quinta-feira, 5 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Trump paga o preço de seus próprios erros

Por O Globo

Derrota republicana resulta de fiasco na economia, truculência com imigração e suspeitas de corrupção

As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos costumam funcionar como referendo sobre quem ocupa a Casa Branca. É frequente o partido do presidente perder cadeiras no Legislativo. Mesmo levando isso em conta, porém, a derrota republicana na terça-feira superou todas as previsões. Com vantagem de 13 pontos percentuais nas urnas — maior diferença em 50 anos —, os democratas recuperaram o controle da Câmara e do Senado com maiorias expressivas, derrotaram adversários históricos, elegeram governadores onde não venciam havia décadas e pintaram com a cor azul associada ao partido o mapa de estados improváveis, como Texas, Kansas, Iowa ou Mississippi. A razão para tamanha derrota republicana tem nome e sobrenome: Donald Trump.

Perto da metade de seu segundo mandato, Trump mergulhou num abismo de impopularidade e paga o preço de seus próprios erros. Nem os bilhões gastos na campanha — só Elon Musk despejou US$ 450 milhões —, nem o redesenho conveniente de distritos eleitorais para favorecer candidatos republicanos, nem a mobilização silenciosa do trumpismo foram suficientes para evitar que o Partido Republicano fosse atropelado. Praticamente todas as disputas tidas como acirradas na Câmara ou no Senado foram vencidas por democratas. Em pelo menos sete estados, eles tiraram republicanos da cadeira de senador, incluindo bastiões como Texas e Kansas, onde a vaga era do partido havia quase um século. Na disputa pela Câmara, mesmo distritos considerados solidamente republicanos há décadas amanheceram azuis.

A principal causa da derrota republicana é, sem dúvida, a economia. Persiste a percepção de alta no custo de vida. Três em cinco eleitores se queixam do custo de alimentação, energia, saúde e combustível — e votaram nos democratas por ampla maioria. A inflação nos 12 meses até setembro foi de 3,7%, ante 2,9% antes de Trump. Desde a eclosão da guerra no Oriente Médio, o barril de petróleo disparou. Em um ano, a gasolina subiu 34% e o aquecimento doméstico 74%. O protecionismo também alimenta a inflação. Dos 65% que veem nas tarifas um dano para a economia, 80% votaram nos democratas. Por fim, a percepção da corrupção associada a Trump e a truculência no combate à imigração ilegal pesaram contra os republicanos.

Na campanha, Trump repetia que os eleitores deveriam encarar o pleito como se seu nome estivesse na cédula. Pois o eleitorado obedeceu e deixou claro seu repúdio. Trump é o responsável por frustrar a promessa de uma guerra rápida no Oriente Médio, pela política protecionista, pelo enriquecimento nebuloso de sua família e associados e pela brutalidade contra imigrantes. Não foi por acaso que a oposição reconquistou o apoio de grupos como hispânicos ou jovens. Mesmo brancos sem formação universitária — reserva tradicional de voto trumpista — desta vez preferiram os democratas.

Se até agora Trump adotou postura imperial ante um Congresso submisso e acuado, daqui para a frente isso deverá mudar. É provável que a oposição tente investigar suspeitas de enriquecimento ilícito, acabar com a guerra no Oriente Médio e reverter cortes em programas sociais. Trump continuará com a máquina estatal, o poder de veto e, a exemplo de outros derrotados no meio do mandato, continuará a governar. Mas sua relação com o Legislativo será ainda mais conflituosa.

Aprovação da PEC da Segurança traz enfim protagonismo ao governo federal

Por O Globo

Ministério específico é próximo passo para Planalto coordenar combate ao crime organizado

O Senado soube deixar de lado as divergências políticas para enfim aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. Trata-se de um arcabouço jurídico que dá ao Estado instrumentos mais robustos para enfrentar as organizações criminosas. A PEC foi chancelada por unanimidade nos dois turnos, e os senadores tiveram o bom senso de tratar em proposta separada a redução da maioridade penal, que não fazia parte do texto original e dificultava o consenso.

O maior mérito da PEC é atribuir responsabilidade ao governo federal pela segurança pública. Historicamente, o Palácio do Planalto sempre agiu como espectador, deixando o combate ao crime a cargo dos estados. É certo que a Constituição lhes confere tal missão, mas, sozinhos, eles não têm conseguido combater organizações criminosas que se estendem pelo território nacional e para fora dele.

