Correio Braziliense
Se perder maioria no Congresso para os
democratas, o republicano terá que vestir a carapuça de pato manco
Talvez nunca antes na história moderna dos Estados Unidos tenha existido um presidente tão controverso, tão polêmico e tão ambíguo como Donald J. Trump. Sem papas na língua e capaz de emitir sinais difusos — e bastante confusos —, Trump talvez somente tenha como rival o próprio ego. No momento em que escrevo este artigo, o presidente que se sente no centro do universo sofre uma ameaça quase palpável de corrosão do próprio poder.
Se perder maioria no Congresso para os
democratas, o republicano terá que vestir a carapuça de pato manco. Governará
praticamente sem poder de fato, refém da Câmara dos Representantes e do Senado
até 2028. Se mantiver ao menos o domínio sobre uma das Casas, ainda terá tarefa
hercúlea pela frente: reverter a baixa popularidade e enfrentar uma possível
recessão da economia norte-americana, provocada, em grande parte, por sua
guerra no Irã e sua inflação sobre o preço dos combustíveis.
Se não tivesse passado parte de seu governo
tentando ser o xerife do mundo e impondo tarifas inclusive a países aliados...
Se não tivesse encarnado o papel de boquirroto, ao ameaçar capturar a
Groenlândia, invadir o México, fazer bravata contra o Canadá, derrubar o regime
de Cuba e mudar até o nome do Golfo do México para Golfo da América...
Se não tivesse se aventurado em uma guerra de
incertezas contra o Irã, arrastado por Israel, um aliado histórico... Se não
tivesse anunciado com estrondo ao mundo um plano de paz para a Faixa de Gaza
que ficou só no papel... Se tivesse cuidado mais da própria economia, talvez
Donald Trump vislumbrasse perspectivas melhores em relação à eleição
legislativa. Trump é o produto de si mesmo. Um executivo que interpreta o ato
de governar como a gestão de uma empresa ou um conglomerado. Um político que
não se preocupa com o que fala e com o que faz, por entender que seu poder é
ilimitado.
Se, ao ler este artigo, você souber que os
republicanos perderam o controle do Congresso, não se surpreenda. A Trump o que
é de Trump: na vida comum, assim como na política, cada um tem o quinhão que
merece. Trump terá colhido o que plantou. Se o titular da Casa Branca conseguir
manter pelo menos o Senado ou a Câmara dos Representantes, terá contado com uma
boa dose de sorte.
Em qualquer um dos cenários, os dois próximos
anos serão complicados para o republicano. Os democratas capitalizarão os
desastres políticos do presidente na tentativa de fazer o sucessor de Trump. Se
quiser promover um republicano para o próximo mandato da Presidência — e talvez
este seja o secretário de Estado, Marco Rubio —, Trump precisará mostrar
resultados na segunda metade de seu governo. E voltar a própria atenção para a
política interna. Ao tomar posse, em 20 de janeiro de 2025, ele prometeu uma
"era de ouro" para os Estados Unidos, mas perdeu-se no proselitismo
político e na vaidade. Ficou apenas na promessa.

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