O Estado de S. Paulo
Há uma combinação nefasta de fatores que deve pressionar os índices de preços ao consumidor
Os analistas estão praticamente divididos na aposta entre um corte adicional de 0,25 ponto porcentual e a manutenção da taxa Selic em 13,75%, como desfecho da decisão do Copom de hoje, mas desde a última reunião, em setembro, o cenário mudou tão drasticamente em termos do balanço de riscos para a inflação que o Banco Central precisaria agir com urgência e dar um cavalo de pau na política monetária, elevando os juros agora.
Há uma combinação nefasta de fatores que deve
pressionar os índices de preços ao consumidor para além do que já está embutido
nas projeções dos analistas para 2027 e 2028 – o horizonte relevante da
política monetária. Conforme a última pesquisa Focus, a mediana das previsões
do mercado para a inflação em 2026 passou para 5,22%, mas deu um salto de 4,34%
para 4,76%, em 2027, e de 3,75% para 4% em 2028. A má notícia é que essas projeções
devem subir mais.
O Banco Itaú, por exemplo, revisou sua
projeção para o IPCA em 2027 de 4,6% para 6,1%, muito acima do teto da meta de
inflação (4,5%). O sentimento de analistas é de que o consenso das estimativas
do IPCA em 2027 pode migrar para 6% ou mais. Esse é um nível perigoso, diante
do grau de indexação da economia, reforçando a inércia inflacionária.
Entre os fatores que ameaçam acelerar a
inflação para esse patamar tão indesejável, um deles está em curso: a alta nos
preços agrícolas em razão de condições climáticas adversas causadas pelo El
Niño. Outros começam a entrar na conta, como o aumento no custo de mão de obra
(em cerca de 30%) decorrente da aprovação do fim da escala 6x1 e a entrada em
vigor da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), cuja alíquota foi calculada
pelo TCU em 11,3%, acima do esperado pelas empresas (ao redor de 9%). Também
desde a última reunião do Copom, o dólar saltou de R$ 5,15 para próximo de R$
5,50. Sem falar na alta de 15% na cotação do petróleo Brent em outubro. A
defasagem nos preços dos combustíveis aumentou. E há ainda a volta de tributos
sobre a gasolina e o diesel.
Por outro lado, a economia vem desacelerando
em ritmo mais rápido, o que endossaria um corte da Selic. O Copom pode até
justificar isso com a aposta de um ajuste fiscal no quarto mandato do
presidente Lula, o que reduziria o prêmio de risco sobre os ativos, aliviando o
dólar. Mas isso ainda não passa de “wishful thinking”. E o BC não pode
simplesmente trabalhar com quimeras. Há um caminhão de riscos e incertezas. Se
o Copom não voltar a elevar os juros de imediato, as expectativas
inflacionárias podem sair do seu controle.

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