A PEC corrige essa distorção, aumentando a participação do Planalto e abrindo caminho à ação integrada entre as forças federais, estaduais e municipais, sob coordenação de Brasília. Não se trata de tirar a competência legítima dos estados. Os governos estaduais continuarão atuando no combate à violência, mas, em vez de ações compartimentadas e insuficientes, haverá integração.

A Polícia Federal ganhará novas atribuições, passando a investigar crimes com impacto interestadual ou internacional. A Polícia Rodoviária Federal patrulhará também ferrovias e hidrovias. Haverá penas mais rígidas e restrição de benefícios penais a chefes de facções criminosas; mecanismos para aumentar o financiamento às forças da lei; compartilhamento de bancos de dados; facilitação para confisco de bens ligados a organizações criminosas; e autorização para que municípios criem polícias comunitárias visando ao policiamento ostensivo. O texto ainda grava na Constituição o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), que funcionará nos moldes do SUS.

Cabe agora ao governo criar o Ministério da Segurança Pública, desmembrando-o da Justiça, medida essencial para a implementação da PEC. Ao longo da campanha eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse diversas vezes que a nova pasta estava condicionada à aprovação da PEC. Não há mais motivo para ele adiar essa promessa de 2022 que até hoje não cumpriu.

O Brasil vive situação dramática na segurança pública. Dezenas de facções se espalharam pelo país, sequestrando grandes extensões do território, onde impõem suas leis perversas. Controlam de forma ilegal sinais de TV e internet, gás, transporte e outros serviços. Não se pode achar isso normal.

Não surpreende que a segurança tenha sido um dos principais temas da campanha eleitoral. A PEC dá ao governo a oportunidade de tratá-lo com seriedade. É claro que não resolve todos os problemas, mas permite enfrentar a violência de forma mais coordenada, unindo esforços. E tira do governo federal qualquer pretexto para não assumir seu papel no combate ao crime. Já passou da hora.

Derrota de Trump é vitória da abalada democracia dos EUA

Por Folha de S. Paulo

Ao rejeitar nas urnas o partido do presidente, eleitor reafirma a solidez do sistema de freios e contrapesos

A mesma nação que derrotou Trump havia dado, apenas dois anos atrás, vitória sólida aos republicanos; de todo, o mundo ora respira melhor

Como sugeriam as pesquisas, a eleição de meio de mandato nos Estados Unidos produziu uma derrota para o Partido Republicano de Donald Trump. Elas não anteviram, entretanto, a magnitude da vitória da oposição democrata, que tomou o controle do Senado e da Câmara com grande folga.

Candidatos oposicionistas ao Congresso e a governos locais derrotaram republicanos em estados em que Trump e os seus eram considerados imbatíveis.

No caso mais vistoso, o do Texas, o senador eleito James Talarico tomou a cadeira do oponente para o Partido Democrata pela primeira vez em 40 anos. A campanha do rival, Ken Paxton, havia recebido mais de R$ 1 bilhão do multibilionário Elon Musk, que agora lançará seus foguetes de um estado de oposição.

O eleitor, nesse caso, quebrou a máxima de que o dinheiro compra todas as eleições americanas.

Talarico também exemplifica a diversidade da vitória. Diferentemente da chamada bancada socialista, associada ao prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e tendo o senador eleito em Michigan, Abdul El-Sayed, como estrela, o texano é um moderado.

Isso demonstra que a oposição à Casa Branca tem mais tonalidades do que a esquerda gostaria, e insinua uma disputa sobre o pleito presidencial de 2028.

A petulância imperial do presidente, suas políticas odiosas e ataques institucionais lhe custaram votos, mas é presumível que a maior causa de seu revés seja o custo de vida exacerbado pela guerra contra o Irã.
O conflito saiu de controle e elevou o preço dos combustíveis nos EUA, gerando um efeito cascata na economia já afetada pela guerra tarifária de Trump.

O mandatário tentou remediar com um polêmico acordo de compra de diesel de Vladimir Putin. Não deu certo. Agora resta saber como Trump usará seus dois meses com o Congresso na mão para lidar com o conflito iraniano e, de quebra, tentar acabar com a guerra europeia.

O republicano sentiu o golpe e até aqui não atacou a lisura do pleito —uma de suas marcas registradas, macaqueadas por seguidores como os do clã Bolsonaro. Há uma apuração mais séria em curso no Alasca de irregularidade atribuída aos democratas, mas nada que mude o resultado.

Em termos globais, é tentador associar o triunfo democrata a um refluxo na vaga populista que já varreu a América Latina, com exceções no Brasil e no México, e ameaça governos europeus.

