Valor Econômico
A proposta é sem dúvida inovadora e, por isso
mesmo, assusta
Mal começavam a se recuperar das perdas
provocadas pela aposta errada feita antes do segundo turno das eleições,
operadores e analistas financeiros ficaram de novo com os cabelos em pé. O
plano de redução gradual da taxa de juros de curto prazo — a taxa Selic do
Banco Central —, proposto pelo economista André Lara Resende em setembro,
ganhou as manchetes e espalhou o temor pelo mercado.
A resistência a mudanças que alterem o status quo da política monetária pode ser comparada à forma como as propostas de estabilização foram rechaçadas no início dos anos 80. Atribuía-se em geral a causa da alta inflação brasileira ao desajuste fiscal do governo. Essa justificativa foi por muito tempo sacramentada por economistas ortodoxos que não conseguiam enxergar outra explicação para o processo inflacionário.
As tentativas de estabilidade via
alternativas heterodoxas só se tornaram possíveis quando a população já não
aguentava conviver com o reajuste diário dos preços nos supermercados e os
políticos se deram conta de que acabar com a inflação rendia votos.
Hoje, a reclamação se volta para as
estratosféricas taxas de juros praticadas no país, que comprometem o crescimento
e a renda das famílias de menor poder aquisitivo. De novo, o desequilíbrio das
contas públicas é apontado como o vilão. O governo gasta muito mais do que
arrecada, isso provoca inflação e decorre dali que os juros precisam ser
elevados.
Aquela relação é sancionada no mundo das
expectativas que passou a orientar a atuação dos Bancos Centrais. A narrativa é
falaciosa, tendo em vista o baixo déficit fiscal primário do setor público
consolidado, que exclui a despesa com o serviço da dívida. No acumulado de doze
meses até setembro o déficit primário atingiu 0,52% do PIB.
A polêmica proposta tem a dimensão de um
Plano Real e, como tal, exigiria uma grande e difícil concertação política
André Lara Resende tem destacado o óbvio que
ninguém quer enxergar. O maior peso nas contas fiscais está justamente no
tamanho da taxa de juro, responsável pelo déficit nominal de 9,5% do PIB
registrado no mesmo período. O equivalente a 9% do PIB naquele déficit deveu-se
ao impacto puro dos juros.
A questão é por demais complexa. Os
estudiosos da problemática monetária brasileira apontam para distorções que se
acumulam ao longo dos anos, enraizadas desde a época em que o aumento contínuo
dos preços dominava as relações econômicas do país.
O Plano Real conseguiu estabilizar a inflação
com a URV e com o fim da indexação automática dos salários, mas não foi capaz
de extirpar da sociedade a preferência pelo curto prazo. Semelhante à era da
hiperinflação, tudo se passa como se o mundo acabasse amanhã, haja vista a
predominância dos rendimentos do overnight que inflam os fundos de investimento
e orientam as relações operacionais entre o BC e as instituições financeiras
através da Selic que também afeta o estoque da dívida pública.
É como se parte dos juros praticados hoje no
curto prazo incorporasse um pedaço da inflação que ficou lá atrás, no passado
remoto, e se refletisse no elevado juro real de 8,45% ao ano depois de
descontada a inflação dos dias atuais. Corresponde a juro nominal de 13,75%.
O economista Francisco Lopes, grande
estudioso da inflação brasileira e idealizador dos planos de estabilização no
Brasil, falecido em maio deste ano, apresentou em setembro de 2010 o texto “A
Estabilização Incompleta” no seminário em homenagem a Dionísio Dias Carneiro,
especialista em questões monetárias, que havia falecido em julho daquele ano.
Naquele paper, Chico Lopes ressaltou uma vertente para explicar os juros altos
no país.
Escreveu ele: “a taxa de juros é elevada
devido à forma de atuação do BC e a distorções estruturais que impedem o
funcionamento adequado do regime de metas (de inflação). Essas distorções não
estão associadas a questões fiscais ou à avaliação de crédito do país, mas
resultam de características do funcionamento dos mercados financeiros e de
capitais herdadas do período de inflação crônica. Ou seja, refletem o fato de
que o trabalho de construção institucional da estabilidade ainda ficou
incompleto”.
Como Chico e Dionísio, André faz parte do
mesmo grupo de economistas da PUC-Rio que soube pensar o Brasil nos anos 80 e
criou o Plano Real. Desde então, ele tem se debruçado no estudo das distorções
que afetam o funcionamento e o crescimento da economia brasileira. Sua
proposta, que tanto frisson tem causado, consta do texto “Eu acuso: uma
proposta para eliminar os juros absurdos”.
Não pressupõe mudança no regime econômico,
mas a adoção de um sistema de redução gradual da taxa Selic ao longo de doze
meses através de uma banda, com piso alinhado com a meta de inflação (hoje em
3%) e com teto que poderia chegar a 7,5%, cabendo ao Banco Central determinar o
nível da Selic dentro daquele intervalo. Em paralelo, e em consonância com a
banda dos juros, o governo definiria metas fiscais e monetária (metas de
inflação) para quatro ou cinco anos. Essas atribuições ficariam a cargo de um
Conselho Fiscal e Monetário.
O plano de André nada fala sobre a política
cambial, apenas indica que eventuais fugas de capital seriam compensadas com a
venda de dólares pelo Banco Central, o que já ocorre. No entanto, em tão grande
empreitada, dificilmente o câmbio escaparia de ficar amarrado. Poderia flutuar
dentro de uma banda cujas taxas, na ponta de cima e de baixo, considerariam um
nível de resguardo das reservas internacionais. Viabilizaria até alguma
apreciação do real no caso do repique inflacionário que André prevê para o
período inicial da queda dos juros.
A proposta é sem dúvida inovadora e, por isso
mesmo, assusta. Tem a dimensão de um Plano Real. Para funcionar, dependeria de
uma grande concertação política entre o Executivo e o Legislativo. As emendas
parlamentares que confiscam parte do Orçamento da União, além de outras
despesas, teriam de ser minimizadas para não comprometerem a meta do resultado
fiscal primário.
Uma condição absolutamente necessária seria o
estreito entrosamento entre os ministérios da Fazenda, do Planejamento e o
Banco Central, com total aval do presidente da República, todos afinados para
colocar a taxa Selic em patamar civilizado. O alinhamento incondicional da
equipe em prol da estabilização foi o grande segredo do sucesso do Real.
Sabe-se, no entanto, que a situação política do país era outra.

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