de S. Paulo.

Metas para redução da pobreza já foram implementadas por democracias desenvolvidas

O Congresso aprovou no final do ano a criação de um regime de metas para a pobreza no Brasil. Inspirado no regime de metas de inflação, previa que o País deveria mirar a queda das taxas de pobreza e de extrema pobreza. Caso as metas fossem descumpridas, o governo apresentaria ao Congresso as razões para o descumprimento e que medidas deveriam ser tomadas para ajustar a rota. Bolsonaro vetou.

A proposta, originalmente do projeto de Lei de Responsabilidade Social, do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), foi incluída no projeto do Auxílio

Brasil pelo deputado Marcelo Aro (PP-MG). Previa ainda que o governo publicaria periodicamente um relatório sobre a evolução dessas taxas, as medidas que vem tomando, os riscos e o que poderia ser feito no âmbito do gasto público e do sistema tributário para melhorar.

Poderia ser um norte para as reformas e um escudo que o governo poderia usar contra variadas pressões sobre o Orçamento. Não previa nenhuma punição para os gestores nem qualquer aumento de gasto.

Mas Bolsonaro vetou. Disse que o novo regime “contraria o interesse público” e alega que aumentaria o gasto público total, simplesmente porque o governo teria de reduzir a pobreza (a um nível que ele próprio escolheria!).

O veto impressiona também porque quedas na pobreza são em boa parte causadas pelo crescimento econômico. O governo, assim, sinaliza não apenas não ter compromisso com a redução da pobreza (um objetivo expresso da Constituição) como não confiar no seu próprio taco em relação à evolução do PIB. Reforça, ademais, a imagem do Auxílio Brasil como um programa para outubro, não para o futuro.

Felipe Salto: Nada a comemorar no front fiscal

O Estado de S. Paulo.

A deterioração das expectativas de mercado resulta de uma política fiscal que implodiu o teto de gastos

Mansueto Almeida é um dos especialistas em contas públicas mais respeitados do País. Temos um livro juntos, publicado pela Editora Record, em 2016, que documenta parte dos problemas da política fiscal no período da contabilidade criativa (2008 a 2014). Neste artigo, faço um contraponto ou complementação a algumas das posições que ele defendeu em recente entrevista ao Estado.

Não houve uma melhora estrutural nas contas públicas, exceto pela aprovação da reforma da previdência. É importante destacar, sim, que as projeções mais pessimistas para a dívida pública foram frustradas, mas também é essencial compreender que o fator preponderante a explicar o nível mais baixo da dívida bruta no fim de 2021 foi a inflação. Quando algo “positivo” deriva de algo ruim, como a alta descontrolada dos preços, não há o que aplaudir.

A dívida é sempre calculada como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), normalmente referenciada como “dívidapib”. A intenção é avaliar o passivo do governo ou do setor público como um todo, mas sempre em relação a alguma variável que mensure a geração de renda e riqueza do País, o desempenho econômico.

Dizer que a dívida estava em R$ 6,8 trilhões, em novembro passado, não revela muito sobre a solvência do Estado. Mas, avaliar esse estoque de dívida em relação ao PIB, comparando-o com o mesmo cálculo para um momento passado, ajuda a analisar se o endividamento está subindo em ritmo maior ou menor que o do PIB, isto é, da economia, que afeta diretamente a arrecadação do governo e sua capacidade de pagamento, portanto.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Rio precisa de um novo plano de recuperação fiscal

O Globo

É do interesse de todos os brasileiros o debate em curso sobre a saúde fiscal do Estado do Rio. O Rio, como outros entes da Federação, está quebrado. A despesa é maior que a receita, e o estado depende da União para refinanciar sua dívida gigantesca. A decisão que deverá ser tomada em breve a respeito terá impacto não apenas no futuro das finanças fluminenses, mas também na de outros estados em situação semelhante. É fundamental o governo estadual ter metas que promovam um ajuste fiscal com credibilidade — e que seja transmitido ao país um recado de responsabilidade.

Com a intenção de reingressar no Regime de Recuperação Fiscal da União, o governo fluminense apresentou um plano de ajuste reprovado ontem pelo Tesouro Nacional. Diante do resultado já esperado, o Palácio Guanabara dá sinais de que levará o caso ao Supremo Tribunal Federal (STF). Se isso ocorrer, a decisão será acompanhada de perto pelo precedente que abrirá.

