quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Etiqueta do debate, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Os candidatos deveriam se chamar de 'presidente Fulano' e 'senador Beltrano'

Mas um deles insiste em exercer sua nova especialidade: ladrão, desta vez, de cenas

Nunca fui religioso, escapei raspando do serviço militar e usei uniforme escolar por pouquíssimos anos. Mas acredito que certas funções devam obedecer a uma certa liturgia para serem exercidas. Como se submeter a uma cirurgia se os membros da equipe médica estiverem fantasiados de mestre-sala e porta-bandeira? Ou confiar num chef de cozinha vestido de escafandrista? A simples liturgia não basta —às vezes, é necessário obedecer também à etiqueta.

A ideia de que a etiqueta é uma pequena ética vem desde Aristóteles, mas sua formulação verbal só aconteceu em 1922, pela socialite e escritora americana Emily Post: "A etiqueta deve incluir não só boas maneiras, mas uma certa ética", ela disse. Significa que um professor perderá o respeito se os alunos puderem atirar-lhe giz —como acontece nas nossas escolas. E que autoridade terá o papa se for permitido a um fiel levantar-lhe a batina na rua? Da mesma forma, a maneira como as pessoas se tratam entre si em situações formais deveria obedecer a ritos de respeito, para não descermos ao nível de uma discussão de botequim.

No primeiro debate na TV entre os candidatos à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL) dirigiu-se desde o começo ao presidente Lula (PT) como "Lula", obrigando-o a rebaixar-se e chamá-lo de "Flávio". A liturgia exigiria que se tratassem por "presidente" e "senador", embora o título de senador não pareça adequado a alguém que, em sete anos de Senado, só teve dois projetos aprovados e, entre os que não emplacou, o que autorizava a venda de remédios sem receita em bancas de jornais e camelôs.

O tratamento alternativo de "candidato Fulano" e "candidato Beltrano" também não parece próprio ao que tentou fazer do palco um picadeiro, colocando-se atrás do outro e fazendo caras e trejeitos para a câmera.

Mas isso é fácil de resolver. Basta que o candidato desrespeitado se conserve no púlpito, de costas para a parede. Seu adversário terá de dançar na frente dele se quiser exercer sua nova especialidade: ladrão, desta vez, de cenas.

 

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