Valor Econômico
Debate rendeu farto material negativo sobre ambos os candidatos, a ser explorado nas redes sociais
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e
o senador Flávio Bolsonaro (PL) transformaram o debate realizado pela Band na
noite deste domingo (18) em um duelo de rejeições. É de se lamentar, diante das
urgências de um país com tantos desafios. Mas alguns dados podem ajudar a
explicar a estratégia.
Segundo a mais recente pesquisa Quaest, Flávio Bolsonaro tem 54% de rejeição, um ponto percentual maior em relação ao petista, com 53%. Na intenção de votos, os dois estão tecnicamente empatados, com o senador numericamente à frente (46% a 44%). Votos em branco, nulos e eleitores que afirmaram não votar em nenhum dos dois somaram 9%, enquanto 1% não soube ou não respondeu. Entre os assuntos que mais preocupam o eleitor, de acordo com o instituto, são citados violência, corrupção, economia, saúde, problemas sociais e educação.
Já de acordo com a sondagem divulgada pelo
Datafolha no dia 15 de outubro, 46% dos eleitores afirmam não votar em Lula de
forma alguma, contra 44% que declaram o mesmo em relação a Flávio. “Mudança” e
“alternância de poder” são os principais motivos declarados por eleitores que
pretendem votar em no segundo turno, enquanto entre os eleitores do presidente
Lula pesam mais a “proteção social” e a avaliação do “desempenho” e do “legado”
do petista.
Flávio começou o debate mais tranquilo do que
Lula, ditando ritmo e pauta. Depois, assumiu o risco de passar a imagem de
arrogante. Mas, confirmando uma preocupação de aliados de Lula, acabou
desestabilizando o presidente: o petista vinha demonstrando receio com o nível
do debate, sobretudo diante da necessidade de um presidente da República evitar
a baixaria.
Pois foi o que ocorreu logo depois das
primeiras questões feitas pelos mediadores.
Perguntado sobre segurança pública, Flávio
reiterou que classificaria facções criminosas e milícias como “grupos
narcoterroristas”, mas não ofereceu detalhes ao eleitor. Na sequência, criticou
o que chamou de políticas de desencarceramento e “saidinhas” supostamente
defendidas pelo adversário, o que voltou a citar mais tarde. É um tema sensível
para grande parte do eleitorado.
O presidente rebateu cobrando apoio para a
aprovação da proposta de emenda constitucional (PEC) da segurança, o que daria
poderes para a União intervir nos Estados. E ao falar da saúde, também numa
escolha de executar uma “campanha do medo”, sugeriu que o opositor poderia
privatizar o Sistema Único de Saúde (SUS).
E dali em diante a qualidade do debate
degringolou, dando início a uma batalha de rejeições. Flávio desviou da
provocação feita por Lula sobre o motivo de ter votado contra o aumento da
licença maternidade quando era deputado estadual, perguntando se o presidente
conhecia Roberta Luchsinger, lobista e amiga de um de seus filhos, investigada
pela Polícia Federal (PF) no âmbito do escândalo que atingiu o Instituto
Nacional do Seguro Social (INSS).
A questão deu então início a uma disputa
sobre a origem das fraudes no INSS e, também, do Banco Master. Lula partiu para
o contra-ataque e insistiu diversas vezes na pergunta sobre o áudio que Flávio
mandou para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, cobrando recursos
para supostamente financiar a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Acabou chamando em certo momento Flávio de “malandro carioca”, dando a
oportunidade para seu adversário fazer campanha negativa contra si junto ao
eleitorado do Rio.
Lula buscou explorar a pouca experiência do
senador e a reprovação da população à gestão da saúde feita pelo governo Jair
Bolsonaro durante a pandemia de covid-19, o que levou Flávio a reconhecer que
seu pai poderia ter apresentado um melhor desempenho nessa área. Já o “mea
culpa” de Lula se deu em relação à economia, diante da insatisfação da
população com o custo de vida. Para tentar neutralizar os ataques sobre
corrupção, desafiou Flávio a abrir os sigilos bancário e telefônico até o dia
do pleito, o que o candidato do PL evitou se comprometer.
O debate rendeu farto material negativo sobre
ambos os candidatos, a ser explorado nas redes sociais pelas campanhas e o que
certamente irá alimentar a guerra jurídica que também marca estas eleições. Mas
frustrou quem imaginou que poderia ver uma discussão mais aprofundada sobre o
futuro do país e os respectivos planos de governo. Lula e Flávio podem acabar
ajudando a elevar a abstenção no domingo (25), diante da crescente desesperança
e da insatisfação do eleitor com a política, em vez de terem conseguido atrair
o voto dos indecisos.

Um comentário:
É bem isto!
Postar um comentário