quinta-feira, 22 de outubro de 2026

TSE come poeira dos algoritmos, por Julia Duailibi

O Globo

Justiça Eleitoral está de calças curtas diante das suspeitas de intervenção no processo eleitoral por plataformas estrangeiras

A disputa eleitoral de 2026 já tem um vilão, e ele não é a urna eletrônica. Os algoritmos das big techs, em especial da Meta, pintaram e bordaram até agora, a ponto de se transformarem no principal problema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a três dias da eleição. A Justiça Eleitoral está de calças curtas diante das suspeitas de intervenção no processo eleitoral brasileiro por plataformas estrangeiras.

A atuação enviesada das big techs em eleição não é novidade. Em diferentes processos de escolha, há denúncias de interferência na vontade do eleitor: do Brexit em 2016 à eleição da Romênia em 2024. Ontem, a Justiça do Novo México impôs uma multa de US$ 25 bilhões à Meta por vender dados de 87 milhões de usuários do Facebook à Cambridge Analytica, consultoria que os usou a favor de Trump, via o ideólogo da extrema direita Steve Bannon.

Por aqui, a preocupação que norteou as últimas eleições foi o combate às fake news produzidas pelas campanhas ou pelo eleitor, de carne e osso, e o poder de alcance delas, via algoritmos e disparos em massa. Agora, suspeita-se de atuação deliberada e autônoma desses algoritmos, desenhados pelas big techs, em favor de determinado projeto político.

A campanha de Lula alega que contas de anúncios do candidato foram desabilitadas; que as buscas nas redes por “Exército do Lula” sugeriram também “Tropa de Flávio”, mas o inverso não; que o engajamento das contas dos candidatos foi desigual, entre outros pontos. A IA da Meta de fato se recusou a produzir imagens de Lula, mas fez as de Flávio quando provocada.

O desequilíbrio levou o PT a ingressar com uma ação no TSE. O relator convocou uma reunião com a Meta e a equipe de Flávio Bolsonaro, que também alega ser prejudicada pelas redes, com manipulação de algoritmos de busca. A Meta se comprometeu a usar moderação humana, lamentou os erros técnicos e citou panes globais. Paolo Carozza, copresidente do Conselho de Supervisão da Meta, órgão independente da empresa, esteve no Brasil ontem e falou que a empresa deve ter “atuação apartidária” e dar transparência aos seus algoritmos, desenvolvidos de maneira altamente personalizada e sigilosa. A União Europeia tem a Lei de Serviços Digitais, que responsabiliza as plataformas pela transparência algorítmica e pela proibição de técnicas manipuladoras, os dark patterns dos algoritmos (padrões obscuros que incitam o usuário a fazer algo). O Brasil chegou a ensaiar o PL das Redes Sociais para lidar com esses temas, mas não conseguiu avançar.

O algoritmo da Meta responde a seu dono, Mark Zuckerberg, que atua contra a regulamentação das redes sociais e defende, ao lado de Trump, uma espécie de autorregulação do desenvolvimento da inteligência artificial — na contramão do que quer o governo brasileiro.

A Meta é uma das maiores fornecedoras da eleição de 2026. Até agora, recebeu quase R$ 300 milhões das campanhas. Desde 2024, Google e YouTube não vendem mais impulsionamento político nas eleições, alegando dificuldades de cumprir as regras do TSE.

Estamos na antessala da eleição. O tempo para entender os algoritmos e cobrar transparência ficou para trás. O presidente do TSE, Nunes Marques, está às voltas com denúncias de festinhas bancadas por Vorcaro e não parece ter disposição para lidar com o tema.

O estrago, no entanto, já está feito. O derrotado da eleição de 2026 terá um culpado para chamar de seu.

 

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