quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Cavalo de pau nos juros, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Há uma combinação nefasta de fatores que deve pressionar os índices de preços ao consumidor

Os analistas estão praticamente divididos na aposta entre um corte adicional de 0,25 ponto porcentual e a manutenção da taxa Selic em 13,75%, como desfecho da decisão do Copom de hoje, mas desde a última reunião, em setembro, o cenário mudou tão drasticamente em termos do balanço de riscos para a inflação que o Banco Central precisaria agir com urgência e dar um cavalo de pau na política monetária, elevando os juros agora.

Há uma combinação nefasta de fatores que deve pressionar os índices de preços ao consumidor para além do que já está embutido nas projeções dos analistas para 2027 e 2028 – o horizonte relevante da política monetária. Conforme a última pesquisa Focus, a mediana das previsões do mercado para a inflação em 2026 passou para 5,22%, mas deu um salto de 4,34% para 4,76%, em 2027, e de 3,75% para 4% em 2028. A má notícia é que essas projeções devem subir mais.

O Banco Itaú, por exemplo, revisou sua projeção para o IPCA em 2027 de 4,6% para 6,1%, muito acima do teto da meta de inflação (4,5%). O sentimento de analistas é de que o consenso das estimativas do IPCA em 2027 pode migrar para 6% ou mais. Esse é um nível perigoso, diante do grau de indexação da economia, reforçando a inércia inflacionária.

Entre os fatores que ameaçam acelerar a inflação para esse patamar tão indesejável, um deles está em curso: a alta nos preços agrícolas em razão de condições climáticas adversas causadas pelo El Niño. Outros começam a entrar na conta, como o aumento no custo de mão de obra (em cerca de 30%) decorrente da aprovação do fim da escala 6x1 e a entrada em vigor da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), cuja alíquota foi calculada pelo TCU em 11,3%, acima do esperado pelas empresas (ao redor de 9%). Também desde a última reunião do Copom, o dólar saltou de R$ 5,15 para próximo de R$ 5,50. Sem falar na alta de 15% na cotação do petróleo Brent em outubro. A defasagem nos preços dos combustíveis aumentou. E há ainda a volta de tributos sobre a gasolina e o diesel.

Por outro lado, a economia vem desacelerando em ritmo mais rápido, o que endossaria um corte da Selic. O Copom pode até justificar isso com a aposta de um ajuste fiscal no quarto mandato do presidente Lula, o que reduziria o prêmio de risco sobre os ativos, aliviando o dólar. Mas isso ainda não passa de “wishful thinking”. E o BC não pode simplesmente trabalhar com quimeras. Há um caminhão de riscos e incertezas. Se o Copom não voltar a elevar os juros de imediato, as expectativas inflacionárias podem sair do seu controle.

 

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