Folha de S. Paulo
Estratégia para despistar fuga expõe
armadilhas do jornalismo declaratório e, mais ainda, do complicado declaratório
em off
Vaivém sobre itinerário e trapalhadas de
carta golpista de Flávio Bolsonaro repetem receituário do ideólogo de Donald
Trump
"O jornalista precisa investigar. Ficar ouvindo fontes sem apurar é burrice. Flávio Bolsonaro não fugiu sozinho, a imprensa ajudou." A mensagem de um leitor resume outras manifestações críticas ao que teria sido o papel dos veículos de comunicação na estratégia montada para que o senador do PL saísse do Brasil, após a Polícia Federal pedir e o ministro Alexandre de Moraes permitir a apreensão do passaporte do candidato derrotado no segundo turno da eleição presidencial.
Se alguém não seguiu os fatos, aí vai: tudo
começou à 1h da madrugada da terça (27), quando o site argentino Infobae afirmou que Flávio partiria para os EUA em um jato particular
que decolaria às 2h de Porto Iguaçu. A partir daí, a fuga e algumas histórias
sobre a fuga se desenrolaram paralelamente.
Logo nas primeiras horas do "Big Brother
Flávio", o coordenador da campanha presidencial, o senador Rogério Marinho
(PL-RN), negou que o candidato tivesse deixado o país. Um piloto afirmou
à Folha que Flávio estaria na lista de passageiros do avião das 2h. Aliados do
senador declararam que ele havia fugido do Brasil para a Flórida e a PF estaria
fazendo rastreamento nos pontos de fronteira "para verificar se a
informação é verdadeira".
Cerca de duas horas depois, outro texto do
jornal cravava que Flávio "já" estaria "a caminho" dos EUA
e que o nome na lista da madrugada era "um despiste".
Já à 1h02 da quarta (28), a Folha noticiou
que Flávio "estava escondido na Argentina e acaba de decolar para os EUA,
diz canal argentino", atribuindo a informação ao canal de TV C5N. Às 2h06,
porém, publicou
que ele já estaria desembarcando nos EUA, "diz jornal". A informação
era do Financial Times.
Quando o senador pousou
em Miami às 10h23, com fotos e vídeos, viu-se que o canal argentino estava
certo. O avião era o Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, o mesmo que o Infobae
havia revelado que o levaria.
O vaivém não ficou bom para os jornais
brasileiros e nem para alguns dos veículos gringos. A estratégia do
"despiste" mostra também as armadilhas do jornalismo declaratório e,
mais ainda, desse declaratório em "off": os "aliados", o
"entorno" e outros coletivos usados para passar recados via imprensa.
Alguns se insurgiram contra as fontes, mas a
responsabilidade pelas publicações sempre é dos jornalistas, é claro. O Globo
conta que Eduardo Bolsonaro capitaneou mentiras e desinformação para ajudar na
fuga do irmão e que teria sido o ex-policial militar André Porciuncula a fonte
que disse a jornalistas que o senador já estava, antes de decolar, em voo para
Miami.
O ex-PM, aliás, apareceu em reportagem da
Folha sobre o que seria o Ministério da Cultura de Mário Frias. Vale lembrar
que vários leitores criticaram a frequência e a estridência dos textos
pós-primeiro turno que especulavam sobre a composição do "eventual governo
Flávio".
A confusão não se resumia às fontes anônimas
ou quase anônimas. Estava também no contexto e no próprio sigilo da decisão
sobre o passaporte, revelada pelo candidato derrotado no vídeo da segunda-feira
(26) em que afirmou que não sairia do país.
Se a patacoada de Flávio Bolsonaro está longe
de ser esclarecida, permanecem também nebulosas questões envolvendo PF e STF,
como "PF apontou risco
risco concreto de Flávio Bolsonaro fugir do país ao pedir apreensão de
passaporte a Moraes" e "restrições sobre passaportes não fazem de
Flávio Bolsonaro foragido,
diz PF".
Saiu barata também a reação de
correligionários de Flávio. O governador Tarcísio de Freitas, que estava
acompanhando a apuração com o candidato do PL, foi um dos integrantes da cúpula
da campanha que se disseram surpresos
com a fuga. Em entrevista ao Estado, porém, Tarcísio afirmou que aconselhou Flávio a não sair do Brasil, embora continuasse
negando que soubesse do plano.
Mobilizando o noticiário com seu itinerário,
Flávio Bolsonaro se manteve no centro das atenções ao longo de toda a semana da
vitória de Lula (PT).
Quando seu desembarque poderia ter arrefecido a conversa, veio a carta que
combinava a forma trapalhona com o fundo de teor golpista.
O sucesso midiático dos erros,
recuos
e justificativas para eles ("ChatGPT")
mostram como a estratégia "flood the zone" de Steve Bannon continua
valendo para a carta e a fuga. O ideólogo trumpista que agora insiste
na vitória de Flávio e na narrativa de "fraude" foi quem orientou,
ainda durante o primeiro mandato de Trump, abandonar o Partido Democrata como
adversário: "O partido de oposição é a mídia. E a mídia, porque é burra e
preguiçosa, só pode focar em uma coisa por vez. Tudo que precisamos fazer é
inundar o terreno. Todo dia nós jogamos três coisas. Eles vão morder uma, e
conseguiremos fazer as nossas coisas. Bang, bang, bang".

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