Parece exagero, dadas as particularidades de cada país e as demandas de seus eleitores. Mais certo, no caso americano, é apontar para a virtude de um sistema de freios e contrapesos que vinha sendo erodido por Trump, mas demonstrou notável resiliência.

Nunca é demais lembrar, todavia, da impermanência do humor do eleitorado. A mesma nação que derrotou Trump havia dado, apenas dois anos atrás, vitória sólida aos republicanos. De todo, o mundo ora respira melhor.

Aprovar PEC é só a etapa mais fácil na segurança pública

Por Folha de S. Paulo

Mudança constitucional tem objetivos meritórios; desafio é integrar esforços de União, estados e municípios

Leis não faltam: há a das organizações criminosas, de 2013, a do Susp, de 2018, e a Antifacção, deste ano; o que falta são planos e execução

dê uAprovada por unanimidade pelo Senado na terça-feira (3), a chamada PEC da Segurança Pública surgiu da necessidade do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de apresentar providências para o setor, principal preocupação de 20% dos brasileiros, segundo o Datafolha. A mudança constitucional, no entanto, é apenas a etapa mais fácil.

O texto tem objetivos meritórios. Inscreve na Carta o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), já existente na lei, na expectativa de que assim se leve a cabo a desejada integração de esforços entre União, estados e municípios. Prevê forças-tarefa, integração de sistemas e compartilhamento de informações, protege os fundos do setor contra bloqueios e destina a ele parte do superávit do Fundo Social.

Dá tratamento diferenciado às organizações criminosas de alta periculosidade e permite confiscar bens e responsabilizar as empresas por elas usadas, de fachada ou não. Até aqui, a Constituição só previa com clareza a responsabilidade penal da pessoa jurídica em crimes ambientais.

Ao criar o Sistema de Políticas Penais, a PEC trata o cárcere, berço das maiores facções, como peça estratégica: a inteligência ali produzida deve subsidiar toda a política de segurança. As críticas que apontam riscos a garantias individuais precisam de resposta na regulamentação, com proporcionalidade e controle judicial.

Mas o país conhece o roteiro. Leis não faltam: há a das organizações criminosas, de 2013, a do Susp, de 2018, e a Antifacção, deste ano. O que falta são planos e execução. Polícias, Ministérios Públicos, órgãos de controle e sistema prisional tratam informação como patrimônio corporativo e se fecham em copas, enquanto o crime opera em rede.

Uma pergunta decisiva é quem poderá liderar um plano para a segurança, ainda mais num contexto em que o presidente da República e os governadores dos principais estados são de campos políticos opostos e divergem em propostas para o setor.

Enquanto a esquerda nunca deu maior prioridade a ele, a direita abraçou bandeiras populistas de alto apelo eleitoral e baixa eficácia potencial —como redução da maioridade penal, que felizmente ficou fora da PEC, endurecimento de penas e, nos piores casos, brutalidade policial.

O crime organizado ignora ideologias. A agenda exige pragmatismo, dados, integração, metas verificáveis e continuidade além de mandatos, com independência diante das corporações e consciência da gravidade do problema. As diretrizes estão dadas; resta colocá-las em prática.

Trump mereceu o castigo

Por O Estado de S. Paulo

O presidente dos EUA recebeu condições excepcionais para governar e as arruinou uma por uma, e foi punido nas urnas. Se os republicanos não o esconjurarem, terão um fiasco ainda maior

Poucos presidentes americanos fizeram tanto estrago ao próprio partido em tão pouco tempo quanto Donald Trump. Em 2024, voltou ao poder com votação robusta, o controle do Congresso e uma Suprema Corte conservadora. Dois anos depois, os democratas tomaram a Câmara, o Senado e redutos republicanos. O fracasso é histórico, e seu responsável está na Casa Branca.

As eleições de meio de mandato costumam castigar o incumbente. Mas isso não explica a dimensão do desastre. Trump recebera uma oportunidade rara de consolidar uma maioria conservadora. Poderia trabalhar com o Congresso e aprovar reformas, mas preferiu governar por decretos e alimentar confrontos. Governou como se a vitória lhe concedesse licença para seguir seus impulsos. Os eleitores esperavam resultados.

