Folha de S. Paulo
Com o petista reeleito, afastar o ministro do
STF significa dar ao presidente mais uma indicação ao Supremo
Sem fatos novos, Moraes tem grandes chances
de sobreviver
A partir de fevereiro, o
PL terá 29 senadores, a maior bancada de um partido no início de uma
legislatura desde 1988. Na campanha, o partido e seus candidatos ao Senado
defenderam o impeachment de ministros do STF. Alexandre
de Moraes era o alvo preferencial.
O resultado do último domingo mudou a conta. Com Lula reeleito, cada ministro afastado abre mais uma vaga para o presidente preencher. E se há algo que o PL rejeita tanto quanto Moraes, talvez mais, é ver Lula escolher outro nome para o Supremo.
Hoje, 4 dos 10 ministros foram indicados por
ele. Até a próxima eleição, Lula poderá preencher a vaga de Barroso, a de Luiz
Fux, que se aposenta em 2028, e a de Cármen Lúcia, em 2029. Como a cadeira de
Cármen já é dele, o placar sobe de quatro para seis. Com a de Moraes, sete.
Para condenar um ministro, são necessários
votos de 54 dos 81 senadores. O PL precisaria convencer outros 25 senadores a
entregar uma cadeira a Lula. Sem fatos novos, Moraes tem grandes chances de
sobreviver.
Ainda assim, há dois cenários em que o PL
poderia levar adiante o impeachment.
O primeiro é um acordo com o centrão para
afastar Moraes e condicionar a aprovação do substituto a um nome negociado com
Lula. A Constituição reserva a indicação ao presidente, mas os senadores podem
vetar nomes até que apareça um do seu agrado.
Em abril, rejeitaram Jorge Messias, algo que
não acontecia desde o início da República. Enquanto Davi
Alcolumbre, próximo de Moraes, presidir o Senado, esse arranjo é pouco
provável. Se Arthur
Lira, eleito senador por Alagoas, eventualmente chegar ao comando da Casa,
um acordo desse tipo passa a ser mais viável.
O segundo é afastar Moraes e bloquear
qualquer substituto, como na Argentina. A Corte Suprema do país vizinho deveria
ter cinco juízes e funciona com três. Em 2025 Milei indicou dois nomes, o
Senado rejeitou ambos e, desde então, não foram feitas novas indicações.
Com três juízes, toda decisão exige
unanimidade. Se houver divergência, é preciso convocar magistrados de outros
tribunais. O mecanismo pode atrasar decisões, inclusive sobre os decretos e as
reformas de Milei.
Por aqui, o primeiro passo nessa direção já foi
dado. A cadeira de Barroso está vazia desde outubro de 2025. Se o Senado
bloquear novas indicações de Lula, o STF pode chegar à próxima eleição
presidencial com três cadeiras vazias, quatro se Moraes também for afastado.
Com a aposentadoria de Gilmar Mendes em
dezembro de 2030, em um cenário extremo, o próximo presidente poderá encontrar
cinco vagas para preencher.
Com oito ministros, o tribunal fica no limite
do quórum exigido para julgar matéria constitucional. Com sete, não o alcança.
Nos dois cenários, a pergunta decisiva no
Senado será quem escolhe o próximo ministro. A conduta de Moraes fica em
segundo plano.
No 7 de Setembro, Flávio
Bolsonaro disse que votar em Lula seria votar em Alexandre de Moraes.
Derrubar o ministro era a promessa. Passada a eleição, escolher quem vem depois
virou o problema.
Esta colunista aguarda o protocolo da PEC da
reforma eleitoral. Pelo que se especula até aqui, parece haver muita aposta nas
emendas e pouca atenção à atuação estratégica dos maiores partidos.

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