segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Sem bala de prata, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Flávio se saiu melhor do que Lula na forma, mas não o suficiente para reduzir rejeição dos que pretende atrair

Um bom desempenho em um debate na TV não costuma ser a bala de prata para vencer uma eleição presidencial. Não foi diferente no debate Band/Estadão de ontem.

No balanço geral, Flávio se saiu melhor do que Lula na forma, mas não o suficiente para reduzir a rejeição do eleitorado que pretende conquistar. Passou sua mensagem com mais clareza, usou melhor o jogo de câmeras (por exemplo, ao se posicionar atrás de Lula, com expressão de desaprovação, enquanto o presidente falava) e administrou melhor o tempo à sua disposição. Nos embates diretos com tema livre entre os dois, porém, o senador foi tão evasivo nos questionamentos de Lula que passava a impressão de que qualquer assunto lhe era demasiadamente espinhoso – até aqueles que não deveriam ser. Qual era a dificuldade de explicar por que votou assim ou assado em determinada matéria no Congresso Nacional?

Lula, por sua vez, fez uma salada de assuntos, de tal maneira que, a determinada altura, deu a sensação de estar apenas listando temas combinados no treinamento com os assessores, mas sem conseguir dar contexto para que os espectadores entendessem onde ele queria chegar. Mencionou vários escândalos que afetam diretamente Flávio, mas, diante do silêncio ou das evasivas do adversário, perdia a oportunidade de explicar para os eleitores o que estava por trás daquelas acusações.

Flávio usou e abusou das frases prontas para lacração: “O seu nariz está crescendo, Lula, cuidado” e “Você que está em casa, em quem acha que o ladrão da sua bolsa ou do seu celular vai votar?” foram algumas delas. Lula, por sua vez, usou e abusou da lembrança da desgraça que foi o governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Este chegou a manifestar incômodo com essa insistência, como se quisesse se desvencilhar da imagem do ex-presidente.

O pior momento do debate foi quando Lula e Flávio entraram em uma espiral fútil de acusações mútuas de corrupção. Nenhum dos dois esclareceu nada. A melhor defesa era o ataque. Mais importante do que negar uma suspeita sobre si próprio era mostrar que o outro era ainda mais enrolado com pessoas e atividades impróprias. Em uma campanha em que a lacração foi mais valorizada pelos candidatos do que a discussão de propostas factíveis para os problemas do País, as atuações de Lula e Flávio nesse debate acabaram se provando apenas uma extensão dessa estratégia.

 

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