Aqueles que lhe deram outra oportunidade queriam uma vida menos cara. Trump respondeu com tarifas que elevaram custos para consumidores e produtores. A guerra contra o Irã pressionou os combustíveis e desmoralizou a promessa de evitar aventuras militares. A economia, ao contrário do que dizia o próprio Trump, estava relativamente azeitada. O mal-estar que se voltou contra ele foi agravado por suas políticas.

A indignação com o custo de vida tornou ainda mais escandalosos os negócios da família presidencial e as suspeitas de clientelismo. O presidente que prometeu varrer os privilégios de Washington comprometeu sua autoridade ao cercar-se de interesses privados. Fez campanha em 2024 contra uma “elite” que se locupletava; no governo, ofereceu à população motivos abundantes para suspeitar de que ele se locupleta, e muito.

A política migratória, inicialmente um trunfo, sofreu os impactos da imprudência. A redução das entradas irregulares atendia a uma demanda legítima, mas a truculência que vitimou até cidadãos americanos afastou eleitores favoráveis ao controle da fronteira. No Partido Republicano, Trump premiou lealdade pessoal em prejuízo da competência. Moderados também perderam, mas o massacre nas urnas expõe o presidente por ter aberto todos os flancos de seu partido.

Em 2024, Trump atraíra independentes e hispânicos muito além da base do Maga, o movimento populista que ele lidera. Em 2026, esse apoio se desintegrou e os democratas avançaram sobre enclaves conservadores. O trumpismo teve a chance de provar que sabia governar e construir uma maioria duradoura. Entregou uma Presidência errática, turbulenta, dominada pelos caprichos do chefe – há dúvidas genuínas sobre sua sanidade mental. A reprovação nas urnas foi severa e merecida.

Isso não significa que todas as demandas do Maga tenham perdido legitimidade ou que o movimento esteja condenado a desaparecer. Em outras palavras, o fracasso do governo Trump não equivale à aprovação do programa da esquerda democrata.

A conquista do Partido Democrata foi extraordinária. Ele mostrou capacidade de vencer com candidatos de perfis variados, até em Estados profundamente conservadores. Mas confundir a retaliação ao presidente com carta branca para a ala radical do partido pode arruinar justamente a coalizão que lhes deu a vitória.

A maioria democrata no Congresso poderá investigar abusos e bloquear nomeações, mas Trump conservará o poder de veto e a capacidade de ditar a política externa. As pressões – inclusive dos próprios republicanos em busca de sobrevivência – podem dificultar a guerra contra o Irã e favorecer o pragmatismo. Mas não eliminam o risco de novas aventuras de um demagogo dado a vinganças e à espetacularização política.

Os republicanos enfrentarão duas disputas: quem sucederá a Trump e qual conservadorismo sobreviverá ao fracasso de seu governo. Trocar o líder sem rever as políticas que enojaram os eleitores seria insistir no erro. As demandas por segurança e prosperidade continuam reais, mas merecem respostas melhores do que protecionismo, improvisação e fidelidade pessoal. O futuro dos democratas também dependerá da capacidade de oferecer alternativas concretas que sobrevivam à rejeição a Trump. O veredicto foi dado: Trump recebeu condições excepcionais para governar e as arruinou uma por uma. Se os republicanos insistirem em absolvê-lo, estarão preparando um fracasso ainda maior.

O caso das bets virou bagunça de vez

Por O Estado de S. Paulo

As bets jamais deveriam ter sido liberadas pelo Congresso. Já que foram, não poderiam ter sido proibidas por uma canetada de Lula. E o STF, em vez de julgar o caso, decidiu não decidir

A audiência pública conduzida pelo ministro Luiz Fux no Supremo Tribunal Federal para discutir a medida provisória (MP) que proibiu as bets foi apenas o mais recente de uma série de erros cometidos no imbróglio envolvendo esses sites de apostas.

O primeiro erro foi de origem: as bets jamais deveriam ter sido liberadas pelo Congresso. O brutal endividamento das famílias de jogadores compulsivos e os casos dramáticos de ludopatia, além das recorrentes suspeitas de que algumas bets servem de lavanderia de dinheiro para criminosos, deveriam bastar para validar esse argumento. Não parece ser à toa que a maioria absoluta dos brasileiros é contrária à liberação das bets, como indicam as pesquisas. Ademais, a proibição de jogos de azar está em vigor no Brasil desde 1941.

No entanto, uma vez que o Congresso, com forte apoio governista, aprovou as leis que permitiram a atuação das bets e que regulamentaram seu funcionamento, impondo cobrança de outorga para operar no País e incidência de tributos sobre os prêmios, parece óbvio que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não poderia subitamente proibir essas atividades com base em uma canetada, jogando a segurança jurídica do País no lixo por interesse exclusivamente eleitoreiro.

