O Estado de S. Paulo
Flávio se saiu melhor do que Lula na forma, mas não o suficiente para reduzir rejeição dos que pretende atrair
Um bom desempenho em um debate na TV não
costuma ser a bala de prata para vencer uma eleição presidencial. Não foi
diferente no debate Band/Estadão de ontem.
No balanço geral, Flávio se saiu melhor do que Lula na forma, mas não o suficiente para reduzir a rejeição do eleitorado que pretende conquistar. Passou sua mensagem com mais clareza, usou melhor o jogo de câmeras (por exemplo, ao se posicionar atrás de Lula, com expressão de desaprovação, enquanto o presidente falava) e administrou melhor o tempo à sua disposição. Nos embates diretos com tema livre entre os dois, porém, o senador foi tão evasivo nos questionamentos de Lula que passava a impressão de que qualquer assunto lhe era demasiadamente espinhoso – até aqueles que não deveriam ser. Qual era a dificuldade de explicar por que votou assim ou assado em determinada matéria no Congresso Nacional?
Lula, por sua vez, fez uma salada de
assuntos, de tal maneira que, a determinada altura, deu a sensação de estar
apenas listando temas combinados no treinamento com os assessores, mas sem
conseguir dar contexto para que os espectadores entendessem onde ele queria
chegar. Mencionou vários escândalos que afetam diretamente Flávio, mas, diante
do silêncio ou das evasivas do adversário, perdia a oportunidade de explicar
para os eleitores o que estava por trás daquelas acusações.
Flávio usou e abusou das frases prontas para
lacração: “O seu nariz está crescendo, Lula, cuidado” e “Você que está em casa,
em quem acha que o ladrão da sua bolsa ou do seu celular vai votar?” foram
algumas delas. Lula, por sua vez, usou e abusou da lembrança da desgraça que
foi o governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Este chegou a manifestar
incômodo com essa insistência, como se quisesse se desvencilhar da imagem do
ex-presidente.
O pior momento do debate foi quando Lula e
Flávio entraram em uma espiral fútil de acusações mútuas de corrupção. Nenhum
dos dois esclareceu nada. A melhor defesa era o ataque. Mais importante do que
negar uma suspeita sobre si próprio era mostrar que o outro era ainda mais
enrolado com pessoas e atividades impróprias. Em uma campanha em que a lacração
foi mais valorizada pelos candidatos do que a discussão de propostas factíveis
para os problemas do País, as atuações de Lula e Flávio nesse debate acabaram
se provando apenas uma extensão dessa estratégia.

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