Folha de S. Paulo
Portal brasiliense nega retaliação por
publicação sobre submissão de textos ao então banqueiro
Assessor que aparece sugerindo 'adiar'
reportagem afirma que a demanda jamais foi atendida pelo jornal
Numa semana cheia de temas em que a cobertura
da Folha merecia
críticas (Kassio e Vorcaro, escala 6x1, enchentes em SP) e com um furo
importante sobre a Meta nas eleições ("Em mensagens internas, Meta admite
que contas de Lula foram prejudicadas por restrições"), o próprio jornal
acabou virando assunto, infelizmente.
Na noite da sexta, a Folha soltou um texto com o
(longo) título
"Metrópoles publica reportagem mentirosa em retaliação a denúncia sobre o
site revelada pelo UOL e reproduzida pela Folha".
A denúncia era "Vorcaro editava textos do site Metrópoles antes de irem ao ar". Depois da publicação dela, na quinta (15), o portal brasiliense anunciou que "Daniel Vorcaro pagou R$ 1 milhão para ‘adiar’ e ‘amenizar’ matéria na Folha de S.Paulo". Apesar da formulação, o milhão não foi pago ao jornal, mas ao assessor Guilherme Barros, encarregado por Daniel Vorcaro de tentar reduzir danos que uma reportagem do jornal poderia lhe causar.
Em mensagem de 7 de agosto de 2024 que
apareceu em investigação da Polícia Federal sobre o ex-banqueiro, Barros
prometia a Vorcaro "adiar a matéria". Repórteres da Folha haviam procurado Vorcaro
para colher o outro lado da reportagem
"Novato na Faria Lima, banqueiro de 40 anos chama a atenção para aquisição
em séries e festa com Alok", que foi ao ar em 30 de agosto daquele ano e
chegou ao papel no dia seguinte.
Pouco depois das primeiras mensagens, o
assessor procurou o jornal e informou a Vorcaro que o diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila, pedia
"uma data para tomar um café contigo". Não é raro que assessorias
entrem em ação quando seus clientes, sem querer, viram assunto de reportagens.
O "café" seria uma visita ao jornal, que recebe gente nesses
encontros quase todos os dias.
O Metrópoles concluiu que o banqueiro
"conseguiu interferir no conteúdo". Mas o jornal afirmou que foi
Barros que pediu visita, "na qual prometeu que o ex-banqueiro forneceria o
outro lado", e que "o pedido foi aceito, a posição do ex-banqueiro
foi registrada, e a reportagem foi publicada dias depois, tão logo a apuração
foi concluída". Segundo registros internos, a investigação corria desde
pelo menos abril de 2024.
Procurado pela ombudsman, Barros confirma que
foi ele que pediu o encontro ao jornal e diz haver distorções no relato do
Metrópoles. "O diretor de Redação pediu apenas os dias para marcar o café,
o que transmiti na minha mensagem, e a informação saiu distorcida no
Metrópoles." Segundo o consultor de comunicação, "a Folha jamais sinalizou que
seguraria a matéria".
O Metrópoles destacou a falta de menção
pública à visita e fez outro texto, com título que afirma que o jornal
"omitiu reunião dos leitores a pedido do banqueiro". Segundo o Manual
da Redação, "o jornal estimula e acolhe visitas de autoridades, políticos,
empresários, representantes de associações civis, além de pessoas destacadas em
suas áreas de atuação. Essa atitude traduz a disposição da Direção de Redação
de manter um diálogo com os diversos atores que influem no noticiário, avaliar
sugestões de pauta e ouvir críticas à cobertura. Até para deixar o visitante à
vontade, o teor da conversa não é publicado. É praxe registrar a visita na
coluna Painel".
A Folha respondeu
que o pedido de não registrar a visita "não é inusual, e o jornal
concordou com a demanda". Questionado sobre a frequência com que o pedido
ocorre, afirma que é em minoria dos casos.
É compreensível que o anfitrião atenda ao
pedido, até porque algumas das visitas nem apareceriam sem essa condição. A
falta de transparência, por outro lado, afeta a confiança do leitor e pode,
como neste caso, resultar em dor de cabeça que deveria ser evitável.
O Metrópoles fez ainda outro título, sobre
venda de anúncios, em que afirma que a Folha "admite
ter recebido R$ 516 mil do Master". A Folha informou que esse foi "o total gasto
pelo Banco Master em publicidade" no jornal, "ou cerca de 2,58% do
total de R$ 20 milhões recebidos em apenas um dos pagamentos feitos por Vorcaro
ao Metrópoles".
A provocação foi respondida:
"Consideramos revelador. Se o valor investido foi R$ 500 mil, R$ 20
milhões ou R$ 120 milhões, isso depende do tamanho do veículo e do poder de
repercussão da marca", afirma Tahan.
A ombudsman solicitou o detalhamento, e o
jornal enviou tabela com registros de três rodadas de anúncios digitais, além
de oito anúncios no impresso em 2021 (9 e 30 de agosto e 15, 17, 20, 23, 27 e
30 de setembro) e um em 23 de julho de 2020.