Era essa a questão simples que deveria ter sido julgada pelo STF. Mas o cacoete legiferante do Supremo sempre fala mais alto, e Fux decidiu fazer uma audiência pública sobre o assunto, como se o debate democrático no Congresso a respeito do tema já não tivesse sido esgotado. Para piorar, Fux permitiu que a tal audiência fosse dominada por entidades interessadas na manutenção das bets, como clubes de futebol e associações setoriais, que não perderam a oportunidade. Um dos dirigentes esportivos chegou ao cúmulo de dizer que o fechamento de empregos no futebol com a perda do patrocínio das bets era mais dramático do que o endividamento das famílias. Também não faltaram os alertas de que a proibição das bets acarretará a proliferação das apostas clandestinas. Ora, o Estado tem instrumentos para combater esse fenômeno, do mesmo modo que atua contra o narcotráfico e contra o contrabando.

Para coroar o absurdo, Fux, evidentemente pressionado pelo clamor das redes sociais e por um abaixo-assinado contrário às bets que, em poucas horas, conseguiu a adesão de milhões de pessoas, antecipou sua posição contrária aos sites de apostas em sua fala de abertura, antes mesmo de a audiência pública começar. Ora, se o ministro já era contrário, não havia necessidade nenhuma de audiência pública para formar sua opinião.

Este jornal desde sempre se posicionou contra a liberação das bets e apoiará qualquer iniciativa legislativa que reverta a irresponsável autorização para o funcionamento desses sites de apostas. No entanto, essa reversão deve ser feita pelo Congresso, na forma de uma nova lei, e não pela vontade imperial de um presidente em sôfrega campanha pela reeleição. E ao Supremo cabe apenas analisar a constitucionalidade das medidas referentes ao caso, e não participar de um debate que deveria ser exclusivamente político.

Recorde-se ainda que medida provisória é instrumento que deveria ser usado apenas em situações excepcionais e cumprir os pressupostos constitucionais de relevância e urgência para ser editada. A única “urgência” a justificar a edição da MP das bets era político-eleitoral. O Congresso, onde as bets já têm até uma bancada para defender seus interesses, poderia muito bem ter devolvido a MP sem analisá-la, mas preferiu deixar a decisão com o STF na expectativa de não ter de votá-la até 4 de março do ano que vem, quando a medida perde a validade.

A estratégia não deu certo. O STF, que nos últimos anos se acostumou a interferir em questões que nada têm a ver com a Constituição, desta vez preferiu tocar a bola de lado – como, aliás, tem feito desde 2016, quando se iniciou a ociosa discussão sobre se a lei que criminaliza jogos de azar foi ou não recepcionada pela Constituição. Ao “decidir não decidir”, como admitiu o próprio Fux, a Corte contribuiu muito para que o caso das bets ganhasse essa proporção.

Dos dois lados do balcão

Por O Estado de S. Paulo

Advogados que atuam como juízes eleitorais mantêm clientes, em claro conflito de interesses

Uma reportagem publicada recentemente pelo Estadão mostrou que advogados que ocupam vagas de juízes no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e nos Tribunais Regionais Eleitorais (TRE) de todo o País estão, digamos assim, dos dois lados do balcão. Esses magistrados eleitorais representam partes – ou seja, clientes – em nada menos do que 3.880 processos em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Superior Tribunal de Justiça (STJ). As regras atuais até autorizam esses profissionais a continuar advogando em determinados ramos da Justiça durante o mandato de juiz eleitoral, desde que não atuem em Direito Eleitoral. Embora não haja nenhuma ilegalidade nisso, trata-se, sem dúvida, de uma flagrante imoralidade.

E é imoral porque a moralidade é um dos princípios da administração pública, elencados ao lado da legalidade, da impessoalidade, da publicidade e da eficiência, no caput do artigo 37 da Constituição federal. Não se tem notícia de que a Justiça Eleitoral tenha recebido algum salvo-conduto para contornar esses mandamentos da Lei Maior. Logo, não parece razoável, à luz do texto constitucional, que um agente revestido da judicatura, mesmo que temporariamente, possa exercer a advocacia, ainda que em ramos distintos do Judiciário. Não dá para vestir a chuteira e ao mesmo tempo apitar a partida de futebol.