É fundamental reconhecer os avanços alcançados pela administração estadual nos últimos anos. Mas também é preciso que as autoridades fluminenses tenham a honestidade de reconhecer as muitas e sérias limitações do plano reprovado pelo Tesouro.

Entre os pontos positivos, o mais importante foi o esforço para controlar as despesas com pessoal. Revelou-se um sucesso a concessão da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae). Foi registrada uma significativa redução no estoque de restos a pagar, dando fôlego ao caixa do estado para manter atividades essenciais. Como vários outros estados, o Rio aumentou a contribuição previdenciária dos servidores.

Música | Zeca Pagodinho / Marisa Monte: Preciso me encontrar (Candeia)

 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Fernando Gabeira: Vírus, chuva e calor

O Globo

Gostaria de abordar as chuvas de forma poética, como Elizabeth Bishop em sua “Canção do tempo das chuvas”. Mas agora elas assumem um aspecto dramático, matando e destruindo.

Joe Biden, visitando o Kentucky, associou o tornado que devastou a região e as chuvas no Brasil às mudanças climáticas.

Sinto que há algo parecido, mas ainda esbarro num monte de dúvidas. Sei que as chuvas estão sendo provocadas por um sistema meteorológico chamado Zona de Convergência do Atlântico Sul. É uma grande extensão de nuvens movidas por um coquetel de ventos: do Sudeste, Nordeste e até das altitudes bolivianas.

Essas chuvas são influenciadas por La Niña, um fenômeno, assim como El Niño, que acontece no mar.

Desde quando li as intervenções dos cientistas numa conferência sobre o clima, aprendi que o aquecimento global seria irreversível quando houvesse mudanças nas famosas correntes marinhas. Não tenho condição de afirmar que a velha La Niña tenha se alterado por influência de correntes. Sei que, assim como El Niño, quando traz chuvas numa região do Brasil, leva seca para outras.

No momento, chove no Sudeste, e há escassez de chuvas no Sul do Brasil.

Além da destruição dos corais, do derretimento das geleiras, da poluição humana, há coisas acontecendo nos mares. Cientistas descobriram que a velocidade das correntes tem aumentado, ainda não sabem precisamente as consequências disso.

Miguel de Almeida: Bocage e o Rio de Janeiro

O Globo

O que personagens como Humboldt, Lebreton, Bocage e mesmo Napoleão têm em comum com o Rio de Janeiro e o Brasil?

De um jeito ou de outro, contribuíram para deixar o país menos mané, mais ilustrado e não tão sujeito às superstições trazidas pela ignorância e vocalizadas sob o manto religioso.

Só que poucas andorinhas não fazem uma nação.

Neste ano do Bicentenário da Independência, o Brasil talvez pudesse se encontrar com seu destino ao buscar onde ocorreram os descarrilhamentos e por que sempre voltamos tantas casinhas.

As datas por vezes ajudam a repensar os fatos, mas mesmo a História precisa contar com a sorte.

No Cinquentenário da Independência, embora Machado de Assis escrevesse sobre o “Instinto de Nacionalidade”, no jornal dirigido por Souzândrade em Nova York, o Império brasileiro incensava a figura de Dom Pedro II e sua miopia diante da Revolução Industrial.

Em 1922, ainda que houvesse a importante Exposição do Centenário, com mais de 3 milhões de visitantes, o governo de Epitácio Pessoa representava uma elite atrasada e avessa às ideias de caráter social. Aquele tipo de República cairia oito anos depois.

No sesquicentenário, em 1972, o Brasil vivia sob a ditadura militar, com o general Médici à frente da tentativa de eliminar à bala os adversários do regime.

Bruno Carazza*: Os ventos da mudança

Valor Econômico

Intervencionismo no exterior e aqui, na campanha eleitoral

De tempos em tempos, os ventos da política e da economia mundiais mudam de direção. Pode demorar um pouco, mas a viragem sempre chega por aqui, com maior ou menor intensidade.

O desenvolvimentismo brasileiro, de Vargas a Geisel, foi forjado pelo casamento entre estatais, empresas multinacionais e grupos brasileiros. Longe de ser uma receita original e local, era fruto de seu tempo - no imediato pós-guerra, o braço forte do Estado se aliou ao grande capital para produzir as três décadas de ouro do século XX (1945-1975).

