O Globo
Justiça Eleitoral está de calças curtas
diante das suspeitas de intervenção no processo eleitoral por plataformas
estrangeiras
A disputa eleitoral de 2026 já tem um vilão, e ele não é a urna eletrônica. Os algoritmos das big techs, em especial da Meta, pintaram e bordaram até agora, a ponto de se transformarem no principal problema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a três dias da eleição. A Justiça Eleitoral está de calças curtas diante das suspeitas de intervenção no processo eleitoral brasileiro por plataformas estrangeiras.
A atuação enviesada das big techs em eleição
não é novidade. Em diferentes processos de escolha, há denúncias de
interferência na vontade do eleitor: do Brexit em 2016 à eleição da Romênia em 2024.
Ontem, a Justiça do Novo México impôs uma multa de US$ 25 bilhões à Meta por
vender dados de 87 milhões de usuários do Facebook à Cambridge Analytica,
consultoria que os usou a favor de Trump, via o ideólogo da extrema direita
Steve Bannon.
Por aqui, a preocupação que norteou as
últimas eleições foi o combate às fake news produzidas pelas campanhas ou pelo
eleitor, de carne e osso, e o poder de alcance delas, via algoritmos e disparos
em massa. Agora, suspeita-se de atuação deliberada e autônoma desses
algoritmos, desenhados pelas big techs, em favor de determinado projeto
político.
A campanha de Lula
alega que contas de anúncios do candidato foram desabilitadas; que as buscas
nas redes por “Exército do Lula” sugeriram também “Tropa de Flávio”, mas o
inverso não; que o engajamento das contas dos candidatos foi desigual, entre
outros pontos. A IA da Meta de fato se recusou a produzir imagens de Lula, mas
fez as de Flávio quando provocada.
O desequilíbrio levou o PT a
ingressar com uma ação no TSE. O relator convocou uma reunião com a Meta e a
equipe de Flávio
Bolsonaro, que também alega ser prejudicada pelas redes, com manipulação de
algoritmos de busca. A Meta se comprometeu a usar moderação humana, lamentou os
erros técnicos e citou panes globais. Paolo Carozza, copresidente do Conselho
de Supervisão da Meta, órgão independente da empresa, esteve no Brasil ontem e
falou que a empresa deve ter “atuação apartidária” e dar transparência aos seus
algoritmos, desenvolvidos de maneira altamente personalizada e sigilosa. A
União Europeia tem a Lei de Serviços Digitais, que responsabiliza as
plataformas pela transparência algorítmica e pela proibição de técnicas
manipuladoras, os dark patterns dos algoritmos (padrões obscuros que incitam o
usuário a fazer algo). O Brasil chegou a ensaiar o PL das Redes Sociais para
lidar com esses temas, mas não conseguiu avançar.
O algoritmo da Meta responde a seu dono, Mark
Zuckerberg, que atua contra a regulamentação das redes sociais e defende, ao
lado de Trump, uma espécie de autorregulação do desenvolvimento da inteligência
artificial — na contramão do que quer o governo brasileiro.
A Meta é uma das maiores fornecedoras da
eleição de 2026. Até agora, recebeu quase R$ 300 milhões das campanhas. Desde
2024, Google e
YouTube não vendem mais impulsionamento político nas eleições, alegando
dificuldades de cumprir as regras do TSE.
Estamos na antessala da eleição. O tempo para
entender os algoritmos e cobrar transparência ficou para trás. O presidente do
TSE, Nunes Marques, está às voltas com denúncias de festinhas bancadas por
Vorcaro e não parece ter disposição para lidar com o tema.
O estrago, no entanto, já está feito. O
derrotado da eleição de 2026 terá um culpado para chamar de seu.

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