Essa confusão entre os papéis da magistratura e da advocacia, claro, abre margem para questionamentos, a começar pelo potencial conflito de interesses. Como afirmou ao Estadão o professor de Direito Constitucional da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) Conrado Hübner Mendes, “por mais séria e honesta que essa pessoa seja, o exercício da advocacia em paralelo ao cargo cria conflitos”. E a esse evidente privilégio – que decerto alguns advogados chamarão de prerrogativa – o professor universitário deu, acertadamente, o nome de drible.

Além de poder atuar como ministro no TSE e defender interesses privados no STF, como é o caso de Floriano de Azevedo Marques Neto, que é advogado do Google, o magistrado oriundo da advocacia, assim que gira a porta da Justiça Eleitoral, pode atender imediatamente a causas eleitorais. Nem mesmo a uma quarentena esses profissionais são submetidos. E, depois de gozarem do convívio com integrantes de altas cortes, servidores e advogados passam a oferecer seus serviços na defesa de causas de partidos e políticos, por honorários nada módicos.

Juiz eleitoral convocado da advocacia não recebe salário. A remuneração é feita por sessão de julgamento da qual participa. Mas não há que reclamar: o retorno no curtíssimo prazo parece bastante promissor, o que compromete a percepção de imparcialidade nos julgamentos ao mesmo tempo que confere aos profissionais da advocacia que vestem temporariamente a toga da Justiça Eleitoral prestígio e acesso. Essas são credenciais conferidas a poucos profissionais e que, por óbvio, encarecem seu passe no mercado da advocacia eleitoral. Quem perde é a institucionalidade, o que, por si só, demanda um sério debate sobre o desenho das cortes eleitorais brasileiras.

BC interrompe ciclo de afrouxamento monetário

Por Valor Econômico

Mesmo com o nível da Selic altamente contracionista, o Copom decidiu pôr fim aos cortes de juros, citando um cenário “desafiador para a política monetária”

Com a piora significativa dos ativos financeiros após a vitória do presidente Lula nas eleições de outubro, e a correspondente deterioração das expectativas de inflação, o Banco Central (BC) perdeu espaço para sua política de “calibração” que pressupunha cortes modestos e cautelosos da taxa de juros. Mesmo com o nível da Selic altamente contracionista, o Copom decidiu pôr fim aos cortes de juros. Diante de um cenário “desafiador para a política monetária”, o comunicado aponta que o objetivo agora é “manter a restrição adequada de forma a assegurar a convergência da inflação à meta”.

Tanto a inflação como a média das medidas subjacentes se aceleraram, mesmo com uma “moderação mais acentuada da atividade econômica” e sinais de “desaquecimento na margem” do mercado de trabalho. Utilizando no cenário de referência as taxas projetadas pelo boletim Focus, o BC viu a inflação ao fim do segundo trimestre de 2028, o horizonte relevante para a política monetária, aumentar de 3,2% para 3,5%, distanciando-se mais da meta para a qual antes convergia. Para 2026 e 2027, as expectativas de inflação para 2026 e 2027 se deterioraram, respectivamente de 5,2% e 3,9% antes para 5 ,6% e 4,7% agora.

Há vários motivos que corroboram sua decisão. As expectativas inflacionárias, que nunca deixaram de estar desancoradas, voltaram a se afastar da meta de inflação de 3%, e os investidores passaram a projetar queda menor da taxa Selic. Manteve-se em 13,5% no ano corrente, mas aumentou em 2027, de 12% para 12,5%, e em 2028, de 10,5% para 11%. Ainda assim, no cenário de referência, a inflação não se aproxima da meta, um sinal de que um aumento dos juros pode ocorrer no futuro.

Não houve boas notícias no front da inflação entre uma e outra reunião do Copom. O Banco Central já esperava um repique no último trimestre do ano, com o IPCA ultrapassando em todos os meses o teto da meta, de 4,5%, no acumulado em 12 meses, como está acontecendo. A inflação de serviços seguiu a um ritmo de 6%, também nessa base de comparação, com elevação mais acentuada nos serviços intensivos em mão de obra. Os preços dos alimentos voltaram a subir, o que ainda pode ser potencializado pelos efeitos de um El Niño forte.

Os preços do petróleo subiram nada menos que 15,7% em outubro. Ainda que gasolina, diesel e etanol estejam sendo subsidiados, com menor influência no IPCA, os custos dos combustíveis pesam na composição dos preços de milhares de bens e serviços. Se não recuarem significativamente no curto prazo, em algum momento os preços domésticos deixarão de ser represados pelo alto custo das subvenções, de R$ 12,1 bilhões ao mês. Seu peso não chega a ser destrutivo porque as receitas com exportações de petróleo batem recordes, assim como os níveis de produção. Mesmo com corte gradual dos incentivos, haverá algum impacto na inflação em 2027.

