Valor Econômico
Maturidade democrática pressupõe independência e liberdade; o receio das organizações de perder essas prerrogativas já é, por si só, um sinal grave
Organizações sociais acompanham com
preocupação o resultado da eleição presidencial de domingo. Em reuniões,
encontros informais e conversas por telefone ou aplicativos de mensagem,
dirigentes e conselheiros de instituições ligadas ao investimento social
privado e à filantropia estratégica têm manifestado temor de que a possível
combinação de governo e Congresso mais à direita reduza o espaço de atuação da
sociedade civil.
A preocupação não se limita à possibilidade de restrições diretas ao funcionamento das organizações. O receio é de uma mudança mais ampla no ambiente institucional: novas exigências legais, maior pressão política, questionamentos sobre programas e até mesmo uma reação defensiva de quem financia atividades sociais.
Mais de um dirigente relatou ao Valor, em caráter reservado,
que interlocutores ligados à Organização dos Estados Americanos (OEA) já
demonstraram preocupação com a possibilidade de que uma nova configuração do
Executivo e do Legislativo dificulte iniciativas de apoio social. O Brasil é
visto na OEA como referência de investimento social privado, segmento que
movimenta R$ 5,8 bilhões por ano no país, de acordo com o Censo Gife
(2024-2025).
A percepção de risco já começa a produzir um
efeito concreto. Nas conversas entre dirigentes e conselheiros, alguns avaliam
reduzir a exposição pública de seus programas, sobretudo os relacionados a
temas que podem se tornar mais controversos em um ambiente político
conservador. A ideia não é necessariamente interromper projetos, mas diminuir a
visibilidade e evitar confrontos que possam trazer custos institucionais. Mas
recuar de algumas ações também não está de todo descartado.
A possibilidade de autocontenção preocupa.
Uma organização pode continuar funcionando regularmente, mas passar a evitar
determinadas agendas, reduzir campanhas públicas ou adotar postura mais
cautelosa diante de decisões e sinalizações vindas de Brasília.
Comentário de Giovanni Harvey,
diretor-executivo do Fundo Baobá, voltado à promoção da equidade racial e ao
enfrentamento do racismo, ilustra o quadro atual: “Percebo, com base em
diálogos com observadores e interlocutores qualificados, dentro e fora do
Brasil, o receio de que nós possamos vir a enfrentar restrições ao exercício da
cidadania, à liberdade de associação, à liberdade de expressão, à preservação
dos fundamentos da democracia”.
Segundo Harvey, a preocupação envolve também
mecanismos institucionais que sustentam a democracia, como freios e
contrapesos, alternância de poder e prerrogativas dos diferentes poderes, além
do retrocesso em vários segmentos. “Há uma forte preocupação com a manutenção e
o aperfeiçoamento das políticas públicas de promoção da equidade racial no
Brasil”, exemplifica.
O risco financeiro direto é apenas parte da
equação. O Baobá e outras organizações não financiam seus programas com
recursos públicos. Isso reduz a possibilidade de intervenção direta para
estrangular financeiramente as instituições. Mas ainda resta uma parcela de
risco. Parte significativa do investimento social privado vem de empresas,
fundações e famílias que podem se tornar mais cautelosas em um ambiente
político hostil. Um doador não precisa de pressão contrária do governo para
reduzir sua contribuição. A percepção de que determinado projeto tem potencial
de conflito político ou exposição indesejada bastaria para barrar um
investimento.
Essa situação traz risco de uma espécie de
retração voluntária: as organizações continuariam existindo, mas fariam menos e
se exporiam menos.
A discussão também põe a nu uma contradição
no debate político. Setores da direita defendem a livre iniciativa e a
capacidade de indivíduos e empresas de produzir soluções para problemas que o
Estado não consegue resolver. A ideia do empreendedorismo como solução é parte
disso. Uma parcela considerável das organizações sociais atua justamente nessa
fronteira, criando condições para que pessoas vulneráveis tenham acesso a
capacitação, crédito, redes de proteção e instrumentos que aumentem suas
chances de inserção econômica.
Pessoas de baixa renda que tentam iniciar uma
atividade por conta própria frequentemente encaram dificuldades que não se
resumem à falta de capital. Carecem de conhecimento de gestão, planejamento
financeiro e acesso a redes de apoio para ter chances de êxito. Dados do IBGE e
do Sebrae mostram que, principalmente por esses motivos, entre 17% (pequenas) e
22% (microempresas) dos negócios abertos no Brasil fecham até o quinto ano de
operação.
Nesse campo, organizações sociais procuram
reduzir justamente os obstáculos que tornam a livre iniciativa mais arriscada
para quem tem menos recursos. Oferecem capacitação, orientação e mecanismos de
proteção que podem aumentar a possibilidade de sobrevivência dos
empreendimentos.
A questão, portanto, não é apenas ideológica.
O eventual estreitamento do espaço de atuação dessas organizações poderia
atingir também programas e propostas que procuram ampliar a participação
econômica e social de grupos vulneráveis - um objetivo que, em princípio, não
deveria ser incompatível com a defesa da iniciativa privada.
A maturidade democrática pressupõe
independência e liberdade de ação da sociedade civil. O receio das organizações
de perder essas prerrogativas já é, por si só, um sinal grave.

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