Os desequilíbrios desse modelo de desenvolvimento se tornaram evidentes após os choques do petróleo dos anos 1970, e a chegada ao poder de Margareth Thatcher e Ronald Reagan geraram um terremoto liberalizante que abalou as estruturas estatais em diferentes graus, provocando réplicas ao longo das décadas seguintes.

Privatização, desregulamentação, restrições nos gastos governamentais, redução da tributação sobre as empresas e globalização levaram a uma onda de retração do intervencionismo governamental nas economias. O capítulo da ordem econômica da Constituição de 1988 resumem essa influência liberal em terras brasileiras: a exploração de atividades econômicas por estatais seria exceção (art. 173) pois o papel do Estado deveria se concentrar na regulação e incentivo ao setor privado (art. 174).

Esse modelo, é bem verdade, nunca foi plenamente implementado por aqui. Mas se não estivesse conectado ao espírito de seu tempo, dificilmente Fernando Henrique teria cumprido seu programa de privatizações ou aprovado as reformas nos setores de petróleo, telecomunicações, elétrico e financeiro.

A maré parece estar virando novamente. A revista The Economist desta semana traz uma série de matérias especiais chamando a atenção para o advento de uma nova era de intervenção estatal na economia.

Francisco Góes: ‘Motor da inovação é a competição’, diz Passos

Valor Econômico

Economia fechada do Brasil limita a capacidade de inovar

O Jockey Club Brasileiro, na Gávea, recebeu de quinta até ontem milhares de pessoas. Quem passasse pelo local poderia pensar tratar-se de festival de música ou de gastronomia, mas o público que ali compareceu, sob o forte calor do verão carioca, foi em busca de conhecimento e de oportunidades em inovação e em tecnologia. Os dois temas estiveram presentes na Rio Innovation Week, evento com apoio do Valor que incluiu debates sobre saúde, educação, finanças, ambiente, agronegócios, startups, marketing e cidades inteligentes, entre uma miríade de outras mesas temáticas.

O evento colocou a inovação e a tecnologia na agenda de um público mais amplo do que cientistas e empresários. É um debate que ajuda a pensar os caminhos do Brasil nessa área.

O entusiasmo do encontro no hipódromo da Gávea contrasta, porém, com o diagnóstico de especialistas sobre o momento do Brasil nesse campo, marcado por cortes de recursos públicos, baixos dispêndios pelas empresas e incerteza sobre os investimentos futuros da pesquisa, desenvolvimento e inovação no país.

As empresas brasileiras fazem mais inovação incremental via compra de máquinas e equipamentos que aumentam a produtividade. Mas investem pouco em inovação “disruptiva”, aquela que faz realmente a diferença na competição pelo mercado global.

Mas afinal o que é inovação? O conceito de inovação tecnológica remete à criação de produto ou de processo produtivo novo para o mercado, diz Fernanda de Negri, coordenadora do centro de pesquisa em ciência, tecnologia e inovação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Essa inovação é fundamental para o crescimento econômico e para se obter ganhos de competitividade.

Marcus André Melo*: Corrupção e eleições

Folha de S. Paulo

Eleições são disputas em torno de quais dimensões devem tornar-se salientes e quais devem ser interditadas

Na Coreia do Sul, o favorito na atual disputa presidencial é o ex-procurador-geral do país Yoon Seok-Youl, que adquiriu popularidade no processo que levou a ex-presidente Park Geun- Hye a sofrer um impeachment e ser presa. O atual presidente, Moon Jae-In, que não é candidato devido à vedação constitucional da reeleição, foi quem nomeou Yoon para o cargo, que agora está na oposição.

Recentemente, Moon concedeu indulto à ex-presidente temendo futuras investigações do ministério público, após uma malsucedida campanha para reduzir o poder dos procuradores (Yoon denunciou seu Ministro da Justiça e braço direito por corrupção). Park é filha do ex-ditador General Park Chung-Hee, que governou o país por 18 anos.

A questão da corrupção é o tema vertebrador da política no país juntamente com a inflação, endividamento familiar e moradia; o combate à pandemia tem sido exemplar mas não tem sido politizado.

O caso sul-coreano é ilustrativo das insuficiências das discussões em torno do significado de esquerda, direita e centro. Como no Brasil, mesclam-se questões relativas a corrupção, autoritarismo, e questões redistributivas. Mas os contrastes com nosso país são evidentes.