As cotações das commodities, por seu lado, também apontaram para cima. As de energia aumentaram 31,7% no ano, enquanto o conjunto delas (metais e agrícolas) evoluiu 13,73% em dólar. Grande exportador de petróleo e commodities, as fortes vendas externas contribuem para estabilidade ou desvalorização do dólar em relação ao real, mas em uma semana após a vitória do presidente Lula a cotação atingiu seu maior valor do ano (R$ 5,49) e a maior elevação em sete dias desde o início da grande crise financeira em 2008, de 9%.

O deslizamento significativo do dólar pode ou não ser duradouro. Na sua origem, ele não reflete grandes fluxos negativos da moeda americana. Tem relação com o negacionismo fiscal do governo de Lula, que resiste a cortar despesas depois de ter empilhado uma porção de novas, de cunho eleitoreiro, na reta final da campanha. Se não houver nenhum esforço fiscal que possa mudar a percepção dos investidores, o dólar pode subir de patamar e aumentar sua volatilidade, ao sabor das reviravoltas de um cenário externo muito instável.

A alta do dólar piora o cenário inflacionário em um momento já desfavorável, e instila uma instabilidade que decorre de uma variável sobre a qual o BC não tem nenhum controle, o déficit fiscal. O governo não fez movimentos assertivos nessa área e é possível que não os faça, sabotando suas próprias intenções de fazer a economia crescer. A economia seguiu em desaceleração no terceiro trimestre; o BC reduziu sua projeção para o PIB do ano corrente de 2% para 1,8%, e a de 2027 prevê 1,4%. Analistas privados estão mais pessimistas: 1,76% para a evolução do PIB em 2026 e 1,2% em 2027, ambas com viés de baixa.

O governo também vive um dilema. Ele poderá ter de enfrentar uma economia com o menor crescimento da década, excluído o ano da pandemia, inflação resistente e juros altos, que provocou inadimplência recorde de pessoas físicas e de milhares de empresas. Não é certamente isso que o presidente Lula tem na cabeça para o encerramento de uma carreira política ímpar. Em algum momento terá de encarar corte de gastos, tarefa que pode ser gradual e eficaz, desde que sério e persistente, sem desmanchar os programas sociais que tanto preza.

Nunca é só a economia

Por Correio Braziliense

O país que saiu das urnas falou, sobretudo, sobre algo de que, há tempos, a sociedade estadunidense preferia não falar: os parâmetros da democracia

A vitória estrondosa do Partido Democrata nas eleições legislativas de terça-feira, nos Estados Unidos, está sendo vista, principalmente, como uma derrota do Partido Republicano e do presidente Donald Trump. Dois anos depois de ter assumido o segundo mandato na Casa Branca, o magnata que fez fortuna com prédios, hotéis e cassinos recebeu das urnas a mensagem de que a política de Estado, a governança de um país — tanto mais a maior economia (ainda) do mundo —, não é uma partida do jogo de tabuleiro que, por aqui, ganhou o nome de Banco Imobiliário.

O noticiário, em parte pautado pelas pesquisas, aponta com margem quase nula de erro que a derrota de Trump se alicerçou na economia. Nos dois primeiros anos de seu segundo mandato, o presidente dos EUA abusou da confiança nas próprias palavras-de-ordem e diatribes para pautar a discussão política interna. A voz das urnas é nítida: falhou.

O mapa dos resultados da eleição para o Congresso oferece algumas indicações cristalinas, para aqueles dispostos a olhar. Antes de tudo, a migração, para a oposição democrata, do voto de amplas parcelas da classe trabalhadora, que o jargão político estadunidense cataloga como 'blue collor': o "colarinho azul". Em português claro, o macacão usado no chão de fábrica.

A cobertura a sangue-quente das eleições, porém, corre o risco de colocar para escanteio outras camadas de insatisfação da sociedade estadunidense. Elas se refletem, por exemplo, no sucesso de candidatas e candidatos que desafiaram o padrão machista, etnocrático e racial: vimos eleitas uma governadora negra e uma senadora indígena, ambas pioneiras. Entre outras "primeiras vezes", um senador muçulmano e um governador publicamente assumido como gay.