O Metrópoles nega que suas publicações sejam
retaliação à revelação de que textos do portal eram submetidos a Vorcaro. A CEO
do site, Lilian Tahan, diz que a reportagem "traz fatos muito objetivos,
baseados em registros" e que "o jornal seguiu o roteiro descrito pelo
próprio Daniel Vorcaro em troca de mensagens com seu gestor de crise".
"O próprio jornal considerou inadequada a atitude do Metrópoles de ter
cedido a pedidos razoáveis no contexto da relação entre fonte e veículo, com
alterações irrelevantes em 11 textos que falavam sobre o Banco Master
ou Vorcaro ao longo de um ano. Nesse período, o Metrópoles publicou 1.605
matérias sobre o assunto, com absoluta liberdade. Não fosse assim, o Metrópoles
não teria sido protagonista de uma cobertura que revelou muitos assuntos, tendo
a Folha,
inclusive, citado o Metrópoles em várias dessas reportagens."
A Folha afirma
que "os anseios de Vorcaro não foram atendidos" e que a reportagem do
jornal "apontava questionamentos sobre solvência, operações investigadas, risco
previdenciário, CDBs e relações
com autoridades.
Foi uma das primeiras na grande imprensa a noticiar as preocupações do mercado
com Vorcaro e o banco".
Em conversa com a então namorada, Martha
Graeff, em 30 de agosto de 2024, Vorcaro afirma: "Amanhã sairá a tão
esperada matéria ruim". "Do Globo?" "Folha."
"Será que vai ser tão ruim assim? Você já sabe o que esperar?" Ele
responde: "No. Amanhã veremos o grau". E desabafa: "Essa foi
pior semana da minha vida, qq coisa depois disso é lucro".
No dia seguinte, Graeff volta ao assunto:
"Acabei de ler a matéria, o que achou? Te mandando amor e força".
"Ridícula, toda errada. Mas fraca demais, nada novo", responde
Vorcaro.
(Na noite deste sábado, a Folha aponta que o Metrópoles
"chegou a negociar ao menos R$ 51,9 milhões" com Vorcaro em 2024 e
2025, mas teria recebido R$ 26,9 milhões. A apuração original é do Estadão, cuja reportagem sobre valores
negociados pelo portal brasiliense detonou o primeiro
round da rinha de jornais, em abril deste ano. Uma nova rodada de
mensagens em investigações da PF revelou os tentáculos de Vorcaro em outros
veículos e resultou na demissão
do diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio do Grupo Globo.)
Fim da escala 6x1 ou fim do mundo?
O jornal continuou
equilibrando mal os prós e contras da mudança na
escala trabalhista. No site, deu breve manchete para "fim da
escala 6x1 pode reduzir
lucro de empresas na Bolsa, dizem analistas" ("pode…"), depois
de já ter escolhido destacar apenas o mau humor de setores específicos que
lidam com questões anteriores de adaptação pós-pandêmica.
Como contraponto, havia texto interessante
sobre a experiência em outros países, mas ainda falta tirar o foco da
produtividade do "trabalhador" e tentar entender o índice do
"trabalho", o que depende também do olhar para o investimento do
patronato, para a infraestrutura e para a aparente precariedade do entendimento
de "produtividade" que vige no país. O jornal também caiu na
armadilha de colocar na conta do trabalhador um problema que costuma ser de
todo o sistema produtivo.
O UOL mostrou opiniões mais matizadas de
especialistas sobre como a redução da jornada pode reduzir custos com rotatividade. No fim de semana, a Folha ao menos tinha conseguido
também olhar para esse aspecto.
Também mal representados, os pequenos
empresários são citados com frequência como os maiores prejudicados pelo fim da
6x1, mas pouco aparecem para contar a própria experiência. Exceção era um texto
da BBC Brasil republicado pela Folha.
Já os trabalhadores continuam a ser uma parte
pequena nesse retrato. Depois da votação no Senado, um contraponto às grandes
associações de empresários era um outro texto
da BBC Brasil sobre mães solo. Poderia ter sido um recorte interessante dentro
de um universo mais amplo, mas não havia universo mais amplo nem outros
subgrupos contemplados nas reportagens. Uma pena.
Para explicar seu súbito apoio ao fim da
escala 6x1, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) também recorreu às mães solo. A
explicação, porém, deixava em aberto uma sucessão de outras falhas de políticas
públicas. "Eu sempre citava o exemplo daquela mãe solo que sustenta seu
filho sozinha, que às vezes não tem com quem deixar a criança e, com essa
escala 6x1 engessada, não conseguiu um emprego", disse na entrevista
à Globo.
De todo modo, teria sido interessante
registrar o que parece ser uma leve mudança de tom do bolsonarismo. Na primeira
campanha do Bolsopai, em 2018, as mães solo foram lembradas em termos bem menos
lisonjeiros. O vice Hamilton Mourão chamou lares "só com mãe e avó" de "fábrica de
elementos desajustados" que "tendem a ingressar nessas
narcoquadrilhas".
Agora, Mourão, filiado ao Republicanos-RS, ganhou destaque no jornal como "o único senador a votar contra o fim da escala 6x1" e refletiu sobre a surpresa com seu isolamento. Coincidência ou não, foi o mesmo que declarou que o temor pela democracia com a vitória de Jair Bolsonaro em 2018 era "choro de perdedores".

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