Já quando conquistou a Casa Branca pela primeira vez, em 2016, Trump acenava justamente a uma camada da sociedade castigada pela desindustrialização. Nos estados de vocação industrial, no Nordeste e Meio-Oeste, uma geração crescida sobre os alicerces da economia em transição amargava a ausência de perspectivas. Muito naturalmente, abraçou como seu o discurso de Trump contra a "invasão" chinesa,  a imigração e a necessidade de combatê-las, sob o lema de "Tornar a América novamente grande".

Arroubos nacionalistas podem, por vezes, ganhar votos. Foi assim nas duas vitórias eleitorais de Trump, em 2016 e 2024. Mas, como as mentiras, têm pernas curtas. E, nesse ponto, entra em pauta um fator que, até aqui, parecia subestimado nas apreciações sobre a "onda azul" — a cor do Partido Democrata — que varreu os EUA nesta terça-feira já classificada como "histórica".

O presidente se desmoralizou não apenas pelo uso dos imigrantes como uma espécie de "Judas para Sábado de Aleluia": vendeu a ilusão de que persegui-los renderia empregos para os 'blue collors'. E não cumpriu a promessa.

O país que saiu das urnas é mais diverso e se afirma como tal. Falou contra a má gestão da economia por um presidente que confunde o país com as empresas à frente das quais fez fortuna. Falou contra uma agenda que ignora a interdependência e o impacto doméstico inevitável das ações externas.

Sobretudo, falou sobre algo de que, há tempos, a sociedade estadunidense preferia não falar: os parâmetros da democracia. Trump abusou — e abusa — do que enxerga como poderes incontestáveis, como os de que dispõe nas próprias empresas.

A segurança pública exige união de esforços

Por O Povo (CE)

Com a aprovação da PEC, o Brasil dá um passo decisivo para que o enfrentamento ao crime organizado tenha mais eficácia

A Proposta de Emenda à Constituição, a PEC da Segurança Pública, foi aprovada pelo Senado em sessão nesta terça-feira. O assunto vem sendo debatido desde abril de 2025, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminhou o texto ao Congresso Nacional.

De princípio, a PEC foi alvo de críticas de setores da oposição, inclusive de governadores, alegando que perderiam o comando das polícias estaduais, apesar de nada na proposta apontar nessa direção.

Outro argumento contra a PEC foi o temor de uma possível influência excessiva do governo federal sobre a política de segurança pública, de responsabilidade dos Estados.

O governo sempre negou que pretendesse intervir na autoridade dos governadores e, de fato, o texto da PEC não autoriza esse tipo de interpretação.

Por isso, pode-se chamar de surpreendente a aprovação unânime da PEC, inclusive com o voto do senador Flávio Bolsonaro (PL). Ele participou remotamente da sessão, diretamente dos Estados Unidos, onde se refugiou após ser derrotado nas eleições presidenciais.

Também deve ter contribuído para a aprovação o fato de o presidente Lula ter sido reeleito presidente da República, o que vai provocar um rearranjo das forças políticas que atuam no Congresso Nacional.

Setores da oposição buscam reaproximação com o governo. O entendimento entre Lula e Davi Alcolumbre (União Brasil) é um exemplo disso, que isolou o PL. O governo conseguiu, inclusive, retirar do texto a redução da maioridade penal, defendida pela oposição.

A aprovação da PEC, sem dúvida nenhuma, é positiva para o país. Sem essa providência, o combate às facções, que se espalham por todo o Brasil, seria impossível. Essas organizações criminosas há muito estendem seus tentáculos para além das divisas estaduais e também das fronteiras nacionais. Enfrentá-las de forma fragmentada, como vem sendo feito, equivale a enxugar gelo.

Aprovada a PEC, o governo precisa enviar um sinal de que pretende trabalhar com o apoio de todos os governadores e prefeitos das mais de cinco mil cidades brasileiras. Para isso, é crucial a nomeação de um ministério de perfil técnico, evitando acusações de "politização" do assunto.

Por outra vista, cabe aos administradores estaduais e municipais, aceitarem o que foi decidido pelo Congresso, oferecendo sua contribuição ativa para o sucesso do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), fortalecendo a integração entre a União e entes federados.

Com a aprovação da PEC, o Brasil dá um passo decisivo para que o enfrentamento ao crime organizado tenha mais eficácia. A situação atual é insustentável, com facções controlando amplos territórios em cidades brasileiras, grandes e pequenas. A situação é muito grave, porém, ainda reversível, mas é preciso agir de forma coordenada e com rapidez.

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